Divulgação Científica: Uma atividade sem conceito?

fevereiro, 2010

Não acredito que haja hoje um só cientista que não defenda a prática da divulgação científica, ainda que muitos deles não se dêem ao trabalho de produzir uma só linha de texto com este fim. Ainda assim, não da pra ignorar que o passado da atividade é cheio de louros e heróis.

Isaac Asimov, Stephen Jay Gould, Carl Sagan, Julian Huxley, Richard Dawkins e nossos brasileiríssimos Marcelo Gleiser e o pai da divulgação científica tupiniquim José Reis, só pra citar os mais conhecidos. Todos eles lembrados como homens incansáveis no trabalho de popularização da ciência.

Foram estes nomes que inspiraram uma série de novos indivíduos a continuarem seus trabalhos e, graças ao advento da internet e da web, o que vimos nos últimos tempos é a proliferação de blogs e sites preocupados em levar a ciência ao público por vezes referido como leigo. Este blog, claro, não é diferente e eu, como tantos outros, também tenho minhas dívidas com estes grandes divulgadores.

Daí que com tantas boas inspirações, a nova geração de divulgadores científicos já nasceu com uma ideia pré-formatada de modus operandi do divulgador e as vezes nos esquecemos de parar um minuto para pensarmos, o que é, de fato, a divulgação científica.

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Quem governa o 3º Mundo?

novembro, 2009

Não, não me refiro aos chamados países em desenvolvimento. O 3º mundo ao qual estou me referindo é aquele proposto pelo grande filósofo Karl Popper. Já escrevi sobre o assunto neste blog antes mas, tendo em vista que o texto não foi lá muito claro, faço uma nova tentativa.

Em seu livro Conhecimento Objetivo, Popper propõem uma divisão tripla do mundo. O 1º mundo é aquele que contém objetos físicos ou estados materiais. O 2º mundo é composto por estados de consciência ou mentais. E por fim o 3º mundo, habitado por conteúdos objetivos de pensamento, em especial pensamentos científicos, poéticos e de outras obras de arte.

Vemos então que no 2º mundo estão os pensamentos subjetivos, ou o ato de pensar em si, enquanto no 3º mundo estão os pensamentos objetivos, ou o conteúdo destes pensamentos. Livros, artigos e obras de arte são a representação física dos habitantes deste último.

Mas este não é um texto sobre Karl Popper, ou mesmo sobre considerações a respeito da validade ou implicações da divisão proposta pelo filósofo. A introdução sobre o 3º mundo popperiano me serve apenas para dar maior materialidade ao fato de que, por mais que vivamos em um mundo mergulhado em informação (ou em pensamentos objetivos), há, e talvez sempre houve, uma disputa constante para determinar quem governa isso tudo.

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Ciência em fase beta.

março, 2009

Publicar um artigo científico é, em geral, um processo laborioso e até certo ponto burocrático. Além do evidente trabalho de escrever o artigo, é preciso submetê-lo a uma revista apropriada e torcer por uma resposta positiva. Daí até a publicação efetiva o artigo ainda passa pela peer review e etc.

O caso é que na maioria das revistas, da aceitação do artigo à publicação, existe um hiato de, em geral, um ano. Dependendo da revista, esse período pode aumentar ainda mais, eventualmente, chegando a três anos.

Disso resulta que é muito comum ver os pesquisadores distribuindo seus trabalhos entre seus colegas antes de ele ser publicado. A questão que podemos levantar disso tudo é, até quando tal situação vai se manter?

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Kuhn e sua grande descoberta.

outubro, 2008

Quando falamos em descobertas científicas, logo imaginamos novos planetas, partículas quânticas, eventualmente algum vírus ou bactéria e, com maior frequência, algum aparelho ou aplicação nova. Nada essencialmente errado com isso. O que poucas vezes consideramos como legítimas descobertas, são as abstrações que acabam por produzir novas tendências na ciência.

É o caso das revoluções científicas de Thomas Kuhn. Não, não estou ficando maluco. Estou atestando que uma idéia filosófica é uma das grandes descobertas científicas já feitas. Mas explico melhor.

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Divulgação Científica 2.0

setembro, 2008

Um usuário on-line. Há segredos na ciência! O laboratorista tranca portas a sete chaves. Ou porque descobriu uma enzima nova, ou porque mapeou um gene antes do cara do laboratório ao lado. E há séculos que a ciência institucionalizada é pouco colaborativa e está presa a mais-valia. O cabo é de guerra e os dois usuários on-line estão a espreita de verbas, ou em busca de um aceite de seu artigo para publicação naquela revista especializada que irá projetá-lo como o ban-ban-ban da enzima –a ser batizada com seu próprio nome– ou do gene em questão. Não conversam entre si, embora desenvolvam trabalhos complementares.

