Pra que serve esse bicho?

(I)

Estive no litoral recentemente e, numa conversa com meus amigos, disse que a craca é o animal que tem o maior pênis em relação ao tamanho do corpo. Maior do que a surpresa deles ao ouvir essa curiosidade foi a minha quando uma amiga perguntou: “Mas o que é uma craca?”. No dia seguinte, na praia, havia um galho na areia cheio de cracas, e então peguei o galho e mostrei para ela. Ela, com cara de indignação, disse: “Nossa, ISSO é uma craca? Pra que serve esse bicho?”.

Ela era a única não-bióloga do grupo em que eu estava, e não simpatizou com a idéia de que os bichos não precisam servir pra alguma coisa. Falei que Darwin estudou cracas por muito tempo e que os historiadores acreditam que ele aprendeu muita taxonomia, morfologia e ontogenética em seu trabalho com esses cirripédios, além de ter percebido coisas que o ajudaram mais tarde a escrever sua obra prima, A Origem das Espécies. Mas não adiantou.

(II)

Existe um grupo de seres vivos “conhecido” (entre aspas porque na verdade pouca gente conhece, mesmo entre os biólogos) como slime molds. Sua posição filogenética ainda é controversa; uns acham que eles são um grupo de fungos e outros defendem que eles são um grupo à parte, apenas aparentado aos fungos. De qualquer forma, tem gente que faz pesquisa com eles. E alguns desses pesquisadores fizeram uma descoberta muito interessante recentemente. Em resumo (mas vale a pena ler o artigo), ao estudar o padrão de crescimento e forageio (busca por alimento) de uma espécie de slime, descobriram uma forma de revolucionar os problemas de logística e transporte do Japão (!!).

(III)

Então, pra que servem slime molds? Ora, agora podemos planejar redes de transporte a partir do padrão de crescimento deles. Mas, antes disso, eles não serviam pra nada, assim como o fungo P. notatum não servia pra nada antes de descobrirem a penicilina. Mas e as cracas? E as baratas que nos enojam e os pernilongos que nos estorvam a noite? Pra que servem? No máximo, para manter o equilíbrio ecológico em seus hábitats, de onde extraímos coisas “úteis”. Na verdade, se formos medir o valor das espécies pela serventia que elas podem ter ao homem, é provável que descubramos que boa parte das espécies “não serve pra nada”. Mas, mesmo assim, elas fascinam muita gente, que dedica a vida inteira ao estudo dessas criaturas. Por que?

Cada louco com sua mania, poderíamos dizer. Se tem um cara que quer passar a vida estudando baratas, problema dele. Quem sabe um dia ele descubra uma forma de matar todas elas. Não é bem assim, e por vários motivos. Um deles (a importância do conhecimento básico) é muito bem tratado num texto da Laura, em que ela conta o preconceito que sofre por estudar bichos que “não servem pra nada”. Um outro motivo é que, pelo menos no Brasil, é muito provável que esse louco esteja estudando baratas com o seu dinheiro, já que o Estado financia boa parte das pesquisas no país.

Para finalizar, podemos dizer que quase a totalidade das espécies já existia muito antes do ser humano surgir na face da Terra. Assim, seria muito “especiocêntrico”, para não dizer mesquinho, achar que elas estão aí pra que a gente descubra serventias, como se elas fossem “um presente de Deus” pra gente explorar. Cada espécie tem uma história única, que nunca mais se vai se repetir. Cada espécie tem sua forma especial de se relacionar com as outras e tem um papel no ecossistema. Cada uma delas tem sua estratégia de sobrevivência e seus truques reprodutivos que, mesmo quando não são exclusivos, nos intrigam. Todas elas, desde o ser humano até a mais primitiva arqueobactéria, estão interligadas na sediciosa teia biológica da evolução. Se mergulhar nesse mar de mistérios em busca de respostas que nos deslumbram não bastar para que estudar essas espécies seja importante, eu realmente não sei o que pode ser. No fundo, uma craca, uma serpente ou um ser humano “servem” pra mesma coisa: absolutamente nada. São todos frutos igualmente especiais da grande árvore da vida.

