Positivismo, Ciência e progresso: Uma provocação.

A Promessa

No final do século 18, a maior parte dos cientistas responsáveis pela grande revolução científica européia, como Descartes, Galileu e Newton já haviam morrido, mas seu legado permanecia, e a Ciência ocidental continuava passando por um período muito fértil. No entanto, ela ainda era vista como apenas mais uma forma de conhecer a natureza, e não como a melhor forma de fazê-lo. A Ciência ainda não tinha o poder de legitimar o que era verdade e o que não era, já que o misticismo e o conhecimento religioso ainda tinham um grande poder explicativo na sociedade. Nesse contexto surgiu uma corrente filosófica de afirmação do conhecimento científico como sendo o único conhecimento autêntico e, mais do que isso, do homem (e não Deus) como sendo o produtor desse conhecimento. Ou seja, o positivismo é uma corrente filosófica que nos redime do pecado original de Adão e Eva e, mais do que isso, prega que temos mesmo que nos banquetear na Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal.

August Comte (1798-1857), o “pai do positivismo”, escreve a obra que inaugura essa corrente filosófica, o Curso de Filosofia Positiva. Nesse livro, Comte formula sua Lei dos Três Estados, que parte do princípio de que a humanidade está evoluindo, avançando de uma época bárbara e mística para outra civilizada e esclarecida. Comte explica que essa evolução intelectual humana tem três fases muito bem definidas: a fase teológica, em que todos os fatos são explicados pelo sobrenatural (Deus); a fase mística ou metafísica, em que o homem começa a pesquisar a realidade, mas ainda com um viés sobrenatural muito forte (criam-se categorias alegóricas como “a Natureza”, “o Povo”, etc.); e a fase científica ou positiva, que seria o apogeu do intelecto humano. Os outros dois estados do conhecimento são apenas degraus pelos quais a humanidade teve que passar para atingir o estado mais elevado, em que o homem explica os fenômenos naturais por leis gerais que ele mesmo descobre a partir do estudo da natureza.

Dessa forma, para os positivistas o progresso da humanidade estaria intimamente relacionado com o progresso da Ciência. O conhecimento positivo (a Ciência) é o auge da evolução intelectual humana, então devemos investir nesse tipo de conhecimento e abandonar de vez a teologia e a metafísica, pois somente o conhecimento positivo poderá tirar a humanidade da ignorância e da superstição e colocá-la no caminho do progresso.

A Aposta

Por algum motivo, Comte e seus seguidores foram ouvidos. Foram muito ouvidos. O positivismo ganhou muita força. O lema positivista está estampado em nossa bandeira nacional, que diz “Ordem e Progresso”. A humanidade apostou boa parte de suas fichas na idéia de que para progredir seria necessário investir na Ciência.

Alguns séculos depois, aqui estamos. Agora temos satélites monitorando nosso planeta e chegamos à Lua. Temos super computadores com internet e carros ultra velozes. Seqüenciamos o DNA dos organismos e trocamos genes entre eles. Temos geladeira, microondas, ar condicionado, chuveiro quente, telefone celular, GPS, viajamos de avião e freqüentamos cinemas 3D. Fizemos descobertas médicas que aumentaram bastante a nossa expectativa de vida. Certamente temos uma vida muito mais confortável do que Comte e seus contemporâneos tiveram, e isso é fruto do investimento que a humanidade fez na Ciência.

Progresso?

Mas, será que podemos dizer que a humanidade progrediu? Não podemos esquecer que enquanto alguns fazem fila para comprar o iPad no primeiro dia, mais da metade da população da Terra não tem saneamento básico. Andamos nas ruas e vemos pessoas sem comida, sem teto, sem escolaridade e sem esperança. O que é o progresso da humanidade? Ser capaz de inventar robôs que deixam milhões de pessoas desempregadas? Inventar tranqueiras supérfluas que menos de 10% da população mundial tem dinheiro pra comprar? Às vezes me parece que os bons e velhos índios, que andavam descalços na mata e não tinham energia elétrica estavam muito na nossa frente em termos de “progresso humano”.

A pergunta que fica é: será que valeu a pena? E, se valeu, será que ainda vale a pena continuar investindo bilhões de dólares todo ano e sacrificar milhares de espécies e habitats para que a Ciência continue avançando? Aparentemente os positivistas estavam errados. O investimento no conhecimento científico não trouxe progresso pra humanidade (se entendermos que a humanidade consiste de todos os seres humanos, e não somente daqueles que têm boas condições econômicas). Talvez, inclusive, tenha agravado ainda mais as desigualdades e reforçado alguns preconceitos. Será que não está na hora de procurar uma outra forma de progredir? Porque eu não acho que uma sociedade que tem gente morrendo de fome possa ser considerada uma sociedade evoluída, não importa quão poderosos seus computadores sejam.

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Heróis e vilões na (falsa) história da Ciência

Às vezes é um pouco difícil definir o que a Ciência é. Saber o que ela não é passa longe de ser tarefa mais simples, principalmente se a olharmos historicamente, já que muito do que hoje consideramos como não-Ciência, como a astrologia, por exemplo, já esteve dentro do campo científico em tempos não tão remotos assim. E o curioso é que quanto mais estudamos e conhecemos a Ciência e seus métodos, mais difícil fica fazer essas (in)definições. Mas, independentemente da quantidade de estudo ou da linha filosófica que escolhermos para olhar a Ciência, uma característica dela é – ou pelo menos deveria ser – clara e inegável: ela é uma atividade legitimamente humana, ou seja, é feita por seres humanos. O conhecimento produzido no campo científico é resultado de um longo processo de trabalho duro de pessoas como você e eu.

