Divulgação Científica: Uma atividade sem conceito?

fevereiro, 2010

Não acredito que haja hoje um só cientista que não defenda a prática da divulgação científica, ainda que muitos deles não se dêem ao trabalho de produzir uma só linha de texto com este fim. Ainda assim, não da pra ignorar que o passado da atividade é cheio de louros e heróis.

Isaac Asimov, Stephen Jay Gould, Carl Sagan, Julian Huxley, Richard Dawkins e nossos brasileiríssimos Marcelo Gleiser e o pai da divulgação científica tupiniquim José Reis, só pra citar os mais conhecidos. Todos eles lembrados como homens incansáveis no trabalho de popularização da ciência.

Foram estes nomes que inspiraram uma série de novos indivíduos a continuarem seus trabalhos e, graças ao advento da internet e da web, o que vimos nos últimos tempos é a proliferação de blogs e sites preocupados em levar a ciência ao público por vezes referido como leigo. Este blog, claro, não é diferente e eu, como tantos outros, também tenho minhas dívidas com estes grandes divulgadores.

Daí que com tantas boas inspirações, a nova geração de divulgadores científicos já nasceu com uma ideia pré-formatada de modus operandi do divulgador e as vezes nos esquecemos de parar um minuto para pensarmos, o que é, de fato, a divulgação científica.

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A Letra Corrida da Divulgação Científica

dezembro, 2009

É fato existir uma competição científica mundo afora. O laboratório de lá distante do laboratório de cá. Mais vezes uns contra os outros do que todos em prol da ciência. E isso é um paradoxo, uma dialética marxista. No limite, o monopólio químico-farmacológico das descobertas científicas reflete um capitalismo contemporâneo. Uns lutam para serem melhores que os outros. E os estímulos nacionais e mundiais aparecem: Olimpíadas de ciências, de tecnologia, de engenharia e matemática. Por aí afora, qual é a letra da Divulgação Científica?

Por certo que, dentro do contexto, é letra corrida, e armamentista. Letra de capacitações, sistemáticas e feitas para gerarem lucro. Como se as manchetes dos jornais competissem entre si, pelas melhores descobertas, pelo furo, pelo apelo da ciência e, em comum, a esperança de cura para a humanidade. E isso é um paradoxo, uma dialética marxista. E a briga continua entre as ciências naturais e humanas, todas buscando seu lugar ao sol, buscando o estado de dentro, sua tradução em palavras para que chegue até o receptor mais longínquo. Aquele bóia fria que não sabe ler, que vive da tradição oral. Uma metáfora para lembrar que letra não é apenas escrita, posta em papel, mas que há um conjunto de recursos, e são amplos, a disposição da Divulgação Científica.

História oral é letra popular. Independe de ser cursiva, de forma, caixa alta, digital. Letra é signo. É símbolo. É um corpo mudo que pode ser ouvido por alguém. E é aí que entra a ciência, e suas metodologias, para dar forma ao que não se ouve, não se vê com olhos comuns, não se encontra nos paradoxos. É letra corrida, que vai daqui para ali, e dali para acolá. Como os causos, os mitos, as lendas das tradições orais. Quanto de ciência não está dentro delas? Alguém duvida?

Copenhagen 2009

dezembro, 2009

A história de conferências mundiais com a temática do meio ambiente começa em 1972 em Estocolmo na Suécia. Esse encontrou levou a reunião de 113 países e várias ONGs de todo o mundo, e é considerado o marco-zero dos debates sobe meio ambiente, além de ter dado origem a criação do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma).

Passados 20 anos, no Rio de Janeiro realizou-se a Rio-92 – Convenção sobre Mudança do Clima, com o intuito de discutir as questões ambientais e redução dos gases causadores do efeito estufa que causam o aquecimento global, e contou com a presença de 154 países.

A primeira Conferência das Partes (COP 1), com os países que participaram da Rio-92 aconteceu em 1994, onde foi tomada a decisão da criação até o ano de 1997 de um protocolo com metas para a redução das emissões.

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Quem governa o 3º Mundo?

novembro, 2009

Não, não me refiro aos chamados países em desenvolvimento. O 3º mundo ao qual estou me referindo é aquele proposto pelo grande filósofo Karl Popper. Já escrevi sobre o assunto neste blog antes mas, tendo em vista que o texto não foi lá muito claro, faço uma nova tentativa.

Em seu livro Conhecimento Objetivo, Popper propõem uma divisão tripla do mundo. O 1º mundo é aquele que contém objetos físicos ou estados materiais. O 2º mundo é composto por estados de consciência ou mentais. E por fim o 3º mundo, habitado por conteúdos objetivos de pensamento, em especial pensamentos científicos, poéticos e de outras obras de arte.

