Minha contribuição sobre a polêmica entrevista do Malafaia

fevereiro, 2013

AVISO: Publiquei este pequeno texto originalmente no Facebook e decidi que ele cabia muito bem aqui no Polegar, então estou postando ele por aqui também.

Foi um tormento incrível assistir a esta entrevista não só pelos motivos evidentes (homofobia, proselitismo religioso, campo de distorção da realidade, festival de porcentagens que não dizem absolutamente nada, dados com fontes não citadas e um desconhecimento geral do processo científico como um todo e da realidade de maneira pontuada) mas também por outro, bem mais velado. O dito pastor é claramente um analfabeto no que diz respeito à ciência e sabendo que não é o único, usa sua exposição para levar os mais ingênuos ao raciocínio equivocado sobre a mesma.

"Amo os homossexuais como amos os bandidos" - Malafaia, Silas

“Amo os homossexuais como amos os bandidos” – Malafaia, Silas

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Plágio e Remix: Uma narrativa de duas culturas.

novembro, 2011

No dia 02 de outubro o blog de ciências da Folha, o Laboratório, soltou um post chamado Educar para não plagiar. O texto chama atenção para um congresso sobre plágio e má conduta científica e aponta algumas conclusões tiradas durante o evento.

A primeira conclusão é a de que hoje em dia, por conta da facilidade de acesso à informação, está mais fácil plagiar. A segunda conclusão, que de acordo com o texto é mais filosófica, diz que a facilidade de acesso à informação científica não deveria justificar o aumento do número de casos de plágio (o texto original da Folha diz “fraude” e não plágio neste ponto específico, mas fraude segundo o dicionário Aulete quer dizer falsificação de uma forma geral o que, acredito eu, não tem relação direta com a facilidade de acesso à informação, neste caso plágio parece-me ser o mais correto). Uma última conclusão argumenta que estudantes e pesquisadores mais novos não foram ensinados a lidar com toda essa informação e plagiam por pura ignorância.

Curioso ver que nos comentários do texto da Folha alguém que assina como Roberto faz uma pergunta simples mas que está no centro desta questão: “Afinal a internet ajuda ou atrapalha a ciência”?

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“Salami science”, autoria contestável e o alpinismo científico

novembro, 2011

Ninguém gosta de ser avaliado e criticado. Para os cientistas, tão acostumados com suas idéias estarem “certas” e serem corroboradas e publicadas, a avaliação se torna algo até mais temeroso do que para a maioria da população. Entretanto, ninguém escapa de ser avaliado, ainda mais sob a perspectiva de ganhar financiamento (e status, claro, por que não?), passando para isso pelo “simples” desconforto e pressão de ter seu trabalho avaliado.

Um aluno comum, na escola, quando sob pressão é levado a tomar atitudes contra a nossa moral, como a “cola”. O mundo adulto não é tão diferente, por mais que nos recusemos a acreditar. As atitudes que tomamos em medidas desesperadas apenas apresentam uma “roupagem” mais bonita, com a qual podemos disfarçar o que foi feito e ganhar a simpatia da nossa classe, que pode aprovar até mesmo as atitudes mais imorais. São as desculpas que damos a nós mesmos para escapar de uma avaliação ruim, seja ela qual for.

No paradigma atual da avaliação dos programas de pós-graduação e seus pesquisadores, a CAPES se torna um fantasma assombrando a vida de todos minimamente ligados ao âmbito acadêmico. Suas normas, equações, pontuações e avaliações levam os pesquisadores muitas vezes a medidas desesperadas. Mas creio que o maior impacto de um método de avaliação tão “espartano” (joguem os fracos do precipício e fiquem com os soldados mais eficientes) é a legitimação de atitudes fraudulentas e pouco éticas.

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A Prenhez Tubária, o Anticoncepcional e a Divulgação Científica

março, 2010

Fornecer informações de um modo acessível à população é o principal objetivo da Divulgação Científica. Digo de se traduzir aquela linguagem técnica, de difícil absorção, cheia de latins e de palavras que passam ao largo do uso cotidiano, como no caso das ciências e suas expressões mais puras. Nelas e nas mais diversas áreas.

