“Salami science”, autoria contestável e o alpinismo científico

Ninguém gosta de ser avaliado e criticado. Para os cientistas, tão acostumados com suas idéias estarem “certas” e serem corroboradas e publicadas, a avaliação se torna algo até mais temeroso do que para a maioria da população. Entretanto, ninguém escapa de ser avaliado, ainda mais sob a perspectiva de ganhar financiamento (e status, claro, por que não?), passando para isso pelo “simples” desconforto e pressão de ter seu trabalho avaliado.

Um aluno comum, na escola, quando sob pressão é levado a tomar atitudes contra a nossa moral, como a “cola”. O mundo adulto não é tão diferente, por mais que nos recusemos a acreditar. As atitudes que tomamos em medidas desesperadas apenas apresentam uma “roupagem” mais bonita, com a qual podemos disfarçar o que foi feito e ganhar a simpatia da nossa classe, que pode aprovar até mesmo as atitudes mais imorais. São as desculpas que damos a nós mesmos para escapar de uma avaliação ruim, seja ela qual for.

No paradigma atual da avaliação dos programas de pós-graduação e seus pesquisadores, a CAPES se torna um fantasma assombrando a vida de todos minimamente ligados ao âmbito acadêmico. Suas normas, equações, pontuações e avaliações levam os pesquisadores muitas vezes a medidas desesperadas. Mas creio que o maior impacto de um método de avaliação tão “espartano” (joguem os fracos do precipício e fiquem com os soldados mais eficientes) é a legitimação de atitudes fraudulentas e pouco éticas.

Escalando o caminho para o “sucesso”

Principalmente em campos mais competitivos, a “salami science” é encarada como uma prática habitual, até mesmo normal. Afinal, para que fazer do seu doutorado, quatro anos de trabalho intenso, apenas uma publicação se você pode dividi-lo em duas, três ou mais partes? E dessa forma, encontramos diversos trabalhos de pequeno impacto publicados para fornecer mais uma linha no currículo do pesquisador.

Como exemplo do absurdo que a postura “salami science” pode produzir, o professor Sidney Redner da Universidade de Boston fez uma pesquisa sobre as publicações de uma das revistas de sua área, a Physical Review. Os números obtidos são assustadores: de 353.000 artigos publicados, apenas 11 tiveram mais de 1000 citações; 245.000 (a maior parte) tiveram menos de 10 citações; 100.000 tiveram uma ou nenhuma citação. Com isso podemos ver que 1/3 das publicações dessa revista não tem impacto algum. E apesar da ausência de outros estudos do gênero, há especulações que para a maioria das revistas haja um comportamento semelhante. Com isso, temos o desperdício de tempo dos pares na revisão de artigos, desperdício de tempo e dinheiro de revisores e outros trabalhadores do jornal, desperdício de impressão e postagem além do desperdício na indexagem de tais artigos. Em suma, a única pessoa que ganha com isso é o autor, uma linha a mais no currículo, um ponto a mais na sua avaliação e uma probabilidade um pouco maior de se sobressair a outro candidato em um concurso.

Dessa maneira, uma das estratégias de alpinismo científico se torna legitimada em diversos laboratórios. Ao ponto de você conversar com os professores e alunos e eles acreditarem piamente que estão trabalhando de maneira idônea. E se as publicações nos dão vantagem em concurso, além da dividir o próprio trabalho, a cooperação com outros pesquisadores também deve ser frutífera para tais objetivos. Aqui vemos a segunda estratégia de alpinismo científico mais praticada: a autoria irresponsável.

Uma idéia concebida num grupo de discussão, o uso de estrutura laboratorial e insumos de um professor, dados de coleta de informações e mesmo a figura do orientador. Quais das desculpas acima justifica a autoria de um trabalho? Quem estipula onde pára o agradecimento e começa a autoria? Até dia 16 de Setembro deste ano, ninguém.

Regulando uma postura responsável

Eis que a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) elaborou uma cartilha para dizer aos pesquisadores quem está fazendo ciência certo e quem está fazendo ciência errado (ou ao menos, quem divulga seus resultados de tal maneira). Pela primeira vez para o Brasil foi tomada uma iniciativa reguladora, na qual a FAPESP lançou o “Código de Boas Práticas científicas” que, infelizmente, ainda não apresenta medidas punitivas e corretivas específicas, mas já deve ter assustado diversos pesquisadores.

E em um dos tópicos mais amados (ou odiados) a FAPESP pronuncia que “Em um trabalho científico, devem ser indicados como seus autores todos e apenas os pesquisadores que, tendo concordado expressamente com essa indicação, tenham dado contribuições intelectuais diretas e substanciais para a concepção ou realização da pesquisa cujos resultados são nele apresentados. Em particular, a cessão de recursos infraestruturais ou financeiros para a realização de uma pesquisa (laboratórios, equipamentos, insumos, materiais, recursos humanos, apoio institucional, etc.) não é condição suficiente para uma indicação de autoria de trabalho resultante dessa pesquisa.” (tópico 2.2.6, página 6, grifo meu). Com isso, poderíamos esperar que as publicações se atentassem mais a tais especificações. Entretanto, há duas barreiras a se transpor para que isso ocorra.

A primeira é da comodidade e do lugar-comum. Não é um código com medidas punitivas etéreas que conduzirá o trabalho e publicações científicas de maneira mais ética. Para tal, ou o pesquisador se predispõe a repensar sua prática ou medidas sancionadoras chegam “de cima para baixo” e o colocam nas normas (seja a revista na qual publica, a pós-graduação que o abriga ou sua agência de fomento).

A segunda barreira é a nossa própria visão do “certo e errado” em ciência. Em um momento no qual somos bombardeados com informação de diversos tipos, e que nem toda informação apresenta autoria específica, fica difícil discutir o que é nosso e o que proveio de outrem. E a internet apresenta um papel fundamental nessa questão. E se o problema de autoria se encontra nos laboratórios, devemos verificar se não ocorre algo semelhante durante o processo de formação do pesquisador. Se durante a faculdade sua maneira de pesquisar e não citar fontes for legitimada pela correção do professor, o sentimento de que ninguém o observará a fundo prevalece. Atualmente, alguns scripts funcionam na internet para detectar os plágios, como o Farejador de Plágios, mas será que apenas a detecção do plágio é o suficiente?

