Aos periódicos tudo, à ciência o que sobrar…

Antes de mais nada leiam este texto…

Não leu? Não sabe inglês? Eu resumo rapidinho. Basicamente o texto chama atenção para um artigo que relata a pratica de alguns periódicos de pedir para autores de artigos aceitos para publicação citarem outros artigos publicados no mesmo periódico.

O título do texto do Ben Goldacre resume bem a situação: “nós aceitamos seu artigo para publicação mas… ééé… Você poderia citar outros artigos de nosso periódico?”.

Absurdo? Uma ofensa? Violação ética? Sim, todas as anteriores e, mais do que isso, completamente esperado.

 

Ciência e periódicos BFF’s.
A primeira coisa que precisamos entender sobre os periódicos é que eles eram necessários, MUITO necessários, no século XIX. Ok, muito necessários por mais tempo do que isso. O caso é que inicialmente eles surgiram para resolver o problema de comunicar para a comunidade os trabalhos sendo apresentados nas sociedades científicas de modo a ampliar o diálogo.

Tudo ia bem, ciência e periódicos viraram melhores amigos para sempre. A comunidade foi depositando cada vez mais sua confiança nestes nem sempre pequenos amontoados de papel e letras com ideias tão incríveis e que mudaram o mundo. Mas acaba que os periódicos são daqueles amigos interesseiros que só temos quando estamos bem. Eles não estão lá por que gostam de nós e se preocupam com o nosso futuro, não, eles só estão lá por que esperam lucrar com a relação de amizade.

 

It’s a trap!
Óh comunidade científica, você não aprendeu nada com O Retorno do Jedi? Acaba que a Estrela da Morte não só está operacional como tem seu escudo de força funcionando a todo vapor. E a culpa é só nossa, por termos permitido que o lado negro nos seduzisse.

Fomos nós, enquanto comunidade, que demos aos periódicos a capacidade de ditar nossa posição profissional, a qualidade do nosso trabalho acadêmico, se nossa produção científica vale a pena ser publicada, se podemos ou não ter acesso aos trabalhos uns dos outros…

Sim, tivemos um ou outro Almirante Ackbar nos avisando “é uma armadilha”, sim temos um ou outro Han Solo e Princesa Léia tentando contornar o problema do escudo de força (PLoS?), mas ainda estamos parados dentro de uma arma de destruição em massa ouvindo palavras sedutoras ao pé do ouvido de um velho caquético.

 

À ciência o que sobrar.
E é por isso que não devia ser surpresa para ninguém atitudes como a do periódico comentado no artigo indicado pelo Goldacre. Os periódicos não fazem caridade, não estão a serviço da ciência, não se sentem compelidos a seguir regras éticas caso violá-las seja mais rentável.

Periódicos e revistas científicas são, essencialmente, um modelo de negócio que vem dando certo a despeito de não fazerem mais sentido. A favor deles está a narrativa de que o processo de peer-review só é válido quando feito de forma “casada” à publicação do artigo, de que o fator de impacto diz qualquer coisa a respeito da qualidade do periódico, de que os melhores cientistas (ou ao menos os que valem a pena receber atenção do grande público e governo) são os que publicam em periódicos com alto fator de impacto.

Narrativas que a comunidade científica não só aceita de bom grado como não se preocupa em discutir muito. Sim, há vozes dissonantes. Sim, há gente preocupada com o cenário atual, mas em sua maior parte a ciência está preocupada demais com aceleradores de partículas e formas de vida sintéticas para se importar com questões tão menos exotéricas.

O que me deixa mais triste é que a discussão que irá surgir por conta do artigo, prevejo eu querendo muito estar errado, é sobre o que fazer com o periódico X ou Y, ou sobre como modificar o fator de impacto para ficar menos suscetível a “gaming”. Discutir toda a cadeia de produção, validação e publicação de artigos? Pffff, pra que?

Para uma comunidade feita de mentes tão brilhantes, capazes de moldar o futuro da sociedade e os rumos da humanidade, fica difícil entender e aceitar que estamos presos a um modelo que foi criado no século XIX. Nós sequer estamos seguindo aquele modelo que, pelo menos, estava a serviço da ciência.

É inacreditável que o mundo todo esteja passando por uma verdadeira revolução na maneira como as pessoas se comunicam e interagem e que a ciência ainda se deixe constrangir pelos limites do papel (ainda que ele seja um papel digital), dos bloqueios de acesso à produção intelectual (que, é preciso lembrar sempre, é comercializada sem que parte dos lucros reverta ao cientista) e da burocracia do peer-review (que poderia ser feito de uma maneira bem mais eficiente em um sistema mais aberto).

Enquanto o mundo se democratiza, a ciência continua reforçando um modelo aristocrático. Em épocas de Twitter e Facebook, de blogs e Wikipédia, ainda temos que pagar para ler o artigo que pautou este texto e o do Goldacre.

É como se o Mestre Yoda cobrasse do Luke (por mês ou por dica recebida) para alertar sobre os perigos do lado negro da força, e ele pagasse sem questionar.

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Conheço, logo acredito?

A discórdia é o motor propulsor da Ciência. É a partir do embate de ideias, do ataque fervoroso aos pilares teóricos e às evidências que sustentam as teorias que o conhecimento científico avança. Algumas vezes, no entanto, depois de extensas discussões acadêmicas sobre um assunto (que pode demorar décadas), pode acontecer de os cientistas perceberem que aquela questão é “insolúvel”, que nunca haverá consenso. Quando isso acontece, uma espécie de “pacto” é feito, um acordo oculto entre os cientistas de que eles simplesmente vão ter que concordar em discordar.

Pergunte a um biólogo o que é uma espécie e terá uma boa noção do que eu estou falando. O conceito de espécie em Biologia é uma questão que foi (e de vez em quando ainda é) extensamente debatida e, no final de toda essa discussão, o que vemos é existem diversas definições diferentes para este conceito e que cada cientista usa o que melhor lhe convir e ninguém vai “encher o saco” dele por causa disso. Isso a princípio pode parecer absurdo, pois todos os biólogos trabalham com espécies e… como assim nenhum deles sabe ao certo o que é uma espécie? Que contradição!

Há um outro exemplo muito mais chocante, mas, por ser mais conhecido, as pessoas parecem não ligar muito pra ele: O que é Ciência? Há diversas maneiras de tentar responder essa pergunta, desde aquelas mais metodológicas até as sociológicas, passando, é claro, pelas filosóficas (onde se enquadram nossos queridos Popper, Kuhn, Feyrabend, etc.). Há livros e mais livros dedicados exclusivamente a tentar responder essa pergunta (temos até um PolegarCast a esse respeito, confiram!), mas, no final das contas, cada cientista vai pro seu laboratório e faz o seu trabalho sem ficar esquentando muito a cabeça com essa questão. Desde que saia um paper publicado (de preferência dois ou três), tá valendo.