No entanto, quando ouvimos falar dos cientistas, seja pela mídia ou nas próprias escolas, não é bem essa a imagem que vemos. Sob nenhuma circunstância passa pelas nossas cabeças que nós, com todos os nossos defeitos, poderíamos estar ali naquele livro, naquela matéria. É mais ou menos parecido com o que acontece quando lemos histórias de super heróis. Ênfase no mais ou menos. Já explico: ninguém pensa seriamente em se tornar um super herói. Talvez só na infância. E a imensa maioria da população também não pensa seriamente em se tornar cientista, o que ocorre em boa parte pelo desconhecimento do que um cientista de fato faz. No entanto, às vezes, quando lemos as histórias dos heróis, nos pegamos fantasiando como seria legal ter super poderes ou salvar a humanidade de ameaças que ninguém mais poderia conter. Mas quando lemos a história do Mendel, não pensamos “nossa, como seria legal ficar recluso num mosteiro cruzando e contando ervilhas por anos e só depois de morto ter o trabalho reconhecido para virar o ‘pai da genética’”. Além disso, as histórias de heróis deixam claro que eles, mesmo que venham de outro planeta, têm um lado humano muito forte, entram em conflitos e dilemas morais e, alguns, como o Wolverine, têm até um lado meio cafajestão. Mas os cientistas não; eles são todos parecidos, e todos muito, muito distantes de nós. É como se os super heróis fossem de alguma forma mais reais do que os cientistas. Wow.

As histórias que ouvimos dos cientistas são sempre assim: Super gênios isolados da sociedade que ficam fazendo contas e experimentos que ninguém mais consegue entender e descobrem coisas fantásticas com uma facilidade impressionante. Cai uma maçã na cabeça do Newton e ele descobre a gravidade. Darwin vê uns passarinhos numas ilhas e descobre a seleção natural. Arquimedes entra na banheira e descobre o empuxo. Realmente é mais fácil se imaginar soltando raios laser pelos olhos do que fazendo coisas como essas – e talvez até mais desejável. Os cientistas são heróis que ninguém gostaria de ser.

Quem você prefereria ser: Arquimedes ou o Superman? Hmm, difícil hein?

Todos ouvimos essas histórias, assim como todos ouvimos as histórias dos super heróis. A diferença é que mesmo uma criança sabe que as histórias dos heróis são falsas, enquanto essas absurdas histórias dos cientistas continuam circulando como verdadeiras. Chega. Está na hora de parar.

Não digo que está na hora de parar só porque seria legal se todos soubessem as histórias reais dos cientistas ao invés dessas versões distorcidas e descontextualizadas. O problema vai muito além da acuidade histórica, chegando a atingir as raízes da nossa sociedade e de seus valores. Essas historinhas mentirosas vão construindo uma imagem de quem são os cientistas (todos homens, brancos, europeus e muito inteligentes) e de como a Ciência é produzida (sempre por insights geniais desses cientistas). Ora, essa história tem uma mensagem que, apesar de implícita, é clara: os cientistas são pessoas muito mais inteligentes do que você pode imaginar, e essa inteligência é um pré-requisito básico para ter essa profissão. Sendo assim, é aconselhável que você acredite no que a Ciência diz, porque ela é feita por pessoas muito mais inteligentes do que você jamais vai ser. Não se meta a fazer Ciência. Deixe para quem sabe. E aí está mais um motivo pras pessoas não pensarem seriamente em se tornar cientistas: “isso não é pra mim! Não sou esperto o bastante”. Essa impotência frente à Ciência se deve em grande parte à essas falsas historias, que transformam alguns cientistas em admiráveis cavaleiros que salvaram a humanidade da ignorância e outros em vilões que difundiram idéias erradas, como Lamarck ou a própria igreja, por exemplo (olhem só como ela foi injusta com Copérnico, coitadinho!).

A história da Ciência é uma história de seres humanos. Isso deve ficar bem claro. Serem humanos erram e às vezes fazem coisas movidos unicamente pela emoção. Seres humanos têm família, amigos, amores e interesses. Seres humanos (da sociedade capitalista) precisam de dinheiro, e fazem o que podem pra consegui-lo. Seres humanos gostam de fama, poder e prestígio. Se os cientistas são de fato seres humanos, então todas essas características se aplicam a eles também. Eles não são nem heróis, nem vilões. Na verdade, eles tem nada de especial – nem mesmo a inteligência: acreditem, é tudo treino!

Deve ficar claro também que a história da Ciência é contada por seres humanos. Seres humanos que colocam o seu ponto de vista naquilo que contam, mesmo que não tenham a intenção de fazê-lo. Depois de alguns séculos de distorções (intencionais ou não), o resultado é uma história que tem pouco a ver com o que realmente aconteceu, que guarda pouco de quem realmente eram os personagens e que nunca considera que a época em que eles viveram era diferente da época em que vivemos hoje.

E quem sai perdendo com tudo isso? Vejo a situação como um sistema de retroalimentação positiva. Quanto mais essas histórias circulam, mais as pessoas se distanciam da Ciência. E quanto mais distante a Ciência fica da sociedade, mais convinventes essas histórias parecem ser. E dessa forma a sociedade fica sem entender a Ciência e a Ciência fica cada vez mais fechada em seu mundinho, sem que os próprios cientistas entendam seu papel nessa sociedade. E quem sai ganhando? Hmm…dizem as más linguas que uma população que acredita cegamente em tudo que tem o rótulo de “científico” (por não entender como funciona a Ciência) pode beneficiar bastante os grande grupos econômicos que controlam o capital, já que essa população é manipulada muito facilmente. Mas isso é só especulação. Será? Na dúvida, eu acho que seria melhor se repensássemos a forma de contar a história da Ciência e dos cientistas.

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Dinossauros, penas, insensatez e informação

Na ciência, algumas vezes são propostas idéias que simplesmente não agradam a todos. Seja por motivações ideológicas, religiosas, econômicas ou mesmo pelo gosto de cada um, algumas teorias podem incomodar bastante. A teoria da evolução é um exemplo bem conhecido, e talvez seja um dos melhores que existam. Na época de Darwin, panfletos maliciosos circulavam aos montes. Esses panfletos tentavam enfraquecer a teoria evolutiva não com argumentos científicos, mas pelo apelo às conseqüências da aceitação da teoria: “Se esse cara estiver certo, isso significa que somos parentes dos macacos! Nós não podemos ser parentes dos macacos, então ele só pode estar errado!”.

