Aos periódicos tudo, à ciência o que sobrar…

Antes de mais nada leiam este texto…

Não leu? Não sabe inglês? Eu resumo rapidinho. Basicamente o texto chama atenção para um artigo que relata a pratica de alguns periódicos de pedir para autores de artigos aceitos para publicação citarem outros artigos publicados no mesmo periódico.

O título do texto do Ben Goldacre resume bem a situação: “nós aceitamos seu artigo para publicação mas… ééé… Você poderia citar outros artigos de nosso periódico?”.

Absurdo? Uma ofensa? Violação ética? Sim, todas as anteriores e, mais do que isso, completamente esperado.

 

Ciência e periódicos BFF’s.
A primeira coisa que precisamos entender sobre os periódicos é que eles eram necessários, MUITO necessários, no século XIX. Ok, muito necessários por mais tempo do que isso. O caso é que inicialmente eles surgiram para resolver o problema de comunicar para a comunidade os trabalhos sendo apresentados nas sociedades científicas de modo a ampliar o diálogo.

Tudo ia bem, ciência e periódicos viraram melhores amigos para sempre. A comunidade foi depositando cada vez mais sua confiança nestes nem sempre pequenos amontoados de papel e letras com ideias tão incríveis e que mudaram o mundo. Mas acaba que os periódicos são daqueles amigos interesseiros que só temos quando estamos bem. Eles não estão lá por que gostam de nós e se preocupam com o nosso futuro, não, eles só estão lá por que esperam lucrar com a relação de amizade.

 

It’s a trap!
Óh comunidade científica, você não aprendeu nada com O Retorno do Jedi? Acaba que a Estrela da Morte não só está operacional como tem seu escudo de força funcionando a todo vapor. E a culpa é só nossa, por termos permitido que o lado negro nos seduzisse.

Fomos nós, enquanto comunidade, que demos aos periódicos a capacidade de ditar nossa posição profissional, a qualidade do nosso trabalho acadêmico, se nossa produção científica vale a pena ser publicada, se podemos ou não ter acesso aos trabalhos uns dos outros…

Sim, tivemos um ou outro Almirante Ackbar nos avisando “é uma armadilha”, sim temos um ou outro Han Solo e Princesa Léia tentando contornar o problema do escudo de força (PLoS?), mas ainda estamos parados dentro de uma arma de destruição em massa ouvindo palavras sedutoras ao pé do ouvido de um velho caquético.

 

À ciência o que sobrar.
E é por isso que não devia ser surpresa para ninguém atitudes como a do periódico comentado no artigo indicado pelo Goldacre. Os periódicos não fazem caridade, não estão a serviço da ciência, não se sentem compelidos a seguir regras éticas caso violá-las seja mais rentável.

Periódicos e revistas científicas são, essencialmente, um modelo de negócio que vem dando certo a despeito de não fazerem mais sentido. A favor deles está a narrativa de que o processo de peer-review só é válido quando feito de forma “casada” à publicação do artigo, de que o fator de impacto diz qualquer coisa a respeito da qualidade do periódico, de que os melhores cientistas (ou ao menos os que valem a pena receber atenção do grande público e governo) são os que publicam em periódicos com alto fator de impacto.

Narrativas que a comunidade científica não só aceita de bom grado como não se preocupa em discutir muito. Sim, há vozes dissonantes. Sim, há gente preocupada com o cenário atual, mas em sua maior parte a ciência está preocupada demais com aceleradores de partículas e formas de vida sintéticas para se importar com questões tão menos exotéricas.

O que me deixa mais triste é que a discussão que irá surgir por conta do artigo, prevejo eu querendo muito estar errado, é sobre o que fazer com o periódico X ou Y, ou sobre como modificar o fator de impacto para ficar menos suscetível a “gaming”. Discutir toda a cadeia de produção, validação e publicação de artigos? Pffff, pra que?

Para uma comunidade feita de mentes tão brilhantes, capazes de moldar o futuro da sociedade e os rumos da humanidade, fica difícil entender e aceitar que estamos presos a um modelo que foi criado no século XIX. Nós sequer estamos seguindo aquele modelo que, pelo menos, estava a serviço da ciência.

É inacreditável que o mundo todo esteja passando por uma verdadeira revolução na maneira como as pessoas se comunicam e interagem e que a ciência ainda se deixe constrangir pelos limites do papel (ainda que ele seja um papel digital), dos bloqueios de acesso à produção intelectual (que, é preciso lembrar sempre, é comercializada sem que parte dos lucros reverta ao cientista) e da burocracia do peer-review (que poderia ser feito de uma maneira bem mais eficiente em um sistema mais aberto).

Enquanto o mundo se democratiza, a ciência continua reforçando um modelo aristocrático. Em épocas de Twitter e Facebook, de blogs e Wikipédia, ainda temos que pagar para ler o artigo que pautou este texto e o do Goldacre.

É como se o Mestre Yoda cobrasse do Luke (por mês ou por dica recebida) para alertar sobre os perigos do lado negro da força, e ele pagasse sem questionar.

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A ilusão da verdade.

Lidar com a ciência experimental é provavelmente um dos trabalhos mais difíceis de se fazer. O pesquisador precisa de paciência não só pra desenvolver sua teoria, mas encontrar as formas corretas de se testar as preposições e descobrir se está no caminho certo.

O problema esta justamente na experimentação. Há objetos de estudo que permitem experimentações simples. Por exemplo, se eu tenho a teoria de que todos os cisnes são brancos, a experimentação consiste na simples observação destes animais.

Mas nem sempre é assim. Como experimentar a existência de uma partícula quântica? Ou experimentar o processo de especiação? Embora seja possível, a realização esta longe de ser trivial. Essa dificuldade pode se transformar em uma armadilha para o cientista.

Se nos iludimos com uma pintura, o que pensar quando olhamos para o Universo?

Se nos iludimos com uma pintura, o que pensar quando olhamos para o Universo?

Por vezes estamos tão compenetrados em nosso trabalho, e não raro ele se torna tão desgastante, que podemos incorrer em um erro de interpretação e tomarmos um resultado qualquer como verdadeiro. O famoso “falso positivo”. É claro que a rotina de laboratório estabelece uma espécie de “sistema anti erros”, a repetição do experimento diversas vezes em geral evita que o erro permaneça.

Mas na história da ciência existem alguns casos de cientistas que, na obstinação de se provarem corretos, muitas vezes acabavam por não tomarem o cuidado de verificar seus resultados. Veja, não se trata em geral de casos de desonestidade, embora eles tenham existido. É antes de tudo a vontade embriagante de compreender o mundo.

Há ainda um outro problema. Dependendo da dificuldade experimental, podemos descobrir em algum ponto que o conhecimento humano e a tecnologia simplesmente não conseguem atingir determinados níveis de complexidade. Mas neste caso, o que nos faz convivermos com a ilusão é a incapacidade de lidar com a verdade.

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Ciência FAIL #1: Refutação.
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