 

Enquanto isso, fora dos laboratórios…

Às vezes jogar o problema pra baixo do tapete e fazer um acordo oculto de não discuti-lo muito pode ajudar. A Ciência vai avançando, mesmo que ninguém saiba definir ao certo o que ela é (como sabemos, então, se ela está avançando? Isso é assunto pra outro texto!). Produzir conhecimento e publicá-lo é o que importa. Mas, se por um lado esse pacto funciona para os cientistas, por outro ele pode ser uma verdadeira pedra no sapato quando se sai da esfera acadêmica.

Se não sabemos claramente o que a Ciência é, como podemos avaliar se a população está sabendo Ciência? Como sabemos se as aulas de Ciências que são ministradas em nossas escolas têm alguma ver a com a Ciência de verdade? Como avaliamos se a população está alfabetizada cientificamente?

Já há um bom tempo vem se tornando consensual a ideia de que algumas noções ingênuas sobre a Ciência devem ser desconstruídas durante a escolarização. Sendo assim, seria ideal que um aluno, ao concluir a educação básica, soubesse que os cientistas não trabalham sozinhos, que eles não são super gênios sobrehumanos, que a Ciência já foi diferente em outras épocas, que o contexto histórico influencia nos interesses das pesquisas, que a Ciência não determina verdades absolutas, que existem critérios de validação do conhecimento científico, etc. Além disso, é claro, é imprescindível que as pessoas conheçam os principais conceitos e as teorias aceitas como verdadeiras pela comunidade científica e como esses conhecimentos afetam a sociedade.

Para avaliar como as pessoas enxergam essas questões, é comum a aplicação de questionários de alfabetização científica. Trata-se de uma lista de perguntas estrategicamente elaboradas por especialistas cujas respostas, depois de passadas por tratamento estatístico, podem indicar o nível de entendimento da população acerca da Ciência, o que é muito importante na tomada de decisões políticas, por exemplo.

Percebam que esses questionários tentam “se esquivar” dos grandes debates e discórdias filosóficas acerca do que é a Ciência, focando mais naquilo que supostamente é “consensual”, que seria aquilo que um cidadão “deveria” saber sobre a Ciência. Estamos num campo polêmico. Ninguém sabe o que é a Ciência, então escolhemos pontos de menor discórdia e “por coincidência” os elegemos como os mais importantes, e aí fazemos questionários pra saber como a população está. Mas a polêmica está só começando.

 

Questionando o questionário

A pesquisadora americana Ann Arbour desenvolveu um questionário de alfabetização científica que foi traduzido e exportado para vários outros países por ser “bem completo”. Nos EUA ele é aplicado a cada dois anos, e ano que vem ele será aplicado novamente. Mas algumas alterações foram sugeridas, e (mais) uma grande controvérsia se formou.

O que acontece é o seguinte: percebeu-se que nas últimas pesquisas a população americana tem ido muito mal nesse teste e que existem algumas perguntas do questionário que são notadamente difíceis, ou seja, que quase todo mundo erra. Duas questões específicas, ambas de verdadeiro ou falso, se destacam: (1) “Os seres humanos, como os conhecemos hoje, se desenvolveram a partir de espécies mais antigas de animais” e (2) “o universo começou com uma grande explosão”.

Há um grupo de especialistas que acredita que os americanos erram essas duas questões em demasia por causa de suas crenças religiosas. Pessoas que acreditam que Deus criou o universo e o homem não marcariam nenhuma dessas afirmações como verdadeiras. Sendo assim, eles sugeriram que as afirmações fossem modificadas com a adição de qualificadores. Elas ficariam assim: “de acordo com a teoria da evolução, os seres humanos…” e “de acordo com os astrônomos, o universo…”. Afinal, a pessoa pode conhecer as teorias, mas não acreditar nelas. A autora do questionário, junto com vários outros especialistas, ficou revoltada. Eles declararam: “Se você mudar o questionário desse jeito, você está fazendo isso por motivos religiosos. (…) Nós não fazemos declarações do tipo ‘de acordo com alguns economistas, nós tivéssemos uma recessão’ ou ‘de acordo com o cara do tempo, nós tivemos um tsunami’”. Segundo esse pessoal, a simples proposição desse tipo de mudança no questionário já é absurda. Seria como mudar as regras do jogo só para que os americanos possam ter melhor desempenho.

Esse debate certamente continuará por um bom tempo, pois os dois lados têm argumentos bastante razoáveis, e o cerne da questão é o seguinte: saber Ciência é acreditar na Ciência? Qual é a diferença? Uma pessoa que não aceita a teoria da evolução e o big bang pode ser considerada alfabetizada cientificamente?

Esse é um campo delicado. Vivemos hoje num paradigma social em que a Ciência tem um papel legitimador muito forte. Sendo assim, não acreditar na Ciência é quase que visto como não acreditar na “verdade”. A Ciência é um tipo de autoridade, e “desrespeitá-la” adotando outras formas de entender o mundo não é muito bem visto. Esse tom valorativo do conhecimento científico sobre os demais pode atrapalhar na hora de pensar sobre questões como essa.

Na minha opinião, a Ciência é, entre outras coisas, uma forma de pensar. É uma forma de ver o mundo que conta muito com a racionalidade e que se baseia em fatos e evidências para sustentar suas afirmações. É necessário que as pessoas não só percebam isso (para que entendam como o conhecimento é construído), mas saibam pensar dessa forma quando conveniente, já que essa maneira de pensar, é claro, não é útil somente dentro dos laboratórios de pesquisa. Podemos utilizá-la para a tomada de decisões no dia a dia e nos beneficiar da sua forma “fria” e crítica de analisar as situações. Mas essa forma de pensar não é adequada para todos os tipos de situação. Quanto maior o número de variáveis subjetivas, como fatores pessoais, inter-pessoais, emocionais, etc., mais complicado é usar a forma científica de pensar. Ninguém vai querer usá-la na hora de escolher uma namorada, por exemplo, pegando a genealogia da pretendente para checar as doenças genéticas presentes na família para averiguar se ela seria uma boa parceira. Pra quem assiste o seriado “The Big Bang Theory”, o Sheldon é um ótimo exemplo de como a forma científica de se pensar pode ser inadequada (até mesmo ridícula) em diversas situações.

 

O buraco é (bem) mais embaixo

Mas quem somos nós para dizer onde essa linha deve ser desenhada? A forma científica de pensar deveria estar no hall de opções de todas as pessoas, até mesmo porque essa é única forma de entender como a Ciência funciona, mas não tem como avaliar quando ela deve ou não ser usada. Uma pessoa que não acredita na teoria da evolução ou no big bang por motivos religiosos está preferindo usar uma outra forma de pensar quando o assunto é a origem do homem e do universo. Há quem diga que o entendimento dessas teorias é suficiente para a sua aceitação, mas a realidade é bem mais complexa que isso.

