Divulgação Científica 2.0

setembro, 2008

Um usuário on-line. Há segredos na ciência! O laboratorista tranca portas a sete chaves. Ou porque descobriu uma enzima nova, ou porque mapeou um gene antes do cara do laboratório ao lado. E há séculos que a ciência institucionalizada é pouco colaborativa e está presa a mais-valia. O cabo é de guerra e os dois usuários on-line estão a espreita de verbas, ou em busca de um aceite de seu artigo para publicação naquela revista especializada que irá projetá-lo como o ban-ban-ban da enzima –a ser batizada com seu próprio nome– ou do gene em questão. Não conversam entre si, embora desenvolvam trabalhos complementares.

Cinco usuários on-line. A necessidade faz o ladrão e, de repente, surge um comércio de co-autoria para pesquisadores menos éticos. E na mesma essência da mais-valia, cria-se uma corrente do tipo “me adiciona que eu te adiciono”. Enquanto estes fingem que se ligam uns aos outros, cinco usuários do tipo papers (artigos científicos revistos por pares) desta ou daquela revista não conversam entre si, embora configurem um mesmo centro de pesquisa ou uma mesma editoria, dizem assuntos correlatos e utilizam a mesma bibliografia, quiçá o mesmo método. A revista, em bloco, é segmentada e o artigo é uma unidade. Dez usuários on-line. Isso para não dizer dos autores esconde-esconde. Aqueles que não publicam os dados relevantes de suas pesquisa e que acreditam guardar “o segredo” que lhes garantirão chegarem isolados ao pódio ban-ban-ban. Aí é falácia.

Quinze usuários on-line. Me publica que eu te publico! As instituições de pesquisa perceberam que seus índices de visibilidade crescem na medida em que elas são citadas e aparecem nos periódicos científicos. Vinte usuários on-line.

É claro que se a gente for parar para pensar, nem tudo é tão frio assim, mas trinta usuários on-line e o calor dos corpos revelam que a divulgação científica 1.0, em termos institucionais, pouco mudou com o passar dos tempos. Entra ano, sai ano, a cena se repete: pesquisadores isolados escondendo o jogo em prol da mais-valia. Ouro de tolo? Nem tanto. Quarenta usuários on-line.

Não é de hoje que se questiona a divulgação das informações científicas e se estuda a possibilidade de se fazer da ciência a partir de um movimento aberto, como mostra o artigo publicado na edição de abril da Scientific American “Science 2.0 – Is Open Access Science the Future?” (Ciência 2.0 – A Ciência de Acesso Público será o Futuro?) ao discutir como a web 2.0 pode impactar a forma como se faz e divulga ciência nos dias atuais. Cinqüenta usuários; há novas ferramentas on-line! Para este segmento das Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs), a idéia é colaborativa.

Cem usuários on-line. Na web 2.0, cujo conteúdo é o produzido pelo próprio usuário, as wikis –ferramenta colaborativa de construção de hipertexto– e os softwares com licença Open Source –cujo código fonte fica disponível na rede– criaram uma nova proposta de gerenciamento da informação, a divulgação científica 2.0.

Duzentos usuários on-line que se entretém, divulgam ou produzem ciência de forma nunca vista anteriormente, seja através de blogs, comunidades como o Orkut, realidades virtuais como a Second Life ou sítios como o YouTube. Quinhentos usuários on-line e uma licença de direitos autorais para conteúdos abertos, a Creative Common. Mil usuários em rede.

Dicotomias sem nexo.

agosto, 2008

Não é novidade a relação de poucos amigos que algumas religiões tem com relação à ciência. O que me deixa curioso, e as vezes até impressionado, é a maneira como a questão vem sendo tratada a séculos. O discurso de ambos os lados é basicamente o mesmo, e em geral, mal esbarram no centro da questão.

E qual questão seria essa? Eu pergunto e respondo. A questão é que a ciência e a religião não possuem relação antagônica alguma. Ambas são constructos humanos, por mais divinas que sejam, e possuem suas raízes em conceitos filosóficos distintos.

