Existem questões na biologia que são controversas por suas implicações político-sociais. Entre as mais discutidas está a existência ou não de raças (ou subespécies) na espécie humana. Até pouco tempo eu mesmo tinha dúvidas sobre essa questão. Durante a faculdade a maioria dos professores que foram indagados sobre o assunto, assumiam que as diferenças morfológicas encontradas entre negros, caucasianos e mongolóides são suficientes para deixar claro a existência de raças na espécie humana. No entanto, parece que as coisas não são bem assim.
É fato que a análise morfológica sempre teve papel fundamental na classificação de espécies. Era justamente a análise das estruturas dos animais encontrados que determinava sua classificação taxonômica. A morfologia ainda é empregada hoje, mas a genética começou a modificar a forma como a taxonomia (ciência que estuda a classificação dos animais) define o lugar de cada animal na árvore da vida.
E vem da genética as bases do conceito de raça empregado atualmente na biologia. Tal conceito atesta que o termo raça pode ser empregado quando membros de duas comunidades possuem diferenças genéticas maiores do que entre membros de sua própria comunidade. Em termos mais simples funciona assim:
- É feita a análise do código genético de uma população caucasiana e uma população negra;
- O código genético dos indivíduos da população caucasiana são comparados a fim de se estabelecer uma porcentagem da variação genética desta população. O mesmo é feito com a população negra;
- O código genético dos indivíduos caucasianos é então comparado ao código genéticos dos indivíduos da população negra a fim de se estabelecer a porcentagem de variação genética destas duas populações;
- Caso a análise ateste que existem maiores diferenças genéticas entre indivíduos caucasianos e indivíduos negros do que entre indivíduos de uma mesma população, então podemos dizer que existe uma raça.
Tal análise foi de fato realizada na ocasião do projeto genoma e a conclusão a qual se chegou foi de que não existem variações genéticas consideráveis entre populações diferentes na espécie humana. A diferença genética entre mim e um pigmeu australiano é a mesma que entre mim e minha irmã, por exemplo. É curioso notar que nem mesmo entre os cachorros o conceito de raça biológica poderia ser utilizado, também pelos mesmos motivos.
O conceito de raça então não é biológico. A bem da verdade a palavra “raça” hoje em dia define muito mais uma etnia do que uma subespécie. Vale lembrar também que nós já somos enquadrados como uma subespécie. O nome científico utilizado para nos descrever é Homo sapiens sapiens, sendo a palavra “Homo” o nosso gênero, o primeiro “sapiens” nossa espécie e o segundo “sapiens” nossa subespécie. A nomenclatura biológica atual não prevê regras para definições de subgrupos de subespécies, o que reforça a idéia de que sendo o ser humano moderno uma subespécie não deve ser dividida ainda mais em subgrupos adicionais.
Evidente que o conceito de raça pode continuar sendo empregado de forma comercial para definir diferentes linhagens de cachorros ou cavalos, mas devemos lembrar que é um termo que não é sustentado pela biologia e não deve ser utilizado como forma de diferenciação morfológica. O termo também não deveria ser utilizado para definir as diferenças existentes entre indivíduos humanos, talvez a palavra etnia realize tal função de forma mais eficiente já que é empregada para diferenciar as particularidades culturais das mais diversas populações.
Indo além:
Genes, Povos e Línguas
A Invenção das Raças
Leia também:
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Ok, certeza que se fizerem uma análise genética de políticos vão descobrir que eles são outra raça. Quanto a palavras para definir a diferença entre indivíduos humanos, sugiro “tribos”.
Sarcasmos à parte, isso é com certeza uma porrada sem tamanho nos preconceituosos de carteirinha. Pena que normalmente esse pessoal discorda de tudo que contrarie a opinião deles, comprovado pela ciência ou não…
Pergunta: se o conceito de ‘raças’ ninóis é errado, como fica a questão das ‘cotas raciais’ em universidades e talz, você sabe???
Ogro, grato pelo comentário.
A questão das cotas raciais simplesmente despreza o conceito biológico de raças e se baseia unicamente em um conceito subjetivo formulado por anos e anos de história.
Neste sentido, talvez tivesse sido melhor ter chamado de “cotas de etnias”.
O governo parece ter o costume de aceitar a opinião científica apenas quando esta lhe é útil de alguma forma.
O Thiago disse tudo. Raça parece ser um termo muito mais político que biológico.
Gostei muito do seu novo site, e já o adicionei ao bioética. E ajeitei os comentários, você tinha razão.
