Open Acces e o próximo passo

maio, 2012

Acaba que nos últimos meses o movimento do Open Acces ganhou tração. Mais do que isso, ganhou apoio de uma comunidade que aparentemente começa a sentir o peso de se deixar escravizar por uma indústria.

Precisou, é claro, que um pesquisador respeitado e premiado colocasse “o dele na reta” pra fazer com que o resto do pessoal que também se sentia abusado pelos publishers saíssem do armário e começassem a agir de alguma maneira.

O cenário atual é bastante otimista. Entre abaixo assinados, projetos de lei abandonados no Senado Norteamericano e uma comunidade que decidiu falar de suas mazelas, começam as discussões sobre qual a melhor maneira de seguir em frente agora.

O acesso livre a trabalhos científicos deixou de ser uma ideia bacana e passou a ser uma realidade necessária e iminente. Apesar de toda essa transformação, que era de fato inevitável, é preciso ter em mente que estamos falando muito mais da conquista de um direito do que de uma revolução propriamente dita.

É necessário deixar a empolgação de lado e ver as coisas pelo que elas realmente são. O acesso livre é, antes de qualquer coisa, um direito mínimo necessário para uma ciência que não vive mais no século XIX. É, até certo ponto, uma conquista análoga ao direito de voto das mulheres, ou a outras conquistas pretendidas por qualquer sociedade que não seja medieval, como o casamento entre pessoas do mesmo sexo ou a legalização do aborto.

De novo, é muito mais a conquista de um direito do que uma revolução. Aliás, é outra coisa também. É um requisito mínimo para que a chamada “Ciência 2.0” possa sair do mundo das ideias e das “catchphrases” e passe a ser considerada de fato como uma outra maneira de se fazer ciência séria.

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Aos periódicos tudo, à ciência o que sobrar…

janeiro, 2012

Antes de mais nada leiam este texto…

Não leu? Não sabe inglês? Eu resumo rapidinho. Basicamente o texto chama atenção para um artigo que relata a pratica de alguns periódicos de pedir para autores de artigos aceitos para publicação citarem outros artigos publicados no mesmo periódico.

O título do texto do Ben Goldacre resume bem a situação: “nós aceitamos seu artigo para publicação mas… ééé… Você poderia citar outros artigos de nosso periódico?”.

Absurdo? Uma ofensa? Violação ética? Sim, todas as anteriores e, mais do que isso, completamente esperado.

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Conheço, logo acredito?

novembro, 2011

A discórdia é o motor propulsor da Ciência. É a partir do embate de ideias, do ataque fervoroso aos pilares teóricos e às evidências que sustentam as teorias que o conhecimento científico avança. Algumas vezes, no entanto, depois de extensas discussões acadêmicas sobre um assunto (que pode demorar décadas), pode acontecer de os cientistas perceberem que aquela questão é “insolúvel”, que nunca haverá consenso. Quando isso acontece, uma espécie de “pacto” é feito, um acordo oculto entre os cientistas de que eles simplesmente vão ter que concordar em discordar.

Pergunte a um biólogo o que é uma espécie e terá uma boa noção do que eu estou falando. O conceito de espécie em Biologia é uma questão que foi (e de vez em quando ainda é) extensamente debatida e, no final de toda essa discussão, o que vemos é existem diversas definições diferentes para este conceito e que cada cientista usa o que melhor lhe convir e ninguém vai “encher o saco” dele por causa disso. Isso a princípio pode parecer absurdo, pois todos os biólogos trabalham com espécies e… como assim nenhum deles sabe ao certo o que é uma espécie? Que contradição!

Há um outro exemplo muito mais chocante, mas, por ser mais conhecido, as pessoas parecem não ligar muito pra ele: O que é Ciência? Há diversas maneiras de tentar responder essa pergunta, desde aquelas mais metodológicas até as sociológicas, passando, é claro, pelas filosóficas (onde se enquadram nossos queridos Popper, Kuhn, Feyrabend, etc.). Há livros e mais livros dedicados exclusivamente a tentar responder essa pergunta (temos até um PolegarCast a esse respeito, confiram!), mas, no final das contas, cada cientista vai pro seu laboratório e faz o seu trabalho sem ficar esquentando muito a cabeça com essa questão. Desde que saia um paper publicado (de preferência dois ou três), tá valendo.

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Desinteresse crônico

janeiro, 2011

Observe os diálogos abaixo:

(1)

– Ei, estou lendo os livros da saga Crepúsculo e estou adorando! Tem muito mais emoção do que nos filmes! Você já leu?

– Eu não cara… Deus me livre! Me dá enjôo só de pensar em quanta bobagem deve estar escrita num livro sobre vampirinhos apaixonados! Não sei como você pode gostar de coisas tão juvenis!

– Ah, para! Se você não leu, não pode falar nada do livro!

– Mas não é possível que essa história seja boa… Me disseram que quando esses vampiros saem no sol, eles viram purpurina! Fala sério, né?