Na verdade até hoje sites criacionistas proliferam na internet com essa mesma intenção de ridicularizar uma teoria científica com argumentos não científicos. No entanto, essa semana achei na internet algo que me surpreendeu e chocou. Um sujeito leu um artigo da Nature do mês passado que trata de uma pesquisa que descobriu o provável padrão de coloração das penas de uma espécie de dinossauro. Ele não gostou muito. Na verdade ele não gostou nem um pouco. Ele ficou atordoado, mas não por terem descoberto a coloração das penas. O que o incomodou foi a premissa da pesquisa: alguns dinossauros tinham penas.

Ele ficou tão revoltado que começou uma campanha na internet contra a teoria dos dinossauros com penas. O lema de sua campanha é “Dinossauros com penas são uma teoria, não um fato!”, e seu argumento central é o seguinte: “Há alguns dias saiu uma história sobre como ‘cientistas’ estavam orgulhosos de terem descoberto qual a cor exata das penas de um tipo particular de dinossauro, o que é maravilhoso para eles, exceto pelo fato de que toda a idéia de dinossauros com penas é completamente estúpida. Os dinossauros são máquinas mortíferas cobertas de couro. Não são rainhas do Carnaval brasileiro”. Ou seja, como os dinossauros têm que ser malvados, eles não podem ter penas. Um belo argumento!

Uma das características mais legais da Ciência é o fato dela não ser fechada. Todas as teorias estão sempre abertas à discussão. Muito já foi escrito sobre como se dão essas discussões e sobre como uma teoria é substituída por outra. Evidentemente, este sujeito nunca leu nenhum desses escritos. Provavelmente não se informou melhor sobre a própria teoria que está atacando também.

Este é um caso extremo, mas acho que ele traz à luz uma questão bastante comum: a maioria das pessoas não tem a menor idéia de como a ciência funciona! Para esse cidadão não faltou sensatez (tá, talvez um pouco!), mas sim (in)formação. Esse é um caso do qual podemos rir, mas só até cair a ficha de que muitas pessoas só acreditam na Ciência que lhes convém. Foi assim com Darwin e é assim com os dinossauros. Enquanto as pessoas não entenderem como funciona a Ciência, vai ser difícil convencê-las a acreditar em coisas que elas não gostam só porque “é científico”. Kuhn, Popper, Lakatos, Feyerabend e outros filósofos já fizeram a parte deles. Todos sabemos que a escola tem um papel importante a cumprir, mas, para linkar com o texto do Thiago e criar um pouco de polêmica, qual é o papel dos divulgadores da Ciência nessa história? Como cumprir esse papel? Aparentemente, cuspir curiosidades científicas não é o caminho certo. Talvez, inclusive, seja um caminho bastante errado.

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Divulgação Científica: Uma atividade sem conceito?

Não acredito que haja hoje um só cientista que não defenda a prática da divulgação científica, ainda que muitos deles não se dêem ao trabalho de produzir uma só linha de texto com este fim. Ainda assim, não da pra ignorar que o passado da atividade é cheio de louros e heróis.

Isaac Asimov, Stephen Jay Gould, Carl Sagan, Julian Huxley, Richard Dawkins e nossos brasileiríssimos Marcelo Gleiser e o pai da divulgação científica tupiniquim José Reis, só pra citar os mais conhecidos. Todos eles lembrados como homens incansáveis no trabalho de popularização da ciência.

Foram estes nomes que inspiraram uma série de novos indivíduos a continuarem seus trabalhos e, graças ao advento da internet e da web, o que vimos nos últimos tempos é a proliferação de blogs e sites preocupados em levar a ciência ao público por vezes referido como leigo. Este blog, claro, não é diferente e eu, como tantos outros, também tenho minhas dívidas com estes grandes divulgadores.

Daí que com tantas boas inspirações, a nova geração de divulgadores científicos já nasceu com uma ideia pré-formatada de modus operandi do divulgador e as vezes nos esquecemos de parar um minuto para pensarmos, o que é, de fato, a divulgação científica.

Público alvo não é conceito.
Por vezes vejo o conceito de divulgação científica se confundindo com a definição de seu público alvo. Isso por que cada vez que nos deparamos com um texto que fale de ciência para “não cientistas”, o classificamos imediatamente como divulgação científica.

Mas “não cientista” ou “público leigo” são definições generalistas demais, que acabam por esconder um problema que é óbvio para quase todos os tipos de ferramentas de comunicação. Quando dizemos “não cientistas” incluímos aí um espectro de público de múltiplas idades e níveis educacionais. Fazemos pior até, excluímos o próprio cientista.

Pode parecer bobagem imaginar que o cientista é alvo da divulgação científica. Mas não da pra negar o fato de que já a um bom tempo a ciência vem exigindo que seu praticante seja cada vez mais especialista, ao passo que a produção científica cresce de maneira assustadora. É evidente então que um biólogo não consiga acompanhar o que acontece na física. Com efeito, um biólogo especializado em comportamento reprodutivo de tubarões pode não estar em dia com as novidades de, digamos, áreas como a entomologia.

Como classificar então este cientista? Como “leigo”? Mas é um leigo igual a dona de casa? Se não é, então quais os tipos de leigos? E os tipos de não cientistas? Pior ainda é quando usamos o termo “divulgação para um público mais geral”, como eu, talvez erroneamente, muitas vezes cansei de fazer.

Vemos então a divulgação científica que dificilmente pode ser definida como “ciência traduzida para não cientistas”. Temos um público em potencial grande demais para definirmos toda a atividade de forma tão simplória.

Apesar disso, a ideia de “tradução” não é exatamente ruim. Mas é preciso considerar a diversidade de público para o qual tentamos comunicar uma atividade que é igualmente diversificada.

Uma narrativa autoritária?
Passando do conceito ao conteúdo, escrevi em outro texto que a divulgação científica atual consiste muito mais em explicar conceitos e teorias. Vou além, o grosso do conteúdo de divulgação científica produzido desde sempre, segue esta mesma métrica.