Leia também:

3 Comentários
Categoria: blog
Um pequeno mal entendido. Ou não.

O naturalista britânico Charles Darwin foi imortalizado pelo livro que publicou em 1859, “A Origem das Espécies por meio da Seleção Natural”. Nesse livro ele faz uma grande síntese de várias idéias sobre evolução biológica que estavam borbulhando em sua época e propõe um mecanismo pelo qual a evolução poderia ocorrer: a seleção natural. A idéia básica é a de que existem muito mais indivíduos nas populações do que a quantidade que os recursos do ambiente dão conta de sustentar (idéia que ele emprestou de Malthus) e, sendo assim, vários indivíduos morrem. Quais indivíduos? Darwin acreditava, embora não soubesse explicar, que existiam variações entre os indivíduos de uma mesma espécie e que essas diferenças tornavam alguns indivíduos mais aptos do que outros a sobreviver em determinado ambiente. Assim, os indivíduos que tivessem características que os favorecessem a conseguir mais alimento, gastar menos energia, etc., teriam uma chance muito maior de sobreviver do que os que não tivessem essas características ou a tivessem num nível menos eficiente. É importante ressaltar que o que define se uma característica é vantajosa ou não é o ambiente; ter respiração branquial pode ser uma ótima estratégia se você for um ser aquático, mas provavelmente vai te matar se você for terrestre.

A idéia parece simples, mas não é tão fácil assim entende-la, e as tentativas de simplificação da teoria de Darwin dificilmente são bem sucedidas. Duas frases ficaram muito famosas e são sempre lembradas quando se fala de evolução: (1) “Os mais fortes sobrevivem” e (2) “A sobrevivência dos mais aptos”, e muita gente acha que a evolução é simples assim.

No séc. XIX, um grupo bastante parcial utilizou a teoria da evolução de Darwin para justificar as desigualdades sociais e para propor uma forma “científica” de acabar com ela. Esse movimento ficou conhecido como Darwinismo Social, e a idéia era bem clara: “Se são os mais aptos que sobrevivem, e os pobres não conseguem sobreviver direito, então eles não estão bem adaptados à vida na sociedade. Eles devem ser eliminados”. É isso mesmo que você leu. Se existem ricos e pobres, é por que os ricos devem ter alguma característica intrínseca que os favorece, e essa característica é boa para a espécie humana. Os pobres, por sua vez, são pobres por que devem ter alguma característica intrínseca (incompetência, vagabundagem, etc.) que os desfavorece, e essas características são ruins para a espécie humana. Sendo assim, se a gente matar todos os pobres, vamos eliminar os indivíduos que têm características ruins para a nossa espécie e, dessa forma, vamos contribuir para a evolução humana. Mãos a obra!

De fato, colocaram as mãos pra trabalhar. A idéia de melhoramento da espécie humana, conhecida como Eugenia, mobilizou muitas pessoas. Essas pessoas se organizavam em instituições (Sociedades Eugênicas) e faziam intervenções na sociedade como, por exemplo, programas de castração de pobres. No séc. XX, Hitler, um grande camarada eugênico, utilizou esse mesmo ideário para dizer que os judeus e os negros eram inferiores e para justificar que a raça ariana era a melhor. No Brasil existia o Comitê Central de Eugenismo, que propunha a proibição da imigração de não brancos e medidas para impedir a miscigenação. Dizem as más línguas que Monteiro Lobato, o renomado escritor infantil, fazia parte desse comitê (Jeca Tatu e Tia Nastácia que o digam!).

Darwin não tinha a menor intenção de que nada disso ocorresse, e inclusive dedicou um livro inteiro à evolução humana (“The Descent of Man”, de 1869) para deixar claro que há diferenças entre a seleção natural e a seleção em humanos. Mas isso não adiantou muito; seu próprio filho (um dos 10) foi um dos primeiros cérebros do movimento eugênico na Inglaterra.

