Conheço, logo acredito?

A discórdia é o motor propulsor da Ciência. É a partir do embate de ideias, do ataque fervoroso aos pilares teóricos e às evidências que sustentam as teorias que o conhecimento científico avança. Algumas vezes, no entanto, depois de extensas discussões acadêmicas sobre um assunto (que pode demorar décadas), pode acontecer de os cientistas perceberem que aquela questão é “insolúvel”, que nunca haverá consenso. Quando isso acontece, uma espécie de “pacto” é feito, um acordo oculto entre os cientistas de que eles simplesmente vão ter que concordar em discordar.

Pergunte a um biólogo o que é uma espécie e terá uma boa noção do que eu estou falando. O conceito de espécie em Biologia é uma questão que foi (e de vez em quando ainda é) extensamente debatida e, no final de toda essa discussão, o que vemos é existem diversas definições diferentes para este conceito e que cada cientista usa o que melhor lhe convir e ninguém vai “encher o saco” dele por causa disso. Isso a princípio pode parecer absurdo, pois todos os biólogos trabalham com espécies e… como assim nenhum deles sabe ao certo o que é uma espécie? Que contradição!

Há um outro exemplo muito mais chocante, mas, por ser mais conhecido, as pessoas parecem não ligar muito pra ele: O que é Ciência? Há diversas maneiras de tentar responder essa pergunta, desde aquelas mais metodológicas até as sociológicas, passando, é claro, pelas filosóficas (onde se enquadram nossos queridos Popper, Kuhn, Feyrabend, etc.). Há livros e mais livros dedicados exclusivamente a tentar responder essa pergunta (temos até um PolegarCast a esse respeito, confiram!), mas, no final das contas, cada cientista vai pro seu laboratório e faz o seu trabalho sem ficar esquentando muito a cabeça com essa questão. Desde que saia um paper publicado (de preferência dois ou três), tá valendo.

 

Enquanto isso, fora dos laboratórios…

Às vezes jogar o problema pra baixo do tapete e fazer um acordo oculto de não discuti-lo muito pode ajudar. A Ciência vai avançando, mesmo que ninguém saiba definir ao certo o que ela é (como sabemos, então, se ela está avançando? Isso é assunto pra outro texto!). Produzir conhecimento e publicá-lo é o que importa. Mas, se por um lado esse pacto funciona para os cientistas, por outro ele pode ser uma verdadeira pedra no sapato quando se sai da esfera acadêmica.

Se não sabemos claramente o que a Ciência é, como podemos avaliar se a população está sabendo Ciência? Como sabemos se as aulas de Ciências que são ministradas em nossas escolas têm alguma ver a com a Ciência de verdade? Como avaliamos se a população está alfabetizada cientificamente?

Já há um bom tempo vem se tornando consensual a ideia de que algumas noções ingênuas sobre a Ciência devem ser desconstruídas durante a escolarização. Sendo assim, seria ideal que um aluno, ao concluir a educação básica, soubesse que os cientistas não trabalham sozinhos, que eles não são super gênios sobrehumanos, que a Ciência já foi diferente em outras épocas, que o contexto histórico influencia nos interesses das pesquisas, que a Ciência não determina verdades absolutas, que existem critérios de validação do conhecimento científico, etc. Além disso, é claro, é imprescindível que as pessoas conheçam os principais conceitos e as teorias aceitas como verdadeiras pela comunidade científica e como esses conhecimentos afetam a sociedade.

Para avaliar como as pessoas enxergam essas questões, é comum a aplicação de questionários de alfabetização científica. Trata-se de uma lista de perguntas estrategicamente elaboradas por especialistas cujas respostas, depois de passadas por tratamento estatístico, podem indicar o nível de entendimento da população acerca da Ciência, o que é muito importante na tomada de decisões políticas, por exemplo.

Percebam que esses questionários tentam “se esquivar” dos grandes debates e discórdias filosóficas acerca do que é a Ciência, focando mais naquilo que supostamente é “consensual”, que seria aquilo que um cidadão “deveria” saber sobre a Ciência. Estamos num campo polêmico. Ninguém sabe o que é a Ciência, então escolhemos pontos de menor discórdia e “por coincidência” os elegemos como os mais importantes, e aí fazemos questionários pra saber como a população está. Mas a polêmica está só começando.

 

Questionando o questionário

A pesquisadora americana Ann Arbour desenvolveu um questionário de alfabetização científica que foi traduzido e exportado para vários outros países por ser “bem completo”. Nos EUA ele é aplicado a cada dois anos, e ano que vem ele será aplicado novamente. Mas algumas alterações foram sugeridas, e (mais) uma grande controvérsia se formou.

O que acontece é o seguinte: percebeu-se que nas últimas pesquisas a população americana tem ido muito mal nesse teste e que existem algumas perguntas do questionário que são notadamente difíceis, ou seja, que quase todo mundo erra. Duas questões específicas, ambas de verdadeiro ou falso, se destacam: (1) “Os seres humanos, como os conhecemos hoje, se desenvolveram a partir de espécies mais antigas de animais” e (2) “o universo começou com uma grande explosão”.

Há um grupo de especialistas que acredita que os americanos erram essas duas questões em demasia por causa de suas crenças religiosas. Pessoas que acreditam que Deus criou o universo e o homem não marcariam nenhuma dessas afirmações como verdadeiras. Sendo assim, eles sugeriram que as afirmações fossem modificadas com a adição de qualificadores. Elas ficariam assim: “de acordo com a teoria da evolução, os seres humanos…” e “de acordo com os astrônomos, o universo…”. Afinal, a pessoa pode conhecer as teorias, mas não acreditar nelas. A autora do questionário, junto com vários outros especialistas, ficou revoltada. Eles declararam: “Se você mudar o questionário desse jeito, você está fazendo isso por motivos religiosos. (…) Nós não fazemos declarações do tipo ‘de acordo com alguns economistas, nós tivéssemos uma recessão’ ou ‘de acordo com o cara do tempo, nós tivemos um tsunami’”. Segundo esse pessoal, a simples proposição desse tipo de mudança no questionário já é absurda. Seria como mudar as regras do jogo só para que os americanos possam ter melhor desempenho.

Esse debate certamente continuará por um bom tempo, pois os dois lados têm argumentos bastante razoáveis, e o cerne da questão é o seguinte: saber Ciência é acreditar na Ciência? Qual é a diferença? Uma pessoa que não aceita a teoria da evolução e o big bang pode ser considerada alfabetizada cientificamente?