Não questiono a validade deste tipo de conteúdo, especialmente em um país com graves problemas educacionais. O problema é que a ciência é muito mais do que a teoria da evolução, ou o big bang, ou mesmo o conjunto completo de todas as teorias e conceitos já formulados.

Uma divulgação científica preocupada exclusivamente em ser explicativa não cumpre o papel básico de divulgar. E não o faz por que explicar uma teoria qualquer não basta. É preciso explicar o que é uma teoria, divulgar o dia a dia do cientista, explicar os processos internos de validação da ciência, e por aí vai.

Quando deixamos esta parte de fora, criamos uma narrativa autoritária, mesmo sabendo que na ciência o questionamento tem papel central. Blindamos a atividade, apresentando apenas um produto final que pode ser menos interessante do que o processo que nos levou até ele.

É preciso sujar um pouco a ciência. Mostrar que, assim como em qualquer atividade humana, também nela se erra. Mostrar que cientistas também tem problemas com seus egos. Mostrar que também sofremos com as mazelas políticas. Enfim, mostrar que não somos esta torre branca de onde verdades e coisas boas saem, ainda que ninguém entenda como.

Mas e o conceito?
Desculpem, vou ficar devendo. Acredito que a divulgação científica, embora não seja exatamente nova, ainda tem muito o que caminhar. Além disso, o papel deste texto é provocar algumas reflexões e discussões, bastante necessárias ultimamente.

É importante discutirmos sobre blogs de ciência e assuntos similares? Sem dúvida. Mas não podemos deixar de também discutirmos as bases da atividade. Andamos tão preocupados em discutir sobre os meios que esquecemos de olhar para a mensagem.

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Fim do essencialismo?

Como se sabe, o essencialismo, uma filosofia creditada a Platão (428 a.C. – 347 a.C.), mas que provavelmente o antecedia, permeou o pensamento científico ocidental por mais de 2000 anos. O essencialismo foi uma das grandes barreiras que Darwin teve que enfrentar quando propôs sua teoria da evolução por seleção natural. Alguns estudiosos de Darwin acreditam que esse paradigma foi um obstáculo mais difícil de transpor do que as próprias idéias religiosas, que já estavam perdendo credibilidade há algum tempo por causa de outras descobertas científicas.

Ás vezes é dito que Darwin acabou com o pensamento essencialista. Ele certamente o abalou, ao demonstrar que essa filosofia não dá conta de explicar a origem e evolução das espécies sem tropeçar nas diversas evidências paleontológicas e geológicas que estavam aflorando em sua época. No entanto, o essencialismo não se restringe à Ciência. Ele é muito mais amplo do que isso.

O essencialismo postula que todas as coisas têm uma essência que é imutável. No campo da Biologia, isso significa que todas as espécies têm uma essência fixa e eterna; todos os coelhos têm a essência do coelho, ou seja, eles têm um conjunto de características que nos permite distingui-los como coelhos, apesar de alguns serem mais peludos ou maiores do que os outros. As pequenas diferenças entre os indivíduos das espécies eram facilmente explicadas porque a “essência ideal” era inalcançável, ela só existia no plano das idéias (de Deus), de forma que cada coelho seria apenas uma representação imperfeita desse modelo ideal. Cada indivíduo tinha uma imperfeição diferente em relação à essência perfeita (de Deus), logo, os indivíduos podem ser diferentes mesmo tendo todos a mesma essência. Darwin quebrou esse pensamento ao demonstrar que as espécies mudam ao longo do tempo. Se as essências são fixas, como poderiam as espécies mudar?

No entanto, o essencialismo continua aí. Essa história toda de “essência ideal” feita por Deus pode parecer meio absurda nos dias de hoje, mas para esclarecer as coisas basta pegarmos um exemplo mais próximo, como, por exemplo, uma cadeira.

Todas as cadeiras têm uma mesma essência: são objetos elaborados para nos sentarmos. Existe uma grande variedade de cadeiras. Desde banquinhos de plástico até poltronas reclináveis, desde assentos num ônibus até cadeiras de dentista, não importa, todas elas servem para a mesma coisa. Todas têm a mesma “essência ideal”, criada pelo homem, mesmo que difiram na cor, no tamanho ou no revestimento. Dessa forma, quando eu falo “cadeira”, todo mundo entende do se trata.

Sim, eu sou essencialista, e você também é. Toda vez que pegamos um conjunto de características e o extrapolamos, criando uma categoria onde inserimos coisas ou pessoas, somos essencialistas. Somos essencialistas quando falamos sobre “os muçulmanos”, “as pessoas de esquerda” ou até mesmo “a minha família”, pois ao fazer isso, estamos criando categorias a partir de características que acreditamos compartilhar com nosso interlocutor e estamos incluindo muitas pessoas nessa categoria, mesmo sem conhecer todas elas. “Os corintianos são bandidos” é uma típica frase essencialista – e preconceituosa.

E ser essencialista é ruim? Bom, se você estiver tentando entender a teoria da evolução, isso pode te atrapalhar. Mas parece que o essencialismo faz parte da lógica de nosso pensamento. Tente raciocinar sem criar categoria; é impossível! O pensamento tipológico é uma materialização da filosofia essencialista. Claro que essa tendência a pensar criando categorias (tipos) também favorece o desenvolvimento de preconceitos, já que “os negros”, “os judeus” e “as mulheres” formam categorias tão bem quanto “os talheres”, “os vizinhos”, “os países industrializados” ou “os meus amigos”.

Algumas pessoas defendem que a religião é um “contra” da nossa capacidade de imaginação. Talvez os preconceitos contra grupos inteiros que mal conhecemos sejam um “contra” da nossa forma lógica de raciocinar. Não sei, isso é só especulação, mas, ironicamente, parece que a única coisa imutável no essencialismo é ele mesmo. Talvez pensar de forma essencialista esteja na essência do homem.

