Imaginem a cena: o ilustríssimo Dr. Roberto, renomado cientista na área de fisiologia osmorregulatória de caranguejos, passa 7 anos fazendo um grande estudo. Viaja a trabalho por diversos países, se enfiando nos mangues mais fedidos e barrentos para coletar esses crustáceos, depois os leva para o laboratório e faz exaustivos experimentos que resultam numa pilha de centenas de tabelas e gráficos que ele, com muita paciência, analisa e compara um a um. Depois de sistematizar seus dados, Dr. Roberto os compara com os da literatura, identifica semelhanças e diferenças entre os estudos e quebra a cabeça para tentar entender de forma integrada o fenômeno que está estudando. Depois disso tudo, ele, super empolgado, escreve um artigo para tornar público o seu estudo, seus questionamentos e suas conclusões.
O artigo do Dr. Roberto é publicado em alguma revista super específica sobre crustáceos que menos de 1% da população mundial sabe que existe. As únicas pessoas que vão se interessar em lê-lo são os outros cientistas que estudam osmorregulação em caranguejos, e olhe lá, por que se o grupo de caranguejos que o Dr. Roberto estuda for muito distante filogeneticamente do que o Dr. Luís estuda, talvez o Dr. Luís nem se dê ao trabalho de ler. Mas o Dr. Luís não é importante. O importante é que, a partir de agora, qualquer pessoa que quiser estudar osmorregulação naquele grupo de caranguejos vai poder contar com a contribuição do Dr. Roberto, certo?
É… Certo naquelas. Imaginem que alguns anos depois, um certo Dr. Silvio, que adora crustáceos, se interessa muito em estudar esse tema que causa tanto fascínio no Dr. Roberto. Mas a biblioteca que o Dr. Silvio tem acesso não assina a revista em que o artigo do Dr. Roberto foi publicado. Quando ele tenta acessar o trabalho pela internet, ele se depara com um aviso assim:
“Poxa, como assim? Trinta e quatro dólares para ler UM artigo? Mas nem que a vaca tussa! O Dr. Roberto que me perdoe, mas ele não estará entre as referências do meu trabalho!”, pensa o Dr. Silvio. Ele continua fazendo o levantamento bibliográfico para sua pesquisa e lê o resumo de um artigo que parece ser muito bom, mas quando vai fazer o download, um pop-up se abre:
“Catorze dólares? You gotta be kidding me, man!” Dr. Silvio vai à loucura! Todo site que ele entra, tem que pagar pra acessar os artigos. Ele se revolta e dá um soco no computador. Indignado, ele desiste de estudar osmorregulação de crustáceos e opta por pesquisar outra coisa, hábitos alimentares, por exemplo. Mal sabe ele que seu computador ainda vai levar muitos outros socos.
O conhecimento científico é construído coletivamente. Se Darwin não tivesse lido Malthus, Lyel, Lamarck, Chambers, entre tantos outros, ele jamais teria sido capaz de formular sua teoria de seleção natural. Se Marx não tivesse lido Hegel, Adam Smith, David Ricardo, Feuerbach, entre tantos outros, jamais teria feito uma análise tão aprofundada da sociedade capitalista. Imaginem se Darwin fosse pobre (não era o caso…) e tivesse que pagar 34 dólares para ler o trabalho do Malthus? Não ia rolar! E se Einstein estivesse na miséria e tivesse que pagar 14 pra ler Newton? No way, man!!
Essa questão sobre o acesso a trabalhos científicos é muito complicada. Por um lado, se ninguém ler o trabalho do Dr. Roberto, é praticamente a mesma coisa do que se ele nunca tivesse ralado por 7 anos para escrevê-lo. O salário do Dr. Roberto não varia de acordo com o número de pessoas que lêem o trabalho dele. Se alguém pagar 34 dólares para comprá-lo, toda essa grana vai para a editora e ele nem fica sabendo. A única coisa que o Dr. Roberto ganha é uma citação em algum trabalho. Não é vantagem nenhuma para ele que as pessoas tenham que pagar para ler o seu artigo; na verdade, pra ele (e pra Ciência!) seria bom que todo mundo que quisesse ler tivesse acesso livre.