Da formação à informação

A meu ver, assim como acontece com o ensino público brasileiro, a responsabilidade está passando cada vez mais adiante. É preciso ensinar as pessoas a pesquisar, derrubando a visão de que o conceito de pesquisa consiste em entrar num site de busca e coletar as informações dos primeiros sites que retornam. O senso crítico não pode ser deixado de lado em prol da informação per se. A formação do aluno vai além da reprodução do conhecimento obtido por outras pessoas. Se não abordarmos este tipo de assunto durante a formação dos pesquisadores, teremos um número cada vez maior de cientistas pouco “intelectuais” e mais “executores”, os quais não entenderão a ética nas suas atitudes e, por fim, formarão um número cada vez maior de organismos reprodutores de informação pouco críticos, cujos trabalhos não tem impacto nenhum para a sociedade (seja a sociedade geral ou acadêmica), interessados apenas no alpinismo científico.

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Ontem a tarde uma fumaça escura pairava sobre o campus da USP de Ribeirão Preto. Todo aquele carbono, que irritava os olhos e as vias aéreas dos estudantes, professores, funcionários e curiosos, era, até aquela manhã, parte integrante de uma floresta de mais de 700.000 m² de extensão. O estrago foi devastador em todas as dimensões imagináveis. Pra começar, a área atingida passou de 430.000 m². Como se não bastasse, nessa área estava contido o único banco genético de mata mesófila semidecidual do Brasil.

Um banco genético é exatamente o que o nome sugere: um local onde se deposita o material genético dos organismos. Quanto maior a variabilidade genética, melhor. Existem duas razões principais pelas quais o material genético dos indivíduos de uma espécie pode ser depositado num banco genético: (1) porque a espécie é (ou tem potencial para ser) interessante economicamente para o ser humano ou (2) porque a espécie precisa ser conservada. No primeiro caso, é comum os bancos genéticos estarem associados à instituições de pesquisa em melhoramento genético, que utilizam o material lá depositado para conduzir seus experimentos. Já no segundo caso, o panorama é bem diferente.

Como sabemos a variabilidade genética de uma população é um fator fundamental para a sua sobrevivência em longo prazo. Quanto maior a variabilidade genética, maior a chance de que alguma dessas variantes seja resistente às mudanças ambientes que inevitavelmente acontecem quando pensamos numa escala geológica de tempo. E quando áreas de matas nativas são derrubadas para a construção de cidades ou para fins agro-pecuários, a variabilidade genética das populações vegetais e animais diminui junto com o tamanho da floresta.

Sendo assim, quando pensamos em reflorestar uma área nativa degradada, não adianta só aumentarmos o número de indivíduos das espécies de plantas, por que se todos os indivíduos tiverem a mesma matriz genética (isto é, se todos forem descendentes de um grupo muito pequeno), a menor variação ambiental poderá devastar a área novamente. O ideal é plantar sementes de árvores com matrizes genéticas diferentes, para que a variabilidade genética total da população da área reflorestada seja alta (pool gênico diversificado). Isso significa que não adianta pegar as sementes geradas pelas poucas árvores que restaram na área degradada e sair plantando que nem louco, pois isso resultará numa melhoria apenas “aparente” da situação daquele ambiente.

Dessa forma, a existência de bons bancos genéticos é absolutamente fundamental quando pensamos em reflorestamentos. A área florestal que estava em chamas ontem armazenava 45 espécies e tinha uma diversidade de 4000 progênies coletados em mais de 400 localidades diferentes. Quase duas décadas de investimento e pesquisa ali, pegando fogo. Como já foi dito, esse era o único banco genético de plantas de mata mesófila semidecidual no Brasil. Além de funcionar como banco genético, muita pesquisa acadêmica também era realizada nessa área, que também abrigava projetos de ensino e de extensão universitária.

Por cima disso tudo, há um fator agravante sério. Enquanto helicópteros voavam pra lá e pra cá carregando água pra tentar apagar o incêndio, causando alvoroço dentro da USP, fora dos muros da universidade parecia que nada estava acontecendo. Repórteres e jornalistas pareciam ter algo mais importante pra cobrir do que a perda de um valioso banco genético. Quando informado sobre o assunto, o principal jornal regional limitou-se a escrever que “Pacientes que aguardavam atendimento foram retirados às pressas do campus; pelo menos 30 hectares de floresta queimaram”.

Depois de uma noite de intensa movimentação sobre o assunto nas redes sociais, feita principalmente pelos alunos da Biologia, uma manhã com resquícios de fumaça. Ao invés de helicópteros, aves carniceiras sobrevoavam o local em busca de uma refeição fácil. O descaso da mídia fez com que os docentes entrassem em contato com as agências de notícias, quase que implorando para que fosse feita uma reportagem decente sobre o ocorrido. Com esse esforço, as notícias mais recentes (como as do iG, UOL e O Globo) citam o banco genético, mas não explicam para o leitor leigo a importância desses lugares.

O que acontece? Por que o câncer do Gianecchini é considerado uma tragédia enorme em todos os noticiários, mas a perda real de uma área florestal que funcionava como banco genético custa pra virar notícia? É possível que as pessoas de fato se interessem mais por celebridades do que por ciência ou meio ambiente, mas é claro que essa pergunta não tem uma resposta simples. No entanto, talvez fosse interessante pensar sobre isso porque, pelo que parece, tem um incêndio muito mais sério se alastrando por aí, e ele está queimando a curiosidade e a inquietude das pessoas, deixando apenas galhos secos de alienação e indiferença.

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Comunicação da Ciência e Web 2.0: A Tese.

Há pouco mais de dois anos eu decidi atravessar o Atlântico em direção à Lisboa com o intuito de fazer um mestrado em História e Filosofia das Ciências, na Secção Autónoma de História e Filosofia das Ciências da Universidade de Lisboa. na época em que fui, imaginava fazer algo relacionado à divulgação científica, mas não tinha uma ideia muito clara ainda.

É curioso pra mim falar sobre esse processo agora sem me recordar de um vídeo muito interessante em que o cocriador da Apple, Steve Jobs, fala como experiências de vida aparentemente sem relação qualquer o ajudaram depois a revolucionar o próprio conceito de computador pessoal que ele próprio havia criado anos antes.

