A Letra Corrida da Divulgação Científica

É fato existir uma competição científica mundo afora. O laboratório de lá distante do laboratório de cá. Mais vezes uns contra os outros do que todos em prol da ciência. E isso é um paradoxo, uma dialética marxista. No limite, o monopólio químico-farmacológico das descobertas científicas reflete um capitalismo contemporâneo. Uns lutam para serem melhores que os outros. E os estímulos nacionais e mundiais aparecem: Olimpíadas de ciências, de tecnologia, de engenharia e matemática. Por aí afora, qual é a letra da Divulgação Científica?

Por certo que, dentro do contexto, é letra corrida, e armamentista. Letra de capacitações, sistemáticas e feitas para gerarem lucro. Como se as manchetes dos jornais competissem entre si, pelas melhores descobertas, pelo furo, pelo apelo da ciência e, em comum, a esperança de cura para a humanidade. E isso é um paradoxo, uma dialética marxista. E a briga continua entre as ciências naturais e humanas, todas buscando seu lugar ao sol, buscando o estado de dentro, sua tradução em palavras para que chegue até o receptor mais longínquo. Aquele bóia fria que não sabe ler, que vive da tradição oral. Uma metáfora para lembrar que letra não é apenas escrita, posta em papel, mas que há um conjunto de recursos, e são amplos, a disposição da Divulgação Científica.

História oral é letra popular. Independe de ser cursiva, de forma, caixa alta, digital. Letra é signo. É símbolo. É um corpo mudo que pode ser ouvido por alguém. E é aí que entra a ciência, e suas metodologias, para dar forma ao que não se ouve, não se vê com olhos comuns, não se encontra nos paradoxos. É letra corrida, que vai daqui para ali, e dali para acolá. Como os causos, os mitos, as lendas das tradições orais. Quanto de ciência não está dentro delas? Alguém duvida?

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O outro lado da moeda – um preâmbulo

E se um dia você for fazer um plano de saúde e a atendente, muito graciosamente, te disser: “Sinto muito senhor, mas nossa empresa não se interessa em fazer um plano para você. Aquela amostra de sangue que recolhemos do senhor na semana passada acusou que você tem um gene que causa câncer. Não podemos arcar com esses prejuízos. Tenha um bom dia!”.

E se um dia você for matricular seu filho na escola e a secretária disser: “Olha…eu sei que seu filho tem apenas 5 anos de idade, mas acontece que ele tem o gene da agressividade. Não queremos alunos violentos em nossa escola. Sinto muito, não poderemos fazer a matrícula do seu filho, mas posso te passar o nome de algumas escolas que aceitam margin…digo, crianças com esse gene”.

Absurdo demais? Talvez nem tanto. Na verdade, não falta muito para chegarmos lá. Tudo o que falta, aliás, é a certeza absoluta de que o sujeito vai mesmo desenvolver câncer e de que o moleque vai mesmo ser violento – o resto a ambição e a cretinice humana dão conta de fazer. Cientistas não muito gente boa estão trabalhando para que isso aconteça, enquanto nós ficamos aqui, no escuro.

Na área da genética, há um esforço muito grande para tentar associar genes com funções. “Esse gene serve para fazer isso, aquele gene para fazer aquilo, etc.” Muitas vezes, dá certo, e promessas empolgantes são feitas. Terapias e vacinas gênicas são apenas um exemplo. Especulam até que num futuro não tão distante poderemos escolher um conjunto de características, levar no laboratório e esperar nove meses para ter um filho do jeitinho que a gente quer. Mas tem vários tipos de interesses políticos e econômicos por trás dessas coisas; sempre tem. E as coisas nunca são tão simples quanto parecem, e é aí, exatamente nesse ponto (entre milhares de outros), que a Filosofia da Ciência e o pensamento crítico fazem falta ao cidadão.

Na escola todo mundo aprende que “Fenótipo = Genótipo + Meio Ambiente”, mas ninguém para pra pensar o que isso significa. Saber que pintar o cabelo de loiro muda o fenótipo, mas não o genótipo, passa longe de ser suficiente. Estão usando a Ciência pra defender os interesses de uma minoria, e ninguém está percebendo.

A Ciência pode e deve ser questionada. É assim que ela progride, por sinal. Mas isso é um segredinho que, infelizmente, só os cientistas sabem, e enquanto o conhecimento científico for visto como dogmático, as pessoas vão continuar acreditando em “contos de fadas científicos”, e o estrago pode ser muito, muito grande.

Desconfie da Ciência. Isso será muito bom pra você, pra sociedade e pra Ciência também.

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O ringue oculto dos cientistas e a falsa democracia

Atualmente aclamamos a democracia como a melhor forma de governo para as sociedades humanas, e não olhamos com bons olhos aqueles que defendem ditaduras ou monarquias. De fato, já que o governo deveria atender os interesses do povo, nada melhor, na teoria, do que um regime governamental em que os cidadãos tenham voz e participação nas decisões, não só podendo elecroger seus representantes, mas também reivindicando que esses governantes garantam a melhor qualidade de vida possível para a população. A democracia, entretanto, tem um pequeno viés: depender, por assim dizer, da participação popular. E se o povo for passivo, acrítico e não se interessar por participar das decisões políticas de sua cidade/estado/país? Se isso ocorrer, a democracia pode se aproximar dos temidos regimes ditatoriais, já que as decisões tomadas pelos governantes não serão questionadas e não haverá resistência por parte da população. Dessa forma, para o bom funcionamento da democracia é fundamental que os cidadãos sejam impelidos e incentivados a serem participativos na sociedade. A conscientização da importância de participar deve ocorrer, entre outros lugares, na escola – o que está, inclusive, previsto por lei.

O leitor deve estar pensando “Tá… Muito bonito, mas o que isso tem a ver com Ciência?” Peço calma aos senhores! Há uma relação bastante direta, embora pouco óbvia, entre o bom funcionamento do regime democrático e o entendimento adequado da natureza da Ciência. Chegaremos lá.

