Galileu, matemático , cortesão e desonesto?

A Nature publicou ontem um pequeno texto (ao qual tive conhecimento pelo colega blogueiro Rafael do RNAm e que também escreveu um texto sobre o assunto) dizendo que evidencias recentes mostram que Galileu defendeu o sistema heliocêntrico apesar de suas observações não sustentarem tal sistema.

Tenho uma novidade pra Nature, tal fato já é sabido pela história da ciência a muito mais tempo. Aliás, o artigo em si é bastante estranho, e não estivesse publicado no site da Nature, eu ia dizer que era obra do G1. Mas vamos ao que interessa.

Galileu, Matemático.
Todo mundo sabe que Galileu foi um matemático. Deu aulas na universidade de Pádua, até ser escolhido como matemático oficial da corte dos Médici. O que pouca gente sabe é que a matemática não tinha o estatuto social que tem hoje.

Platão, de vermelho e Aristóteles de azul.

À época, a filosofia natural era a grande disciplina e tinha como modelo central a física aristotélica e a descrição celeste de Ptolomeu. Aristóteles classificava o universo em um mundo sublunar, ou seja, tudo aquilo que fica disposto “abaixo” da Lua (incluindo a própria Lua), e o mundo supralunar, ou tudo aquilo que fica disposto acima da Lua.

Em tal sistema, a Terra fica ao centro do Universo com a Lua, os planetas e todas as estrelas orbitando ao seu redor. Embora pareça favorecer a importância de nosso planeta no Universo, a verdade é que a justificativa de Aristóteles para isso é precisamente a inversa. Para o grego, o mundo supralunar era perfeito, existia desde sempre e continuaria existindo de maneira imutável. Os planetas e estrelas não tinham imperfeições, eram esferas perfeitas, se movendo em orbitas circulares ao redor da Terra em um mundo incorruptível.

O mundo sublunar por sua vez se situava no centro do Universo justamente por ser composto por uma substância comum, que não se “misturava” ao mundo supralunar. Na época de Galileu, este sistema era aceito da mesma maneira que aceitamos hoje um universo cheio de planetas que nada se parecem com esferas perfeitas.

Mas divago. Tudo isso era pra dizer que a filosofia natural possuía um estatuto social superior ao da matemática por exemplo. E Galileu era um homem que queria combater o aristotelismo. Não por birra, mas por acreditar que a matemática tinha grande papel no entendimento do mundo sublunar e supralunar. Para Galileu, era preciso matematizar o universo, unificando estes dois mundos.

O problema todo era justamente que para discutir em pé de igualdade com os aristotélicos Galileu precisava ter um status social compatível com seus interlocutores e ser um matemático de Pádua não era o suficiente.

Galileu Galileu.

Galileu, cortesão.
Na época de Galileu, a ciência como a conhecemos hoje ainda não existia. Por isso mesmo, não havia periódicos, sociedades científicas ou peer-review. Em outras palavras, os mecanismos atuais de validação ainda não tinham se estabelecido. Sem estes mecanismos, a validação era feita por um complexo sistema de mecenato.

Galileu sabia muito bem disso e já estava acostumado com as intrincadas regras de etiqueta das cortes italianas. Tentou por alguns anos se tornar o matemático filósofo da corte dos Médici, mas tal feito só seria conseguido quando da publicação de seu famoso Siderius Nuncius.

Como se sabe, Galileu melhorou sensivelmente a qualidade dos telescópios da época. De início, o telescópio de Galileu foi usado como um instrumento militar, mas em dado momento, o italiano teve a brilhante idéia de apontar sua lente para o céu. O resultado deste fato veio mais tarde, em seu livro que descrevia as descobertas feitas, como as crateras lunares e as luas de Júpiter.

Ao publicar o livro, Galileu o ofereceu aos Médici. Mais do que isso, nomeou as quatro luas de Júpiter que havia observado com o nome de altos membros da poderosa família italiana. Por regra da corte, ao ser presenteado, um mecenas deveria responder à altura, o que na época rendeu a Galileu o cargo de filósofo e matemático do Príncipe Cósimo II de Médici.

