A Promessa
No final do século 18, a maior parte dos cientistas responsáveis pela grande revolução científica européia, como Descartes, Galileu e Newton já haviam morrido, mas seu legado permanecia, e a Ciência ocidental continuava passando por um período muito fértil. No entanto, ela ainda era vista como apenas mais uma forma de conhecer a natureza, e não como a melhor forma de fazê-lo. A Ciência ainda não tinha o poder de legitimar o que era verdade e o que não era, já que o misticismo e o conhecimento religioso ainda tinham um grande poder explicativo na sociedade. Nesse contexto surgiu uma corrente filosófica de afirmação do conhecimento científico como sendo o único conhecimento autêntico e, mais do que isso, do homem (e não Deus) como sendo o produtor desse conhecimento. Ou seja, o positivismo é uma corrente filosófica que nos redime do pecado original de Adão e Eva e, mais do que isso, prega que temos mesmo que nos banquetear na Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal.
August Comte (1798-1857), o “pai do positivismo”, escreve a obra que inaugura essa corrente filosófica, o Curso de Filosofia Positiva. Nesse livro, Comte formula sua Lei dos Três Estados, que parte do princípio de que a humanidade está evoluindo, avançando de uma época bárbara e mística para outra civilizada e esclarecida. Comte explica que essa evolução intelectual humana tem três fases muito bem definidas: a fase teológica, em que todos os fatos são explicados pelo sobrenatural (Deus); a fase mística ou metafísica, em que o homem começa a pesquisar a realidade, mas ainda com um viés sobrenatural muito forte (criam-se categorias alegóricas como “a Natureza”, “o Povo”, etc.); e a fase científica ou positiva, que seria o apogeu do intelecto humano. Os outros dois estados do conhecimento são apenas degraus pelos quais a humanidade teve que passar para atingir o estado mais elevado, em que o homem explica os fenômenos naturais por leis gerais que ele mesmo descobre a partir do estudo da natureza.
Dessa forma, para os positivistas o progresso da humanidade estaria intimamente relacionado com o progresso da Ciência. O conhecimento positivo (a Ciência) é o auge da evolução intelectual humana, então devemos investir nesse tipo de conhecimento e abandonar de vez a teologia e a metafísica, pois somente o conhecimento positivo poderá tirar a humanidade da ignorância e da superstição e colocá-la no caminho do progresso.
A Aposta
Por algum motivo, Comte e seus seguidores foram ouvidos. Foram muito ouvidos. O positivismo ganhou muita força. O lema positivista está estampado em nossa bandeira nacional, que diz “Ordem e Progresso”. A humanidade apostou boa parte de suas fichas na idéia de que para progredir seria necessário investir na Ciência.
Alguns séculos depois, aqui estamos. Agora temos satélites monitorando nosso planeta e chegamos à Lua. Temos super computadores com internet e carros ultra velozes. Seqüenciamos o DNA dos organismos e trocamos genes entre eles. Temos geladeira, microondas, ar condicionado, chuveiro quente, telefone celular, GPS, viajamos de avião e freqüentamos cinemas 3D. Fizemos descobertas médicas que aumentaram bastante a nossa expectativa de vida. Certamente temos uma vida muito mais confortável do que Comte e seus contemporâneos tiveram, e isso é fruto do investimento que a humanidade fez na Ciência.
Progresso?
Mas, será que podemos dizer que a humanidade progrediu? Não podemos esquecer que enquanto alguns fazem fila para comprar o iPad no primeiro dia, mais da metade da população da Terra não tem saneamento básico. Andamos nas ruas e vemos pessoas sem comida, sem teto, sem escolaridade e sem esperança. O que é o progresso da humanidade? Ser capaz de inventar robôs que deixam milhões de pessoas desempregadas? Inventar tranqueiras supérfluas que menos de 10% da população mundial tem dinheiro pra comprar? Às vezes me parece que os bons e velhos índios, que andavam descalços na mata e não tinham energia elétrica estavam muito na nossa frente em termos de “progresso humano”.
