Frans de Waal é um importante e conhecido primatologista holandes vivendo nos Estados Unidos. Formado em biologia e psicologia, se envolveu no estudo de comportamento animal, especialmente de grandes primatas, tornando-se uma das maiores autoridades do mundo neste sentido. Em 2007 esteve listado como uma das 100 pessoas mais influentes pela Times, e já produziu seis livros de divulgação científica. Destes, apenas um foi lançado no Brasil. “Our inner ape – A leading primatologist explains why we are who we are” ou “Eu, primata – Por que somos como somos” em seu título em português é um livro difícil de se classificar.
A dificuldade vem justamente da abordagem estabelecida de uma tentativa em compreender o comportamento humano, tomando como modelo comparativo o comportamento de nossos primos símios, os chimpanzés e os bonobos. A estratégia de Waal, embora possa parecer controversa, faz todo sentido. Os bonobos e os chimpanzés provavelmente evoluíram do mesmo ancestral comum dos humanos, no entanto, as diferenças comportamentais destas três espécies são aparentemente distintas o suficiente para tornar a comparação válida. O que de Waal faz é demonstrar que, em certas áreas “cinzas”, humanos, bonobos e chimpanzés compartilham uma série de características comportamentias.
O resultado é impressionante. Somos apresentados ao mundo extremamente político dos chimpanzés, muito similar ao nosso. Um complexo jogo de alianças e conchavos intrincados que remetem imediatamente à nossa política partidária. Ao mesmo tempo nos vemos no mundo erótico dos bonobos, também similar ao nosso. O autor então lança mão desse processo comparativo para mostrar o ser humano como uma espécie amalgama de nosso primos. Nosso apreço pelo poder, guerra e sexo é a síntese do comportamento dos chimpanzés e bonobos.
O livro é em geral muito bom, embora tenha seus momentos massantes. Mas eles são compreensíveis, o assunto não é simples e a proposta é bastante ousada. Buscar o entendimento sobre as ações do homem tomando a primatologia como base pode não agradar muitas pessoas. Aceitar as proposições de Frans de Waal é o mesmo que aceitar que o homem compartilha seu ancestral com os símios, idéia sabidamente polêmica mas que, a despeito de tudo, tem suporte científico.
Além disso, o autor incorre constantemente no antropomorfismo. O próprio de Waal chama a atenção para essa questão, mas defende que os comportamentos dos bonobos e chimpanzés são de fato muito similares ao nosso. Similares a tal ponto de poderem ser comparados de igual para igual. Exemplos que justifiquem essa afirmativa não faltam por todo o livro, em todo caso, alguns estão mais para a defesa apaixonada do que para a defesa racional. Igualmente compreensível, claro, mas é bom observar estes pequenos momentos de defesa apaixonada com cautela. Em todo caso o livro é ótimo e sua leitura é recomendada.
Citação:
“Este livro analisa os fascinantes e assustadores paralelos entre o comportamento dos humanos e o de outros grandes primatas, com igual consideração para com o bom, o mau e o feio” – Frans de Waal.
Dados gerais:
Eu, primata – Por que somos como somos.
331 páginas
ISBN 978-359-1062-9
Companhia das Letras
Para saber mais:
Bonobos
Chimpanzés
Primatologia
Comportamento animal
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Thiago, após a leitura qual é seu sentimento em relação à sociedade que trata melhor seus integrantes, APESAR das semelhanças políticas e eróticas (engraçado, sempre achei que as duas eram putaria… rsrs)?
Ele chega a entrar em detalhes mais específicos de nossa sociedade, como o individualismo? Bonobos e chimpanzés deixam outros bonobos e chimpanzés morrerem de fome, etcetal? Já há muito tempo eu procuro uma explicação na natureza para esse comportamento nosso, e nunca encontrei… algo assim poderia até me devolver um pouco da fé na humanidade que perdi há tanto tempo…
Bom Ogrão, eu não seria tão otimista então.
Os chimpanzés por exemplo tem uma sociedade extremamente fundamentada na força. Não é raro dois machos matarem um macho alfa para que um deles ocupe seu lugar enquanto o outro fique como “segundo em comando”.
A sociedade dos bonobos é mais matriarcal. Existe uma “fêmea alfa”, ela controla o alimento do grupo todo. Ninguém come enquanto ela não permitir. Em todo caso, nos bonobos as tensões são resolvidas com sexo. O de Waal comenta o caso e uma bonobo fêmea que não se dava bem com o macho alfa do grupo. Quando todos iam comer, essa bonobo exibia seu orgão sexual para o macho que normalmente aceitava o gesto fazendo sexo com essa fêmea. Depois disso, ela se sentava e comia com o grupo normalmente.
Nos chimpanzés, na situação acima, teria havido uma demonstração de força e violência pra resolver a pendenga. Os chimpanzés ainda cometem infanticídios. Mas não sei se qualquer uma das duas espécies permite que seus membros passem fome por qualquer motivo.
Não sei bem. Sempre achei chimpanzé um bicho meio besta até assistir um mega documentário no discovery channel. Quando eu vi que eles tinham verdadeiras guerras tribais, assustei. This is sparta. No caso dos bonobos, bem, aquela velha história. Sex sells, hehe.
Um abraço.
Thiago eu queria que vc comparace pra mim o ser humano com os outros primatas