Como sabemos, a Ciência é uma construção histórica. Longe de ser neutra e pacífica, a Ciência é permeada por conflitos de diversas naturezas. A Ciência pode conflitar com os interesses e crenças da sociedade (como exemplo, podemos citar o alvoroço causado quando Darwin apresentou sua Teoria da Evolução por seleção natural) e tem, claro, seus embates internos. Os conflitos internos ocorrem em diversos níveis. Um deles é o embate de idéias entre os cientistas, que ocorre intensamente, dia após dia, paper após paper, por causa das diversas interpretações possíveis que um mesmo conjunto de dados pode ter. Às vezes esses conflitos de idéias geram grandes mudanças de paradigma na Ciência, como Kuhn entenderia. Outra forma de conflito na Ciência – uma forma um pouco mais velada, que os cientistas não gostam muito de admitir – é o conflito entre as áreas do conhecimento ou entre cientistas individuais por prestígio. A vontade de trazer cientistas capacitados para sua área de pesquisa ao invés de outras, ou a pretensão de persuadir a comunidade científica de que determinado ponto de vista é mais adequado pode ser um grande aditivo motivacional para os cientistas que, nesses casos, vêem os outros cientistas como “competidores” que devem ser ultrapassados. Não podemos esquecer ainda dos caminhos metodológicos, que estão sempre em constante discussão. Definitivamente, “consensual” não é um dos adjetivos que se pode dar à Ciência.

O ponto principal é que todas essas formas de conflito, longe de constituírem “pontos fracos” que devem ser evitados, são a força motriz da Ciência. É esse interminável embate de idéias e de interesses que faz a Ciência progredir. Tire o conflito da Ciência e tenha uma Ciência estagnada, imóvel, que não se desenvolve – uma Ciência que beira a inutilidade.

A centralidade do conflito para o desenvolvimento da Ciência (não esqueçamos que o conflito também é central para o desenvolvimento da sociedade, como observaria qualquer historiador razoável – “A história do homem é a história da luta de classes”, como diria um historiador bastante razoável) é um fato, e um fato que não deveria ser escondido de ninguém. Entretanto, a Ciência que é apresentada aos alunos nas escolas é bem diferente dessa Ciência conflituosa da qual acabamos de falar, e isso pode ter conseqüências que vão muito além dos muros da escola.

A Ciência escolar de hoje deixaria August Comte (“o pai do Positivismo”) muito orgulhoso, pois mostra a Ciência como neutra, objetiva e livre de quaisquer tipos de pré-conceitos por parte dos cientistas. Nunca é mostrado que existem posições diferentes na Ciência ou, quando é, são apresentados critérios “objetivos” que sempre convencem os cientistas de que um lado está correto e o outro não está. Essa teoria consensual de Ciência que é apresentada aos estudantes os impede de perceber como as discordâncias e as controvérsias são elementos importantes para a construção de conhecimento.

Essa ocultação da importância do conflito força os alunos a interiorizar a perigosíssima noção de que o conflito é algo ruim. Essa concepção falaciosa é reforçada pelo currículo das outras disciplinas e pela organização da escola como um todo, e o resultado da exposição covarde dos alunos por anos a fio a esse ideário tendencioso só pode ser um: uma escola que forma alunos (cidadãos!) que acham que o conflito é algo que deve ser evitado para que a sociedade prospere. Em outras palavras, o não entendimento de que a Ciência progride pelo conflito pode contribuir para a formação de cidadãos passivos e acríticos, com ares de quietismo político e aceitação.

Ora, acabamos de comentar que o bom funcionamento de democracia depende da participação popular. Se a escola forma cidadãos que pensam que a sociedade progride por meio da “paz” (entendida como ausência de conflito), então podemos prever que a democracia não vai funcionar adequadamente, e basta abrirmos qualquer jornal para constatarmos que realmente não está. Quem vê o conflito como algo ruim não vai querer participar das decisões políticas da sociedade, e quando o povo não faz questão de participar, a democracia falha. Essas falhas, como bem sabemos, prejudicam principalmente as classes mais pobres que, ao mesmo tempo em que são as que mais devem reivindicar participação, são as que estudam nas piores escolas. Um ciclo vicioso se forma, e a distribuição de poder na sociedade permanece inalterada.

É função da escola apresentar a Ciência de forma adequada aos estudantes. Também é função da escola ensinar História, Geografia, Matemática, Português e todas as outras matérias de forma adequada. Mas adequada para quem? Se for adequada para os alunos, então, considerando o que foi discutido, ensinar Ciências (ensinar de verdade!) chega a ser um ato revolucionário. Formar alunos que entendam a natureza e o funcionamento da Ciência pode contribuir para o estabelecimento de uma sociedade mais justa, democrática e participativa, pelo simples fato de que esses cidadãos terão compreensão da importância do conflito para o progresso da Ciência e da humanidade.

Gostaria de finalizar esse ensaio deixando bem claro que conhecer a natureza da Ciência não garante de forma alguma que os cientistas sejam politizados e participativos na sociedade. Como eles só aprendem a importância do conflito depois de alguns anos na academia, após terem passado mais de 15 anos incorporando os valores de uma escola castradora, fica difícil entender que não é só na Ciência que o conflito é importante. Fazer essa transição é muito difícil. A burguesia agradece.

“O Estado é um instrumento da classe dominante para se manter enquanto classe dominante.”  - Karl Marx

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Credo de um cientista de hoje (por Julian Huxley)

Creio que a vida pode ser digna de ser vivida. Acredito nisto, a despeito da dor, da miséria, da crueldade, da infelicidade e da morte. Não creio que seja necessariamente digna de ser vivida somente para que a maior parte das pessoas possa sê-la.

Também creio que o homem, como indivíduo, como grupo, e coletivamente como humanidade, pode realizar um propósito satisfatório na existência. Creio isto a despeito do mau êxito, da ausência de finalidade, da frivolidade, do tédio, da preguiça e do fracasso. Ainda, não creio que haja inevitavelmente um fim inerente ao universo ou à nossa existência, ou que a humanidade tenda a alcançar um propósito satisfatório, mas somente que tal propósito possa ser encontrado.

Creio que existe uma escala ou hierarquia de valores, que vai desde o simples conforto físico, até as mais altas satisfações do amor, do gozo estético, do intelecto, da realização criadora, da virtude. Não creio que estes sejam absolutos – ou transcendentais no sentido de serem concedidos por algum poder externo ou divindade – constituem o rótulo da natureza humana que interatua com o mundo exterior. Nem suponho tão pouco que possamos graduar todas as experiências valiosas em uma ordem aceita, assim como não posso dizer se uma abelha é um organismo mais elevado do que uma lula ou um arenque. Mas assim como se pode afirmar, sem hesitação, que há graus gerais de organização biológica, e que uma abelha é um organismo mais elevado do que uma esponja, ou um ser humano mais do que uma rã, assim também posso afirmar, com o consenso geral dos seres humanos civilizados, que há um valor mais alto na Divina Comédia do que num hino popular, na atividade científica de Newton ou Darwin do que em resolver um problema de palavras cruzadas, na plenitude do amor do que na satisfação sexual, no desprendimento do que nas atividades puramente egoísticas – embora cada um e todos possam ter certa espécie de valor.

