Bola Recuada, Jornalismo Esportivo e Divulgação Científica

Pois se em Copa do Mundo o tema é recorrente, o jornalismo esportivo anda mesmo muito a desejar. Em informações interessantes, claro. É só ligar a tevê e as reportagens se repetem, e como há quatro anos atrás:

• rivalidade entre Brasil e Argentina. A novidade fica por conta da propaganda de cerveja;
• bate-papos informais com ex-jogadores de futebol e algumas celebridades emergentes. O que será que Bruna Surfistinha tem a dizer?
• filmagens com os estrangeiros e suas colônias. E a saia justa de todo repórter: se o seu país for para a final com o Brasil, pra quem você torcerá?
• mitos pra lá, mitos pra cá. E na história de todas as Copas do Mundo isso, e aquilo, e coisa e tal.
• mais uma vez um jogo de estréia a desejar. Torcedores frustrados.

E se essa Copa do Mundo é aquela que mais investiu em tecnologia – dizem que a FIFA superestimou o poder das vuvuzelas, que atrapalham na recepção de som e, consequentemente, da transmissão televisiva – por que eu sinto falta de matérias mais elaboradas, com conteúdos mais reflexivos?

Uma vez a Tv Cultura passou uma série ótima e polêmica sobre o esporte: Mais que um jogo. Já tem uns dez anos isso, e eu nunca me esqueço. É que fui apresentada por uma verdade escamoteada, a do dopping com toda ciência e consciência aí envolvidas, ou não. E por que não aproveitar o momento para oferecer à população um pouco de informação científica? O dopping genético, por exemplo, é assunto pra lá de polêmico. Mas, mais próximo ao futebol e à própria Copa do Mundo está a confecção dessa nova bola, envolvida em muita ciência e tecnologia. Não daria margens para muitos programas de cinco minutos? Uma série, um qualquer coisa com um conteúdo das ciências, o futebol como fator de formação científica básica?

Eu tenho uma teoria, que é subjetiva, cuja conclusão me surge sem método nem estatísticas. É apenas uma observação empírica da coisa. Os jornalistas, e os repórteres, e o pessoal da comunicação não está muito habituado em trabalhar com a linguagem científica, mesmo sendo o futebol a paixão nacional. Talvez porque a ciência e a tecnologia sejam paixão apenas de alguns. Ou, do outro lado, no capitalismo da coisa, está a ponta da massificação da informação e coisa e tal.

Penso que, nos próximos seis anos, com a Copa do Mundo de 2014 a ser sediada no país, bem como os Jogos Olímpicos de 2016; penso que talvez esse pudesse ser o momento de levar à população reflexões mais críticas sobre os fatores envolvidos nesses eventos, principalmente em relação ao retorno para a nação. Não só, mas incluindo aí o conhecimento científico.

Por que é que nas últimas Olimpíadas a cobertura televisiva contou com mais desses artifícios e realizou mais embates científicos e tecnológicos? Câmera de movimentos lentos para entendermos a evolução técnica dos atletas, explicações sobre os recordes na piscina olímpica e sua construção tecnológica e etc, etc, etc. Por que o futebol parece ter sua discussão suficiente pela paixão nacional?

Por que as diversas mídias não vão aos laboratórios espalhados pelas universidades país afora para mostrar as evoluções científicas e tecnológicas que envolvem a preparação do atleta? Tem tanta informação diferente a ser pescada que me parece burrice um jornalismo esportivo feito de mesmices. O canal de cá com a mesma linguagem que o canal de lá. Competitividade, provavelmente.

Claro que não digo em 100%, digo de uma maioria. De qualquer forma, fica o alerta. Um país não se constrói só de paixão nacional. Tem muitas outras coisas aí que merecem entrar em pauta. E uma boa parte delas tem a ver com a Divulgação Científica. Isso, para que a bola não fique recuada no processo de crescimento do país.

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A Literatura de Cordel e a Leitura Científica

As possibilidades da Divulgação Científica são muitas. Algumas tradicionais, outras nem tanto. O fato é que em toda a possibilidade de comunicação há igualmente a possibilidade de divulgação científica. Simples assim. E como bem sabe o marketing e a publicidade, qualquer lugar pode vir a ser um suporte para as estratégias de ação. A mesma coisa se pode dizer da divulgação científica. A diferença é que esta última, em oposição ao marketing e a publicidade, ainda não está na boca do povo. Assume-se por uma distância e pelos esforços de aproximá-la do grande público, em luta de espaço contra o capital tomado pelas mídias de massa. Preferências de um mundo formado por gerações e mais gerações focadas no consumismo e na descartabilidade das coisas e das pessoas.

O instrumento da leitura, assim que adquirido, passa a ser inato ao ser humano, que lê de um tudo que lhe cai à frente: caixas de cereais, bulas de remédios, placas, propagandas, legendas de filmes, livros, notas de rodapé. E quanto maior o uso das letras, maior a incorporação da linguagem se faz para o dentro de cada um de nós. Também a música se faz de linguagem, e letra. E de olho nessa capacidade de comunicação, o marketing e a publicidade, nada bobos, fizeram uso dela através dos jingles, sempre presentes em comerciais de televisão e rádio, dois excelentes suportes para a divulgação científica. Do mais alto nível do uso da linguagem, com suas perfeições acadêmicas, ao mais popular e uso corriqueiro que dela se faz, específicos das tradições populares ou das tradições orais, como os cordéis, um tipo de poesia popular impressa em folhetos rústicos expostos para venda pendurados em cordas (ou cordéis), se faz comunicação e, portanto, divulgação científica.