Esse é um campo delicado. Vivemos hoje num paradigma social em que a Ciência tem um papel legitimador muito forte. Sendo assim, não acreditar na Ciência é quase que visto como não acreditar na “verdade”. A Ciência é um tipo de autoridade, e “desrespeitá-la” adotando outras formas de entender o mundo não é muito bem visto. Esse tom valorativo do conhecimento científico sobre os demais pode atrapalhar na hora de pensar sobre questões como essa.

Na minha opinião, a Ciência é, entre outras coisas, uma forma de pensar. É uma forma de ver o mundo que conta muito com a racionalidade e que se baseia em fatos e evidências para sustentar suas afirmações. É necessário que as pessoas não só percebam isso (para que entendam como o conhecimento é construído), mas saibam pensar dessa forma quando conveniente, já que essa maneira de pensar, é claro, não é útil somente dentro dos laboratórios de pesquisa. Podemos utilizá-la para a tomada de decisões no dia a dia e nos beneficiar da sua forma “fria” e crítica de analisar as situações. Mas essa forma de pensar não é adequada para todos os tipos de situação. Quanto maior o número de variáveis subjetivas, como fatores pessoais, inter-pessoais, emocionais, etc., mais complicado é usar a forma científica de pensar. Ninguém vai querer usá-la na hora de escolher uma namorada, por exemplo, pegando a genealogia da pretendente para checar as doenças genéticas presentes na família para averiguar se ela seria uma boa parceira. Pra quem assiste o seriado “The Big Bang Theory”, o Sheldon é um ótimo exemplo de como a forma científica de se pensar pode ser inadequada (até mesmo ridícula) em diversas situações.

 

O buraco é (bem) mais embaixo

Mas quem somos nós para dizer onde essa linha deve ser desenhada? A forma científica de pensar deveria estar no hall de opções de todas as pessoas, até mesmo porque essa é única forma de entender como a Ciência funciona, mas não tem como avaliar quando ela deve ou não ser usada. Uma pessoa que não acredita na teoria da evolução ou no big bang por motivos religiosos está preferindo usar uma outra forma de pensar quando o assunto é a origem do homem e do universo. Há quem diga que o entendimento dessas teorias é suficiente para a sua aceitação, mas a realidade é bem mais complexa que isso.

O discernimento entre conhecer as teorias científicas e aceita-las é importante, mas não pode ser feito de maneira rasa. Todo mundo sabe que a Ciência acredita que as espécies evoluem e que o universo começou com uma grande explosão, mas quantas pessoas conhecem as evidências que sustentam essas teorias? Estar alfabetizado cientificamente é entender como os cientistas elaboraram essas e outras teorias e porque acreditam nelas até hoje, e uma marcação de “verdadeiro” ou “falso” num questionário não passa nem perto de nos dar essa resposta, seja a pergunta montada da forma que for.

Não devemos entrar no mérito de fazer julgamentos sobre as pessoas que não acreditam nas teorias científicas, mas temos a obrigação de fazer questionamentos sobre as escolas que não as ensinam. Afinal, se a escola estivesse em condições de cumprir seus objetivos, nem haveria razão para que questionários desse tipo fossem feitos, já que um diploma de ensino médio seria mais do que suficiente para se ter certeza de que aquela pessoa tem essas habilidades. A discussão a respeito da modificação nesse questionário é pertinente, já que levanta questões importantes, mas impressiona ver como em pleno século XXI ainda este ainda é o tópico de discussão.

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Desinteresse crônico

Observe os diálogos abaixo:

(1)

- Ei, estou lendo os livros da saga Crepúsculo e estou adorando! Tem muito mais emoção do que nos filmes! Você já leu?

- Eu não cara… Deus me livre! Me dá enjôo só de pensar em quanta bobagem deve estar escrita num livro sobre vampirinhos apaixonados! Não sei como você pode gostar de coisas tão juvenis!

- Ah, para! Se você não leu, não pode falar nada do livro!

- Mas não é possível que essa história seja boa… Me disseram que quando esses vampiros saem no sol, eles viram purpurina! Fala sério, né?

- Nossa, você é muito preconceituoso e cabeça dura! Quando forma uma idéia, ou melhor, copia de alguém, não se abre pra nenhum outro ponto de vista…

(2)

- Você viu que descobriram indícios de respiração unidirecional em crocodilianos? Isso não é demais?! Até então se pensava que só as aves tinham esse tipo de respiração!

- Nossa, mas como assim? Os crocodilos não passam nem perto de ter as mesmas demandas metabólicas que as aves…

- Exato! E eles nem são o grupo de répteis que deu origem às aves, o que indica que esse tipo de respiração pode ser simplesiomórfico pra maioria dos grupos de répteis do final do Triássico.

- Uau… Se for assim mesmo, então muito do que a gente conhece sobre evolução dos vertebrados terrestres vai ter que ser revisto.

Onde poderia ter acontecido cada uma dessas conversas? A primeira possivelmente em um lugar comum, como uma praça, um bar, um ônibus, na sala de estar, no MSN… Enfim, praticamente em qualquer lugar. Mas a segunda, por algum motivo, parece que só poderia acontecer num ambiente acadêmico: alunos nerds conversando num final de palestra ou talvez docentes batendo papo num café. O segundo diálogo parece ser deslocado, como se fosse preciso um certo nível de “anormalidade” por parte dos participantes para que ele aconteça. Afinal de contas, quem em sã consciência conversaria sobre… simplesiomorfias?

Mas, se pensarmos bem, qual é o problema em conversar sobre simplesiomorfias? Porque as pessoas acompanham de perto os lançamentos de CDs, filmes e livros que gostam, mas não fazem o mesmo esforço para acompanhar as descobertas científicas de alguma área que tenham interesse? A resposta sincera é triste: porque as pessoas não têm muito interesse pela Ciência. Por algum motivo, interessa a todos saber em detalhes a biografia daquele artista bacana, mas não a dos cientistas e outros personagens que, de certa forma, moldaram a forma como enxergamos as coisas. Todo mundo quer saber da onde a Lady Gaga tirou a idéia de usar uma roupa de carne, mas ninguém quer saber da onde Copérnico tirou a idéia de que a Terra gira em torno do Sol ou Darwin tirou a idéia da seleção natural.

Por muito tempo a Ciência era chamada de filosofia natural, e um sábio certa vez disse que “o início da filosofia é a admiração. A filosofia é a expressão humana da curiosidade sobre tudo, sua tentativa de entender o mundo por meio de seu intelecto”. Assim, a Ciência seria uma extensão da curiosidade humana, que começa com a admiração. Mas ninguém mais se admira com as estrelas ou os animais, e sim com reality shows e escândalos dos famosos.