Cinco usuários on-line. A necessidade faz o ladrão e, de repente, surge um comércio de co-autoria para pesquisadores menos éticos. E na mesma essência da mais-valia, cria-se uma corrente do tipo “me adiciona que eu te adiciono”. Enquanto estes fingem que se ligam uns aos outros, cinco usuários do tipo papers (artigos científicos revistos por pares) desta ou daquela revista não conversam entre si, embora configurem um mesmo centro de pesquisa ou uma mesma editoria, dizem assuntos correlatos e utilizam a mesma bibliografia, quiçá o mesmo método. A revista, em bloco, é segmentada e o artigo é uma unidade. Dez usuários on-line. Isso para não dizer dos autores esconde-esconde. Aqueles que não publicam os dados relevantes de suas pesquisa e que acreditam guardar “o segredo” que lhes garantirão chegarem isolados ao pódio ban-ban-ban. Aí é falácia.

Quinze usuários on-line. Me publica que eu te publico! As instituições de pesquisa perceberam que seus índices de visibilidade crescem na medida em que elas são citadas e aparecem nos periódicos científicos. Vinte usuários on-line.

É claro que se a gente for parar para pensar, nem tudo é tão frio assim, mas trinta usuários on-line e o calor dos corpos revelam que a divulgação científica 1.0, em termos institucionais, pouco mudou com o passar dos tempos. Entra ano, sai ano, a cena se repete: pesquisadores isolados escondendo o jogo em prol da mais-valia. Ouro de tolo? Nem tanto. Quarenta usuários on-line.

Não é de hoje que se questiona a divulgação das informações científicas e se estuda a possibilidade de se fazer da ciência a partir de um movimento aberto, como mostra o artigo publicado na edição de abril da Scientific American “Science 2.0 – Is Open Access Science the Future?” (Ciência 2.0 – A Ciência de Acesso Público será o Futuro?) ao discutir como a web 2.0 pode impactar a forma como se faz e divulga ciência nos dias atuais. Cinqüenta usuários; há novas ferramentas on-line! Para este segmento das Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs), a idéia é colaborativa.

Cem usuários on-line. Na web 2.0, cujo conteúdo é o produzido pelo próprio usuário, as wikis –ferramenta colaborativa de construção de hipertexto– e os softwares com licença Open Source –cujo código fonte fica disponível na rede– criaram uma nova proposta de gerenciamento da informação, a divulgação científica 2.0.

Duzentos usuários on-line que se entretém, divulgam ou produzem ciência de forma nunca vista anteriormente, seja através de blogs, comunidades como o Orkut, realidades virtuais como a Second Life ou sítios como o YouTube. Quinhentos usuários on-line e uma licença de direitos autorais para conteúdos abertos, a Creative Common. Mil usuários em rede.

Premio Podcast 2008.

por
agosto, 2008

Começou ontem o prêmio podcast 2008. O Polegar Cast também esta concorrendo, na categoria de educação (fica a sugestão para a organização do prêmio, ano que vem seria legal ter uma categoria pra ciência).

Existem duas modalidades de premiação, a de voto popular e a de juri técnico. Por isso, gostaríamos de sua ajuda. Se você gosta do Polegar Cast, esta é sua chance pra demonstrar todo seu apoio, carinho (??) e amor (????). Clique no banner abaixo e, na página que irá abrir, no botão verde (Vote e entre no site).

Também é possível votar pelo botão localizado na barra lateral. O premio só contabiliza votos únicos, então você só pode votar uma vez… por computador. Se tiver mais de um, manda ver. Além disso, a votação não requer nenhum cadastro ou qualquer outro tipo de burocracia.

Não esqueçam de recomendar o podcast para a família e para os amigos (e também peça que eles votem na gente, claro).

Agradecemos o seu voto.

Vote na gente para o prêmio podcast!

Vote na gente para o prêmio podcast!

Curtinhas da semana.

agosto, 2008

Blogosfera científica:

Foi ao ar semana passada o primeiro condomínio de blogs de ciência do Brasil, o Lablogatórios. A iniciativa é do Carlos Hotta e do Átila Iamarino , que tiveram a brilhante idéia de juntar em um mesmo lugar uma série de excelentes blogs de ciência.

O Polegar também foi convidado, mas apesar de não termos nos mudado de mala e cuia pra lá, apoiamos o projeto e torcemos para o seu sucesso.

