Por favor, não odeiem a escola!

novembro, 2017

É comum eu só escrever alguma coisa aqui no Polegar Opositor quando pesquiso muito o assunto, ou estou estudando o assunto por motivos de “a vida pediu isso por alguma razão”, ou por que aquilo faz parte do meu dia a dia e eu já sei o suficiente para ficar seguro de que estou escrevendo meio que de cabeça sem incorrer em muita bobagem.

Esse texto não é isso. Esse texto é um desabafo, quase um vômito de algo que me incomoda profundamente. Por isso, a emoção está no comando das coisas e eu não sei se o que vou dizer aqui tem qualquer relação com a realidade ou se é só uma viajem louca da minha cabeça. Acho que as duas coisas têm algum valor e por isso o farei assim mesmo.

O caso é que sendo professor, e vivendo a realidade e as dificuldades da escola todos os dias, me irrita muito quando vejo pessoas atacando o modelo escolar com argumentos que em geral são absolutamente rasos e que quase nunca resvalam no que de fato é a escola.

Talvez eu esteja super complicando o meu incomodo. O que eu talvez esteja tentando dizer é que as pessoas são injustas com as escolas e com seus professores. É comum ouvirmos aquele argumento que diz “crianças são super curiosas e questionadoras até entrarem na escola, algo muito errado acontece ali que mata isso dentro da criança”. Esse argumento pode ser resumido como “a escola mata a criatividade”, ou “a escola força todo mundo dentro da mesma caixinha”, ou ainda “a escola joga todo mundo dentro do mesmo moedor de carne”. “Hey, professores, deixem as crianças em paz”.

Há outros argumentos e opiniões “embasadas”. “A escola é chata”, “para que vou aprender isso mesmo”, “se fosse tudo em realidade virtual seria muito melhor, esse modelo medieval é ultrapassado”. Eu mesmo fiz argumentos desse tipo antes de ser professor. Quem nunca?

E esse tipo de fala vem de todos os lugares. Outro dia estava ouvindo um podcast famoso sobre videogames antigos e um dos participantes começou a falar sobre isso, sobre a inutilidade da escola, sobre os professores que eram chatos e sei lá mais o que. Talvez essa tenha sido a experiência dessa pessoa, talvez ele não tenha estudado em uma boa escola ou qualquer coisa do tipo, mas passamos do argumento feito ali para a generalização completa (não tive uma boa experiência escolar, portanto todas as escolas são ruins) em segundos.

Esse tipo de argumento poderia ser descartado como simplório e limitado, claro. Afinal, veio de uma pessoa cuja relação coma escola foi unicamente a de aluno. Mas na soma total de todos os comentários, feitos com a mesma profundidade de conhecimento, uma espécie de narrativa vai se construindo. A de que a escola é um purgatório em vida, que vc tem que ir apenas para ter seus sonhos esmagados, sua criatividade aprisionada, seu livre arbítrio limitado…

E dada a narrativa, começam as propostas de solução. E aí vem de tudo. De novo, eu mesmo fui desses de dar solução para problemas que eu não entendia direito. As intenções são sempre boas, claro, mas no final das contas as propostas, normalmente, ignoram o escopo do problema. Apesar disso cumprem o papel de dar a impressão de que resolver os problemas com a escola e com o ensino é só questão de boa vontade, e que os envolvidos, principalmente os professores, simplesmente não estão dispostos a mudar seus hábitos e se “atualizar”.

Para mim essa é a pior parte. Saber que pessoas atacam professores pelo simples fato de serem professores. É sempre a conversa de que somos ultrapassados, acomodados, incompetentes. Eu entendo que há esse tipo de profissional, mas na minha experiência de frequentar um grande número das escolas da minha cidade, e de conhecer tanto a rede pública quanto a rede privada, posso afirmar sem muito medo de errar que a maioria de nós está comprometido com a educação.