A leitura científica permite a aproximação entre a população e a ciência. Propicia um aprofundamento de conceitos. Geralmente sugerem-se: a revista Ciência Hoje (publicação da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência), a revista eletrônica Café Orbital (publicação do Observatório Nacional), as revistas Scientific American e Scientific American Brasil (publicação da Editora Duetto), dentre outras como a Galileu (da Editora Globo), etc. Na ponta, os folhetos, o cordel, escritos em forma rimada e ilustrados com xilogravuras.

Nessa onda, o cordelista e presidente da Academia Brasileira de Literatura de Cordel, Gonçalo Ferreira da Silva, lançou sua coleção Ciência em Versos de Cordel (publicação da editora Rovelle). Autor de diversos títulos com a temática da ciência, Gonçalo teve esse seu trabalho minuciosamente selecionado para dar origem a 12 livros infantis usando a literatura de cordel como suporte. São eles: Corpos Celestes, Microbiologia, Naturalismo, Natureza, Saúde, Criação, Imprensa, Astronomia, Mecânica, Matemática, Pensamento e Filosofia. Clap! Clap! Um bom exemplo do uso da leitura, das tradições e dos valores regionais para divulgar conceitos da ciência.

E que tal recitar esses versos de forma melodiosa e cadenciada, acompanhados da viola? Os saraus agradecem, e o público também, afinal, conhecimento nunca é demais. Para você, uma boa leitura científica.

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Podem os vírus ter-nos tornado humanos? – Parte I

A questão começou por ser filosófica. Numa sessão da American Philosophical Society de 15 de Novembro de 2003, o virologista Luis P. Villarreal, director do Centro de Investigação em Vírus da Universidade da Califórnia em Irvine perguntava: «Can Viruses Make Us Human? A ciência tinha uma resposta objectiva. Não. Os vírus, que nem sequer seres vivos são considerados, são parasitas moleculares cujo interesse primordial consiste em induzir doenças no seu hospedeiro. Neste sentido, os vírus são qualquer coisa de maléfico. Veja-se o caso do VIH causador da SIDA que todos os anos ceifa milhares de vida em todo o mundo. Ou o vírus H1N1 que ameaçava dizimar populações inteiras. Ou ainda o temível vírus Ébola que nos filmes é-nos apresentado como uma espécie de assassino em série. Ou então o mais contido vírus da gripe sazonal que todos os anos faz com que milhões de pessoas passem os seus dias a espirrar. Para tornar tudo isto ainda mais grave, não há forma de os combater. Por conseguinte, como podem os vírus ter-nos tornado humanos? Não, para nós, o grande plano dos vírus sempre foi exterminar os humanos. Acontece que, além da objectividade pura não existir, a resposta da ciência a esta questão está profundamente afectada por uma subjectividade. Na verdade, alguns cientistas têm sido de tal modo convincentes que nós acreditámos sem qualquer resistência nos seus delírios. Estamos pois todos dentro ou fora da realidade, como acontece nos chamados delírios partilhados. Provavelmente, mais fora do que dentro. Talvez aqui a filosofia possa dar uma ajuda. Por exemplo, segundo Peirce, a realidade é tudo aquilo que nos provoca resistência. Quer isto dizer que se há qualquer coisa que cause resistência à nossa expectativa, então é provável que essa qualquer coisa seja real. A ciência é uma incessante busca pela realidade. E é escrita a lápis de carvão. Porque a ciência vive na eminência de ter de ser rescrita uma vez, e outra vez, e ainda mais outra. Aliás, a história da ciência é um livro rasurado em todas as suas páginas. O caso dos vírus é um exemplo bastante eloquente. Investigações recentes têm defraudado persistentemente as nossas expectativas. O que significa que, por certo, nos aproximamos cada vez mais da realidade.

Para hoje vejamos apenas o caso dos retrovírus endógenos. Em 2003 foi publicado um artigo muito interessante nos Proceedings of The National Academy of Sciences. Nele se falava sobre a capacidade que estes retrovírus apresentam na regulação do crescimento e diferenciação da placenta em ovelhas. Quer isto dizer que as ovelhas contém no seu genoma aproximadamente 20 cópias de um retrovírus endógeno altamente relacionado com o retrovírus exógeno e patogénico Jaagsiekte. Sendo endógeno e abudantemente expresso no tracto genital das ovelhas, ele não vai causar doença mas antes dar um contributo decisivo na morfogénese da placenta. E de tal forma que se for inactivado, então o desenvolvimento embrionário torna-se inviável. Ou seja, sem este vírus as ovelhas depressa deixavam de ser ovelhas.

Mas não se pense que isto é uma aberração da natureza sem qualquer significado. Na verdade, os retrovírus endógenos abundam nos genomas dos vertebrados, incluindo os humanos. Estima-se que 10% do nosso genoma contém sequências de origem retroviral muito diferentes entre si mas englobadas na denominação genérica de retrovírus endógenos humanos. E, espantem-se, pouco tempo depois de ter sido detectado nas ovelhas o tal retrovírus endógeno com funções na morfogénese da placenta, o mesmo retrovírus foi detectado por uma equipa de investigadores no útero de uma mulher justamete com as mesmas funções.

(continua)

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Por que Galileu não seria publicado na Nature (nem na Science).

