Filhos do Caos: As Galáxias de McLuhan.

agosto, 2017

Eu não escrevo para este blog a séculos. A falta de atualizações tem a ver com o fato de a vida estar cobrando seu preço em horas, e eu não tenho o suficiente pra saldar a dívida (a.k.a. trabalho mais que o pai do Cris).

Eu escrevi o texto abaixo quando comecei a dar aulas pra rede pública. Na época eu fiquei absolutamente chocado com a situação da escola e busquei, quase que por desespero, uma forma de compreender o meu caos diário. Me voltei pra única coisa que eu conhecia bem na época: Marshal McLuhan.

Escrevi esse texto e deixei como rascunho aqui, não sei bem por que, e como nunca retornei pra completar a série, nunca o publiquei. Hoje entrei no Polegar por outras razões e reencontrei esse texto. Não vou mentir, não sei nem quando escrevi. A julgar pelo início do texto, que vocês jamais lerão por que reescrevi, foi algo em torno de 2013. DOIS MIL E TREZE.

A ideia, de acordo com o eu próprio de quatro anos no passado (eu nem tia casado, nem era pai…), era explicar a ideia das galáxias de McLuhan e, a partir daí, explicar a razão da escola ser como é hoje e, de quebra, dar uma sugestão de como ela deveria ser! Como é bom ser inocente e achar que é possível mudar o mundo com um texto perdido no Polegar.

Hoje, menos pretensioso, já fico contente de publicar o texto abaixo que, bem ou mal, explica alguns conceitos básicos sobre a obra de McLuhan e faz breves considerações sobre a escola. Eu ainda acho que é possível interpretar parte dos problemas da escola como choque de geração, talvez eu não precisasse sequer invocar Thomas Kuhn pra isso, como fiz ao longo do texto. Porém, acho que o problema da escola vai além, muito além, do simples modelo educacional. Depois destes seis anos como professor vejo, com alguma clareza, como a situação de desigualdade social do Brasil afunda qualquer esperança de uma escola que cumpra sua função mais básica.

Mas isso, com sorte, é um outro texto.

Marshall McLuhan

Marshall McLuhan

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A escola não quer alunos.

agosto, 2014

No dia 01 de Agosto o estado do Paraná se juntou a São Paulo e a outros estados que proibiram por força da lei o uso de celular em salas de aulas nas escolas públicas estaduais.

A justificativa é sempre a mesma, a escola como um todo e os professores em particular não conseguem concorrer com a presença dos aparelhos em sala.

Daí aplicasse a velha lógica brasileira de se proibir aquilo que é o problema aparente sem discutir seriamente as causas. Eu sei que muitos dos meus colegas professores estão felizes pela ampla adoção dos estados brasileiros a esse tipo de proibição, porém é preciso que fique claro pra todo mundo que os celulares não vão desaparecer, a internet não vai sumir, os tablets estarão cada vez mais presente e, a medida que isso ocorre, as escolas vão criando um abismo ainda maior entre si e aqueles que deveriam ser a razão da própria instituição em existir: o aluno.

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Dei-lhe um belo e redondo ZERO!

setembro, 2013

Jorge está em casa olhando para a tela branca a azul do Facebook. Em meio aos vários memes e piadinhas vê um comentário de um colega de classe: “alguém aí fez o trabalho de ciências pra amanha?”. Jorge não fez, nem se lembrava do trabalho. Já são 22:30, a impressora ainda tem tinta, ele aperta o ctrl+t no teclado e digita no campo do Google “Thomas Kuhn Paradigmas”. A página espartana do Google muda para uma série de resultados. Pula o link da wikipédia – todo mundo vai entregar este – continua procurando até que se depara com um outro link: “Os 22 paradigmas de Thomas Kuhn”. Abre o texto, vê que tem a ver com o tema, copia pro Word, faz uma capa, imprime e vai dormir.

copia

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Conheço, logo acredito?

novembro, 2011

A discórdia é o motor propulsor da Ciência. É a partir do embate de ideias, do ataque fervoroso aos pilares teóricos e às evidências que sustentam as teorias que o conhecimento científico avança. Algumas vezes, no entanto, depois de extensas discussões acadêmicas sobre um assunto (que pode demorar décadas), pode acontecer de os cientistas perceberem que aquela questão é “insolúvel”, que nunca haverá consenso. Quando isso acontece, uma espécie de “pacto” é feito, um acordo oculto entre os cientistas de que eles simplesmente vão ter que concordar em discordar.