E eu sei que estou reclamando a um tempão aqui e em posição de absoluta defesa, mas quero deixar claro que reconheço que há na escola problemas gravíssimos e que precisam ser repensados. Eu concordo que existe um certo engessamento do processo como um todo, que talvez ele não estimule a criatividade (embora isso talvez esteja de acordo com a função social da escola, que busca dar o mínimo necessário ao aluno para que ele construa a partir dali e não fique dando voltas em problemas já resolvidos) e aí por diante.

Apenas acho que esse são problemas menores diante da completa desvalorização do ensino na sociedade. Pode parecer que estou afirmando uma barbaridade, mas a mim é evidente o quanto a sociedade parece não se importar com o ensino de fato.

É claro que se você perguntar para alguém se a pessoa acha o ensino importante, as respostas serão sempre positivas. Sempre teremos manifestações bonitas de saudosos alunos nos dias dos professores e coisas do tipo, mas quando se olha o discurso com a prática diária, há uma evidente desconexão entre as duas.

E aqui podemos ir de coisas bem gerais, como por exemplo o crescente movimento anticientífico que tenta questionar coisas amplamente sabidas e estudadas como o funcionamento das vacinas ou a forma da Terra e o aquecimento Global, até ao mais específico, como pais que não tem tempo para seus filhos e depositam na escola a responsabilidade pelo que lhes é cabido, a despeito de seus filhos estarem aprendendo menos por conta disso.

E há ainda toda a camada de desvalorização sútil do conhecimento. Como a dificuldade que o país tem em absorver seus mestres e doutores no mercado de trabalho, os constantes cortes orçamentários para pesquisa científica, os salários absurdos para pessoas com baixo nível escolar, mas com alto grau de controle de uma bola de futebol, assim como o desempoderamento da classe dos professores, os salários baixos, a falta de suporte da população e de políticos, o ataque sistemático de religiões ao ensino científico, escola sem partido e coisas assim.

É coisa demais gente, o peso é muito grande. É fácil dizer que se importa com o ensino, é fácil dizer que a escola é ultrapassada, o que é difícil é aceitar que na real, nossa sociedade liga cada vez menos para a escola e para o papel dela. Na verdade, me arrisco a dizer que a sociedade deseja cada vez mais que a escola se dissolva por completo e entre para a longa lista de instituições humanas que não existem mais.

A inversão de valores é tão absoluta que, já não é de hoje, é a escola que precisa justificar aos alunos o por que de ele ter que aprender geometria ou evolução, termodinâmica ou filosofia. Como se fosse preciso justificar o conhecimento, como se o conhecimento em si não tivesse valor algum a não ser que ele te ensine a realizar algo que traga retorno imediato… Como trocar um chuveiro.

Nos tornamos tão viciados em gratificação imediata que não aceitamos mais aprender algo novo que não deixe clara sua utilidade. “Serei engenheiro, não preciso saber de células”, um cientista morre cada vez que alguém faz esse tipo de afirmação.

Então todos os dias um professor tem que ensinar deriva continental, enquanto justifica a importância da matéria, equilibra as carências das crianças e corrige a educação que nem veio de casa para, no final do dia, escutar que aquela matéria é inútil, que ele não dá conta de atender uma sala com 40 alunos de realidades variadas e que não é papel dele doutrinar crianças, apenas ensinar aquilo que é necessário para passar no Enem e, claro, que não seja contra a crença individual de cada uma das 40 famílias atendidas.

Vocês percebem? Não há como ganhar.

Agora muito mais leve, mas ainda bastante triste eu deixo aqui um convite. Que tal discutirmos o que realmente queremos da escola do século XXI? Por que no fundo é essa a crise que enfrentamos. A escola perdeu sua identidade. Mas a escola não é um prédio ou uma pessoa, não é um livro ou um método. A escola é a sociedade, e o que ela quer que a escola seja.

Então vamos decidir de uma vez o que queremos da escola, e lidar com as consequências.