Não há dúvidas de que Galileu é uma das figuras mais importantes da ciência moderna. Aqui mesmo neste blog não são poucos os textos sobre ele e, evidente, por razões mais do que justificadas.

Galileu é uma das figuras centrais da Revolução Científica. Fez contribuições importantíssimas para a mecânica e astronomia além de ser sido um artesão bastante competente. Mas Galileu vai além.

Representa para a ciência moderna o “espírito” do verdadeiro cientista. É tido como o questionador por excelência. O rebelde que desafiou costumes, leis e arriscou a própria vida em prol da defesa de um conhecimento científico que combatia o obscurantismo medieval. É, mais do que todos, o gigante que apoiou em seus ombros tantos outros gigantes.

É claro que quem estudou a história do matemático sabe que essa imagem heróica atribuída a ele é, antes de qualquer coisa, uma interpretação da figura histórica de Galileu. Ainda assim, é uma interpretação conveniente. Ainda que não seja verdadeira, transmite para os jovens iniciados na ciência o tipo de atitude que se espera deles.

Mas será que é isso mesmo que a ciência quer? Será que a ciência moderna premia seus “rebeldes”? Se Galileu estivesse vivo hoje, veria seus trabalhos publicados pela Science ou pela Nature?

O subversivo método científico.
Alexandre Koyré cunhou o termo Revolução Científica, assim mesmo em maiúsculas, pra se referir à mudança que ocorreu na forma como a ciência passou a ser conduzida no século XVII. Com efeito, é até difícil de chamar o que veio antes da Revolução Científica de ciência.

O fato é que houve uma mudança drástica, e uma das características dessa mudança foi o abandono do aristotelismo como metodologia. Isso significa que noções como a divisão do Universo em mundo sublunar e supralunar deixou de existir, assim também como toda a física aristotélica foi aos poucos sendo derrubada. Galileu era neste sentido um subversivo completo.

Mesmo o uso de seu famoso telescópio como ferramenta de investigação não era permitida pelos aristotélicos. Para eles, era preciso estudar a natureza sem inteferências e o telescópio era exatamente isso, um objeto que se colocava entre a natureza e seu observador.

O instrumento era, antes de qualquer coisa, considerado uma curiosidade. Para a maioria das pessoas que olhavam pelo telescópio, o que ele fazia era produzir uma ilusão que não tinha qualquer relação com a realidade. Poucos entenderam o valor do famoso objeto. Kepler foi talvez o mais importante, já que vem dele a teoria ótica que explicava com pormenores o funcionamento do telescópio. Em todo caso, os trabalhos em mecânica de Galileu são tão subversivos quanto o próprio telescópio.

Ao realizar experimentos para explicar fenomenos naturais, Galileu podia estar usando uma metodologia que é perfeitamente aceita hoje em dia, mas completamente incompatível com o aristotelismo da época. Ao considerar que as causas por trás dos fenomenos celestes eram as mesmas causas por trás dos fenomenos observados na Terra, Galileu só reafirmava sua subversão.

Quando obstruir virou sinônimo de comunicar.
Mas deixemos Galileu de lado só por um momento, em prol da lógica do argumento. O que se viu nos séculos seguintes à Revolução Científica foi o desenvolvimento brutal da prática científica. E uma das características chave nesse sentido foi a institucionalização da ciência e a comunicação de seus avanços.

Começamos com as leituras nas sociedades científicas, passamos para um modelo intermédio aonde a comunicação das novidades era feita nas sociedades e depois distribuídas por periódicos e chegamos aonde estamos hoje.

Embora ainda hoje tenhamos congressos e eventos equivalentes que de certa forma cumprem o mesmo papel da antiga “leitura na sociedade”, é certo que o principal meio de comunicação da ciência seja através da publicação em periódicos.

O problema é que esse modelo se consolidou antes do advento da internet. Foi preciso criar mecanismos de filtrar o que seria publicado, já que não era, e ainda não é, comercialmente possível publicar tudo o que era submetido aos periódicos.

Podemos achar que o filtro criado é o processo de revisão por pares, mas o fato é que pelo menos para a Nature, isso não é bem verdade. O processo de peer review é secundário no que diz respeito ao que vai ser publicado neste periódico, como eles deixam bem claro em sua página na internet:

“O julgamento sobre quais artigos interessam para um público mais geral é feito pelos editores da Nature, não pelos referees.”

Em outras palavras, os editores da Nature julgam que tipo de artigos devem atrair um público mais generalizado, e não os representantes da comunidade científica. O que me faz questionar como é que a Nature se transformou em um dos periódicos mais importantes para a comunidade…

É claro que se pode argumentar que os editores da Nature são também cientistas, embora eu não tenha encontrado essa informação no site da revista. O caso é que o peso da decisão sobre qual artigo deve ser publicado parece ser mais mercadológico do que pelo interesse da comunidade.

Um caso emblemático neste sentido foi a publicação do artigo sobre clonagem humana na Science de junho de 2007. A despeito do alegado rigor com que estes periódicos alegam tratar o conteúdo a ser publicado, o artigo fraudulento foi publicado com grande pompa e anúncio em todos os meios de comunicação.

Posteriormente a culpa recaiu sobre o sistema de revisão por pares, mas é de se questionar se a culpa foi exclusivamente dos referres como ficou sugerido. O fato é que criou-se uma economia aonde a autoridade e importância do periódico esta relacionada com a quantidade de artigos que ele rejeita, e não na qualidade dos artigos que ele publica.