Não estou me comparando de modo algum ao Steve Jobs, evidente, mas acredito que passei por um processo similar. Com dezesseis anos comecei a trabalhar em uma gráfica como artefinalista. Por conta disso passei a me interessar por comunicação visual e design, o que me levou anos depois a fazer o curso de design gráfico da Escola Panamericana de Artes.

Terminado o curso, decidi entrar em uma faculdade. Fiz vestibular pra direito e passei mas, por uma série de complicações, acabei trocando pra ciências biológicas, sem muita vontade de seguir com o curso. Bastou-me uma semana de aulas pra eu ficar apaixonado pelo curso e seguir até o fim.

Entre o curso de design e a faculdade de biologia, eu que já era um viciado em computadores e tinha acesso à internet desde 1996, passei a me interessar por blogs. Comecei, como todo mundo que conheço, com um blog sobre coisas pessoais e fui mudando gradativamente até que 2007 comecei este singelo blog de divulgação científica. No ano seguinte, justamente por causa do blog, acabaria por me inscrever no curso de divulgação científica do Núcleo José Reis de Divulgação Científica.

E daí volto à minha tese. Estávamos lá eu e minha orientadora, a professora Olga Pombo, olhando para todo este meu background quando ouvimos, os dois, quase que ao mesmo tempo, o “clic” característico das engrenagens se encaixando e botam tudo pra funcionar. Decidimos que o tema da minha tese seria “Comunicação da Ciência e Web 2.0”.

Ora, trata-se de um tema mais que pertinente para mim. Eu poderia usar minha bagagem na comunicação visual, minha graduação em uma disciplina científica, meu interesse pela Web e meu trabalho de divulgação científica para tratar de um tema tão recente e tão importante não só para a ciência enquanto atividade, mas também para a filosofia das ciências como disciplina.

O processo do mestrado me tomou mais tempo, energia e dedicação do que eu jamais poderia prever. Como consequência, este pobre blog que foi tão importante pra que tudo isso acontecesse, acabou ficando negligenciado por este que voz escreve. Negligenciado por mim, mas não abandonado, e aqui fica meu agradecimento público, pelos meus tão queridos amigos e colaboradores que continuaram doando um pouco de seu tempo e intelecto para este singelo sítio.

Enfim, o mestrado está praticamente no fim* finalmente concluído. A tese já foi terminada e estou aguardando a defesa que deverá ocorrer nas próximas semanas e* já foi defendida, no melhor espírito Web 2.0, gostaria de compartilhar o fruto deste trabalho que tomou conta dos últimos dois anos e pouco da minha vida. Disponibilizo então, para leitura online ou download, a minha querida tese.

O título é, como já ficou evidente, COMUNICAÇÃO DA CIÊNCIA E WEB 2.0. Pro caso do título sozinho não chamar a sua atenção, deixo abaixo o índice e o resumo. Feedbacks são SEMPRE bem vindos, nem que forem só pra criticar o trabalho (desde que respeitosos, é claro).

Mas chega desse papo furado e conversa fiada e vamos de uma vez ao que interessa…

 

COMUNICAÇÃO DA CIÊNCIA E WEB 2.0

 

Resumo: Os processos comunicativos estão na base da construção da própria Ciência. Como tal, segundo a teoria de McLuhan, estão sujeitos à mudança dos meios pelos quais esta comunicação é feita, o que acaba por alterar a própria comunicação em si. Meio é mensagem, e nos últimos anos estamos acompanhando a solidificação de um novo meio digital, a Web 2.0, que permite novas formas de interação e provoca mudanças na forma como a Ciência é feita, seja ao nível horizontal da comunicação legitimadora entre os pares, seja ao nível vertical da comunicação entre as gerações (ensino), seja ao nível transversal da comunicação entre Ciência e sociedade. O que vemos hoje é a constituição de uma nova cultura acostumada à abundância e livre acesso à informação, que está no centro de uma revolução cultural e comunicativa que afeta diretamente a maneira como produzimos e comunicamos a Ciência.

Índice:

  • 1- Introdução
  • 2- Da tribo ao livro, da tinta ao pixel
  • 3- Conceitos de Comunicação da Ciência
  • 3.1- Comunicação e Construção do Conhecimento
  • 3.1.1- Comunicação horizontal entre pares
  • 3.1.2- Comunicação transversal entre a Ciência e a Sociedade
  • 3.1.3- Comunicação vertical entre Gerações
  • 3.2- Comunicação da Ciência, agentes comunicadores e comunicação transdisciplinar
  • 3.2.1- Do caráter multiplo do agente comunicador
  • 3.2.2- Divulgação Transdisciplinar
  • 4- Ciência 2.0: Comunicação horizontal da ciência em um ambiente aberto
  • 4.1- Investigação 2.0
  • 4.2- Publicação em um ambiente digital
  • 4.3- Ciência e a cultura do remix
  • 5- Divulgação Científica: A comunicação transversal da ciência

 

PS1: Como a tese foi feita em Portugal, o texto por vezes sofreu modificações para evitar possíveis confusões. É o exemplo do uso da palavra “investigação”, quando no Brasil usaríamos “pesquisa”. Em todo caso, são poucas as vezes em que esse tipo de “correção” foi empregado e o texto não sofre em clareza por conta disso.

PS2: Subi para o Google Docs uma versão em PDF para evitar a perda da formatação do texto em geral. Se vocês acham que o formato dificulta a leitura de alguma forma, aceito sugestões de opções melhores para a disponibilização da tese.

*UPDATE: A tese foi defendida no final de maio, muitas questões relevantes foram abordadas durante a defesa e eu gostei muito do processo como um todo, embora ele não deixe de ser um pouco assustador no começo. Seja como for, a nota final ficou em 17 valores, ou no esquema de notas brasileiro, 8,5 :)

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Desinteresse crônico

Observe os diálogos abaixo:

(1)

- Ei, estou lendo os livros da saga Crepúsculo e estou adorando! Tem muito mais emoção do que nos filmes! Você já leu?

- Eu não cara… Deus me livre! Me dá enjôo só de pensar em quanta bobagem deve estar escrita num livro sobre vampirinhos apaixonados! Não sei como você pode gostar de coisas tão juvenis!

- Ah, para! Se você não leu, não pode falar nada do livro!

- Mas não é possível que essa história seja boa… Me disseram que quando esses vampiros saem no sol, eles viram purpurina! Fala sério, né?

