Divulgando o estranho mundo da ciência.
Acredito que exista um problema básico para a divulgação científica que poucas vezes é posto em evidência. O problema em questão é aceitar o fato de que o mundo em que o cientista vive, não é o mesmo mundo que as pessoas em geral vivem. Pode parecer uma idéia ingênua, mas o caso é que o mundo explicado pela ciência, não é de modo algum, o mundo do dia-a-dia. E este aspecto influencia diretamente na capacidade de um texto de divulgação científica cumprir o seu papel.
Há algo no treinamento do cientista que torna noções como o heliocentrismo, ou inércia, ou evolução biológica, tão naturais que são, de certa forma, aceitos a priori. Embora de alguma maneira as bases para isso estejam no nosso sistema educacional, nenhum destes conceitos são naturais para o senso-comum.
Alguém pode achar absurdo eu estar defendendo que em pleno século XXI, as pessoas não achem natural a Terra estar se movendo ao redor do Sol, mas o ponto que quero defender é que ninguém acreditaria que a Terra é quem se move não fosse o caso de dizermos isso a elas desde crianças.
Kepler, misticismo e a ciência asséptica
Johannes Kepler foi um grande gênio matemático. Deu fim a dois mil anos de astronomia, quando se valendo da idéia heliocêntrica de Copérnico e dos dados de posição dos astros de Tycho Brahe, postulou a orbita elíptica dos planetas. Além de se preocupar com a questão sobre o motivo dos planetas se moverem. Kepler também fundou a ótica moderna, e fez mais uma série de contribuições importantes para a ciência do século XVII.
Apesar de ser, a rigor, um cientista, seu “ethos” nada tinha de similar ao que se vê hoje em dia. Kepler era um homem de grande fé, e que se interessava por astrologia e qualquer outra atividade relacionada à matemática. Seus livros misturam todo o tipo de interesse que o alemão pudesse ter. É comum olhar para suas obras e ver asserções astrológicas, poemas, filosofia e etc.
O terceiro mundo de Karl Popper
Karl Popper foi um grande filósofo austríaco bastante conhecido por sua contribuição para a filosofia da ciência. Foram suas idéias que fundaram o racionalismo crítico, que estabelece como critério de demarcação o princípio da falseabilidade. Em uma de suas contribuições mais geniais para a epistemologia, Popper comenta um pouco sobre seu conceito de conhecimento objetivo, e o terceiro mundo.
No texto clássico de seu livro de 1972 “Conhecimento Objetivo: Uma abordagem evolucionista”, Popper faz um exercício interessante. Propõe a existência de três mundos. O primeiro mundo é habitado por todas as coisas físicas, vivas ou não vivas. O segundo mundo é habitado pela consciência humana, “é o mundo da consciência ou dos estados mentais”, nas palavras do próprio Popper.
O terceiro mundo é habitado por conteúdos objetivos. Por conteúdo objetivo, podemos entender todo pensamento objetivo sobre algo, obras de arte, poesia, livros, conhecimento científico e por aí vai. Deste ponto em diante, é possível não só diferenciar um pensamento subjetivo de um pensamento objetivo, mas é também possível concluir uma independência do terceiro mundo.
As revoluções de Thomas Kuhn.
Thomas Kuhn é sempre lembrado por duas palavras simples. Paradigmas e revoluções. O curioso (na verdade, nem tão curioso assim) é que estes pontos são incrivelmente mal compreendidos. Vou falar de paradigmas em outra oportunidade. Por hora, fiquemos com as revoluções.
Quando falamos em revolução, pensamos logo na sua conotação “franco-cheguevariana“. Ou seja, de mudança radical em um modelo ou sistema qualquer. A Revolução Científica do século XVII é um bom exemplo disso. Até então, a ciência não era nem mesmo conhecida como ciência, não existia comunidades científicas e por aí vai.