Por que isso acontece? O que tem de errado com a Ciência? Por um lado, ninguém discorda que ela é absolutamente importante pra humanidade, mas, por outro, parece haver um consenso de que não é importante conhecer a história da Ciência, ou saber como ela funciona. Na verdade, até mesmo o conhecimento construído por ela parece entediar (ao invés de fascinar) muita gente. “Ah, respiração unidirecional…legal…”

Talvez a Ciência seja chata e entediante, e por isso atraia poucas pessoas. Mas pode ser que não. Talvez ela seja formidável e instigante, mas por algum motivo as pessoas não consigam perceber isso. Pesquisas sobre a imagem pública da Ciência revelam que o cidadão comum sabe muito pouco a respeito das práticas científicas e tem um domínio limitado de alguns conceitos centrais. A possibilidade de a Ciência ser chata ainda não está descartada, mas essas pesquisas mostram que a Ciência que as pessoas desgostam não é a mesma que é praticada laboratórios adentro.

Sendo assim, é bem possível que as pessoas não se interessem pela Ciência por não conhecê-la muito bem. Se for isso, então seria suficiente que as pessoas conhecessem a Ciência mais de perto. Podemos com justiça nos rebelar contra nosso sistema de ensino, que tem aulas de “ciências” em todos os 12 anos do ensino básico e mesmo assim forma alunos pouco proficientes. A escola (e os governos que definem e executam suas diretrizes) tem, sim, uma grande parcela de culpa nessa questão. Mas colocar a culpa no governo é uma das formas mais clássicas de se eximir de responsabilidade. Além disso, quando falamos de mudanças curriculares nas escolas, estamos falando de um prazo bastante longo; décadas.

Haveria outras formas de aumentar o conhecimento e o interesse do grande público pela Ciência? Talvez um dos grandes problemas seja a forma dogmática com que a Ciência chega ao público. As pessoas podem discordar a respeito de se um livro ou um CD é bom ou ruim, mas parecem não achar que podem discordar das coisas que vêm da Ciência. Se tudo que a Ciência diz é certo e definitivo, então realmente não tem muito o que ficar conversando sobre ela. Fosse o campo aberto de debates da Ciência revelado, um grande passo seria dado.

O que poderia, então, ser feito? Será que se os jornais tivessem um caderno de Ciência num formato diferenciado, ou as revistas que prometem dietas milagrosas falassem um pouco de fisiologia, as coisas poderiam melhorar? E se as revistas discutissem mais Ciência e menos a vida das celebridades (ou incluíssem cientistas como celebridades e falassem sobre a vida deles)? E se os telejornais e documentários expusessem as descobertas científicas num tom menos impositivo? Será que exposições científicas a preços acessíveis ajudariam? Que tal trocar o “show da Física” por quadros mais condizentes com a prática científica nos programas de domingo? E se cientistas fossem convidados com mais freqüência pra talk shows e os livros de divulgação fossem mais baratos? Viajando um pouco mais: e se as chapinhas viessem com uma explicação de como elas deixam o cabelo liso no manual, ou se os antibióticos contassem a história da descoberta acidental da penicilina na bula? E se na etiqueta dos cobertores viesse escrito “você sabia que não é cobertor que te esquenta, mas é você que esquenta o cobertor?”

Exageros a parte, a mensagem que fica é que as pessoas não conhecem a Ciência, mas há diversas formas de tentar reverter a situação. Algumas podem estar a nosso alcance: desafiar o irmão caçula a descobrir porque o cacto morre se for regado ou explicar pra mãe porque a cebola faz chorar já pode ser um começo. Puxar assuntos científicos na roda de amigos também pode ajudar (falar mal do show da Física é uma boa pedida!).  Podemos ir além e enviar cartas pro jornal que assinamos reclamando da finura do caderno de Ciência ou descer a lenha em portais na internet que divulgam que os cientistas da NASA descobriram uma “bactéria alienígena” ou que “o ornitorrinco é uma mistura de ave, réptil e mamífero”. Indicar e emprestar livros de divulgação pros amigos também é válido. São coisas pequenas que podem fazer alguma diferença.

Ou não. O buraco pode ser mais em baixo. Pouca gente se interessa por política e economia também, e esses temas são bem melhor divulgados na mídia do que a Ciência. Talvez o desinteresse crônico das pessoas seja um sintoma do fim dos tempos. Esperemos que não.

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8º ICHSSE – Catalisador de revoluções?

Muitas pessoas – e acho que eu arrisco dizer a maioria das pessoas – têm uma dificuldade muito grande para entender e aprender Ciências. Todos aqueles nomes complicados da Biologia, as dezenas de fórmulas da Física e a abstração demasiada da Química dão um verdadeiro nó na cabeça. Por que isso acontece?

Essa é uma pergunta nem um pouco fácil de se responder, e existe uma área de pesquisa relativamente recente que se dedica a responder essa pergunta, entre algumas outras. Esse campo de pesquisa em Ensino de Ciência vem crescendo bastante nos últimos anos, alguns pesquisadores vêm se destacando e, melhor do que isso, começando a ser ouvidos. Como toda área de investigação, ela se divide em sub-áreas, que, por sua vez, também têm suas ramificações, e cada uma dessas “sub-sub-áreas” tenta abordar a questão por uma perspectiva diferente, cada um puxando a sardinha pro seu lado e etc. Enfim, todo aquele ritual que faz o conhecimento crescer.

Dentro da problemática do motivo das pessoas terem tanta dificuldade em entender Ciências, eu simpatizo muito com a idéia de que falta contexto no ensino. Aos alunos chega, via livro didático e professor mal pago, somente o produto acabado da Ciência – como se algum produto da Ciência fosse de fato acabado –, totalmente fora do seu contexto de produção. O rico processo de construção do conhecimento fica obscurecido por trás dos “grandes gênios da Ciência” que “fizeram tudo sozinhos”.

Decore todas as fórmulas e conceitos pra passar nas provas; esse é o nosso ensino de Ciências. Assim fica mesmo difícil aprender alguma coisa. Como aprender um conceito sem ter idéia de sua aplicação e de sua história? Esse ensino que consiste no professor dando respostas prontas pra perguntas que o aluno não fez simplesmente não dá certo. O professor repete as coisas que estão no livro didático, que por acaso são coisas que o aluno não está nem um pouco interessado em aprender.

