“Salami science”, autoria contestável e o alpinismo científico

Ninguém gosta de ser avaliado e criticado. Para os cientistas, tão acostumados com suas idéias estarem “certas” e serem corroboradas e publicadas, a avaliação se torna algo até mais temeroso do que para a maioria da população. Entretanto, ninguém escapa de ser avaliado, ainda mais sob a perspectiva de ganhar financiamento (e status, claro, por que não?), passando para isso pelo “simples” desconforto e pressão de ter seu trabalho avaliado.

Um aluno comum, na escola, quando sob pressão é levado a tomar atitudes contra a nossa moral, como a “cola”. O mundo adulto não é tão diferente, por mais que nos recusemos a acreditar. As atitudes que tomamos em medidas desesperadas apenas apresentam uma “roupagem” mais bonita, com a qual podemos disfarçar o que foi feito e ganhar a simpatia da nossa classe, que pode aprovar até mesmo as atitudes mais imorais. São as desculpas que damos a nós mesmos para escapar de uma avaliação ruim, seja ela qual for.

No paradigma atual da avaliação dos programas de pós-graduação e seus pesquisadores, a CAPES se torna um fantasma assombrando a vida de todos minimamente ligados ao âmbito acadêmico. Suas normas, equações, pontuações e avaliações levam os pesquisadores muitas vezes a medidas desesperadas. Mas creio que o maior impacto de um método de avaliação tão “espartano” (joguem os fracos do precipício e fiquem com os soldados mais eficientes) é a legitimação de atitudes fraudulentas e pouco éticas.

Escalando o caminho para o “sucesso”

Principalmente em campos mais competitivos, a “salami science” é encarada como uma prática habitual, até mesmo normal. Afinal, para que fazer do seu doutorado, quatro anos de trabalho intenso, apenas uma publicação se você pode dividi-lo em duas, três ou mais partes? E dessa forma, encontramos diversos trabalhos de pequeno impacto publicados para fornecer mais uma linha no currículo do pesquisador.

Como exemplo do absurdo que a postura “salami science” pode produzir, o professor Sidney Redner da Universidade de Boston fez uma pesquisa sobre as publicações de uma das revistas de sua área, a Physical Review. Os números obtidos são assustadores: de 353.000 artigos publicados, apenas 11 tiveram mais de 1000 citações; 245.000 (a maior parte) tiveram menos de 10 citações; 100.000 tiveram uma ou nenhuma citação. Com isso podemos ver que 1/3 das publicações dessa revista não tem impacto algum. E apesar da ausência de outros estudos do gênero, há especulações que para a maioria das revistas haja um comportamento semelhante. Com isso, temos o desperdício de tempo dos pares na revisão de artigos, desperdício de tempo e dinheiro de revisores e outros trabalhadores do jornal, desperdício de impressão e postagem além do desperdício na indexagem de tais artigos. Em suma, a única pessoa que ganha com isso é o autor, uma linha a mais no currículo, um ponto a mais na sua avaliação e uma probabilidade um pouco maior de se sobressair a outro candidato em um concurso.

Dessa maneira, uma das estratégias de alpinismo científico se torna legitimada em diversos laboratórios. Ao ponto de você conversar com os professores e alunos e eles acreditarem piamente que estão trabalhando de maneira idônea. E se as publicações nos dão vantagem em concurso, além da dividir o próprio trabalho, a cooperação com outros pesquisadores também deve ser frutífera para tais objetivos. Aqui vemos a segunda estratégia de alpinismo científico mais praticada: a autoria irresponsável.

Uma idéia concebida num grupo de discussão, o uso de estrutura laboratorial e insumos de um professor, dados de coleta de informações e mesmo a figura do orientador. Quais das desculpas acima justifica a autoria de um trabalho? Quem estipula onde pára o agradecimento e começa a autoria? Até dia 16 de Setembro deste ano, ninguém.

Regulando uma postura responsável

Eis que a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) elaborou uma cartilha para dizer aos pesquisadores quem está fazendo ciência certo e quem está fazendo ciência errado (ou ao menos, quem divulga seus resultados de tal maneira). Pela primeira vez para o Brasil foi tomada uma iniciativa reguladora, na qual a FAPESP lançou o “Código de Boas Práticas científicas” que, infelizmente, ainda não apresenta medidas punitivas e corretivas específicas, mas já deve ter assustado diversos pesquisadores.