O curioso é notar que segundo este artigo publicado na PLoS, a maior parte dos artigos são rejeitados por falta de espaço para publicação. Ainda assim, tanto a Nature quanto a Science propagandeiam os altos índices de rejeição como resultado de sua seleção rigorosa, ainda que o peer review esteja claramente em segundo plano.

A ciência moderna segue assim nessa situação. Embora a comunicação seja um dos pilares fundamentais do processo de desenvolvimento da ciência, o que vemos é a dificuldade em ter acesso ao conteúdo submetido aos periódicos. Seja pela não publicação de artigos por questões mercadológicas nas versões impressas, seja pela obrigatoriedade de pagamento de taxas altíssimas para acesso das versões digitais.

Por que Galileu não seria publicado na Nature (nem na Science).
Mas voltemos a Galileu. Afinal, Galileu estivesse vivo hoje e o carater de seu trabalho tivesse o mesmo significado que teve em sua época, seria ele publicado em algum periódico? Sou obrigado a concluir que não.

Galileu rompeu com a tradição metodológica da época e seus trabalhos só são considerados importantes por que toda a ciência criada nos séculos após o matemático seguiu pelo mesmo caminho que ele.

Se fosse vivo hoje e trabalhasse com uma metodologia completamente diferente da que estamos acostumados, Galileu sequer seria considerado para publicação, seja por falta de espaço, seja por não poder passar pelo processo de revisão por pares.

No final das contas, nossa ciência que tanto diz gostar de ser desafiada e questionada, que elege como heróis homens que eram rebeldes metodológicos, dificilmente vai aceitar com alegria um Galileu moderno, um Kepler do século XXI.

Mesmo com essa constatação talvez pessimista, gosto de pensar que temos uma oportunidade de ouro hoje em dia. A web 2.0 pode mudar completamente a forma como a ciência se comunica e talvez permitir que a nova geração de cientistas possa ser um pouco mais rebelde.

Acredito que estamos em um ponto aonde o sistema de publicação e revisão por pares vai inevitavelmente sofrer alterações drásticas. O quão interessante seria poder ver um artigo que não fosse um conteúdo estático, preso à sua data de publicação?

Um artigo de conteúdo dinâmico, que pudesse ser melhorado gradativamente com o passar dos anos e por meio de uma revisão por pares à posteriori? Uma revisão por pares que não fosse levada a cabo por um pequeno colégio de especialistas, mas por toda a comunidade interessada?

Um artigo deste tipo não precisaria ser absolutamente rejeitado. Poderia ser aceito pela comunidade como um “projeto em andamento”, sendo pouco a pouco delapidado e transformado, mais ou menos como no desenvolvimento de softwares de código aberto que temos hoje.

Posso apenas imaginar esse tipo de mudança, nunca prever. Mas em minha opinião uma coisa é certa, ou mudamos nossa forma de comunicar e validar a ciência, ou corremos o risco de ignorarmos de forma injusta o nosso próximo Galileu.

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Com o coração do lado direito

Há dias, estava eu a tentar por ordem nas dezenas de ficheiros que flutuam no ambiente de trabalho do meu notebook, quando de repente me salta aos olhos um artigo sobre competição espermática. Ah, os espermatozóides! Lembrei-me logo de uma história que eu costumo sempre contar quando pretendo mostrar a alguém como a lógica da vida nos prega uma valente rasteira de cada vez que julgamos saber tudo. 

Woddy Allen

Os espermatozóides, como todos sabem, têm uma cauda. E é precisamente essa cauda que lhes permite moverem-se com todo aquele vigor olímpico merecedor de uma ode pítica. Os biólogos chamam-lhe flagelo. A sua construção inicia-se com uma proteína chamada tubulina, que se organiza em longas estruturas tubulares, formando microtúbulos, que por sua vez se organizam em pares e se dispõem em círculo. Entre cada par, uma outra proteína chamada dineína põe ordem no sítio. Surge então o flagelo em todo o seu esplendor. Mas os espermatozóides não têm o exclusivo comercial destas estruturas. Os cílios, por exemplo, estruturalmente semelhantes aos flagelos mas mais curtos, batem aos molhos no nosso tubo respiratório, com a função de escoarem o muco e de filtrar e aquecer o ar inspirado. Os lagos e os mares estão cheios de microorganismos feitos de uma célula só rodeada por eficientes cílios e flagelos que lhes permitem mover-se de um lado para o outro. Os flagelos e os cílios são uma espécie de invenção mirabilis da Natureza. Mas como não há bela sem senão, é por causa deles que algumas pessoas têm o coração do lado direito. Pois. Do lado direito.

Como dizia há pouco, a dineína é a proteína que põe ordem no sítio e, mais importante ainda, gera a força mecânica necessária ao movimento dos cílios e dos flagelos. O que significa que, quando há uma falha na sua produção, instala-se um verdadeiro caos. Os flagelos e os cílios não batem e, por conseguinte, as células não podem cumprir a sua missão. A desordem instala-se. E se os espermatozóides não nadam então os homens afectados são estéreis. E se os cílios do tubo respiratório não batem então surgem as bronquites recorrentes e as sinusites e otites crónicas e aqueles narizes sistematicamente atolados em ranhoca e cheios de pólipos no seu interior. E se os flagelos e os cílios não batem então o coração fica do lado direito. Cinquenta por cento dos indivíduos que sofrem de síndrome da imotilidade ciliar sofre também de situs inversus com dextrocardia. Quer isto dizer que a assimetria corporal, definida pelas posições descentradas de órgãos ímpares como o coração, o intestino, o fígado e o apêndice, se encontra invertida e dá origem a pessoas simétricas das pessoas normais. É como se a imagem do espelho tomasse vida. Os que padecem conjuntamente dos três problemas, espermatozóides imóveis, cílios imóveis e situs inversus, dizem-se afectados pela síndrome de Kartagener, um subgrupo da síndrome da imotilidade ciliar. Kartagener porque foi precisamente este senhor que em 1933 fez com que este síndrome passa-se a letra impressa nos livros de medicina.