Foi tudo isso um grande mal entendido dos escritos de Darwin ou será que distorceram propositalmente a teoria do grande naturalista para justificar genocídios e campos de concentração? No final das contas, não importa muito. Esse movimento, embora enfraquecido, ainda está vivo, e tomou outras formas. Enquanto muita gente acha que evolução se resume a pescoços de girafa tentando alcançar as folhas mais altas das árvores, negros e outras minorias ainda sofrem intensa discriminação, e de vez em quando ainda aparecem alguns cientistas falando das vantagens do “embranquecimento da população mundial”.

O fato é que é preciso entender muito bem a teoria evolutiva para desconstruir esses argumentos tendenciosos e perceber que não é bem assim que as coisas funcionam. “Os mais fortes sobrevivem” é uma simplificação ingênua demais de uma teoria altamente complexa, principalmente quando aplicada a uma espécie que não tem apenas diferenças morfológicas e comportamentais, mas também culturais.

Se alguém achava que a Ciência só faz interface com a sociedade quando aplicada à tecnologia ou à saúde, espero ter dado um bom exemplo para mostrar que essa relação é muito mais íntima do que parece, como bem podem dizer os judeus, ou os negros, ou os pobres.

Para saber mais, leia esse texto aqui:

Bizzo, 1995 – Eugenia: Quando a Biologia faz falta ao cidadão.

Eugenics_congress_logo

Leia também:

2 Comentários
Categoria: blog
Sobre mitocôndrias, esfingomielina e estípulas interpeciolares

Estava lendo um livro esses dias que dizia que, na cidade de São Paulo, as aulas de Biologia do Ensino Médio têm uma média de seis termos novos definidos por aula. Se fizermos as contas considerando que em geral as escolas têm três aulas de Biologia por semana, veremos que o número de termos novos “aprendidos” pelos alunos é de cerca de 600 por ano. Não sei, mas acho que se eu soubesse falar 600 palavras em russo talvez eu fosse capaz de me comunicar rudimentarmente com alguns russos (os dispostos a fazer um esforço pra me entender), mas os alunos do Ensino Médio que decoram 600 termos biológicos por ano não são capazes de entender os princípios elementares da Biologia.

Os intermináveis termos técnicos sempre foram objeto de muitas reclamações de alunos em relação à Biologia, que acaba sendo vista como uma matéria “decoreba”, uma lista enorme de nomes difíceis e pomposos que devem ser memorizados e colocados nas provas. As relações entre esses nomes – e muitas vezes até seus significados – são vistas como algo secundário, quase desimportante. Na aula de Botânica, é muito importante saber que as plantas são autótrofas, o que quer que seja isso. Na de Ecologia, não se pode esquecer que as plantas têm o papel de produtores nas cadeias alimentares. A relação entre ser autótrofo e ser produtor, que é o mais importante da história, acaba se perdendo no meio dos termos, ficando em segundo plano.

Nessa situação, há dois grandes problemas. O primeiro deles é a priorização (tanto por parte dos alunos quanto dos professores) da memorização dos nomes em detrimento do entendimento dos processos: mitose não é o processo pelo qual uma célula se divide em duas; mitose é “interfase + prófase + metáfase + anáfase + telófase”. A importância de compreender que as células têm um ciclo e que os tecidos dos seres vivos estão constantemente renovando suas células dá lugar à lembrança de “picuinhas”, como a de que a telófase dos animais tem citocinece centrípeta e a das plantas tem citocinece centrífuga. Já vi muitos alunos que eram capazes de explicar todas as fases da mitose com todos os nomes difíceis, mas que pensavam que cada célula “escolhia” uma fase e ficava nela o tempo todo.

O outro grande problema é que os termos complicados dificultam a vida dos corajosos alunos que querem entender os processos, desestimulando-os. Semana passada um aluno, que estava tendo dificuldades com um texto sobre vírus, me chamou para perguntar o que era “endoparasita obrigatório”. Depois que eu expliquei do que se tratava, todo o resto das coisas que ele tinha lido no texto fez muito mais sentido, e ele me disse: “Ahhh… Então por que o cara escreve assim, tão difícil? Parece que ele faz isso de propósito, só pra ninguém entender o que ele fala.” Eu disse a ele que não era bem assim, mas não consegui me articular muito bem para explicar a importância desses termos para a Ciência. Acho que até então eu nunca tinha parado pra pensar nisso.