Não creio que haja um absoluto de verdade, beleza, moral ou virtude, seja emanado de um poder externo ou imposto por uma norma interna. Mas isto não me leva à conclusão curiosa, em moda em certos setores, de que a verdade, a beleza e a bondade não existem, ou que nelas não haja força nem valor.

Creio que há algumas perguntas que não vale a pena formular, porque jamais poderão ser respondidas. Nada a não ser desperdício, preocupação ou infelicidade resulta quando se trata de resolver problemas insolúveis. Porém, certas pessoas parecem determinadas a experimentar. Recordo a história do filósofo e do teólogo. Os dois estavam empenhados em uma discussão e o teólogo lançou mão do velho dito em que um filósofo se assemelha a um homem cego, num quarto escuro, procurando um gato preto que não estava ali. “Pode ser”, disse o filósofo, “mas um teólogo o teria achado”.

Mesmo em questões de ciência, devemos aprender a formular as perguntas devidamente. Parecia evidente perguntar como os animais herdam o resultado da experiência dos pais, e gastou-se um tempo enorme e muita energia na tentativa de obter uma resposta. Mas não adianta fazer a pergunta, pela simples razão de que não existe tal herança de caracteres adquiridos. Os químicos do Século XVIII, porque faziam a si próprios a pergunta: “Que substância se acha envolvida no processo da combustão?” viram-se envolvidos na confusão da teoria do flogisto; deveriam perguntar: “Que espécie de processo é a combustão?” antes de ver que não atuava nela uma substância especial, mas era simplesmente um caso particular de combinação química.

Quando chegamos ao que usualmente se denomina o fundamental, aumenta muito a dificuldade de não fazermos a pergunta indevida. Entre a maioria das tribos africanas, se uma pessoa morre, a única pergunta que se faz é: “”Quem causou sua morte, e por qual forma de magia?”. A idéia de morte pelas causas naturais lhes é desconhecida. Realmente a vida da metade menos civilizada da humanidade se baseia largamente na tentativa de achar uma resposta a uma pergunta errada. “Que forças ou poderes mágicos são responsáveis pela boa ou má sorte, e como eles podem ser iludidos ou propiciados?”

Não creio na existência de um deus ou de deuses. O conceito de divindade parece-me ser, embora construído sobre uma quantidade de elementos reais da experiência, um conceito falso, baseado no postulado inteiramente injustificável de que deve haver algum poder mais ou menos pessoal no controle do mundo. Defrontamo-nos com forças alheias ao nosso domínio, com desastres incompreensíveis, com a morte; e também com o êxtase, com o sentido místico da união com algo maior que o nosso próprio eu, com a conversão súbita para um novo caminho de vida, com a aflição da culpa e do pecado, e com as maneiras pelas quais todas essas aflições podem ser exaltadas. Nas religiões teístas todos esses elementos de experiência atual foram entrelaçados num corpo unificado de crença e prática em relação ao postulado fundamental da existência de um deus ou de deuses.

Creio que esse postulado fundamental é nada mais do que o resultado da formulação de uma pergunta falsa: “Quem ou o que rege o universo?” Até onde podemos observar, ele se rege a si próprio, e na verdade qualquer analogia com um país e seu governante é falsa. Mesmo que um deus exista atrás ou acima do universo conforme o experimentamos, não podemos ter nenhum conhecimento de tal poder: os deuses atuais das religiões históricas são apenas as personificações de fatos impessoais da natureza e de fatos de nossa vida mental interior. Embora possamos responder à pergunta: “O que são os deuses das religiões?” só o podemos fazer dissecando-os em seus componentes e mostrando que sua divindade é apenas um invento da imaginação, da emoção e da racionalização humanas. A pergunta: “Qual é a natureza de Deus?” não podemos responder desde que não temos meios de conhecer se existe ou não tal ser.

O mesmo acontece com a imortalidade. Com as nossas faculdades atuais não possuímos meios para dar uma resposta categórica à pergunta se sobrevivemos à morte, e muito menos à pergunta de que seria tal vida depois da morte. Sendo assim, é uma perda de tempo e energia dedicarmo-nos ao problema de conseguir a salvação na vida por vir. Contudo, assim como a idéia de Deus é construída sobre as pedras da experiência real, assim também a idéia de salvação. Se traduzirmos salvação em termos deste mundo, vemos que ela significa realização harmônica entre as diversas partes de nossa natureza, incluindo suas profundezas subconscientes e suas elevações raramente tocadas, e também realizando alguma relação satisfatória de ajustamento entre nós próprios e o mundo externo, incluindo não somente o mundo da natureza, mas o mundo social do homem. Creio que é possível “conseguir a salvação” nesse sentido, e que está bem tratar de consegui-la, assim como creio que é possível e valioso realizar um sentido de união com algo mais elevado do que nós próprios, mesmo que esse algo não seja um deus, mas uma extensão de nossos corações estreitos para que apreenda de uma só vez experiências de natureza externa e interna que não alcançamos comumente.

Mas se Deus e a imortalidade são repudiados, o que resta? Tal é a pergunta usualmente atirada ao ateu. O crente ortodoxo compraz-se em pensar que nada fica. Isso, contudo, é porque se acostumou a pensar somente em termos de sua ortodoxia.

Na realidade fica muita coisa.

Isto é imediatamente óbvio pelo fato de que muitos homens e mulheres levaram vidas ativas, sacrificadas ou nobres, ou vidas devotadas sem qualquer crença em Deus ou na imortalidade. O budismo, na sua forma incorrupta, não tem tal crença, nem o tiveram os grandes agnósticos do século XIX, nem os comunistas russos ortodoxos, nem os estóicos. Naturalmente, os descrentes muitas vezes se tornaram culpados por ações egoístas ou más, mas os crentes também. E, de qualquer modo, isto não constitui ponto fundamental. O ponto é que sem essas crenças, homens e mulheres podem ter uma existência plena e cheia de propósito, e uma sensação de que a existência pode ser digna de ser vivida, tão poderosa quanto é possível aos crentes mais devotos.

