Divulgação Científica: Uma atividade sem conceito?

Não acredito que haja hoje um só cientista que não defenda a prática da divulgação científica, ainda que muitos deles não se dêem ao trabalho de produzir uma só linha de texto com este fim. Ainda assim, não da pra ignorar que o passado da atividade é cheio de louros e heróis.

Isaac Asimov, Stephen Jay Gould, Carl Sagan, Julian Huxley, Richard Dawkins e nossos brasileiríssimos Marcelo Gleiser e o pai da divulgação científica tupiniquim José Reis, só pra citar os mais conhecidos. Todos eles lembrados como homens incansáveis no trabalho de popularização da ciência.

Foram estes nomes que inspiraram uma série de novos indivíduos a continuarem seus trabalhos e, graças ao advento da internet e da web, o que vimos nos últimos tempos é a proliferação de blogs e sites preocupados em levar a ciência ao público por vezes referido como leigo. Este blog, claro, não é diferente e eu, como tantos outros, também tenho minhas dívidas com estes grandes divulgadores.

Daí que com tantas boas inspirações, a nova geração de divulgadores científicos já nasceu com uma ideia pré-formatada de modus operandi do divulgador e as vezes nos esquecemos de parar um minuto para pensarmos, o que é, de fato, a divulgação científica.

Público alvo não é conceito.
Por vezes vejo o conceito de divulgação científica se confundindo com a definição de seu público alvo. Isso por que cada vez que nos deparamos com um texto que fale de ciência para “não cientistas”, o classificamos imediatamente como divulgação científica.

Mas “não cientista” ou “público leigo” são definições generalistas demais, que acabam por esconder um problema que é óbvio para quase todos os tipos de ferramentas de comunicação. Quando dizemos “não cientistas” incluímos aí um espectro de público de múltiplas idades e níveis educacionais. Fazemos pior até, excluímos o próprio cientista.

Pode parecer bobagem imaginar que o cientista é alvo da divulgação científica. Mas não da pra negar o fato de que já a um bom tempo a ciência vem exigindo que seu praticante seja cada vez mais especialista, ao passo que a produção científica cresce de maneira assustadora. É evidente então que um biólogo não consiga acompanhar o que acontece na física. Com efeito, um biólogo especializado em comportamento reprodutivo de tubarões pode não estar em dia com as novidades de, digamos, áreas como a entomologia.

Como classificar então este cientista? Como “leigo”? Mas é um leigo igual a dona de casa? Se não é, então quais os tipos de leigos? E os tipos de não cientistas? Pior ainda é quando usamos o termo “divulgação para um público mais geral”, como eu, talvez erroneamente, muitas vezes cansei de fazer.

Vemos então a divulgação científica que dificilmente pode ser definida como “ciência traduzida para não cientistas”. Temos um público em potencial grande demais para definirmos toda a atividade de forma tão simplória.

Apesar disso, a ideia de “tradução” não é exatamente ruim. Mas é preciso considerar a diversidade de público para o qual tentamos comunicar uma atividade que é igualmente diversificada.

Uma narrativa autoritária?
Passando do conceito ao conteúdo, escrevi em outro texto que a divulgação científica atual consiste muito mais em explicar conceitos e teorias. Vou além, o grosso do conteúdo de divulgação científica produzido desde sempre, segue esta mesma métrica.

Não questiono a validade deste tipo de conteúdo, especialmente em um país com graves problemas educacionais. O problema é que a ciência é muito mais do que a teoria da evolução, ou o big bang, ou mesmo o conjunto completo de todas as teorias e conceitos já formulados.

Uma divulgação científica preocupada exclusivamente em ser explicativa não cumpre o papel básico de divulgar. E não o faz por que explicar uma teoria qualquer não basta. É preciso explicar o que é uma teoria, divulgar o dia a dia do cientista, explicar os processos internos de validação da ciência, e por aí vai.

Quando deixamos esta parte de fora, criamos uma narrativa autoritária, mesmo sabendo que na ciência o questionamento tem papel central. Blindamos a atividade, apresentando apenas um produto final que pode ser menos interessante do que o processo que nos levou até ele.

É preciso sujar um pouco a ciência. Mostrar que, assim como em qualquer atividade humana, também nela se erra. Mostrar que cientistas também tem problemas com seus egos. Mostrar que também sofremos com as mazelas políticas. Enfim, mostrar que não somos esta torre branca de onde verdades e coisas boas saem, ainda que ninguém entenda como.

Mas e o conceito?
Desculpem, vou ficar devendo. Acredito que a divulgação científica, embora não seja exatamente nova, ainda tem muito o que caminhar. Além disso, o papel deste texto é provocar algumas reflexões e discussões, bastante necessárias ultimamente.

É importante discutirmos sobre blogs de ciência e assuntos similares? Sem dúvida. Mas não podemos deixar de também discutirmos as bases da atividade. Andamos tão preocupados em discutir sobre os meios que esquecemos de olhar para a mensagem.

Leia também:

7 Comentários
Categoria: blog
A Letra Corrida da Divulgação Científica

É fato existir uma competição científica mundo afora. O laboratório de lá distante do laboratório de cá. Mais vezes uns contra os outros do que todos em prol da ciência. E isso é um paradoxo, uma dialética marxista. No limite, o monopólio químico-farmacológico das descobertas científicas reflete um capitalismo contemporâneo. Uns lutam para serem melhores que os outros. E os estímulos nacionais e mundiais aparecem: Olimpíadas de ciências, de tecnologia, de engenharia e matemática. Por aí afora, qual é a letra da Divulgação Científica?

Por certo que, dentro do contexto, é letra corrida, e armamentista. Letra de capacitações, sistemáticas e feitas para gerarem lucro. Como se as manchetes dos jornais competissem entre si, pelas melhores descobertas, pelo furo, pelo apelo da ciência e, em comum, a esperança de cura para a humanidade. E isso é um paradoxo, uma dialética marxista. E a briga continua entre as ciências naturais e humanas, todas buscando seu lugar ao sol, buscando o estado de dentro, sua tradução em palavras para que chegue até o receptor mais longínquo. Aquele bóia fria que não sabe ler, que vive da tradição oral. Uma metáfora para lembrar que letra não é apenas escrita, posta em papel, mas que há um conjunto de recursos, e são amplos, a disposição da Divulgação Científica.