Porque será que os detentores do conhecimento científico se orgulham tanto de sua terminologia difícil e acham tão importante que ela seja entendida por todos que queriam aprender Ciência? Porque falar que “a membrana celular tem composição lipoproteica e disposição em mosaico-fluido” ao invés de “a película que reveste e delimita a célula é formada por lipídeos e proteínas que se arranjam de tal forma que eles nunca ficam parados no mesmo lugar”?

É estranho, mas a primeira frase, mesmo muito mais curta, parece dizer muito mais do que a segunda. Mas isso, claro, só para quem compreende o que é uma membrana celular e qual é a sua dinâmica. Os termos técnicos da Biologia são sim um código, mas um código de compactação e não um código criptográfico. A intenção não é esconder o significado real das palavras, mas sim agregar vários conceitos em uma única palavra. Assim, “lisossomo” não é só uma forma chique de dizer “bolsa cheia de enzimas que digerem as partículas que entram na célula”, mas uma forma de sintetizar uma ampla gama de conceitos e processos de uma forma que todos os que forem estudar Biologia Celular entendam da mesma maneira. Um lisossomo no Brasil é o mesmo que um lisossomo nos Estados Unidos, na Botsuana, ou em qualquer outro lugar do mundo. Isso é muito importante, pois, dessa forma, um cientista da Armênia pode ler um artigo de um cientista de Laos e ter certeza de que ele está falando daquele lisossomo– até mesmo porque não existe outro.

Mas e os estudantes, como ficam nessa história? Eles não são cientistas, e muitos deles não almejam ser. Vemos de forma muito negativa o fato de eles enxergarem a Ciência como algo inatingível, mas quando eles se interessam em aprender Ciência, se deparam com textos que são incapazes de entender. É totalmente compreensível que os alunos pensem que esses textos não foram feitos para eles e que achem que decorar as palavras esquisitas é a forma mais adequada de aprender Ciência.

A Biologia escolar não deve abolir os termos. “Sintetizar” não é o mesmo que “produzir” e “população” não é o mesmo que “bocado de indivíduos”. Tornar esses termos sinônimos não é o caminho para tornar a Biologia uma matéria mais interessante nas escolas. Isso na verdade só iria piorar as coisas, pois distanciaria os alunos ainda mais da Ciência. A mudança que precisa acontecer é exatamente o oposto disso. Deve haver uma aproximação dos alunos à Ciência, mas uma aproximação verdadeira. Eles devem entender como a Ciência é produzida e como ela funciona, sem misticismos, sem ilusões. A Biologia escolar tem conteúdo demais e aprendizagem de menos. Se os alunos entendessem como o conhecimento biológico é construído, eles entenderiam, entre muitas outras coisas, a origem e a importância dos termos, e a aprendizagem não ficaria reduzida à memorização de nomes e processos. A quantidade de informações advindas do campo da Biologia é enorme e não tem como ensinar tudo para os alunos. No entanto, tem como ensinar a eles como a Ciência funciona pegando o conhecimento biológico como pano de fundo. O mesmo poderia acontecer nas aulas de Física e Química.

Entendendo como a Ciência é construída, os alunos poderiam fazer suas próprias pesquisas ao invés de ficar em suas carteiras esperando o produto acabado da Ciência cair em seus colos de forma descontextualizada. Para isso, seria preciso repensar todo o ensino de Ciências. Todavia, a necessidade de reavaliar as práticas educacionais não é novidade pra ninguém. O ensino vai muito mal e não é só no Brasil. É necessário relembrar uma coisa óbvia: o mais importante numa aula de Ciências é aprender Ciências! Como a quantidade de informação científica é gigantesca e só tende a aumentar, seria muito mais negócio focalizar a construção do conhecimento científico para formar alunos que conheçam a base de cada campo da Ciência e saibam aplicar esse conhecimento do que insistir num ensino enciclopédico que as últimas décadas deixaram bem claro que não funciona.

Leia também:

4 Comentários
Categoria: blog