Devo dizer que isso é muito mais fácil hoje em dia do que em qualquer época anterior. A razão se encontra nos progressos da ciência.

Não somos mais obrigados a aceitar as catástrofes externas e as misérias da existência como inevitáveis ou misteriosas; não somos mais obrigados a viver em um mundo sem história, onde a mudança não tem sentido algum. Nossos antepassados consideravam a epidemia como um ato de punição divina; para nós é um desafio a ser vencido, porque conhecemos suas causas e sabemos que pode ser dominada ou prevenida. A compreensão da moléstia infecciosa se deve, inteiramente, ao progresso científico. Também o é, para citar um fato recente, o nosso conhecimento da base da nutrição, que encerra novas possibilidades de saúde e energia para a raça humana. Também o é nossa compreensão dos terremotos e das tempestades; se não os podemos dominar, pelo menos não os receamos como prova da ira de Deus.

Pelo menos algumas de nossas misérias íntimas podem ser eliminadas do mesmo modo. Por meio do conhecimento derivado da psicologia podemos evitar que as crianças cresçam com um sentimento anormal de crime, tornando a vida um peso tanto para elas próprias como para aqueles com quem entram em contato. Estamos começando a compreender as raízes psicológicas do medo irracional e da crueldade irracional: um dia seremos capazes de tornar o mundo um lugar mais agradável, evitando seu aparecimento.

Os antigos não possuíam história digna de ser mencionada. A existência humana no presente era considerada como uma degradação daquela Idade de Outro original. Até o século XIX o conhecimento da história humana era considerado pelas nações do Ocidente como uma série de episódios sem sentido, comprimidos no breve espaço entre a Criação e a Queda, alguns milhares de anos atrás, e a Segunda Vinda e o Juízo Final, que poderiam cair sobre nós a qualquer momento, e em qualquer caso não poderiam ser afastados por mais de alguns milhares de anos no futuro. Nessa perspectiva um milênio era quase uma eternidade. De acordo com esse ponto de vista não estranha que a vida parecesse para a grande massa da humanidade “má, brutal e curta”, suas misérias e faltas simplesmente surpreendentes a não ser que as iluminasse à luz ilusória da religião.

Hoje a história humana se funda na pré-história e a pré-história por sua vez na evolução biológica. Nossa escala de tempo está profundamente alterada. Um milhar de anos é um tempo curto para a pré-história, que pensa em termos de centenas de milhares de anos, e um tempo insignificante para a evolução, a qual lida com períodos de dez milhões de anos. O futuro se estende igualmente como o passado: se levou milhões de anos para a vida primitiva gerar o homem, o homem e seus descendentes possuem pelo menos igual lapso de tempo diante de si.

O mais importante é que a nova história possui uma base de esperança. A evolução biológica foi terrivelmente vagarosa e terrivelmente dissipadora. Foi cruel, gerou os parasitas e as pestes assim como os tipos mais agradáveis. Levou a vida para inúmeros becos sem saída. Mas, a despeito disso, realizou progresso. Em certos setores; cujo número diminuiu firmemente com o tempo, evitou o beco sem saída da mera especialização, mais harmonioso e mais eficiente, do qual poderia novamente atirar-se para um maior domínio, maior conhecimento e maior independência. O progresso é, caso o queiram, a especialização total. Finalmente, apenas uma linha foi deixada que pudesse realizar um progresso ulterior: todas as outras haviam levado a becos sem saída. Essa linha foi a que conduzia à evolução do cérebro humano.

Isto, de um salto, alterou a perspectiva da evolução. A experiência agora podia ser transmitida de geração a geração; o propósito deliberado podia substituir a tentativa cega da seleção, a mutação podia ser realizada com uma rapidez mil vezes maior. No homem a evolução podia tornar-se consciente. Admitamos que ainda esteja longe de ser consciente, mas existe possibilidade, e foi pelo menos conscientemente encarada.

Vista sob esta perspectiva, a história humana não representa senão a mais mesquinha porção do tempo que o homem tem diante de si. Trata-se tão só dos primeiros passos incertos e trôpegos do novo tipo, que nasceu herdeiro de tanta história biológica. Vêem-se em toda a sua inutilidade as tentativas para uma filosofia geral da vida como se alguém, cujo conhecimento da espécie humana se limitasse a uma criança de um ano, tentasse fazer uma relação geral da alma e do espírito humanos. Os constantes retrocessos, a falta de adiantamento em certos aspectos durante cerca de dois mil anos, são considerados como fenômenos tão naturais como os tombos de uma criança que está aprendendo a andar ou o desvio da atenção de um menino sensível pela necessidade de ganhar a vida.

Os grandes fatos permanecem. A vida progrediu mesmo antes da primeira evolução do homem. A vida progrediu mais pela evolução do homem. O homem progrediu durante meio milhão – ou quase este tanto – de anos desde a primeira Hominidae , mesmo durante os dez mil anos após a melhora final do clima, depois da Idade Glacial. E as potencialidades de progresso que são reveladas, uma vez que seus olhos se abriram para o panorama evolucionista, são ilimitadas.

Afinal temos uma teoria otimista ao invés de pessimista deste mundo e de nossa vida nele. Admitimos que o otimismo não pode ser fácil, e deve ser temperado pela reflexão acerca da extensão do tempo que requer a dura tarefa que será necessária, e do inevitável resíduo de acidentes e desgraças que ficará. Talvez fizemos melhor em chamá-lo de critério melhorado antes de otimista, mas pelo menos prega a esperança e inspira a ação.

Creio muito decididamente que, entre as personalidades humanas, é que existem as mais elevadas e as mais valiosas realizações do universo – ou pelo menos as mais elevadas e mais valiosas realizações das quais temos ou, aparentemente, podemos ter conhecimento. Isso significa que eu creio que o Estado existe para o desenvolvimento do indivíduo e não os indivíduos para o desenvolvimento do Estado.