- Nossa, você é muito preconceituoso e cabeça dura! Quando forma uma idéia, ou melhor, copia de alguém, não se abre pra nenhum outro ponto de vista…

(2)

- Você viu que descobriram indícios de respiração unidirecional em crocodilianos? Isso não é demais?! Até então se pensava que só as aves tinham esse tipo de respiração!

- Nossa, mas como assim? Os crocodilos não passam nem perto de ter as mesmas demandas metabólicas que as aves…

- Exato! E eles nem são o grupo de répteis que deu origem às aves, o que indica que esse tipo de respiração pode ser simplesiomórfico pra maioria dos grupos de répteis do final do Triássico.

- Uau… Se for assim mesmo, então muito do que a gente conhece sobre evolução dos vertebrados terrestres vai ter que ser revisto.

Onde poderia ter acontecido cada uma dessas conversas? A primeira possivelmente em um lugar comum, como uma praça, um bar, um ônibus, na sala de estar, no MSN… Enfim, praticamente em qualquer lugar. Mas a segunda, por algum motivo, parece que só poderia acontecer num ambiente acadêmico: alunos nerds conversando num final de palestra ou talvez docentes batendo papo num café. O segundo diálogo parece ser deslocado, como se fosse preciso um certo nível de “anormalidade” por parte dos participantes para que ele aconteça. Afinal de contas, quem em sã consciência conversaria sobre… simplesiomorfias?

Mas, se pensarmos bem, qual é o problema em conversar sobre simplesiomorfias? Porque as pessoas acompanham de perto os lançamentos de CDs, filmes e livros que gostam, mas não fazem o mesmo esforço para acompanhar as descobertas científicas de alguma área que tenham interesse? A resposta sincera é triste: porque as pessoas não têm muito interesse pela Ciência. Por algum motivo, interessa a todos saber em detalhes a biografia daquele artista bacana, mas não a dos cientistas e outros personagens que, de certa forma, moldaram a forma como enxergamos as coisas. Todo mundo quer saber da onde a Lady Gaga tirou a idéia de usar uma roupa de carne, mas ninguém quer saber da onde Copérnico tirou a idéia de que a Terra gira em torno do Sol ou Darwin tirou a idéia da seleção natural.

Por muito tempo a Ciência era chamada de filosofia natural, e um sábio certa vez disse que “o início da filosofia é a admiração. A filosofia é a expressão humana da curiosidade sobre tudo, sua tentativa de entender o mundo por meio de seu intelecto”. Assim, a Ciência seria uma extensão da curiosidade humana, que começa com a admiração. Mas ninguém mais se admira com as estrelas ou os animais, e sim com reality shows e escândalos dos famosos.

Por que isso acontece? O que tem de errado com a Ciência? Por um lado, ninguém discorda que ela é absolutamente importante pra humanidade, mas, por outro, parece haver um consenso de que não é importante conhecer a história da Ciência, ou saber como ela funciona. Na verdade, até mesmo o conhecimento construído por ela parece entediar (ao invés de fascinar) muita gente. “Ah, respiração unidirecional…legal…”

Talvez a Ciência seja chata e entediante, e por isso atraia poucas pessoas. Mas pode ser que não. Talvez ela seja formidável e instigante, mas por algum motivo as pessoas não consigam perceber isso. Pesquisas sobre a imagem pública da Ciência revelam que o cidadão comum sabe muito pouco a respeito das práticas científicas e tem um domínio limitado de alguns conceitos centrais. A possibilidade de a Ciência ser chata ainda não está descartada, mas essas pesquisas mostram que a Ciência que as pessoas desgostam não é a mesma que é praticada laboratórios adentro.

Sendo assim, é bem possível que as pessoas não se interessem pela Ciência por não conhecê-la muito bem. Se for isso, então seria suficiente que as pessoas conhecessem a Ciência mais de perto. Podemos com justiça nos rebelar contra nosso sistema de ensino, que tem aulas de “ciências” em todos os 12 anos do ensino básico e mesmo assim forma alunos pouco proficientes. A escola (e os governos que definem e executam suas diretrizes) tem, sim, uma grande parcela de culpa nessa questão. Mas colocar a culpa no governo é uma das formas mais clássicas de se eximir de responsabilidade. Além disso, quando falamos de mudanças curriculares nas escolas, estamos falando de um prazo bastante longo; décadas.

Haveria outras formas de aumentar o conhecimento e o interesse do grande público pela Ciência? Talvez um dos grandes problemas seja a forma dogmática com que a Ciência chega ao público. As pessoas podem discordar a respeito de se um livro ou um CD é bom ou ruim, mas parecem não achar que podem discordar das coisas que vêm da Ciência. Se tudo que a Ciência diz é certo e definitivo, então realmente não tem muito o que ficar conversando sobre ela. Fosse o campo aberto de debates da Ciência revelado, um grande passo seria dado.

O que poderia, então, ser feito? Será que se os jornais tivessem um caderno de Ciência num formato diferenciado, ou as revistas que prometem dietas milagrosas falassem um pouco de fisiologia, as coisas poderiam melhorar? E se as revistas discutissem mais Ciência e menos a vida das celebridades (ou incluíssem cientistas como celebridades e falassem sobre a vida deles)? E se os telejornais e documentários expusessem as descobertas científicas num tom menos impositivo? Será que exposições científicas a preços acessíveis ajudariam? Que tal trocar o “show da Física” por quadros mais condizentes com a prática científica nos programas de domingo? E se cientistas fossem convidados com mais freqüência pra talk shows e os livros de divulgação fossem mais baratos? Viajando um pouco mais: e se as chapinhas viessem com uma explicação de como elas deixam o cabelo liso no manual, ou se os antibióticos contassem a história da descoberta acidental da penicilina na bula? E se na etiqueta dos cobertores viesse escrito “você sabia que não é cobertor que te esquenta, mas é você que esquenta o cobertor?”

Exageros a parte, a mensagem que fica é que as pessoas não conhecem a Ciência, mas há diversas formas de tentar reverter a situação. Algumas podem estar a nosso alcance: desafiar o irmão caçula a descobrir porque o cacto morre se for regado ou explicar pra mãe porque a cebola faz chorar já pode ser um começo. Puxar assuntos científicos na roda de amigos também pode ajudar (falar mal do show da Física é uma boa pedida!).  Podemos ir além e enviar cartas pro jornal que assinamos reclamando da finura do caderno de Ciência ou descer a lenha em portais na internet que divulgam que os cientistas da NASA descobriram uma “bactéria alienígena” ou que “o ornitorrinco é uma mistura de ave, réptil e mamífero”. Indicar e emprestar livros de divulgação pros amigos também é válido. São coisas pequenas que podem fazer alguma diferença.