Adorei seu engajamento na divulgação científica, algo muitíssimo necessário. Atualmente quase não se tem mais analfabetos no sentido latu , e mesmo os que não são analfabetos funcionais muitas vezes sofrem de analfabetismo científico.
Parabéns!
Abraço!
Logo, brecha legal: já prevejo problemas. Teoricamente, posso entrar com um processo contra um vestibular, por exemplo. Mas entendo que continuo apenas discutindo o aspecto político da coisa.
Cara, gosto muito da maneira como você expõe os tópicos, de maneira imparcial e clara. Legal um blog assim! Não escreve só abobrinha como uns e outros por aí (heh! Bom, cada um faz o que sabe, é ou não é?). Aliás, aguardo novos posts!!! Se eu puder fazer uma sugestão – pedido? – sempre quis saber mais sobre o cérebro humano e aquela história de que só usamos 10% dele….
ca pra mim so existe uma raça; “A raça humana”
Tiago, sua frase resume meu texto inteiro.
Gostei muito desse assunto abordado ainda mais porque estamos no mês da consciencia negra e temos que ficar dizendo “racismo é crime” preconceito é ridiculo, as pessoas podiam ser mais mente aberta é parar com isso. a naçao brasileira de jeito nenhum poderia ser racista todos nos somos uma grande mistura de varias caracteristicas.
O racismo inclui inclusive o dia da consciencia negra não acha?
Sou também de opinião de que existe somente uma raça neste planeta, a RAÇA HUMANA. Todos os seus membros devem ter os mesmos direitos e deveres. O “orgulho da raça” é tolice. Se alguém quiser fazer uma pesquisa global, colhendo amostras de sangue em todos os continentes, observará que existem somente os tipos sangüíneos A, B, AB e O, este universal. Com os fatores positivo e negativo. Tanto no negro africano quanto no esquimó do Polo Norte, no aborígene australiano, nos indígenas americanos do norte e do sul, e nos caucasianos. Portanto, se necessário todos podem doar e receber sangue entre si, respeitando-se os tipos e os fatores, claro. Imagino também que quando os habitantes deste planeta conseguirem viajar até as estrelas distantes, verificarão que, dependendo da idade e da luz do sol local,o tripulante da nave estelar terrestre, se tiver a pele branca será visto pelos companheiro como um homem negro, ou amarelo ou vermelho, e vice-versa. Talvez até todos fiquem invisíveis entre si durante sua estada nos planetas e/ou satélites iluminados por aquele outro sol. Já imaginaram a surpresa? E as gargalhadas que vão dar ao descobrirem isso? Todos verão que o Mestre do mestres estava certo quando esteve entre nós em carne e osso, pregando o amor que deve existir entre todas as criaturas, independentemente de cor de pele e de convicções religiosas.
gostaria de saber mas sobre a determinação
gené´tica na espécie humana
Eu discordo. Se não existirem raças humanas, também não existem raças para a maioria dos outros animais. Por exemplo a ave macuco (Tinamus solitarius) é muito semelhante a outra ave, a azulona (Tinamus tao), e como se pode ver foram classificadas em mais que raças e sim em espécies diferentes. O elefante africano e o asiático há ainda mais diferença na classificação, foram classificados alêm de espécies diferentes ,em gêneros diferentes.E quanto aos gorilas foram classificados em duas espécies diferentes e cada uma com duas raças. A diferença física entre duas raças de uma mesma espécie na maioria dos animais é quase imperceptível para um leigo, como exemplo cito o jaó-do-litoral ( Crypturellus n.noctivagus) e o zabelê (Crypturellus n. zabele) ou entre as varias raças da codorna-comum (Nothura maculosa). Eu sugiro que muitas pessoas recusam a aceitar a existencia de raças humanas ,não por uma questão de biologia e sim por acreditarem que aceitando isso, estão favorecendo uma justificativa para o racismo.O que na minha opinião não tem nada a ver uma coisa com outra.
