Um bom exemplo de um péssimo exemplo.

abril, 2008

Acompanho as atividades do portal de notícias da Globo, o G1, desde que o site veio ao ar. Na época, e nem faz tanto tempo assim, o empreendimento era imenso. Um site de notícias de grande amplitude, conectado diretamente à base jornalística da Globo sendo alimentado por uma quantidade considerável de profissionais. Além disso, o site ainda contava com blogs e colunas de personalidades famosas. A área de ciência e saúde em particular me agradava muito, a seção era muito bem cuidada e tinha colaboração de gente de peso, como Mayana Zatz e Marcos Pontes. Mas como é hábito, tudo o que é bom dura pouco.

É notável a queda brutal de qualidade da seção de ciência e saúde. Por vezes fico envergonhado de ler determinadas “notícias” que aparecem por lá. A escolha dos títulos é a pior possível, e o rigor com o conteúdo apresentado é lastimável. Eu mesmo já usei este blog pra corrigir mais de um texto publicado no G1. Os blogs estão pobremente alimentados, mesmo o Visões da Vida, blog que sempre elogiei justamente por seu conteúdo muito bem trabalhado pelo repórter Reinaldo José Lopes, está pra lá de ruim. O que será que aconteceu com o Reinaldo? As vezes prefiro acreditar que não é o mesmo Reinaldo que colabora com a Scientific American e com a Pesquisa Fapesp. Talvez um construto bizarro, posto no automático e que acaba assinando com o nome do Reinaldo. Pior pra ele.

Um bom exemplo do mal exemplo de jornalismo sério que se tornou o G1, ao menos no que diz respeito à seção de ciência, é a matéria feita para o 1º de abril, que tenta compilar as 5 maiores mentiras da história da ciência. Embora não há dúvidas sobre a farsa do clone humano coreano, todos os outros casos são no mínimo dignos de uma análise mais apurada. Mesmo o caso do “Homem de Piltdown”, embora confirmadamente tenha se tratado de uma fraude, carrega em si um significado mais profundo. Qualquer um que conhece o caso com mais detalhes sabe que uma série de cientistas, mesmo à época, sugeriu que os ossos encontrados não eram de um ancestral humano. Nunca foi consenso que o homem de piltdown exibia qualquer comprovação sobre a evolução humana. A controvérsia só foi resolvida com a confirmação da fraude, até hoje sem um responsável.

O maior absurdo no entanto fica por conta da tentativa de fazer Claudio Ptomoleu, um dos maiores cientistas da história, se passar por falsário. Não se questiona os erros fundamentais no modelo ptolomeico de universo, mas é preciso considerar que o desenvolvimento científico ainda engatinhava. Certamente Ptolomeu não agiu de má fé, agiu na tentativa legítima de compreender algo que até hoje nos é razoavelmente incompreensível. Não questiono que Ptolomeu tenha modificado seus dados observacionais ao invés da teoria, no entanto, esse movimento é reconhecidamente usado até hoje. Quando um cientista detecta uma anomalia nos dados, dificilmente questiona a teoria. Antes, questiona o processo observacional, por vezes questiona a precisão dos instrumentos e, só com o surgimento cumulativo de anomalias passa a considerar que talvez a teoria tenha problemas. É um conhecimento básico de filosofia da ciência, completamente ignorado pelo G1.

É extremamente triste ver um portal de tamanho alcance cometer sucessivas falhas no que diz respeito à ciência. Igualmente triste é não ver ninguém reclamando ou chamando a atenção sobre o fato. Fica ao menos o alerta sobre a irresponsabilidade do G1 em fazer um bom trabalhando, prestando um desserviço à ciência e sua divulgação.

Melhor seria se a seção de ciência e saúde do G1 fosse trocada por uma de humor, ao menos as piadas não correriam o risco de serem levadas a sério.


Para saber mais.

Ptolomeu
Astronomia
Filosofia da Ciência
Jornalismo