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“Spider sense is tingling”

Certa vez, um velhinho muito sábio disse a seu sobrinho que “com grandes poderes vêm grandes responsabilidades”. Tudo bem, tudo bem, esse velhinho é um personagem de quadrinhos, mas ele sabia do que estava falando. Esse é um texto sobre como a máxima do sr. Ben Parker pode se aplicar à Ciência.

O grande poder da legitimação

Não é novidade pra ninguém que a Ciência, na forma que tem hoje, é uma grande legitimadora de conhecimento. O conhecimento científico é visto como muito mais acurado e muito melhor do que os outros tipos de conhecimento, mesmo por aqueles que nada sabem sobre o processo de construção dos conhecimentos científicos. Ou seja, mesmo quem não sabe como funciona a construção de saberes na Ciência julga que esses saberes são mais válidos do que os seus próprios, adquiridos a partir de suas vivências. A Ciência tornou-se inquestionável, mesmo que seu pressuposto básico seja o questionamento e a busca pelo conhecimento. Por sinal, quando uma pessoa ouve uma explicação científica para um fenômeno qualquer, ela deixa de buscar esse conhecimento, pois, afinal, ele já está “pronto”. Se a Ciência falou, tá falado.

Em miúdos: atualmente a Ciência tem o poder de decidir qual conhecimento é válido e qual não é. É quase como poder de decidir o que é certo e o que é errado, o que é bom e o que é ruim (por exemplo, de uma semana para a outra a Ciência pode transformar o ovo de vilão a herói de nossa saúde, e seu parecer será definitivo, enquanto a opinião dos ruralistas que criam as galinhas de nada vale, afinal, o que eles podem saber sobre ovos?).

A grande responsabilidade da universalização

Se por um lado a Ciência nos permite feitos incríveis como chegar a Marte ou seqüenciar o DNA dos bichos, por outro ela marginaliza todas as pessoas que não entendem como esses feitos são possíveis, assim como todas as formas de pensar que não concordam com “o progresso da Ciência” – estas são vistas como reacionárias. Ela cria analfabetos, analfabetos científicos. Isso acontece porque, coincidentemente ou não, o conhecimento que a Ciência cria e valoriza é um que a grande maioria da população não tem acesso.

Existem dezenas de motivos pelos quais devemos defender a universalização do conhecimento científico, já que uma população alfabetizada cientificamente só traz desvantagens àqueles que dela querem se aproveitar. E é esse o ponto que levanto aqui; um ponto ideológico: é muito mais fácil convencer uma pessoa de que você está certo se ela não entender nada do que você está falando (os editores de Sokal que o digam!). Assim, uma população analfabeta cientificamente continuará a acreditar cegamente em tudo o que a Ciência disser, enquanto uma população alfabetizada iria se posicionar, questionar, criticar, etc.

Se a Ciência que se deseja é uma que se afasta da sociedade e se envolve numa áurea para parecer imaculada e neutra, então estamos no caminho certo. Mas sabemos que as coisas não são bem assim.A Ciência cresce na medida que mais e mais pessoas são capazes de entendê-la para questioná-la e, assim, alavancar seu desenvolvimento. Além disso, se todos entendessem a Ciência, a população iria assegurar que a Ciência vai concentrar esforços e verbas em áreas pertinentes para toda a sociedade, e não somente para os grupos dominantes.

A idéia central é que, se a Ciência têm o poder de decidir o que é verdade e o que é mentira, então ela tem a responsabilidade de validar verdades que sejam do interesse de todos, e a única maneira disso acontecer é garantindo que todos tenham acesso ao conhecimento que é produzido por ela. Limitar o privilégio do acesso ao conhecimento apenas às “mentes brilhantes” que freqüentam as universidades pode custar muito caro. Mais caro do que qualquer agência financiadora pode pagar. “Spider sense is tingling”.

“O aspecto mais triste da vida de hoje é que a Ciência ganha em conhecimento mais rapidamente que a sociedade em sabedoria” (Isaac Asimov).

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Pra quê?

José Oliveira se prepara para uma grande festa que ele vai dar. Essa festa simboliza uma grande mudança em sua vida, já que após três anos de cursinho ele foi finalmente aprovado no vestibular e irá cursar Economia numa das melhores universidades do país. Ele está muito aliviado porque nunca mais na vida vai ter que ouvir falar em isótopos, complexo de Golgi ou leis de Kepler. Ele odeia Ciências, e acha que todas as aulas de Ciências que teve na vida foram uma perda de tempo. “Nunca usei a Ciência que aprendi na escola. Não é preciso saber conteúdos científicos para entender o cotidiano”, diz.

As alegações de José são contundentes, e devem ser levadas a sério. Ele diz que saber ou não saber Ciências dá na mesma. Ele não precisa saber o que são pontes de hidrogênio para saber que a água demora mais pra ferver do que o leite, não precisa saber o que é índice de refração para usar óculos e lava louça tranqüilamente sem saber o que é uma molécula polar ou apolar.

José certamente não está sozinho. Muita gente concorda com ele, e a discussão que eles levantam é interessante e não trivial. Por que as pessoas têm que saber Ciências se, ao contrário de Línguas ou Matemática, muito pouco desse conhecimento é de fato aplicável ao dia-a-dia? José não vai mudar o jeito de viver se descobrir que uma dia existiu um tal de Trilobita ou que a água tem densidade máxima a 4ºC.

Poderíamos dar a José o argumento de Sagan, de que “a Ciência é como uma vela num mundo assombrado por demônios”, mas ele não aceita argumentos assim abstratos. Ele quer coisas concretas, aplicáveis, palpáveis. Pra que serve saber as partes de um átomo e tantas outras besteiras que os profs de Ciências insistem em dizer?

Há várias maneiras de retrucar José. Escolherei uma e convidarei os leitores a pensem (e, de preferência, comentarem) em outras.