E em um dos tópicos mais amados (ou odiados) a FAPESP pronuncia que “Em um trabalho científico, devem ser indicados como seus autores todos e apenas os pesquisadores que, tendo concordado expressamente com essa indicação, tenham dado contribuições intelectuais diretas e substanciais para a concepção ou realização da pesquisa cujos resultados são nele apresentados. Em particular, a cessão de recursos infraestruturais ou financeiros para a realização de uma pesquisa (laboratórios, equipamentos, insumos, materiais, recursos humanos, apoio institucional, etc.) não é condição suficiente para uma indicação de autoria de trabalho resultante dessa pesquisa.” (tópico 2.2.6, página 6, grifo meu). Com isso, poderíamos esperar que as publicações se atentassem mais a tais especificações. Entretanto, há duas barreiras a se transpor para que isso ocorra.

A primeira é da comodidade e do lugar-comum. Não é um código com medidas punitivas etéreas que conduzirá o trabalho e publicações científicas de maneira mais ética. Para tal, ou o pesquisador se predispõe a repensar sua prática ou medidas sancionadoras chegam “de cima para baixo” e o colocam nas normas (seja a revista na qual publica, a pós-graduação que o abriga ou sua agência de fomento).

A segunda barreira é a nossa própria visão do “certo e errado” em ciência. Em um momento no qual somos bombardeados com informação de diversos tipos, e que nem toda informação apresenta autoria específica, fica difícil discutir o que é nosso e o que proveio de outrem. E a internet apresenta um papel fundamental nessa questão. E se o problema de autoria se encontra nos laboratórios, devemos verificar se não ocorre algo semelhante durante o processo de formação do pesquisador. Se durante a faculdade sua maneira de pesquisar e não citar fontes for legitimada pela correção do professor, o sentimento de que ninguém o observará a fundo prevalece. Atualmente, alguns scripts funcionam na internet para detectar os plágios, como o Farejador de Plágios, mas será que apenas a detecção do plágio é o suficiente?

Da formação à informação

A meu ver, assim como acontece com o ensino público brasileiro, a responsabilidade está passando cada vez mais adiante. É preciso ensinar as pessoas a pesquisar, derrubando a visão de que o conceito de pesquisa consiste em entrar num site de busca e coletar as informações dos primeiros sites que retornam. O senso crítico não pode ser deixado de lado em prol da informação per se. A formação do aluno vai além da reprodução do conhecimento obtido por outras pessoas. Se não abordarmos este tipo de assunto durante a formação dos pesquisadores, teremos um número cada vez maior de cientistas pouco “intelectuais” e mais “executores”, os quais não entenderão a ética nas suas atitudes e, por fim, formarão um número cada vez maior de organismos reprodutores de informação pouco críticos, cujos trabalhos não tem impacto nenhum para a sociedade (seja a sociedade geral ou acadêmica), interessados apenas no alpinismo científico.

5 Comentários
Categoria: blog
Carta aberta aos pais de alunos.

Nas últimas semanas acompanhei, sem me pronunciar é verdade, as inflamadas notícias sobre escolas brasileiras que decidiram inserir o criacionismo em suas aulas. A despeito da já infrutífera discussão entre criacionismo e evolucionismo, a reportagem da Veja sobre este assunto esbarra em um questão que se perde no “blablabla” habitual.

Lá, perdido no meio da reportagem, vemos a seguinte passagem:

Os pais de alunos das escolas evangélicas não costumam reclamar do fato de seus filhos serem instruídos no criacionismo em detrimento da ciência. Dizem ter escolhido a escola por acreditar que ela incute nas crianças valores morais, éticos e cristãos. “Nossa escola forma verdadeiros cidadãos. De que adianta o adolescente estar preparado para o vestibular se não tiver uma boa formação como ser humano?”, diz a baiana Selma Reis Guedes, uma das diretoras do Colégio Batista Brasileiro, de São Paulo.

Eu não poderia concordar mais com a diretora Selma, de que adianta estar preparado para o ensino superior sem a formação moral necessária? Por outro lado, não poderia descordar mais dos pais dos alunos que depositam no ensino religioso a responsabilidade pelo ensino moral e ético (e ainda estou em dúvida sobre o cristão).

Se existe um mérito compartilhado pela maioria das religiões, é a imagem pública conquistada. A maior parte das pessoas de fato correlaciona valores morais e éticos à religião. E há motivos para isso. É certo que muitas religiões defendem valores que em termo geral, são de fato éticos. Mas defender um valor qualquer não basta, é preciso praticá-lo.

Além disso, boa parte dos valores apreciados pela sociedade não nasceram com as religiões e, com efeito, são completamente independente delas. Uma pessoa não precisa ser religiosa para ser boa, assim como uma pessoa religiosa pode ser absolutamente má. É um salto retórico imenso colocar valores morais desejados como efeito de uma causa tão controversa quanto religião.