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Uma nota breve sobre a adaptação das espécies II

Mas afinal o que é que faz com que haja tanta variedade? Para os neodarwinistas, essa variedade resulta fundamentalmente das mutações e da recombinação génica. Mas há um outro mecanismo de produção da variação que é a simbiose e a transferência horizontal de genes. Por exemplo, quando começámos a sequenciar o genoma humano, ficámos surpreendidos pela quantidade de DNA que aparentemente não tinha qualquer utilidade. Era referido como junk DNA. Hoje sabemos que esse lixo é afinal informação genética de vírus e bactérias que a determinada altura integraram o genoma humano. Por exemplo, porque razão a nossa flora intestinal se mantém ordenadamente dentro de certos parâmetros fisiológicos e apenas com aquelas variedades de bactérias? Certamente porque houve transferência horizontal de genes. Um outro exemplo bastante paradigmático é o caso da lesma Elysia chlorotica que ao alimentar-se da alga Vaucheria litorea tem a capacidade de incorporar no seu epitélio intestinal os cloroplastos desta, e apenas desta, alga, mantendo-os viáveis por um período de cerca de 8 meses. No final desse período, ingere e integra novos cloroplastos. Ora, para isto acontecer, teve que haver uma transferência horizontal de genes por forma a que esses cloroplastos se mantenham viáveis. Na verdade, foram identificados no genoma da E.chlorotica genes – por exemplo, rbcL, rbcS, psaB, psbA – da alga V.litorea que possibilitam que haja uma tradução e transcrição activa de genes cloropastidiais dentro do animal hospedeiro. O que é, digamos assim, algo de absolutamente surpreendente. Por conseguinte, mutações, recombinação génica e simbiose são os grandes produtores de variedade contribuindo assim para uma maior possibilidade de adaptação por parte das espécies aos múltiplos desafios ecológicos.  

Será que é mesmo assim? Dawkins dirá que sim, que somos escravos de genes egoístas. Mas o conceito de adaptação também pode ser discutido noutra dimensão. Eu comecei por dizer que a adaptação é apenas aparente, o que na verdade acontece é que é a diversidade de características que possibilita a adaptação. No entanto, há casos em que a adaptação é comportamental e até mesmo cultural e tecnológica. Por exemplo, o engarrafamento do oxigénio permitiu-nos explorar novos mundos. Ou então coisas tão simples como a invenção de fatos térmicos que nos permitem aguentar temperaturas negativas que em condições normais seriam fatais. Até mesmo nas relações sociais nós desenvolvemos estratégias comportamentais de adaptação. E não se pense que isto é um exclusivo dos humanos. Muitos outros animais desenvolvem estratégias comportamentais, muitas delas adquiridas pela transmissão cultural. Por exemplo, os chimpanzés que fabricam instrumentos, as garças de Trinidad que usam um isco para capturaram peixes na superfície do lago, o abutre do Egipto que recorre a pedras para quebrar a casca dos ovos capturados, estorninhos que se esfregam com formigas porque o ácido fórmico elimina os parasitas, etc. Ou seja, a adaptação não é exclusivamente genética, isto é, ao nível dos genes, mas é também cultural.

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Uma nota breve sobre a adaptação das espécies I

É frequente dizer-se que as espécies se adaptam. Por exemplo, mamíferos como os golfinhos, adaptaram-se às circunstâncias da vida marinha. Os bicos dos tentilhões das Galápagos adaptaram-se às características peculiares de cada uma das ilhas. Os membros do morcego adaptaram-se ao voo. Em teoria, perante os novos cenários climáticos é provável que muitas espécies se adaptem às novas circunstâncias ecológicas. É provável que o urso polar reduza a espessura da sua camada de gordura, ou então que as orelhas dos elefantes se tornem maiores para uma mais eficaz dissipação do calor. A adaptação das espécies é para nós quase uma banalidade. Em diferentes contextos, as espécies adaptam-se. Ponto final.

A adaptação das espécies é pensada ao jeito lamarckiano, isto é, a adaptação das espécies é vista como um esforço intencional de conformar a sua morfologia e a sua fisiologia a um determinado contexto. Como se a adaptação fosse uma resposta a um estímulo do meio envolvente. Quando, na verdade, ela é espontânea. Por exemplo, a girafa bem pode esticar o pescoço que ele não vai crescer mais por isso. A possibilidade de adaptação está na diversidade genética. Fazendo referência a um exemplo clássico, não é pelo facto de a poluição industrial ter enegrecido os troncos que fez com que a espécie Biston betularia se tornasse de repente de cor escura. Não, o que aconteceu foi que essa possibilidade de adaptação já existia. Traças de cor escura já existiam na população embora  em muito menor número. No entanto, a nossa interpretação vai no sentido de achar que aquela espécie fez um esforço estoico para sobreviver.