Mas, por outro lado, revista científica não é tudo igual. Se o trabalho do Dr. Roberto sair publicado na Nature, você nem precisa ler pra saber que é bom. Se sair na Revista Sul-Alagoana de Crustáceos Bonitos, é melhor ler com cuidado. Uma revista tem toda uma equipe de avaliadores e pareceristas que seleciona quais trabalhos merecem ser publicados naquela revista e quais não merecem. As revistas têm qualificadores e índices de impacto, e isso é absolutamente importante para manter a ordem no empreendimento científico. As revistas precisam pagar seus funcionários. Ao contrário de Superinteressantes e afins, a maioria delas não pode contar com uma grande quantidade de exemplares vendidos, por que o público alvo é muito restrito – quem no mundo assinaria uma revista chamada “Acoustical Physics”, por exemplo?
Assim, um paradoxo se estabelece. Impedir alguém de ter acesso a artigos científicos é contra a própria natureza coletiva da Ciência (lembrem-se do Darwin), mas as revistas fazem um trabalho muito importante e têm que receber dinheiro de alguma forma. Cobrar dos leitores talvez não seja a melhor forma (coitado do Dr. Silvio!). Um artigo curto (2-3 páginas) cita pelo menos outros 15-20 artigos, e se cada um custar 34 dólares, wow, eu quero ser dono de uma revista! Mas, então, o que fazer? Se alguém aí tiver alguma idéia, por favor, me diga, porque eu não agüento mais ver números e cifrões ao invés de letras e gráficos nos artigos que eu quero ler!
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Numa caçada infindável, eu enchi o saco é dos caras que escreveram os artigos!
Junte o maior número de e-mail's de pesquisadores de uma área, faça e-mails genéricos e simpáticos e arrebanhe uma boa quantia de artigos (mas nunca teses, pois parece mais fácil o cara te mandar dinheiro por correio do que enviar uma tese por e-mail).
Encher o saco resolve – e mais de uma vez, melhor. Tendo resposta, elogie, puxe assunto, comente os artigos que enviara, envie artigos para ele(a) comentar – assim sua caixa de entrada vai se entulhando de PDF's (91% inúteis, mas nem tudo é perfeito!)…
Pena que ainda muitos tratem curiosos como pulgas e mesmo eles possuem os "e-mails contragenéricos" e te dispensam numa só (enviam 7 artigos que nada tiveram a ver com seu e-mail…)…
E, pior, não é essa incessante e miserável cobrança por artigos falidos – vamos ser sinceros, a Ciência anda bastante desmerecida nalgumas áreas -, mas a inexistência de referências antigas (muito mais valiosas e abrangentes, que, no meu caso, acabei por arranjar sites que escanearam tudo o que existe de bom e que tornaram minha experiência melhorada – além de ser free, ainda é do governo – não brasileiro claro!)…
Ótimo post Renato, ótima crítica,
(apoiada por 99% da casta universitária – mas o 1% restante é insignificante, né?)
Abraço cordial,
Renato, grande tema que você escolheu em abordar.
Não acho que as revistas sejam assim tão essenciais para a ciência. Se pensarmos bem, a ciência já estava aí antes delas… Com efeito, até a Scientific American estava aí antes dos periódicos. Se hoje elas tem papel tão importante no processo de validação do conhecimento científico, nem sempre o tiveram e, sou capaz de apostar, nem sempre irão ter.
Na verdade, digo mais. O modelo todo não é exatamente benéfico à ciência. Estamos cansados de ouvir histórias de pesquisadores que tiveram seus artigos rejeitados nos periódicos X ou Y pq desenvolvem trabalhos críticos que desagradam o editor e os referees. Oras, não era papel da ciência ser crítica? Principalmente com ela própria?