Por essas e outras razões, acredito que deva haver uma mudança radical no ensino, mas radical em longo prazo; ela na verdade aconteceria aos poucos, um passo de cada vez. E um dos primeiros passos seria a inclusão da História e da Filosofia da Ciência no ensino. Não uma inclusãozinho de leve, com 2 ou 3 aulinhas sobre o tema. Falo de um verdadeiro mergulho na História da Ciência, que iria encharcar todas as aulas com contexto. O problema é que isso que para mim é apenas um primeiro passo já é visto como algo radicalíssimo por muitos, isso sem contar aqueles (que não são poucos), que acham que a História e Filosofia da Ciência não servem pra nada.

Realmente há muitos obstáculos par a implantação dessa idéia, e talvez o principal deles seja a falta de discussão sobre o tema, pelo menos no Brasil. Se a área de pesquisa em Ensino de Ciências é recente, no Brasil ela é ainda mais nova, com pouquíssimos pesquisadores. Dessa forma, esse tipo de discussão caminha em marcha muito lenta por aqui, e eu estou falando da academia. A transposição para a escola é outra história.

Por isso, fiquei muito feliz ao saber que esse ano, em Maresias, ocorrerão dois eventos, um em seguida do outro, que certamente vão catalisar as discussões sobre a inclusão da História e Filosofia da Ciência no ensino por aqui. Os eventos são a 8ª Conferência Internacional para a História da Ciência no Ensino de Ciências (8th ICHSSE) e a 1ª Conferência Latino Americana do Grupo Internacional de História, Filosofia e Ensino de Ciências (1ª HPTS-LA).

Os eventos são só em agosto, mas as expectativas já estão altas. As minhas, pelo menos. Não sei, talvez seja empolgação demais por um congresso que vai ser como qualquer outro, mas não se pode julgar alguém por sonhar, não é? O congresso é em agosto, as eleições em outubro. Quem sabe…

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Dinossauros, penas, insensatez e informação

Na ciência, algumas vezes são propostas idéias que simplesmente não agradam a todos. Seja por motivações ideológicas, religiosas, econômicas ou mesmo pelo gosto de cada um, algumas teorias podem incomodar bastante. A teoria da evolução é um exemplo bem conhecido, e talvez seja um dos melhores que existam. Na época de Darwin, panfletos maliciosos circulavam aos montes. Esses panfletos tentavam enfraquecer a teoria evolutiva não com argumentos científicos, mas pelo apelo às conseqüências da aceitação da teoria: “Se esse cara estiver certo, isso significa que somos parentes dos macacos! Nós não podemos ser parentes dos macacos, então ele só pode estar errado!”.

Na verdade até hoje sites criacionistas proliferam na internet com essa mesma intenção de ridicularizar uma teoria científica com argumentos não científicos. No entanto, essa semana achei na internet algo que me surpreendeu e chocou. Um sujeito leu um artigo da Nature do mês passado que trata de uma pesquisa que descobriu o provável padrão de coloração das penas de uma espécie de dinossauro. Ele não gostou muito. Na verdade ele não gostou nem um pouco. Ele ficou atordoado, mas não por terem descoberto a coloração das penas. O que o incomodou foi a premissa da pesquisa: alguns dinossauros tinham penas.

Ele ficou tão revoltado que começou uma campanha na internet contra a teoria dos dinossauros com penas. O lema de sua campanha é “Dinossauros com penas são uma teoria, não um fato!”, e seu argumento central é o seguinte: “Há alguns dias saiu uma história sobre como ‘cientistas’ estavam orgulhosos de terem descoberto qual a cor exata das penas de um tipo particular de dinossauro, o que é maravilhoso para eles, exceto pelo fato de que toda a idéia de dinossauros com penas é completamente estúpida. Os dinossauros são máquinas mortíferas cobertas de couro. Não são rainhas do Carnaval brasileiro”. Ou seja, como os dinossauros têm que ser malvados, eles não podem ter penas. Um belo argumento!

Uma das características mais legais da Ciência é o fato dela não ser fechada. Todas as teorias estão sempre abertas à discussão. Muito já foi escrito sobre como se dão essas discussões e sobre como uma teoria é substituída por outra. Evidentemente, este sujeito nunca leu nenhum desses escritos. Provavelmente não se informou melhor sobre a própria teoria que está atacando também.

Este é um caso extremo, mas acho que ele traz à luz uma questão bastante comum: a maioria das pessoas não tem a menor idéia de como a ciência funciona! Para esse cidadão não faltou sensatez (tá, talvez um pouco!), mas sim (in)formação. Esse é um caso do qual podemos rir, mas só até cair a ficha de que muitas pessoas só acreditam na Ciência que lhes convém. Foi assim com Darwin e é assim com os dinossauros. Enquanto as pessoas não entenderem como funciona a Ciência, vai ser difícil convencê-las a acreditar em coisas que elas não gostam só porque “é científico”. Kuhn, Popper, Lakatos, Feyerabend e outros filósofos já fizeram a parte deles. Todos sabemos que a escola tem um papel importante a cumprir, mas, para linkar com o texto do Thiago e criar um pouco de polêmica, qual é o papel dos divulgadores da Ciência nessa história? Como cumprir esse papel? Aparentemente, cuspir curiosidades científicas não é o caminho certo. Talvez, inclusive, seja um caminho bastante errado.

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“Spider sense is tingling”

Certa vez, um velhinho muito sábio disse a seu sobrinho que “com grandes poderes vêm grandes responsabilidades”. Tudo bem, tudo bem, esse velhinho é um personagem de quadrinhos, mas ele sabia do que estava falando. Esse é um texto sobre como a máxima do sr. Ben Parker pode se aplicar à Ciência.

O grande poder da legitimação

Não é novidade pra ninguém que a Ciência, na forma que tem hoje, é uma grande legitimadora de conhecimento. O conhecimento científico é visto como muito mais acurado e muito melhor do que os outros tipos de conhecimento, mesmo por aqueles que nada sabem sobre o processo de construção dos conhecimentos científicos. Ou seja, mesmo quem não sabe como funciona a construção de saberes na Ciência julga que esses saberes são mais válidos do que os seus próprios, adquiridos a partir de suas vivências. A Ciência tornou-se inquestionável, mesmo que seu pressuposto básico seja o questionamento e a busca pelo conhecimento. Por sinal, quando uma pessoa ouve uma explicação científica para um fenômeno qualquer, ela deixa de buscar esse conhecimento, pois, afinal, ele já está “pronto”. Se a Ciência falou, tá falado.