Pergunte a um biólogo o que é uma espécie e terá uma boa noção do que eu estou falando. O conceito de espécie em Biologia é uma questão que foi (e de vez em quando ainda é) extensamente debatida e, no final de toda essa discussão, o que vemos é existem diversas definições diferentes para este conceito e que cada cientista usa o que melhor lhe convir e ninguém vai “encher o saco” dele por causa disso. Isso a princípio pode parecer absurdo, pois todos os biólogos trabalham com espécies e… como assim nenhum deles sabe ao certo o que é uma espécie? Que contradição!

Há um outro exemplo muito mais chocante, mas, por ser mais conhecido, as pessoas parecem não ligar muito pra ele: O que é Ciência? Há diversas maneiras de tentar responder essa pergunta, desde aquelas mais metodológicas até as sociológicas, passando, é claro, pelas filosóficas (onde se enquadram nossos queridos Popper, Kuhn, Feyrabend, etc.). Há livros e mais livros dedicados exclusivamente a tentar responder essa pergunta (temos até um PolegarCast a esse respeito, confiram!), mas, no final das contas, cada cientista vai pro seu laboratório e faz o seu trabalho sem ficar esquentando muito a cabeça com essa questão. Desde que saia um paper publicado (de preferência dois ou três), tá valendo.

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Desinteresse crônico

janeiro, 2011

Observe os diálogos abaixo:

(1)

– Ei, estou lendo os livros da saga Crepúsculo e estou adorando! Tem muito mais emoção do que nos filmes! Você já leu?

– Eu não cara… Deus me livre! Me dá enjôo só de pensar em quanta bobagem deve estar escrita num livro sobre vampirinhos apaixonados! Não sei como você pode gostar de coisas tão juvenis!

– Ah, para! Se você não leu, não pode falar nada do livro!

– Mas não é possível que essa história seja boa… Me disseram que quando esses vampiros saem no sol, eles viram purpurina! Fala sério, né?

– Nossa, você é muito preconceituoso e cabeça dura! Quando forma uma idéia, ou melhor, copia de alguém, não se abre pra nenhum outro ponto de vista…

(2)

– Você viu que descobriram indícios de respiração unidirecional em crocodilianos? Isso não é demais?! Até então se pensava que só as aves tinham esse tipo de respiração!

– Nossa, mas como assim? Os crocodilos não passam nem perto de ter as mesmas demandas metabólicas que as aves…

– Exato! E eles nem são o grupo de répteis que deu origem às aves, o que indica que esse tipo de respiração pode ser simplesiomórfico pra maioria dos grupos de répteis do final do Triássico.

– Uau… Se for assim mesmo, então muito do que a gente conhece sobre evolução dos vertebrados terrestres vai ter que ser revisto.

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8º ICHSSE – Catalisador de revoluções?

fevereiro, 2010

Muitas pessoas – e acho que eu arrisco dizer a maioria das pessoas – têm uma dificuldade muito grande para entender e aprender Ciências. Todos aqueles nomes complicados da Biologia, as dezenas de fórmulas da Física e a abstração demasiada da Química dão um verdadeiro nó na cabeça. Por que isso acontece?

Essa é uma pergunta nem um pouco fácil de se responder, e existe uma área de pesquisa relativamente recente que se dedica a responder essa pergunta, entre algumas outras. Esse campo de pesquisa em Ensino de Ciência vem crescendo bastante nos últimos anos, alguns pesquisadores vêm se destacando e, melhor do que isso, começando a ser ouvidos. Como toda área de investigação, ela se divide em sub-áreas, que, por sua vez, também têm suas ramificações, e cada uma dessas “sub-sub-áreas” tenta abordar a questão por uma perspectiva diferente, cada um puxando a sardinha pro seu lado e etc. Enfim, todo aquele ritual que faz o conhecimento crescer.

Dentro da problemática do motivo das pessoas terem tanta dificuldade em entender Ciências, eu simpatizo muito com a idéia de que falta contexto no ensino. Aos alunos chega, via livro didático e professor mal pago, somente o produto acabado da Ciência – como se algum produto da Ciência fosse de fato acabado –, totalmente fora do seu contexto de produção. O rico processo de construção do conhecimento fica obscurecido por trás dos “grandes gênios da Ciência” que “fizeram tudo sozinhos”.