O discernimento entre conhecer as teorias científicas e aceita-las é importante, mas não pode ser feito de maneira rasa. Todo mundo sabe que a Ciência acredita que as espécies evoluem e que o universo começou com uma grande explosão, mas quantas pessoas conhecem as evidências que sustentam essas teorias? Estar alfabetizado cientificamente é entender como os cientistas elaboraram essas e outras teorias e porque acreditam nelas até hoje, e uma marcação de “verdadeiro” ou “falso” num questionário não passa nem perto de nos dar essa resposta, seja a pergunta montada da forma que for.

Não devemos entrar no mérito de fazer julgamentos sobre as pessoas que não acreditam nas teorias científicas, mas temos a obrigação de fazer questionamentos sobre as escolas que não as ensinam. Afinal, se a escola estivesse em condições de cumprir seus objetivos, nem haveria razão para que questionários desse tipo fossem feitos, já que um diploma de ensino médio seria mais do que suficiente para se ter certeza de que aquela pessoa tem essas habilidades. A discussão a respeito da modificação nesse questionário é pertinente, já que levanta questões importantes, mas impressiona ver como em pleno século XXI ainda este ainda é o tópico de discussão.

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Desinteresse crônico

Observe os diálogos abaixo:

(1)

- Ei, estou lendo os livros da saga Crepúsculo e estou adorando! Tem muito mais emoção do que nos filmes! Você já leu?

- Eu não cara… Deus me livre! Me dá enjôo só de pensar em quanta bobagem deve estar escrita num livro sobre vampirinhos apaixonados! Não sei como você pode gostar de coisas tão juvenis!

- Ah, para! Se você não leu, não pode falar nada do livro!

- Mas não é possível que essa história seja boa… Me disseram que quando esses vampiros saem no sol, eles viram purpurina! Fala sério, né?

- Nossa, você é muito preconceituoso e cabeça dura! Quando forma uma idéia, ou melhor, copia de alguém, não se abre pra nenhum outro ponto de vista…

(2)

- Você viu que descobriram indícios de respiração unidirecional em crocodilianos? Isso não é demais?! Até então se pensava que só as aves tinham esse tipo de respiração!

- Nossa, mas como assim? Os crocodilos não passam nem perto de ter as mesmas demandas metabólicas que as aves…

- Exato! E eles nem são o grupo de répteis que deu origem às aves, o que indica que esse tipo de respiração pode ser simplesiomórfico pra maioria dos grupos de répteis do final do Triássico.

- Uau… Se for assim mesmo, então muito do que a gente conhece sobre evolução dos vertebrados terrestres vai ter que ser revisto.

Onde poderia ter acontecido cada uma dessas conversas? A primeira possivelmente em um lugar comum, como uma praça, um bar, um ônibus, na sala de estar, no MSN… Enfim, praticamente em qualquer lugar. Mas a segunda, por algum motivo, parece que só poderia acontecer num ambiente acadêmico: alunos nerds conversando num final de palestra ou talvez docentes batendo papo num café. O segundo diálogo parece ser deslocado, como se fosse preciso um certo nível de “anormalidade” por parte dos participantes para que ele aconteça. Afinal de contas, quem em sã consciência conversaria sobre… simplesiomorfias?

Mas, se pensarmos bem, qual é o problema em conversar sobre simplesiomorfias? Porque as pessoas acompanham de perto os lançamentos de CDs, filmes e livros que gostam, mas não fazem o mesmo esforço para acompanhar as descobertas científicas de alguma área que tenham interesse? A resposta sincera é triste: porque as pessoas não têm muito interesse pela Ciência. Por algum motivo, interessa a todos saber em detalhes a biografia daquele artista bacana, mas não a dos cientistas e outros personagens que, de certa forma, moldaram a forma como enxergamos as coisas. Todo mundo quer saber da onde a Lady Gaga tirou a idéia de usar uma roupa de carne, mas ninguém quer saber da onde Copérnico tirou a idéia de que a Terra gira em torno do Sol ou Darwin tirou a idéia da seleção natural.

Por muito tempo a Ciência era chamada de filosofia natural, e um sábio certa vez disse que “o início da filosofia é a admiração. A filosofia é a expressão humana da curiosidade sobre tudo, sua tentativa de entender o mundo por meio de seu intelecto”. Assim, a Ciência seria uma extensão da curiosidade humana, que começa com a admiração. Mas ninguém mais se admira com as estrelas ou os animais, e sim com reality shows e escândalos dos famosos.

Por que isso acontece? O que tem de errado com a Ciência? Por um lado, ninguém discorda que ela é absolutamente importante pra humanidade, mas, por outro, parece haver um consenso de que não é importante conhecer a história da Ciência, ou saber como ela funciona. Na verdade, até mesmo o conhecimento construído por ela parece entediar (ao invés de fascinar) muita gente. “Ah, respiração unidirecional…legal…”

Talvez a Ciência seja chata e entediante, e por isso atraia poucas pessoas. Mas pode ser que não. Talvez ela seja formidável e instigante, mas por algum motivo as pessoas não consigam perceber isso. Pesquisas sobre a imagem pública da Ciência revelam que o cidadão comum sabe muito pouco a respeito das práticas científicas e tem um domínio limitado de alguns conceitos centrais. A possibilidade de a Ciência ser chata ainda não está descartada, mas essas pesquisas mostram que a Ciência que as pessoas desgostam não é a mesma que é praticada laboratórios adentro.

Sendo assim, é bem possível que as pessoas não se interessem pela Ciência por não conhecê-la muito bem. Se for isso, então seria suficiente que as pessoas conhecessem a Ciência mais de perto. Podemos com justiça nos rebelar contra nosso sistema de ensino, que tem aulas de “ciências” em todos os 12 anos do ensino básico e mesmo assim forma alunos pouco proficientes. A escola (e os governos que definem e executam suas diretrizes) tem, sim, uma grande parcela de culpa nessa questão. Mas colocar a culpa no governo é uma das formas mais clássicas de se eximir de responsabilidade. Além disso, quando falamos de mudanças curriculares nas escolas, estamos falando de um prazo bastante longo; décadas.

Haveria outras formas de aumentar o conhecimento e o interesse do grande público pela Ciência? Talvez um dos grandes problemas seja a forma dogmática com que a Ciência chega ao público. As pessoas podem discordar a respeito de se um livro ou um CD é bom ou ruim, mas parecem não achar que podem discordar das coisas que vêm da Ciência. Se tudo que a Ciência diz é certo e definitivo, então realmente não tem muito o que ficar conversando sobre ela. Fosse o campo aberto de debates da Ciência revelado, um grande passo seria dado.

