Os 22 paradigmas de Thomas Kuhn.

fevereiro, 2008

Muitas vezes pode parecer incongruente, mas a ciência muda. Não são raros os momentos em que teorias muito bem estabelecidas, são completamente abandonadas em detrimento de outra. Da mesma forma, outras tantas teorias são fortemente modificadas com o decorrer dos anos, de modo que tornam-se substancialmente diferentes do que eram originalmente. Essa aparente falta de firmeza nas idéias científicas, contrasta diretamente com a visão popular de que a ciência é um empreendimento de verdades e certezas. Não é.

O físico Thomas Kuhn dedicou parte de sua vida tentando entender esse movimento transformador da ciência. Em 1962 Kuhn publicou “A Estrutura das Revoluções Científicas”, um ensaio polêmico que usava uma abordagem histórica para defender que a ciência gera paradigmas que, eventualmente, são substituídos por outros no decorrer do desenvolvimento científico. Mas vamos entender melhor essa questão.

A definição de paradigma de Kuhn gerou confusão quando da publicação da primeira versão do livro. Com efeito, uma leitora chegou a dizer que o termo é usado de 22 maneiras diferentes. Kuhn no entanto só admitia dois significados principais. Neste texto iremos abordar apenas um significado. O paradigma é um modelo de mundo que compreende o conjunto de teorias que buscam explicar os fenômenos estudados.

Neste caso o que um paradigma faz é estabelecer algumas questões sobre o mundo físico que são então investigadas na tentativa de se encontrar respostas. No entanto, um paradigma parece nunca conseguir responder todas as questões que propõe. A ciência não é um empreendimento de respostas. Quanto mais sabemos sobre determinado fenômeno, mais questões surgem. Isso não é exatamente um problema, ao menos não inicialmente. Esse processo investigativo é o que Kuhn chamou de “ciência normal”, ou seja, o período aonde determinados paradigmas são aceitos e investigados.

O que se passa é que o número de questões, ou anomalias, que não podem ser resolvidas com o paradigma estabelecido atinge níveis críticos, é o início do período conhecido por “crise”, aonde novos paradigmas tentam responder de maneira mais eficiente as questões que o paradigma aceito não consegue responder.  O período de crise é marcado pela divisão da comunidade científica entre o paradigma aceito e o paradigma em ascensão. Eventualmente o paradigma em ascensão ganha a preferência e substitui o antigo, é o momento que Kuhn chamou de “revolução científica”.

É evidente que eu resumi bem o núcleo do trabalho de Kuhn. Em geral o processo de ascensão e queda de um paradigma é complicado, leva tempo e gera discussões infindáveis. Quando um novo paradigma é proposto, em geral não é bem aceito pela comunidade científica. A razão, segundo Kuhn, é o comprometimento com o paradigma estabelecido. Quando anomalias são detectadas, os cientistas não tendem a considerar a questão como um problema no paradigma. Buscam adequar a anomalia ou simplesmente a ignoram como um fator que não pode ser melhor estudado no momento. No entanto, o acumulo constante dessas anomalias podem gerar o descrédito do paradigma, o que em geral ocorre nos cientistas mais jovens e menos comprometidos com o modelo de mundo estabelecido.

Kuhn ainda defende o que ele chamou de “princípio da incomensurabilidade”. O princípio define que paradigmas diferentes estabelecem uma visão muito distinta de mundo, de modo que não podem ser comparados. Isso não significa que o novo paradigma é melhor que o anterior, apenas estabelece que eles são em geral incompatíveis. No entanto, se o paradigma em ascensão não é necessariamente melhor que o paradigma já estabelecido, qual a justificativa para a substituição do velho paradigma pelo novo?

As razões são as mais variadas. Eventualmente o novo paradigma pode responder com mais eficiência um número de questões maior que o anterior, ainda que não responda parte das questões já resolvidas pelo velho paradigma. É um processo curioso, aonde parte do conhecimento já conquistado é abandonado. O novo paradigma, ainda que não resolva tantas questões quanto o anterior, pode responder questões que tenham maior prioridade para a ciência. Essas prioridades mudam de acordo com a sociedade e época, de modo que o novo paradigma pode ser substituído no futuro por um velho paradigma.