Mas também creio que o indivíduo não seja algo isolado, separado. Um indivíduo é um transformador da matéria e da experiência, é um sistema de relações entre sua própria base e o universo, incluindo outros indivíduos. Um indivíduo pode crer que deveria dedicar-se inteiramente a uma causa, mesmo sacrificando-se por ela: seu país, a verdade, a arte, o amor. É na dedicação ou no sacrifício que ele se torna mais ele próprio, e é por causa da dedicação ou do sacrifício dos indivíduos que as causas se tornam valiosas. Mas está claro que o indivíduo deve subordinar-se à comunidade de muitos modos; somente não até o ponto de crer que na comunidade reside qualquer virtude mais alta que a dos indivíduos que a compõem.

A comunidade provê o maquinismo para a existência e desenvolvimento dos indivíduos. Existem aqueles que negam a importância do maquinismo social, que asseguram que a única coisa importante é a mudança na maneira de sentir, e que o maquinismo adequado é apenas uma conseqüência natural da atitude interior correta. Isto me parece simples solipsismo.  As diferentes espécies de maquinismo social predispõem a diferentes atitudes internas. O maquinismo mais admirável é inútil se não mudar a vida interior; mas sim o maquinismo social para tornar a guerra mais difícil, para promover a saúde, para acrescentar interesse à vida. Não desprezamos a máquina em nosso zelo pela plenitude da vida, assim como não haveremos de sonhar que o maquinismo poderá jamais produzir, automaticamente, a perfeição da vida.

Creio na diversidade. Todo biólogo sabe que os seres humanos diferem nas suas conformações hereditárias, e, por conseguinte, nas possibilidades de realização. A psicologia nos mostra quão diferentes são os tipos que se esbarram nas ruas do mundo. Soma nenhuma de persuasão ou educação pode fazer com que o extrovertido compreenda realmente o introvertido, o verbalista compreenda o amante do serviço mecânico, o não matemático ou não musicista compreenda a paixão do matemático ou do músico. Podemos experimentar proibir certas atitudes do espírito. Poderíamos teoricamente extirpar grande parte da variedade humana. Mas isso seria um sacrifício. A diversidade não é somente o sabor da vida, mas a base da realização coletiva. E o complemento da diversidade é a tolerância e a compreensão. Isto não significa avaliar por igual todos os valores. Devemos proteger a sociedade contra os criminosos; devemos lutar contra o que julgamos errado. Mas assim como no trato do criminoso em que devemos experimentar reformá-lo antes de simplesmente castigá-lo, também devemos experimentar compreender porque julgamos erradas as ações dos outros, o que implica experimentar compreender o funcionamento de nossa própria mente e dar desconto aos nossos próprios preconceitos.

Finalmente, creio que jamais poderemos reduzir nossos princípios a uns poucos termos simples. A existência é demasiadamente variada e complicada. Devemos completar os princípios com a fé. E a única fé que é a um tempo concreta e compreensiva é a fé na vida, na sua abundância e no seu progresso. Finalmente creio na vida.

Tradução de P. H. Saldanha

Julian Sorell Huxley (1887-1975) foi um biólogo, escritor, humanista e divulgador científico britânico. Irmão do escritor Aldous Huxley que escreveu o livro Admirável Mundo Novo, e neto do biólogo Thomas Henry Huxley, colega e defensor das idéias de Charles Darwin. Foi também o primeiro diretor geral da UNESCO e fundador do WWF.

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Um chopes, dois pastel e ciência por favor!

Seu garçom faça o favor de me trazer depressa um choppes, dois pastel e uma ciência que não seja requentada. Um pão bem quente com matemática à beça, um guardanapo e um copo de exatas bem gelado, outro de humanas e um último de biológicas. Aproveita para perguntar ao seu freguês do lado o resultado da palestra, que já está no fim.

Seu garçom feche a porta da direita com muito cuidado que eu estou disposto a ficar exposto a esta forma de divulgação científica. É que a ciência está no bar e se você ficar limpando a mesa, não me levanto e nem pago a despesa. Vá pedir ao seu patrão uma caneta, um tinteiro, um conteúdo científico que semana que vem a gente está de volta.

Seu garçom, você sabia que Brasil adentro tem Cachaça Científica? Já está virando rotina lá na Regional de Pernambuco da Sociedade Brasileira de Progresso à Ciência. E se você pensa que cachaça é água, em 2005 aconteceu na Universidade Federal de Santa Catarina e em 2007 a ciência destilada chegou ao Rio de Janeiro com a Casa da Ciência e o Instituto de Química da Universidade Federal.

Acho que não dá para negar. São eventos inspirados no pioneiro Chopp Científico, ciência com arte e colarinho, que aconteceu pela primeira vez em 2002 no Rio de Janeiro, coordenado pela jornalista Luisa Massarani do Centro de Estudos do Museu da Vida / Fiocruz. Ela, por sua vez, foi inspirada em eventos já existentes na Grã-Bretanha, Austrália e França.

Ah, não se esqueça de me dar palitos. Em várias cidades do mundo tem o Café Scientifique, com temas diversificados, e o SciBar, bastante atual. Já sobre Ciência e Governo, é possível ir ao INSPIRE Science Café. Seu garçom vá dizer ao charuteiro que me empreste umas revistas, um isqueiro e um cinzeiro. É que nossos amigos franceses estão com tudo. Eventos desta natureza acontecem já tem mais de anos, em torno de uma década. Bar des Sciences em Paris, Cafes Sciences e Junior Cafes em Lyon, além de eventos semelhantes em cidades como Marseille e Grenobe.

Seu garçom me empresta algum dinheiro que eu deixei o meu com o bicheiro. Tem Café Scientifique em Marrocos, no Egito, na Dinamarca, na Suíça e no Canadá. Tem em Portugal. Tem aqui, tem ali. Tem Science in the Pub na Austrália, tem Café Científico na Argentina. Vá dizer ao seu gerente que pendure esta despesa no cabide ali em frente, que a divulgação científica está criativa, etílica e saborosa. Uma verdadeira Conversa de Botequim, como bem canta Noel Rosa.

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Crodowaldo Pavan e o projeto Roda Viva Científico

A ciência, especialmente a genética, brasileira está de luto com o falecimento do Prof. Crodowaldo Pavan no dia 03/04/2009. O irreverente e obstinado pesquisador, autor de inúmeras contribuições científicas e políticas tanto quanto de observações provocadoras e desconcertantes em reuniões científicas ou declarações à sociedade, contava aos alunos de divulgação científica que nunca temeu estar errado! com a graça irônica de um vovô esperto que sorria ao lembrar-se de seus adversários científicos, que o colocaram, como bem lembrou o Thiago aí embaixo, dando três voltas no Mundo até acreditarem em seus cromossomos politênicos.

