Aos periódicos tudo, à ciência o que sobrar…

Antes de mais nada leiam este texto…

Não leu? Não sabe inglês? Eu resumo rapidinho. Basicamente o texto chama atenção para um artigo que relata a pratica de alguns periódicos de pedir para autores de artigos aceitos para publicação citarem outros artigos publicados no mesmo periódico.

O título do texto do Ben Goldacre resume bem a situação: “nós aceitamos seu artigo para publicação mas… ééé… Você poderia citar outros artigos de nosso periódico?”.

Absurdo? Uma ofensa? Violação ética? Sim, todas as anteriores e, mais do que isso, completamente esperado.

 

Ciência e periódicos BFF’s.
A primeira coisa que precisamos entender sobre os periódicos é que eles eram necessários, MUITO necessários, no século XIX. Ok, muito necessários por mais tempo do que isso. O caso é que inicialmente eles surgiram para resolver o problema de comunicar para a comunidade os trabalhos sendo apresentados nas sociedades científicas de modo a ampliar o diálogo.

Tudo ia bem, ciência e periódicos viraram melhores amigos para sempre. A comunidade foi depositando cada vez mais sua confiança nestes nem sempre pequenos amontoados de papel e letras com ideias tão incríveis e que mudaram o mundo. Mas acaba que os periódicos são daqueles amigos interesseiros que só temos quando estamos bem. Eles não estão lá por que gostam de nós e se preocupam com o nosso futuro, não, eles só estão lá por que esperam lucrar com a relação de amizade.

 

It’s a trap!
Óh comunidade científica, você não aprendeu nada com O Retorno do Jedi? Acaba que a Estrela da Morte não só está operacional como tem seu escudo de força funcionando a todo vapor. E a culpa é só nossa, por termos permitido que o lado negro nos seduzisse.

Fomos nós, enquanto comunidade, que demos aos periódicos a capacidade de ditar nossa posição profissional, a qualidade do nosso trabalho acadêmico, se nossa produção científica vale a pena ser publicada, se podemos ou não ter acesso aos trabalhos uns dos outros…

Sim, tivemos um ou outro Almirante Ackbar nos avisando “é uma armadilha”, sim temos um ou outro Han Solo e Princesa Léia tentando contornar o problema do escudo de força (PLoS?), mas ainda estamos parados dentro de uma arma de destruição em massa ouvindo palavras sedutoras ao pé do ouvido de um velho caquético.

 

À ciência o que sobrar.
E é por isso que não devia ser surpresa para ninguém atitudes como a do periódico comentado no artigo indicado pelo Goldacre. Os periódicos não fazem caridade, não estão a serviço da ciência, não se sentem compelidos a seguir regras éticas caso violá-las seja mais rentável.

Periódicos e revistas científicas são, essencialmente, um modelo de negócio que vem dando certo a despeito de não fazerem mais sentido. A favor deles está a narrativa de que o processo de peer-review só é válido quando feito de forma “casada” à publicação do artigo, de que o fator de impacto diz qualquer coisa a respeito da qualidade do periódico, de que os melhores cientistas (ou ao menos os que valem a pena receber atenção do grande público e governo) são os que publicam em periódicos com alto fator de impacto.

Narrativas que a comunidade científica não só aceita de bom grado como não se preocupa em discutir muito. Sim, há vozes dissonantes. Sim, há gente preocupada com o cenário atual, mas em sua maior parte a ciência está preocupada demais com aceleradores de partículas e formas de vida sintéticas para se importar com questões tão menos exotéricas.

O que me deixa mais triste é que a discussão que irá surgir por conta do artigo, prevejo eu querendo muito estar errado, é sobre o que fazer com o periódico X ou Y, ou sobre como modificar o fator de impacto para ficar menos suscetível a “gaming”. Discutir toda a cadeia de produção, validação e publicação de artigos? Pffff, pra que?

Para uma comunidade feita de mentes tão brilhantes, capazes de moldar o futuro da sociedade e os rumos da humanidade, fica difícil entender e aceitar que estamos presos a um modelo que foi criado no século XIX. Nós sequer estamos seguindo aquele modelo que, pelo menos, estava a serviço da ciência.

É inacreditável que o mundo todo esteja passando por uma verdadeira revolução na maneira como as pessoas se comunicam e interagem e que a ciência ainda se deixe constrangir pelos limites do papel (ainda que ele seja um papel digital), dos bloqueios de acesso à produção intelectual (que, é preciso lembrar sempre, é comercializada sem que parte dos lucros reverta ao cientista) e da burocracia do peer-review (que poderia ser feito de uma maneira bem mais eficiente em um sistema mais aberto).

Enquanto o mundo se democratiza, a ciência continua reforçando um modelo aristocrático. Em épocas de Twitter e Facebook, de blogs e Wikipédia, ainda temos que pagar para ler o artigo que pautou este texto e o do Goldacre.

É como se o Mestre Yoda cobrasse do Luke (por mês ou por dica recebida) para alertar sobre os perigos do lado negro da força, e ele pagasse sem questionar.

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Plágio e Remix: Uma narrativa de duas culturas.

No dia 02 de outubro o blog de ciências da Folha, o Laboratório, soltou um post chamado Educar para não plagiar. O texto chama atenção para um congresso sobre plágio e má conduta científica e aponta algumas conclusões tiradas durante o evento.

A primeira conclusão é a de que hoje em dia, por conta da facilidade de acesso à informação, está mais fácil plagiar. A segunda conclusão, que de acordo com o texto é mais filosófica, diz que a facilidade de acesso à informação científica não deveria justificar o aumento do número de casos de plágio (o texto original da Folha diz “fraude” e não plágio neste ponto específico, mas fraude segundo o dicionário Aulete quer dizer falsificação de uma forma geral o que, acredito eu, não tem relação direta com a facilidade de acesso à informação, neste caso plágio parece-me ser o mais correto). Uma última conclusão argumenta que estudantes e pesquisadores mais novos não foram ensinados a lidar com toda essa informação e plagiam por pura ignorância.

Curioso ver que nos comentários do texto da Folha alguém que assina como Roberto faz uma pergunta simples mas que está no centro desta questão: “Afinal a internet ajuda ou atrapalha a ciência”?

 

Duas culturas.

Então, depende… Eu sei que parece papo de filósofo mas é preciso levar em consideração que a ciência moderna nasceu no século XIX e deste herdou uma série de valores e regras e convenções. Valores e regras e convenções que diziam respeito a uma cultura construída com papel, tinta e tipos (McLuhan chamava de Cultura Tipográfica)

Valores e regras e convenções que estavam intimamente ligados não à dificuldade de acesso à informação, mas ao meio rígido e pouco interativo de um mundo impresso no papel. Vejam, o que mudou de lá pra cá nada tem a ver com o acesso facilitado à informação. Sim, é mais fácil conseguir informação hoje do que era antes, mas esta é a consequência da mudança e não a mudança em si.