Mas não é assim pra Thomas Kuhn. No caso dele, a palavra revolução tem sentido de um evento cíclico que se completa. Vejamos com detalhes. Kuhn defende que a ciência passa por alguns “períodos” bem definidos. Nomeadamente os períodos de “ciência normal” e “ciência extraordinária”. Esses períodos estão diretamente relacionados com a mudança de paradigmas.
Tempos modernos, problemas antigos.
A questão central aonde eu queria chegar com todo este caso sobre o Universo ptolemaico é a maneira como nos posicionamos ao olhar para a antiguidade. É muito comum imaginarmos a construção do conhecimento como uma sucessão de fatos que se acumulam. Mas essa visão não parece ser muito correta.
O principal problema em imaginar uma “linha do tempo” historico-científica é que, quase que invariavelmente, colocamos as novas descobertas como “superiores” às descobertas passadas. Com efeito, as vezes cometemos o erro de defendermos um modelo aonde as teorias modernas são a grosso modo evolução das teorias antigas.
Ver a história da ciência desta forma, é ignorar uma série de fatores. O principal deles é que os povos antigos não eram necessariamente primitivos. Olhando com certo rigor, podemos observar claramente que os problemas que afligiam as grandes mentes da antiguidade, não são diferentes dos problemas que afetam a sociedade moderna.
Refutação, correção e verdades na ciência.
O Carlos, lá do Lablogatórios, escreveu por estes dias um texto que trata do ego dos cientistas. No texto ele levanta duas questão que, para mim, são muito interessantes e permitem boas reflexões. Coloco abaixo a parte central das duas questões (mas por favor, NÃO deixem de ler o texto integral).
A primeira questão diz: “…O bom disso é que a Ciência possui mecanismos de auto-correção, e que são usados freqüentemente…”. E a segunda: “…se um cientista vir uma oportunidade de destruir uma verdade científica, ele o fará imediatamente e com prazer…”.
Do que as teorias são feitas.
Teorias científicas são, de certa forma, o produto final da ciência. De forma geral, parece existir uma tendência em desconfiarmos da palavra teoria. Isso porque seu significado comum esta mais ligado à especulações e incertezas. Para a ciência no entanto, a teoria tem um papel mais nobre. É ela quem responde a pergunta sobre o que é e/ou como funciona determinado fenômeno natural. Apesar disso, muito já se discutiu sobre a maneira como as teorias são selecionadas e sua validade enquanto aproximação da verdade.
Em épocas mais próximas ao início do desenvolvimento da ciência moderna, as teorias tinham seu conteúdo bastante restringido. Somente teorias que poderiam ser “provadas” por testes empíricos eram aceitas na ciência. Esse modelo acabava por limitar a aquisição de conhecimento, já que ignorava uma série de conhecimentos que não podiam ser verificados e acabavam sendo excluídos.
Esse problema seria resolvido com as idéias de Karl Popper. Sir Karl propôs que as teorias científicas não podem nunca serem “provadas”. Embora isso possa parecer estranho, se pensarmos na imagem tradicional que se faz da ciência, existe um sentido bastante simples. Para Popper, não temos condição de sabermos se já atingimos todo o conhecimento possível sobre qualquer objeto de estudo. Se assim o é, não temos como ter certeza sobre a “prova científica” de nada. Sir Popper propôs que a ciência deveria trabalhar para falsear suas próprias teorias. Falsear significa tentar provar que uma teoria científica é falsa. Ou seja, planeja-se experimentos que visem encontrar falhas nas teorias propostas. Quando estas falhas são encontradas, a teoria foi “falseada” e deve ser deixada.
Desta forma, teorias que sobrevivem ao falseamento podem ser consideradas modelos prováveis do que poderia ser a verdade. Esse conceito de certa forma é aplicado ainda hoje na ciência. Além disso, Sir Popper propôs que teorias só podem assim ser chamadas se de alguma forma possuem capacidade de predição, ou seja, seu conteúdo permite prever resultados ou fenômenos que por algum motivo ainda não foram detectados. As teorias também devem necessariamente ser compatíveis com o conhecimento já adquirido, a não ser que estejam tentando falsear um destes conhecimentos e, mais ainda, devem introduzir novos conhecimentos a respeito do que se esta sendo estudado.