Outro salto retórico igualmente medonho é convencer as pessoas de que acreditar em uma teoria científica qualquer resulte no abandono da ética e da moral. E é exatamente o que esta implícito na fala da diretora Selma a qual chamei a atenção.

Portanto deixo aqui aos pais de alunos que se interessam verdadeiramente pela “formação como ser humano” de seus filhos. A educação começa em casa. Se os senhores desejam uma educação ética e moral para seus filhos, não depositem a responsabilidade apenas na escola.

Ética e moral são valores independentes de religiões e credos. Não caiam no erro de acreditar que uma educação científica deficiente, em prol de uma educação religiosa mais presente, irá produzir seres humanos melhores. Faz parte de um ser humano melhor saber conviver com a pluralidade cultural, religiosa e, vá lá, científica.

Uma educação que busca atacar essa pluralidade não é moral ou ética ou religiosa, independente de vestir tal máscara. É, em verdade, um ensino tacanho que irá produzir seres humanos igualmente tacanhos.

9 Comentários
Categoria: blog
Crodowaldo Pavan e o projeto Roda Viva Científico

A ciência, especialmente a genética, brasileira está de luto com o falecimento do Prof. Crodowaldo Pavan no dia 03/04/2009. O irreverente e obstinado pesquisador, autor de inúmeras contribuições científicas e políticas tanto quanto de observações provocadoras e desconcertantes em reuniões científicas ou declarações à sociedade, contava aos alunos de divulgação científica que nunca temeu estar errado! com a graça irônica de um vovô esperto que sorria ao lembrar-se de seus adversários científicos, que o colocaram, como bem lembrou o Thiago aí embaixo, dando três voltas no Mundo até acreditarem em seus cromossomos politênicos.

1998. Congresso da Sociedade Brasileira de Genética. Após exposição da Prof. Lygia da Veiga Pereira sobre clonagem, Pavan pega o microfone e diz alto e em bom tom, para a indignação dos demais geneticistas brasileiros. “Eu não vejo problema algum em um casal querer fazer clonagem para renascer um filho morto!”

Geração parental na minha formação científica me enchia de orgulho quando, ao freqüentar o Núcleo José Reis de Divulgação Científica, eu percebia que em seus discursos havia um tanto daquilo que eu havia aprendido com seu F1 Pedro Henrique Saldanha, meu orientador do mestrado. Era um cultivo ao entusiasmo romântico da ciência, de uma época na qual os valores éticos e morais eram muito mais sólidos, em que ser doutor e publicar era conseqüência e não uma necessidade anti perecimento na academia. Não é a toa que neste heredograma se expressa dominantemente a experiência do filme A história de Louis Pasteur – “Façam o que vocês gostam de fazer!”
“Glória, os textos dos alunos tem que entrar no livro!”

2007. Núcleo José Reis de Divulgação Científica. Ouço Pavan contar a mesma história, em duas ocasiões diferentes, fazendo a graça indescritível de balançar a cabeça imitando o diretor da Rockfeller. “Fui apresentado ao diretor da Fundação Rockfeller como sendo um bom pesquisador brasileiro. Ele me pediu que fizesse uma lista de materiais necessários para criar laboratórios de Genética Humana no Brasil. Pedi um microscópio e algum material de consumo. O homem olhou e disse que aquilo não era possível, para eu pedir mais. Fiz outra lista, sempre com a preocupação de não pedir demais e ficar sem saber explicar onde usei depois. Prá encurtar a história, o diretor resolveu que tudo bem só aquilo, mas nunca negou absolutamente nada do que pedi posteriormente. E com esta verba foram construídos os primeiros laboratórios de Genética Humana no Brasil.”

Na conversa com o Prof. Laércio Elias Pereira, surgiu a idéia de fazer o que chamamos inicialmente de “Projeto Roda Viva Científica”. Os Profs. Osmir Nunes e José Arbex Jr. incentivaram a proposta. Laércio mirou na TV Cultura.

01/07/2008.“Caro Professor Laércio, a pedido do nosso presidente, Paulo Markun, vamos marcar uma conversa. (…) ligue-me tão logo seja possível e assim combinaremos o encontro aqui na TV Cultura. Um abraço Pola Galé.”

Na reunião, da qual o próprio Prof. Pavan também participou, foi combinado que a TV Cultura elaboraria um projeto e nos retornaria em breve, mas apesar da minha insistência em atormentar a Sra. Shizuca, secretária do Sr Pola Galé, o projeto nunca aconteceu.