O que a cultura digital trouxe para o mundo é a democratização da comunicação em massa, antes restrita a um grupo de privilegiados. Essa democratização não tem a ver unicamente com a facilidade de acesso. Uma sociedade com a cesso facilitado à informação ainda é uma sociedade “read-only”, ou seja, de consumidores passivos de um produto acabado. Os primórdios da Internet e a Web 1.0 estão aí pra provar meu ponto.

Democratizar* é fornecer os meios para o desenvolvimento de uma sociedade “read/write”, ou seja, de indivíduos capazes também de contribuir, de lidar com a informação como se ela fosse um pedaço de argila esperando para ser moldado em algo que transcenda o valor de si própria.

E é justamente aqui que se encontra a maior diferença entre a cultura tipográfica e a digital. A primeira valoriza muito mais autoria e produção (o texto sobre a salami science da Veronica é bastante certeiro neste ponto), a segunda colaboração e mash-up’s.

 

Plágio e Remix.

O texto da Folha, bem como este outro do New York Times, reforça a ideia de que estudantes estão plagiando por ignorância de como lidar com informação digital. Talvez o problema não seja este, talvez nós é que somos ignorantes em entender como a geração nascida no meio da cultura digital lida com informação.

O artigo do New York Times chega mesmo a dizer que “muitos alunos simplesmente não compreendem que usar palavras que não foram escritas por eles é um crime grave,” e que a maioria dos casos de plágio nas escolas tem a ver justamente com este fato.

Nestes casos, aquele que copia sem dar os devidos créditos à fonte não está assumindo a autoria pelo que copiou. Está meramente distribuindo uma informação que já está disponível livremente na internet ou em livros ou em artigos científicos.

Para a geração da cultura digital informação tem um valor tão baixo que receber os créditos pela autoria de algo, assim como reconhecer a autoria de algo, é desimportante e desinteressante e efetivamente não acrescenta absolutamente nada no valor daquela informação.

Para a cultura digital, informação é a matéria prima usada para construir redes de interação entre pessoas e ideias. Isso significa que um artigo ou texto ou livro pode sim ser importante, mas pela mensagem que ele transmite e pela capacidade que ele tem de promover a formação dessas redes. Pouco importa aqui se o artigo ou texto ou livro (ou, claro, música ou vídeo ou qualquer material áudio visual) é a voz única e singular de seu autor ou se é uma colagem de frases de vários autores.

Na cultura digital do remix e do mash-up, o foco está na rede e não no indivíduo e é por isso que o plágio é mais um problema de choque de gerações do que um problema ético.

 

Educar para não plagiar

O texto da Folha, diferente do texto do New York Times, aborda essa questão do plágio de um só prisma. Deixa clara a mensagem de que trata-se de um problema educacional que precisa ser corrigido.

Mas será mesmo preciso reforçar no processo educacional valores que talvez estejam desconectados da realidade presente das novas gerações de alunos e pesquisadores ainda em formação? É preciso mesmo usar o processo educacional como um meio de impor regras e valores “de cima para baixo”?

A questão ética existe, claro. É preciso combater o plágio intencional e feito de maneira desonesta, que é realmente prejudicial e deletério para qualquer atividade intelectual. É preciso sim mostrar para as novas gerações que existe valor no esforço intelectual, sem reduzir este esforço a uma maneira particular de organizar palavras em um “papel em branco.”

É fundamental entender que existem regras e valores emergentes da cultura digital e que estas regras e valores não são piores ou melhores do que os valores sociais tradicionais, são apenas diferentes. Tentar sufocar estes valores através da educação não vai ajudar na formação de cientistas melhores ou mais honestos.

Criminalizar a maneira que uma cultura em particular achou para se expressar certamente não vai resolver o problema do plágio, assim como não resolveu o problema da pirataria, que é análogo.

Para a ciência fica a oportunidade de se transformar e entender essa nova expressão cultural, encontrar um meio termo entre o velho e o novo e se reinventar para continuar progredindo. Não se pode esquecer que há séculos atrás era a ciência que estava do outro lado da moeda, desafiando a tradição e sendo criminalizada por isso.

 

*Para entender melhor esse processo de democratização (ou descentralização) leia os 10 escritos sobre redes sociais de Augusto de Franco gratuitamente.

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Porquê o CDF é o contrário do que a ciência precisa.

No meu texto anterior chamei a atenção (de forma bastante superficial é verdade) para a questão de como o paper científico transposto do meio físico para o meio digital traz consigo todos os problemas do paper físico aproveitando muito pouco das qualidades do meio digital.
Também chamo atenção para o fato de que Stephen Wolfram também reconhece parte destes problemas e, na tentativa de encontrar alguma solução, criou o formato CDF. Recomendo que assistam ao vídeo do Wolfram apresentando o formato, caso ainda não tenham assistido.

Reparem que ele começa argumentando que os documentos online de hoje são como o papel físico, “monótonos, sem vida, inertes” são as três características que ele nomeia. Vejam, é importante notar que o Wolfram está se referindo especificamente à documentos que podem ser baixados (ou visualizados pelo navegador com a ajuda de um plugin), muito embora faça referência à “documentos online”. Trata-se de uma crítica direta ao formato PDF, que é o mais utilizado para distribuição de arquivos digitais. Acontece que arquivos PDF’s podem estar online, mas não são documentos online, são documentos disponíveis na internet, mas que mesmo abertos via plugin no browser, são lidos localmente na máquina do usuário. Estão, portanto, longe de serem documentos online.

O problema seguinte para o qual o Wolfram chama atenção é que estes documentos disponíveis online não costumam carregar em si uma série de informações relevantes (como, nos exemplos do Wolfram, os dados sem tratamento, algoritmos, instruções para re-execução de código). Este problema esta relacionado, normalmente, ao limite de páginas imposto por alguns periódicos para a publicação de artigos. O vídeo segue mostrando que problemas similares acontecem com apresentações profissionais e livros didáticos. Todos sofrem por serem, mais uma vez citando o próprio Wolfram, “documentos mortos”.

Como o Wolfram pretende solucionar estes problemas? Surpreendentemente, criando mais um formato proprietário (o próprio CDF), que só pode ser gerado por um outro software proprietário (o Mathematica) que custa US$ 2.495,00, e que impõe restrições na maneira como você vai distribuir o conteúdo que gerou. Se você distribuir gratuitamente é obrigado a deixar a marca d’água e logo do Wolfram aparecendo o tempo todo na sua apresentação ou artigo (parte do branding obrigatório da licença gratuíta de uso e distribuição), se comercializar seu conteúdo, é preciso pagar uma taxa para a Wolfram. Todas estas informações (com exceção do valor do Mathematica que pode ser consultado aqui) estão no FAQ na página oficial do CDF.

Em outras palavras, o CDF até pode ser interativo e conter dados que não seriam facilmente distribuídos de outra maneira, mas o faz de forma a ser ainda mais restritivo do que o formato que ele crítica, o PDF.

Com efeito, é possível até questionar se o CDF é tão interativo quanto o Wolfram deseja que ele seja. Sim, é possível ter toda uma gama de dados disponíveis no documento e que podem ser retrabalhados de forma dinâmica, mas por outro lado, estes dados continuam encapsulado, inacessíveis, desconectados. Eles não podem ser acessados por outros CDF’s, não podem receber imput dinâmico de outras fontes de dados, não podem ser atualizados sem que um novo CDF seja gerado.