Adaptar significa qualquer coisa como “tornar apto”. Neste sentido, quando se diz que uma espécie se adapta, então estamos a dizer que uma espécie está a tornar-se apta. E, como nos ensinou Darwin, apenas os mais aptos são seleccionados, sobrevivem e se reproduzem. No entanto, aqui o verbo “tornar” alude à ideia de “mudar para”. Ou seja, as espécies ao adaptarem-se, estão ao fim e ao cabo a mudar para uma condição que as torne mais aptas naquele contexto. E essa condição agora pode ser morfológica ou fisiológica ou até comportamental. E no entanto, fica a ilusão que essa adaptação é intencional e em resposta a um estímulo quando na verdade ela é casual e estritamente espontânea.

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Ciência e a utopia da imortalidade

Escrito muito antes da Ilíada e da Odisseia, a Epopeia de Gilgamesh conta-nos a história de um homem que toma a consciência de si próprio e descobre o medo da morte através da perda trágica daquele que ama, levando-o a iniciar uma busca desperada pela imortalidade. Depois de ter falhado todas as tentativas, sobretudo devido à impossibilidade de dominar o tempo, o homem regressa à cidade de Uruk, onde toma a decisão de escrever a sua epopeia, mesmo sem se aperceber que ao fazê-lo está a imortalizar a sua memória, que é a única que nos convém e que nos é possível. Em certo sentido vai ser este o corolário lógico das epopeias modernas na busca por uma imortalidade. Já esquecido do que o levou a ter vontade de viver para sempre, o homem moderno, digamos assim, procura materializar os seus sentimentos de terror e de perda, transformando-os em obstáculos transponíveis pela técnica. A manipulação genética, e todas as suas derivações mais ou menos sofisticadas, surge assim como uma espécie de epifenómeno de uma doença que, precisamente por ter momentos felizes, é levada a esquecer-se de si.

O espinho essencial de ser consciente
É normal que não estejamos atentos à vida porque habitualmente estamos entretidos com o que ela nos oferece. A vida tem manha. Distrai-nos com muitos problemas para que ela própria não se torne num problema. A vida tem um aspecto doentio. Que a vida é uma frenética correria para a morte é o seu sintoma mais óbvio. Aliás, correria essa que nega o sintoma precisamente porque acha que a morte está no fim da vida, quando na verdade a vida gasta-se e consome-se. A morte é então encarada como um abismo e enquanto assim for, a vida será sempre uma piada sem graça. Uma correria sem sentido mas com a aparência de sentido. Uma ilusão de haver mais qualquer coisa à nossa frente mas insconscientes do simples facto de estarmos vivos. A lucidez perante a vida, ou como dizia Álvaro de Campos, «o espinho essencial de ser consciente, a vaga náusea, a doença incerta, de me sentir», arrastaria consigo a angústia. Salva-nos a miopia de não nos enxergarmos com clareza. Salva-nos também os estratagemas hábeis que vamos impregnando no nosso modo de viver por forma que tudo isto não se transforme numa mais ou menos lenta agonia.

A ideia de imortalidade enquanto estratagema que nos distrai da vida
A ideia de imortalidade, ou melhor, a vontade de viver para sempre, surge então como uma utopia edificante cujo representante mais eloquente é o cristianismo. A matriz é universal. Há sempre alguém a mandar os outros fazer qualquer coisa em troca da vida eterna. Quando na verdade o embuste é evidente. Um pouco como no tempo em que diziam aos judeus que iam tomar banho, e lhes pediam inclusivé que decorassem o número do cabide onde tinham pendurado as suas roupas, quando na verdade, sem saberem, estavam voluntariamente a entrar numa câmara de gás. A promessa de vida eterna, ou até de um simples banho, são assim estratagemas que nos permitem acordar, viver e dormir tranquilos sem pensar nisso.

Porque o desespero paralisar-nos-ia por completo.A parábola do jardim do Éden é exemplar da necessidade que o homem tem em dominar o tempo. Porque ser imortal é precisamente isso, é exercer um domínio autoritário e totalitário sobre o tempo. É manipulá-lo ao seu jeito. É jogar com ele mas tomando como certeza que no final ele acaba sempre por perder. Nesse jardim havia duas árvores – a árvore da ciência do bem e do mal, e a árvore da vida. Da primeira o homem comeu o fruto e por isso foi expulso do jardim, que é agora guardado por querubins armados de espada flamejante para que o homem não se aproprie também da árvore da vida. Porque a imortalidade só pode ser alcançada pela redenção. E não uma imortalidade do corpo mas sim da alma. Aliás, uma imortalidade da alma que se faz à custa da mortalidade do corpo. O que, no imediato, quer dizer que esta vida que temos, feita de carne e osso, e que é única, não tem qualquer valor.

A vontade de viver para sempre resulta assim de uma inquetação humana profunda: a consciência de si. Esta consciência é como um espinho profundamente entranhado e que nos causa uma dor persistente e aguda. Aliás, uma dor que nos faz suplicar pelo seu fim. A dor é em grande parte dos casos o limite. E um limite que pode levar ao suicídio como um acto de desespero mas também de sobrevivência. Quando se quer a verdade, tortura-se, provoca-se dor. Ninguém a suporta. Ninguém a quer. Todos a evitam. Estar doente é ter dor. Quando dói queremos que essa dor termine o mais rapidamente possível. A imortalidade surge assim na forma de promessa. Na verdade, ela funciona como um potente analgésico. Elimina a dor.