História oral é letra popular. Independe de ser cursiva, de forma, caixa alta, digital. Letra é signo. É símbolo. É um corpo mudo que pode ser ouvido por alguém. E é aí que entra a ciência, e suas metodologias, para dar forma ao que não se ouve, não se vê com olhos comuns, não se encontra nos paradoxos. É letra corrida, que vai daqui para ali, e dali para acolá. Como os causos, os mitos, as lendas das tradições orais. Quanto de ciência não está dentro delas? Alguém duvida?

Leia também:

Nenhum comentário
Categoria: blog
Copenhague 2009

A história de conferências mundiais com a temática do meio ambiente começa em 1972 em Estocolmo na Suécia. Esse encontrou levou a reunião de 113 países e várias ONGs de todo o mundo, e é considerado o marco-zero dos debates sobe meio ambiente, além de ter dado origem a criação do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma).

Passados 20 anos, no Rio de Janeiro realizou-se a Rio-92 – Convenção sobre Mudança do Clima, com o intuito de discutir as questões ambientais e redução dos gases causadores do efeito estufa que causam o aquecimento global, e contou com a presença de 154 países.

A primeira Conferência das Partes (COP 1), com os países que participaram da Rio-92 aconteceu em 1994, onde foi tomada a decisão da criação até o ano de 1997 de um protocolo com metas para a redução das emissões.

Em 1997, em Kyoto no Japão mais uma conferência global deu origem ao Protocolo de Kyoto, estabelecendo um compromisso de todos os países que o assinaram a reduzirem até 2012 as emissões de gases poluentes para os níveis emitidos em 1990, a partir de 2005.

A mídia já comenta e entre os dias 7 e 18 de Dezembro estará acontecendo a 15ª Conferência das Partes (COP 15) da Convenção das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (Rio-92). Os países voltarão a se reunir em Copenhague para discutir como será o acordo global que vai suceder o Protocolo de Kyoto (que vence em 2012).

Esse ano cerca de 200 países estarão reunidos para o encontro, cuja pauta é a discussão das mudanças ambientais, ações de mitigação para o aquecimento global e estabelecimento de novas metas de redução das emissões de gases do efeito estufa (e esperamos que mais contundentes que as planejadas em Kyoto em 1997).

Há grandes interesses em não se reduzir as emissões de gases estufas, pois isso necessariamente implica em frear o processo de crescimento industrial e econômico dos países mais poluentes e/ou gerar gastos na pesquisa e implantação de tecnologias menos poluentes.

Vamos acompanhar de perto a COP 15 e esperar que algo efetivo seja feito para diminuir a emissão dos gases estufa e assim conseguirmos frear um pouco esse aquecimento global e as mudanças climáticas do Planeta Terra.

Leia também:

2 Comentários
Categoria: blog
Quem governa o 3º Mundo?

Não, não me refiro aos chamados países em desenvolvimento. O 3º mundo ao qual estou me referindo é aquele proposto pelo grande filósofo Karl Popper. Já escrevi sobre o assunto neste blog antes mas, tendo em vista que o texto não foi lá muito claro, faço uma nova tentativa.

Em seu livro Conhecimento Objetivo, Popper propõem uma divisão tripla do mundo. O 1º mundo é aquele que contém objetos físicos ou estados materiais. O 2º mundo é composto por estados de consciência ou mentais. E por fim o 3º mundo, habitado por conteúdos objetivos de pensamento, em especial pensamentos científicos, poéticos e de outras obras de arte.

Vemos então que no 2º mundo estão os pensamentos subjetivos, ou o ato de pensar em si, enquanto no 3º mundo estão os pensamentos objetivos, ou o conteúdo destes pensamentos. Livros, artigos e obras de arte são a representação física dos habitantes deste último.

Mas este não é um texto sobre Karl Popper, ou mesmo sobre considerações a respeito da validade ou implicações da divisão proposta pelo filósofo. A introdução sobre o 3º mundo popperiano me serve apenas para dar maior materialidade ao fato de que, por mais que vivamos em um mundo mergulhado em informação (ou em pensamentos objetivos), há, e talvez sempre houve, uma disputa constante para determinar quem governa isso tudo.

A cobra que engole o próprio rabo.
Os periódicos científicos nasceram com uma missão honrosa. Facilitar a difusão da produção científica entre a comunidade. Hoje mais atrapalham do que ajudam. O Renato abordou o tema em um de seus textos, mas aproveito pra dar meu pitaco.

E começo pelo problema mais fundamental que se pode imaginar. A produção científica já a algum tempo supera, e muito, a capacidade de publicação dos periódicos. Fato posto, os periódicos tiveram que encontrar uma solução para escolher o que deveria ser publicado. E a solução foi o peer-review. Afinal, quem melhor que a própria comunidade científica para decidir o que quer ler?

Embora o peer review resolva o problema dos publhishers, acaba por criar muitos outros para a própria comunidade. O expoente mais clássico disso é o já velho conhecido “publique ou pereça” e sua versão remodelada “seja citado ou pereça”. O ponto principal aqui é notar que uma dúzia de indivíduos não são representativos o suficiente para decidir o que é que uma comunidade inteira deve ler.

Outro problema com este sistema é que ele é caro. Uma assinatura de um publisher qualquer pode, e em geral ultrapassa, facilmente os US$ 10.000,00 por ano, o que o torna muitas vezes proibitivo. Mesmo para as instituições de ensino e bibliotecas. O custo elevado de acesso também dificulta o trabalho de pesquisadores autônomos, desvinculados de instituições de pesquisa.

No final das contas, temos um sistema que se mantém com conteúdo gerado pela comunidade científica, mas que dificulta o acesso da própria comunidade. A situação toda não fica menos bizarra ao notarmos que, embora os publishers cobrem pelo acesso, não pagam ao cientista pelo trabalho publicado.

O circo de Alexandria.
Em 2004 o Google começou a digitalizar livros para torná-los indexáveis pelo seu buscador. A iniciativa virou caso de tribunal quando, em 2005, o Authors Guild e a Association of American Publishers decidiu entrar com uma ação na justiça por se sentir prejudicada pela iniciativa.