A ciência precisa sim de uma maneira mais dinâmica de ser apresentada, o cientista precisa sim de mais liberdade na maneira em que expõe seu trabalho e seus resultados. O que a ciência e os cientistas precisam é da plasticidade da Web 2.0, e não de um documento que simula a Web à maneira que o PDF simula o papel.

Isso significa que existe um nicho no mercado para a construção de uma ferramenta capaz de criar documentos, apresentações, artigos e livros didáticos que sejam compatíveis com uma variedade crescente de dispositivos (smartphones, tablets, computadores com diferentes sistemas operacionais e tamanhos de tela). Uma ferramenta capaz de fazer uso, por exemplo, de web standards (HTML, CSS, XML, arquivos de imagens PNG ou arquivos vetoriais SVG além de formatos de vídeo e audio ainda por serem padronizados), além de uma API de acesso padronizada para que os dados contidos nestes documentos verdadeiramente online possam ser extraídos, atualizados, remodelados da maneira como o autor E O leitor/usuário quiserem.

Esta é,  na minha visão, o caminho em que a comunicação da ciência deve seguir. Adoção das práticas cada vez mais consolidadas da Web 2.0 para não só comunicar seus resultados, mas para permitir que eles sejam reinterpretados livremente, acessados sem restrições, incrementados colaborativamente.

Se eu estiver com alguma razão, fica fácil entender por que acredito no fim dos papers científicos como os conhecemos. Eles representam um processo que teve começo, meio e fim, sendo o paper a síntese deste processo. Se a ciência caminha em direção à Web 2.0, então podemos esperar que ela seja levada a cabo de forma mais orgânica e contínua, sem pontos claros de interrupção, sem estar centrada nos resultados finais mas sim num processo contínuo de desenvolvimento. Uma ciência em fase beta, pouco preocupada com sua versão final.

Vejam que não acredito que TODA a ciência irá seguir por este caminho. Mas acredito que boa parte dela irá se dar conta de que está presa em um mundo feito de papel, ainda que este só exista na tela de um computador.

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Para onde vai o “paper” científico?

Para a lata do lixo seria a resposta mais evidente, não estivessem todos eles se transformando em arquivos digitais que, bem, por enquanto até podem ir para a lixeira… Mas até quando? Essa pergunta também tem uma resposta simples: Até quando o paper científico fizer sentido e continuar importante para uma ciência que, queiram os mais apaixonados ou não, está caminhando na direção de uma profunda reformulação de si mesma.

Eu sei, eu sei. Estou como um profeta do apocalipse segurando uma placa “prepare-se, o fim dos papers esta próximo” e, como qualquer profeta do apocalipse, posso estar parecendo um pouco fora da minha sanidade mental. Mas se pararmos um segundo para olhar para a história da comunicação da ciência, chegaremos à conclusão de que o fim do modelo atual de comunicação de resultados e validação da própria atividade científica não é tão absurda assim.

Livros são tão século XVI…
A ciência (e qualquer outra atividade intelectual na verdade) depende da capacidade de poder registrar a si própria em um meio que possa sobreviver à passagem do tempo e de seus praticantes. Foi a invenção da escrita que permitiu que a filosofia surgisse, e que depois desse frutos na forma da filosofia natural, que iria resultar numa sementinha que começou a crescer no século XVI com a Revolução Científica e terminou virando esta árvore que é a ciência moderna e todas as suas ramificações tão especializadas.

O grande salto para a escrita foi a invenção da imprensa de tipos móveis no século XIII, seguido da constituição de um dos mais antigos meios de comunicação, o livro. Até pouco mais da metade do século XVII os livros eram a forma usual de se comunicar ciência*, mas eram custosos demais (tanto do ponto de vista financeiro quanto do ponto de vista do tempo investido em garantir uma impressão de qualidade). O crescimento da comunidade e de sua produção acabou por deixar claro que o livro de ciência já não era a solução ideal para a comunicar resultados e estabelecer o diálogo entre os cientistas.

A solução veio através do Philosophical Transactions (cuja primeira edição é de 1666) da Royal Society of London, que copiou o modelo usado na época pelos folhetins, mas para distribuir de forma ampla novidades científicas ligadas aos membros da sociedade. Nascia assim o periódico científico, mas não o paper propriamente dito. Levaria ainda bons dois séculos para a ciência encontrar seu próprio estilo de escrita e, com efeito, o paper científico como conhecemos hoje só foi se estabelecer na segunda década do século XX**.

O problema do papel digital…
Não quero entrar na discussão sobre a função do paper e sua validade enquanto meio principal de comunicar avanços científicos. Basta saber que se a invenção do periódico e do paper foi importante pra viabilizar a ampla comunicação da ciência num século em que era extremamente complicado manter o diálogo entre comunidades científicas espalhadas pelas mais diversas localizações geográficas, hoje percorremos o caminho inverso. Os periódicos e o paper dificultam o diálogo da comunidade científica, diminuem a velocidade em que novas descobertas se tornam públicas, limitam o acesso ao conhecimento por um público ampliado (e que paga as contas da ciência) além de esconderem a maior parte do processo científico envolvido na produção do próprio documento.

Pode parecer exagero, mas me arrisco a afirmar que o paper científico, ao menos no que diz respeito à ciência de hoje, tem muito pouco valor informativo, revelando quase nada sobre a verdadeira natureza da atividade científica e de seus processos. É mais fácil aprender “do que a ciência é feita” no Google do que no documento oficialmente utilizado pelos cientistas como meio de contarem uns aos outros sobre o resultado de seus trabalhos.

É claro que se pode argumentar que o paper não precisa ser muito mais do que um “resumão” de meia dúzia de páginas sobre o trabalho de anos de um grupo de cientistas, e se concordo com isso olhando pra uma época que era majoritariamente analógica, discordo completamente quando vivemos em um mundo digital.

Ficam de fora do paper não só os dados detalhados recolhidos durante os anos em que a pesquisa foi levada à cabo, como também toda a série de erros e percalços encontrados no caminho em que o cientista trilhou. Todas estas informações possuem um valor que acaba desprezado na medida em que o paper precisa ter um tamanho redusido para ser publicado. Mas, como sabemos, esta é essencialmente uma limitação do meio impresso e que é reproduzida artificialmente no meio digital.

Infelizmente, temos ainda de lidar com outras tantas limitações que não tem razão de ser no meio digital, mas que foram herdadas de um modelo já bem estabelecido no meio impresso. Ainda precisamos lidar com a dificuldade em se atualizar ou corrigir papers que foram aceitos mesmo em periódicos que só existem online, ou a limitação para o uso de hyperlinks e elementos multimídia como vídeos e trilhas de audio e mesmo imagens animadas.