Em miúdos: atualmente a Ciência tem o poder de decidir qual conhecimento é válido e qual não é. É quase como poder de decidir o que é certo e o que é errado, o que é bom e o que é ruim (por exemplo, de uma semana para a outra a Ciência pode transformar o ovo de vilão a herói de nossa saúde, e seu parecer será definitivo, enquanto a opinião dos ruralistas que criam as galinhas de nada vale, afinal, o que eles podem saber sobre ovos?).

A grande responsabilidade da universalização

Se por um lado a Ciência nos permite feitos incríveis como chegar a Marte ou seqüenciar o DNA dos bichos, por outro ela marginaliza todas as pessoas que não entendem como esses feitos são possíveis, assim como todas as formas de pensar que não concordam com “o progresso da Ciência” – estas são vistas como reacionárias. Ela cria analfabetos, analfabetos científicos. Isso acontece porque, coincidentemente ou não, o conhecimento que a Ciência cria e valoriza é um que a grande maioria da população não tem acesso.

Existem dezenas de motivos pelos quais devemos defender a universalização do conhecimento científico, já que uma população alfabetizada cientificamente só traz desvantagens àqueles que dela querem se aproveitar. E é esse o ponto que levanto aqui; um ponto ideológico: é muito mais fácil convencer uma pessoa de que você está certo se ela não entender nada do que você está falando (os editores de Sokal que o digam!). Assim, uma população analfabeta cientificamente continuará a acreditar cegamente em tudo o que a Ciência disser, enquanto uma população alfabetizada iria se posicionar, questionar, criticar, etc.

Se a Ciência que se deseja é uma que se afasta da sociedade e se envolve numa áurea para parecer imaculada e neutra, então estamos no caminho certo. Mas sabemos que as coisas não são bem assim.A Ciência cresce na medida que mais e mais pessoas são capazes de entendê-la para questioná-la e, assim, alavancar seu desenvolvimento. Além disso, se todos entendessem a Ciência, a população iria assegurar que a Ciência vai concentrar esforços e verbas em áreas pertinentes para toda a sociedade, e não somente para os grupos dominantes.

A idéia central é que, se a Ciência têm o poder de decidir o que é verdade e o que é mentira, então ela tem a responsabilidade de validar verdades que sejam do interesse de todos, e a única maneira disso acontecer é garantindo que todos tenham acesso ao conhecimento que é produzido por ela. Limitar o privilégio do acesso ao conhecimento apenas às “mentes brilhantes” que freqüentam as universidades pode custar muito caro. Mais caro do que qualquer agência financiadora pode pagar. “Spider sense is tingling”.

“O aspecto mais triste da vida de hoje é que a Ciência ganha em conhecimento mais rapidamente que a sociedade em sabedoria” (Isaac Asimov).

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Pra quê?

José Oliveira se prepara para uma grande festa que ele vai dar. Essa festa simboliza uma grande mudança em sua vida, já que após três anos de cursinho ele foi finalmente aprovado no vestibular e irá cursar Economia numa das melhores universidades do país. Ele está muito aliviado porque nunca mais na vida vai ter que ouvir falar em isótopos, complexo de Golgi ou leis de Kepler. Ele odeia Ciências, e acha que todas as aulas de Ciências que teve na vida foram uma perda de tempo. “Nunca usei a Ciência que aprendi na escola. Não é preciso saber conteúdos científicos para entender o cotidiano”, diz.

As alegações de José são contundentes, e devem ser levadas a sério. Ele diz que saber ou não saber Ciências dá na mesma. Ele não precisa saber o que são pontes de hidrogênio para saber que a água demora mais pra ferver do que o leite, não precisa saber o que é índice de refração para usar óculos e lava louça tranqüilamente sem saber o que é uma molécula polar ou apolar.

José certamente não está sozinho. Muita gente concorda com ele, e a discussão que eles levantam é interessante e não trivial. Por que as pessoas têm que saber Ciências se, ao contrário de Línguas ou Matemática, muito pouco desse conhecimento é de fato aplicável ao dia-a-dia? José não vai mudar o jeito de viver se descobrir que uma dia existiu um tal de Trilobita ou que a água tem densidade máxima a 4ºC.

Poderíamos dar a José o argumento de Sagan, de que “a Ciência é como uma vela num mundo assombrado por demônios”, mas ele não aceita argumentos assim abstratos. Ele quer coisas concretas, aplicáveis, palpáveis. Pra que serve saber as partes de um átomo e tantas outras besteiras que os profs de Ciências insistem em dizer?

Há várias maneiras de retrucar José. Escolherei uma e convidarei os leitores a pensem (e, de preferência, comentarem) em outras.

Talvez José esteja certo em dizer que as aulas de Ciências que ele teve na vida foram uma perda de tempo. Sabemos que o modelo de aula e a concepção de educação que permeia nossas escolas estão muito ultrapassados. Mas o fato da aula ser ruim não significa que o conteúdo não seja importante. Existem professores péssimos de Matemática, mas isso não significa que não é importante saber contar. Talvez se José tivesse tido bons professores de Ciências, ele entenderia o argumento de Sagan, e gostasse de Ciência nem que fosse pelo exercício intelectual. Mas ele não teve, e não engole esse argumento.

Ora, se José é tão espertalhão e só quer saber das coisas concretas, então ele não pode negar que a tecnologia, uma das facetas da Ciência, interfere diretamente em sua vida. Mesmo assim, ele poderia argumentar que ele não precisa saber como funciona um pen drive para usar um. Correto. Mas e se formos para assuntos mais polêmicos, como clonagem humana, alimentos transgênicos, células tronco, créditos carbono ou robôs que tiram o emprego de centenas de homens?

José quer saber das coisas paupáveis, mas, por não gostar de Ciência, não a vê como empreendimento humano. Não entende que a Ciência e a sociedade estão altamente interligadas, e que se ele não souber um mínimo de Ciência (que não é tão pouco assim) ele vai ser só mais uma ovelha no rebanho. José quer ser questionador, mas como vai questionar a Ciência se não a conhecê-la?

Grande parte do financiamento para pesquisa é feita com dinheiro público – o dinheiro do José de todas as outras pessoas. Isso significa que o Governo, ao invés de ampliar as vagas nas Universidades públicas, está investindo milhões para sequenciar DNA de cana. Se fosse diferente, José não precisaria ter feito três anos de cursinho. Mas se ele não souber o que é DNA e não souber o que a cana tem de tão especial, ele nunca vai entender onde estão gastando o seu dinheiro.

Reações de combustão, fotossíntese e comprimentos de onda parecem coisas abstratas. Mas dinheiro, emprego e tempo de cursinho são bastante concretos. A relação entre essas coisas só será visível para José se ele entender um pouquinho de Ciência. Cidadania tem tudo a ver com Ciência, mas infelizmente pouca gente sabe disso.