Vemos então que no 2º mundo estão os pensamentos subjetivos, ou o ato de pensar em si, enquanto no 3º mundo estão os pensamentos objetivos, ou o conteúdo destes pensamentos. Livros, artigos e obras de arte são a representação física dos habitantes deste último.

Mas este não é um texto sobre Karl Popper, ou mesmo sobre considerações a respeito da validade ou implicações da divisão proposta pelo filósofo. A introdução sobre o 3º mundo popperiano me serve apenas para dar maior materialidade ao fato de que, por mais que vivamos em um mundo mergulhado em informação (ou em pensamentos objetivos), há, e talvez sempre houve, uma disputa constante para determinar quem governa isso tudo.

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Questão de acesso

outubro, 2009

Imaginem a cena: o ilustríssimo Dr. Roberto, renomado cientista na área de fisiologia osmorregulatória de caranguejos, passa 7 anos fazendo um grande estudo. Viaja a trabalho por diversos países, se enfiando nos mangues mais fedidos e barrentos para coletar esses crustáceos, depois os leva para o laboratório e faz exaustivos experimentos que resultam numa pilha de centenas de tabelas e gráficos que ele, com muita paciência, analisa e compara um a um. Depois de sistematizar seus dados, Dr. Roberto os compara com os da literatura, identifica semelhanças e diferenças entre os estudos e quebra a cabeça para tentar entender de forma integrada o fenômeno que está estudando. Depois disso tudo, ele, super empolgado, escreve um artigo para tornar público o seu estudo, seus questionamentos e suas conclusões.

O artigo do Dr. Roberto é publicado em alguma revista super específica sobre crustáceos que menos de 1% da população mundial sabe que existe. As únicas pessoas que vão se interessar em lê-lo são os outros cientistas que estudam osmorregulação em caranguejos, e olhe lá, por que se o grupo de caranguejos que o Dr. Roberto estuda for muito distante filogeneticamente do que o Dr. Luís estuda, talvez o Dr. Luís nem se dê ao trabalho de ler. Mas o Dr. Luís não é importante. O importante é que, a partir de agora, qualquer pessoa que quiser estudar osmorregulação naquele grupo de caranguejos vai poder contar com a contribuição do Dr. Roberto, certo?

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Credo de um cientista de hoje (por Julian Huxley)

setembro, 2009

Creio que a vida pode ser digna de ser vivida. Acredito nisto, a despeito da dor, da miséria, da crueldade, da infelicidade e da morte. Não creio que seja necessariamente digna de ser vivida somente para que a maior parte das pessoas possa sê-la.

Também creio que o homem, como indivíduo, como grupo, e coletivamente como humanidade, pode realizar um propósito satisfatório na existência. Creio isto a despeito do mau êxito, da ausência de finalidade, da frivolidade, do tédio, da preguiça e do fracasso. Ainda, não creio que haja inevitavelmente um fim inerente ao universo ou à nossa existência, ou que a humanidade tenda a alcançar um propósito satisfatório, mas somente que tal propósito possa ser encontrado.

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Os mistérios da ciência.

setembro, 2009

Recentemente li dois artigos que, embora já tenham uma certa idade, possuem um conteúdo bastante interessante. Os artigos que podem ser encontrados aqui e aqui tratam basicamente sobre a imagem pública da ciência. O que me chamou a atenção é que ambos, em algum momento, alegam que a ciência construiu pra si mesma uma aura mística.

A afirmação me causou imediato espanto. Sempre ouvi que é próprio da ciência tentar se afastar do místico, buscando sempre a verdade. Com efeito, a ciência de fato alega que trabalha com o mundo real, com fatos, com verdades que podem ser alcançadas sem artifícios mágicos ou sobrenaturais.

Mas pensando bem sobre o assunto, será que a ciência passa mesmo esta imagem de trabalhar sobre um “mundo real”? Ora, qualquer cientista sabe e sustenta que a ciência não vive de dogmas, ou seja, todo o conhecimento científico esta sujeito a revisão. Embora isso seja completamente compatível com a idéia de um “mundo real” para o cientista, para o público em geral talvez não seja bem assim.

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O joio e o trigo.

junho, 2009

Quem acompanha este blog a mais tempo sabe que o debate entre evolucionismo e criacionismo sempre foi um tema recorrente, ao menos no primeiro ano de vida. Gradativamente o debate em si foi sendo deixado de lado, e isso se deve ao fato de que, ao meu ver, falta nos dois lados da polêmica o refinamento necessário para uma discussão saudável.

Normalmente vemos textos e mais textos, os deste blog incluídos, que funcionam basicamente na refutação de contra-argumentos do adversário. Nesta troca desmedida de refutações, o que pouca gente se dá ao trabalho de fazer é separar o joio do trigo. A começar pela unidade fundamental do que se está debatendo: Teoria evolutiva ou teoria da evolução?