O que poderia, então, ser feito? Será que se os jornais tivessem um caderno de Ciência num formato diferenciado, ou as revistas que prometem dietas milagrosas falassem um pouco de fisiologia, as coisas poderiam melhorar? E se as revistas discutissem mais Ciência e menos a vida das celebridades (ou incluíssem cientistas como celebridades e falassem sobre a vida deles)? E se os telejornais e documentários expusessem as descobertas científicas num tom menos impositivo? Será que exposições científicas a preços acessíveis ajudariam? Que tal trocar o “show da Física” por quadros mais condizentes com a prática científica nos programas de domingo? E se cientistas fossem convidados com mais freqüência pra talk shows e os livros de divulgação fossem mais baratos? Viajando um pouco mais: e se as chapinhas viessem com uma explicação de como elas deixam o cabelo liso no manual, ou se os antibióticos contassem a história da descoberta acidental da penicilina na bula? E se na etiqueta dos cobertores viesse escrito “você sabia que não é cobertor que te esquenta, mas é você que esquenta o cobertor?”

Exageros a parte, a mensagem que fica é que as pessoas não conhecem a Ciência, mas há diversas formas de tentar reverter a situação. Algumas podem estar a nosso alcance: desafiar o irmão caçula a descobrir porque o cacto morre se for regado ou explicar pra mãe porque a cebola faz chorar já pode ser um começo. Puxar assuntos científicos na roda de amigos também pode ajudar (falar mal do show da Física é uma boa pedida!).  Podemos ir além e enviar cartas pro jornal que assinamos reclamando da finura do caderno de Ciência ou descer a lenha em portais na internet que divulgam que os cientistas da NASA descobriram uma “bactéria alienígena” ou que “o ornitorrinco é uma mistura de ave, réptil e mamífero”. Indicar e emprestar livros de divulgação pros amigos também é válido. São coisas pequenas que podem fazer alguma diferença.

Ou não. O buraco pode ser mais em baixo. Pouca gente se interessa por política e economia também, e esses temas são bem melhor divulgados na mídia do que a Ciência. Talvez o desinteresse crônico das pessoas seja um sintoma do fim dos tempos. Esperemos que não.

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Positivismo, Ciência e progresso: Uma provocação.

A Promessa

No final do século 18, a maior parte dos cientistas responsáveis pela grande revolução científica européia, como Descartes, Galileu e Newton já haviam morrido, mas seu legado permanecia, e a Ciência ocidental continuava passando por um período muito fértil. No entanto, ela ainda era vista como apenas mais uma forma de conhecer a natureza, e não como a melhor forma de fazê-lo. A Ciência ainda não tinha o poder de legitimar o que era verdade e o que não era, já que o misticismo e o conhecimento religioso ainda tinham um grande poder explicativo na sociedade. Nesse contexto surgiu uma corrente filosófica de afirmação do conhecimento científico como sendo o único conhecimento autêntico e, mais do que isso, do homem (e não Deus) como sendo o produtor desse conhecimento. Ou seja, o positivismo é uma corrente filosófica que nos redime do pecado original de Adão e Eva e, mais do que isso, prega que temos mesmo que nos banquetear na Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal.

August Comte (1798-1857), o “pai do positivismo”, escreve a obra que inaugura essa corrente filosófica, o Curso de Filosofia Positiva. Nesse livro, Comte formula sua Lei dos Três Estados, que parte do princípio de que a humanidade está evoluindo, avançando de uma época bárbara e mística para outra civilizada e esclarecida. Comte explica que essa evolução intelectual humana tem três fases muito bem definidas: a fase teológica, em que todos os fatos são explicados pelo sobrenatural (Deus); a fase mística ou metafísica, em que o homem começa a pesquisar a realidade, mas ainda com um viés sobrenatural muito forte (criam-se categorias alegóricas como “a Natureza”, “o Povo”, etc.); e a fase científica ou positiva, que seria o apogeu do intelecto humano. Os outros dois estados do conhecimento são apenas degraus pelos quais a humanidade teve que passar para atingir o estado mais elevado, em que o homem explica os fenômenos naturais por leis gerais que ele mesmo descobre a partir do estudo da natureza.

Dessa forma, para os positivistas o progresso da humanidade estaria intimamente relacionado com o progresso da Ciência. O conhecimento positivo (a Ciência) é o auge da evolução intelectual humana, então devemos investir nesse tipo de conhecimento e abandonar de vez a teologia e a metafísica, pois somente o conhecimento positivo poderá tirar a humanidade da ignorância e da superstição e colocá-la no caminho do progresso.

A Aposta

Por algum motivo, Comte e seus seguidores foram ouvidos. Foram muito ouvidos. O positivismo ganhou muita força. O lema positivista está estampado em nossa bandeira nacional, que diz “Ordem e Progresso”. A humanidade apostou boa parte de suas fichas na idéia de que para progredir seria necessário investir na Ciência.

Alguns séculos depois, aqui estamos. Agora temos satélites monitorando nosso planeta e chegamos à Lua. Temos super computadores com internet e carros ultra velozes. Seqüenciamos o DNA dos organismos e trocamos genes entre eles. Temos geladeira, microondas, ar condicionado, chuveiro quente, telefone celular, GPS, viajamos de avião e freqüentamos cinemas 3D. Fizemos descobertas médicas que aumentaram bastante a nossa expectativa de vida. Certamente temos uma vida muito mais confortável do que Comte e seus contemporâneos tiveram, e isso é fruto do investimento que a humanidade fez na Ciência.

Progresso?

Mas, será que podemos dizer que a humanidade progrediu? Não podemos esquecer que enquanto alguns fazem fila para comprar o iPad no primeiro dia, mais da metade da população da Terra não tem saneamento básico. Andamos nas ruas e vemos pessoas sem comida, sem teto, sem escolaridade e sem esperança. O que é o progresso da humanidade? Ser capaz de inventar robôs que deixam milhões de pessoas desempregadas? Inventar tranqueiras supérfluas que menos de 10% da população mundial tem dinheiro pra comprar? Às vezes me parece que os bons e velhos índios, que andavam descalços na mata e não tinham energia elétrica estavam muito na nossa frente em termos de “progresso humano”.

A pergunta que fica é: será que valeu a pena? E, se valeu, será que ainda vale a pena continuar investindo bilhões de dólares todo ano e sacrificar milhares de espécies e habitats para que a Ciência continue avançando? Aparentemente os positivistas estavam errados. O investimento no conhecimento científico não trouxe progresso pra humanidade (se entendermos que a humanidade consiste de todos os seres humanos, e não somente daqueles que têm boas condições econômicas). Talvez, inclusive, tenha agravado ainda mais as desigualdades e reforçado alguns preconceitos. Será que não está na hora de procurar uma outra forma de progredir? Porque eu não acho que uma sociedade que tem gente morrendo de fome possa ser considerada uma sociedade evoluída, não importa quão poderosos seus computadores sejam.