Ou não. O buraco pode ser mais em baixo. Pouca gente se interessa por política e economia também, e esses temas são bem melhor divulgados na mídia do que a Ciência. Talvez o desinteresse crônico das pessoas seja um sintoma do fim dos tempos. Esperemos que não.

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Bola Recuada, Jornalismo Esportivo e Divulgação Científica

Pois se em Copa do Mundo o tema é recorrente, o jornalismo esportivo anda mesmo muito a desejar. Em informações interessantes, claro. É só ligar a tevê e as reportagens se repetem, e como há quatro anos atrás:

• rivalidade entre Brasil e Argentina. A novidade fica por conta da propaganda de cerveja;
• bate-papos informais com ex-jogadores de futebol e algumas celebridades emergentes. O que será que Bruna Surfistinha tem a dizer?
• filmagens com os estrangeiros e suas colônias. E a saia justa de todo repórter: se o seu país for para a final com o Brasil, pra quem você torcerá?
• mitos pra lá, mitos pra cá. E na história de todas as Copas do Mundo isso, e aquilo, e coisa e tal.
• mais uma vez um jogo de estréia a desejar. Torcedores frustrados.

E se essa Copa do Mundo é aquela que mais investiu em tecnologia – dizem que a FIFA superestimou o poder das vuvuzelas, que atrapalham na recepção de som e, consequentemente, da transmissão televisiva – por que eu sinto falta de matérias mais elaboradas, com conteúdos mais reflexivos?

Uma vez a Tv Cultura passou uma série ótima e polêmica sobre o esporte: Mais que um jogo. Já tem uns dez anos isso, e eu nunca me esqueço. É que fui apresentada por uma verdade escamoteada, a do dopping com toda ciência e consciência aí envolvidas, ou não. E por que não aproveitar o momento para oferecer à população um pouco de informação científica? O dopping genético, por exemplo, é assunto pra lá de polêmico. Mas, mais próximo ao futebol e à própria Copa do Mundo está a confecção dessa nova bola, envolvida em muita ciência e tecnologia. Não daria margens para muitos programas de cinco minutos? Uma série, um qualquer coisa com um conteúdo das ciências, o futebol como fator de formação científica básica?

Eu tenho uma teoria, que é subjetiva, cuja conclusão me surge sem método nem estatísticas. É apenas uma observação empírica da coisa. Os jornalistas, e os repórteres, e o pessoal da comunicação não está muito habituado em trabalhar com a linguagem científica, mesmo sendo o futebol a paixão nacional. Talvez porque a ciência e a tecnologia sejam paixão apenas de alguns. Ou, do outro lado, no capitalismo da coisa, está a ponta da massificação da informação e coisa e tal.

Penso que, nos próximos seis anos, com a Copa do Mundo de 2014 a ser sediada no país, bem como os Jogos Olímpicos de 2016; penso que talvez esse pudesse ser o momento de levar à população reflexões mais críticas sobre os fatores envolvidos nesses eventos, principalmente em relação ao retorno para a nação. Não só, mas incluindo aí o conhecimento científico.

Por que é que nas últimas Olimpíadas a cobertura televisiva contou com mais desses artifícios e realizou mais embates científicos e tecnológicos? Câmera de movimentos lentos para entendermos a evolução técnica dos atletas, explicações sobre os recordes na piscina olímpica e sua construção tecnológica e etc, etc, etc. Por que o futebol parece ter sua discussão suficiente pela paixão nacional?

Por que as diversas mídias não vão aos laboratórios espalhados pelas universidades país afora para mostrar as evoluções científicas e tecnológicas que envolvem a preparação do atleta? Tem tanta informação diferente a ser pescada que me parece burrice um jornalismo esportivo feito de mesmices. O canal de cá com a mesma linguagem que o canal de lá. Competitividade, provavelmente.

Claro que não digo em 100%, digo de uma maioria. De qualquer forma, fica o alerta. Um país não se constrói só de paixão nacional. Tem muitas outras coisas aí que merecem entrar em pauta. E uma boa parte delas tem a ver com a Divulgação Científica. Isso, para que a bola não fique recuada no processo de crescimento do país.

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A Literatura de Cordel e a Leitura Científica

As possibilidades da Divulgação Científica são muitas. Algumas tradicionais, outras nem tanto. O fato é que em toda a possibilidade de comunicação há igualmente a possibilidade de divulgação científica. Simples assim. E como bem sabe o marketing e a publicidade, qualquer lugar pode vir a ser um suporte para as estratégias de ação. A mesma coisa se pode dizer da divulgação científica. A diferença é que esta última, em oposição ao marketing e a publicidade, ainda não está na boca do povo. Assume-se por uma distância e pelos esforços de aproximá-la do grande público, em luta de espaço contra o capital tomado pelas mídias de massa. Preferências de um mundo formado por gerações e mais gerações focadas no consumismo e na descartabilidade das coisas e das pessoas.

O instrumento da leitura, assim que adquirido, passa a ser inato ao ser humano, que lê de um tudo que lhe cai à frente: caixas de cereais, bulas de remédios, placas, propagandas, legendas de filmes, livros, notas de rodapé. E quanto maior o uso das letras, maior a incorporação da linguagem se faz para o dentro de cada um de nós. Também a música se faz de linguagem, e letra. E de olho nessa capacidade de comunicação, o marketing e a publicidade, nada bobos, fizeram uso dela através dos jingles, sempre presentes em comerciais de televisão e rádio, dois excelentes suportes para a divulgação científica. Do mais alto nível do uso da linguagem, com suas perfeições acadêmicas, ao mais popular e uso corriqueiro que dela se faz, específicos das tradições populares ou das tradições orais, como os cordéis, um tipo de poesia popular impressa em folhetos rústicos expostos para venda pendurados em cordas (ou cordéis), se faz comunicação e, portanto, divulgação científica.

A leitura científica permite a aproximação entre a população e a ciência. Propicia um aprofundamento de conceitos. Geralmente sugerem-se: a revista Ciência Hoje (publicação da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência), a revista eletrônica Café Orbital (publicação do Observatório Nacional), as revistas Scientific American e Scientific American Brasil (publicação da Editora Duetto), dentre outras como a Galileu (da Editora Globo), etc. Na ponta, os folhetos, o cordel, escritos em forma rimada e ilustrados com xilogravuras.