Blogosfera feminina:

Ah as mulheres! O que seria do mundo sem elas? A ciência também seria um lugar bem mais inóspito, e em homenagem a elas, segue algumas indicações:

A Bárbara do BioLógicas fez um texto excelente sobre a teoria do equilíbrio pontuado do Stephen Jay Gould. Além do texto dar a devida importância a um dos maiores divulgadores de ciência, ainda completa com excelência o texto sobre Elos Perdidos aqui do Polegar.

A Isis do Xis-Xis também representa com louvor a blogosfera de divulgação científica feminina. Eu tentei escolher algum texto em específico pra recomendar, mas o blog é tão bom que seria um pecado não recomendá-lo por completo. Então não deixem de visitar.

A Lua também tem um blog dedicado. Mantido pela Tânia, o site é repleto de informação a respeito de nosso satélite natural. E convenhamos, de todas as mulheres, a Lua é provavelmente a que mais inspirou poetas, escritores, homens apaixonados e cientistas.

E por último, mas não menos importante, a Andréa resenhou um livro que aborda a questão das células tronco de uma maneira, digamos, um pouco tendenciosa… Vale a leitura.

A Second Life da Divulgação Científica

julho, 2008

Orkut, Facebook, Flickr, Myspace, Live Journal, Twitter, fotologs e weblogs ou blogs rompem as fronteiras geográficas e conectam pessoas mundo afora. Nesta nova relação do tempo com o espaço, as proximidades intelectuais acompanham uma sociedade em constante, rápida e permanente mudança. Também a Second Life, na onda das realidades virtuais, entra para discutir a dimensão das vidas on e off-line.

Com o avanço ponto.com é fato que a velocidade com que as relações acontecem difere do passado e nem tudo é tão híbrido como nem tudo o que está na rede é, de fato, uma comunidade virtual. Neste aspecto, tanto a vida medida em pixels e bits quanto a vida fora da web entram em acordo: as comunidades, quando deixam de ter um caráter cooperativo calcado em projetos comuns aos participantes ou quando estes não estabelecem um sentimento de pertencimento a elas, tornam-se apenas um agrupamento de pessoas, uma rede de conexões. Precisam estar mais além.

Nos dias de hoje é praticamente indiscutível: o virtual e o real se cruzam a todo instante e a divulgação científica também não está só na interface de lá ou só no lado de cá. Na Web 2.0, cujo conteúdo é o produzido pelo próprio usuário, as wikis – ferramenta colaborativa de construção de hipertexto – e os softwares com licença Open Source – cujo código fonte fica disponível na rede – criaram uma nova proposta de gerenciamento da informação. Para este segmento das Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs), a idéia é colaborativa. É o caso da plataforma Moodle – um Sistema de Gerenciamento de Aprendizagem (SGA) – e da plataforma S.E.E.R, um Sistema Eletrônico de Editoração de Revistas. Ambos estão voltados à aprendizagem e pesquisa e encabeçam a lista dos chamados Recursos Educacionais Abertos (REA), mais conhecidos por sua sigla em inglês OER (Open Educacional Resources).

A internet, ao oferecer estas ferramentas e outras como o YouTube – um site que permite que seus usuários carreguem, assistam e compartilhem vídeos em formato digital – cria uma nova forma de divulgação científica na medida em que milhões de pessoas se entretém, educam e se informam de uma maneira como nunca foi vista. A disseminação do movimento Conteúdo Aberto, baseado então no movimento FLOSS (Free Libre and Open Source Software), gera um grande motivador para os avanços da divulgação científica em meio digital.

Para corroborar, surge a Creative Common License, uma licença baseada no conceito de que é preciso criar e disponibilizar uma grande quantidade de informações e conteúdos de forma que assegure e sustente a criatividade e o ineditismo do autor. Com uma rápida aceitação dos internautas que produzem conteúdo diferenciado na web, a licença ganhou os sites pessoais e blogs. Estes últimos, que há muitos anos deixaram de ser um simples diário virtual para se transformarem em local de debate através de conteúdos específicos e temas polêmicos, ganham novo fôlego e impulsionam novos usuários a criarem seus próprios espaços para a veiculação de suas idéias.

Nota-se que ainda compõe o ciberespaço a Comunicação Mediada por Computador (CMC). Trata-se dos usuários emissores e receptores de e-mails, newslatters, fóruns, quadros de avisos ou scrapbooks, salas de bate-papo ou chats, assinantes de feeds que frequentemente comentam em blogs. São redes que se criam e que não se prendem geograficamente já que o internauta escolhe seu grupo pelo conteúdo e raízes. Bom para a divulgação científica, dentre outras coisas.