– Nossa, você é muito preconceituoso e cabeça dura! Quando forma uma idéia, ou melhor, copia de alguém, não se abre pra nenhum outro ponto de vista…

(2)

– Você viu que descobriram indícios de respiração unidirecional em crocodilianos? Isso não é demais?! Até então se pensava que só as aves tinham esse tipo de respiração!

– Nossa, mas como assim? Os crocodilos não passam nem perto de ter as mesmas demandas metabólicas que as aves…

– Exato! E eles nem são o grupo de répteis que deu origem às aves, o que indica que esse tipo de respiração pode ser simplesiomórfico pra maioria dos grupos de répteis do final do Triássico.

– Uau… Se for assim mesmo, então muito do que a gente conhece sobre evolução dos vertebrados terrestres vai ter que ser revisto.

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Positivismo, Ciência e progresso: Uma provocação.

abril, 2010

A Promessa

No final do século 18, a maior parte dos cientistas responsáveis pela grande revolução científica européia, como Descartes, Galileu e Newton já haviam morrido, mas seu legado permanecia, e a Ciência ocidental continuava passando por um período muito fértil. No entanto, ela ainda era vista como apenas mais uma forma de conhecer a natureza, e não como a melhor forma de fazê-lo. A Ciência ainda não tinha o poder de legitimar o que era verdade e o que não era, já que o misticismo e o conhecimento religioso ainda tinham um grande poder explicativo na sociedade. Nesse contexto surgiu uma corrente filosófica de afirmação do conhecimento científico como sendo o único conhecimento autêntico e, mais do que isso, do homem (e não Deus) como sendo o produtor desse conhecimento. Ou seja, o positivismo é uma corrente filosófica que nos redime do pecado original de Adão e Eva e, mais do que isso, prega que temos mesmo que nos banquetear na Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal.

August Comte (1798-1857), o “pai do positivismo”, escreve a obra que inaugura essa corrente filosófica, o Curso de Filosofia Positiva. Nesse livro, Comte formula sua Lei dos Três Estados, que parte do princípio de que a humanidade está evoluindo, avançando de uma época bárbara e mística para outra civilizada e esclarecida. Comte explica que essa evolução intelectual humana tem três fases muito bem definidas: a fase teológica, em que todos os fatos são explicados pelo sobrenatural (Deus); a fase mística ou metafísica, em que o homem começa a pesquisar a realidade, mas ainda com um viés sobrenatural muito forte (criam-se categorias alegóricas como “a Natureza”, “o Povo”, etc.); e a fase científica ou positiva, que seria o apogeu do intelecto humano. Os outros dois estados do conhecimento são apenas degraus pelos quais a humanidade teve que passar para atingir o estado mais elevado, em que o homem explica os fenômenos naturais por leis gerais que ele mesmo descobre a partir do estudo da natureza.

Dessa forma, para os positivistas o progresso da humanidade estaria intimamente relacionado com o progresso da Ciência. O conhecimento positivo (a Ciência) é o auge da evolução intelectual humana, então devemos investir nesse tipo de conhecimento e abandonar de vez a teologia e a metafísica, pois somente o conhecimento positivo poderá tirar a humanidade da ignorância e da superstição e colocá-la no caminho do progresso.

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Heróis e vilões na (falsa) história da Ciência

abril, 2010

Às vezes é um pouco difícil definir o que a Ciência é. Saber o que ela não é passa longe de ser tarefa mais simples, principalmente se a olharmos historicamente, já que muito do que hoje consideramos como não-Ciência, como a astrologia, por exemplo, já esteve dentro do campo científico em tempos não tão remotos assim. E o curioso é que quanto mais estudamos e conhecemos a Ciência e seus métodos, mais difícil fica fazer essas (in)definições. Mas, independentemente da quantidade de estudo ou da linha filosófica que escolhermos para olhar a Ciência, uma característica dela é – ou pelo menos deveria ser – clara e inegável: ela é uma atividade legitimamente humana, ou seja, é feita por seres humanos. O conhecimento produzido no campo científico é resultado de um longo processo de trabalho duro de pessoas como você e eu.

No entanto, quando ouvimos falar dos cientistas, seja pela mídia ou nas próprias escolas, não é bem essa a imagem que vemos. Sob nenhuma circunstância passa pelas nossas cabeças que nós, com todos os nossos defeitos, poderíamos estar ali naquele livro, naquela matéria. É mais ou menos parecido com o que acontece quando lemos histórias de super heróis. Ênfase no mais ou menos. Já explico: ninguém pensa seriamente em se tornar um super herói. Talvez só na infância. E a imensa maioria da população também não pensa seriamente em se tornar cientista, o que ocorre em boa parte pelo desconhecimento do que um cientista de fato faz. No entanto, às vezes, quando lemos as histórias dos heróis, nos pegamos fantasiando como seria legal ter super poderes ou salvar a humanidade de ameaças que ninguém mais poderia conter. Mas quando lemos a história do Mendel, não pensamos “nossa, como seria legal ficar recluso num mosteiro cruzando e contando ervilhas por anos e só depois de morto ter o trabalho reconhecido para virar o ‘pai da genética’”. Além disso, as histórias de heróis deixam claro que eles, mesmo que venham de outro planeta, têm um lado humano muito forte, entram em conflitos e dilemas morais e, alguns, como o Wolverine, têm até um lado meio cafajestão. Mas os cientistas não; eles são todos parecidos, e todos muito, muito distantes de nós. É como se os super heróis fossem de alguma forma mais reais do que os cientistas. Wow.

