Para discutir Biologia Comparada
E, aproveitando que estávamos falando sobre Biologia Comparada e sobre como ela vêm se constituindo na linha de frente da Biologia teórica atualmente, venho dizer que o Brasil não está por fora dessa onda. Muita pesquisa séria vem sendo desenvolvida por aqui nessa perspectiva, e a área vem crescendo bastante no país. Existem por aqui alguns programas de pós-graduação específicos para a formação de pesquisadores especialistas em Biologia Comparada.
E um deles, o da USP de Ribeirão Preto, está se organizando para promover no final de julho um Encontro de Biologia Comparada que vai trazer a interessante temática “A diversidade de formas no tempo e no espaço”. O principal objetivo do encontro é mobilizar estudantes, professores e profissionais da Biologia em discussões sobre mudanças observadas nas diferentes formas de vida nas dimensões temporal (passado, presente e futuro) e espacial (distribuição geográfica), além de manter os objetivos dos encontros anteriores, que são promover a integração entre os alunos do Programa de Pós-graduação e a comunidade acadêmica e divulgar as linhas de pesquisa desenvolvidas dentro do programa.
Portanto, se você é biólogo e trabalha com Biologia Comparada, esse é um ótimo lugar para divulgar o seu trabalho. E, se você é um biólogo que trabalha com outra coisa (como eu!) ou se não é biólogo, mas gosta do assunto, essa é uma oportunidade de ouro para participar de discussões evolutivas interessantes e para acompanhar o que se tem pesquisado na área em nosso país. Te vejo lá!
As duas Biologias de Mayr
Em 1859, quando Darwin publicou “A Origem das Espécies”, ele já sabia que tempos difíceis estavam por vir. E vieram. As idéias contidas naquele livro causaram um grande rebuliço não somente na comunidade acadêmica da época, mas na sociedade como um todo. Num âmbito mais geral, a idéia de uma espécie descender de outra (e especialmente a idéia do homem descender “do macaco”) batia de frente com os ideais religiosos da Europa do século XIX – na verdade, ainda bate com ideais religiosos de hoje, mas deixemos o conflito ciência x religião para um outro post. Na esfera acadêmica, o tempo de existência da Terra era um assunto sobre o qual os cientistas ainda estavam longe de entrar em consenso, e como o argumento de Darwin tinha como premissa que a Terra era muito antiga, esse era um assunto recorrente entre seus opositores. Inclusive, Lord Kelvin, o grande físico criador da escala termométrica universal, era um desses opositores, e um que deu muita dor de cabeça a Charles Darwin¹.
Resumindo uma história longa, quando Darwin propôs sua teoria da evolução por seleção natural, ela não foi aceita de cara pela comunidade científica. Na verdade, isso demorou mais de meio século pra acontecer. Talvez as pessoas de sua época não tenham conseguido entender o que ele estava tentando dizer. Talvez tenham entendido, mas viviam num paradigma que as impedia de dar crédito para uma teoria daquele tipo. Ou talvez de fato as evidências existentes na época favorecessem uma outra forma de pensar. Seja lá o que for, o fato é que quando perceberam (muito tempo depois) a profundeza e o poder da teoria darwiniana, ficaram muito empolgados. Muito mesmo! Mas como a teoria de Darwin era muito mal vista pela maior parte das pessoas na academia e fora dela, aqueles que a aceitavam começaram um grande movimento de divulgação e defesa do darwinismo.
Podem os vírus ter-nos tornado humanos? – Parte I
A questão começou por ser filosófica. Numa sessão da American Philosophical Society de 15 de Novembro de 2003, o virologista Luis P. Villarreal, director do Centro de Investigação em Vírus da Universidade da Califórnia em Irvine perguntava: «Can Viruses Make Us Human? A ciência tinha uma resposta objectiva. Não. Os vírus, que nem sequer seres vivos são considerados, são parasitas moleculares cujo interesse primordial consiste em induzir doenças no seu hospedeiro. Neste sentido, os vírus são qualquer coisa de maléfico. Veja-se o caso do VIH causador da SIDA que todos os anos ceifa milhares de vida em todo o mundo. Ou o vírus H1N1 que ameaçava dizimar populações inteiras. Ou ainda o temível vírus Ébola que nos filmes é-nos apresentado como uma espécie de assassino em série. Ou então o mais contido vírus da gripe sazonal que todos os anos faz com que milhões de pessoas passem os seus dias a espirrar. Para tornar tudo isto ainda mais grave, não há forma de os combater. Por conseguinte, como podem os vírus ter-nos tornado humanos? Não, para nós, o grande plano dos vírus sempre foi exterminar os humanos. Acontece que, além da objectividade pura não existir, a resposta da ciência a esta questão está profundamente afectada por uma subjectividade. Na verdade, alguns cientistas têm sido de tal modo convincentes que nós acreditámos sem qualquer resistência nos seus delírios. Estamos pois todos dentro ou fora da realidade, como acontece nos chamados delírios partilhados. Provavelmente, mais fora do que dentro. Talvez aqui a filosofia possa dar uma ajuda. Por exemplo, segundo Peirce, a realidade é tudo aquilo que nos provoca resistência. Quer isto dizer que se há qualquer coisa que cause resistência à nossa expectativa, então é provável que essa qualquer coisa seja real. A ciência é uma incessante busca pela realidade. E é escrita a lápis de carvão. Porque a ciência vive na eminência de ter de ser rescrita uma vez, e outra vez, e ainda mais outra. Aliás, a história da ciência é um livro rasurado em todas as suas páginas. O caso dos vírus é um exemplo bastante eloquente. Investigações recentes têm defraudado persistentemente as nossas expectativas. O que significa que, por certo, nos aproximamos cada vez mais da realidade.