O caso está prestes a ser resolvido com um acordo entre as partes, aonde o Google passa a ter a permissão legal para digitalizar e fornecer acesso em troca da cobrança de uma taxa, que será em parte repassada aos autores. O problema é que, se o acordo for homologado da forma que está, irá tornar outras iniciativas de digitalização que já existem (e tantas outras que poderão vir a existir) ilegais (nos Estados Unidos, que fique claro).

Os detalhes do acordo me são obscuros, mas é curioso ver como os concorrentes do Google, como a Microsoft e o Yahoo, estão tão ferozmente tentando expandir os termos do acordo para que eles também estejam legalmente cobertos. Em termos gerais a briga é para impedir que o Google monopolize o mercado de livros digitalizados.

Não menos curioso é ver o artigo de opinião da autoria de Sergey Brin, co-fundador do Google, publicado no The New York Times. No texto em questão ele alega que o interesse do gigante de buscas não é meramente comercial. Não. O objetivo é impedir que desastres, como os diversos incêndios da biblioteca de Alexandria, voltem a destruir por completo a produção intelectual do mundo.

O que o Google quer, segundo seu fundador, não é produzir a maior loja virtual de livros do mundo, mas sim a maior biblioteca da história da humanidade. É claro que fica difícil de engolir o argumento quando um acordo judicial sobre o caso prevê a cobrança de uma taxa que, ainda que em parte, termina nos bolsos do Google.

É da natureza das bibliotecas fornecer acesso à livros e artigos sem cobrar seus utilizadores. Se era de fato o interesse do Google construir uma biblioteca virtual, por que não buscar parcerias com o governo e outras entidades para arcar com os custos exigidos pela indústria de livros dos Estados Unidos?

Quem governa o 3º mundo?
A pergunta que serve de título a este texto não possuí uma resposta fácil. Talvez nem possua uma resposta. Ainda assim darei meu ponto de vista. Quando Popper propôs o 3º mundo fez questão de sublinhar sua independência, no sentido de que um conhecimento objetivo não depende de seu criador para continuar a existir.

Popper chega mesmo a sugerir um exemplo aonde toda a humanidade foi devastada, deixando para trás apenas seus livros e obras de arte. Em tal cenário, uma outra civilização inteligente poderia entrar em contato com este conhecimento perdido e aprender com o nosso legado.

O que Popper talvez tenha ignorado é que para tal, o 3º mundo precisa estar manifestado em algum tipo de mídia e, a história mostra, todas as mídias que conhecemos são controladas por alguém. Podemos dizer então que, pelo bem ou pelo mal, a indústria do entretenimento e os publishers governaram o 3º mundo na medida em que eram elas quem forneciam acesso a ele através de suas mídias.

Por outro lado o cenário atual é muito mais otimista. O advento da internet permitiu que conteúdo fosse produzido e distribuído de maneira mais econômica, por vezes a custo zero. Isso evidentemente enfraquece um modelo e negócio que se sustentava justamente na dificuldade que um autor tinha em se fazer lido. Ou de um músico em ser ouvido.

O controle do 3º mundo se diluiu de tal forma que, podemos dizer, ele esta muito próximo de governar a si próprio. As brigas judiciais pela distribuição de livros digitais só demonstra o óbvio. O papel de mediador que as editoras possuíam esta deixando de fazer sentido. É o fim agonizante de um modelo de negócios que não soube se reinventar.

E o que isso significa para o cientista? A própria metodologia de validação do conhecimento produzido pela ciência acaba por garantir aos grandes publishers mais alguns anos de sobrevivência tranqüila. Tradicionalistas que somos, nos acostumamos com a economia do “publique ou pereça”, nos acostumamos ao sistema de peer-review, nos acostumamos a depender de um periódico para termos acesso às novidades de nossas áreas.

Mas até quando esse cenário irá durar? As desvantagens são evidentes e, tão logo começarmos a perceber que este sistema, ao invés de facilitar o acesso ao conhecimento, cria barreiras cada vez maiores, passaremos a buscar novas alternativas.

O que precisamos ter em mente é que o cientista, em última análise, não se difere de um escritor de romances ou de um músico. Nós, assim como eles, queremos ver nosso trabalho circulando pelo maior número possível de indivíduos da comunidade. A comunidade, por sua vez, quer ter acesso a este conteúdo todo.

Temos a fome e a vontade de comer, e os publishers são como um caríssimo restaurante francês. Embora eventualmente possamos pagar um pouquinho a mais para comer algo diferente, é o feijão com arroz diário que nos mantém em pé.

Leia também:

3 Comentários
Categoria: blog
Questão de acesso

Imaginem a cena: o ilustríssimo Dr. Roberto, renomado cientista na área de fisiologia osmorregulatória de caranguejos, passa 7 anos fazendo um grande estudo. Viaja a trabalho por diversos países, se enfiando nos mangues mais fedidos e barrentos para coletar esses crustáceos, depois os leva para o laboratório e faz exaustivos experimentos que resultam numa pilha de centenas de tabelas e gráficos que ele, com muita paciência, analisa e compara um a um. Depois de sistematizar seus dados, Dr. Roberto os compara com os da literatura, identifica semelhanças e diferenças entre os estudos e quebra a cabeça para tentar entender de forma integrada o fenômeno que está estudando. Depois disso tudo, ele, super empolgado, escreve um artigo para tornar público o seu estudo, seus questionamentos e suas conclusões.

O artigo do Dr. Roberto é publicado em alguma revista super específica sobre crustáceos que menos de 1% da população mundial sabe que existe. As únicas pessoas que vão se interessar em lê-lo são os outros cientistas que estudam osmorregulação em caranguejos, e olhe lá, por que se o grupo de caranguejos que o Dr. Roberto estuda for muito distante filogeneticamente do que o Dr. Luís estuda, talvez o Dr. Luís nem se dê ao trabalho de ler. Mas o Dr. Luís não é importante. O importante é que, a partir de agora, qualquer pessoa que quiser estudar osmorregulação naquele grupo de caranguejos vai poder contar com a contribuição do Dr. Roberto, certo?