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Doutrina Monroe na Ciência

Os leitores desse blog devem saber bem que os cientistas são pessoas tão normais quanto qualquer outra. Eles não carregam nada de especial ou de sobrenatural; são apenas pessoas que têm um trabalho, que porventura é o de cientista. Assim como as pessoas normais, os cientistas têm interesses pessoais que eles muitas vezes colocam à frente dos interesses da coletividade, e esses interesses muitas vezes se deixam transparecer nas posições que eles assumem dentro da Ciência.

Mais do que isso, muitas vezes os cientistas tentam utilizar a própria Ciência para legitimar o seu ponto de vista pessoal sobre determinado assunto. Certa vez escrevi um texto que tangia essa questão ao falar de tempos não tão remotos assim em que a teoria da evolução de Darwin foi distorcida para “provar cientificamente” que os ricos são mais inteligentes que os pobres. “Doutrina Monroe na Ciência” é um texto sobre um outro grupo de cientistas tendenciosos que acham que a idéia de tornar a Ciência acessível a todos não é muito boa. Para eles, a Ciência deve ser deixada para os cientistas, os únicos capazes de entendê-la de verdade.

“América para os americanos”

O final do séc. XVIII e início do XIX foi um período bastante conturbado na América Latina, e em especial na América Central. Vários países que até então ainda eram colônias conquistaram a independência política de suas metrópoles européias, que desde o início do séc. XVI exploravam e extorquiam essas terras e esse povo.

Enquanto as ex-metrópoles européias calculavam o rentável saldo de 300 anos de exploração, uma emergente potência da América do Norte viu nessa situação uma possibilidade de se dar muito bem. A estratégia era simples, e deu muito certo. Ela consistia basicamente em se “fazer de bonzinho” e ficar do lado das ex-colônias, defendendo-as de possíveis re-colonizações européias. Seu elaborador, o então presidente dos Estados Unidos James Monroe, a divulgou numa mensagem mandada ao congresso dos EUA em 1823:

“Julgamos propícia esta ocasião para afirmar, como um princípio que afeta os direitos e interesses dos Estados Unidos, que os continentes americanos, em virtude da condição livre e independente que adquiriram e conservam, não podem mais ser considerados, no futuro, como suscetíveis de colonização por nenhuma potência européia”.

Por trás do discurso, uma mensagem clara: “Sai pra lá, Europa! Agora é nossa vez de colonizar!” Os países latino-americanos trocaram (sem muita escolha, na verdade) um colonizador por outro, por quem são explorados até hoje.

“Ciência para os cientistas”

Em 1995, Morris Shamos escreveu o livro “The Myth of Scientific Literacy”, em que defende que a idéia de que toda a população pode ser alfabetizada cientificamente é um mito. Segundo ele, a Ciência é difícil e complexa demais para que as pessoas comuns consigam entendê-la o suficiente para participar das discussões científicas que afligem a sociedade nos dias de hoje. Assim, questões como o aquecimento global, o uso de células tronco, a destruição de florestas, a extinção de espécies, a clonagem humana, etc., não devem ser discutidas pelas pessoas comuns, por que, afinal, são assuntos da Ciência, e os assuntos da Ciência são complicados demais para que as pessoas entendam o que está em jogo. O julgamento delas é inútil, já que elas não têm, e nunca terão, nem o conhecimento técnico nem as capacidades intelectuais que os cientistas têm.

Já que a “Ciência de verdade” é inatingível para a maioria das pessoas, o autor defende a idéia de que a educação das massas deveria conter não um ensino de Ciências, mas um “curso de apreciação da Ciência”, parecido com os cursos de apreciação musical que alguns colégios têm. O objetivo desses cursos seria a diversão e o entretenimento, uma vez que investir numa formação científica para a cidadania é perda de tempo. Ele diz que a educação científica como existe hoje é penosa e ineficaz para os estudantes, e que as coisas não precisam ser assim. Já que ninguém vai aprender nada mesmo, que pelo menos eles se divirtam. Já aqueles que têm “o dom para ser cientistas” deveriam receber uma educação tradicional, com aulas expositivas e práticas, como as que existem hoje em dia.

Os argumentos levantados pelo Sr. Shamos são altamente polêmicos e questionáveis (tenho certeza que o leitor deve ter encontrado vários furos), mas isso de forma alguma o torna  um maluco que escreveu um livro infeliz. Ele é apenas um dos muitos cientistas que defendem uma linha de pensamento elitista e reacionária que, obviamente, está pautada em escolhas e interesses políticos.

Se levarmos a cabo as idéias desses de cientistas, teremos um cenário em que um pequeno grupo de pessoas “abençoadas com o dom para serem cientistas”, que – olha só que coincidência! – são quase todas das classes mais ricas, discutem a Ciência e tomam decisões que vão atingir toda a sociedade, enquanto as pessoas mais pobres (que são a imensa maioria da população) são iludidas com uma Ciência lúdica, sensacionalista e falsa. Essa Ciência “divertida” seria um verdadeiro presente para as classes mais pobres, que não precisariam mais ser massacradas pelo árduo conhecimento científico que são obrigadas a engolir nas escolas.

James Monroe manteve a Europa longe da América Latina para que os EUA pudessem se banquetear nos recursos desses países pobres. Shamos e seus colegas gostariam de manter a Ciência autêntica longe do “povão” para que as classes mais ricas possam continuar se banqueteando nos recursos que uma população alienada tem para oferecer. Tudo isso é só uma resposta das amedrontadas elites aos movimentos progressistas na educação científica. A idéia de uma população letrada não interessa muito a eles.

“Julgamos propícia esta ocasião para afirmar, como um princípio que afeta os direitos e interesses das classes dominantes, que o conhecimento científico, em virtude das condições elitizadas que adquiriram e conservam, não podem mais ser considerados, no futuro, como suscetível de ser acessado por nenhuma pessoa de baixa renda”.