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Dinossauros, penas, insensatez e informação

fevereiro, 2010

Na ciência, algumas vezes são propostas idéias que simplesmente não agradam a todos. Seja por motivações ideológicas, religiosas, econômicas ou mesmo pelo gosto de cada um, algumas teorias podem incomodar bastante. A teoria da evolução é um exemplo bem conhecido, e talvez seja um dos melhores que existam. Na época de Darwin, panfletos maliciosos circulavam aos montes. Esses panfletos tentavam enfraquecer a teoria evolutiva não com argumentos científicos, mas pelo apelo às conseqüências da aceitação da teoria: “Se esse cara estiver certo, isso significa que somos parentes dos macacos! Nós não podemos ser parentes dos macacos, então ele só pode estar errado!”.

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Divulgação Científica: Uma atividade sem conceito?

fevereiro, 2010

Não acredito que haja hoje um só cientista que não defenda a prática da divulgação científica, ainda que muitos deles não se dêem ao trabalho de produzir uma só linha de texto com este fim. Ainda assim, não da pra ignorar que o passado da atividade é cheio de louros e heróis.

Isaac Asimov, Stephen Jay Gould, Carl Sagan, Julian Huxley, Richard Dawkins e nossos brasileiríssimos Marcelo Gleiser e o pai da divulgação científica tupiniquim José Reis, só pra citar os mais conhecidos. Todos eles lembrados como homens incansáveis no trabalho de popularização da ciência.

Foram estes nomes que inspiraram uma série de novos indivíduos a continuarem seus trabalhos e, graças ao advento da internet e da web, o que vimos nos últimos tempos é a proliferação de blogs e sites preocupados em levar a ciência ao público por vezes referido como leigo. Este blog, claro, não é diferente e eu, como tantos outros, também tenho minhas dívidas com estes grandes divulgadores.

Daí que com tantas boas inspirações, a nova geração de divulgadores científicos já nasceu com uma ideia pré-formatada de modus operandi do divulgador e as vezes nos esquecemos de parar um minuto para pensarmos, o que é, de fato, a divulgação científica.

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Fim do essencialismo?

janeiro, 2010

Como se sabe, o essencialismo, uma filosofia creditada a Platão (428a.C. – 347 a.C.), mas que provavelmente o antecedia, permeou o pensamento científico ocidental por mais de 2000 anos. O essencialismo foi uma das grandes barreiras que Darwin teve que enfrentar quando propôs sua teoria da evolução por seleção natural. Alguns estudiosos de Darwin acreditam que esse paradigma foi um obstáculo mais difícil de transpor do que as próprias idéias religiosas, que já estavam perdendo credibilidade há algum tempo por causa de outras descobertas científicas.

Ás vezes é dito que Darwin acabou com o pensamento essencialista. Ele certamente o abalou, ao demonstrar que essa filosofia não dá conta de explicar a origem e evolução das espécies sem tropeçar nas diversas evidências paleontológicas e geológicas que estavam aflorando em sua época. No entanto, o essencialismo não se restringe à Ciência. Ele é muito mais amplo do que isso.

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“Spider sense is tingling”

janeiro, 2010

Certa vez, um velhinho muito sábio disse a seu sobrinho que “com grandes poderes vêm grandes responsabilidades”. Tudo bem, tudo bem, esse velhinho é um personagem de quadrinhos, mas ele sabia do que estava falando. Esse é um texto sobre como a máxima do sr. Ben Parker pode se aplicar à Ciência.

O grande poder da legitimação

Não é novidade pra ninguém que a Ciência, na forma que tem hoje, é uma grande legitimadora de conhecimento. O conhecimento científico é visto como muito mais acurado e muito melhor do que os outros tipos de conhecimento, mesmo por aqueles que nada sabem sobre o processo de construção dos conhecimentos científicos. Ou seja, mesmo quem não sabe como funciona a construção de saberes na Ciência julga que esses saberes são mais válidos do que os seus próprios, adquiridos a partir de suas vivências. A Ciência tornou-se inquestionável, mesmo que seu pressuposto básico seja o questionamento e a busca pelo conhecimento. Por sinal, quando uma pessoa ouve uma explicação científica para um fenômeno qualquer, ela deixa de buscar esse conhecimento, pois, afinal, ele já está “pronto”. Se a Ciência falou, tá falado.

Em miúdos: atualmente a Ciência tem o poder de decidir qual conhecimento é válido e qual não é. É quase como poder de decidir o que é certo e o que é errado, o que é bom e o que é ruim (por exemplo, de uma semana para a outra a Ciência pode transformar o ovo de vilão a herói de nossa saúde, e seu parecer será definitivo, enquanto a opinião dos ruralistas que criam as galinhas de nada vale, afinal, o que eles podem saber sobre ovos?).

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