Ao manobrar sua aceitação na corte do grande mecenas, o matemático italiano finalmente adquiriu o estatuto social necessário para dialogar em igual nível com os aristotélicos.

Copérnico Vs Tycho Brahe.
A pergunta de por que Galileu era copernicano não encontra muita resposta. É sabido que ele chegou a defender o sistema ptolomaico, mas mudou de idéia quando ainda dava aulas em Pádua. Uma das explicações sugeridas é a de que o italiano percebeu em Copérnico um sistema mais elegante. Elegante não em termos estéticos, mas em termos matemáticos.

Via de regra, o modelo heliocêntrico de Copérnico, em termos de predição do movimento dos astros, não era muito melhor do que o de Ptolomeu. No entanto, era matematicamente mais coerente. Com efeito, os historiadores concordam que nesta época, poucos cientistas eram capazes de entender Copérnico. Galileu e Kepler foram dois destes privilegiados.

O caso é que o sistema de Ptolomeu só começou a cair quando o próprio aristotelismo passou a ser contestado. Como eu já disse mais acima, para Aristóteles o mundo supralunar era perfeito e imutável. Mas em 1572 uma supernova pode ser observada a olho nu, brilhou no firmamento como se fosse uma nova estrela para desaparecer por completo duas semanas depois.

Alguns anos depois um cometa pode ser observado por Tycho Brahe que, com os instrumentos de precisão mais potentes da época, calculou que tal cometa estava se deslocando no espaço, não sendo assim um fenômeno atmosférico como antes se acreditava. Galileu também ajudou no processo ao observar as luas de Júpiter e as manchas solares.

Em 1618 três cometas puderam ser observados. Tal fato atraiu a atenção dos mecenas que passaram a se interessar por explicações sobre o fenômeno. Galileu foi um dos interpelados sobre os cometas, bem como os jesuítas. Um dos membros da Companhia de Jesus, Orazio Grassi produziu uma conferência pública que resultou em um texto sobre os cometas. Neste texto, Grassi usa o sistema tychonico, que coloca a Terra no centro do Universo, o Sol a orbitar ao redor da Terra e todo o resto a orbitar ao redor do Sol, como parte da explicação sobre os cometas.

Nicolau Copérnico.

Galileu não pode se ausentar à disputa. Não produzir uma resposta à Grassi seria o mesmo que apoiar o sistema de Tycho. A esta altura o sistema de Copérnico já havia sido proibido pela igreja, o que deixou a Galileu uma única opção: Desacreditar o sistema tychonico.

Atacar tal sistema trazia para Galileu dois benefícios. O primeiro era impedir que o sistema de Tycho fosse aceito como o novo modelo canônico. O segundo era garantir a si próprio a imagem de grande autoridade astronômica, impedindo assim que os jesuítas assumissem tal papel. Foi durante toda a disputa que o cardeal Barberini, amigo de Galileu, foi eleito como novo Papa. A conjuntura foi tão boa que, se usando da mesma tática que havia usado para ser aceito na corte dos Médici, o italiano dedicou seu livro O Ensaiador ao novo Papa de modo a receber a proteção de um mecenas ainda mais poderoso que Cósimo.

Embora em nenhum momento Galileu tenha defendido Copérnico de forma aberta, O Ensaiador era um livro com duras críticas ao aristotelismo, e gozava da aceitação do Príncipe maior da Igreja Católica.

Galileu e a Inquisição.

A queda do favorito.
Na boa conjuntura em que se encontrava, Galileu pediu permissão à Urbano VIII para escrever um livro aonde defenderia o heliocentrismo de Copérnico. O Papa permitiu que Galileu assim o fizesse, mas não de forma a apresentar uma nova teoria, apenas como um exercício hipotético. Urbano VIII chegou mesmo a dar algumas sugestões sobre o conteúdo do livro.

Galileu, seguro de sua proteção, escreveu o livro na forma de diálogo, não só defendendo o copernicianismo abertamente e não de forma velada como sugerira o Papa, mas colocando na voz de Simplício, o personagem tacanho e ignorante de seu diálogo, algumas frases que o próprio Urbano teria proferido.