1998. Congresso da Sociedade Brasileira de Genética. Após exposição da Prof. Lygia da Veiga Pereira sobre clonagem, Pavan pega o microfone e diz alto e em bom tom, para a indignação dos demais geneticistas brasileiros. “Eu não vejo problema algum em um casal querer fazer clonagem para renascer um filho morto!”

Geração parental na minha formação científica me enchia de orgulho quando, ao freqüentar o Núcleo José Reis de Divulgação Científica, eu percebia que em seus discursos havia um tanto daquilo que eu havia aprendido com seu F1 Pedro Henrique Saldanha, meu orientador do mestrado. Era um cultivo ao entusiasmo romântico da ciência, de uma época na qual os valores éticos e morais eram muito mais sólidos, em que ser doutor e publicar era conseqüência e não uma necessidade anti perecimento na academia. Não é a toa que neste heredograma se expressa dominantemente a experiência do filme A história de Louis Pasteur – “Façam o que vocês gostam de fazer!”
“Glória, os textos dos alunos tem que entrar no livro!”

2007. Núcleo José Reis de Divulgação Científica. Ouço Pavan contar a mesma história, em duas ocasiões diferentes, fazendo a graça indescritível de balançar a cabeça imitando o diretor da Rockfeller. “Fui apresentado ao diretor da Fundação Rockfeller como sendo um bom pesquisador brasileiro. Ele me pediu que fizesse uma lista de materiais necessários para criar laboratórios de Genética Humana no Brasil. Pedi um microscópio e algum material de consumo. O homem olhou e disse que aquilo não era possível, para eu pedir mais. Fiz outra lista, sempre com a preocupação de não pedir demais e ficar sem saber explicar onde usei depois. Prá encurtar a história, o diretor resolveu que tudo bem só aquilo, mas nunca negou absolutamente nada do que pedi posteriormente. E com esta verba foram construídos os primeiros laboratórios de Genética Humana no Brasil.”

Na conversa com o Prof. Laércio Elias Pereira, surgiu a idéia de fazer o que chamamos inicialmente de “Projeto Roda Viva Científica”. Os Profs. Osmir Nunes e José Arbex Jr. incentivaram a proposta. Laércio mirou na TV Cultura.

01/07/2008.“Caro Professor Laércio, a pedido do nosso presidente, Paulo Markun, vamos marcar uma conversa. (…) ligue-me tão logo seja possível e assim combinaremos o encontro aqui na TV Cultura. Um abraço Pola Galé.”

Na reunião, da qual o próprio Prof. Pavan também participou, foi combinado que a TV Cultura elaboraria um projeto e nos retornaria em breve, mas apesar da minha insistência em atormentar a Sra. Shizuca, secretária do Sr Pola Galé, o projeto nunca aconteceu.

Lamentavelmente, não é possível compartilhar aquele olhar como queríamos, contando com toda aquela graça os caminhos que ajudou a trilhar na genética humana brasileira em primeira pessoa. Retumba na cabeça a lembrança de vê-lo descendo as escadas ignorando a própria dificuldade e o elogio “Muito boa a idéia de fazer este projeto e de termos vindo até aqui! Parabéns!” Será que eles vão mesmo topar fazer? “Se vão não sabemos, mas a nossa parte nós fizemos!”

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O cisne negro

Seria cômico se não fosse trágico. O acidente no lago da Aclimação. Ela saía de casa para passear. Terça-feira, Carnaval-2009. Estava um pouco cansada de seus filmes e livros, e resolveu movimentar-se como fazia de vez em sempre, que possível. MP3 nos ouvidos, short, tênis e camiseta. Resoluta, já que o sol do meio-dia estava encoberto pelas nuvens escuras das Águas de Março que resolveram fechar o verão inteiro.

Viu um helicóptero sobrevoando a área, aumentou o volume da música em seus ouvidos. Um aglomerado de pessoas e policiais na borda do lago, achou melhor nem olhar, alguém deve ter se machucado. Carros da polícia civil metropolitana e da polícia florestal fazendo Cooper, alguma coisa realmente aconteceu, que Deus cuide… Policiais entrando no lago… Heim?! O lago está seco!!!

Como jurou no dia da formatura que defenderia a vida, qualquer que fosse, imediatamente desligou o MP3 e realizou a primeira volta com seu olhar clínico. O nível da água realmente havia caído muito, o que até outro dia era um lago cheio de patos, gansos e carpas se transformara, da noite pro dia, em um enorme lodaçal. Um cisne negro bem no meio do lago-lodo passava bem, mas a cena – ele sozinho no meio do lodo – era triste, lembrava os desastres petrolíferos. Os freqüentadores do parque estavam parados nas margens em três pontos. O primeiro era uma piscina, formada pela irregularidade do fundo do lago, na qual alguns peixes estavam sendo salvos em sacos plásticos por pessoas que, na ânsia de fazer um bem, se esqueceram das aulas de Ciências – poderiam contrair doenças num lago eutrofizado como aquele e, certamente as concentrações de Oxigênio e nutrientes da água para onde os peixes estavam sendo levados pelos cidadãos seriam diferentes, levando-os à morte da mesma forma. Um policial tentava afastar as pessoas. Os outros dois pontos ofereciam visão privilegiada sobre o trabalho dos aproximadamente 20 homens que se organizavam para retirar o cisne negro, bem como meia dúzia de patos e marrecos nas margens cheias de lixos inorgânicos.

Segunda volta. Um policial florestal. Não resistiu.

- Por gentileza, desculpe minha intromissão, mas por que resolveram esvaziar o lago sem tirar todos os animais primeiro?

- Houve um acidente ontem a tarde, estourou o encanamento que regula o escoamento do lago e a água vazou para o rio Tamanduateí.

- Xiii, não tem como salvar os peixes… ou foram parar no rio – poluído, ou morreram atolados ali no fundo do lago. Conseguiram resgatar as demais aves ou só sobraram aquelas?

- Muitas foram para as margens fugindo da vazão de água ontem e conseguimos capturá-las, só sobraram estas que se assustaram conosco e foram para o meio do lago. Mas nós vamos resgatá-las e levá-las para o parque do Ibirapuera.

- Mas aquilo virou uma areia movediça, como os policiais vão chegar até lá?

