Percepção pública da ciência e os desafios da divulgação científica.

julho, 2008

Durante a 60ª Reunião Anual da SBPC, realizada em Campinas entre os dias 13 e 18 de julho de 2008, tive o prazer de acompanhar a mesa redonda cujo objetivo era discutir a visão pública da ciência em diversos países.  Para tal, os participantes da mesa exibiram os dados coletados por meio de uma pesquisa ampla e executada durante 2006 e 2007. Os resultados não poderiam me deixar mais intrigado.

É curioso notar, por exemplo, que em Caracas 59,8% dos jovens entre 16 e 21 anos alegaram que a ciência é uma profissão atrativa. No Brasil, essa média ficou em 44,6%. Um dado que complementa essa informação é o de que em nosso país, essa porcentagem não muda nos jovens que alegaram se interessar por ciência.

A pesquisa ainda investigava as diferenças de opinião entre as classes sociais e, como pode parecer evidente, a popularidade da ciência diminui junto com a classe social. O que realmente me causou estranhamento é que no Brasil, os jovens que dizem ter contato com a ciência possuem opiniões muito semelhantes àqueles que alegam não se interessarem por este tema.

Uma interpretação possível deste dado é a de que a divulgação científica brasileira é ineficaz. Oras, seria perfeitamente compreensível esperar que dentre os jovens interessados em ciência, o índice daqueles que vêem a ciência como uma profissão fosse maior. Quando este dado não se confirma, eu não posso deixar de pensar que talvez estas pessoas não saibam o que é ciência.

Evidentemente existe um problema na educação científica do país. É certo que este problema provavelmente atinge diversas áreas. Começando pela educação básica, passando pela divulgação científica e chegando à importância que o nosso governo dá ao desenvolvimento científico. O divulgador científico deve ter estes dados em mente.

O que é preciso para tornar a divulgação científica mais atraente? Como atingir a parte da população de baixa renda, revertendo a visão negativa da ciência nessa parcela da população? Como atingir a população das classes mais abastadas e que alegam não se interessarem por ciência?

Acima de tudo, o que é preciso fazer para que as pessoas compreendam que existe uma carreira científica, e que ela nem é tão diferente das tantas outras profissões por aí? Não espero encontrar respostas para todas estas perguntas tão cedo, mas tenho lá minhas reflexões. E você leitor do Polegar Opositor? Qual a sua percepção da ciência?

Auto-análise de texto de divulgação científica

maio, 2008

Este texto foi previamente postado no OPS!, em 13 de dezembro de 2007, momento no qual esta que vos escreve ainda não tinha muita consciência sobre divulgação científica, muito menos sobre jornalismo científico, mas participava entusiasticamente do projeto, OPS! Segue minha autocrítica e o texto na íntegra.

Intuitivamente acertei na quantidade de parágrafos, de fato as pessoas em geral não têm o costume de ler textos extensos, a menos que estejam muito interessadas no tema! Há muita superficialidade na suposta análise crítica, beira a infantilidade até – fóóóó. Textos jornalísticos não permitem as opiniões dos autores, muito menos as ironias – péééé! A construção até obedeceu, sem querer, a “regra de ouro” do jornalismo, que privilegia o que é mais importante (o lide – o quê, quem, como, onde, quando e porquê) sempre no primeiro ou segundo parágrafo, mas deixou os números da pesquisa, que julguei importante, sem a devida importância, lá embaixo no texto – fóóóó! Outro erro está no “nariz de cera” conhecido por palavras introdutórias que nada dizem de importância real – péééé! Um ponto positivo sobrou no último parágrafo, local onde se coloca tudo que pode ser cortado do texto, afinal quando necessário, os jornalistas “cortam pelo pé” das matérias – gol!
Mas “peraí”, isso é um jogo, jornalismo ou divulgação científica?
Pshi, pshi vem cá gatinho!
Não bastando serem alvos de pesquisas, para manter a igualdade com os ratos, que desde os primórdios da Ciência sempre foram, digamos assim, cientificamente oprimidos pelos pesquisadores, agora os bichanos angorás foram alvo da eficiência da clonagem embrionária pela expressão de proteínas fluorescentes vermelhas – red fluorescent protein ou simplesmente RFP – proteínas de anêmonas marinhas do gênero Discosoma, atual biomarcadoras de transferência gênica.
Ocorre-lhe que isto só pode ser coisa de chinês? Pois é! Da revista científica Biology of Reproduction deste mês pra quem quiser ver. Eles argumentam que o genoma dos bichanos é mais próximo do nosso que o dos ratos, porcos e ovelhas e que, portanto, oferecem mais opções para a cura de doenças genéticas para seres como nós, des-humanos, talvez.
Não escondem, ou melhor, informam que a tecnologia também pode ser utilizada para produzir gatos de estimação não-alergênicos, e revelam satisfação por escreverem o primeiro artigo revelando eficiência na clonagem de gatos expressando um gene exógeno. Só faltou os autores dizerem qual será o preço do novo prato fluorescente!
Mas para quem curte números, as tabelas chinesas revelam: 456 oócitos, 261 fecundados in vitro, 46 recuperados da cultura, 32 clivados, 3 blastocistos e 11 gatas de aluguel foram utilizados para gerar os seguintes resultados ditos positivos: 176 embriões transferidos com sucesso, 3 gatas grávidas das quais: uma abortou, outra teve 2 filhotes mas 1 morreu, e a terceira teve 1 filhote. Saldo total: apenas 2 gatos fluorescentes.
Questiono-me se isto é sucesso, hum?! Ah sim, afinal a proteína vermelha foi expressa nos 3 filhotes cujas gestações foram levadas a termo, mas seria um sucesso genÉtico? Confesso que retumbou na minha mente o bom e velho som dos Saltimbancos “nós gatos já nascemos pobres, porém, já nascemos livres”!