E por quê não usar o dicionário?
Divulgação: ato ou efeito de tornar pública alguma coisa; difusão, propagação, vulgarização. (Houaiss)

Repito: difusão, propagação, vulgarização. Três palavras adequadas ao propósito deste texto. E um incômodo. Explico:

Recentemente passei por uma cirurgia para a retirada de um pedaço de uma das trompas, em decorrência de uma gravidez ectópica (quando o feto se desenvolve de forma tubária). Por certo, uma fatalidade. Maior ainda pelo fato de eu estar tomando Mesigyna®, anticoncepcional injetável fabricado pela Bayer do México e comercializado aqui no Brasil pela Schering.

A parte interessante desse tipo de anticoncepcional trata-se do fato dele ser administrado mensalmente por via intramuscular profunda, de forma extremamente lenta e, portanto, há registro de cada dose na farmácia em que a injeção é aplicada. Coisas das legislações, ainda bem, pois assim levanto a possibilidade de entrar com um processo contra o laboratório.

E é aí que encontro o primeiro incômodo e penso no quanto é importante a Divulgação Científica. Afinal, de que se trata aquela porcentagem de ineficácia (geralmente 1%) presente em todas as bulas dos anticoncepcionais?

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Auto-validação e a blogosfera científica.

janeiro, 2009

Institucionalização! Este foi o grande passo dado pela ciência no período da revolução científica. O resultado desse passo foi o surgimento de um dos maiores empreendimentos humanos já vistos. A ciência cresceu, ganhou credibilidade e afeta ativamente o meio de vida da sociedade.

É curioso notar como a institucionalização em geral resulta no crescimento acelerado de uma atividade qualquer. Mais do que isso, faz com que a atividade em questão ganhe respeito e articulação política. As religiões aprenderam isso bastante cedo. A ciência demorou um pouco mais.

Uma das principais características resultantes da institucionalização é a chamada auto-validação. Isso quer dizer basicamente que uma comunidade qualquer é capaz de validar a si própria. Parece estranho? Mas não é.

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Resenha: O direito à vida e a pesquisa com células-tronco

agosto, 2008

Apesar do Supremo Tribunal de Justiça ter votado pela não inconstitucionalidade das pesquisas com células-tronco embrionárias no dia 29 de Maio deste ano, e das pesquisas com este material biológico já estarem em curso no Brasil, dediquei algumas horas à leitura do livro “O direito à vida e a pesquisa com células-tronco” da autora Renata da Rocha. O livro, inserido na Coleção Biodireito/Bioética da Editora Campos/Elsevier, merece um elogio para o estilo de linguagem. A autora escreve de forma simples e expõe suas idéias com a clareza necessária para ser compreendida tanto pelo público leigo, quanto pelo público estudantil universitário.

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O extremo criacionista.

junho, 2008

No Brasil as discussões entre evolucionismo e criacionismo não chegam a ser muito relevantes. Temos um movimento criacionista isolado e em geral decentralizado. Na verdade o Brasil conta com a Sociedade Criacionista Brasileira (SCB). A primeira vez que ouvi falar da SCB foi através de um amigo que participou de uma série de palestras que promovem o criacionismo. Depois disso só tive notícias da SCB em uma pequena discussão que tive o prazer de acompanhar. Na ocasião um aluno do curso de extensão em Divulgação Científica da USP apresentava a idéia de um site que trataria das controvérsias entre o design inteligente e evolução. Sua apresentação foi interrompida por uma aluna do mesmo curso, que começou a advogar em favor do criacionismo e acabou comentando que a SCB possui linhas de pesquisas sérias a respeito do criacionismo.

Confesso que achei graça. Não conseguia conceber o que seria uma linha de pesquisa séria a respeito do criacionismo. Em todo caso resolvi que talvez estivesse sendo preconceituoso demais. Pesquisei um pouco sobre a SCB e, por fim, acabei enviando-lhes um email perguntando sobre as tais linhas de pesquisa. Segue abaixo a resposta que eles me deram:

“Informamos-lhe que nossa linha de pesquisa propriamente dita relaciona-se com o tema “origem comum das línguas e das religiões”. A grande atividade que desenvolvemos, entretanto, é a de divulgação de aspectos relacionados com a controvérsia Criação / Evolução. Nesse sentido temos como uma das mais destacadas contribuições nossas a tradução e a publicação do livro “Evolução – Um Livro Texto Crítico”.Temos também realizado encontros criacionistas diversos, com a participação de palestrantes convidados (nem todos associados formalmente àSCB).Esperando ter-lhe prestado as informações de que necessitava, permanecemos à disposição, enviando-lhe nosso cordial abraço, Ruy e Rui Vieira.”

