O Time Lord que viajou no tempo (e no espaço).

O filme Contato, adaptação da obra de mesmo nome escrita por Carl Sagan, tem uma sequência inicial memorável.

Basicamente vemos a Terra do espaço e ouvimos todo o caos das transmissões de rádio e televisão vindo do planeta. A imagem então começa a se afastar do planeta e a medida em que vamos viajando através do sistema solar, vamos também viajando através do tempo, ouvindo transmissões cada vez mais antigas até que tudo o que nos resta é o silêncio absoluto de um universo que não faz a menor ideia de que na terceira pedra depois de uma inexpressiva estrela, existe um monte de criaturinhas bípedes que  escutam o espaço na esperança de ouvir a história de outra civilização com o mesmo habito dionísico de gravar os próprios ruídos para que outros o apreciem.

No filme esta cena tem o papel fundamental de explicar para o espectador em três minutos que 1- transmissões de rádio e televisão feitas na Terra viajam para fora do planeta, 2- estes sinais viajam próximo à velocidade da luz e 3- é possível acompanhar toda a história televisionada ou radiodifundida da humanidade caso você possa se mover mais rápido do que estes sinais ou viva em um planeta que esteja no meio do caminho deles.

Este conceito é importante pro filme por que no final do primeiro ato ele é invertido, somos nós que recebemos um sinal alienígena (com um pequeno plot twist que eu não vou estragar dando spoilers, vá correndo assistir Contato).

 

Doctor Who?

Acontece que em 2009 algo muito semelhante aconteceu na vida real mesmo, o que torna o caso todo muito mais interessante. Não, não recebemos sinais alienígenas, embora existam alienígenas nos sinais.

Explico. O radiotelescópio de Arecibo (que é o mesmo radiotelescópio que aparece no começo do filme Contato) começou a detectar sinais de VHF vindos do espaço. Segundo o Dr. Venn, que é o radioastrônomo que detectou tais sinais, eles eram claramente sinais antigos de tv aqui da Terra mesmo, mas estranhamente estavam vindo de um ponto no espaço.

Para o Dr. Venn era evidente o que estava acontecendo, sinais com quase 50 anos de idade viajaram 25 anos luz para longe da Terra e rebateram em algo que os mandou de volta para nós.

Ninguém sabe ao certo o que estava no caminhos dos sinais. Na época até a Nasa apontou o Hubble para o local, sem sucesso em obter qualquer dica do que está refletindo os sinais de volta para nós. A teoria é a de que existe uma nuvem de asteroides funcionando como uma espécie de espelho.

Ah sim! Já ia me esquecendo da parte alienígena nessa história toda. Acaba que os sinais de televisão detectados eram da programação de 50 anos atrás da BBC inglesa e, entre outras coisas, o sinal continha episódios perdidos da série Doctor Who.

O caso é que por alguma razão as redes de televisão não pensavam na possibilidade de fazer reprise de seus programas e uma série de conteúdo se perdeu, incluindo episódios antigos de  uma série de televisão sobre um alienígena com dois corações que viaja no tempo em uma cabine de polícia azul que, graças à um pouco de ciência, um radiotelescópio e um cientista com um nome maneiríssimo, foram recuperados e digitalizados.

Só eu me divirto com a ironia dessa história?

 

Bow ties are cool!!

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Kepler, o salvador.

Galileu Galilei é sempre lembrado como um dos maiores cientistas da história. Suas contribuições para a física foram importantíssima, assim como sua habilidade de artesão. Não raro se atribui a ele a construção do primeiro telescópio, o que não é bem verdade.
Na realidade o instrumento em si já existia.

O que Galileu fez foi aperfeiçoar e, em um pensamento muito feliz, apontá-lo para o céu. Ao fazê-lo, acabou por observar três das quatro luas de Júpiter. A quarta só pode ser observada um pouco mais tarde.

Com estas observações feitas Galileu escreveu seu livro Siderius Nuncius, oferecendo a descoberta ao seu futuro mecenas, Cosimo de Medici. O que nem sempre se divulga desta história é que pouca gente acreditou que as luas de Júpiter realmente existiam.

O ato de usar um instrumento para observar o céu era, na época, uma ideia estranha demais. Além disso, nem todos que tiveram acesso a um dos telescópios de Galileu conseguiram fazer as mesmas observações que ele. Mesmo os que conseguiam, por vezes, acreditavam que as luas não passavam de um truque visual produzido pelo aparelho.

A ajuda que Galileu precisava veio de um outro matemático. Kepler, que recebeu um telescópio e uma cópia do Siderius Nuncius, não pode deixar de ficar maravilhado. Escreveu Dissertatio cum Nuncio Sidereo, um comentário sobre as descobertas das luas de Júpiter e as implicações que isso trazia. Mas ainda mais importante, escreveu o Dioptrice.