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Dinossauros, penas, insensatez e informação

fevereiro, 2010

Na ciência, algumas vezes são propostas idéias que simplesmente não agradam a todos. Seja por motivações ideológicas, religiosas, econômicas ou mesmo pelo gosto de cada um, algumas teorias podem incomodar bastante. A teoria da evolução é um exemplo bem conhecido, e talvez seja um dos melhores que existam. Na época de Darwin, panfletos maliciosos circulavam aos montes. Esses panfletos tentavam enfraquecer a teoria evolutiva não com argumentos científicos, mas pelo apelo às conseqüências da aceitação da teoria: “Se esse cara estiver certo, isso significa que somos parentes dos macacos! Nós não podemos ser parentes dos macacos, então ele só pode estar errado!”.

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“Spider sense is tingling”

janeiro, 2010

Certa vez, um velhinho muito sábio disse a seu sobrinho que “com grandes poderes vêm grandes responsabilidades”. Tudo bem, tudo bem, esse velhinho é um personagem de quadrinhos, mas ele sabia do que estava falando. Esse é um texto sobre como a máxima do sr. Ben Parker pode se aplicar à Ciência.

O grande poder da legitimação

Não é novidade pra ninguém que a Ciência, na forma que tem hoje, é uma grande legitimadora de conhecimento. O conhecimento científico é visto como muito mais acurado e muito melhor do que os outros tipos de conhecimento, mesmo por aqueles que nada sabem sobre o processo de construção dos conhecimentos científicos. Ou seja, mesmo quem não sabe como funciona a construção de saberes na Ciência julga que esses saberes são mais válidos do que os seus próprios, adquiridos a partir de suas vivências. A Ciência tornou-se inquestionável, mesmo que seu pressuposto básico seja o questionamento e a busca pelo conhecimento. Por sinal, quando uma pessoa ouve uma explicação científica para um fenômeno qualquer, ela deixa de buscar esse conhecimento, pois, afinal, ele já está “pronto”. Se a Ciência falou, tá falado.

Em miúdos: atualmente a Ciência tem o poder de decidir qual conhecimento é válido e qual não é. É quase como poder de decidir o que é certo e o que é errado, o que é bom e o que é ruim (por exemplo, de uma semana para a outra a Ciência pode transformar o ovo de vilão a herói de nossa saúde, e seu parecer será definitivo, enquanto a opinião dos ruralistas que criam as galinhas de nada vale, afinal, o que eles podem saber sobre ovos?).

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Pra quê?

dezembro, 2009

José Oliveira se prepara para uma grande festa que ele vai dar. Essa festa simboliza uma grande mudança em sua vida, já que após três anos de cursinho ele foi finalmente aprovado no vestibular e irá cursar Economia numa das melhores universidades do país. Ele está muito aliviado porque nunca mais na vida vai ter que ouvir falar em isótopos, complexo de Golgi ou leis de Kepler. Ele odeia Ciências, e acha que todas as aulas de Ciências que teve na vida foram uma perda de tempo. “Nunca usei a Ciência que aprendi na escola. Não é preciso saber conteúdos científicos para entender o cotidiano”, diz.

As alegações de José são contundentes, e devem ser levadas a sério. Ele diz que saber ou não saber Ciências dá na mesma. Ele não precisa saber o que são pontes de hidrogênio para saber que a água demora mais pra ferver do que o leite, não precisa saber o que é índice de refração para usar óculos e lava louça tranqüilamente sem saber o que é uma molécula polar ou apolar.

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Doutrina Monroe na Ciência

novembro, 2009

Os leitores desse blog devem saber bem que os cientistas são pessoas tão normais quanto qualquer outra. Eles não carregam nada de especial ou de sobrenatural; são apenas pessoas que têm um trabalho, que porventura é o de cientista. Assim como as pessoas normais, os cientistas têm interesses pessoais que eles muitas vezes colocam à frente dos interesses da coletividade, e esses interesses muitas vezes se deixam transparecer nas posições que eles assumem dentro da Ciência.

Mais do que isso, muitas vezes os cientistas tentam utilizar a própria Ciência para legitimar o seu ponto de vista pessoal sobre determinado assunto. Certa vez escrevi um texto que tangia essa questão ao falar de tempos não tão remotos assim em que a teoria da evolução de Darwin foi distorcida para “provar cientificamente” que os ricos são mais inteligentes que os pobres. “Doutrina Monroe na Ciência” é um texto sobre um outro grupo de cientistas tendenciosos que acham que a idéia de tornar a Ciência acessível a todos não é muito boa. Para eles, a Ciência deve ser deixada para os cientistas, os únicos capazes de entendê-la de verdade.

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