Ciência e a promessa de imortalidade
Vivemos hoje tempos difíceis. Diz-se por aqui à boca cheia que as sociedades ocidentais vivem tempos de descrença. Não um tempo em que os homens não acreditam num deus, mas antes um tempo em que os homens deixaram simplesmente de acreditar. Seria então de esperar que, em consequência desta descrença, em grande parte devido a uma inesperada lucidez perante a corrupção dos valores dentro da própria Igreja, os homens caissem numa situação de uma angustiante solidão espiritual. Mas não é bem assim. É claro que tudo isto teve consequências. O capitalismo é necessariamente uma sociedade de violência, que corrompe as pessoas e as torna violentas. E uma violência que não é apenas física mas também, e sobretudo, psicológica, evidenciada naquilo que o filósofo León Rozitchner define como uma «violência normal», aquela que resulta da «vontade dos outros».

Porém, o homem moderno é incapaz de viver no vazio existencial. O sentido da vida é algo que lhe é ontológico e do qual depende como de pão para a boca se tratasse. Surpreendentemente, ou não, a ciência tem vindo a assumir esse papel. Com as suas promessas de cura e de alívio da dor, e sobretudo de imortalidade, a ciência, tal e qual a conhecemos hoje, tem vindo a assumir o aspecto de uma crença. Começou com o milagre dos antibióticos que iriam de uma vez por todas livrar-nos das doenças terríveis que ceifavam massivamente as vidas alheias. Começou com a penicilina, depois a estreptomicina. Vieram depois os anti-maláricos, os anti-depressivos, os anti-inflamatórios, os anti-piréticos, sempre os anti-qualquer coisa. O caso da raiva é eloquente da forma como uma descoberta científica pode santificar o seu descobridor. Louis Pasteur viveu num tempo em que a raiva matava milhares de pessoas. A Europa viva com muito medo de algo que não sabia combater. E ninguém suporta viver com tanto medo.

Neste contexto, a descoberta da cura para a raiva surgiu assim como uma espécie de milagre. Em todos os casos, o corolário era o mesmo. Íamos deixar de estar doentes. E se íamos deixar de estar doentes, então isso significava que íamos viver para sempre. Hoje, as promessas de cura são agora sintetizadas em fórmulas mais sofisticadas próprias do nosso tempo como seja a manipulação genética, a clonagem terapêutica de células estaminais ou a cirurgia fetal, ou ainda o advento da biónica, berradas todos os dias na televisão e nos jornais.

Nalguns casos estas promessas surgem disfarçadas de artigos científicos publicados em revistas altamente credíveis. O efeito mais imediato é que as pessoas passam a acreditar na ciência porque ela é a solução para todos os nossos problemas. Não interessa que mais de cinquenta anos depois ainda não tenhamos descoberto a cura para a SIDA. O que interessa é a promessa. Porque é ela que nos acalma a nossa dor e nos permite viver uma vida sem angústia. Os cientistas prometem que dentro de algum tempo vamos ser imortais.

E apesar da ideia ser entusiasmante, sobretudo porque confere ao cientista um poder imenso, ela não passa de uma mentira. Não sabemos tudo nem nunca vamos saber tudo. Porque a natureza é um alvo em movimento. Porque a natureza está constantemente a desafiar-nos. Ela resiste (veja-se o caso da resistência aos antibióticos, assunto cada vez mais sério). Ela resiste sempre.

Em 2006, a revista científica Nature publicou um artigo do biólogo franco-croata Miroslav Radman onde se descrevia o mecanismo de ressurreição da bactéria Deinococcus radiodurans que mesmo depois de morta é capaz de voltar à vida em poucas horas. E isto graças à capacidade genial e única de regenerar o seu material genético mesmo quando este se encontra fragmentado. Logo depois da publicação deste artigo, o senhor foi entrevistado por múltiplos órgãos de comunicação social, sempre tendo como epíteto que agora é que a medicina regenerativa ia vingar e que este era apenas o primeiro passo para a reconstituição neuronal e cardíaca e, claro está, para a imortalidade dos humanos.

Numa entrevista ao jornal La Nacion, este mesmo senhor esgrima argumentos, cria cenários, repete até à exaustão que tudo é possível, mas sobretudo faz promessas. E promessas com destinatários muito específicos. Porque não é ingenuamente que surge no meio de tudo isto a palavra ressurreição.

Aliás, é estratégico. Ainda na mesma entrevista, quando o jornalista o questiona se o instituto que acaba de fundar – Instituto Mediterrânico para as Ciências da Vida - irá trabalhar na ressurreição humana, o senhor responde que pediu inclusivé um financiamento ao Vaticano para trabalhar sobre a base molecular da ressurreição. Ora, estas patetices, que enchem as pessoas de expectativas, não passam de estratégias com vista a impressionar potenciais investidores. Além do mais, isto está de tal modo enviesado que ninguém é capaz de debater estas questões de um modo sério. Nestes tempos ndamos assim. De um lado, prometem a imortalidade daqui a não sei quantos anos. Do outro lado, por causa do aquecimento global e da predação assaz dos ecossistemas, anunciam o fim do mundo também daqui a não sei quantos anos. Ai eu!