Neste livro Kepler formula toda a base teórica que Galileu precisava para a legitimação do telescópio. É nesta obra que ele estuda lentes divergentes, convexas e côncavas, além de melhorar o instrumento propondo o uso de duas lentes convexas. Curiosamente Galileu nunca retribuiu o favor comentando qualquer trabalho de Kepler, ainda que o alemão tenha tido o cuidado de enviar suas obras ao italiano.

O caso é curioso no entanto para demonstrar que, em determinadas ocasiões, é preciso mais do que ver o fenômeno para acreditar nele. São os raros casos aonde a imagem vale menos do que mil palavras.

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Salvem os fenômenos, salvem o mundo.

Platão e Aristóteles influenciaram de maneira determinante todo o desenvolvimento científico do período anterior à revolução científica. Platão, com seu mundo das ideias, acreditava que o homem não era capaz de encontrar as causas por trás dos acontecimento naturais. Defendia que era preciso “salvar os fenômenos”, ou seja, descrevê-los.

Já Aristóteles por outro lado acreditava que fenômenos naturais tinham causas naturais. E que portanto era possível encontrar estas causas, observando os fenômenos. Aristóteles também fez uma grande descrição o mundo celeste.

Ambos os homens condicionaram a prática da astronomia antiga. O modelo aristotélico do mundo celeste se tornou o grande paradigma astronômico. O filósofo grego postulou que toda a região “supralunar”, ou seja, tudo que fica “acima” da lua, era constituída de uma matéria diferenciada.

Para ele, o mundo supralunar era perfeito, existia desde sempre e continuaria existindo de maneira imutável. Os planetas e estrelas não tinham imperfeições, eram todos esferas perfeitas, se movendo em orbitas circulares ao redor da Terra. Era um mundo incorruptível.

A Terra era posicionada no centro do Universo por sua condição imperfeita, e não por privilégio. Todo o mundo “sublunar” era constituído de uma substância material comum. Essa condição nada celestial justificava as inúmeras imperfeições da superfície da Terra, bem como sua característica mutacional. A Terra não era como sempre foi, e continuaria a mudar no futuro.

Estre grande modelo astronômico se unio ao projeto metodológico platônico. De modo que não era papel dos astrônomos procurar as causas para, digamos, o movimento dos planetas. O papel destes homens era o de salvar os fenômenos, criando para tal hipóteses. Hipótese no caso da astronomia antiga significa produzir modelos descritivos.

Mesmo Copérnico, que criou seu modelo astronômico tirando a Terra do centro do Universo, seguia esse paradigma. Acreditava, como todos à época, que o mundo celeste era mesmo feito de uma substância diferenciada, aristotélica. E seu livro não se ocupa, em momento nenhum, em procurar causas para os fenômenos celestes.

O aristotelismo só começou a ruir em 1572, quando o que acreditava-se ser uma estrela apareceu no céu, visível a olho nu, com uma intensidade maior do que as outras tantas estrelas visíveis, e desapareceu por completo duas semanas depois. Era uma supernova, hoje bastante famosa, e que foi o primeiro passo para a refutação de Aristóteles.

A supernova de 1572. Clique para ampliar.

A supernova de 1572. Clique para ampliar.

O segundo veio alguns anos depois, em 1577, quando um cometa cruzou os céus. Um astrônomo famoso da época, Tycho Brahe, fez medições precisas sobre a distância do cometa e concluiu que ele não podia ser um fenômeno atmosférico, como se acreditava até então. Era antes um objeto que estava cruzando o mundo celeste.

Com a incorruptibilidade dos céus posta em causa, não demorou para que a presença aristotélica e platônica fossem abaladas. Galileu deu o passo final, não só com seu trabalho sobre a queda dos corpos, mas também com sua metodologia de estudar a natureza isolando um fenômeno de sua condição natural, em laboratório.

Galileu deixou de salvar os fenômenos, preocupado em descobrir suas causas. Mas para tal, os isolava da natureza, indo contra a filosofia natural aristotélica. É uma mudança de atitude impressionante, entendida até hoje como uma das causas da revolução científica.

*Edit: Aonde estava escrito “…não só com seu trabalho sobre o movimento dos corpos…” foi modificado para “…não só com seu trabalho sobre a queda dos corpos…”. Apesar do seu trabalho vanguardista, quem mais se ocupou com a origem do movimento dos corpos celestes foi Kepler, homem que Galileu admirava e que se correspondia com frequência. Kepler também é responsável pelo modelo atual do sistema solar, o tema vai ser abordado melhor em outros textos.

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