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Heróis e vilões na (falsa) história da Ciência

Às vezes é um pouco difícil definir o que a Ciência é. Saber o que ela não é passa longe de ser tarefa mais simples, principalmente se a olharmos historicamente, já que muito do que hoje consideramos como não-Ciência, como a astrologia, por exemplo, já esteve dentro do campo científico em tempos não tão remotos assim. E o curioso é que quanto mais estudamos e conhecemos a Ciência e seus métodos, mais difícil fica fazer essas (in)definições. Mas, independentemente da quantidade de estudo ou da linha filosófica que escolhermos para olhar a Ciência, uma característica dela é – ou pelo menos deveria ser – clara e inegável: ela é uma atividade legitimamente humana, ou seja, é feita por seres humanos. O conhecimento produzido no campo científico é resultado de um longo processo de trabalho duro de pessoas como você e eu.

No entanto, quando ouvimos falar dos cientistas, seja pela mídia ou nas próprias escolas, não é bem essa a imagem que vemos. Sob nenhuma circunstância passa pelas nossas cabeças que nós, com todos os nossos defeitos, poderíamos estar ali naquele livro, naquela matéria. É mais ou menos parecido com o que acontece quando lemos histórias de super heróis. Ênfase no mais ou menos. Já explico: ninguém pensa seriamente em se tornar um super herói. Talvez só na infância. E a imensa maioria da população também não pensa seriamente em se tornar cientista, o que ocorre em boa parte pelo desconhecimento do que um cientista de fato faz. No entanto, às vezes, quando lemos as histórias dos heróis, nos pegamos fantasiando como seria legal ter super poderes ou salvar a humanidade de ameaças que ninguém mais poderia conter. Mas quando lemos a história do Mendel, não pensamos “nossa, como seria legal ficar recluso num mosteiro cruzando e contando ervilhas por anos e só depois de morto ter o trabalho reconhecido para virar o ‘pai da genética’”. Além disso, as histórias de heróis deixam claro que eles, mesmo que venham de outro planeta, têm um lado humano muito forte, entram em conflitos e dilemas morais e, alguns, como o Wolverine, têm até um lado meio cafajestão. Mas os cientistas não; eles são todos parecidos, e todos muito, muito distantes de nós. É como se os super heróis fossem de alguma forma mais reais do que os cientistas. Wow.

As histórias que ouvimos dos cientistas são sempre assim: Super gênios isolados da sociedade que ficam fazendo contas e experimentos que ninguém mais consegue entender e descobrem coisas fantásticas com uma facilidade impressionante. Cai uma maçã na cabeça do Newton e ele descobre a gravidade. Darwin vê uns passarinhos numas ilhas e descobre a seleção natural. Arquimedes entra na banheira e descobre o empuxo. Realmente é mais fácil se imaginar soltando raios laser pelos olhos do que fazendo coisas como essas – e talvez até mais desejável. Os cientistas são heróis que ninguém gostaria de ser.

Quem você prefereria ser: Arquimedes ou o Superman? Hmm, difícil hein?

Todos ouvimos essas histórias, assim como todos ouvimos as histórias dos super heróis. A diferença é que mesmo uma criança sabe que as histórias dos heróis são falsas, enquanto essas absurdas histórias dos cientistas continuam circulando como verdadeiras. Chega. Está na hora de parar.

Não digo que está na hora de parar só porque seria legal se todos soubessem as histórias reais dos cientistas ao invés dessas versões distorcidas e descontextualizadas. O problema vai muito além da acuidade histórica, chegando a atingir as raízes da nossa sociedade e de seus valores. Essas historinhas mentirosas vão construindo uma imagem de quem são os cientistas (todos homens, brancos, europeus e muito inteligentes) e de como a Ciência é produzida (sempre por insights geniais desses cientistas). Ora, essa história tem uma mensagem que, apesar de implícita, é clara: os cientistas são pessoas muito mais inteligentes do que você pode imaginar, e essa inteligência é um pré-requisito básico para ter essa profissão. Sendo assim, é aconselhável que você acredite no que a Ciência diz, porque ela é feita por pessoas muito mais inteligentes do que você jamais vai ser. Não se meta a fazer Ciência. Deixe para quem sabe. E aí está mais um motivo pras pessoas não pensarem seriamente em se tornar cientistas: “isso não é pra mim! Não sou esperto o bastante”. Essa impotência frente à Ciência se deve em grande parte à essas falsas historias, que transformam alguns cientistas em admiráveis cavaleiros que salvaram a humanidade da ignorância e outros em vilões que difundiram idéias erradas, como Lamarck ou a própria igreja, por exemplo (olhem só como ela foi injusta com Copérnico, coitadinho!).

A história da Ciência é uma história de seres humanos. Isso deve ficar bem claro. Serem humanos erram e às vezes fazem coisas movidos unicamente pela emoção. Seres humanos têm família, amigos, amores e interesses. Seres humanos (da sociedade capitalista) precisam de dinheiro, e fazem o que podem pra consegui-lo. Seres humanos gostam de fama, poder e prestígio. Se os cientistas são de fato seres humanos, então todas essas características se aplicam a eles também. Eles não são nem heróis, nem vilões. Na verdade, eles tem nada de especial – nem mesmo a inteligência: acreditem, é tudo treino!

Deve ficar claro também que a história da Ciência é contada por seres humanos. Seres humanos que colocam o seu ponto de vista naquilo que contam, mesmo que não tenham a intenção de fazê-lo. Depois de alguns séculos de distorções (intencionais ou não), o resultado é uma história que tem pouco a ver com o que realmente aconteceu, que guarda pouco de quem realmente eram os personagens e que nunca considera que a época em que eles viveram era diferente da época em que vivemos hoje.

E quem sai perdendo com tudo isso? Vejo a situação como um sistema de retroalimentação positiva. Quanto mais essas histórias circulam, mais as pessoas se distanciam da Ciência. E quanto mais distante a Ciência fica da sociedade, mais convinventes essas histórias parecem ser. E dessa forma a sociedade fica sem entender a Ciência e a Ciência fica cada vez mais fechada em seu mundinho, sem que os próprios cientistas entendam seu papel nessa sociedade. E quem sai ganhando? Hmm…dizem as más linguas que uma população que acredita cegamente em tudo que tem o rótulo de “científico” (por não entender como funciona a Ciência) pode beneficiar bastante os grande grupos econômicos que controlam o capital, já que essa população é manipulada muito facilmente. Mas isso é só especulação. Será? Na dúvida, eu acho que seria melhor se repensássemos a forma de contar a história da Ciência e dos cientistas.