O Diálogo Sobre os Dois Sistemas do Mundo caiu como uma bomba. Urbano já se encontrava em posição difícil, sofrendo ameaças dos espanhóis que durante a guerra dos 30 anos começaram a acusar o Papa de ajudar os franceses, e ameaçaram uma invasão a Roma. Além disso, muitos dos críticos de Urbano diziam que ele protegia os hereges e pecadores.

Galileu foi a gota d’água. Ao ver suas próprias palavras reproduzidas no livro e precisando demonstrar seu pulso firme, Urbano iniciou o processo que levou Galileu à sua prisão perpétua domiciliar. O processo de abandono do cliente pelo seu mecenas é conhecido por “queda do favorito”. Galileu, no final, sofreu pelo mesmo sistema que o havia lhe dado tudo o que tinha.

Corroboração sem dados.
Eu sei que a história é longa, mas necessária para entender o porquê o artigo da Nature não só não traz nenhuma novidade para a história da ciência, como é permeado por anacronismos que não deveriam ser feitos de forma alguma.

O fato é que Galileu já era copernicano antes mesmo de ter criado seu famoso telescópio. Ao contrário do que o artigo faz parecer, não foram suas observações que o levaram a defender o heliocentrismo. Da mesma forma, as observações feitas por Galileu também não poderiam levá-lo a defender o sistema tychonico.

Isso por que ambos os modelos, o de Copérnico e o de Tycho Brahe, eram equivalentes e resolviam os grandes “buracos” do sistema de Ptolomeu. Com efeito, com os dados adquiridos na época, seja lá por qual meio, não era possível escolher qualquer um dos dois modelos como correto.

Para piorar, Tycho Brahe era considerado o maior astrônomo da época, com um castelo construído em uma ilha recheado de aparelhos de precisão para estudar os movimentos dos astros. Copérnico era só um padreco muito pouco conhecido.

A despeito disso, não podemos ser anacrônicos e olhar para uma época pré-ciência usando a metodologia moderna. Os dados que confirmavam o heliocentrismo pouco importavam para Galileu. O que ele buscava era a unificação entre o céu e a Terra. Seus trabalhos em mecânica, de longe as maiores contribuições que ele deu para a ciência, estão em completa harmonia com o fato, haja vista o método que ele usou para levá-los a cabo, completamente incompatível com os métodos aristotélicos da época.

Dizer que Galileu escondeu os problemas do heliocentrismo, ou que defendia Copérnico apesar de suas observações não corroborarem com o sistema não é só errado, é grosseiramente errado.

Bibliografia

Biagioli, Mario. Galileo, Courtier: The Practice of Science in the Culture of Absolutism. Chicago: University Of Chicago Press, 1993.

Biagioli, Mario. “Galileo the Emblem Maker”. Isis, vol. 81, no. 2, 1990, p. 230-258.

Gingerich, Owen. ” ‘Crisis’ versus aesthetic in the Copernican Revolution”. Vistas in astronomy, vol. 17, 1975, p.855, reprinted in The eye of heaven: Ptolemy, Copernicus, Kepler (New York, American Institute of Physics, 1993.

Moss, Jean Dietz. “Galileo’s Letter to Christina: Some Rhetorical Considerations”. Renaissance Quarterly, vol. 36, no. 4, 1983, p. 547-576.

Pedersen, Olaf, “Galileo and the Council of Trent: The Galileo Affair revisited”, Journal for the History of Astronomy, 14 (1983) 1-29.

Segre, Michael. “The Role of Experiment in Galileo’s Physics”. Archive for History of Exact Sciences, 1980, vol. 23, no. 3, p. 227-252.

Westfall, Richard S. “Galileo and the Telescope. Science and Patronage”. Isis, 76 (1985) 11-30.

Leia também:

5 Comentários
Categoria: blog
Ciência em fase beta.

Publicar um artigo científico é, em geral, um processo laborioso e até certo ponto burocrático. Além do evidente trabalho de escrever o artigo, é preciso submetê-lo a uma revista apropriada e torcer por uma resposta positiva. Daí até a publicação efetiva o artigo ainda passa pela peer review e etc.