É… Certo naquelas. Imaginem que alguns anos depois, um certo Dr. Silvio, que adora crustáceos, se interessa muito em estudar esse tema que causa tanto fascínio no Dr. Roberto. Mas a biblioteca que o Dr. Silvio tem acesso não assina a revista em que o artigo do Dr. Roberto foi publicado. Quando ele tenta acessar o trabalho pela internet, ele se depara com um aviso assim:

artigo 34 dolares

“Poxa, como assim? Trinta e quatro dólares para ler UM artigo? Mas nem que a vaca tussa! O Dr. Roberto que me perdoe, mas ele não estará entre as referências do meu trabalho!”, pensa o Dr. Silvio. Ele continua fazendo o levantamento bibliográfico para sua pesquisa e lê o resumo de um artigo que parece ser muito bom, mas quando vai fazer o download, um pop-up se abre:

want the full article

“Catorze dólares? You gotta be kidding me, man!” Dr. Silvio vai à loucura! Todo site que ele entra, tem que pagar pra acessar os artigos. Ele se revolta e dá um soco no computador. Indignado, ele desiste de estudar osmorregulação de crustáceos e opta por pesquisar outra coisa, hábitos alimentares, por exemplo. Mal sabe ele que seu computador ainda vai levar muitos outros socos.

O conhecimento científico é construído coletivamente. Se Darwin não tivesse lido Malthus, Lyel, Lamarck, Chambers, entre tantos outros, ele jamais teria sido capaz de formular sua teoria de seleção natural. Se Marx não tivesse lido Hegel, Adam Smith, David Ricardo, Feuerbach, entre tantos outros, jamais teria feito uma análise tão aprofundada da sociedade capitalista. Imaginem se Darwin fosse pobre (não era o caso…) e tivesse que pagar 34 dólares para ler o trabalho do Malthus? Não ia rolar! E se Einstein estivesse na miséria e tivesse que pagar 14 pra ler Newton? No way, man!!

Essa questão sobre o acesso a trabalhos científicos é muito complicada. Por um lado, se ninguém ler o trabalho do Dr. Roberto, é praticamente a mesma coisa do que se ele nunca tivesse ralado por 7 anos para escrevê-lo. O salário do Dr. Roberto não varia de acordo com o número de pessoas que lêem o trabalho dele. Se alguém pagar 34 dólares para comprá-lo, toda essa grana vai para a editora e ele nem fica sabendo. A única coisa que o Dr. Roberto ganha é uma citação em algum trabalho. Não é vantagem nenhuma para ele que as pessoas tenham que pagar para ler o seu artigo; na verdade, pra ele (e pra Ciência!) seria bom que todo mundo que quisesse ler tivesse acesso livre.

Mas, por outro lado, revista científica não é tudo igual. Se o trabalho do Dr. Roberto sair publicado na Nature, você nem precisa ler pra saber que é bom. Se sair na Revista Sul-Alagoana de Crustáceos Bonitos, é melhor ler com cuidado. Uma revista tem toda uma equipe de avaliadores e pareceristas que seleciona quais trabalhos merecem ser publicados naquela revista e quais não merecem. As revistas têm qualificadores e índices de impacto, e isso é absolutamente importante para manter a ordem no empreendimento científico. As revistas precisam pagar seus funcionários. Ao contrário de Superinteressantes e afins, a maioria delas não pode contar com uma grande quantidade de exemplares vendidos, por que o público alvo é muito restrito – quem no mundo assinaria uma revista chamada “Acoustical Physics”, por exemplo?

Assim, um paradoxo se estabelece. Impedir alguém de ter acesso a artigos científicos é contra a própria natureza coletiva da Ciência (lembrem-se do Darwin), mas as revistas fazem um trabalho muito importante e têm que receber dinheiro de alguma forma. Cobrar dos leitores talvez não seja a melhor forma (coitado do Dr. Silvio!). Um artigo curto (2-3 páginas) cita pelo menos outros 15-20 artigos, e se cada um custar 34 dólares, wow, eu quero ser dono de uma revista! Mas, então, o que fazer? Se alguém aí tiver alguma idéia, por favor, me diga, porque eu não agüento mais ver números e cifrões ao invés de letras e gráficos nos artigos que eu quero ler!

Leia também:

4 Comentários
Categoria: blog
Credo de um cientista de hoje (por Julian Huxley)

Creio que a vida pode ser digna de ser vivida. Acredito nisto, a despeito da dor, da miséria, da crueldade, da infelicidade e da morte. Não creio que seja necessariamente digna de ser vivida somente para que a maior parte das pessoas possa sê-la.

Também creio que o homem, como indivíduo, como grupo, e coletivamente como humanidade, pode realizar um propósito satisfatório na existência. Creio isto a despeito do mau êxito, da ausência de finalidade, da frivolidade, do tédio, da preguiça e do fracasso. Ainda, não creio que haja inevitavelmente um fim inerente ao universo ou à nossa existência, ou que a humanidade tenda a alcançar um propósito satisfatório, mas somente que tal propósito possa ser encontrado.

Creio que existe uma escala ou hierarquia de valores, que vai desde o simples conforto físico, até as mais altas satisfações do amor, do gozo estético, do intelecto, da realização criadora, da virtude. Não creio que estes sejam absolutos – ou transcendentais no sentido de serem concedidos por algum poder externo ou divindade – constituem o rótulo da natureza humana que interatua com o mundo exterior. Nem suponho tão pouco que possamos graduar todas as experiências valiosas em uma ordem aceita, assim como não posso dizer se uma abelha é um organismo mais elevado do que uma lula ou um arenque. Mas assim como se pode afirmar, sem hesitação, que há graus gerais de organização biológica, e que uma abelha é um organismo mais elevado do que uma esponja, ou um ser humano mais do que uma rã, assim também posso afirmar, com o consenso geral dos seres humanos civilizados, que há um valor mais alto na Divina Comédia do que num hino popular, na atividade científica de Newton ou Darwin do que em resolver um problema de palavras cruzadas, na plenitude do amor do que na satisfação sexual, no desprendimento do que nas atividades puramente egoísticas – embora cada um e todos possam ter certa espécie de valor.

Não creio que haja um absoluto de verdade, beleza, moral ou virtude, seja emanado de um poder externo ou imposto por uma norma interna. Mas isto não me leva à conclusão curiosa, em moda em certos setores, de que a verdade, a beleza e a bondade não existem, ou que nelas não haja força nem valor.