Não bastasse isso, ainda somos obrigados a aturar este tipo de situação, pagar um dinheiro pesado pra podermos ter acesso a um artigo qualquer. É bem verdade o que nosso colega aí em cima disse. É sempre possível tentar entrar em contato com o pesquisador e pedir uma cópia do artigo. Mas o que fazer quando se quer ter acesso a artigos cujo autor já morreu? Vivenciei essa situação a alguns anos atrás quando tentei acessar alguns trabalhos do Dobzanski e, só não sofri recentemente em uma pesquisa sobre Alexandre Koyré, pq por sorte a faculdade de ciências da Universidade de Lisboa assina o JStore.
O ponto fundamental é que os periódicos tiveram sua importância. Por algum tempo foram a maneira mais adequada que se conseguiu arrumar para circular o conhecimento científico produzido. Mas certamente este modelo não é mais tão interessante assim.
Não é mais papel dos periódicos decidir o que é e o que não é importante o suficiente para ser publicado. Não é mais função dos periódicos assumirem o papel de mediador da comunidade científica. Não se precisa de um mediador quando se tem um meio de difusão tão eficiente quanto a internet.
Em última análise, a comunidade científica eventualmente vai encontrar uma maneira melhor pra circular e validar sua própria produção. Uma maneira que não seja tão restritiva ou que se transforme em uma máquina de imprimir dinheiro.
Pra mim, o futuro dos periódicos científicos é o mesmo da indústria fonográfica. Vão ter de se reinventar se quiserem continuar existindo.
Pois é, eu também acho que os periódicos científicos estão com os dias contatodos. Já existem vários periódicos que nem se dão ao trabalho de existir em forma física – só funcionam online. Esse ponto que você (Thiago) levantou sobre um artigo não ser aceito por não agradar um editor é muito complicado e, infelizmente, muito comum. Se eu não vou com a sua cara e por um acaso eu trabalho em uma revista, sinto muito, na minha revista você não publica. É assim também com a concessão de bolsas de pesquisa – não depende da qualidade e importância do projeto, e sim do nome do responsável por ele.
Se a Ciência deve ser crítica, mas os cientistas têm que abaixar a cabeça e mudar todo o texto de seus artigos para que eles sejam aceitos pra publicação, há algo de errado. Os periódicos estão, pazada atrás de pazada, cavando sua própria cova. Uma pena que a a pá seja ainda muito pequena.
Se todo mundo pudesse publicar o que quisesse, ia ter seus prós e contras. Popper nos diz que tudo bem, por que os artigos com idéias muito ruins seriam falseados rapidamente. Muito embora isso seja verdade, eles terão que ser lidos pra serem falseados. Imagine que numa época de artigos online e de livre acesso vc entra num "Google papers" ou algo assim e escreve "insetos". Vão aparecer zilhões de papers, e, sem um "rótulo" (é isso que os periódicos são hoje) para te dizer quais são bons e quais não são, a pesquisa bibliográfica levaria muito, mas muuuuito mais tempo. Por outro lado, o senso crítico, algo que falta inclusive para muitos cientistas, teria que estar ligado a cada linha desses artigos.
"Imagine que numa época de artigos online e de livre acesso vc entra num "Google papers" ou algo assim e escreve "insetos". Vão aparecer zilhões de papers, e, sem um "rótulo" (é isso que os periódicos são hoje) para te dizer quais são bons e quais não são, a pesquisa bibliográfica levaria muito, mas muuuuito mais tempo" – Uma solução para esse problema poderia ser uma espécie de "votação" por parte dos leitores. Cada cientista que lesse o artigo x diria se ele "presta" ou não, poderia ser dando uma nota de 0 a 10. Os que tivessem a pior nota ja cairam pro fim da lista. Quando vc for no Google Papers e digitar "insetos", através da opinião da própria comunidade, já saberia quais são os mais confiaveis e os menos.