Ao observador desatento, ao dogmático mais ferrenho e ao cientista  epistemologicamente pobre, ambas as coisas podem parecer iguais. A simples compreensão desta diferença pode evitar uma série de discussões inúteis e erros de interpretação.

Quando nos referimos à realidade (ou não) da evolução dos seres vivos, estamos falando da teoria evolutiva. Qualquer querela neste nível deve se ater à discussão sobre se a biodiversidade do planeta existe como a vemos hoje desde “sempre” ou foi mudando ao decorrer do tempo. A questão básica aqui é, as espécies são fixas no tempo ou variam?

Já por teoria da evolução entendemos os mecanismos propostos para a variação das espécies no tempo. É aqui que entram Lamarck, Darwin, Neodarwinistas e por aí a fora. A diferença é sutil, mas bastante clara: Uma coisa é saber se as espécies mudam, outra é COMO mudam.

Um cientista bem preparado, e que responde “qual delas?” para a pergunta “você acredita na teoria da evolução?”, tenho certeza, acaba com a maioria dos debates antes mesmo deles começarem.

Mata Atlâtica um Hotspot ameaçado

maio, 2009

O conceito Hotspot significa uma área de importância elevada para conservação da biodiversidade. Ele se baseia no princípio de que a biodiversidade não está distribuída igualmente no planeta, e por isto delimita determinadas áreas com altos níveis de biodiversidade e em risco de degradação ou desaparecimento, e por isso a urgência na implementação de ações de conservação a fim de se preservar estes ecossistemas ou os remanescentes da sua formação original.

No Brasil há dois Hotspots a Mata Atlântica e o Cerrado, que são ecossistemas prioritários para a conservação, isto é, de alta biodiversidade e ameaça em alto grau. Estes ecossistemas foram incluídos nesta categoria, após avaliação de especialistas e do Ministério do Meio Ambiente (1) que trabalharam juntos para identificá-los como Hotspots.

A Floresta Amazônica não é considerada um Hotspot, mesmo sendo considerada de altíssima biodiversidade, pois, não sofreu e/ou sofre um processo de degradação tão intenso como os dois ecossistemas citados, e por isto com risco de desaparecimento permanente de espécies.

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Um chopes, dois pastel e ciência por favor!

abril, 2009

Seu garçom faça o favor de me trazer depressa um choppes, dois pastel e uma ciência que não seja requentada. Um pão bem quente com matemática à beça, um guardanapo e um copo de exatas bem gelado, outro de humanas e um último de biológicas. Aproveita para perguntar ao seu freguês do lado o resultado da palestra, que já está no fim.

Seu garçom feche a porta da direita com muito cuidado que eu estou disposto a ficar exposto a esta forma de divulgação científica. É que a ciência está no bar e se você ficar limpando a mesa, não me levanto e nem pago a despesa. Vá pedir ao seu patrão uma caneta, um tinteiro, um conteúdo científico que semana que vem a gente está de volta.

Seu garçom, você sabia que Brasil adentro tem Cachaça Científica? Já está virando rotina lá na Regional de Pernambuco da Sociedade Brasileira de Progresso à Ciência. E se você pensa que cachaça é água, em 2005 aconteceu na Universidade Federal de Santa Catarina e em 2007 a ciência destilada chegou ao Rio de Janeiro com a Casa da Ciência e o Instituto de Química da Universidade Federal.

Acho que não dá para negar. São eventos inspirados no pioneiro Chopp Científico, ciência com arte e colarinho, que aconteceu pela primeira vez em 2002 no Rio de Janeiro, coordenado pela jornalista Luisa Massarani do Centro de Estudos do Museu da Vida / Fiocruz. Ela, por sua vez, foi inspirada em eventos já existentes na Grã-Bretanha, Austrália e França.

Ah, não se esqueça de me dar palitos. Em várias cidades do mundo tem o Café Scientifique, com temas diversificados, e o SciBar, bastante atual. Já sobre Ciência e Governo, é possível ir ao INSPIRE Science Café. Seu garçom vá dizer ao charuteiro que me empreste umas revistas, um isqueiro e um cinzeiro. É que nossos amigos franceses estão com tudo. Eventos desta natureza acontecem já tem mais de anos, em torno de uma década. Bar des Sciences em Paris, Cafes Sciences e Junior Cafes em Lyon, além de eventos semelhantes em cidades como Marseille e Grenobe.

Seu garçom me empresta algum dinheiro que eu deixei o meu com o bicheiro. Tem Café Scientifique em Marrocos, no Egito, na Dinamarca, na Suíça e no Canadá. Tem em Portugal. Tem aqui, tem ali. Tem Science in the Pub na Austrália, tem Café Científico na Argentina. Vá dizer ao seu gerente que pendure esta despesa no cabide ali em frente, que a divulgação científica está criativa, etílica e saborosa. Uma verdadeira Conversa de Botequim, como bem canta Noel Rosa.