Creio que há algumas perguntas que não vale a pena formular, porque jamais poderão ser respondidas. Nada a não ser desperdício, preocupação ou infelicidade resulta quando se trata de resolver problemas insolúveis. Porém, certas pessoas parecem determinadas a experimentar. Recordo a história do filósofo e do teólogo. Os dois estavam empenhados em uma discussão e o teólogo lançou mão do velho dito em que um filósofo se assemelha a um homem cego, num quarto escuro, procurando um gato preto que não estava ali. “Pode ser”, disse o filósofo, “mas um teólogo o teria achado”.

Mesmo em questões de ciência, devemos aprender a formular as perguntas devidamente. Parecia evidente perguntar como os animais herdam o resultado da experiência dos pais, e gastou-se um tempo enorme e muita energia na tentativa de obter uma resposta. Mas não adianta fazer a pergunta, pela simples razão de que não existe tal herança de caracteres adquiridos. Os químicos do Século XVIII, porque faziam a si próprios a pergunta: “Que substância se acha envolvida no processo da combustão?” viram-se envolvidos na confusão da teoria do flogisto; deveriam perguntar: “Que espécie de processo é a combustão?” antes de ver que não atuava nela uma substância especial, mas era simplesmente um caso particular de combinação química.

Quando chegamos ao que usualmente se denomina o fundamental, aumenta muito a dificuldade de não fazermos a pergunta indevida. Entre a maioria das tribos africanas, se uma pessoa morre, a única pergunta que se faz é: “”Quem causou sua morte, e por qual forma de magia?”. A idéia de morte pelas causas naturais lhes é desconhecida. Realmente a vida da metade menos civilizada da humanidade se baseia largamente na tentativa de achar uma resposta a uma pergunta errada. “Que forças ou poderes mágicos são responsáveis pela boa ou má sorte, e como eles podem ser iludidos ou propiciados?”

Não creio na existência de um deus ou de deuses. O conceito de divindade parece-me ser, embora construído sobre uma quantidade de elementos reais da experiência, um conceito falso, baseado no postulado inteiramente injustificável de que deve haver algum poder mais ou menos pessoal no controle do mundo. Defrontamo-nos com forças alheias ao nosso domínio, com desastres incompreensíveis, com a morte; e também com o êxtase, com o sentido místico da união com algo maior que o nosso próprio eu, com a conversão súbita para um novo caminho de vida, com a aflição da culpa e do pecado, e com as maneiras pelas quais todas essas aflições podem ser exaltadas. Nas religiões teístas todos esses elementos de experiência atual foram entrelaçados num corpo unificado de crença e prática em relação ao postulado fundamental da existência de um deus ou de deuses.

Creio que esse postulado fundamental é nada mais do que o resultado da formulação de uma pergunta falsa: “Quem ou o que rege o universo?” Até onde podemos observar, ele se rege a si próprio, e na verdade qualquer analogia com um país e seu governante é falsa. Mesmo que um deus exista atrás ou acima do universo conforme o experimentamos, não podemos ter nenhum conhecimento de tal poder: os deuses atuais das religiões históricas são apenas as personificações de fatos impessoais da natureza e de fatos de nossa vida mental interior. Embora possamos responder à pergunta: “O que são os deuses das religiões?” só o podemos fazer dissecando-os em seus componentes e mostrando que sua divindade é apenas um invento da imaginação, da emoção e da racionalização humanas. A pergunta: “Qual é a natureza de Deus?” não podemos responder desde que não temos meios de conhecer se existe ou não tal ser.

O mesmo acontece com a imortalidade. Com as nossas faculdades atuais não possuímos meios para dar uma resposta categórica à pergunta se sobrevivemos à morte, e muito menos à pergunta de que seria tal vida depois da morte. Sendo assim, é uma perda de tempo e energia dedicarmo-nos ao problema de conseguir a salvação na vida por vir. Contudo, assim como a idéia de Deus é construída sobre as pedras da experiência real, assim também a idéia de salvação. Se traduzirmos salvação em termos deste mundo, vemos que ela significa realização harmônica entre as diversas partes de nossa natureza, incluindo suas profundezas subconscientes e suas elevações raramente tocadas, e também realizando alguma relação satisfatória de ajustamento entre nós próprios e o mundo externo, incluindo não somente o mundo da natureza, mas o mundo social do homem. Creio que é possível “conseguir a salvação” nesse sentido, e que está bem tratar de consegui-la, assim como creio que é possível e valioso realizar um sentido de união com algo mais elevado do que nós próprios, mesmo que esse algo não seja um deus, mas uma extensão de nossos corações estreitos para que apreenda de uma só vez experiências de natureza externa e interna que não alcançamos comumente.

Mas se Deus e a imortalidade são repudiados, o que resta? Tal é a pergunta usualmente atirada ao ateu. O crente ortodoxo compraz-se em pensar que nada fica. Isso, contudo, é porque se acostumou a pensar somente em termos de sua ortodoxia.

Na realidade fica muita coisa.

Isto é imediatamente óbvio pelo fato de que muitos homens e mulheres levaram vidas ativas, sacrificadas ou nobres, ou vidas devotadas sem qualquer crença em Deus ou na imortalidade. O budismo, na sua forma incorrupta, não tem tal crença, nem o tiveram os grandes agnósticos do século XIX, nem os comunistas russos ortodoxos, nem os estóicos. Naturalmente, os descrentes muitas vezes se tornaram culpados por ações egoístas ou más, mas os crentes também. E, de qualquer modo, isto não constitui ponto fundamental. O ponto é que sem essas crenças, homens e mulheres podem ter uma existência plena e cheia de propósito, e uma sensação de que a existência pode ser digna de ser vivida, tão poderosa quanto é possível aos crentes mais devotos.

Devo dizer que isso é muito mais fácil hoje em dia do que em qualquer época anterior. A razão se encontra nos progressos da ciência.

Não somos mais obrigados a aceitar as catástrofes externas e as misérias da existência como inevitáveis ou misteriosas; não somos mais obrigados a viver em um mundo sem história, onde a mudança não tem sentido algum. Nossos antepassados consideravam a epidemia como um ato de punição divina; para nós é um desafio a ser vencido, porque conhecemos suas causas e sabemos que pode ser dominada ou prevenida. A compreensão da moléstia infecciosa se deve, inteiramente, ao progresso científico. Também o é, para citar um fato recente, o nosso conhecimento da base da nutrição, que encerra novas possibilidades de saúde e energia para a raça humana. Também o é nossa compreensão dos terremotos e das tempestades; se não os podemos dominar, pelo menos não os receamos como prova da ira de Deus.

