Prova científica*

outubro, 2007

O termo “prova científica” é um chavão. O motivo parece óbvio, a busca incessante da ciência pela verdade e pelo entendimento do mundo físico é feito, como podemos ver em textos anteriores deste blog, através do método científico. O método trabalha com a dinâmica entre as hipóteses, teorias e leis, estabelecendo as “regras” que definem quando uma hipótese pode passar para o status de teoria e quando uma teoria deve ser descartada ou modificada. É de se esperar, portanto, que em algum momento do progresso científico as teorias atinjam níveis preditivos seguros suficientes a ponto de podermos afirmar categoricamente que algo esta “provado cientificamente”.

Vemos com certa frequência autoridades científicas utilizarem o termo “provado cientificamente” para validar um dado científico citado durante uma entrevista, uma palestra ou mesmo em textos de divulgação. O termo possui uma utilização tão ampla que acabou incorporado ao senso comum. Mas será que o termo é corretamente empregado? Será que de fato a ciência tem a capacidade de provar algo categoricamente? Para responder a esta questão vamos relembrar rapidamente algumas características do método.

Como vimos anteriormente uma hipótese é um conjunto de idéias que tenta explicar um fenômeno da natureza. Quando esse conjunto de idéias pode ser averiguado de alguma maneira ganha o status de teoria científica. Neste ponto temos diferenças epistemológicas entre os muitos filósofos da ciência. Apenas para citar dois, Karl Popper alegava que a teoria teria caráter passageiro, passando por testes rigorosos de falseabilidade. Quando falseada a teoria deixava de ter validade e era substituída por outra. Thomas Kuhn por outro lado dizia que a teoria quando falseada não precisava necessariamente ser abandonada, podia apenas ser corrigida ou reformulada de modo a se enquadrar na realidade observada.

No entanto, tanto Popper quanto Kuhn concordavam em um ponto. Apesar de todo o rigor científico, simplesmente não há meios de saber se uma teoria se aproxima mais da realidade do que outra. Podemos apenas dizer que uma teoria tem maior poder preditivo ou que explica melhor determinado fenômeno. É por este motivo que toda teoria tem caráter passageiro, já que eventualmente existem fatores que não temos conhecimento e que portanto a teoria não engloba.

Olhando por este ponto, fica fácil dizer que o termo “prova científica” é utilizado erroneamente. Quando dizemos que algo esta provado, estamos automaticamente considerando que sabemos tudo sobre esse “algo” e que não existem fatores desconhecidos ou não considerados. Em termos de ciência seria o mesmo que dizer que temos o conhecimento completo e absoluto de um fenômeno.

Devemos portanto ficar atentos ao uso do termo “prova científica” e jamais considerá-lo de forma literal. Na melhor das hipóteses podemos apenas dizer que seu emprego se refere a teorias científicas muito bem estabelecidas e que, a despeito de seu caráter provisório, explicam muito bem determinado fenômeno, na medida do conhecimento que temos quando do emprego do termo.

Em ciência a certeza não existe e a busca pela verdade é um processo contínuo e perpétuo.

*Texto revisado e ampliado da versão original publicada no blog Apropriações.