O processo de santificação da ciência é uma ilusão perigosa. Como dizia François Jacob, «nada é mais perigoso do que a certeza de se ter razão». Porque com ela se pode manipular muito para além de gâmetas ou embriões. Pode-se inclusivamente manipular sociedades e implementar vontades. E ganhar muito dinheiro. Ou já se esqueceram dos tempos em que a ciência era usada com fins sociais absolutamente perniciosos? Lembram-se dos pressupostos da eugenia? Eu não me esqueço. E a gente não se pode esquecer. Porque se nos esquecermos disto, se aceitarmos tudo isto com uma passividade crítica própria de um homem térmita, se deixarmos que a ciência seja abusivamente mostrada ao grande público como uma espécie de Boa Nova, então será o fim da ciência. É por isso que hoje, agora, já, é urgente que se advirta as pessoas para não acreditarem em tudo aquilo que lêem ou que ouvem. Até mesmo quando é escrito ou dito por cientistas.

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A Letra Corrida da Divulgação Científica

É fato existir uma competição científica mundo afora. O laboratório de lá distante do laboratório de cá. Mais vezes uns contra os outros do que todos em prol da ciência. E isso é um paradoxo, uma dialética marxista. No limite, o monopólio químico-farmacológico das descobertas científicas reflete um capitalismo contemporâneo. Uns lutam para serem melhores que os outros. E os estímulos nacionais e mundiais aparecem: Olimpíadas de ciências, de tecnologia, de engenharia e matemática. Por aí afora, qual é a letra da Divulgação Científica?

Por certo que, dentro do contexto, é letra corrida, e armamentista. Letra de capacitações, sistemáticas e feitas para gerarem lucro. Como se as manchetes dos jornais competissem entre si, pelas melhores descobertas, pelo furo, pelo apelo da ciência e, em comum, a esperança de cura para a humanidade. E isso é um paradoxo, uma dialética marxista. E a briga continua entre as ciências naturais e humanas, todas buscando seu lugar ao sol, buscando o estado de dentro, sua tradução em palavras para que chegue até o receptor mais longínquo. Aquele bóia fria que não sabe ler, que vive da tradição oral. Uma metáfora para lembrar que letra não é apenas escrita, posta em papel, mas que há um conjunto de recursos, e são amplos, a disposição da Divulgação Científica.

História oral é letra popular. Independe de ser cursiva, de forma, caixa alta, digital. Letra é signo. É símbolo. É um corpo mudo que pode ser ouvido por alguém. E é aí que entra a ciência, e suas metodologias, para dar forma ao que não se ouve, não se vê com olhos comuns, não se encontra nos paradoxos. É letra corrida, que vai daqui para ali, e dali para acolá. Como os causos, os mitos, as lendas das tradições orais. Quanto de ciência não está dentro delas? Alguém duvida?

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O outro lado da moeda – um preâmbulo

E se um dia você for fazer um plano de saúde e a atendente, muito graciosamente, te disser: “Sinto muito senhor, mas nossa empresa não se interessa em fazer um plano para você. Aquela amostra de sangue que recolhemos do senhor na semana passada acusou que você tem um gene que causa câncer. Não podemos arcar com esses prejuízos. Tenha um bom dia!”.

E se um dia você for matricular seu filho na escola e a secretária disser: “Olha…eu sei que seu filho tem apenas 5 anos de idade, mas acontece que ele tem o gene da agressividade. Não queremos alunos violentos em nossa escola. Sinto muito, não poderemos fazer a matrícula do seu filho, mas posso te passar o nome de algumas escolas que aceitam margin…digo, crianças com esse gene”.

Absurdo demais? Talvez nem tanto. Na verdade, não falta muito para chegarmos lá. Tudo o que falta, aliás, é a certeza absoluta de que o sujeito vai mesmo desenvolver câncer e de que o moleque vai mesmo ser violento – o resto a ambição e a cretinice humana dão conta de fazer. Cientistas não muito gente boa estão trabalhando para que isso aconteça, enquanto nós ficamos aqui, no escuro.

Na área da genética, há um esforço muito grande para tentar associar genes com funções. “Esse gene serve para fazer isso, aquele gene para fazer aquilo, etc.” Muitas vezes, dá certo, e promessas empolgantes são feitas. Terapias e vacinas gênicas são apenas um exemplo. Especulam até que num futuro não tão distante poderemos escolher um conjunto de características, levar no laboratório e esperar nove meses para ter um filho do jeitinho que a gente quer. Mas tem vários tipos de interesses políticos e econômicos por trás dessas coisas; sempre tem. E as coisas nunca são tão simples quanto parecem, e é aí, exatamente nesse ponto (entre milhares de outros), que a Filosofia da Ciência e o pensamento crítico fazem falta ao cidadão.

Na escola todo mundo aprende que “Fenótipo = Genótipo + Meio Ambiente”, mas ninguém para pra pensar o que isso significa. Saber que pintar o cabelo de loiro muda o fenótipo, mas não o genótipo, passa longe de ser suficiente. Estão usando a Ciência pra defender os interesses de uma minoria, e ninguém está percebendo.

A Ciência pode e deve ser questionada. É assim que ela progride, por sinal. Mas isso é um segredinho que, infelizmente, só os cientistas sabem, e enquanto o conhecimento científico for visto como dogmático, as pessoas vão continuar acreditando em “contos de fadas científicos”, e o estrago pode ser muito, muito grande.

Desconfie da Ciência. Isso será muito bom pra você, pra sociedade e pra Ciência também.

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