Pelo menos algumas de nossas misérias íntimas podem ser eliminadas do mesmo modo. Por meio do conhecimento derivado da psicologia podemos evitar que as crianças cresçam com um sentimento anormal de crime, tornando a vida um peso tanto para elas próprias como para aqueles com quem entram em contato. Estamos começando a compreender as raízes psicológicas do medo irracional e da crueldade irracional: um dia seremos capazes de tornar o mundo um lugar mais agradável, evitando seu aparecimento.

Os antigos não possuíam história digna de ser mencionada. A existência humana no presente era considerada como uma degradação daquela Idade de Outro original. Até o século XIX o conhecimento da história humana era considerado pelas nações do Ocidente como uma série de episódios sem sentido, comprimidos no breve espaço entre a Criação e a Queda, alguns milhares de anos atrás, e a Segunda Vinda e o Juízo Final, que poderiam cair sobre nós a qualquer momento, e em qualquer caso não poderiam ser afastados por mais de alguns milhares de anos no futuro. Nessa perspectiva um milênio era quase uma eternidade. De acordo com esse ponto de vista não estranha que a vida parecesse para a grande massa da humanidade “má, brutal e curta”, suas misérias e faltas simplesmente surpreendentes a não ser que as iluminasse à luz ilusória da religião.

Hoje a história humana se funda na pré-história e a pré-história por sua vez na evolução biológica. Nossa escala de tempo está profundamente alterada. Um milhar de anos é um tempo curto para a pré-história, que pensa em termos de centenas de milhares de anos, e um tempo insignificante para a evolução, a qual lida com períodos de dez milhões de anos. O futuro se estende igualmente como o passado: se levou milhões de anos para a vida primitiva gerar o homem, o homem e seus descendentes possuem pelo menos igual lapso de tempo diante de si.

O mais importante é que a nova história possui uma base de esperança. A evolução biológica foi terrivelmente vagarosa e terrivelmente dissipadora. Foi cruel, gerou os parasitas e as pestes assim como os tipos mais agradáveis. Levou a vida para inúmeros becos sem saída. Mas, a despeito disso, realizou progresso. Em certos setores; cujo número diminuiu firmemente com o tempo, evitou o beco sem saída da mera especialização, mais harmonioso e mais eficiente, do qual poderia novamente atirar-se para um maior domínio, maior conhecimento e maior independência. O progresso é, caso o queiram, a especialização total. Finalmente, apenas uma linha foi deixada que pudesse realizar um progresso ulterior: todas as outras haviam levado a becos sem saída. Essa linha foi a que conduzia à evolução do cérebro humano.

Isto, de um salto, alterou a perspectiva da evolução. A experiência agora podia ser transmitida de geração a geração; o propósito deliberado podia substituir a tentativa cega da seleção, a mutação podia ser realizada com uma rapidez mil vezes maior. No homem a evolução podia tornar-se consciente. Admitamos que ainda esteja longe de ser consciente, mas existe possibilidade, e foi pelo menos conscientemente encarada.

Vista sob esta perspectiva, a história humana não representa senão a mais mesquinha porção do tempo que o homem tem diante de si. Trata-se tão só dos primeiros passos incertos e trôpegos do novo tipo, que nasceu herdeiro de tanta história biológica. Vêem-se em toda a sua inutilidade as tentativas para uma filosofia geral da vida como se alguém, cujo conhecimento da espécie humana se limitasse a uma criança de um ano, tentasse fazer uma relação geral da alma e do espírito humanos. Os constantes retrocessos, a falta de adiantamento em certos aspectos durante cerca de dois mil anos, são considerados como fenômenos tão naturais como os tombos de uma criança que está aprendendo a andar ou o desvio da atenção de um menino sensível pela necessidade de ganhar a vida.

Os grandes fatos permanecem. A vida progrediu mesmo antes da primeira evolução do homem. A vida progrediu mais pela evolução do homem. O homem progrediu durante meio milhão – ou quase este tanto – de anos desde a primeira Hominidae , mesmo durante os dez mil anos após a melhora final do clima, depois da Idade Glacial. E as potencialidades de progresso que são reveladas, uma vez que seus olhos se abriram para o panorama evolucionista, são ilimitadas.

Afinal temos uma teoria otimista ao invés de pessimista deste mundo e de nossa vida nele. Admitimos que o otimismo não pode ser fácil, e deve ser temperado pela reflexão acerca da extensão do tempo que requer a dura tarefa que será necessária, e do inevitável resíduo de acidentes e desgraças que ficará. Talvez fizemos melhor em chamá-lo de critério melhorado antes de otimista, mas pelo menos prega a esperança e inspira a ação.

Creio muito decididamente que, entre as personalidades humanas, é que existem as mais elevadas e as mais valiosas realizações do universo – ou pelo menos as mais elevadas e mais valiosas realizações das quais temos ou, aparentemente, podemos ter conhecimento. Isso significa que eu creio que o Estado existe para o desenvolvimento do indivíduo e não os indivíduos para o desenvolvimento do Estado.

Mas também creio que o indivíduo não seja algo isolado, separado. Um indivíduo é um transformador da matéria e da experiência, é um sistema de relações entre sua própria base e o universo, incluindo outros indivíduos. Um indivíduo pode crer que deveria dedicar-se inteiramente a uma causa, mesmo sacrificando-se por ela: seu país, a verdade, a arte, o amor. É na dedicação ou no sacrifício que ele se torna mais ele próprio, e é por causa da dedicação ou do sacrifício dos indivíduos que as causas se tornam valiosas. Mas está claro que o indivíduo deve subordinar-se à comunidade de muitos modos; somente não até o ponto de crer que na comunidade reside qualquer virtude mais alta que a dos indivíduos que a compõem.