É ingênuo dizer que não há razão para a ciência não abandonar de vez o pdf (ou qualquer outro formato que limite o uso dos recursos disponíveis em um ambiente digital), estou certo que existem razões. O fato é que a cultura do paper impresso vai mais além do que o simples meio em que se está comunicando ciência. Como McLuhan cansou de nos alertar meio é mensagem, e a própria ciência foi construída em valores que muitas vezes só fazem sentido em um meio impresso. Perdem sua razão de ser em um meio digital  (discuto esse assunto mais a fundo no capítulo 4.2 da minha tese de mestrado, que pode ser acessada livremente). Meu ponto é que seja lá quais forem estas razões, é preciso colocá-las à prova contra a gama de possibilidades que se abre em passar a usar o ambiente digital em sua totalidade, e não como forma de emular uma tecnologia nascida antes da própria ciência.

Críticas ao modelo atual de publicação e sugestões sobre como o ambiente virtual pode ser usado para melhorar estes problemas existem aos montes e eu deixo abaixo algumas sugestões de artigos interessantes neste sentido, além de recomendar meu grupo de Ciência 2.0 no Mendeley.

Seja como for, uma das alternativas ao modelo atual de publicação foi recentemente proposta pelo Stephen Wolfram. A alternativa do Wolfram pode ser vista em mais detalhes no vídeo abaixo, mas volto em breve com um texto novo só para discutir melhor se a solução do Wolfram é ideal***.

Referências e artigos recomendados:
Antelman, K. (2004). Do open-access articles have a greater research impact? College & Research Libraries, 65(5), 372-382. ASSOC COLL RESEARCH LIBRARIES. Retrieved from http://apps.isiknowledge.com/CitedFullRecord.do?product=UA&db_id=WOS&SID=V1@kc79NaoCc98onfd@&search_mode=CitedFullRecord&isickref=136742423

Breivik, M., Hovland, G., & From, P. J. (2009). Trends in Research and Publication: Science 2.0 and Open Access. Modeling, Identification and Control: A Norwegian Research Bulletin, 30(3), 181-190. MIC. doi:10.4173/mic.2009.3.8

Odlyzko, A. (2000). The future of scientific communication. Access to Publicly Financed Research: The Global, 53(1), 13-5. Retrieved from http://citeseerx.ist.psu.edu/viewdoc/download?doi=10.1.1.32.3333&rep=rep1&type=pdf

Waldrop, M. (2008). Science 2.0: Great New Tool, or Great Risk? Retrieved April 22, 2010, from http://www.scientificamerican.com/article.cfm?id=science-2-point-0-great-new-tool-or-great-risk

Young, N. S., Ioannidis, J. P. A., & Al-Ubaydli, O. (2008). Why current publication practices may distort science. PLoS medicine, 5(10), e201. Public Library of Science. doi:10.1371/journal.pmed.0050201

 

*Me refiro aqui aos grandes tratados científicos (lembrando que o termo “ciência” e “científico” estão sendo usados de forma anacrônica, à época a ciência ainda não era chamada assim).

**Montgomery, S. “Scientific discourse and its history.” In: Communicating Science, por Eileen Scanlon,Roger Hill e Kirk Junker, 315. Inglaterra: The Open University, 1999.

***Dica: Não é.

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Comunicação da Ciência e Web 2.0: A Tese.

Há pouco mais de dois anos eu decidi atravessar o Atlântico em direção à Lisboa com o intuito de fazer um mestrado em História e Filosofia das Ciências, na Secção Autónoma de História e Filosofia das Ciências da Universidade de Lisboa. na época em que fui, imaginava fazer algo relacionado à divulgação científica, mas não tinha uma ideia muito clara ainda.

É curioso pra mim falar sobre esse processo agora sem me recordar de um vídeo muito interessante em que o cocriador da Apple, Steve Jobs, fala como experiências de vida aparentemente sem relação qualquer o ajudaram depois a revolucionar o próprio conceito de computador pessoal que ele próprio havia criado anos antes.

Não estou me comparando de modo algum ao Steve Jobs, evidente, mas acredito que passei por um processo similar. Com dezesseis anos comecei a trabalhar em uma gráfica como artefinalista. Por conta disso passei a me interessar por comunicação visual e design, o que me levou anos depois a fazer o curso de design gráfico da Escola Panamericana de Artes.

Terminado o curso, decidi entrar em uma faculdade. Fiz vestibular pra direito e passei mas, por uma série de complicações, acabei trocando pra ciências biológicas, sem muita vontade de seguir com o curso. Bastou-me uma semana de aulas pra eu ficar apaixonado pelo curso e seguir até o fim.

Entre o curso de design e a faculdade de biologia, eu que já era um viciado em computadores e tinha acesso à internet desde 1996, passei a me interessar por blogs. Comecei, como todo mundo que conheço, com um blog sobre coisas pessoais e fui mudando gradativamente até que 2007 comecei este singelo blog de divulgação científica. No ano seguinte, justamente por causa do blog, acabaria por me inscrever no curso de divulgação científica do Núcleo José Reis de Divulgação Científica.

E daí volto à minha tese. Estávamos lá eu e minha orientadora, a professora Olga Pombo, olhando para todo este meu background quando ouvimos, os dois, quase que ao mesmo tempo, o “clic” característico das engrenagens se encaixando e botam tudo pra funcionar. Decidimos que o tema da minha tese seria “Comunicação da Ciência e Web 2.0”.

Ora, trata-se de um tema mais que pertinente para mim. Eu poderia usar minha bagagem na comunicação visual, minha graduação em uma disciplina científica, meu interesse pela Web e meu trabalho de divulgação científica para tratar de um tema tão recente e tão importante não só para a ciência enquanto atividade, mas também para a filosofia das ciências como disciplina.

O processo do mestrado me tomou mais tempo, energia e dedicação do que eu jamais poderia prever. Como consequência, este pobre blog que foi tão importante pra que tudo isso acontecesse, acabou ficando negligenciado por este que voz escreve. Negligenciado por mim, mas não abandonado, e aqui fica meu agradecimento público, pelos meus tão queridos amigos e colaboradores que continuaram doando um pouco de seu tempo e intelecto para este singelo sítio.

Enfim, o mestrado está praticamente no fim* finalmente concluído. A tese já foi terminada e estou aguardando a defesa que deverá ocorrer nas próximas semanas e* já foi defendida, no melhor espírito Web 2.0, gostaria de compartilhar o fruto deste trabalho que tomou conta dos últimos dois anos e pouco da minha vida. Disponibilizo então, para leitura online ou download, a minha querida tese.

O título é, como já ficou evidente, COMUNICAÇÃO DA CIÊNCIA E WEB 2.0. Pro caso do título sozinho não chamar a sua atenção, deixo abaixo o índice e o resumo. Feedbacks são SEMPRE bem vindos, nem que forem só pra criticar o trabalho (desde que respeitosos, é claro).