Nessa onda, o cordelista e presidente da Academia Brasileira de Literatura de Cordel, Gonçalo Ferreira da Silva, lançou sua coleção Ciência em Versos de Cordel (publicação da editora Rovelle). Autor de diversos títulos com a temática da ciência, Gonçalo teve esse seu trabalho minuciosamente selecionado para dar origem a 12 livros infantis usando a literatura de cordel como suporte. São eles: Corpos Celestes, Microbiologia, Naturalismo, Natureza, Saúde, Criação, Imprensa, Astronomia, Mecânica, Matemática, Pensamento e Filosofia. Clap! Clap! Um bom exemplo do uso da leitura, das tradições e dos valores regionais para divulgar conceitos da ciência.

E que tal recitar esses versos de forma melodiosa e cadenciada, acompanhados da viola? Os saraus agradecem, e o público também, afinal, conhecimento nunca é demais. Para você, uma boa leitura científica.

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Podem os vírus ter-nos tornado humanos? – Parte I

A questão começou por ser filosófica. Numa sessão da American Philosophical Society de 15 de Novembro de 2003, o virologista Luis P. Villarreal, director do Centro de Investigação em Vírus da Universidade da Califórnia em Irvine perguntava: «Can Viruses Make Us Human? A ciência tinha uma resposta objectiva. Não. Os vírus, que nem sequer seres vivos são considerados, são parasitas moleculares cujo interesse primordial consiste em induzir doenças no seu hospedeiro. Neste sentido, os vírus são qualquer coisa de maléfico. Veja-se o caso do VIH causador da SIDA que todos os anos ceifa milhares de vida em todo o mundo. Ou o vírus H1N1 que ameaçava dizimar populações inteiras. Ou ainda o temível vírus Ébola que nos filmes é-nos apresentado como uma espécie de assassino em série. Ou então o mais contido vírus da gripe sazonal que todos os anos faz com que milhões de pessoas passem os seus dias a espirrar. Para tornar tudo isto ainda mais grave, não há forma de os combater. Por conseguinte, como podem os vírus ter-nos tornado humanos? Não, para nós, o grande plano dos vírus sempre foi exterminar os humanos. Acontece que, além da objectividade pura não existir, a resposta da ciência a esta questão está profundamente afectada por uma subjectividade. Na verdade, alguns cientistas têm sido de tal modo convincentes que nós acreditámos sem qualquer resistência nos seus delírios. Estamos pois todos dentro ou fora da realidade, como acontece nos chamados delírios partilhados. Provavelmente, mais fora do que dentro. Talvez aqui a filosofia possa dar uma ajuda. Por exemplo, segundo Peirce, a realidade é tudo aquilo que nos provoca resistência. Quer isto dizer que se há qualquer coisa que cause resistência à nossa expectativa, então é provável que essa qualquer coisa seja real. A ciência é uma incessante busca pela realidade. E é escrita a lápis de carvão. Porque a ciência vive na eminência de ter de ser rescrita uma vez, e outra vez, e ainda mais outra. Aliás, a história da ciência é um livro rasurado em todas as suas páginas. O caso dos vírus é um exemplo bastante eloquente. Investigações recentes têm defraudado persistentemente as nossas expectativas. O que significa que, por certo, nos aproximamos cada vez mais da realidade.

Para hoje vejamos apenas o caso dos retrovírus endógenos. Em 2003 foi publicado um artigo muito interessante nos Proceedings of The National Academy of Sciences. Nele se falava sobre a capacidade que estes retrovírus apresentam na regulação do crescimento e diferenciação da placenta em ovelhas. Quer isto dizer que as ovelhas contém no seu genoma aproximadamente 20 cópias de um retrovírus endógeno altamente relacionado com o retrovírus exógeno e patogénico Jaagsiekte. Sendo endógeno e abudantemente expresso no tracto genital das ovelhas, ele não vai causar doença mas antes dar um contributo decisivo na morfogénese da placenta. E de tal forma que se for inactivado, então o desenvolvimento embrionário torna-se inviável. Ou seja, sem este vírus as ovelhas depressa deixavam de ser ovelhas.

Mas não se pense que isto é uma aberração da natureza sem qualquer significado. Na verdade, os retrovírus endógenos abundam nos genomas dos vertebrados, incluindo os humanos. Estima-se que 10% do nosso genoma contém sequências de origem retroviral muito diferentes entre si mas englobadas na denominação genérica de retrovírus endógenos humanos. E, espantem-se, pouco tempo depois de ter sido detectado nas ovelhas o tal retrovírus endógeno com funções na morfogénese da placenta, o mesmo retrovírus foi detectado por uma equipa de investigadores no útero de uma mulher justamete com as mesmas funções.

(continua)

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Com o coração do lado direito

Há dias, estava eu a tentar por ordem nas dezenas de ficheiros que flutuam no ambiente de trabalho do meu notebook, quando de repente me salta aos olhos um artigo sobre competição espermática. Ah, os espermatozóides! Lembrei-me logo de uma história que eu costumo sempre contar quando pretendo mostrar a alguém como a lógica da vida nos prega uma valente rasteira de cada vez que julgamos saber tudo. 

Woddy Allen

Os espermatozóides, como todos sabem, têm uma cauda. E é precisamente essa cauda que lhes permite moverem-se com todo aquele vigor olímpico merecedor de uma ode pítica. Os biólogos chamam-lhe flagelo. A sua construção inicia-se com uma proteína chamada tubulina, que se organiza em longas estruturas tubulares, formando microtúbulos, que por sua vez se organizam em pares e se dispõem em círculo. Entre cada par, uma outra proteína chamada dineína põe ordem no sítio. Surge então o flagelo em todo o seu esplendor. Mas os espermatozóides não têm o exclusivo comercial destas estruturas. Os cílios, por exemplo, estruturalmente semelhantes aos flagelos mas mais curtos, batem aos molhos no nosso tubo respiratório, com a função de escoarem o muco e de filtrar e aquecer o ar inspirado. Os lagos e os mares estão cheios de microorganismos feitos de uma célula só rodeada por eficientes cílios e flagelos que lhes permitem mover-se de um lado para o outro. Os flagelos e os cílios são uma espécie de invenção mirabilis da Natureza. Mas como não há bela sem senão, é por causa deles que algumas pessoas têm o coração do lado direito. Pois. Do lado direito.