Talvez José esteja certo em dizer que as aulas de Ciências que ele teve na vida foram uma perda de tempo. Sabemos que o modelo de aula e a concepção de educação que permeia nossas escolas estão muito ultrapassados. Mas o fato da aula ser ruim não significa que o conteúdo não seja importante. Existem professores péssimos de Matemática, mas isso não significa que não é importante saber contar. Talvez se José tivesse tido bons professores de Ciências, ele entenderia o argumento de Sagan, e gostasse de Ciência nem que fosse pelo exercício intelectual. Mas ele não teve, e não engole esse argumento.

Ora, se José é tão espertalhão e só quer saber das coisas concretas, então ele não pode negar que a tecnologia, uma das facetas da Ciência, interfere diretamente em sua vida. Mesmo assim, ele poderia argumentar que ele não precisa saber como funciona um pen drive para usar um. Correto. Mas e se formos para assuntos mais polêmicos, como clonagem humana, alimentos transgênicos, células tronco, créditos carbono ou robôs que tiram o emprego de centenas de homens?

José quer saber das coisas paupáveis, mas, por não gostar de Ciência, não a vê como empreendimento humano. Não entende que a Ciência e a sociedade estão altamente interligadas, e que se ele não souber um mínimo de Ciência (que não é tão pouco assim) ele vai ser só mais uma ovelha no rebanho. José quer ser questionador, mas como vai questionar a Ciência se não a conhecê-la?

Grande parte do financiamento para pesquisa é feita com dinheiro público – o dinheiro do José de todas as outras pessoas. Isso significa que o Governo, ao invés de ampliar as vagas nas Universidades públicas, está investindo milhões para sequenciar DNA de cana. Se fosse diferente, José não precisaria ter feito três anos de cursinho. Mas se ele não souber o que é DNA e não souber o que a cana tem de tão especial, ele nunca vai entender onde estão gastando o seu dinheiro.

Reações de combustão, fotossíntese e comprimentos de onda parecem coisas abstratas. Mas dinheiro, emprego e tempo de cursinho são bastante concretos. A relação entre essas coisas só será visível para José se ele entender um pouquinho de Ciência. Cidadania tem tudo a ver com Ciência, mas infelizmente pouca gente sabe disso.

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Fatos fatídicos

“Helado”, em Espanhol, não significa “gelado”. “Bixa”, em português de Portugal, não significa “gay”. De forma semelhante, existem alguns termos que são utilizados em Ciência que têm significados muito diferentes do que parecem ter. Dois desses termos merecem atenção especial: “teoria” e “fato”.

Na linguagem do dia-a-dia, dizer “eu tenho uma teoria” é o mesmo que dizer “eu acho que”, ou seja, as teorias carregam um alto grau de incerteza. Em contrapartida, na Ciência as teorias são hipóteses altamente corroboradas e bem fundamentadas. Atentaremos-nos a isso em algum outro texto. Este aqui tratará da diferença entre um fato do dia-a-dia e um fato científico. Para isso, peço que o leitor considere os dois grupos de afirmações a seguir:

Grupo 1: “Joãozinho andou de bicicleta ontem”. “A filha de Maria nasceu dia 5/12”. “O Flamengo ganhou o Brasileirão”.

Grupo 2: “A Terra gira em torno do Sol”. “Todas as espécies têm um ancestral comum”. “A Terra tem 6 bilhões de anos”.

Quais as diferenças entre os dois grupos de sentenças? O Grupo 2 contêm apenas afirmações científicas que são bastante aceitas atualmente, enquanto o Grupo 1 consiste de afirmações sobre acontecimentos cotidianos. Se olharmos um pouco mais a fundo, podemos perceber que as diferenças não param por aí, e passam pela questão fundamental que diferencia um acontecimento científico de um não-científico. Para perceber essa diferença, analisemos os grupos separadamente:

Grupo 1: O Flamengo ganhou o Brasileirão. Ponto. É um fato. Se você torce por outro time e não gostou do resultado, azar o seu! Não há nada que você possa fazer, pois esse fato é imutável. Por toda a eternidade ficará constado que o campeão brasileiro de 2009 foi o Mengão. Da mesma forma, a filha da Maria nasceu dia 5 de dezembro. Ponto. Pelo resto da vida, é nesse dia que ela comemorará seu aniversário. Nada pode mudar o dia em que ela nasceu.

Grupo 2: A Terra tem 6 bilhões de anos. Pelo menos até encontrarem uma rocha mais antiga que isso. Além disso, não faz muito tempo que esse fato (?) foi aceito. Na verdade, existem pessoas – e não são poucas – que acreditam que o mundo não tem mais do que 6 mil anos. De forma semelhante, as voltas que a Terra dá em torno do Sol nem sempre foram um fato. Antes era fato que o Sol girava em torno da Terra.

Percebe-se que os fatos do Grupo 1 têm duas características bem claras: são inquestionáveis e imutáveis. A mãe do Joãozinho pode não gostar nem um pouco do fato dele ter andado de bicicleta ontem, mas ele andou, e acabou. Ela pode deixar ele de castigo, mas não pode mudar o fato. Já no Grupo 2, os fatos tem propriedades bem diferentes: estão sempre abertos à discussão e podem mudar.

Essa análise simples nos permite perceber uma propriedade importante dos fatos científicos: ao contrário dos fatos do cotidiano, eles nunca são verdades por si mesmos, mas dependem do que vai acontecer com eles nas mãos dos outros. Não existem “verdades absolutas”. Um fato é apenas alguma coisa que uma grande quantidade de pessoas da área aceita como verdadeira, e essas coisas são negociáveis, e mudam ao longo do tempo.

Isso é um pouco difícil de enxergar quando olhamos para fatos já bastante consolidados como a ancestralidade das espécies ou a heliocentricidade do sistema solar, mas fica fácil se olharmos para um fato que está em construção. Peguemos o exemplo do ovo. Comer ovo faz bem ou faz mal? Uma semana é “fato” que ovo aumenta o colesterol e faz um grande estrago no corpo, na outra, é “fato” que ele é um alimento muito rico que pode ser consumido sem restrições.