Mas chega desse papo furado e conversa fiada e vamos de uma vez ao que interessa…

 

COMUNICAÇÃO DA CIÊNCIA E WEB 2.0

 

Resumo: Os processos comunicativos estão na base da construção da própria Ciência. Como tal, segundo a teoria de McLuhan, estão sujeitos à mudança dos meios pelos quais esta comunicação é feita, o que acaba por alterar a própria comunicação em si. Meio é mensagem, e nos últimos anos estamos acompanhando a solidificação de um novo meio digital, a Web 2.0, que permite novas formas de interação e provoca mudanças na forma como a Ciência é feita, seja ao nível horizontal da comunicação legitimadora entre os pares, seja ao nível vertical da comunicação entre as gerações (ensino), seja ao nível transversal da comunicação entre Ciência e sociedade. O que vemos hoje é a constituição de uma nova cultura acostumada à abundância e livre acesso à informação, que está no centro de uma revolução cultural e comunicativa que afeta diretamente a maneira como produzimos e comunicamos a Ciência.

Índice:

  • 1- Introdução
  • 2- Da tribo ao livro, da tinta ao pixel
  • 3- Conceitos de Comunicação da Ciência
  • 3.1- Comunicação e Construção do Conhecimento
  • 3.1.1- Comunicação horizontal entre pares
  • 3.1.2- Comunicação transversal entre a Ciência e a Sociedade
  • 3.1.3- Comunicação vertical entre Gerações
  • 3.2- Comunicação da Ciência, agentes comunicadores e comunicação transdisciplinar
  • 3.2.1- Do caráter multiplo do agente comunicador
  • 3.2.2- Divulgação Transdisciplinar
  • 4- Ciência 2.0: Comunicação horizontal da ciência em um ambiente aberto
  • 4.1- Investigação 2.0
  • 4.2- Publicação em um ambiente digital
  • 4.3- Ciência e a cultura do remix
  • 5- Divulgação Científica: A comunicação transversal da ciência

 

PS1: Como a tese foi feita em Portugal, o texto por vezes sofreu modificações para evitar possíveis confusões. É o exemplo do uso da palavra “investigação”, quando no Brasil usaríamos “pesquisa”. Em todo caso, são poucas as vezes em que esse tipo de “correção” foi empregado e o texto não sofre em clareza por conta disso.

PS2: Subi para o Google Docs uma versão em PDF para evitar a perda da formatação do texto em geral. Se vocês acham que o formato dificulta a leitura de alguma forma, aceito sugestões de opções melhores para a disponibilização da tese.

*UPDATE: A tese foi defendida no final de maio, muitas questões relevantes foram abordadas durante a defesa e eu gostei muito do processo como um todo, embora ele não deixe de ser um pouco assustador no começo. Seja como for, a nota final ficou em 17 valores, ou no esquema de notas brasileiro, 8,5 :)

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Por que Galileu não seria publicado na Nature (nem na Science).

Não há dúvidas de que Galileu é uma das figuras mais importantes da ciência moderna. Aqui mesmo neste blog não são poucos os textos sobre ele e, evidente, por razões mais do que justificadas.

Galileu é uma das figuras centrais da Revolução Científica. Fez contribuições importantíssimas para a mecânica e astronomia além de ser sido um artesão bastante competente. Mas Galileu vai além.

Representa para a ciência moderna o “espírito” do verdadeiro cientista. É tido como o questionador por excelência. O rebelde que desafiou costumes, leis e arriscou a própria vida em prol da defesa de um conhecimento científico que combatia o obscurantismo medieval. É, mais do que todos, o gigante que apoiou em seus ombros tantos outros gigantes.

É claro que quem estudou a história do matemático sabe que essa imagem heróica atribuída a ele é, antes de qualquer coisa, uma interpretação da figura histórica de Galileu. Ainda assim, é uma interpretação conveniente. Ainda que não seja verdadeira, transmite para os jovens iniciados na ciência o tipo de atitude que se espera deles.

Mas será que é isso mesmo que a ciência quer? Será que a ciência moderna premia seus “rebeldes”? Se Galileu estivesse vivo hoje, veria seus trabalhos publicados pela Science ou pela Nature?

O subversivo método científico.
Alexandre Koyré cunhou o termo Revolução Científica, assim mesmo em maiúsculas, pra se referir à mudança que ocorreu na forma como a ciência passou a ser conduzida no século XVII. Com efeito, é até difícil de chamar o que veio antes da Revolução Científica de ciência.

O fato é que houve uma mudança drástica, e uma das características dessa mudança foi o abandono do aristotelismo como metodologia. Isso significa que noções como a divisão do Universo em mundo sublunar e supralunar deixou de existir, assim também como toda a física aristotélica foi aos poucos sendo derrubada. Galileu era neste sentido um subversivo completo.

Mesmo o uso de seu famoso telescópio como ferramenta de investigação não era permitida pelos aristotélicos. Para eles, era preciso estudar a natureza sem inteferências e o telescópio era exatamente isso, um objeto que se colocava entre a natureza e seu observador.

O instrumento era, antes de qualquer coisa, considerado uma curiosidade. Para a maioria das pessoas que olhavam pelo telescópio, o que ele fazia era produzir uma ilusão que não tinha qualquer relação com a realidade. Poucos entenderam o valor do famoso objeto. Kepler foi talvez o mais importante, já que vem dele a teoria ótica que explicava com pormenores o funcionamento do telescópio. Em todo caso, os trabalhos em mecânica de Galileu são tão subversivos quanto o próprio telescópio.

Ao realizar experimentos para explicar fenomenos naturais, Galileu podia estar usando uma metodologia que é perfeitamente aceita hoje em dia, mas completamente incompatível com o aristotelismo da época. Ao considerar que as causas por trás dos fenomenos celestes eram as mesmas causas por trás dos fenomenos observados na Terra, Galileu só reafirmava sua subversão.

Quando obstruir virou sinônimo de comunicar.
Mas deixemos Galileu de lado só por um momento, em prol da lógica do argumento. O que se viu nos séculos seguintes à Revolução Científica foi o desenvolvimento brutal da prática científica. E uma das características chave nesse sentido foi a institucionalização da ciência e a comunicação de seus avanços.

Começamos com as leituras nas sociedades científicas, passamos para um modelo intermédio aonde a comunicação das novidades era feita nas sociedades e depois distribuídas por periódicos e chegamos aonde estamos hoje.

Embora ainda hoje tenhamos congressos e eventos equivalentes que de certa forma cumprem o mesmo papel da antiga “leitura na sociedade”, é certo que o principal meio de comunicação da ciência seja através da publicação em periódicos.

O problema é que esse modelo se consolidou antes do advento da internet. Foi preciso criar mecanismos de filtrar o que seria publicado, já que não era, e ainda não é, comercialmente possível publicar tudo o que era submetido aos periódicos.

Podemos achar que o filtro criado é o processo de revisão por pares, mas o fato é que pelo menos para a Nature, isso não é bem verdade. O processo de peer review é secundário no que diz respeito ao que vai ser publicado neste periódico, como eles deixam bem claro em sua página na internet:

“O julgamento sobre quais artigos interessam para um público mais geral é feito pelos editores da Nature, não pelos referees.”

Em outras palavras, os editores da Nature julgam que tipo de artigos devem atrair um público mais generalizado, e não os representantes da comunidade científica. O que me faz questionar como é que a Nature se transformou em um dos periódicos mais importantes para a comunidade…

É claro que se pode argumentar que os editores da Nature são também cientistas, embora eu não tenha encontrado essa informação no site da revista. O caso é que o peso da decisão sobre qual artigo deve ser publicado parece ser mais mercadológico do que pelo interesse da comunidade.