Como dizia há pouco, a dineína é a proteína que põe ordem no sítio e, mais importante ainda, gera a força mecânica necessária ao movimento dos cílios e dos flagelos. O que significa que, quando há uma falha na sua produção, instala-se um verdadeiro caos. Os flagelos e os cílios não batem e, por conseguinte, as células não podem cumprir a sua missão. A desordem instala-se. E se os espermatozóides não nadam então os homens afectados são estéreis. E se os cílios do tubo respiratório não batem então surgem as bronquites recorrentes e as sinusites e otites crónicas e aqueles narizes sistematicamente atolados em ranhoca e cheios de pólipos no seu interior. E se os flagelos e os cílios não batem então o coração fica do lado direito. Cinquenta por cento dos indivíduos que sofrem de síndrome da imotilidade ciliar sofre também de situs inversus com dextrocardia. Quer isto dizer que a assimetria corporal, definida pelas posições descentradas de órgãos ímpares como o coração, o intestino, o fígado e o apêndice, se encontra invertida e dá origem a pessoas simétricas das pessoas normais. É como se a imagem do espelho tomasse vida. Os que padecem conjuntamente dos três problemas, espermatozóides imóveis, cílios imóveis e situs inversus, dizem-se afectados pela síndrome de Kartagener, um subgrupo da síndrome da imotilidade ciliar. Kartagener porque foi precisamente este senhor que em 1933 fez com que este síndrome passa-se a letra impressa nos livros de medicina.

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A Prenhez Tubária, o Anticoncepcional e a Divulgação Científica

Fornecer informações de um modo acessível à população é o principal objetivo da Divulgação Científica. Digo de se traduzir aquela linguagem técnica, de difícil absorção, cheia de latins e de palavras que passam ao largo do uso cotidiano, como no caso das ciências e suas expressões mais puras. Nelas e nas mais diversas áreas.

E por quê não usar o dicionário?
Divulgação: ato ou efeito de tornar pública alguma coisa; difusão, propagação, vulgarização. (Houaiss)

Repito: difusão, propagação, vulgarização. Três palavras adequadas ao propósito deste texto. E um incômodo. Explico:

Recentemente passei por uma cirurgia para a retirada de um pedaço de uma das trompas, em decorrência de uma gravidez ectópica (quando o feto se desenvolve de forma tubária). Por certo, uma fatalidade. Maior ainda pelo fato de eu estar tomando Mesigyna®, anticoncepcional injetável fabricado pela Bayer do México e comercializado aqui no Brasil pela Schering.

A parte interessante desse tipo de anticoncepcional trata-se do fato dele ser administrado mensalmente por via intramuscular profunda, de forma extremamente lenta e, portanto, há registro de cada dose na farmácia em que a injeção é aplicada. Coisas das legislações, ainda bem, pois assim levanto a possibilidade de entrar com um processo contra o laboratório.

E é aí que encontro o primeiro incômodo e penso no quanto é importante a Divulgação Científica. Afinal, de que se trata aquela porcentagem de ineficácia (geralmente 1%) presente em todas as bulas dos anticoncepcionais?

“Quando usado corretamente, o índice de falha é de aproximadamente 1% ao ano (uma gestação a cada 100 mulheres por ano de uso). O índice de falha pode aumentar quando os intervalos entre as injeções são prolongados.” (Bula do Mesigyna®).

“Os COCs [Contraceptivos Orais Combinados] são utilizados para prevenir a gravidez. Quando usados corretamente, o índice de falha é de aproximadamente 1% ao ano. O índice de falha pode aumentar quando há esquecimento de tomada dos comprimidos ou quando estes são tomados incorretamente, ou ainda em casos de vômito dentro de 3 a 4 horas após a ingestão de um comprimido ou diarréia intensa, bem como interações medicamentosas.” (Bulas do Yaz® e do Yasmin®).

“Contraceptivos orais combinados, quando usados corretamente, o índice de falha é de aproximadamente 1% ao ano. A ingestão irregular pode levar a sangramentos intermenstruais, além de reduzir a eficácia terapêutica e o efeito contraceptivo de Diane® 35.”

É tanta repetição que levanta até suspeitas. Algo do tipo os laboratórios se precaverem de ações legais caso algo ocorra distante do previsto e coisa e tal. E apenas isso?

Por certo devem haver estudos científicos que apresentam tal margem de erro e, como dizem os manuais de métodos de pesquisa, principalmente no tocante as estatísticas e validade dos experimentos nos quais as variáveis são controláveis.

Consenso: várias técnicas estatísticas são necessárias para permitir a descrição das características dos dados, testar relações de conjunto entre os dados e suas diferenças. Geralmente o resultado é uma média.

No caso da eficácia dos anticoncepcionais, o conceito utilizado em técnicas estatísticas é o de confiabilidade (e não o de probabilidade, como muitos podem achar). Envolve pesquisa correlacional (entre as variáveis) e isso significa haver um coeficiente de correlação, que pode ser alto ou baixo, satisfatório ou insatisfatório.

E as dúvidas vão aumentando: cientificamente, de que se trata o uso correto de uma substância? Esta falha de 1% do uso dos anticoncepcionais injetáveis é determinada a partir de quê? Do esquecimento de uma das doses? Do erro na administração da ingestão? Ou refere-se mesmo à ineficácia da substância para determinados organismos? Dentro deste 1%, qual é a porcentagem destinada ao uso inadequado da substância? E em relação à interação com outros medicamentos? Afinal, como é calculado este 1%? E outras tantas perguntas, para tantas variáveis…

Entre as variáveis, por certo que outros fatores estão envolvidos, e que representam o mundo científico: a amostra populacional, a validade das medidas e a expressão de fidedignidade por meio da correlação. E tudo isso promove uma margem de erro.

Mas, afinal, essa margem de erro é suficiente para o laboratório eximir-se da responsabilidade de ineficácia de um medicamento? Todos lembram do caso da pílula de farinha.

Em uma pesquisa breve relacionada na internet, verifico haver muitas mulheres na mesma situação do que a minha. E muitas delas questionando o laboratório judicialmente. Se há um argumento que possa ser válido, eu aposto na confiabilidade.