Na Ciência os fatos mudam porque eles não são nada por si mesmos, mas dependem da quantidade de pessoas que acreditam nele. Na medida em que os cientistas vão coletando mais e mais evidências para defender o seu ponto de vista, eles vão puxando o fato mais para o seu lado, mas isso não os torna mais verdadeiros, apenas mais aceitos. Uma nova descoberta ou uma nova estrutura conceitual (Revolução Científica) pode mudar a veracidade de muitos fatos. Assim, quando falamos de fatos cotidianos, estamos falando de acontecimentos, mas quando falamos de fatos científicos, estamos falando de pessoas e de suas “crenças”, por mais bem embasadas que essas “crenças” possam estar. Pessoas podem duvidar que o mundo tenha 6 bilhões de anos, mas ninguém pode duvidar que o Flamengo ganhou o campeonato.

Como conseqüência, temos que se um cientista faz uma pesquisa e propõe um novo fato que outro cientista não gostou, esse outro cientista pode contra argumentar, e, se vitorioso, mudar o fato. Isso abre margem para que interesses externos manipulem os fatos científicos. Fritjof Capra já dizia que boa parte dos fatos na área médica está permeada por interesses das indústrias farmacêuticas.

Essa negociabilidade dos fatos científicos pode parecer bem esquisita para quem é de fora, mas, em contrapartida, é uma das características que torna a Ciência tão interessante, e que fez pensadores como Kuhn e Popper fritarem os neurônios para tentar entender como se dão essas negociações e como os fatos são construídos e desconstruídos ao longo do tempo.

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Doutrina Monroe na Ciência

Os leitores desse blog devem saber bem que os cientistas são pessoas tão normais quanto qualquer outra. Eles não carregam nada de especial ou de sobrenatural; são apenas pessoas que têm um trabalho, que porventura é o de cientista. Assim como as pessoas normais, os cientistas têm interesses pessoais que eles muitas vezes colocam à frente dos interesses da coletividade, e esses interesses muitas vezes se deixam transparecer nas posições que eles assumem dentro da Ciência.

Mais do que isso, muitas vezes os cientistas tentam utilizar a própria Ciência para legitimar o seu ponto de vista pessoal sobre determinado assunto. Certa vez escrevi um texto que tangia essa questão ao falar de tempos não tão remotos assim em que a teoria da evolução de Darwin foi distorcida para “provar cientificamente” que os ricos são mais inteligentes que os pobres. “Doutrina Monroe na Ciência” é um texto sobre um outro grupo de cientistas tendenciosos que acham que a idéia de tornar a Ciência acessível a todos não é muito boa. Para eles, a Ciência deve ser deixada para os cientistas, os únicos capazes de entendê-la de verdade.

“América para os americanos”

O final do séc. XVIII e início do XIX foi um período bastante conturbado na América Latina, e em especial na América Central. Vários países que até então ainda eram colônias conquistaram a independência política de suas metrópoles européias, que desde o início do séc. XVI exploravam e extorquiam essas terras e esse povo.

Enquanto as ex-metrópoles européias calculavam o rentável saldo de 300 anos de exploração, uma emergente potência da América do Norte viu nessa situação uma possibilidade de se dar muito bem. A estratégia era simples, e deu muito certo. Ela consistia basicamente em se “fazer de bonzinho” e ficar do lado das ex-colônias, defendendo-as de possíveis re-colonizações européias. Seu elaborador, o então presidente dos Estados Unidos James Monroe, a divulgou numa mensagem mandada ao congresso dos EUA em 1823:

“Julgamos propícia esta ocasião para afirmar, como um princípio que afeta os direitos e interesses dos Estados Unidos, que os continentes americanos, em virtude da condição livre e independente que adquiriram e conservam, não podem mais ser considerados, no futuro, como suscetíveis de colonização por nenhuma potência européia”.

Por trás do discurso, uma mensagem clara: “Sai pra lá, Europa! Agora é nossa vez de colonizar!” Os países latino-americanos trocaram (sem muita escolha, na verdade) um colonizador por outro, por quem são explorados até hoje.

“Ciência para os cientistas”

Em 1995, Morris Shamos escreveu o livro “The Myth of Scientific Literacy”, em que defende que a idéia de que toda a população pode ser alfabetizada cientificamente é um mito. Segundo ele, a Ciência é difícil e complexa demais para que as pessoas comuns consigam entendê-la o suficiente para participar das discussões científicas que afligem a sociedade nos dias de hoje. Assim, questões como o aquecimento global, o uso de células tronco, a destruição de florestas, a extinção de espécies, a clonagem humana, etc., não devem ser discutidas pelas pessoas comuns, por que, afinal, são assuntos da Ciência, e os assuntos da Ciência são complicados demais para que as pessoas entendam o que está em jogo. O julgamento delas é inútil, já que elas não têm, e nunca terão, nem o conhecimento técnico nem as capacidades intelectuais que os cientistas têm.

Já que a “Ciência de verdade” é inatingível para a maioria das pessoas, o autor defende a idéia de que a educação das massas deveria conter não um ensino de Ciências, mas um “curso de apreciação da Ciência”, parecido com os cursos de apreciação musical que alguns colégios têm. O objetivo desses cursos seria a diversão e o entretenimento, uma vez que investir numa formação científica para a cidadania é perda de tempo. Ele diz que a educação científica como existe hoje é penosa e ineficaz para os estudantes, e que as coisas não precisam ser assim. Já que ninguém vai aprender nada mesmo, que pelo menos eles se divirtam. Já aqueles que têm “o dom para ser cientistas” deveriam receber uma educação tradicional, com aulas expositivas e práticas, como as que existem hoje em dia.

Os argumentos levantados pelo Sr. Shamos são altamente polêmicos e questionáveis (tenho certeza que o leitor deve ter encontrado vários furos), mas isso de forma alguma o torna  um maluco que escreveu um livro infeliz. Ele é apenas um dos muitos cientistas que defendem uma linha de pensamento elitista e reacionária que, obviamente, está pautada em escolhas e interesses políticos.