- Infelizmente não temos equipamentos adequados disponíveis para entrar neste tipo de lodo, até o prefeito já esteve aqui vendo a situação hoje, mas vamos tentar um bote ou um cabo de aço para fazer com que o cisne negro chegue até uma das margens.

Enquanto isso câmeras de TV, repórteres e fotógrafos registraram um verdadeiro “Olé” que um pato deu numa meia dúzia de biólogos da Prefeitura que, por fim, o capturaram sobre aplausos da população local, enquanto o cisne negro olhava a distância bicando sua glândula uropigeana e impermeabilizando suas penas da asa direita, na terceira volta.

A quarta volta foi bem irônica. Cidadãos reclamavam da indolência da polícia. “Por que não tiram o cisne negro com o “Águia”? Só porque o barulho dum helicóptero já infartaria o bicho antes dele ser salvo. Por que não chamam uma viatura de bombeiros e usam aquela escada até o meio do lago? Era evidente que o cidadão não teve aulas de Física, pois a distância entre a margem e o cisne era enorme! Por que um bombeiro não nada até lá? Areia-movediça, já viu desenho animado com areia movediça, meu filho? Policial não é mosquito, afunda!

Os policiais resolveram atravessar um cabo de aço margem-margem enxotando o cisne que, sem saber que já era alvo de projeções emocionais de tanta gente que desejava que ele sobrevivesse às intempéries de suas vidas, conseguia se mover, apesar do lodo, com relativa facilidade para a margem mais próxima dele.

Quinta volta. Garoou. Um cidadão lamentou-se dizendo “se fizesse sol o lodo secaria e o cisne conseguiria sair de lá”. Se fizesse sol o cisne morreria desidratado antes do lodo secar! Prá sorte do cisne negro e desespero dos policiais garoava forte e a população não arredava pé. A julgar pela situação, o cisne negro já tinha deixado de ser um patinho feio, passado por pobre criatura de Deus injustiçada, e estava se transformando num herói de guerra, pois continuava se movimentando, agora com esforço, fugindo do cabo de aço rumo à margem.

Não viu o cisne ser salvo, nem teve a sexta volta. Os policiais interditaram a pista de Cooper, não sem antes um sujeito mal educado exigir a retirada de todos do local, pois ele iria pegar o cisne, afinal ele estava lá desde as 6 da manhã e já eram mais de 13 horas. Incrível como ele enxotava todo mundo grosseiramente, mas dizia que o fotógrafo podia permanecer. Afinal, o cisne negro não poderia ser herói sozinho.

Choveu forte. Voltou ensopada pensando na tragédia ecológica. Em todos os sentidos. Um lago mal cuidado, pessoas mal formadas cientificamente, gente mal educada. Pensou no plâncton, nas algas, nas briófitas, naquela infinidade de peixes e carpas gigantes que eram mal alimentadas por pães, no desequilíbrio climático da região, na conseqüente baixa da população de anfíbios, no aumento da população de mosquitos, nas sementes das árvores que, se antes alimentavam peixes, agora poderão brotar, no trabalho de reconstrução do lago – se é que será reconstruído – e inclusive, na situação perturbadora provocada pelo rebelde cisne negro.

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A astrologia por uma cientista

Garotas na adolescência costumam ser atraídas pelas revistas de previsão astrológica. Eu as lia nas férias, especialmente aquelas que apontavam qual signo combinava com qual. Mas, um tanto científica desde então, decidi colocar aquilo tudo à prova pensando “vou namorar um menino de cada signo para ver se é verdade”.

Neste meio tempo resolvi estudar Astrologia seriamente. Respondi à professora logo na primeira aula que eu estava ali para me entender melhor e tentar entender os outros. Ela se apaixonou pelo argumento e, não fosse também psicóloga, além de taurina com a lua em escorpião, talvez a combinação não tivesse sido tão perfeita para eu entender a astrologia como uma ferramenta de análise Junguiana.

Mas eis o primeiro ponto – o astrologuês. Astrólogos de formação e bom senso sabem que, assim como um geneticista não espera que as pessoas conversem com ele sobre a tecnologia de microarrays ou RNA de interferência em seu dia a dia, não é possível esperar que as pessoas saibam o que significa lua em escorpião, marte em sagitário, vênus em capricórnio e assim por diante. Sabem também que horóscopo de jornal, site ou revista alguma é algo além de um conselho generalizado que se pode dar a qualquer pessoa, de qualquer signo. Aqui cabe o parêntesis engraçado de um amigo que nunca sequer estudou astrologia, mas trabalhou num jornal – ele recortava os conselhos dos signos de um dia, embaralhava, e os colocava em outros signos nos dias seguintes.

Por outro lado, ler um mapa astral é de uma complexidade tal que não infreqüente os astrólogos se perdem no antagonismo dos aspectos. É necessário considerar as posições e os significados das constelações, das casas, dos planetas e das relações entre eles. Analisar mapas de relacionamentos entre pessoas então, é exponencializar a complexidade de tal forma que dói nos ouvidos de um astrólogo que tenta fazer o melhor possível, ouvir as pessoas reduzirem a astrologia a um mero aspecto solar – o signo – e achar que sabem tudo a respeito de alguém, estigmatizando a pessoa por ser do mesmo signo de outra já conhecida. Isto fere completamente os princípios da Astrologia, pois como conclui, com um engenheiro astrólogo, a astrologia, assim como a genética, revela um conjunto de potencialidades das pessoas que podem ou não se manifestar. Estas potencialidades estão sujeitas ao ambiente e livre arbítrio de cada um, o que muda é a ferramenta (mapa genético ou astral) de observar estas potencialidades.

A astrologia é muito mais antiga que a genética, fruto de uma época em que Ciência e Misticismo eram quase a mesma coisa. Tem base na astronomia por se pautar nas efemérides para cálculos de posições de estrelas e planetas. Mas apesar disto, não é científica. Já a genética segue todo o rigor do Método. E nem por isso alguma delas é capaz de dizer quem exatamente seremos amanhã!