E não digo apenas em relação ao método científico em si, mas de todo o entorno. É fato de que os anticoncepcionais são vendidos por sua confiabilidade e não pela possibilidade do erro.

Onde entra a Divulgação Científica nisso tudo? No acesso à informação. Essa eu só fui procurar depois do ocorrido, para então ouvir de especialistas frases do tipo:

- esse medicamento quando não funciona tem um alto risco de gravidez ectópica;
- nossa farmácia parou de aplicar o medicamento porque muitas mulheres relataram passar mal, então o laboratório veio pedir para voltarmos a aplicar o medicamento;
- é bobagem processar o laboratório já que nenhum método para evitar a gravidez é 100% seguro.

Independente dos argumentos, uma coisa é fato: o acesso à informação, a popularização da ciência, sua vulgarização poderia ter me permitido correr esse risco de gravidez ectópica de uma forma mais consciente. Afinal, eu poderia ter aliado o anticoncepcional com o uso da camisinha. Ou com o uso de um DIU. Ou outra combinação possível.

Aqui, eu entraria com o debate pelos argumentos da bioética e coisa e tal. É fato que nós somos responsáveis pelos nossos atos, e, neste caso acima relatado, os laboratórios também não o são?

De qualquer forma, ressalto a importância da Divulgação Científica para a tomada de decisão das pessoas, para que elas evitem incômodos. Inclusive quando se quer usar da própria ciência em um processo judicial.

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Divulgação Científica: Uma atividade sem conceito?

Não acredito que haja hoje um só cientista que não defenda a prática da divulgação científica, ainda que muitos deles não se dêem ao trabalho de produzir uma só linha de texto com este fim. Ainda assim, não da pra ignorar que o passado da atividade é cheio de louros e heróis.

Isaac Asimov, Stephen Jay Gould, Carl Sagan, Julian Huxley, Richard Dawkins e nossos brasileiríssimos Marcelo Gleiser e o pai da divulgação científica tupiniquim José Reis, só pra citar os mais conhecidos. Todos eles lembrados como homens incansáveis no trabalho de popularização da ciência.

Foram estes nomes que inspiraram uma série de novos indivíduos a continuarem seus trabalhos e, graças ao advento da internet e da web, o que vimos nos últimos tempos é a proliferação de blogs e sites preocupados em levar a ciência ao público por vezes referido como leigo. Este blog, claro, não é diferente e eu, como tantos outros, também tenho minhas dívidas com estes grandes divulgadores.

Daí que com tantas boas inspirações, a nova geração de divulgadores científicos já nasceu com uma ideia pré-formatada de modus operandi do divulgador e as vezes nos esquecemos de parar um minuto para pensarmos, o que é, de fato, a divulgação científica.

Público alvo não é conceito.
Por vezes vejo o conceito de divulgação científica se confundindo com a definição de seu público alvo. Isso por que cada vez que nos deparamos com um texto que fale de ciência para “não cientistas”, o classificamos imediatamente como divulgação científica.

Mas “não cientista” ou “público leigo” são definições generalistas demais, que acabam por esconder um problema que é óbvio para quase todos os tipos de ferramentas de comunicação. Quando dizemos “não cientistas” incluímos aí um espectro de público de múltiplas idades e níveis educacionais. Fazemos pior até, excluímos o próprio cientista.

Pode parecer bobagem imaginar que o cientista é alvo da divulgação científica. Mas não da pra negar o fato de que já a um bom tempo a ciência vem exigindo que seu praticante seja cada vez mais especialista, ao passo que a produção científica cresce de maneira assustadora. É evidente então que um biólogo não consiga acompanhar o que acontece na física. Com efeito, um biólogo especializado em comportamento reprodutivo de tubarões pode não estar em dia com as novidades de, digamos, áreas como a entomologia.

Como classificar então este cientista? Como “leigo”? Mas é um leigo igual a dona de casa? Se não é, então quais os tipos de leigos? E os tipos de não cientistas? Pior ainda é quando usamos o termo “divulgação para um público mais geral”, como eu, talvez erroneamente, muitas vezes cansei de fazer.

Vemos então a divulgação científica que dificilmente pode ser definida como “ciência traduzida para não cientistas”. Temos um público em potencial grande demais para definirmos toda a atividade de forma tão simplória.

Apesar disso, a ideia de “tradução” não é exatamente ruim. Mas é preciso considerar a diversidade de público para o qual tentamos comunicar uma atividade que é igualmente diversificada.

Uma narrativa autoritária?
Passando do conceito ao conteúdo, escrevi em outro texto que a divulgação científica atual consiste muito mais em explicar conceitos e teorias. Vou além, o grosso do conteúdo de divulgação científica produzido desde sempre, segue esta mesma métrica.

Não questiono a validade deste tipo de conteúdo, especialmente em um país com graves problemas educacionais. O problema é que a ciência é muito mais do que a teoria da evolução, ou o big bang, ou mesmo o conjunto completo de todas as teorias e conceitos já formulados.

Uma divulgação científica preocupada exclusivamente em ser explicativa não cumpre o papel básico de divulgar. E não o faz por que explicar uma teoria qualquer não basta. É preciso explicar o que é uma teoria, divulgar o dia a dia do cientista, explicar os processos internos de validação da ciência, e por aí vai.

Quando deixamos esta parte de fora, criamos uma narrativa autoritária, mesmo sabendo que na ciência o questionamento tem papel central. Blindamos a atividade, apresentando apenas um produto final que pode ser menos interessante do que o processo que nos levou até ele.

É preciso sujar um pouco a ciência. Mostrar que, assim como em qualquer atividade humana, também nela se erra. Mostrar que cientistas também tem problemas com seus egos. Mostrar que também sofremos com as mazelas políticas. Enfim, mostrar que não somos esta torre branca de onde verdades e coisas boas saem, ainda que ninguém entenda como.

Mas e o conceito?
Desculpem, vou ficar devendo. Acredito que a divulgação científica, embora não seja exatamente nova, ainda tem muito o que caminhar. Além disso, o papel deste texto é provocar algumas reflexões e discussões, bastante necessárias ultimamente.

É importante discutirmos sobre blogs de ciência e assuntos similares? Sem dúvida. Mas não podemos deixar de também discutirmos as bases da atividade. Andamos tão preocupados em discutir sobre os meios que esquecemos de olhar para a mensagem.

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