As idéia de Popper foram de uma grande influência pra ciência atual. Mas sofreram um pouco com a crítica de Thomas Kuhn. Pra Kuhn, assim como não é possível comprovar uma teoria, também não podemos falseá-las. Para Kuhn a validade de uma teoria é definida pela afinidade da comunidade científica com ela. Essa afinidade sofre influência da época, das necessidades da sociedade, dos credos do cientista e por aí vai. Evidentemente isso causou uma grande discussão. Kuhn foi acusado de relativismo, por incluir assuntos que não deveriam ser considerados em um pensamento racional. E de certa maneira, Kuhn aceita o rótulo de relativista.
O importante é que tanto as idéias de Kuhn quanto as de Popper acabaram por influenciar de maneira decisiva a ciência moderna. As teorias parecem de fato seguirem o esquema popperiano, sem deixar completamente de lado o relativismo de Kuhn.
PS: Os mais atentos já devem ter reparado que a frequência de post’s diminuiu. O motivo é que estamos preparando grandes novidades para a comemoração de 1 ano do blog, dia 17 de julho. Até lá, peço a compreensão de todos e aguardem, as novidades serão bem interessantes.
A incomensurabilidade na divulgação científica.
Quando fundamentou o princípio da incomensurabilidade, Thomas Kuhn estava pensando nas dificuldades em se estudar a filosofia histórica da ciência e na disputa dos defensores de paradigmas concorrentes. Suas últimas formulações sobre o tema transformaram a incomensurabilidade de maneira surpreendente. Kuhn utilizou princípios da seleção natural darwiniana, bem como estudos sobre filologia e tradução, para melhor compreender a relação entre os diversos paradigmas e a visão de mundo em que eles se inseriam. A conclusão que se chega ao se envolver com o trabalho de Kuhn é que a ciência é um empreendimento humano, que visa a busca pelo conhecimento da natureza física do universo. Mas é também uma linguagem própria e em constante evolução.
Para compreendermos o impacto do trabalho de Kuhn na divulgação científica, é preciso antes abordarmos alguns aspectos específicos. O primeiro aspecto, e provavelmente o mais importante, é o conceito de léxicos kuhnianos. Os léxicos são termos criados para designar um conjunto de observações sobre algo. “Água”, por exemplo, seria um léxico que define o composto químico H2O. Assim como “insetos” seria o léxico para definir animais invertebrados, com três pares de patas e corpo dividido em três tagmas (cabeça, tórax e abdômen).
Sendo os léxicos termos que definem algo de maneira bastante restritiva, eles assumem uma característica similar ao das espécies naturais e, como tais, podem passar por um processo de seleção (natural, artificial ou social embora detalhes sobre esses tipos de seleção não serão abordados). Ainda no exemplo da água, no século XVI acreditava-se que a ela fosse um elemento químico, de modo que o léxico “água” se referia a “qualquer líquido inodoro, insípido e incolor”. Com o avanço das práticas químicas e com a descoberta de que a água era na verdade um composto químico, seu léxico passou por um processo evolutivo e começou a se referir ao H2O. A priori parece uma mudança pouco relevante, mas manter o léxico “água” do século XVI implicaria em assumir que ainda que um elemento ou composto químico seja diferente do H2O, se ele for inodoro, insípido e incolor então deve ser caracterizado como água.
O problema começa justamente neste ponto. Um mesmo léxico pode se referir a coisas diferentes nas mais variadas linguagens. Não estou me referindo exclusivamente a idiomas, embora também possamos considerá-los parte do problema, mas sim aos vocabulários específicos das atividades humanas. Os vocabulários, além de variarem nas atividades (temos um vocabulário próprio da ciência, um vocabulário próprio para o senso comum, outro para as religiões e assim por diante), variam no tempo e no espaço assim como os léxicos. Para Kuhn, a incomensurabilidade surge justamente da incapacidade de compatibilidade dos vocabulários. Usando apenas a ciência como exemplo, se tomarmos o léxico “movimento” da mecânica aristotélica e o léxico “movimento” da mecânica newtoniana, iremos observar que eles são substancialmente diferentes. Comparando o vocabulário todo da mecânica aristotélica com a newtoniana, notaremos que praticamente todos os termos possuem valores lexicais completamente diferentes.