Carlos, recomendo a leitura de um outro texto aqui do site: http://polegaropositor.com.br/mais-um-pouco-sobre-racas/
Neste eu me aprofundo um pouco mais nestas questões. É claro que não tenho a pretenção de fazer com que qualquer pessoa se convença de que raças não existem, mas se você notar bem seus argumentos, os exemplos citados não são exatamente próprios. Você usou o conceito de espécie para defender a existência de raças entre os humanos…
O que eu quiz dizer é que o termo espécie e raça é relativo, na teoria quanto mais diferença genética há entre um determinado grupo de animais eles vão se distanciando na classificação primeiro em sub-espécies ou raças, depois em espécies , depois gênero,etc. As vezes há uma população de um determinado animal que é considerada uma raça de uma determinada espécie, depois de uma hora para outra essa raça é promovida a espécie plena. Foi o que aconteceu com o periquito brasileiro Pyrrhura leucotis griseipectus, que antes era considerado uma raça ou sub-especie de Pyrrhura leucotis, e recentemente foi promovido a espécie plena com a denominação Pyrrhura anaca. Eu presumo (não tenho certeza), que há mais diferença genética entre um esquimó e um pigmeu africano ( raças humanas), do que entre uma arara vermelha ( Ara chloroptera) e uma arara piranga ( Ara macao) ou entre uma jacutinga (Pipile jacutinga) e um cujubi (Pipile cujubi), que foram classificadas em espécies diferentes.Baseadas nessas observações eu deduzo que seria perfeitamente possível essas duas raças humanas citadas ,serem classificadas até em espécies diferentes, pois eu não sei qual o critério usado pelos cientistas para definir se duas populações de animais são duas raças de uma mesma espécie ou são de espécies diferentes. Uma curiosidade: Sabia que geneticamente para um chimpanzé, o homem está mais próximo do que o gorila ?
Eu volto a recomendar que você leia o outro texto, aonde eu abordo a questão de diferenças genéticas. O homem é mais próximo do chimpanzé porque tanto o homem, quanto os chimpanzés (e os bonobos) surgiram de um mesmo ancestral comum.
As raças humanas, como também dos outros animais existem porquê uma populaçao de uma determinada espécie se deslocou para uma determinada região e por um prazo relativamente longo de tempo perdeu o contato com sua população original pelo obstáculo da distancia.E com o passar do tempo essa população se adaptou a região onde vive e ganhou características que a diferenciou da população da mesma espécie que vive em outra região. Foi o que aconteceu com os negros africanos que se adaptaram ao forte sol da Àfrica e como resultado ficaram com sua maior característica, a pele escura.Até hoje não houve , ou com raríssimas exceções ,casos de câncer de pele em pessoas de pele escura.Ao passo que quanto mais clara a pele de uma pessoa, mais propensa esta é de adquirir este tipo de câncer. Esta característica( pele escura) não ocorre só com os negros africanos , mas com toda população humana que viveu originalmente há muito tempo próximo a linha do equador. O olho ” rasgado” dos orientais ao que tudo indica é o resultado de uma adaptação humana ao vento gelado da região do polo norte, que congela as lágrimas de uma pessoa, o olho “rasgado” diminui a área de contato com o vento gelado.
Carlos, algumas coisas. A primeira, convém vc ler minhas respostas anteriores e o texto que já indiquei. Vc continua insistindo em uma questão que já abordei e estou tentando te indicar o caminho. Você pode até não concordar comigo, mas fere a minha inteligência quando um debatedor ignora minhas respostas e vomita conceitos fracos ou inconsistentes sem seguir uma lógica minimamente compreensível.
Uma prova de como você esta sendo leviano são os furos de informação do seu último parágrafo. O primeiro deles é o que diz respeito ao câncer de pele em negros. Não só existem, como os casos são muitos e variados.
Outro problema conceitual cometido por você são as afirmações de que “os africanos se adaptaram ao forte Sol” e sobre os olhos “rasgados” serem o resultado de uma adaptação humana ao vento gelado. Nenhuma característica, em nenhuma criatura viva surgiu como resposta a algo. Dizer que “os africanos se adaptaram…” é se valer de um conceito evolutivo teleológico, um lamarckismo. E como sabemos, embora Lamarck tenha contribuído bastante com a biologia moderna, sua teoria evolutiva não se confirmou e já foi descartada a pelo menos 3 séculos.
Adoraria continuar debatendo a questão com você, mas não responderei mais até que você perceba que é de bom tom ler o que o seu debatedor esta escrevendo e ao menos considerar seus argumentos.