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Divulgação Científica, folias, confetes e serpentinas

1ª versão: Revista Vox Science (Núcleo José Reis de Divulgação Científica)
2ª versão, atualizada: Polegar Opositor

Nas ladeiras de Olinda um pierrô apaixonado, que vivia só cantando, acabou chorando quando viu sua colombina no cordão de Albert Einstein, um boneco gigante no meio da multidão. Isso foi em 2005, e foi a primeira vez do bloco “Com Ciência na Cabeça e Frevo no Pé”, fundado pelo Espaço Ciência, pelo Cenine/UFPE e pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência de Pernambuco (SBPC-PE). Já em 2006, quanto riso, oh, quanta alegria, mais de mil foliões no maracatu e um arlequim que ficou chorando o amor de colombina, que só tinha asas para um Santos Dumont em comemoração aos 100 anos do vôo do 14 Bis. Ah, se você fosse sincera… No outro ano foi a vez de José Leite Lopes, físico pernambucano, e a colombina dando viva ao maioral. Ela quer um lindo apartamento, com porteiro e elevador. E sob o tema “Evolução e Diversidade”, Charles Darwin foi o escalado para arrasar pierrôs e arlequins em 2008, ano em que o bloco marca a abertura oficial da V Semana Nacional de Ciência e Tecnologia de Pernambuco.

Em 2009 os homenageados da vez serão os cientistas Carlos Chagas e Galileu Galilei. É, as águas vão rolar. Por enquanto elas estão sendo puxadas por professores universitários, estudantes e representantes da comunidade científica preocupados com o progresso da ciência, e sua divulgação. Pois então, ei!, vai com jeito, vai, se não um dia, a casa cai.

E qual é o jeito da Divulgação Científica? Em Pernambuco é o frevo que conta a história e homenageia a ciência através de seus personagens. Já as marchas de carnaval pouco têm a ver com isso, dizem o cotidiano e o amor. Elas pertencem a um gênero musical que esteve presente nos carnavais brasileiros entre os anos 20 e 60, altura em que começaram a ser substituídas pelos enredos das escolas de samba. Me leva que eu vou, sonho meu, atrás do samba-enredo há uma ilustração poético-melódica que possui um estilo característico e versejar próprio. Trata-se de uma expressão de linguagem popular, não lhe sendo exigidos esquemas fixos de métrica e rima. Bom para a divulgação científica? Com certeza. A linguagem alegórica escolhida pelos carnavalescos explode corações na maior felicidade e atinge o público em cheio. Candeeiro, candeeiro ó, a pedra do teu anel brilha mais do que o sol!

Pode-se ver, saber e contar de um tudo no maior show da terra. Beija Flor, em 1978, cantou a criação do mundo na tradição nagô, iererê, surge a vida com esplendor. Ciências naturais, da terra, da saúde e humanas. Vai de um tudo para a avenida. Teu cenário é uma beleza. Cada escola apresenta um tema, a partir de um roteiro seqüencial e dos argumentos que fazem uso: alas, destaques, fantasias, adereços e alegorias. Em conjunto, todos devem retratar uma época se o enredo girar em torno de acontecimentos históricos, ou retratar os elementos tradicionais e característicos em casos de temas folclóricos, regionais ou religiosos. E porque através das alegorias, realidades abstratas podem ser concretizadas, as ciências sociais, políticas e econômicas brincam no mar. Elas brincam na areia, no balanço das ondas, e na avenida elas semeiam a vida, o negro, a cultura, a evolução, as tradições, a imigração, a colonização, a arte, os sertanejos, a ecologia, a biodiversidade e os grandes personagens da nossa história: pensadores, sociólogos, artistas, cientistas, políticos. Às vezes nas doses de uma a crítica: liberdade, liberdade, abre as asas sobre nós. Outras, nas vezes de uma dúvida: como será o amanhã, responda quem quiser. E o realejo diz, que a divulgação científica será feliz entre folias, confetes e serpentinas.

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Sarau Científico

Cena: À direita da porta de entrada, o balcão se fazendo de bar: cachaça de minas, cachaça com canela, vodca, uma garrafa de 51, três garrafas de vinho tinto, frutas vermelhas (morango, framboesa e amora) e limão fatiado para as caipirinhas do tipo faça você mesmo. Compõem a cena uma mesa de salgados, outra de doces do tipo self-service. Na entrada, tocheiros dando as boas vindas, indicam o caminho para o palco: microfone, banquinho, espaço para intervenções. Abre-se o sarau: “queridos amigos, hoje a noite é de muita alegria, pois daremos início ao Primeiro Sarau Científico Polegar Opositor. Como todos sabem, o tema da vez é Evolução. Mas aceitamos vieses, dançarinos de hula-hula e ditadores potenciais do terceiro mundo. Separem seus textos, seus apetrechos que a partir de agora declaro aberto o 1º Sarau Científico Polegar Opositor”.

O texto acima é fictício, mas poderia ter, de fato, acontecido. Lanço aqui a idéia, pois pensar em divulgação científica requer extrapolar os ambientes que são consensualmente comuns à ciência. Tirá-la das salas de aula e dos laboratórios e torná-la mais acessível. Resgatar aquela criança fascinada pelos tubos de ensaios e seus brinquedos alquímicos. Afinal, está lá a Esfinge para nos lembrar. De onde viemos, como funciona o mundo e os feijões que brotam no algodão são questões que facilmente podem ser respondidas num sarau científico. Duvida?

Se fizermos um retrocesso sobre a infância, de quando a rua de cima ficava de rixa com a rua de baixo e as crianças do bairro se organizavam em clubinhos, faziam seus próprios jornaiszinhos e apostavam corrida em carrinhos de rolimã, fica claro que a gente, desde cedo, se organiza em torno de eventos sociais. Então por que nesta gama de possibilidades de se criar e recriar a infância, não apostar que um destes encontros seja um sarau científico? Seria simples. Cada criança ou jovem desenvolveria um pequeno texto de própria autoria ou escolheria algo de agrado, feito por um outro alguém. Haveriam aqueles que levariam uma bússola caseira, outros tentariam por o ovo em pé. Alguns ainda teriam um formigueiro caseiro (pobre de suas mães) enquanto outros se contentariam em usar a espingardinha de chumbo para acertar baratas saída do bueiro da esquina que, divididas em partes, poderiam ser um belo exemplo de dissecação de animais. E como na feira de ciências, o sarau faz da ciência popular e divertida. Uma festa.

Lembro de quando eu era jovem – ou pelo menos mais jovem do que agora – ainda no primeiro ano da faculdade. Bioquímica. Uma prova ferrada no 1º bimestre e uma prova em forma de teatro no 2º bimestre. Meu grupo encenou o Ciclo de Krebs. Perfeito para um sarau científico que, como se pode notar, idade não tem. Só ciência e criatividade.

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