Um caso emblemático neste sentido foi a publicação do artigo sobre clonagem humana na Science de junho de 2007. A despeito do alegado rigor com que estes periódicos alegam tratar o conteúdo a ser publicado, o artigo fraudulento foi publicado com grande pompa e anúncio em todos os meios de comunicação.

Posteriormente a culpa recaiu sobre o sistema de revisão por pares, mas é de se questionar se a culpa foi exclusivamente dos referres como ficou sugerido. O fato é que criou-se uma economia aonde a autoridade e importância do periódico esta relacionada com a quantidade de artigos que ele rejeita, e não na qualidade dos artigos que ele publica.

O curioso é notar que segundo este artigo publicado na PLoS, a maior parte dos artigos são rejeitados por falta de espaço para publicação. Ainda assim, tanto a Nature quanto a Science propagandeiam os altos índices de rejeição como resultado de sua seleção rigorosa, ainda que o peer review esteja claramente em segundo plano.

A ciência moderna segue assim nessa situação. Embora a comunicação seja um dos pilares fundamentais do processo de desenvolvimento da ciência, o que vemos é a dificuldade em ter acesso ao conteúdo submetido aos periódicos. Seja pela não publicação de artigos por questões mercadológicas nas versões impressas, seja pela obrigatoriedade de pagamento de taxas altíssimas para acesso das versões digitais.

Por que Galileu não seria publicado na Nature (nem na Science).
Mas voltemos a Galileu. Afinal, Galileu estivesse vivo hoje e o carater de seu trabalho tivesse o mesmo significado que teve em sua época, seria ele publicado em algum periódico? Sou obrigado a concluir que não.

Galileu rompeu com a tradição metodológica da época e seus trabalhos só são considerados importantes por que toda a ciência criada nos séculos após o matemático seguiu pelo mesmo caminho que ele.

Se fosse vivo hoje e trabalhasse com uma metodologia completamente diferente da que estamos acostumados, Galileu sequer seria considerado para publicação, seja por falta de espaço, seja por não poder passar pelo processo de revisão por pares.

No final das contas, nossa ciência que tanto diz gostar de ser desafiada e questionada, que elege como heróis homens que eram rebeldes metodológicos, dificilmente vai aceitar com alegria um Galileu moderno, um Kepler do século XXI.

Mesmo com essa constatação talvez pessimista, gosto de pensar que temos uma oportunidade de ouro hoje em dia. A web 2.0 pode mudar completamente a forma como a ciência se comunica e talvez permitir que a nova geração de cientistas possa ser um pouco mais rebelde.

Acredito que estamos em um ponto aonde o sistema de publicação e revisão por pares vai inevitavelmente sofrer alterações drásticas. O quão interessante seria poder ver um artigo que não fosse um conteúdo estático, preso à sua data de publicação?

Um artigo de conteúdo dinâmico, que pudesse ser melhorado gradativamente com o passar dos anos e por meio de uma revisão por pares à posteriori? Uma revisão por pares que não fosse levada a cabo por um pequeno colégio de especialistas, mas por toda a comunidade interessada?

Um artigo deste tipo não precisaria ser absolutamente rejeitado. Poderia ser aceito pela comunidade como um “projeto em andamento”, sendo pouco a pouco delapidado e transformado, mais ou menos como no desenvolvimento de softwares de código aberto que temos hoje.

Posso apenas imaginar esse tipo de mudança, nunca prever. Mas em minha opinião uma coisa é certa, ou mudamos nossa forma de comunicar e validar a ciência, ou corremos o risco de ignorarmos de forma injusta o nosso próximo Galileu.

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Divulgação Científica: Uma atividade sem conceito?

Não acredito que haja hoje um só cientista que não defenda a prática da divulgação científica, ainda que muitos deles não se dêem ao trabalho de produzir uma só linha de texto com este fim. Ainda assim, não da pra ignorar que o passado da atividade é cheio de louros e heróis.

Isaac Asimov, Stephen Jay Gould, Carl Sagan, Julian Huxley, Richard Dawkins e nossos brasileiríssimos Marcelo Gleiser e o pai da divulgação científica tupiniquim José Reis, só pra citar os mais conhecidos. Todos eles lembrados como homens incansáveis no trabalho de popularização da ciência.

Foram estes nomes que inspiraram uma série de novos indivíduos a continuarem seus trabalhos e, graças ao advento da internet e da web, o que vimos nos últimos tempos é a proliferação de blogs e sites preocupados em levar a ciência ao público por vezes referido como leigo. Este blog, claro, não é diferente e eu, como tantos outros, também tenho minhas dívidas com estes grandes divulgadores.

Daí que com tantas boas inspirações, a nova geração de divulgadores científicos já nasceu com uma ideia pré-formatada de modus operandi do divulgador e as vezes nos esquecemos de parar um minuto para pensarmos, o que é, de fato, a divulgação científica.

Público alvo não é conceito.
Por vezes vejo o conceito de divulgação científica se confundindo com a definição de seu público alvo. Isso por que cada vez que nos deparamos com um texto que fale de ciência para “não cientistas”, o classificamos imediatamente como divulgação científica.

Mas “não cientista” ou “público leigo” são definições generalistas demais, que acabam por esconder um problema que é óbvio para quase todos os tipos de ferramentas de comunicação. Quando dizemos “não cientistas” incluímos aí um espectro de público de múltiplas idades e níveis educacionais. Fazemos pior até, excluímos o próprio cientista.

Pode parecer bobagem imaginar que o cientista é alvo da divulgação científica. Mas não da pra negar o fato de que já a um bom tempo a ciência vem exigindo que seu praticante seja cada vez mais especialista, ao passo que a produção científica cresce de maneira assustadora. É evidente então que um biólogo não consiga acompanhar o que acontece na física. Com efeito, um biólogo especializado em comportamento reprodutivo de tubarões pode não estar em dia com as novidades de, digamos, áreas como a entomologia.

Como classificar então este cientista? Como “leigo”? Mas é um leigo igual a dona de casa? Se não é, então quais os tipos de leigos? E os tipos de não cientistas? Pior ainda é quando usamos o termo “divulgação para um público mais geral”, como eu, talvez erroneamente, muitas vezes cansei de fazer.

Vemos então a divulgação científica que dificilmente pode ser definida como “ciência traduzida para não cientistas”. Temos um público em potencial grande demais para definirmos toda a atividade de forma tão simplória.

Apesar disso, a ideia de “tradução” não é exatamente ruim. Mas é preciso considerar a diversidade de público para o qual tentamos comunicar uma atividade que é igualmente diversificada.

Uma narrativa autoritária?
Passando do conceito ao conteúdo, escrevi em outro texto que a divulgação científica atual consiste muito mais em explicar conceitos e teorias. Vou além, o grosso do conteúdo de divulgação científica produzido desde sempre, segue esta mesma métrica.