O caso é que na maioria das revistas, da aceitação do artigo à publicação, existe um hiato de, em geral, um ano. Dependendo da revista, esse período pode aumentar ainda mais, eventualmente, chegando a três anos.

Disso resulta que é muito comum ver os pesquisadores distribuindo seus trabalhos entre seus colegas antes de ele ser publicado. A questão que podemos levantar disso tudo é, até quando tal situação vai se manter?

Quer dizer, é compreensível a importância do artigo publicado em uma revista científica. Tem a ver com a famosa “auto-validação” da comunidade. Quando um artigo é publicado, significa que esta validado. Por outro lado, tal artigo já estava “nas mãos” da comunidade antes disso, e em alguns casos, já poderia estar sendo usado como conhecimento validado.

Se assim o é, podemos dizer que o artigo já estava validado pela comunidade, embora não pelo método “oficial”. Extrapolando um pouco a situação toda, e fazendo um monte de especulações, podemos imaginar um cenário futuro curioso.

E se os pesquisadores começassem a disponibilizar seus artigos em seus blogs ou sites pessoais? E mais, e se isso fosse o suficiente para o trabalho ser reconhecido pela comunidade? Afinal, por mais referree’s que uma revista possa arranjar para avaliar seu artigo, eles ainda seriam menos do que os que poderiam potencialmente realizar a mesma atividade caso o artigo estivesse amplamente disponível na internet.

De fato, é possível dizer que desta forma, toda a comunidade de pares poderia, em última análise, avaliar um artigo qualquer. Mais ainda, o pesquisador em questão poderia ir modificando seu artigo conforme fosse recebendo críticas ou sugestões, além de poder constantemente atualizá-lo conforme fosse desenvolvendo a pesquisa.

Isso produz um efeito semelhante ao que vemos hoje em dia com os softwares disponíveis pelas grandes empresas de internet. Eles estão sempre em fase beta, por que estão sempre sendo modificados pra atender o feedback dos usuários.

Será este o destino da ciência 2.0? Estar em fase beta? E com uma comunidade capaz de validar os trabalhos científicos sem que eles sejam publicados em revistas de renome, qual seria o destino destas publicações?

É um cenário extremo, mas não de todo impossível.

Leia também:

1 Comentário
Categoria: blog
Divulgando o estranho mundo da ciência.

Acredito que exista um problema básico para a divulgação científica que poucas vezes é posto em evidência. O problema em questão é aceitar o fato de que o mundo em que o cientista vive, não é o mesmo mundo que as pessoas em geral vivem. Pode parecer uma idéia ingênua, mas o caso é que o mundo explicado pela ciência, não é de modo algum, o mundo do dia-a-dia. E este aspecto influencia diretamente na capacidade de um texto de divulgação científica cumprir o seu papel.

Há algo no treinamento do cientista que torna noções como o heliocentrismo, ou inércia, ou evolução biológica, tão naturais que são, de certa forma, aceitos a priori. Embora de alguma maneira as bases para isso estejam no nosso sistema educacional, nenhum destes conceitos são naturais para o senso-comum.

Alguém pode achar absurdo eu estar defendendo que em pleno século XXI, as pessoas não achem natural a Terra estar se movendo ao redor do Sol, mas o ponto que quero defender é que ninguém acreditaria que a Terra é quem se move não fosse o caso de dizermos isso a elas desde crianças.

E assumir isso não significa considerar que as pessoas, com exceção dos cientistas, sejam todas intelectualmente inferiores. Não é preciso sequer fazer um exercício mental para entendermos esta noção. Se tomarmos a física de Aristóteles como exemplo, vamos compreender perfeitamente que ela era, basicamente, uma tentativa elegante de explicar o que o senso comum daquela época, e das épocas anteriores a ela, e de muitas outras épocas posteriores, via.

Qualquer indivíduo nascido na Grécia antiga olhava para o céu, e observava que em um período relativamente regular de tempo uma enorme esfera luminosa ia de um ponto a outro do céu, desaparecendo completamente por outro período relativamente regular. Não há nada neste tipo de observação que nos diga intuitivamente que estamos viajando ao redor desta esfera luminosa. Antes disso, é perfeitamente natural supor que é a dita esfera quem atravessa o nosso céu e que, portanto, esta girando ao redor do lugar aonde vivemos.