Achei bacana a atitude da SCB. Eles me responderam com velocidade e ainda me forneceram o contato para membros associados e que tratam especificamente sobre biologia. Mas, como podemos observar, eles não desenvolvem qualquer linha de pesquisa criacionista. O trabalho da SCB é basicamente de divulgação do criacionismo. Apesar de a maioria das pessoas acharem que a divulgação do criacionismo é um desserviço ao entendimento correto da ciência, e de certa forma eu posso concordar com isso, existem casos muito piores. Casos de extremismo militante, ou simplesmente de ignorância exacerbada.

É o que ocorreu recentemente nos Estados Unidos, mais precisamente em Mount Vernon no estado da Virgínia. Durante onze anos o professor John Freshwater ensinava criacionismo e design inteligente nas aulas que deveriam ser de evolução. A comunidade e outros professores da mesma escola reclamaram por todos estes anos à direção da escola sobre a insistência de John em ignorar o currículo de evolução e, no lugar, ensinar suas crenças. Uma atitude só foi tomada quando o professor em questão provocou queimaduras em forma de cruz no braço de dois estudantes que reclamaram de suas aulas. Segue a foto abaixo:

Foto retirada do jornal The Columbus Dispatch

Foto retirada do jornal The Columbus Dispatch. Clique para ampliar.

O professor Freshwater se defendeu dizendo que  não queimou uma cruz no braços dos estudantes, queimou um “X”. O caso todo é de um absurdo bizarro. Como uma escola pública ignora 11 anos de reclamações? Qual o próximo passo destes extremistas? Queimar um cientista em praça pública? Ainda bem que no Brasil essa briga (por enquanto) não saí da esfera das discussões ingênuas. No entanto, com os recentes casos de vandalismo religioso, só me resta temer pelo futuro dos braços dos estudantes de amanhã.

Ciência Open Source?

junho, 2008

Nos últimos anos o termo “web 2.0” vem sendo usado à exaustão como um novo paradigma para a Internet. A característica implícita nesse termo é a capacidade de fornecer ambientes colaborativos, aonde o site passa a ser uma ferramenta e seu conteúdo é gerado, mantido e selecionado pelos usuários. Esse ambiente de colaboração também não é exclusividade da internet. O movimento “Open Source” e seus produtos mais conhecidos, como Linux e toda a sorte de softwares desenvolvidos sob licenças abertas, mostram que um ambiente colaborativo é capaz de gerar frutos melhores em menos tempo do que a maneira “proprietária” tradicional. Com a popularização do “2.0” já há quem fale em uma “ciência 2.0”. Mas isso existe de fato?

Na verdade, pensar em uma ciência 2.0 pode parecer redundante. Afinal, sempre ouvimos aquele inflamado discurso de que a ciência é um empreendimento humano, que exige a colaboração dos mais diversos grupos de pesquisa para poder avançar e se desenvolver. Talvez já tenha sido assim. Hoje em dia no entanto a pesquisa científica tem um caráter muito mais proprietário. E nem poderia ser diferente. Se uma empresa farmacêutica investe no desenvolvimento de uma cura para a AIDS, certamente não é de seu interesse divulgar os resultados de sua pesquisa para seus concorrentes. Mesmo a ciência mais teórica costuma resguardar suas descobertas. Nenhum cientista quer ver seu trabalho sendo publicado por um concorrente. Ainda que o cientista tenha garantido seu crédito publicando seu artigo em uma revista especializada, o interesse agora muda para o periódico em questão. Se o modelo de negócio da revista esta fundamentado na venda de acesso ao conteúdo científico de ponta, não é de seu interesse que esses artigos estejam vagando livremente pela internet. Entra aqui a questão do copyright.

