O Carlos, lá do Lablogatórios, escreveu por estes dias um texto que trata do ego dos cientistas. No texto ele levanta duas questão que, para mim, são muito interessantes e permitem boas reflexões. Coloco abaixo a parte central das duas questões (mas por favor, NÃO deixem de ler o texto integral).
A primeira questão diz: “…O bom disso é que a Ciência possui mecanismos de auto-correção, e que são usados freqüentemente…”. E a segunda: “…se um cientista vir uma oportunidade de destruir uma verdade científica, ele o fará imediatamente e com prazer…”.
Vamos começar de trás pra frente, tratando primeiro da questão sobre verdade científica e refutação. Me é um pouco estranho o uso do termo “verdade científica” pra se referir a uma proposição, ou teoria. Talvez por causa do meu pé atrás com a palavra “verdade”. É um termo filosoficamente tão controverso, que o evito sempre que posso. Mas pra além disso, ainda temos a questão de que essencialmente a ciência não pode ser feita de verdades.
Quer dizer, ela pode tentar pra valer. Mas como sabemos, a verdade é um objetivo inalcançável. E não podia ser diferente, todo conhecimento científico é passageiro. O que nos leva ao segundo ponto desta questão, a refutação. É verdade (ops, olha a verdade ai!) que cientistas tem o ego inflado. Alguns mais que outros. E não há verdadeiramente nada de errado com isso.
A ciência ganha muito com grandes controvérsias e brigas de ego. São inúmeros os casos na história de grandes “pendengas” científicas que, de uma forma ou de outra, levaram ao desenvolvimento de novas teorias, ou a popularização de teorias menos comentadas. Já recomendei um livro que trata de forma bastante boa esse tema. O caso é que é de se esperar que qualquer bom cientista tenha uma posição questionadora. E isso não significa dizer que se deve questionar tudo de forma cega e irracional.
O questionamento tem um papel fundamental no primeiro ponto. Quando o Carlos fala em “mecanismos de auto-correção”, suponho que ele esteja se referindo ao peer review, ou revisão por pares. Em termos mais simples, todo trabalho científico deve passar por um processo de revisão feito por colegas de área do cientista que publicou o artigo. Além do peer review, é suposto que existam métodos eficientes de se investigar qualquer teoria científica de forma mais cuidadosa. E em geral há mesmo.
Mas isso não significa que a ciência se “auto-corrija”. Na verdade, existem muitos casos aonde anomalias detectadas em teorias científicas são resolvidas com argumentos ad hoc, ou são muitas vezes ignoradas. Quando confrontada com uma anomalia, a comunidade científica parece agir de forma arbitrária, escolhendo para cada caso um tipo diferente de tratamento.
É mais ou menos o que o filósofo da ciência Imre Lakatos defende, embora de certa forma ele salve a ciência do relativismo completo, alegando que há regras para a aceitação de teorias ad hoc. Kuhn, como se sabe, não é tão “bonzinho”, e alega com todas as letras que a ciência tem mesmo uma base relativesca.
Em outros termos a ciência não parece se auto-corrigir, mas se auto-valida de maneiras nem sempre tão objetivas quanto gostamos de pensar.
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Carlos, as explicações ad hoc nem sempre são fáceis de se perceber. Na verdade, quando são propostas por alguém, é bastante seguro afirmar que o pesquisador em questão "não fez na maldade". Um bom exemplo é o caso da descoberta de Netuno. Na ocasião da descoberta de Urano, se verificou que os cálculos newtonianos não conseguiam prever com precisão a orbita do planeta.
Em um cenário popperiano de falsificacionismo, a teoria newtoniana deveria ter sido descartada logo neste ponto, já que apresentava um problema. Mas o que aconteceu foi que ninguém questionou a capacidade da física newtoniana. O que se fez foi postular uma hipótese ad hoc: "Deve haver um outro planeta desconhecido afetando a orbita de Urano". Neste caso em questão, havia mesmo, Netuno.
A ironia é que o mesmo problema se repetiu com Mercúrio. E novamente, ao invés de se questionar a física newtoniana, foi repetido a solução "ad hoc" anterior. O problema é que neste caso, não existe um planeta desconhecido afetando a orbita de Mercúrio. A solução só veio com os cálculos da relatividade einsteniana.
Tudo isso pra dizer que em verdade, não acho que seja possível distinguir um "ajuste legítimo" de um "ajuste ad hoc". E talvez, nem faça tanto sentido criar classes de ajustes e etc. Essa dificuldade (ou até impossibilidade) se traduz na tal arbitrariedade que eu comentei no texto, resultando na impossibilidade de um sistema auto-corretivo. Por isso argumentei que a ciência, no máximo, se auto-valida. E não há nada de errado nisso, veja bem. A auto-validação resguarda a integridade do empreendimento científico. Sem isso, viveríamos em um "deus nos acuda" generalizado, o que tornaria toda a ciência… Bem… Sem sentido.