Isso evidentemente não impediu que, na mesma Grécia antiga, alguns indivíduos considerassem que era o Sol quem estava fixo e a Terra é que se movia ao seu redor. Mas essa não é uma noção natural, e como tal foi amplamente refutada por uma série de argumentos que, sob nossa perspectiva atual, estão errados.

Um destes argumentos é que se a Terra estivesse se movendo, isso resultaria em uma espécie de “força contrária”, que iria arrastar tudo o que estivesse em sua superfície na direção oposta ao movimento. Essa noção é, mais uma vez, perfeitamente natural. Vemos isso desde crianças, quando colocamos algum objeto em cima de um carrinho de brinquedo, por exemplo, e o empurramos. Se o objeto não estiver de alguma forma preso, irá, dependendo da força com a qual o empurramos, cair.

A experiência nos diz que é o Sol quem se move ao redor da Terra por que é isso o que vemos, e é isso que sentimos. E embora o mundo moderno nos diga o contrário, passamos a maior parte da vida assumindo essas noções tão antinaturais por mera argumentação de autoridade. Pergunte a uma criança se é a Terra ou o Sol quem está se movendo, e ela vai dizer que é a Terra. Pergunte o motivo, e ela vai dizer que foi o professor quem disse.

Pode-se argumentar que com a progressão pelo sistema educacional, as pessoas passam dos conceitos simples para conceitos mais complexos, compreendendo finalmente o heliocentrismo, e o motivo de não estarmos todos voando para fora da Terra, a despeito da velocidade com que ela se move. Mas ainda assim, meu ponto persiste, as pessoas eventualmente aprendem o conceito, mas continuam vivendo em um mundo aonde eles não são naturalmente intuitivos.

De certa maneira, é como se os cientistas vivessem em um planeta vizinho ao das pessoas que não estão envolvidas diretamente com a atividade científica. E ao mesmo tempo, os diferentes tipos de cientistas vivem em continentes separados em seu próprio mundo.

Fazer divulgação científica é, seguindo na metáfora do parágrafo anterior, como oferecer material “turístico”. Mostramos imagens do nosso mundo, dizemos como ele se parece, seus cheiros, suas cores, as diversões e as partes ruins. Convencemos as pessoas de que aquele lugar existe, e é, apesar dos problemas, um bom lugar para se visitar.

O divulgador de ciência deve ter em mente essa separação. Não podemos ser ingênuos ou arrogantes a ponto de pensarmos que se uma pessoa não acredita em evolução das espécies, por exemplo, o faça por ser dogmática ou por não compreender o processo, ou por desonestidade. Por vezes, aceitar qualquer teoria científica pode significar uma transformação mais profunda, uma mudança de mundo.

Divulgação científica feita sem a noção de que seu trabalho é, por vezes, apresentar um mundo estranho, pode acabar não atingindo seu objetivo e, por vezes, pode ser até prejudicial.

Leia também:

4 Comentários
Categoria: blog
Auto-validação e a blogosfera científica.

Institucionalização! Este foi o grande passo dado pela ciência no período da revolução científica. O resultado desse passo foi o surgimento de um dos maiores empreendimentos humanos já vistos. A ciência cresceu, ganhou credibilidade e afeta ativamente o meio de vida da sociedade.

É curioso notar como a institucionalização em geral resulta no crescimento acelerado de uma atividade qualquer. Mais do que isso, faz com que a atividade em questão ganhe respeito e articulação política. As religiões aprenderam isso bastante cedo. A ciência demorou um pouco mais.

Uma das principais características resultantes da institucionalização é a chamada auto-validação. Isso quer dizer basicamente que uma comunidade qualquer é capaz de validar a si própria. Parece estranho? Mas não é.

Se tomarmos a ciência como exemplo, vemos o processo de auto-validação sendo constantemente garantido. Seja na formação de associações científicas, ou na produção de periódicos, congressos científicos, conselhos federais e por aí vai. O próprio processo conhecido como “peer review” é um mecanismo, inserido na própria metodologia científica, de auto-validação.