Se levarmos a cabo as idéias desses de cientistas, teremos um cenário em que um pequeno grupo de pessoas “abençoadas com o dom para serem cientistas”, que – olha só que coincidência! – são quase todas das classes mais ricas, discutem a Ciência e tomam decisões que vão atingir toda a sociedade, enquanto as pessoas mais pobres (que são a imensa maioria da população) são iludidas com uma Ciência lúdica, sensacionalista e falsa. Essa Ciência “divertida” seria um verdadeiro presente para as classes mais pobres, que não precisariam mais ser massacradas pelo árduo conhecimento científico que são obrigadas a engolir nas escolas.

James Monroe manteve a Europa longe da América Latina para que os EUA pudessem se banquetear nos recursos desses países pobres. Shamos e seus colegas gostariam de manter a Ciência autêntica longe do “povão” para que as classes mais ricas possam continuar se banqueteando nos recursos que uma população alienada tem para oferecer. Tudo isso é só uma resposta das amedrontadas elites aos movimentos progressistas na educação científica. A idéia de uma população letrada não interessa muito a eles.

“Julgamos propícia esta ocasião para afirmar, como um princípio que afeta os direitos e interesses das classes dominantes, que o conhecimento científico, em virtude das condições elitizadas que adquiriram e conservam, não podem mais ser considerados, no futuro, como suscetível de ser acessado por nenhuma pessoa de baixa renda”.

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Como fabricar um quebra-cabeça impossível

Um aspecto interessante da Ciência é que para cada pergunta que é respondida, várias outras são feitas, o que, em teoria, torna o processo de investigação infinito. Dessa forma, a cada dia que passa, assuntos cada vez mais específicos vão sendo pesquisados e descobertos. Quando essas novas descobertas são divulgadas para a comunidade científica nas revistas especializadas, os títulos dos artigos até assustam, como por exemplo, ABA-Activated SnRK2 Protein Kinase is Required for Dehydration Stress Signaling in Arabidopsis”.

Arabidopsis é o “apelido” da espécie Arabidopsis thaliana, uma planta muito famosa entre os geneticistas por que ela foi a primeira planta que teve o genoma seqüenciado. Assim, um número muito grande de pesquisadores trabalha com essa planta, mas não por que ela seja especialmente interessante ou bonita ou importante. Escolhem-na por que ela já tem o genoma seqüenciado, e é isso.

Tá…Então os cientistas que fizeram essa pesquisa (que, se você quiser, pode tentar ler aqui) descobriram que para que o processo de sinalização de stress por desidratação dessa planta ocorra, um tipo específico de proteína Kinase é ativado pelo hormônio vegetal ABA (Ácido abscísico). Para isso, eles utilizaram métodos extremamente complexos e máquinas que ninguém sabe que existem. É necessário muito treino para saber mexer nessas máquinas e muito estudo – muito mesmo! – para entender os processos que estão envolvidos nesse tipo de pesquisa, ou seja, pesquisar isso não é pra qualquer um; é preciso ser um especialista na área.

Aí entra uma questão fundamental para a Ciência. É muito provável que os pesquisadores que fizeram essa descoberta não façam a menor idéia de onde essa planta vive, de suas estratégias reprodutivas, de suas relações com os outros seres vivos de seu habitat, etc. Em momento algum da pesquisa esses “detalhes” foram importantes. Esses pesquisadores se especializam tanto na área da Biologia Molecular que não conseguem mais ver as coisas de uma forma ampla.

Isso não acontece só na área da Biologia Molecular. Acontece em todas as áreas de todas as Ciências. Quanto mais a pesquisa sobre determinado assunto avança, mais especialista tem que ser o sujeito que vai dar prosseguimento a essas pesquisas. Dessa forma, não existem mais “físicos”; existem físicos especialistas em física nuclear, físicos especialistas em transmissões de alta freqüência, e assim por diante. Esses profissionais, no processo de sua formação altamente especializada, acabam deixando de estudar outras coisas importantes, e muitas vezes “de propósito”. Quem estuda abelhas acha que as abelhas são os bichos mais legais do mundo e não está nem aí pros ursos ou pras bactérias. Já quem estuda gimnospermas não quer nem saber das abelhas, e muito menos dos fungos ou das andorinhas. É criado um vínculo forte com a área de estudo, como se ela fosse mais importante do que todas as outras, e os cientistas não se interessam mais em estudar coisas que não sejam de sua área – e pior, isso é valorizado, porque quanto mais especialista for o cara, melhor.

Como atualmente a maioria das áreas de pesquisa já está bem desenvolvida, a maior parte dos cientistas de hoje são especialistas. A questão é: para onde isso vai nos levar? Os cientistas que têm um conhecimento amplo e uma visão integrada estão dando lugar à “Zé Bitolas” tolos o suficiente para achar que uma área do conhecimento é mais importante do que outra.

Enquanto por um lado a especialização é necessária para que a Ciência continue progredindo, os cientistas que se especializam perdem a capacidade de integrar o conhecimento que eles mesmo produzem com o conhecimento que o resto da humanidade já construiu historicamente, porque para eles não é interessante estudar esse “resto”. Hoje temos uma quantidade absurdamente enorme de artigos publicados sobre coisas altamente específicas. Amanhã pode ser que essa infinidade de artigos se transforme num quebra-cabeça impossível, não porque os artigos não têm conexão entre si, mas porque não vai ter mais ninguém capaz de perceber que eles formam uma figura; cada um vai estar preocupado apenas com a sua pecinha.

Auguste Conte, em seu Curso de Filosofia Positiva, já em 1830 previa esse momento. Ele dizia que a Ciência é como uma árvore: ela vai se ramificando em vários galhos, que vão se ramificando em galhos cada vez menores e menores, mas todos os galhos estão de alguma forma conectados ao tronco principal, e ele advertia fortemente para que isso nunca fosse esquecido.

Nem 200 anos se passaram e agora parece que estamos tentando plantar uma árvore para cada área do conhecimento. É preciso que a formação polivalente dos cientistas seja valorizada e que a Ciência ande mais devagar para o seu próprio bem.

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