Lamentavelmente, não é possível compartilhar aquele olhar como queríamos, contando com toda aquela graça os caminhos que ajudou a trilhar na genética humana brasileira em primeira pessoa. Retumba na cabeça a lembrança de vê-lo descendo as escadas ignorando a própria dificuldade e o elogio “Muito boa a idéia de fazer este projeto e de termos vindo até aqui! Parabéns!” Será que eles vão mesmo topar fazer? “Se vão não sabemos, mas a nossa parte nós fizemos!”

Nenhum comentário
Categoria: blog
Nota de falecimento: Crodowaldo Pavan

Em 2007, quando comecei a fazer a pós em Divulgação Científica do Núcleo José Reis de Divulgação Científica, tive o prazer de conhecer pessoalmente o professor Crodowaldo Pavan (1/12/1919 – 03/04/2009). Aquele senhorzinho franzino, conservava um cérebro afiadíssimo. Sempre simpático com os alunos, sempre  disposto a conversar com todos.

Era conhecido pela força de suas opiniões, frequentemente polêmicas. Era, afinal, um grande exemplo de como um cientista deve realmente ser. Até os últimos dias questionador, curioso, engajado. Muito diferente da maioria dos cientistas de hoje, sempre preocupados demais com seus egos e currículo Lattes para poderem realizar um trabalho científico realmente interessante.

Pavan foi um dos maiores cientistas Brasileiros. Como ele, restam muito poucos. Sentiremos saudade do homem que sempre empolgado contava em como deu a volta ao mundo três vezes divulgando seu trabalho.

1 Comentário
Categoria: blog
Chagas e sua doença.

Carlos Justiano Ribeiro Chagas, o Carlos Chagas, foi um dos maiores cientistas brasileiros. Mineiro, filho de cafeicultor, estudou na Escola de Medicina do Rio de Janeiro. Teve o privilégio de estar na faculdade quando esta passou por profundas mudanças por conta das descobertas feitas por Luis Pasteur.

Teve como orientador Oswaldo Cruz, com quem manteve uma longa amizade. Não é de se espantar que um homem influenciado por Pasteur e amigo pessoal de Oswaldo Cruz, tenha sido um dos maiores médicos brasileiros.

Por sua tese de doutorado sobre malária, foi convocado por Oswaldo Cruz a ajudar no combate a doença. A eídemia foi controlada em cinco meses. O sucesso da operação acabaria levando Chagas, um ano depois, a ser enviado para a cidade de Lassance, em Minas Gerais.

Fonte: Wikipedia
Lassance estava no caminho de uma nova linha de trem. Os trabalhadores da ferrovia estavam sofrendo de uma aparente epidemia de malária e, por dois anos, Chagas se instalou em um vagão de trem que também servia de laboratório improvisado. Foi durante este período que ele encontrou o protozoário Trypanosoma cruzi.

A descoberta do T. cruzi levou Chagas a realizar um dos maiores feitos da medicina. Nenhum outro médico foi capaz de identificar e descrever todas as fases de uma doença. Desde seu vetor, o parasita, fases de encubação e formas clínicas.

Mesmo assim houve muita resistência inicial. Alguns pesquisadores negavam a relação entre o T. cruzi e a doença de chagas. Carlos Chagas por sua vez fez questão de exigir que sua descoberta fosse investigada das maneiras mais rigorosas possíveis. Uma atitude digna de um homem que compreende a ciência em sua plenitude.

Clique para ampliar. Fonte: Wikipedia.

Clique para ampliar. Fonte: Wikipedia.

Chagas ainda assumiu o instituto Oswaldo Cruz, na ocasião da morte do próprio Oswaldo, até então presidente do instituto. Acabou por promover mudanças administrativas inspirado no Instituto Pasteur, o que acabou por tornar o Oswaldo Cruz um dos institutos mais respeitados do país.

Infelizmente Chagas viveu o suficiente para ver o instituto sofrer com as ações de Getúlio Vargas, que interferiu na autonomia do Oswaldo Cruz, o que resultou em problemas administrativos e de manutenção das instalações.

Chagas morreu em 1934. Após sua morte uma série de pesquisadores de vários países acabaram por confirmar a relação entre o T. cruzi e a doença de chagas, acabando finalmente com a controvérsia que persistia até então. Carlos Chagas deixou para o Brasil bem mais que as muitas benfeitorias que produziu em vida. Deixou o exemplo de um cientista abnegado, que não se abatia com as adversidades, antes disso, as transformava em oportunidades únicas de crescimento.

3 Comentários
Categoria: blog