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Dinossauros, penas, insensatez e informação

Na ciência, algumas vezes são propostas idéias que simplesmente não agradam a todos. Seja por motivações ideológicas, religiosas, econômicas ou mesmo pelo gosto de cada um, algumas teorias podem incomodar bastante. A teoria da evolução é um exemplo bem conhecido, e talvez seja um dos melhores que existam. Na época de Darwin, panfletos maliciosos circulavam aos montes. Esses panfletos tentavam enfraquecer a teoria evolutiva não com argumentos científicos, mas pelo apelo às conseqüências da aceitação da teoria: “Se esse cara estiver certo, isso significa que somos parentes dos macacos! Nós não podemos ser parentes dos macacos, então ele só pode estar errado!”.

Na verdade até hoje sites criacionistas proliferam na internet com essa mesma intenção de ridicularizar uma teoria científica com argumentos não científicos. No entanto, essa semana achei na internet algo que me surpreendeu e chocou. Um sujeito leu um artigo da Nature do mês passado que trata de uma pesquisa que descobriu o provável padrão de coloração das penas de uma espécie de dinossauro. Ele não gostou muito. Na verdade ele não gostou nem um pouco. Ele ficou atordoado, mas não por terem descoberto a coloração das penas. O que o incomodou foi a premissa da pesquisa: alguns dinossauros tinham penas.

Ele ficou tão revoltado que começou uma campanha na internet contra a teoria dos dinossauros com penas. O lema de sua campanha é “Dinossauros com penas são uma teoria, não um fato!”, e seu argumento central é o seguinte: “Há alguns dias saiu uma história sobre como ‘cientistas’ estavam orgulhosos de terem descoberto qual a cor exata das penas de um tipo particular de dinossauro, o que é maravilhoso para eles, exceto pelo fato de que toda a idéia de dinossauros com penas é completamente estúpida. Os dinossauros são máquinas mortíferas cobertas de couro. Não são rainhas do Carnaval brasileiro”. Ou seja, como os dinossauros têm que ser malvados, eles não podem ter penas. Um belo argumento!

Uma das características mais legais da Ciência é o fato dela não ser fechada. Todas as teorias estão sempre abertas à discussão. Muito já foi escrito sobre como se dão essas discussões e sobre como uma teoria é substituída por outra. Evidentemente, este sujeito nunca leu nenhum desses escritos. Provavelmente não se informou melhor sobre a própria teoria que está atacando também.

Este é um caso extremo, mas acho que ele traz à luz uma questão bastante comum: a maioria das pessoas não tem a menor idéia de como a ciência funciona! Para esse cidadão não faltou sensatez (tá, talvez um pouco!), mas sim (in)formação. Esse é um caso do qual podemos rir, mas só até cair a ficha de que muitas pessoas só acreditam na Ciência que lhes convém. Foi assim com Darwin e é assim com os dinossauros. Enquanto as pessoas não entenderem como funciona a Ciência, vai ser difícil convencê-las a acreditar em coisas que elas não gostam só porque “é científico”. Kuhn, Popper, Lakatos, Feyerabend e outros filósofos já fizeram a parte deles. Todos sabemos que a escola tem um papel importante a cumprir, mas, para linkar com o texto do Thiago e criar um pouco de polêmica, qual é o papel dos divulgadores da Ciência nessa história? Como cumprir esse papel? Aparentemente, cuspir curiosidades científicas não é o caminho certo. Talvez, inclusive, seja um caminho bastante errado.

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Divulgação Científica: Uma atividade sem conceito?

Não acredito que haja hoje um só cientista que não defenda a prática da divulgação científica, ainda que muitos deles não se dêem ao trabalho de produzir uma só linha de texto com este fim. Ainda assim, não da pra ignorar que o passado da atividade é cheio de louros e heróis.

Isaac Asimov, Stephen Jay Gould, Carl Sagan, Julian Huxley, Richard Dawkins e nossos brasileiríssimos Marcelo Gleiser e o pai da divulgação científica tupiniquim José Reis, só pra citar os mais conhecidos. Todos eles lembrados como homens incansáveis no trabalho de popularização da ciência.

Foram estes nomes que inspiraram uma série de novos indivíduos a continuarem seus trabalhos e, graças ao advento da internet e da web, o que vimos nos últimos tempos é a proliferação de blogs e sites preocupados em levar a ciência ao público por vezes referido como leigo. Este blog, claro, não é diferente e eu, como tantos outros, também tenho minhas dívidas com estes grandes divulgadores.

Daí que com tantas boas inspirações, a nova geração de divulgadores científicos já nasceu com uma ideia pré-formatada de modus operandi do divulgador e as vezes nos esquecemos de parar um minuto para pensarmos, o que é, de fato, a divulgação científica.

Público alvo não é conceito.
Por vezes vejo o conceito de divulgação científica se confundindo com a definição de seu público alvo. Isso por que cada vez que nos deparamos com um texto que fale de ciência para “não cientistas”, o classificamos imediatamente como divulgação científica.

Mas “não cientista” ou “público leigo” são definições generalistas demais, que acabam por esconder um problema que é óbvio para quase todos os tipos de ferramentas de comunicação. Quando dizemos “não cientistas” incluímos aí um espectro de público de múltiplas idades e níveis educacionais. Fazemos pior até, excluímos o próprio cientista.

Pode parecer bobagem imaginar que o cientista é alvo da divulgação científica. Mas não da pra negar o fato de que já a um bom tempo a ciência vem exigindo que seu praticante seja cada vez mais especialista, ao passo que a produção científica cresce de maneira assustadora. É evidente então que um biólogo não consiga acompanhar o que acontece na física. Com efeito, um biólogo especializado em comportamento reprodutivo de tubarões pode não estar em dia com as novidades de, digamos, áreas como a entomologia.

Como classificar então este cientista? Como “leigo”? Mas é um leigo igual a dona de casa? Se não é, então quais os tipos de leigos? E os tipos de não cientistas? Pior ainda é quando usamos o termo “divulgação para um público mais geral”, como eu, talvez erroneamente, muitas vezes cansei de fazer.

Vemos então a divulgação científica que dificilmente pode ser definida como “ciência traduzida para não cientistas”. Temos um público em potencial grande demais para definirmos toda a atividade de forma tão simplória.

Apesar disso, a ideia de “tradução” não é exatamente ruim. Mas é preciso considerar a diversidade de público para o qual tentamos comunicar uma atividade que é igualmente diversificada.

Uma narrativa autoritária?
Passando do conceito ao conteúdo, escrevi em outro texto que a divulgação científica atual consiste muito mais em explicar conceitos e teorias. Vou além, o grosso do conteúdo de divulgação científica produzido desde sempre, segue esta mesma métrica.

Não questiono a validade deste tipo de conteúdo, especialmente em um país com graves problemas educacionais. O problema é que a ciência é muito mais do que a teoria da evolução, ou o big bang, ou mesmo o conjunto completo de todas as teorias e conceitos já formulados.