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O jantar dos esquisitos.

agosto, 2008

No livro “O mundo assombrado pelos demônios”, no capítulo “Maxwell e os Nerds”, Carl Sagan comenta sobre o estereótipo que se faz de pessoas da ciência. Em uma passagem ele diz que a misantropia e a inaptidão social, embora certamente possam ser associadas a uma porção de cientistas, fazem parte deste estereótipo.

Concordo bastante com o Sagan e, evidentemente, faço o possível para combater este tipo de pensamento. Oras, cientistas são pessoas normais, com pai e mãe. Não há nada de bizarro e incompreensível em uma pessoa que dedica sua vida à ciência.

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A Second Life da Divulgação Científica

julho, 2008

Orkut, Facebook, Flickr, Myspace, Live Journal, Twitter, fotologs e weblogs ou blogs rompem as fronteiras geográficas e conectam pessoas mundo afora. Nesta nova relação do tempo com o espaço, as proximidades intelectuais acompanham uma sociedade em constante, rápida e permanente mudança. Também a Second Life, na onda das realidades virtuais, entra para discutir a dimensão das vidas on e off-line.

Com o avanço ponto.com é fato que a velocidade com que as relações acontecem difere do passado e nem tudo é tão híbrido como nem tudo o que está na rede é, de fato, uma comunidade virtual. Neste aspecto, tanto a vida medida em pixels e bits quanto a vida fora da web entram em acordo: as comunidades, quando deixam de ter um caráter cooperativo calcado em projetos comuns aos participantes ou quando estes não estabelecem um sentimento de pertencimento a elas, tornam-se apenas um agrupamento de pessoas, uma rede de conexões. Precisam estar mais além.

Nos dias de hoje é praticamente indiscutível: o virtual e o real se cruzam a todo instante e a divulgação científica também não está só na interface de lá ou só no lado de cá. Na Web 2.0, cujo conteúdo é o produzido pelo próprio usuário, as wikis – ferramenta colaborativa de construção de hipertexto – e os softwares com licença Open Source – cujo código fonte fica disponível na rede – criaram uma nova proposta de gerenciamento da informação. Para este segmento das Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs), a idéia é colaborativa. É o caso da plataforma Moodle – um Sistema de Gerenciamento de Aprendizagem (SGA) – e da plataforma S.E.E.R, um Sistema Eletrônico de Editoração de Revistas. Ambos estão voltados à aprendizagem e pesquisa e encabeçam a lista dos chamados Recursos Educacionais Abertos (REA), mais conhecidos por sua sigla em inglês OER (Open Educacional Resources).

A internet, ao oferecer estas ferramentas e outras como o YouTube – um site que permite que seus usuários carreguem, assistam e compartilhem vídeos em formato digital – cria uma nova forma de divulgação científica na medida em que milhões de pessoas se entretém, educam e se informam de uma maneira como nunca foi vista. A disseminação do movimento Conteúdo Aberto, baseado então no movimento FLOSS (Free Libre and Open Source Software), gera um grande motivador para os avanços da divulgação científica em meio digital.

Para corroborar, surge a Creative Common License, uma licença baseada no conceito de que é preciso criar e disponibilizar uma grande quantidade de informações e conteúdos de forma que assegure e sustente a criatividade e o ineditismo do autor. Com uma rápida aceitação dos internautas que produzem conteúdo diferenciado na web, a licença ganhou os sites pessoais e blogs. Estes últimos, que há muitos anos deixaram de ser um simples diário virtual para se transformarem em local de debate através de conteúdos específicos e temas polêmicos, ganham novo fôlego e impulsionam novos usuários a criarem seus próprios espaços para a veiculação de suas idéias.

Nota-se que ainda compõe o ciberespaço a Comunicação Mediada por Computador (CMC). Trata-se dos usuários emissores e receptores de e-mails, newslatters, fóruns, quadros de avisos ou scrapbooks, salas de bate-papo ou chats, assinantes de feeds que frequentemente comentam em blogs. São redes que se criam e que não se prendem geograficamente já que o internauta escolhe seu grupo pelo conteúdo e raízes. Bom para a divulgação científica, dentre outras coisas.