Com o coração do lado direito
Há dias, estava eu a tentar por ordem nas dezenas de ficheiros que flutuam no ambiente de trabalho do meu notebook, quando de repente me salta aos olhos um artigo sobre competição espermática. Ah, os espermatozóides! Lembrei-me logo de uma história que eu costumo sempre contar quando pretendo mostrar a alguém como a lógica da vida nos prega uma valente rasteira de cada vez que julgamos saber tudo.
Uma nota breve sobre a adaptação das espécies II
Mas afinal o que é que faz com que haja tanta variedade? Para os neodarwinistas, essa variedade resulta fundamentalmente das mutações e da recombinação génica. Mas há um outro mecanismo de produção da variação que é a simbiose e a transferência horizontal de genes. Por exemplo, quando começámos a sequenciar o genoma humano, ficámos surpreendidos pela quantidade de DNA que aparentemente não tinha qualquer utilidade. Era referido como junk DNA. Hoje sabemos que esse lixo é afinal informação genética de vírus e bactérias que a determinada altura integraram o genoma humano. Por exemplo, porque razão a nossa flora intestinal se mantém ordenadamente dentro de certos parâmetros fisiológicos e apenas com aquelas variedades de bactérias? Certamente porque houve transferência horizontal de genes. Um outro exemplo bastante paradigmático é o caso da lesma Elysia chlorotica que ao alimentar-se da alga Vaucheria litorea tem a capacidade de incorporar no seu epitélio intestinal os cloroplastos desta, e apenas desta, alga, mantendo-os viáveis por um período de cerca de 8 meses. No final desse período, ingere e integra novos cloroplastos. Ora, para isto acontecer, teve que haver uma transferência horizontal de genes por forma a que esses cloroplastos se mantenham viáveis. Na verdade, foram identificados no genoma da E.chlorotica genes – por exemplo, rbcL, rbcS, psaB, psbA – da alga V.litorea que possibilitam que haja uma tradução e transcrição activa de genes cloropastidiais dentro do animal hospedeiro. O que é, digamos assim, algo de absolutamente surpreendente. Por conseguinte, mutações, recombinação génica e simbiose são os grandes produtores de variedade contribuindo assim para uma maior possibilidade de adaptação por parte das espécies aos múltiplos desafios ecológicos.
Uma nota breve sobre a adaptação das espécies I
É frequente dizer-se que as espécies se adaptam. Por exemplo, mamíferos como os golfinhos, adaptaram-se às circunstâncias da vida marinha. Os bicos dos tentilhões das Galápagos adaptaram-se às características peculiares de cada uma das ilhas. Os membros do morcego adaptaram-se ao voo. Em teoria, perante os novos cenários climáticos é provável que muitas espécies se adaptem às novas circunstâncias ecológicas. É provável que o urso polar reduza a espessura da sua camada de gordura, ou então que as orelhas dos elefantes se tornem maiores para uma mais eficaz dissipação do calor. A adaptação das espécies é para nós quase uma banalidade. Em diferentes contextos, as espécies adaptam-se. Ponto final.
Ciência e a utopia da imortalidade
Escrito muito antes da Ilíada e da Odisseia, a Epopeia de Gilgamesh conta-nos a história de um homem que toma a consciência de si próprio e descobre o medo da morte através da perda trágica daquele que ama, levando-o a iniciar uma busca desperada pela imortalidade. Depois de ter falhado todas as tentativas, sobretudo devido à impossibilidade de dominar o tempo, o homem regressa à cidade de Uruk, onde toma a decisão de escrever a sua epopeia, mesmo sem se aperceber que ao fazê-lo está a imortalizar a sua memória, que é a única que nos convém e que nos é possível. Em certo sentido vai ser este o corolário lógico das epopeias modernas na busca por uma imortalidade. Já esquecido do que o levou a ter vontade de viver para sempre, o homem moderno, digamos assim, procura materializar os seus sentimentos de terror e de perda, transformando-os em obstáculos transponíveis pela técnica. A manipulação genética, e todas as suas derivações mais ou menos sofisticadas, surge assim como uma espécie de epifenómeno de uma doença que, precisamente por ter momentos felizes, é levada a esquecer-se de si.
