Apesar do Supremo Tribunal de Justiça ter votado pela não inconstitucionalidade das pesquisas com células-tronco embrionárias no dia 29 de Maio deste ano, e das pesquisas com este material biológico já estarem em curso no Brasil, dediquei algumas horas à leitura do livro “O direito à vida e a pesquisa com células-tronco” da autora Renata da Rocha. O livro, inserido na Coleção Biodireito/Bioética da Editora Campos/Elsevier, merece um elogio para o estilo de linguagem. A autora escreve de forma simples e expõe suas idéias com a clareza necessária para ser compreendida tanto pelo público leigo, quanto pelo público estudantil universitário.
No entanto, já na primeira linha dos agradecimentos observa-se a tendência religiosa da autora ao agradecer em primeiro lugar à Deus. A crítica não é a respeito da religiosidade da autora, mas sim ao fato do tema escolhido tanger, na visão dela, à questão da vida e da morte. A questão das células-tronco embrionárias foi durante o debate, e continua sendo, confundida com uma questão de vida e morte pelo público leigo. Partindo da premissa de que existem outras formas de interpretar o mundo, e de que a científica não é necessariamente a mais importante (ou correta) delas, o que impressiona é a forma enfática com que a autora defende sua posição ferrenhamente contrária à da ciência relatando a retirada de células-tronco como destruidora do embrião, reificadora do ser humano, e promotora de riscos aos seres humanos.
Não obstante o tom de religiosidade no combate à ciência, a autora ainda se apropria de um discurso político acerca das descobertas e tecnologias científicas como se fossem os próprios cientistas grandes empresários em busca de riqueza desenfreada, violando aspectos éticos da vida em sociedade. É fato que muito dinheiro circula em função de patentes derivadas de avanços científicos e tecnológicos, mas isto se deve à maneira como a sociedade tem se apropriado da ciência. O cientista em si, salvo raras exceções, não tem tino comercial e não é o principal privilegiado das patentes de suas descobertas.
Ao ler o livro fiquei com a impressão de que, na ânsia pela defesa de seus princípios morais, a autora exagerou na defesa da importância do papel do Biodireito, sem se preocupar em pedir auxílio a um geneticista para descrever os conceitos básicos de genética. A autora se baseou na enciclopédia Encarta, em livros de Direito e de divulgação científica, e até em notícias de jornal. Na ausência de livros técnicos de genética como referência o resultado é uma série de erros conceituais.
Um dos parágrafos finais da conclusão revela novamente uma veemência tão polarizada que, ao invés de promover um debate construtivo sobre a polêmica, já traz uma série de enquadramentos da incumbência do Biodireito aos quais os cientistas deveriam se ajustar para preservar a vida de acordo com a concebida pela autora, por meio de seus desconhecimentos genéticos obtidos de fontes pouco científicas. Dentre outras, seria esperado que o Biodireito impedisse a retirada de células-tronco embrionárias, proibisse a manipulação de células germinativas e do embrião humano, vetasse a clonagem, e inviabilizasse a terapia gênica em células embrionárias.
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O grande problema, a grande dificuldade, digamos assim, para um cientista entender o grandiosíssimo drama das células tronco é que como especialista ele fica trancafiado em sua especialidade, assim como o matemático não vê prova senão numa demonstração
algébrica. Daí a grande dificuldade de entender o religioso. Geralmente o que há é uma espécie de compaixão “tadinho, tão crente”. Digo isso porque nem cientista sou e penso assim. Religião o ópio do povo?!? Enfim.
Quando se inverte as bolas porém a situação é ainda mais crítica. Caso você mostre ao matemático que 2+2 é igual a deus, ele dirá: “é, deus existe”. Agora, se você demonstrar experimentalmente por a+b qualquer coisa fora da filosofia religiosa de um religioso convicto… Cara, ele te agride. Pelo menos essa daí resolveu escrever um livro, haha!
O sentido de tanta besteira, o porque desses dois parágrafos, é só pra dizer que a “ânsia pela defesa de seus princípios morais” vai ser eterna. E nesse eterno bate-rebate de opiniões você ainda vai decolar uma gastrite.
Bjs.
Rafael,
O bom de vc ter comentado é que posso até dizer que não duvido da existência de deus. Minha filosofia para crer nisto é simples (como vc bem explicou, do tipo a+b) – se para as formigas a existência do ser humano é algo inconcebível, e obviamente um pisão num formigueiro é uma tragédia proporcional a um terremoto para os humanos, não tenho como negar a possibilidade da existência de Deus à nossa semelhança, chacoalhando o Mundo de vez em quando e salvando alguns.
Foi-se um tempo em que eu me indignava ao ponto da gastrite. Hoje eu vejo e irónicamente (acentuação em português de portugal) penso….Meu Deus!
O Trabalho da Renato Rocha, foi muito mais que um trabalho, e sim a realidade que todos deviam aceitar e não criticar…Mas muitos dos publicos não são leigos, e ai já viu.
ONDE EU ENCONTRO ESSE LIVRO SOBRE O TEMA CITADO ACIMA?
“O direito à vida e a pesquisa com células-tronco” da autora Renata da Rocha.
ESTOU FAZENDO MINHA MONOGRAFIA SOBRE ESSE TEMA…E GOSTARIA SE TIVESSE MAIS ALGUM MATERIAL E SE PUDESSE ME AJUDAR, FICARIA MUITO AGRADECIDA..
ATT.
ANA PAULA MACHADO