Thiago, vou abordar novamente estes assuntos:
1-Já li seus textos desde a primeira vez que me indicou e pra variar discordo de certos pontos e tenho algumas dúvidas.
a- Se entre o homem e o chimpanzé há uma diferença genética de 5%, e algumas fontes cita apenas 2%, como pode duas raças de uma mesma espécie ter uma variação genética de 30%.
b- Pessoalmente, não vejo motivos para excluir o sub-taxon “raça”. Na lista oficial dos animais ameaçados de extinção do IBAMA, há varias sub-espécies como o jaó-do-litoral e a suçuarana-do-nordeste , se ignorarmos o conceito de sub-espécie, a extinção destas raças não teria nenhuma importancia ecológica, o que eu discordo plenamente.
c-Volto a dizer que você está misturando biologia com sentimentos humanos( racismo), e que uma coisa não tem nada a ver com a outra.
2- Uma pessoa de pele branca tem 15 vezes mais chance de adquirir câncer de pele se comparada com uma de pele negra. Os casos em negros são relativamente raros e quando acontece na maioria das vezes é porquê já tinha algum problema na pele ou ocorre na palma das mãos ou na”planta” dos pés, regiões onde os negros não tem a proteção da pele escura.
3-É fato comprovado que a pele escura humana é muito mais resistente aos raios solares dos trópicos do que a pele clara, e todas as raças humanas originadas de regiões próximas a linha do equador apresentam essa particularidade, como os aborígenes australianos. E toda raça humana de pele clara teve origem de regiões onde os raios solares incidem mais perpendicularmente sobre a terra, ou seja onde eles são mais fracos.
4- Quando eu disse que os africanos se adaptaram ao forte sol do continente ficando com a pele escura, eu não evoquei a teoria de Lamarck como você concluiu.Aquela teoria que diz que o ancestral da girafa de tanto esforçar o pescoço passou este esforço a seus descendentes e a espécie ficou com o pescoço comprido é mais que furada e eu nunca acreditei nela.O que eu quiz dizer é que a pele escura humana de raças originadas dos trópicos , foi ocasionado por seleção natural, de modo que os mais escuros levaram vantagem sobre os mais claros e estes transmitiram essa característica aos seus descendentes.Essa é a base da teoria evolucionista de Darwin. e você como biólogo sabe que essa teoria é aceita até hoje.
5- O olho “rasgado” dos orientais também teve uma serventia natural, pois uma característica morfológica de uma espécie ou no caso uma raça pode surgir,mas só perpetua se esta traz algum beneficio a sua sobrevivência.E aquela explicação que dei para este caso é uma forte hipótese e não é uma conclusão pessoal minha.
Bom Thiago,já que você no alto da sua extrema inteligencia se recusa a dialogar com um ignorante como eu, agora eu vou “vomitar” mais uma discordancia com suas idéias, em forma de uma piada.
Você escreveu neste texto que não aceita a divisão da espécie humana em raças, porquê pode haver mais diferença genética entre duas pessoas de uma mesma raça do que entre duas pessoas de raças diferentes,pensando dessa maneira seria perfeitamente possível…
Um casal de nórdicos noruegueses louros e de olhos azuis iam ter um filho, mas a pilantra da mulher tinha se engraçado com um imigrante africano, e depois de uma aventura extra-conjugal , ela sabia que a criança que iria ter, não era filha do marido norueguês.
Ela ficou “matutando” qual seria a desculpa a dar ao marido após a criança nascer. E um dia após navegar pela internet e ler um texto de um certo biólogo brasileiro ( Já traduzido para o norueguês é claro), ela deu um pulo de alegria e exclamou:
_ Viva já sei o que vou dizer!
E assim quando a criança nasceu, é claro o marido veio pedir-lhe explicações, e ela confiante deu a explicação científica:
_ Benhê, isso aconteceu por causa da genética.
E o marido:
_Mas que diabos de genética?
E ela:
_Você nâo sabia?. Descobriram que há mais diferença genética entre eu e você, do que entre nós e os africanos, portanto raças não existem , e isso é perfeitamente possível.
E o marido meio a contra gosto aceitou a idéia, pois afinal o chapéu típico dos vikings tem dois chifres.
Clap, clap, clap… Parabéns Carlos, seu intelecto é grande demais e eu me sinto envergonhado por ter um dia imaginado que poderia discutir com você. Desculpe viu, vou me resignar à minha humilde ignorância e contemplar de longe seu gênio único.
Obrigado Thiago, você me elogiou tanto que fiquei até constrangido, mas não se considere um ignorante, você tem um grande potencial.
na minha opniao o ser humano nao tem" raças" e sim só uma a humana
A discussão foi muito interessante, os dois lados foram muito bem abordados. Parabéns, aos dois. Ao ler os textos tirei muitas dúvidas e tive muitas informações. Muuuito obrigada!