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O ringue oculto dos cientistas e a falsa democracia

Atualmente aclamamos a democracia como a melhor forma de governo para as sociedades humanas, e não olhamos com bons olhos aqueles que defendem ditaduras ou monarquias. De fato, já que o governo deveria atender os interesses do povo, nada melhor, na teoria, do que um regime governamental em que os cidadãos tenham voz e participação nas decisões, não só podendo elecroger seus representantes, mas também reivindicando que esses governantes garantam a melhor qualidade de vida possível para a população. A democracia, entretanto, tem um pequeno viés: depender, por assim dizer, da participação popular. E se o povo for passivo, acrítico e não se interessar por participar das decisões políticas de sua cidade/estado/país? Se isso ocorrer, a democracia pode se aproximar dos temidos regimes ditatoriais, já que as decisões tomadas pelos governantes não serão questionadas e não haverá resistência por parte da população. Dessa forma, para o bom funcionamento da democracia é fundamental que os cidadãos sejam impelidos e incentivados a serem participativos na sociedade. A conscientização da importância de participar deve ocorrer, entre outros lugares, na escola – o que está, inclusive, previsto por lei.

O leitor deve estar pensando “Tá… Muito bonito, mas o que isso tem a ver com Ciência?” Peço calma aos senhores! Há uma relação bastante direta, embora pouco óbvia, entre o bom funcionamento do regime democrático e o entendimento adequado da natureza da Ciência. Chegaremos lá.

Como sabemos, a Ciência é uma construção histórica. Longe de ser neutra e pacífica, a Ciência é permeada por conflitos de diversas naturezas. A Ciência pode conflitar com os interesses e crenças da sociedade (como exemplo, podemos citar o alvoroço causado quando Darwin apresentou sua Teoria da Evolução por seleção natural) e tem, claro, seus embates internos. Os conflitos internos ocorrem em diversos níveis. Um deles é o embate de idéias entre os cientistas, que ocorre intensamente, dia após dia, paper após paper, por causa das diversas interpretações possíveis que um mesmo conjunto de dados pode ter. Às vezes esses conflitos de idéias geram grandes mudanças de paradigma na Ciência, como Kuhn entenderia. Outra forma de conflito na Ciência – uma forma um pouco mais velada, que os cientistas não gostam muito de admitir – é o conflito entre as áreas do conhecimento ou entre cientistas individuais por prestígio. A vontade de trazer cientistas capacitados para sua área de pesquisa ao invés de outras, ou a pretensão de persuadir a comunidade científica de que determinado ponto de vista é mais adequado pode ser um grande aditivo motivacional para os cientistas que, nesses casos, vêem os outros cientistas como “competidores” que devem ser ultrapassados. Não podemos esquecer ainda dos caminhos metodológicos, que estão sempre em constante discussão. Definitivamente, “consensual” não é um dos adjetivos que se pode dar à Ciência.

O ponto principal é que todas essas formas de conflito, longe de constituírem “pontos fracos” que devem ser evitados, são a força motriz da Ciência. É esse interminável embate de idéias e de interesses que faz a Ciência progredir. Tire o conflito da Ciência e tenha uma Ciência estagnada, imóvel, que não se desenvolve – uma Ciência que beira a inutilidade.

A centralidade do conflito para o desenvolvimento da Ciência (não esqueçamos que o conflito também é central para o desenvolvimento da sociedade, como observaria qualquer historiador razoável – “A história do homem é a história da luta de classes”, como diria um historiador bastante razoável) é um fato, e um fato que não deveria ser escondido de ninguém. Entretanto, a Ciência que é apresentada aos alunos nas escolas é bem diferente dessa Ciência conflituosa da qual acabamos de falar, e isso pode ter conseqüências que vão muito além dos muros da escola.

A Ciência escolar de hoje deixaria August Comte (“o pai do Positivismo”) muito orgulhoso, pois mostra a Ciência como neutra, objetiva e livre de quaisquer tipos de pré-conceitos por parte dos cientistas. Nunca é mostrado que existem posições diferentes na Ciência ou, quando é, são apresentados critérios “objetivos” que sempre convencem os cientistas de que um lado está correto e o outro não está. Essa teoria consensual de Ciência que é apresentada aos estudantes os impede de perceber como as discordâncias e as controvérsias são elementos importantes para a construção de conhecimento.

Essa ocultação da importância do conflito força os alunos a interiorizar a perigosíssima noção de que o conflito é algo ruim. Essa concepção falaciosa é reforçada pelo currículo das outras disciplinas e pela organização da escola como um todo, e o resultado da exposição covarde dos alunos por anos a fio a esse ideário tendencioso só pode ser um: uma escola que forma alunos (cidadãos!) que acham que o conflito é algo que deve ser evitado para que a sociedade prospere. Em outras palavras, o não entendimento de que a Ciência progride pelo conflito pode contribuir para a formação de cidadãos passivos e acríticos, com ares de quietismo político e aceitação.

Ora, acabamos de comentar que o bom funcionamento de democracia depende da participação popular. Se a escola forma cidadãos que pensam que a sociedade progride por meio da “paz” (entendida como ausência de conflito), então podemos prever que a democracia não vai funcionar adequadamente, e basta abrirmos qualquer jornal para constatarmos que realmente não está. Quem vê o conflito como algo ruim não vai querer participar das decisões políticas da sociedade, e quando o povo não faz questão de participar, a democracia falha. Essas falhas, como bem sabemos, prejudicam principalmente as classes mais pobres que, ao mesmo tempo em que são as que mais devem reivindicar participação, são as que estudam nas piores escolas. Um ciclo vicioso se forma, e a distribuição de poder na sociedade permanece inalterada.

É função da escola apresentar a Ciência de forma adequada aos estudantes. Também é função da escola ensinar História, Geografia, Matemática, Português e todas as outras matérias de forma adequada. Mas adequada para quem? Se for adequada para os alunos, então, considerando o que foi discutido, ensinar Ciências (ensinar de verdade!) chega a ser um ato revolucionário. Formar alunos que entendam a natureza e o funcionamento da Ciência pode contribuir para o estabelecimento de uma sociedade mais justa, democrática e participativa, pelo simples fato de que esses cidadãos terão compreensão da importância do conflito para o progresso da Ciência e da humanidade.

Gostaria de finalizar esse ensaio deixando bem claro que conhecer a natureza da Ciência não garante de forma alguma que os cientistas sejam politizados e participativos na sociedade. Como eles só aprendem a importância do conflito depois de alguns anos na academia, após terem passado mais de 15 anos incorporando os valores de uma escola castradora, fica difícil entender que não é só na Ciência que o conflito é importante. Fazer essa transição é muito difícil. A burguesia agradece.