Não basta desenvolver um experimento científico, ou uma teoria, ou ambos. É preciso a aceitação da comunidade. E a aceitação da comunidade se faz na observação de determinadas regras que a própria comunidade construiu.

Mas afinal, o que tudo isso tem a ver com a blogosfera científica do título? Bom, é notável como a divulgação científica cresceu no último ano no Brasil. Especialmente na chamada blogosfera. Os blogs de ciência se multiplicaram, ganharam destaque, tiveram seu próprio evento e por aí vai.

Acontece que a blogosfera científica encontra-se justamente neste processo, não só de institucionalização, mas de auto-validação. Aliás, me arrisco a dizer que a blogosfera brasileira se encontra neste pé a um bom tempo. Mas eu não sou o maior especialista no caso, me atenho ao grupo do qual faço parte.

O que me deixa bastante preocupado é que neste momento de consolidação dos blogs de ciência, muita gente ainda insista no velho paradigma da “relevância”, seja medida por links, seja medida pelo número de prêmios que o blog eventualmente acumule.

Acho graça quando vejo blogueiros defendendo que um blog é tanto mais relevante quanto tanto maior for o número de links em outros blogs. É um argumento claramente auto-validativo: “Meu blog é bom porque aquele outro blog, que tem milhares de visitantes diários e já foi matéria do Jornal da Globo, me linka”.

Resulta que com essa ideia na cabeça, quem sofre é a divulgação científica. Na expectativa de agradar a “blogosfera mãe”, o blogueiro de ciências pode acabar direcionando seu conteúdo para um publico alvo que, apesar das opiniões contrárias, não é garantia de ser um público melhor que qualquer outro.

Acho um pouco ingênua a noção de que um blogueiro de política, ou de humor, ou de tecnologia, tem capacidades melhores do que, digamos, blogueiros miguxos, para identificar um bom material de divulgação científica. Há a esperança constante de que pessoas que fazem bem o seu trabalho, seja na área que for, possuem um bom senso mais apurado.

Eventualmente isso pode ser verdade, mas não há garantias aqui. Em todo caso, bom senso é bom, mas não é o bastante. Eu me considero uma pessoa relativamente razoável, de bom senso. Mas isso não me torna eficaz em apontar bons textos sobre política, embora eu certamente sou capaz de identificar aqueles textos que pecam no exagero, ou na falta de profundidade.

Com os textos científicos ocorre o mesmo. Pessoas de bom senso são capazes de identificar pseudo-ciência extremista quando olham para um texto desse tipo. Mas talvez deixem passar uma pseudo-ciência bem disfarçada. Ou pior, um texto científico mal produzido e de conteúdo pouco rigoroso.

A questão principal é que na tentativa de se auto-validar, a blogosfera científica perde tempo demais seguindo as regras da outra blogosfera. Entre textos de divulgação, as vezes entre os textos de divulgação, sempre sobram espaços para agradar o colega blogueiro. Tudo em nome da relevância, claro.

Um exemplo disso foram os relatos do EWCLiPo. Dos quatro que li, só um falava sobre as discussões que o evento levantou. Os outros trataram de focar em como os blogueiros são super legais, como o chopp foi bom e, eventualmente, reservavam um parágrafo pra dizer, assim mesmo, de passagem, sobre os temas que o evento tratou.

Senhores, a relevância não está na capacidade de agradar os pares. Esta na capacidade de cumprir com eficácia o objetivo proposto, no nosso caso, divulgar ciência. Ser relevante é passar sua mensagem de forma correta e consistente, atingindo o leitor de maneira permanente. Tarefa fácil? Longe disso.

Existe uma maneira simples de medir esta relevância? De forma alguma. Acredito que o feedback dos leitores do blog, fieis ou não, tenha lá seu valor. Além disso, o tempo é sempre o melhor juiz. É muita ingenuidade achar que se é relevante com um blog de um ou dois anos de idade.

Em todo caso, tenho cá a certeza de que nem o Google Analitycs, nem o blogueiro famoso, são capazes de dizer quem é ou quem deixa de ser relevante.

Leia também:

25 Comentários
Categoria: blog