Não questiono a validade deste tipo de conteúdo, especialmente em um país com graves problemas educacionais. O problema é que a ciência é muito mais do que a teoria da evolução, ou o big bang, ou mesmo o conjunto completo de todas as teorias e conceitos já formulados.

Uma divulgação científica preocupada exclusivamente em ser explicativa não cumpre o papel básico de divulgar. E não o faz por que explicar uma teoria qualquer não basta. É preciso explicar o que é uma teoria, divulgar o dia a dia do cientista, explicar os processos internos de validação da ciência, e por aí vai.

Quando deixamos esta parte de fora, criamos uma narrativa autoritária, mesmo sabendo que na ciência o questionamento tem papel central. Blindamos a atividade, apresentando apenas um produto final que pode ser menos interessante do que o processo que nos levou até ele.

É preciso sujar um pouco a ciência. Mostrar que, assim como em qualquer atividade humana, também nela se erra. Mostrar que cientistas também tem problemas com seus egos. Mostrar que também sofremos com as mazelas políticas. Enfim, mostrar que não somos esta torre branca de onde verdades e coisas boas saem, ainda que ninguém entenda como.

Mas e o conceito?
Desculpem, vou ficar devendo. Acredito que a divulgação científica, embora não seja exatamente nova, ainda tem muito o que caminhar. Além disso, o papel deste texto é provocar algumas reflexões e discussões, bastante necessárias ultimamente.

É importante discutirmos sobre blogs de ciência e assuntos similares? Sem dúvida. Mas não podemos deixar de também discutirmos as bases da atividade. Andamos tão preocupados em discutir sobre os meios que esquecemos de olhar para a mensagem.

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Quem governa o 3º Mundo?

Não, não me refiro aos chamados países em desenvolvimento. O 3º mundo ao qual estou me referindo é aquele proposto pelo grande filósofo Karl Popper. Já escrevi sobre o assunto neste blog antes mas, tendo em vista que o texto não foi lá muito claro, faço uma nova tentativa.

Em seu livro Conhecimento Objetivo, Popper propõem uma divisão tripla do mundo. O 1º mundo é aquele que contém objetos físicos ou estados materiais. O 2º mundo é composto por estados de consciência ou mentais. E por fim o 3º mundo, habitado por conteúdos objetivos de pensamento, em especial pensamentos científicos, poéticos e de outras obras de arte.

Vemos então que no 2º mundo estão os pensamentos subjetivos, ou o ato de pensar em si, enquanto no 3º mundo estão os pensamentos objetivos, ou o conteúdo destes pensamentos. Livros, artigos e obras de arte são a representação física dos habitantes deste último.

Mas este não é um texto sobre Karl Popper, ou mesmo sobre considerações a respeito da validade ou implicações da divisão proposta pelo filósofo. A introdução sobre o 3º mundo popperiano me serve apenas para dar maior materialidade ao fato de que, por mais que vivamos em um mundo mergulhado em informação (ou em pensamentos objetivos), há, e talvez sempre houve, uma disputa constante para determinar quem governa isso tudo.

A cobra que engole o próprio rabo.
Os periódicos científicos nasceram com uma missão honrosa. Facilitar a difusão da produção científica entre a comunidade. Hoje mais atrapalham do que ajudam. O Renato abordou o tema em um de seus textos, mas aproveito pra dar meu pitaco.

E começo pelo problema mais fundamental que se pode imaginar. A produção científica já a algum tempo supera, e muito, a capacidade de publicação dos periódicos. Fato posto, os periódicos tiveram que encontrar uma solução para escolher o que deveria ser publicado. E a solução foi o peer-review. Afinal, quem melhor que a própria comunidade científica para decidir o que quer ler?

Embora o peer review resolva o problema dos publhishers, acaba por criar muitos outros para a própria comunidade. O expoente mais clássico disso é o já velho conhecido “publique ou pereça” e sua versão remodelada “seja citado ou pereça”. O ponto principal aqui é notar que uma dúzia de indivíduos não são representativos o suficiente para decidir o que é que uma comunidade inteira deve ler.

Outro problema com este sistema é que ele é caro. Uma assinatura de um publisher qualquer pode, e em geral ultrapassa, facilmente os US$ 10.000,00 por ano, o que o torna muitas vezes proibitivo. Mesmo para as instituições de ensino e bibliotecas. O custo elevado de acesso também dificulta o trabalho de pesquisadores autônomos, desvinculados de instituições de pesquisa.

No final das contas, temos um sistema que se mantém com conteúdo gerado pela comunidade científica, mas que dificulta o acesso da própria comunidade. A situação toda não fica menos bizarra ao notarmos que, embora os publishers cobrem pelo acesso, não pagam ao cientista pelo trabalho publicado.

O circo de Alexandria.
Em 2004 o Google começou a digitalizar livros para torná-los indexáveis pelo seu buscador. A iniciativa virou caso de tribunal quando, em 2005, o Authors Guild e a Association of American Publishers decidiu entrar com uma ação na justiça por se sentir prejudicada pela iniciativa.

O caso está prestes a ser resolvido com um acordo entre as partes, aonde o Google passa a ter a permissão legal para digitalizar e fornecer acesso em troca da cobrança de uma taxa, que será em parte repassada aos autores. O problema é que, se o acordo for homologado da forma que está, irá tornar outras iniciativas de digitalização que já existem (e tantas outras que poderão vir a existir) ilegais (nos Estados Unidos, que fique claro).

Os detalhes do acordo me são obscuros, mas é curioso ver como os concorrentes do Google, como a Microsoft e o Yahoo, estão tão ferozmente tentando expandir os termos do acordo para que eles também estejam legalmente cobertos. Em termos gerais a briga é para impedir que o Google monopolize o mercado de livros digitalizados.

Não menos curioso é ver o artigo de opinião da autoria de Sergey Brin, co-fundador do Google, publicado no The New York Times. No texto em questão ele alega que o interesse do gigante de buscas não é meramente comercial. Não. O objetivo é impedir que desastres, como os diversos incêndios da biblioteca de Alexandria, voltem a destruir por completo a produção intelectual do mundo.

O que o Google quer, segundo seu fundador, não é produzir a maior loja virtual de livros do mundo, mas sim a maior biblioteca da história da humanidade. É claro que fica difícil de engolir o argumento quando um acordo judicial sobre o caso prevê a cobrança de uma taxa que, ainda que em parte, termina nos bolsos do Google.

É da natureza das bibliotecas fornecer acesso à livros e artigos sem cobrar seus utilizadores. Se era de fato o interesse do Google construir uma biblioteca virtual, por que não buscar parcerias com o governo e outras entidades para arcar com os custos exigidos pela indústria de livros dos Estados Unidos?

Quem governa o 3º mundo?
A pergunta que serve de título a este texto não possuí uma resposta fácil. Talvez nem possua uma resposta. Ainda assim darei meu ponto de vista. Quando Popper propôs o 3º mundo fez questão de sublinhar sua independência, no sentido de que um conhecimento objetivo não depende de seu criador para continuar a existir.