A comunidade provê o maquinismo para a existência e desenvolvimento dos indivíduos. Existem aqueles que negam a importância do maquinismo social, que asseguram que a única coisa importante é a mudança na maneira de sentir, e que o maquinismo adequado é apenas uma conseqüência natural da atitude interior correta. Isto me parece simples solipsismo.  As diferentes espécies de maquinismo social predispõem a diferentes atitudes internas. O maquinismo mais admirável é inútil se não mudar a vida interior; mas sim o maquinismo social para tornar a guerra mais difícil, para promover a saúde, para acrescentar interesse à vida. Não desprezamos a máquina em nosso zelo pela plenitude da vida, assim como não haveremos de sonhar que o maquinismo poderá jamais produzir, automaticamente, a perfeição da vida.

Creio na diversidade. Todo biólogo sabe que os seres humanos diferem nas suas conformações hereditárias, e, por conseguinte, nas possibilidades de realização. A psicologia nos mostra quão diferentes são os tipos que se esbarram nas ruas do mundo. Soma nenhuma de persuasão ou educação pode fazer com que o extrovertido compreenda realmente o introvertido, o verbalista compreenda o amante do serviço mecânico, o não matemático ou não musicista compreenda a paixão do matemático ou do músico. Podemos experimentar proibir certas atitudes do espírito. Poderíamos teoricamente extirpar grande parte da variedade humana. Mas isso seria um sacrifício. A diversidade não é somente o sabor da vida, mas a base da realização coletiva. E o complemento da diversidade é a tolerância e a compreensão. Isto não significa avaliar por igual todos os valores. Devemos proteger a sociedade contra os criminosos; devemos lutar contra o que julgamos errado. Mas assim como no trato do criminoso em que devemos experimentar reformá-lo antes de simplesmente castigá-lo, também devemos experimentar compreender porque julgamos erradas as ações dos outros, o que implica experimentar compreender o funcionamento de nossa própria mente e dar desconto aos nossos próprios preconceitos.

Finalmente, creio que jamais poderemos reduzir nossos princípios a uns poucos termos simples. A existência é demasiadamente variada e complicada. Devemos completar os princípios com a fé. E a única fé que é a um tempo concreta e compreensiva é a fé na vida, na sua abundância e no seu progresso. Finalmente creio na vida.

Tradução de P. H. Saldanha

Julian Sorell Huxley (1887-1975) foi um biólogo, escritor, humanista e divulgador científico britânico. Irmão do escritor Aldous Huxley que escreveu o livro Admirável Mundo Novo, e neto do biólogo Thomas Henry Huxley, colega e defensor das idéias de Charles Darwin. Foi também o primeiro diretor geral da UNESCO e fundador do WWF.

Leia também:

3 Comentários
Categoria: blog
Os mistérios da ciência.

Recentemente li dois artigos que, embora já tenham uma certa idade, possuem um conteúdo bastante interessante. Os artigos que podem ser encontrados aqui e aqui tratam basicamente sobre a imagem pública da ciência. O que me chamou a atenção é que ambos, em algum momento, alegam que a ciência construiu pra si mesma uma aura mística.

A afirmação me causou imediato espanto. Sempre ouvi que é próprio da ciência tentar se afastar do místico, buscando sempre a verdade. Com efeito, a ciência de fato alega que trabalha com o mundo real, com fatos, com verdades que podem ser alcançadas sem artifícios mágicos ou sobrenaturais.

Mas pensando bem sobre o assunto, será que a ciência passa mesmo esta imagem de trabalhar sobre um “mundo real”? Ora, qualquer cientista sabe e sustenta que a ciência não vive de dogmas, ou seja, todo o conhecimento científico esta sujeito a revisão. Embora isso seja completamente compatível com a idéia de um “mundo real” para o cientista, para o público em geral talvez não seja bem assim.

Quantas vezes não vemos pessoas reclamando sobre as constantes mudanças no conhecimento científico? Seja pela cafeína que hora faz bem, hora faz mal. Seja por planetas que deixam de ser planetas. Seja pelo aquecimento global que hora existe, hora deixa de existir.

Me parece real a idéia de que a ciência opera de formas misteriosas. E o que estamos fazendo a este respeito? Muito pouco acredito eu. A divulgação científica hoje em dia consiste muito mais em explicar conceitos e teorias, e muito menos em explicar a própria ciência e seu fincionamento.

Se é papel da divulgação científica diminuir o hiato entre ciência e sociedade, por que nos esforçamos tanto em explicar conhecimentos que, sabemos todos, são passageiros? Talvez fosse mais produtivo dedicar mais tempo e esforço explicando o que é ciência e como ela funciona. O problema, e pra mim isto é bastante óbvio, é que é muito mais difícil explicar a ciência.

A dificuldade esta relacionada, claro, com a natureza extremamente complexa da própria atividade científica. Mas não só. Quantos são os cientistas que param um só segundo para pensar sobre seu próprio trabalho? Quantos se interessam em estudar, ainda que sem muito rigor, a história de sua própria atividade? Há ainda os tantos e tantos cientistas que, inflados pela sensação de serem mais importantes do que realmente são, se recusam a aceitar que a ciência é uma expressão cultural como outra qualquer.

Fazer divulgação científica apenas trabalhando com conceitos e teorias, é o mesmo que esperar que alguém que só teve contato com meia dúzia de letras produza um livro completo.

Leia também:

1 Comentário
Categoria: blog
O joio e o trigo.

Quem acompanha este blog a mais tempo sabe que o debate entre evolucionismo e criacionismo sempre foi um tema recorrente, ao menos no primeiro ano de vida. Gradativamente o debate em si foi sendo deixado de lado, e isso se deve ao fato de que, ao meu ver, falta nos dois lados da polêmica o refinamento necessário para uma discussão saudável.

Normalmente vemos textos e mais textos, os deste blog incluídos, que funcionam basicamente na refutação de contra-argumentos do adversário. Nesta troca desmedida de refutações, o que pouca gente se dá ao trabalho de fazer é separar o joio do trigo. A começar pela unidade fundamental do que se está debatendo: Teoria evolutiva ou teoria da evolução?

Ao observador desatento, ao dogmático mais ferrenho e ao cientista  epistemologicamente pobre, ambas as coisas podem parecer iguais. A simples compreensão desta diferença pode evitar uma série de discussões inúteis e erros de interpretação.