Portanto, estudar uma teoria antiga é o equivalente a aprender uma língua morta. Parte daí que, ainda que o indivíduo compreenda bem a “língua morta” e a “contemporânea”, ele passa a exercer o papel de um bilingue, e não de um tradutor. Embora compreenda bem ambas as teorias, não é capaz de traduzir os termos de uma na outra. É nesta posição que se encontra o divulgador científico, um bilingue tentando traduzir o idioma da ciência para o idioma do “dia-a-dia”.
Não é um papel fácil e, com efeito, não é sequer um papel possível. Como em um processo de tradução normal, o divulgador científico aproxima a ciência da linguagem do dia-a-dia por substituição interpretativa do termo. O léxico “evolução” é um bom exemplo disso. Para a biologia evolução se refere à modificação genética, enquanto para o senso comum significa graduação. Ambos os termos são incompatíveis e não é possível traduzir “evolução” biológica sem se valer de recursos que acabem por se referir a variações do léxico do senso comum. Ou seja, para explicar evolução para um “leigo”, é preciso especificar em quais termos a palavra esta sendo usada. Curiosamente, o léxico evolução da biologia se parece muito mais com o léxico adaptação do senso comum. Fica fácil compreender portanto o motivo da evolução lamarckista ser melhor compreendida por pessoas de fora da ciência.
A despeito da dificuldade do trabalho do divulgador, sua atividade é de vital importância. Assim como uma música em inglês pode provocar o interesse de quem ouve para o estudo da língua, a atividade da divulgação científica é provavelmente a maior responsável por provocar o interesse das mentes jovens (ou nem tão jovens assim) para a atividade científica profissional.
Evolução vs Criação: Três erros básicos.
Segundo Kuhn, paradigmas concorrentes normalmente implicam em uma visão de mundo distinta, de modo que os paradigmas se tornam incompatíveis. Esse processo resulta na chamada “incomensurabilidade”, ou seja, na incapacidade que os defensores de cada paradigma tem em conversarem entre si justamente por lidarem com visões de mundo incompatíveis. Cada paradigma se sustenta por si só, valendo-se de seus próprios pressupostos. Disso resulta que confrontar paradigmas concorrentes não é possível, já que o conjunto de pressupostos de cada um inviabiliza o paradigma oposto.
Se tal processo ocorre entre teorias científicas concorrentes, é de se imaginar que possa ocorrer entre questões não necessariamente científicas. Por vezes penso que é exatamente isso que se passa na velha briga entre a teoria evolucionista e o criacionismo. Trata-se de uma teoria científica baseada nos pressupostos básicos da ciência, contra uma visão de mundo completamente diferente. O resultado do embate é uma série de erros que poderiam ser interpretados tomando como base o pressuposto acima, de que tanto a evolução quanto a criação são paradigmas incomensuráveis.
1º erro: incomensurabilidade epistemológica.
Evolução e criação se sustentam por bases epistêmicas evidentemente diferentes. É de se estranhar portanto a forma como alguns argumentos de ambos os lados são colocados. Neste caso em particular, acredito que o discurso criacionista é o mais incoerente. Em alguns casos a evolução é acusada de ser “apenas uma teoria”. Teoria aqui é utilizada de maneira a sugerir que não existe comprovação da existência real de um processo evolutivo. Curiosamente, alguns criacionistas preferem dizer que a evolução “não é sequer uma teoria”. Neste caso, o argumento aceita a teoria como tendo um “peso” considerável, mas não atribui esse peso à evolução.