Popper chega mesmo a sugerir um exemplo aonde toda a humanidade foi devastada, deixando para trás apenas seus livros e obras de arte. Em tal cenário, uma outra civilização inteligente poderia entrar em contato com este conhecimento perdido e aprender com o nosso legado.

O que Popper talvez tenha ignorado é que para tal, o 3º mundo precisa estar manifestado em algum tipo de mídia e, a história mostra, todas as mídias que conhecemos são controladas por alguém. Podemos dizer então que, pelo bem ou pelo mal, a indústria do entretenimento e os publishers governaram o 3º mundo na medida em que eram elas quem forneciam acesso a ele através de suas mídias.

Por outro lado o cenário atual é muito mais otimista. O advento da internet permitiu que conteúdo fosse produzido e distribuído de maneira mais econômica, por vezes a custo zero. Isso evidentemente enfraquece um modelo e negócio que se sustentava justamente na dificuldade que um autor tinha em se fazer lido. Ou de um músico em ser ouvido.

O controle do 3º mundo se diluiu de tal forma que, podemos dizer, ele esta muito próximo de governar a si próprio. As brigas judiciais pela distribuição de livros digitais só demonstra o óbvio. O papel de mediador que as editoras possuíam esta deixando de fazer sentido. É o fim agonizante de um modelo de negócios que não soube se reinventar.

E o que isso significa para o cientista? A própria metodologia de validação do conhecimento produzido pela ciência acaba por garantir aos grandes publishers mais alguns anos de sobrevivência tranqüila. Tradicionalistas que somos, nos acostumamos com a economia do “publique ou pereça”, nos acostumamos ao sistema de peer-review, nos acostumamos a depender de um periódico para termos acesso às novidades de nossas áreas.

Mas até quando esse cenário irá durar? As desvantagens são evidentes e, tão logo começarmos a perceber que este sistema, ao invés de facilitar o acesso ao conhecimento, cria barreiras cada vez maiores, passaremos a buscar novas alternativas.

O que precisamos ter em mente é que o cientista, em última análise, não se difere de um escritor de romances ou de um músico. Nós, assim como eles, queremos ver nosso trabalho circulando pelo maior número possível de indivíduos da comunidade. A comunidade, por sua vez, quer ter acesso a este conteúdo todo.

Temos a fome e a vontade de comer, e os publishers são como um caríssimo restaurante francês. Embora eventualmente possamos pagar um pouquinho a mais para comer algo diferente, é o feijão com arroz diário que nos mantém em pé.

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Ciência em fase beta.

Publicar um artigo científico é, em geral, um processo laborioso e até certo ponto burocrático. Além do evidente trabalho de escrever o artigo, é preciso submetê-lo a uma revista apropriada e torcer por uma resposta positiva. Daí até a publicação efetiva o artigo ainda passa pela peer review e etc.

O caso é que na maioria das revistas, da aceitação do artigo à publicação, existe um hiato de, em geral, um ano. Dependendo da revista, esse período pode aumentar ainda mais, eventualmente, chegando a três anos.

Disso resulta que é muito comum ver os pesquisadores distribuindo seus trabalhos entre seus colegas antes de ele ser publicado. A questão que podemos levantar disso tudo é, até quando tal situação vai se manter?

Quer dizer, é compreensível a importância do artigo publicado em uma revista científica. Tem a ver com a famosa “auto-validação” da comunidade. Quando um artigo é publicado, significa que esta validado. Por outro lado, tal artigo já estava “nas mãos” da comunidade antes disso, e em alguns casos, já poderia estar sendo usado como conhecimento validado.

Se assim o é, podemos dizer que o artigo já estava validado pela comunidade, embora não pelo método “oficial”. Extrapolando um pouco a situação toda, e fazendo um monte de especulações, podemos imaginar um cenário futuro curioso.

E se os pesquisadores começassem a disponibilizar seus artigos em seus blogs ou sites pessoais? E mais, e se isso fosse o suficiente para o trabalho ser reconhecido pela comunidade? Afinal, por mais referree’s que uma revista possa arranjar para avaliar seu artigo, eles ainda seriam menos do que os que poderiam potencialmente realizar a mesma atividade caso o artigo estivesse amplamente disponível na internet.

De fato, é possível dizer que desta forma, toda a comunidade de pares poderia, em última análise, avaliar um artigo qualquer. Mais ainda, o pesquisador em questão poderia ir modificando seu artigo conforme fosse recebendo críticas ou sugestões, além de poder constantemente atualizá-lo conforme fosse desenvolvendo a pesquisa.

Isso produz um efeito semelhante ao que vemos hoje em dia com os softwares disponíveis pelas grandes empresas de internet. Eles estão sempre em fase beta, por que estão sempre sendo modificados pra atender o feedback dos usuários.

Será este o destino da ciência 2.0? Estar em fase beta? E com uma comunidade capaz de validar os trabalhos científicos sem que eles sejam publicados em revistas de renome, qual seria o destino destas publicações?

É um cenário extremo, mas não de todo impossível.

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Kuhn e sua grande descoberta.

Quando falamos em descobertas científicas, logo imaginamos novos planetas, partículas quânticas, eventualmente algum vírus ou bactéria e, com maior frequência, algum aparelho ou aplicação nova. Nada essencialmente errado com isso. O que poucas vezes consideramos como legítimas descobertas, são as abstrações que acabam por produzir novas tendências na ciência.

É o caso das revoluções científicas de Thomas Kuhn. Não, não estou ficando maluco. Estou atestando que uma idéia filosófica é uma das grandes descobertas científicas já feitas. Mas explico melhor.

Antes de Kuhn, o estudo da ciência se dividia em filosofia da ciência e história da ciência. Dois processos separados, sendo investigados de formas distintas e em departamentos distintos. Kuhn, enquanto estudava para realizar um seminário sobre filosofia da ciência teve um insight. Percebeu que era muito mais simples entender a filosofia da ciência quando se compreendia o contexto histórico em que ela se desenvolvia.

Em seu livro de 1962, A Estrutura das Revoluções Científicas, além de propor a idéia de revoluções e criar o conceito original da incomensurabilidade, Kuhn sugere que não faz sentido estudar filosofia da ciência ignorando a história. São dois processos de relações muito estreitas e melhor compreendidos quando estudados juntos.

O livro em si criou uma série de polêmicas. A maioria delas tratava da idéia de revoluções científicas, algumas sobre incomensurabilidade. Mas praticamente ninguém questionou a noção de se estudar ciência e filosofia da ciência como uma coisa só. Daí por diante a idéia se sedimentou.

Na Universidade de Lisboa isso pode ser notado de forma bastante didática. Antes existiam os cursos de pós-graduação em história da ciência, pelo departamento de história e o curso de filosofia da ciência, pelo departamento de filosofia. Hoje, o mestrado e doutorado na área é oferecido pela Secção Autônoma de História e Filosofia da Ciência.

Uma idéia simples, mas que modificou pra sempre a maneira como estudamos e tentamos compreender a ciência e sua influência na sociedade.

Este texto faz parte da Blogagem Coletiva sobre Descobertas Científicas. Para saber mais a respeito e ler os outros textos, visite o site do Raio-X, dos nossos amigos do Lablogatórios.

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