“O Estado é um instrumento da classe dominante para se manter enquanto classe dominante.”  - Karl Marx

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Sobre mitocôndrias, esfingomielina e estípulas interpeciolares

Estava lendo um livro esses dias que dizia que, na cidade de São Paulo, as aulas de Biologia do Ensino Médio têm uma média de seis termos novos definidos por aula. Se fizermos as contas considerando que em geral as escolas têm três aulas de Biologia por semana, veremos que o número de termos novos “aprendidos” pelos alunos é de cerca de 600 por ano. Não sei, mas acho que se eu soubesse falar 600 palavras em russo talvez eu fosse capaz de me comunicar rudimentarmente com alguns russos (os dispostos a fazer um esforço pra me entender), mas os alunos do Ensino Médio que decoram 600 termos biológicos por ano não são capazes de entender os princípios elementares da Biologia.

Os intermináveis termos técnicos sempre foram objeto de muitas reclamações de alunos em relação à Biologia, que acaba sendo vista como uma matéria “decoreba”, uma lista enorme de nomes difíceis e pomposos que devem ser memorizados e colocados nas provas. As relações entre esses nomes – e muitas vezes até seus significados – são vistas como algo secundário, quase desimportante. Na aula de Botânica, é muito importante saber que as plantas são autótrofas, o que quer que seja isso. Na de Ecologia, não se pode esquecer que as plantas têm o papel de produtores nas cadeias alimentares. A relação entre ser autótrofo e ser produtor, que é o mais importante da história, acaba se perdendo no meio dos termos, ficando em segundo plano.

Nessa situação, há dois grandes problemas. O primeiro deles é a priorização (tanto por parte dos alunos quanto dos professores) da memorização dos nomes em detrimento do entendimento dos processos: mitose não é o processo pelo qual uma célula se divide em duas; mitose é “interfase + prófase + metáfase + anáfase + telófase”. A importância de compreender que as células têm um ciclo e que os tecidos dos seres vivos estão constantemente renovando suas células dá lugar à lembrança de “picuinhas”, como a de que a telófase dos animais tem citocinece centrípeta e a das plantas tem citocinece centrífuga. Já vi muitos alunos que eram capazes de explicar todas as fases da mitose com todos os nomes difíceis, mas que pensavam que cada célula “escolhia” uma fase e ficava nela o tempo todo.

O outro grande problema é que os termos complicados dificultam a vida dos corajosos alunos que querem entender os processos, desestimulando-os. Semana passada um aluno, que estava tendo dificuldades com um texto sobre vírus, me chamou para perguntar o que era “endoparasita obrigatório”. Depois que eu expliquei do que se tratava, todo o resto das coisas que ele tinha lido no texto fez muito mais sentido, e ele me disse: “Ahhh… Então por que o cara escreve assim, tão difícil? Parece que ele faz isso de propósito, só pra ninguém entender o que ele fala.” Eu disse a ele que não era bem assim, mas não consegui me articular muito bem para explicar a importância desses termos para a Ciência. Acho que até então eu nunca tinha parado pra pensar nisso.

Porque será que os detentores do conhecimento científico se orgulham tanto de sua terminologia difícil e acham tão importante que ela seja entendida por todos que queriam aprender Ciência? Porque falar que “a membrana celular tem composição lipoproteica e disposição em mosaico-fluido” ao invés de “a película que reveste e delimita a célula é formada por lipídeos e proteínas que se arranjam de tal forma que eles nunca ficam parados no mesmo lugar”?

É estranho, mas a primeira frase, mesmo muito mais curta, parece dizer muito mais do que a segunda. Mas isso, claro, só para quem compreende o que é uma membrana celular e qual é a sua dinâmica. Os termos técnicos da Biologia são sim um código, mas um código de compactação e não um código criptográfico. A intenção não é esconder o significado real das palavras, mas sim agregar vários conceitos em uma única palavra. Assim, “lisossomo” não é só uma forma chique de dizer “bolsa cheia de enzimas que digerem as partículas que entram na célula”, mas uma forma de sintetizar uma ampla gama de conceitos e processos de uma forma que todos os que forem estudar Biologia Celular entendam da mesma maneira. Um lisossomo no Brasil é o mesmo que um lisossomo nos Estados Unidos, na Botsuana, ou em qualquer outro lugar do mundo. Isso é muito importante, pois, dessa forma, um cientista da Armênia pode ler um artigo de um cientista de Laos e ter certeza de que ele está falando daquele lisossomo– até mesmo porque não existe outro.

Mas e os estudantes, como ficam nessa história? Eles não são cientistas, e muitos deles não almejam ser. Vemos de forma muito negativa o fato de eles enxergarem a Ciência como algo inatingível, mas quando eles se interessam em aprender Ciência, se deparam com textos que são incapazes de entender. É totalmente compreensível que os alunos pensem que esses textos não foram feitos para eles e que achem que decorar as palavras esquisitas é a forma mais adequada de aprender Ciência.

A Biologia escolar não deve abolir os termos. “Sintetizar” não é o mesmo que “produzir” e “população” não é o mesmo que “bocado de indivíduos”. Tornar esses termos sinônimos não é o caminho para tornar a Biologia uma matéria mais interessante nas escolas. Isso na verdade só iria piorar as coisas, pois distanciaria os alunos ainda mais da Ciência. A mudança que precisa acontecer é exatamente o oposto disso. Deve haver uma aproximação dos alunos à Ciência, mas uma aproximação verdadeira. Eles devem entender como a Ciência é produzida e como ela funciona, sem misticismos, sem ilusões. A Biologia escolar tem conteúdo demais e aprendizagem de menos. Se os alunos entendessem como o conhecimento biológico é construído, eles entenderiam, entre muitas outras coisas, a origem e a importância dos termos, e a aprendizagem não ficaria reduzida à memorização de nomes e processos. A quantidade de informações advindas do campo da Biologia é enorme e não tem como ensinar tudo para os alunos. No entanto, tem como ensinar a eles como a Ciência funciona pegando o conhecimento biológico como pano de fundo. O mesmo poderia acontecer nas aulas de Física e Química.

Entendendo como a Ciência é construída, os alunos poderiam fazer suas próprias pesquisas ao invés de ficar em suas carteiras esperando o produto acabado da Ciência cair em seus colos de forma descontextualizada. Para isso, seria preciso repensar todo o ensino de Ciências. Todavia, a necessidade de reavaliar as práticas educacionais não é novidade pra ninguém. O ensino vai muito mal e não é só no Brasil. É necessário relembrar uma coisa óbvia: o mais importante numa aula de Ciências é aprender Ciências! Como a quantidade de informação científica é gigantesca e só tende a aumentar, seria muito mais negócio focalizar a construção do conhecimento científico para formar alunos que conheçam a base de cada campo da Ciência e saibam aplicar esse conhecimento do que insistir num ensino enciclopédico que as últimas décadas deixaram bem claro que não funciona.

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