A pergunta que fica é: será que valeu a pena? E, se valeu, será que ainda vale a pena continuar investindo bilhões de dólares todo ano e sacrificar milhares de espécies e habitats para que a Ciência continue avançando? Aparentemente os positivistas estavam errados. O investimento no conhecimento científico não trouxe progresso pra humanidade (se entendermos que a humanidade consiste de todos os seres humanos, e não somente daqueles que têm boas condições econômicas). Talvez, inclusive, tenha agravado ainda mais as desigualdades e reforçado alguns preconceitos. Será que não está na hora de procurar uma outra forma de progredir? Porque eu não acho que uma sociedade que tem gente morrendo de fome possa ser considerada uma sociedade evoluída, não importa quão poderosos seus computadores sejam.
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Cuidado… foi essa mesma ciência que fez com que a idade média da população tenha deixado de ser meros 30 anos… Não se esqueça, só os bastante ricos, as vezes, passavam disso; hoje essa marca não é nenhum absurdo para a maior parte da humanidade. Não que tudo esteja perfeito, mas jogar tudo para o alto e ir morar no meio do mato tb não é solução.
Olá Ulisses!
O que você diz é realmente inegável: a ciência de fato propiciou melhorias na qualidade de vida das pessoas, e não somente das pessoas ricas. Mas a idéia não é largar tudo o que foi contruído pela ciência e voltar a viver como os índios. Isso seria absurdo. A idéia seria "desbitolar" um pouco, valorizar outras formas de conhecimento, dar uma freada nesse ritmo acelerado de desenvolvimento tecnológico e investir mais no social e menos no científico. Essa é a provocação que o título do texto anuncia: sera que vale a pena continuar desenvolvendo tecnologia de ponta que provavelmente vai servir a alguns poucos enquanto bilhões de pessoas não têm o que comer e onde morar?
Caraca meu q post! parabéns Renato, sou novo por aqui e realmente me impressionei pela sua expressividade nesse post. Muito bom. Concordo com vc, não é q desconsideramos os benefícios do conhecimento científico, mas que encará-lo como única forma de desenvolvimento/gerador de "progresso" para a humanidade é no mínimo desarrazoado. Seria melhor descrito assim "aumento do conhecimento científico" mas progresso humano … hum … acho que não é bem por ai. Vlw.
Parabéns pelo texto e pela provocação! Também sou nova no blog e estou impressionada com a qualidade do debate e com ter alternativas de leitura crítica! Com certeza nesse paradigma do progresso temos aprofundado desigualdades e conhecido uma humanidade deshumana, também sou da torcida de que não vale a pena tanto "desenvolvimento", tanta ciência e tecnologia se não é em benefício da humanidade toda. Valeu pelo artigo!!
Oi renato, parabéns por olhar a realidade com olhos críticos . Não podemos negar que os avanços cientificos são importantes visto que contribui social,cultural, e economicamente no que diz respeito ao modelo de produção vigente, porém não podemos esquecer que estamos muito atrasado se pensarmos que temos uma das piores educação do mundo, falta qualidade no sistema de saúde pública, saneamento básico e sem falar no problema da violencia que só tem aumentado devido a busca incançável pelo poder econômico. Bom eu não quero parecer contra os avanços, mas temos muitas outras prioridades que pode mudar a vida de milhares de pessoas. Achei interessantíssimo este informativo.
Caros colegas discordo em parte com vocês, pois a ciência não provocou isso que esta sendo comentado, mas sim intensificou, o que gera esse problema é o nosso principal meios socioeconômico que visa a acumulação de bons em vez do bem social. A ciência só propiciou a esse sistema meios para que sua filosofia pudesse ser aplicada. A ciência é só uma ferramenta e os resultados que ela gera são frutos de como ela é utilizada, sendo assim pode ser utilizada em prol do bem individual como esta sendo utilizado na maioria das vezes como também em prol do desenvolvimento social como um todo sendo raramente e empregada.