Uma divulgação científica preocupada exclusivamente em ser explicativa não cumpre o papel básico de divulgar. E não o faz por que explicar uma teoria qualquer não basta. É preciso explicar o que é uma teoria, divulgar o dia a dia do cientista, explicar os processos internos de validação da ciência, e por aí vai.

Quando deixamos esta parte de fora, criamos uma narrativa autoritária, mesmo sabendo que na ciência o questionamento tem papel central. Blindamos a atividade, apresentando apenas um produto final que pode ser menos interessante do que o processo que nos levou até ele.

É preciso sujar um pouco a ciência. Mostrar que, assim como em qualquer atividade humana, também nela se erra. Mostrar que cientistas também tem problemas com seus egos. Mostrar que também sofremos com as mazelas políticas. Enfim, mostrar que não somos esta torre branca de onde verdades e coisas boas saem, ainda que ninguém entenda como.

Mas e o conceito?
Desculpem, vou ficar devendo. Acredito que a divulgação científica, embora não seja exatamente nova, ainda tem muito o que caminhar. Além disso, o papel deste texto é provocar algumas reflexões e discussões, bastante necessárias ultimamente.

É importante discutirmos sobre blogs de ciência e assuntos similares? Sem dúvida. Mas não podemos deixar de também discutirmos as bases da atividade. Andamos tão preocupados em discutir sobre os meios que esquecemos de olhar para a mensagem.

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Fim do essencialismo?

Como se sabe, o essencialismo, uma filosofia creditada a Platão (428 a.C. – 347 a.C.), mas que provavelmente o antecedia, permeou o pensamento científico ocidental por mais de 2000 anos. O essencialismo foi uma das grandes barreiras que Darwin teve que enfrentar quando propôs sua teoria da evolução por seleção natural. Alguns estudiosos de Darwin acreditam que esse paradigma foi um obstáculo mais difícil de transpor do que as próprias idéias religiosas, que já estavam perdendo credibilidade há algum tempo por causa de outras descobertas científicas.

Ás vezes é dito que Darwin acabou com o pensamento essencialista. Ele certamente o abalou, ao demonstrar que essa filosofia não dá conta de explicar a origem e evolução das espécies sem tropeçar nas diversas evidências paleontológicas e geológicas que estavam aflorando em sua época. No entanto, o essencialismo não se restringe à Ciência. Ele é muito mais amplo do que isso.

O essencialismo postula que todas as coisas têm uma essência que é imutável. No campo da Biologia, isso significa que todas as espécies têm uma essência fixa e eterna; todos os coelhos têm a essência do coelho, ou seja, eles têm um conjunto de características que nos permite distingui-los como coelhos, apesar de alguns serem mais peludos ou maiores do que os outros. As pequenas diferenças entre os indivíduos das espécies eram facilmente explicadas porque a “essência ideal” era inalcançável, ela só existia no plano das idéias (de Deus), de forma que cada coelho seria apenas uma representação imperfeita desse modelo ideal. Cada indivíduo tinha uma imperfeição diferente em relação à essência perfeita (de Deus), logo, os indivíduos podem ser diferentes mesmo tendo todos a mesma essência. Darwin quebrou esse pensamento ao demonstrar que as espécies mudam ao longo do tempo. Se as essências são fixas, como poderiam as espécies mudar?

No entanto, o essencialismo continua aí. Essa história toda de “essência ideal” feita por Deus pode parecer meio absurda nos dias de hoje, mas para esclarecer as coisas basta pegarmos um exemplo mais próximo, como, por exemplo, uma cadeira.

Todas as cadeiras têm uma mesma essência: são objetos elaborados para nos sentarmos. Existe uma grande variedade de cadeiras. Desde banquinhos de plástico até poltronas reclináveis, desde assentos num ônibus até cadeiras de dentista, não importa, todas elas servem para a mesma coisa. Todas têm a mesma “essência ideal”, criada pelo homem, mesmo que difiram na cor, no tamanho ou no revestimento. Dessa forma, quando eu falo “cadeira”, todo mundo entende do se trata.

Sim, eu sou essencialista, e você também é. Toda vez que pegamos um conjunto de características e o extrapolamos, criando uma categoria onde inserimos coisas ou pessoas, somos essencialistas. Somos essencialistas quando falamos sobre “os muçulmanos”, “as pessoas de esquerda” ou até mesmo “a minha família”, pois ao fazer isso, estamos criando categorias a partir de características que acreditamos compartilhar com nosso interlocutor e estamos incluindo muitas pessoas nessa categoria, mesmo sem conhecer todas elas. “Os corintianos são bandidos” é uma típica frase essencialista – e preconceituosa.

E ser essencialista é ruim? Bom, se você estiver tentando entender a teoria da evolução, isso pode te atrapalhar. Mas parece que o essencialismo faz parte da lógica de nosso pensamento. Tente raciocinar sem criar categoria; é impossível! O pensamento tipológico é uma materialização da filosofia essencialista. Claro que essa tendência a pensar criando categorias (tipos) também favorece o desenvolvimento de preconceitos, já que “os negros”, “os judeus” e “as mulheres” formam categorias tão bem quanto “os talheres”, “os vizinhos”, “os países industrializados” ou “os meus amigos”.

Algumas pessoas defendem que a religião é um “contra” da nossa capacidade de imaginação. Talvez os preconceitos contra grupos inteiros que mal conhecemos sejam um “contra” da nossa forma lógica de raciocinar. Não sei, isso é só especulação, mas, ironicamente, parece que a única coisa imutável no essencialismo é ele mesmo. Talvez pensar de forma essencialista esteja na essência do homem.

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“Spider sense is tingling”

Certa vez, um velhinho muito sábio disse a seu sobrinho que “com grandes poderes vêm grandes responsabilidades”. Tudo bem, tudo bem, esse velhinho é um personagem de quadrinhos, mas ele sabia do que estava falando. Esse é um texto sobre como a máxima do sr. Ben Parker pode se aplicar à Ciência.

O grande poder da legitimação

Não é novidade pra ninguém que a Ciência, na forma que tem hoje, é uma grande legitimadora de conhecimento. O conhecimento científico é visto como muito mais acurado e muito melhor do que os outros tipos de conhecimento, mesmo por aqueles que nada sabem sobre o processo de construção dos conhecimentos científicos. Ou seja, mesmo quem não sabe como funciona a construção de saberes na Ciência julga que esses saberes são mais válidos do que os seus próprios, adquiridos a partir de suas vivências. A Ciência tornou-se inquestionável, mesmo que seu pressuposto básico seja o questionamento e a busca pelo conhecimento. Por sinal, quando uma pessoa ouve uma explicação científica para um fenômeno qualquer, ela deixa de buscar esse conhecimento, pois, afinal, ele já está “pronto”. Se a Ciência falou, tá falado.

