Sarau Científico

outubro, 2008

Cena: À direita da porta de entrada, o balcão se fazendo de bar: cachaça de minas, cachaça com canela, vodca, uma garrafa de 51, três garrafas de vinho tinto, frutas vermelhas (morango, framboesa e amora) e limão fatiado para as caipirinhas do tipo faça você mesmo. Compõem a cena uma mesa de salgados, outra de doces do tipo self-service. Na entrada, tocheiros dando as boas vindas, indicam o caminho para o palco: microfone, banquinho, espaço para intervenções. Abre-se o sarau: “queridos amigos, hoje a noite é de muita alegria, pois daremos início ao Primeiro Sarau Científico Polegar Opositor. Como todos sabem, o tema da vez é Evolução. Mas aceitamos vieses, dançarinos de hula-hula e ditadores potenciais do terceiro mundo. Separem seus textos, seus apetrechos que a partir de agora declaro aberto o 1º Sarau Científico Polegar Opositor”.

O texto acima é fictício, mas poderia ter, de fato, acontecido. Lanço aqui a idéia, pois pensar em divulgação científica requer extrapolar os ambientes que são consensualmente comuns à ciência. Tirá-la das salas de aula e dos laboratórios e torná-la mais acessível. Resgatar aquela criança fascinada pelos tubos de ensaios e seus brinquedos alquímicos. Afinal, está lá a Esfinge para nos lembrar. De onde viemos, como funciona o mundo e os feijões que brotam no algodão são questões que facilmente podem ser respondidas num sarau científico. Duvida?

Se fizermos um retrocesso sobre a infância, de quando a rua de cima ficava de rixa com a rua de baixo e as crianças do bairro se organizavam em clubinhos, faziam seus próprios jornaiszinhos e apostavam corrida em carrinhos de rolimã, fica claro que a gente, desde cedo, se organiza em torno de eventos sociais. Então por que nesta gama de possibilidades de se criar e recriar a infância, não apostar que um destes encontros seja um sarau científico? Seria simples. Cada criança ou jovem desenvolveria um pequeno texto de própria autoria ou escolheria algo de agrado, feito por um outro alguém. Haveriam aqueles que levariam uma bússola caseira, outros tentariam por o ovo em pé. Alguns ainda teriam um formigueiro caseiro (pobre de suas mães) enquanto outros se contentariam em usar a espingardinha de chumbo para acertar baratas saída do bueiro da esquina que, divididas em partes, poderiam ser um belo exemplo de dissecação de animais. E como na feira de ciências, o sarau faz da ciência popular e divertida. Uma festa.

Lembro de quando eu era jovem – ou pelo menos mais jovem do que agora – ainda no primeiro ano da faculdade. Bioquímica. Uma prova ferrada no 1º bimestre e uma prova em forma de teatro no 2º bimestre. Meu grupo encenou o Ciclo de Krebs. Perfeito para um sarau científico que, como se pode notar, idade não tem. Só ciência e criatividade.