É justamente este ponto das idéias de Kuhn que provoca desconforto em alguns membros da comunidade científica. É possível imaginar que o empreendimento científico é arbitrário, escolhendo seus modelos de mundo não por sua capacidade em explicar os fenômenos estudados, e sim por conveniência ou por interesses. Mas isso não é bem verdade, mudar de paradigma não é como trocar de posição política.

Uma analogia melhor seria dizer que mudar de paradigma é como escolher uma nova ferramenta para realizar um velho trabalho.

A ciência e o ateísmo

janeiro, 2008

A correlação entre ateísmo e ciência não é nova. Não são poucos os cientistas de fama que ostentam tal bandeira. De fato, as vezes fica a impressão de que ser ateu é uma espécie de pré-requisito para ser um bom homem de ciência. O cenário é ainda reforçado pelos embates públicos entre líderes religiosos e a comunidade científica, mal entendidos a respeito do funcionamento da ciência (e talvez até das religiões) e a mídia incendiária que se aproveita da polêmica pra vender jornal.

Uma ciência laica.

Me é curioso que, nestas questões em que se faz necessário compreender alguns conceitos, que os pilares da ciência nem sempre sejam consultados. Como já foi discutido em outro texto neste site, a ciência tem por um dos valores principais a neutralidade. Isso significa, entre outras coisas, que o empreendimento científico não deve assumir inclinações partidárias ou religiosas. A ciência, ao menos epistemologicamente, é laica.

Tomemos por laico o seu significado correto, ou seja, de neutralidade religiosa completa. É importante compreender bem o significado deste conceito, já que não raro a laicidade é encarada como um movimento contrário à religiões.

Fui questionado recentemente se essa laicidade científica é desejada. Acredito que seja não só desejada, mas fundamental. Em uma investigação científica, aonde se pretende compreender da melhor forma possível o objeto de estudo, é importante que as interferências externas sejam minimizadas da melhor forma possível. Ideologias, credos e inclinações políticas podem afetar a investigação de modo a comprometer os resultados.

Talvez seja possível argumentar que, no caso das ciências sociais, a laicidade não seja um valor relevante. No entanto, por mais que os métodos das ciências sociais se difiram dos métodos das ciências naturais, ainda é desejável que o objeto de estudo seja investigado da forma mais precisa possível. Sendo assim a laicidade, e antes disso a neutralidade, ainda é um valor desejável.

Da epistemologia à aplicação.

Parece existir no entanto uma dificuldade em preservar os valores epistemológicos em cenários reais. Não são raros os casos em que a neutralidade da ciência é fortemente golpeada pelas ideologias, credos e inclinações políticas do cientista. Entendo que essa separação seja, em muitos momentos, utópica. Valores externos à ciência já afetam o cientista antes mesmo de ele iniciar qualquer pesquisa. Com freqüência, a linha que de pesquisa esta intimamente ligada aos seus valores. Tal fato não é exatamente um problema, desde que o cientista consiga dosar com cautela a interferência destes valores.

Uma muleta chamada ciência

Acredito que a questão principal na relação entre ateísmo e ciência é a forma como a ciência é usada como sustentação do ateísmo. A verdade é que não existe absolutamente nada na ciência que embase, ainda que minimamente, a inexistência de Deus. Em verdade não é o objetivo do empreendimento científico lidar com essas questões e o motivo é simples: A ciência lida com fenômenos naturais e, por definição, Deus é uma entidade sobrenatural.

Talvez seja exatamente por isso que tantos ateus usem a ciência como muleta, uma atividade tão materialista serve muito bem aqueles que desejam negar a possibilidade de um mundo imaterial. É importante notar que não estou aqui defendendo a existência deste outro mundo. Apenas tento estabelecer que não há motivos suficientemente fortes para atrelar à ciência ao ateísmo ou a qualquer outro movimento religioso.

É importante termos em mente que a ciência é maior que o cientista e, muito embora ambos se relacionem intimamente, as opiniões do cientista não são necessariamente fundamentadas cientificamente.