Pra que serve esse bicho?
(I)
Estive no litoral recentemente e, numa conversa com meus amigos, disse que a craca é o animal que tem o maior pênis em relação ao tamanho do corpo. Maior do que a surpresa deles ao ouvir essa curiosidade foi a minha quando uma amiga perguntou: “Mas o que é uma craca?”. No dia seguinte, na praia, havia um galho na areia cheio de cracas, e então peguei o galho e mostrei para ela. Ela, com cara de indignação, disse: “Nossa, ISSO é uma craca? Pra que serve esse bicho?”.
Ela era a única não-bióloga do grupo em que eu estava, e não simpatizou com a idéia de que os bichos não precisam servir pra alguma coisa. Falei que Darwin estudou cracas por muito tempo e que os historiadores acreditam que ele aprendeu muita taxonomia, morfologia e ontogenética em seu trabalho com esses cirripédios, além de ter percebido coisas que o ajudaram mais tarde a escrever sua obra prima, A Origem das Espécies. Mas não adiantou.
(II)
Existe um grupo de seres vivos “conhecido” (entre aspas porque na verdade pouca gente conhece, mesmo entre os biólogos) como slime molds. Sua posição filogenética ainda é controversa; uns acham que eles são um grupo de fungos e outros defendem que eles são um grupo à parte, apenas aparentado aos fungos. De qualquer forma, tem gente que faz pesquisa com eles. E alguns desses pesquisadores fizeram uma descoberta muito interessante recentemente. Em resumo (mas vale a pena ler o artigo), ao estudar o padrão de crescimento e forageio (busca por alimento) de uma espécie de slime, descobriram uma forma de revolucionar os problemas de logística e transporte do Japão (!!).
(III)
Então, pra que servem slime molds? Ora, agora podemos planejar redes de transporte a partir do padrão de crescimento deles. Mas, antes disso, eles não serviam pra nada, assim como o fungo P. notatum não servia pra nada antes de descobrirem a penicilina. Mas e as cracas? E as baratas que nos enojam e os pernilongos que nos estorvam a noite? Pra que servem? No máximo, para manter o equilíbrio ecológico em seus hábitats, de onde extraímos coisas “úteis”. Na verdade, se formos medir o valor das espécies pela serventia que elas podem ter ao homem, é provável que descubramos que boa parte das espécies “não serve pra nada”. Mas, mesmo assim, elas fascinam muita gente, que dedica a vida inteira ao estudo dessas criaturas. Por que?
Um pequeno mal entendido. Ou não.
O naturalista britânico Charles Darwin foi imortalizado pelo livro que publicou em 1859, “A Origem das Espécies por meio da Seleção Natural”. Nesse livro ele faz uma grande síntese de várias idéias sobre evolução biológica que estavam borbulhando em sua época e propõe um mecanismo pelo qual a evolução poderia ocorrer: a seleção natural. A idéia básica é a de que existem muito mais indivíduos nas populações do que a quantidade que os recursos do ambiente dão conta de sustentar (idéia que ele emprestou de Malthus) e, sendo assim, vários indivíduos morrem. Quais indivíduos? Darwin acreditava, embora não soubesse explicar, que existiam variações entre os indivíduos de uma mesma espécie e que essas diferenças tornavam alguns indivíduos mais aptos do que outros a sobreviver em determinado ambiente. Assim, os indivíduos que tivessem características que os favorecessem a conseguir mais alimento, gastar menos energia, etc., teriam uma chance muito maior de sobreviver do que os que não tivessem essas características ou a tivessem num nível menos eficiente. É importante ressaltar que o que define se uma característica é vantajosa ou não é o ambiente; ter respiração branquial pode ser uma ótima estratégia se você for um ser aquático, mas provavelmente vai te matar se você for terrestre.
Sobre mitocôndrias, esfingomielina e estípulas interpeciolares
Estava lendo um livro esses dias que dizia que, na cidade de São Paulo, as aulas de Biologia do Ensino Médio têm uma média de seis termos novos definidos por aula. Se fizermos as contas considerando que em geral as escolas têm três aulas de Biologia por semana, veremos que o número de termos novos “aprendidos” pelos alunos é de cerca de 600 por ano. Não sei, mas acho que se eu soubesse falar 600 palavras em russo talvez eu fosse capaz de me comunicar rudimentarmente com alguns russos (os dispostos a fazer um esforço pra me entender), mas os alunos do Ensino Médio que decoram 600 termos biológicos por ano não são capazes de entender os princípios elementares da Biologia.





