O pulmão das baleias.

março, 2008

Algumas espécies de animais são particularmente interessantes no que diz respeito a demonstrar características da seleção natural. Dentre os muitos exemplos, as baleias são as que mais me chamam a atenção. Não pra menos, é curioso imaginar um animal que vive na água mas precisa voltar à superfície para respirar. Por que a evolução simplesmente não se encarregou de dar brânquias para as baleias?

Esta é uma ótima pergunta e que ilustra bem a característica não guiada da seleção natural. Como eu já havia dito em textos anteriores, a evolução não tem um fim, um sentido, um objetivo para cumprir. Trata-se de um processo lento e gradual, que seleciona características que aumentam o sucesso reprodutivo e a expectativa de vida dos seres em determinados ambientes. Existe um grande obstáculo para esse processo, ele só pode trabalhar em estruturas que já existem. Em outros termos, o processo de evolução não “constrói” nenhuma estrutura nova, a não ser por modificação das estruturas que já existem.

Uma característica muito marcante deste processo é que ele passa a ser irreversível. Quando uma estrutura é modificada, as chances de ela voltar a ser o que era originalmente são praticamente inexistentes. Essa particularidade nos fornece uma dica sobre o pulmão da baleia. Acredita-se que os ancestrais dos tetrápodes sejam peixes pulmonados, animais que possuem sua origem em peixes de respiração por brânquias. Imaginemos então que, em algum momento da história da vida na Terra, algumas espécies de peixes sofreram um processo evolutivo que culminou na formação de um pulmão primitivo em detrimento das brânquias.

Ora, as baleias são mamíferos e estão classificadas como tetrápodes. Se assim o é, tiveram como descendente mais distante peixes que já não possuíam brânquias. Portanto, os passos evolutivos que resultaram nas baleias não possuíam mais a opção de trabalhar com brânquias, a solução mais simples era modificar as estruturas atuais para permitirem longos períodos de submersão. O problema foi resolvido com modificações no metabolismo e ampliação do tamanho do pulmão.

Uma outra característica das baleias que demonstra esse processo é a maneira como elas nadam. Em geral, os peixes possuem uma barbatana caudal, que impulsiona o animal realizando movimentos horizontais. Nas baleias o movimento da cauda é feito verticalmente, uma modificação diretamente ligada ao modo de vida terrestre de seus ancestrais quadrúpedes.

Como já havia observado o mestre Stephan Jay Gould, a evolução não se prova na formação de órgãos perfeitos e formas bem trabalhadas. Sua verdadeira beleza se encontra na maneira improvisada de solucionar grandes problemas.