Um pouco de fé na ciência.

março, 2008

Com determinada freqüência, algumas pessoas costumam dizer que acreditar na ciência é um ato de fé. Um ato de fé talvez comparado ao ato de acreditar em um Deus, ou um santo. O curioso é constatar que este pode ser um pensamento comum mesmo aos cientistas. Não tão curioso é o uso do termo fé de maneira pejorativa, muitas vezes até por pessoas religiosas, de modo a diminuir a importância da ciência.

Segundo o dicionário, o termo fé poderia ser utilizado em ciência em pelo menos duas acepções. Como em confiança absoluta em alguém ou algo, ou como comprovação de um fato. Embora o próprio método científico evite “confianças absolutas”, com efeito é possível atestar esse tipo de fé para alguns casos em particular. Por exemplo, no que diz respeito à gravidade, quem seria capaz de questionar que ao soltar uma pedra no ar ela vai, irremediavelmente, cair ao chão? Ainda tomando a gravidade como base, é possível estabelecer a velocidade de queda dessa pedra, bem como sua trajetória. A mecânica clássica é um campo científico capaz de prever esse tipo de informação com uma precisão tão assustadora, que podemos confiar em seus resultados de maneira absoluta.

De maneira análoga, e partindo dos mesmos princípios, muitos são os casos aonde é possível comprovar um fato. Embora neste sentido de fé as ressalvas sejam maiores, alguns fenômenos são tão bem conhecidos e estudados que, de certa forma, é possível dizer que foram comprovados. As ressalvas ficam por conta da impossibilidade de se dizer que sabemos tudo a respeito de um objeto de estudo.

O que me intriga de verdade é o uso da palavra fé, em sua forma pejorativa. É estranho observar que muitas vezes, essa fé pejorativa se sustenta no conceito de “fé cega”. Ou seja, de uma fé que se sustenta pela força da crença do fiel, ainda que não possa ser respaldada por qualquer tipo de observação ou teste. Com efeito, esse tipo de fé é melhor observado em pessoas religiosas, e neste contexto, eu nem atribuiria uma forma pejorativa para essa fé.

No entanto, essa fé religiosa é usada com certa regularidade para atingir o empreendimento científico. Neste contexto pode-se dizer que ela passa a ser pejorativa, já que deprecia a qualidade investigativa da ciência. É importante lembrar que a ciência não é feita de dogmas imutáveis, produzidos de maneira arbitrária e sem qualquer rigor. O que não falta à ciência é rigor, seja pelo racionalismo de Descartes, seja pelo empirismo de Locke, Berkeley e Hume.

Diminuir a ciência a uma atividade guiada pela crença irresponsável, ou que não necessita de bases sólidas, é ignorar tudo o que foi construído desde o renascimento.