Em miúdos: atualmente a Ciência tem o poder de decidir qual conhecimento é válido e qual não é. É quase como poder de decidir o que é certo e o que é errado, o que é bom e o que é ruim (por exemplo, de uma semana para a outra a Ciência pode transformar o ovo de vilão a herói de nossa saúde, e seu parecer será definitivo, enquanto a opinião dos ruralistas que criam as galinhas de nada vale, afinal, o que eles podem saber sobre ovos?).

A grande responsabilidade da universalização

Se por um lado a Ciência nos permite feitos incríveis como chegar a Marte ou seqüenciar o DNA dos bichos, por outro ela marginaliza todas as pessoas que não entendem como esses feitos são possíveis, assim como todas as formas de pensar que não concordam com “o progresso da Ciência” – estas são vistas como reacionárias. Ela cria analfabetos, analfabetos científicos. Isso acontece porque, coincidentemente ou não, o conhecimento que a Ciência cria e valoriza é um que a grande maioria da população não tem acesso.

Existem dezenas de motivos pelos quais devemos defender a universalização do conhecimento científico, já que uma população alfabetizada cientificamente só traz desvantagens àqueles que dela querem se aproveitar. E é esse o ponto que levanto aqui; um ponto ideológico: é muito mais fácil convencer uma pessoa de que você está certo se ela não entender nada do que você está falando (os editores de Sokal que o digam!). Assim, uma população analfabeta cientificamente continuará a acreditar cegamente em tudo o que a Ciência disser, enquanto uma população alfabetizada iria se posicionar, questionar, criticar, etc.

Se a Ciência que se deseja é uma que se afasta da sociedade e se envolve numa áurea para parecer imaculada e neutra, então estamos no caminho certo. Mas sabemos que as coisas não são bem assim.A Ciência cresce na medida que mais e mais pessoas são capazes de entendê-la para questioná-la e, assim, alavancar seu desenvolvimento. Além disso, se todos entendessem a Ciência, a população iria assegurar que a Ciência vai concentrar esforços e verbas em áreas pertinentes para toda a sociedade, e não somente para os grupos dominantes.

A idéia central é que, se a Ciência têm o poder de decidir o que é verdade e o que é mentira, então ela tem a responsabilidade de validar verdades que sejam do interesse de todos, e a única maneira disso acontecer é garantindo que todos tenham acesso ao conhecimento que é produzido por ela. Limitar o privilégio do acesso ao conhecimento apenas às “mentes brilhantes” que freqüentam as universidades pode custar muito caro. Mais caro do que qualquer agência financiadora pode pagar. “Spider sense is tingling”.

“O aspecto mais triste da vida de hoje é que a Ciência ganha em conhecimento mais rapidamente que a sociedade em sabedoria” (Isaac Asimov).

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Pra quê?

José Oliveira se prepara para uma grande festa que ele vai dar. Essa festa simboliza uma grande mudança em sua vida, já que após três anos de cursinho ele foi finalmente aprovado no vestibular e irá cursar Economia numa das melhores universidades do país. Ele está muito aliviado porque nunca mais na vida vai ter que ouvir falar em isótopos, complexo de Golgi ou leis de Kepler. Ele odeia Ciências, e acha que todas as aulas de Ciências que teve na vida foram uma perda de tempo. “Nunca usei a Ciência que aprendi na escola. Não é preciso saber conteúdos científicos para entender o cotidiano”, diz.

As alegações de José são contundentes, e devem ser levadas a sério. Ele diz que saber ou não saber Ciências dá na mesma. Ele não precisa saber o que são pontes de hidrogênio para saber que a água demora mais pra ferver do que o leite, não precisa saber o que é índice de refração para usar óculos e lava louça tranqüilamente sem saber o que é uma molécula polar ou apolar.

José certamente não está sozinho. Muita gente concorda com ele, e a discussão que eles levantam é interessante e não trivial. Por que as pessoas têm que saber Ciências se, ao contrário de Línguas ou Matemática, muito pouco desse conhecimento é de fato aplicável ao dia-a-dia? José não vai mudar o jeito de viver se descobrir que uma dia existiu um tal de Trilobita ou que a água tem densidade máxima a 4ºC.

Poderíamos dar a José o argumento de Sagan, de que “a Ciência é como uma vela num mundo assombrado por demônios”, mas ele não aceita argumentos assim abstratos. Ele quer coisas concretas, aplicáveis, palpáveis. Pra que serve saber as partes de um átomo e tantas outras besteiras que os profs de Ciências insistem em dizer?

Há várias maneiras de retrucar José. Escolherei uma e convidarei os leitores a pensem (e, de preferência, comentarem) em outras.

Talvez José esteja certo em dizer que as aulas de Ciências que ele teve na vida foram uma perda de tempo. Sabemos que o modelo de aula e a concepção de educação que permeia nossas escolas estão muito ultrapassados. Mas o fato da aula ser ruim não significa que o conteúdo não seja importante. Existem professores péssimos de Matemática, mas isso não significa que não é importante saber contar. Talvez se José tivesse tido bons professores de Ciências, ele entenderia o argumento de Sagan, e gostasse de Ciência nem que fosse pelo exercício intelectual. Mas ele não teve, e não engole esse argumento.

Ora, se José é tão espertalhão e só quer saber das coisas concretas, então ele não pode negar que a tecnologia, uma das facetas da Ciência, interfere diretamente em sua vida. Mesmo assim, ele poderia argumentar que ele não precisa saber como funciona um pen drive para usar um. Correto. Mas e se formos para assuntos mais polêmicos, como clonagem humana, alimentos transgênicos, células tronco, créditos carbono ou robôs que tiram o emprego de centenas de homens?

José quer saber das coisas paupáveis, mas, por não gostar de Ciência, não a vê como empreendimento humano. Não entende que a Ciência e a sociedade estão altamente interligadas, e que se ele não souber um mínimo de Ciência (que não é tão pouco assim) ele vai ser só mais uma ovelha no rebanho. José quer ser questionador, mas como vai questionar a Ciência se não a conhecê-la?

Grande parte do financiamento para pesquisa é feita com dinheiro público – o dinheiro do José de todas as outras pessoas. Isso significa que o Governo, ao invés de ampliar as vagas nas Universidades públicas, está investindo milhões para sequenciar DNA de cana. Se fosse diferente, José não precisaria ter feito três anos de cursinho. Mas se ele não souber o que é DNA e não souber o que a cana tem de tão especial, ele nunca vai entender onde estão gastando o seu dinheiro.

Reações de combustão, fotossíntese e comprimentos de onda parecem coisas abstratas. Mas dinheiro, emprego e tempo de cursinho são bastante concretos. A relação entre essas coisas só será visível para José se ele entender um pouquinho de Ciência. Cidadania tem tudo a ver com Ciência, mas infelizmente pouca gente sabe disso.

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