O problema é evidente. No primeiro caso, a palavra teoria se baseia em uma epistemologia diferente da empregada na ciência. O termo é mais parecido com o utilizado pelo senso comum, atribuindo um valor de “dúvida” e “incerteza”. Essa argumentação foi utilizada a pouco tempo nos Estados Unidos, quando alguns livros educacionais traziam em suas capas um selo com a mensagem de que a teoria da evolução “é apenas uma teoria”, não tendo sido confirmada. No segundo caso o termo “teoria” é usado de maneira epistemologicamente compatível com a ciência, ou seja, considera-se que o “status” de “teoria” é conferido a uma hipótese compatível com o rigor imposto pelo método científico. No entanto, é negada à evolução o rigor esperado pela ciência. Aqui o erro se encontra no uso de pressupostos criacionistas, e portanto incompatíveis com a epistemologia científica, para desclassificar a evolução.
Do lado evolucionista o erro é, ao menos, consistente. Alega-se que o criacionismo não atende os pré-requisitos necessários para poder ser considerado como uma teoria científica. Embora o argumento esteja essencialmente correto, o criacionismo de fato não pode ser considerado uma teoria científica, o erro está em ignorar que ciência e religião estão fundamentadas em pressupostos incompatíveis. Curiosamente alguns criacionistas tentam realizar o processo inverso, procurando meios de afirmar que o criacionismo é uma teoria científica.
2º erro: realidades incomensuráveis.
Alguns filósofos acreditam que a realidade esta condicionada pela maneira como a sentímos. Em outras palavras, nossos sentidos filtram o mundo com o qual interagimos, tornando a realidade uma espécie de experiência particular. Eu entendo que esse argumento não deve ser extrapolado a extremos. Com efeito alguns fenômenos em particular se repetem com uma freqüência relevante, a ponto de podermos afirmar com certeza absoluta de que aquilo é real. Não da pra questionar a verdade dos movimentos de translação e rotação terrestres, ou a força da gravidade. No entanto, nem tudo é assim.
Os filósofos da ciência em geral aceitam que, por mais que uma teoria resista ao teste dos anos e pareça indicar uma realidade palpável, a possibilidade de estarmos ignorando algum elemento qualquer sobre essa realidade aparente sempre vai existir. Um bom exemplo aqui é pensar no universo relativesco de Einstein, hoje amplamente aceito, mas que se contrapõe diretamente com o universo absoluto de Newton, que era tido como uma realidade factual a alguns séculos.
O erro aqui é buscar uma realidade absoluta por parte de ambos os grupos. O mundo governado por entidades divinas defendido pelos criacionistas, é tão real quanto o mundo extremamente materialista da ciência moderna. Ambos são reflexos da interpretação de mundo condicionada pelos sentidos de grupos de pessoas em particular. Portanto, argumentações que se justifiquem pela existência de Deus, evidentemente são incompatíveis com argumentações de um mundo independente de uma força direcionadora sobrenatural.
3º erro: esferas incomensuráveis.
Tanto a evolução quanto a criação, possuem esferas (ou nichos) particulares de ação. O conhecimento de ambos os paradigmas, bem como todos os pressupostos envolvidos, não é necessariamente um pré-requisito da vida moderna. Com efeito, é possível abdicar completamente da esfera religiosa ou científica, dependendo dos objetivos de vida que se pretende levar. Posso escolher ser um padre e viver em minha paróquia, para tal não preciso necessariamente ter conhecimentos muito específicos sobre ciências. Da mesma forma, um cientista não precisa ter uma vida religiosa.
É claro que ter contato com ambas as esferas, é ideal para um ser humano que deseja ter um conhecimento mais preciso da época em que vive. Conhecer a esfera religiosa não implica em aceitá-la, mas é no mínimo de bom tom ter noção das implicações que esta esfera trás para a sociedade na qual estamos inseridos. Da mesma forma, um religioso convicto deveria ter um conhecimento razoável de ciência.
Neste ponto, o erro é acreditar que qualquer uma dessas esferas não é fundamental para a sociedade ou, por vezes, até prejudicial. Nenhum empreendimento humano é a prova de erros e enganos. Sabemos que tanto a ciência quanto a religião podem beneficiar ou prejudicar as populações humanas. Exemplos não faltam: inquisição, bombas nucleares, antibióticos e recuperação de viciados são exemplos claros dos efeitos adversos do desenvolvimento de ambos os campos do conhecimento.