Quando nos referimos à realidade (ou não) da evolução dos seres vivos, estamos falando da teoria evolutiva. Qualquer querela neste nível deve se ater à discussão sobre se a biodiversidade do planeta existe como a vemos hoje desde “sempre” ou foi mudando ao decorrer do tempo. A questão básica aqui é, as espécies são fixas no tempo ou variam?

Já por teoria da evolução entendemos os mecanismos propostos para a variação das espécies no tempo. É aqui que entram Lamarck, Darwin, Neodarwinistas e por aí a fora. A diferença é sutil, mas bastante clara: Uma coisa é saber se as espécies mudam, outra é COMO mudam.

Um cientista bem preparado, e que responde “qual delas?” para a pergunta “você acredita na teoria da evolução?”, tenho certeza, acaba com a maioria dos debates antes mesmo deles começarem.

Leia também:

5 Comentários
Categoria: blog
Mata Atlâtica um Hotspot ameaçado

O conceito Hotspot significa uma área de importância elevada para conservação da biodiversidade. Ele se baseia no princípio de que a biodiversidade não está distribuída igualmente no planeta, e por isto delimita determinadas áreas com altos níveis de biodiversidade e em risco de degradação ou desaparecimento, e por isso a urgência na implementação de ações de conservação a fim de se preservar estes ecossistemas ou os remanescentes da sua formação original.

No Brasil há dois Hotspots a Mata Atlântica e o Cerrado, que são ecossistemas prioritários para a conservação, isto é, de alta biodiversidade e ameaça em alto grau. Estes ecossistemas foram incluídos nesta categoria, após avaliação de especialistas e do Ministério do Meio Ambiente (1) que trabalharam juntos para identificá-los como Hotspots.

A Floresta Amazônica não é considerada um Hotspot, mesmo sendo considerada de altíssima biodiversidade, pois, não sofreu e/ou sofre um processo de degradação tão intenso como os dois ecossistemas citados, e por isto com risco de desaparecimento permanente de espécies.

O processo de degradação da Mata Atlântica é histórico, teve seu início no Brasil colônia, onde os ciclos exploratórios foram sendo implantados de acordo com as necessidades da metrópole, como a extração do pau-brasil e plantio de espécies economicamente viáveis como a cana de açúcar e café.

No entanto, o extrativismo e a agricultura não foram as únicas formas de degradação, a ocupação populacional também teve influência, pois geograficamente este ecossistema situa-se na costa brasileira, local onde as cidades foram se desenvolvendo, como a mata era um obstáculo natural foi então removida.

Mas não foi somente no passado que a mata atlântica foi degradada, em perspectivas gerais, no século XX e XXI, ela foi e continua sendo utilizada como fonte de energia barata (madeira), e sendo alvo de inúmeros atos exploratórios.

O dados mais atuais dos índices de cobertura vegetal, estão disponíveis no Atlas dos Remanescentes Florestais da Mata Atlântica – Período de 2000 à 2005, disponibilizado no site da Fundação SOS Mata Atlântica (2) em parceria com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais – INPE (3) e publicado em 2008, e demonstrados na tabela 1:

O Estado do Rio de Janeiro, como sugerem os dados da pesquisa, sofreu um deflorestamento de 628 ha e decréscimo da cobertura vegetal em 0,30% no período de 2000 à 2005.

Referências Bibliográficas:

1. MMA – Ministério do Meio Ambiente: http://www.mma.gov.br/

2. SOS Mata Atlântica: http://www.sosmatatlantica.org.br/

3. INPE – Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais: http://www.inpe.br/

Leia também:

Nenhum comentário
Categoria: blog
Um chopes, dois pastel e ciência por favor!

Seu garçom faça o favor de me trazer depressa um choppes, dois pastel e uma ciência que não seja requentada. Um pão bem quente com matemática à beça, um guardanapo e um copo de exatas bem gelado, outro de humanas e um último de biológicas. Aproveita para perguntar ao seu freguês do lado o resultado da palestra, que já está no fim.

Seu garçom feche a porta da direita com muito cuidado que eu estou disposto a ficar exposto a esta forma de divulgação científica. É que a ciência está no bar e se você ficar limpando a mesa, não me levanto e nem pago a despesa. Vá pedir ao seu patrão uma caneta, um tinteiro, um conteúdo científico que semana que vem a gente está de volta.

Seu garçom, você sabia que Brasil adentro tem Cachaça Científica? Já está virando rotina lá na Regional de Pernambuco da Sociedade Brasileira de Progresso à Ciência. E se você pensa que cachaça é água, em 2005 aconteceu na Universidade Federal de Santa Catarina e em 2007 a ciência destilada chegou ao Rio de Janeiro com a Casa da Ciência e o Instituto de Química da Universidade Federal.

Acho que não dá para negar. São eventos inspirados no pioneiro Chopp Científico, ciência com arte e colarinho, que aconteceu pela primeira vez em 2002 no Rio de Janeiro, coordenado pela jornalista Luisa Massarani do Centro de Estudos do Museu da Vida / Fiocruz. Ela, por sua vez, foi inspirada em eventos já existentes na Grã-Bretanha, Austrália e França.

Ah, não se esqueça de me dar palitos. Em várias cidades do mundo tem o Café Scientifique, com temas diversificados, e o SciBar, bastante atual. Já sobre Ciência e Governo, é possível ir ao INSPIRE Science Café. Seu garçom vá dizer ao charuteiro que me empreste umas revistas, um isqueiro e um cinzeiro. É que nossos amigos franceses estão com tudo. Eventos desta natureza acontecem já tem mais de anos, em torno de uma década. Bar des Sciences em Paris, Cafes Sciences e Junior Cafes em Lyon, além de eventos semelhantes em cidades como Marseille e Grenobe.

Seu garçom me empresta algum dinheiro que eu deixei o meu com o bicheiro. Tem Café Scientifique em Marrocos, no Egito, na Dinamarca, na Suíça e no Canadá. Tem em Portugal. Tem aqui, tem ali. Tem Science in the Pub na Austrália, tem Café Científico na Argentina. Vá dizer ao seu gerente que pendure esta despesa no cabide ali em frente, que a divulgação científica está criativa, etílica e saborosa. Uma verdadeira Conversa de Botequim, como bem canta Noel Rosa.

Leia também:

Nenhum comentário
Categoria: blog