Se faz igualmente importante respeitar os nichos de cada campo. Criacionismo não deve ser incluído em aulas ou livros de biologia (ou mesmo no currículo escolar), assim como não se espera que teorias evolucionistas passem a fazer parte dos rituais eclesiásticos, de algum evangelho da bíblia ou de algum sermão do pastor. Cada esfera deve se ater ao seu campo específico, cabendo ao indivíduo escolher o quanto experimentar de cada uma.
O assunto é longo e complexo. É muito fácil cometer qualquer um dos erros acima, eu mesmo assumo que já incorri em todos eles. Mas se faz necessário compreender que o debate entre evolução e criação, ou ciência e religião, é um mero capricho do ego de cada grupo. Trata-se da tentativa infeliz de se impor uma visão particular de como o mundo deveria funcionar, sem questionar para todos os que vivem nele se é assim que se deseja que ele seja.
Eu posso afirmar, prefiro um mundo diversificado, a um passeio chato por uma existência monotemática e monoteísta.
Para saber mais sobre:
Um pouco de fé na ciência.
Com determinada freqüência, algumas pessoas costumam dizer que acreditar na ciência é um ato de fé. Um ato de fé talvez comparado ao ato de acreditar em um Deus, ou um santo. O curioso é constatar que este pode ser um pensamento comum mesmo aos cientistas. Não tão curioso é o uso do termo fé de maneira pejorativa, muitas vezes até por pessoas religiosas, de modo a diminuir a importância da ciência.
Segundo o dicionário, o termo fé poderia ser utilizado em ciência em pelo menos duas acepções. Como em confiança absoluta em alguém ou algo, ou como comprovação de um fato. Embora o próprio método científico evite “confianças absolutas”, com efeito é possível atestar esse tipo de fé para alguns casos em particular. Por exemplo, no que diz respeito à gravidade, quem seria capaz de questionar que ao soltar uma pedra no ar ela vai, irremediavelmente, cair ao chão? Ainda tomando a gravidade como base, é possível estabelecer a velocidade de queda dessa pedra, bem como sua trajetória. A mecânica clássica é um campo científico capaz de prever esse tipo de informação com uma precisão tão assustadora, que podemos confiar em seus resultados de maneira absoluta.
De maneira análoga, e partindo dos mesmos princípios, muitos são os casos aonde é possível comprovar um fato. Embora neste sentido de fé as ressalvas sejam maiores, alguns fenômenos são tão bem conhecidos e estudados que, de certa forma, é possível dizer que foram comprovados. As ressalvas ficam por conta da impossibilidade de se dizer que sabemos tudo a respeito de um objeto de estudo.
O que me intriga de verdade é o uso da palavra fé, em sua forma pejorativa. É estranho observar que muitas vezes, essa fé pejorativa se sustenta no conceito de “fé cega”. Ou seja, de uma fé que se sustenta pela força da crença do fiel, ainda que não possa ser respaldada por qualquer tipo de observação ou teste. Com efeito, esse tipo de fé é melhor observado em pessoas religiosas, e neste contexto, eu nem atribuiria uma forma pejorativa para essa fé.
No entanto, essa fé religiosa é usada com certa regularidade para atingir o empreendimento científico. Neste contexto pode-se dizer que ela passa a ser pejorativa, já que deprecia a qualidade investigativa da ciência. É importante lembrar que a ciência não é feita de dogmas imutáveis, produzidos de maneira arbitrária e sem qualquer rigor. O que não falta à ciência é rigor, seja pelo racionalismo de Descartes, seja pelo empirismo de Locke, Berkeley e Hume.
Diminuir a ciência a uma atividade guiada pela crença irresponsável, ou que não necessita de bases sólidas, é ignorar tudo o que foi construído desde o renascimento.