Temos então uma série de mecanismos de restrição à informação e, como se pode concluir sem nenhum esforço, restringir o acesso à informação é restringir o desenvolvimento das áreas dependentes desta informação. A ciência se tornou um negócio lucrativo, ainda que os mais ingênuos duvidem disso. No entanto há questões importantes a serem levantadas. Informação e conhecimento podem ser transformados em propriedade privada? Quer dizer, que direito tem um cientista de alegar que descobriu uma nova partícula quântica quando ela de fato sempre existiu, e tudo o que o cientista fez foi detectar esta partícula? Mais ainda, que direito tem esse cientista, bem como o periódico científico, de comercializarem algo tão velho quanto o Universo? Da mesma maneira, é correto uma indústria farmacêutica qualquer patentear uma substância que tenha sido extraída de uma planta que existe a milhões de anos na natureza?

São todas questões complexas e eu não tenho a esperança de ver qualquer resposta até o final da minha vida. Esses são problemas para gerações intermináveis de cientistas. Mas hoje já podemos vislumbrar o embrião dessa ciência 2.0. Alguns projetos, como o Open Wetware, buscam a integração verdadeiramente comunitária e aberta entre centros de pesquisa das mais variadas áreas. São pessoas que entendem que o conhecimento não deveria ser patrimônio de um indivíduo ou de um grupo comercial.

O conhecimento é um bem de valor inestimável. Restringir seu acesso é o mesmo que inibir o desenvolvimento da humanidade.

Telefone-sem-fio em divulgação científica

maio, 2008

A brincadeira do telefone-sem-fio consiste em formar uma fila de pessoas, que transmitem umas às outras uma frase originalmente criada pela pessoa de uma das extremidades, até chegar no último da fila. A graça do jogo está no fato de que quase nunca a frase recebida pela outra extremidade será idêntica à original, e isto se deve, obviamente, a pequenas mudanças cumulativas transmitidas a cada pessoa da fila.

Assim acontece com todos os tipos de informações transmitidas em uma cadeia de componentes, se cada intermediário não for comparado ao original. É por esta razão que a divulgação científica deve ser meticulosa e sempre fornecer dados mais próximos aos originais, já que o seu público-alvo, em geral, não terá interesse ou acesso às informações a partir das quais a notícia foi gerada.

Recentemente foi publicado um artigo na célebre revista científica Nature, cujo título pode ser traduzido para “Análise genômica do ornitorrinco revela características evolutivas singulares”. Como o nome indica, o trabalho, assinado por cerca de cem cientistas, apresenta um estudo pormenorizado da constituição genética de um ornitorrinco. O estudo é interessante, porque analisa o DNA de um animal sempre considerado esquisito e compara-o a outras linhagens de vertebrados para inferir algo sobre sua história evolutiva – verificar se eles são mais semelhantes aos outros mamíferos ou aos répteis, por exemplo.

Apesar de ter um bico semelhante ao de um pato, de colocar ovos e de possuir veneno em uma estrutura parecida como uma espora, o ornitorrinco é incluído pelos sistematas no grupo dos mamíferos monotremados, considerados irmãos do grupo que contém os marsupiais (cangurus, gambás) e os eutérios (mamíferos mais populares, incluindo os primatas). Entretanto, é importante lembrar que, tanto os monotremados, quanto os demais mamíferos originaram-se a partir de um ancestral compartilhado também com os répteis (e aves).

Agora vejamos o que foi divulgado (de ruim) na mídia eletrônica a respeito do artigo. A manchete no portal Terra (recebido a partir da AFP – Agence France-Presse),  era: “Ornitorrinco é confirmado como ave, réptil e mamífero”. No portal G1 da Globo saiu: “Genoma do ornitorrinco é mistura inusitada de réptil, ave e mamífero”.

O primeiro texto chega a ser engraçado, porque dá, a todo instante, a impressão de que o ornitorrinco é um tipo de híbrido inclassificável e que, pior, isto é claramente verificável em seu código genético. Logo na introdução lê-se que “Estudos sobre o genoma do ornitorrinco (…), apontaram que o animal é, ao mesmo tempo, um réptil, um pássaro e um mamífero, segundo relatório publicado pela revista Nature”. Como já vimos, isso é um absurdo! O ornitorrinco não é uma mistura de réptil, pássaro e mamífero – o ornitorrinco é um mamífero! Prontamente nota-se que o autor do texto não sabe nada sobre mamíferos e tampouco leu o artigo original, o qual esclarece, já na introdução, a posição real do ornitorrinco no Reino Animal. Provavelmente a notícia é produto de um telefone-sem-fio muito do sem-vergonha.

Já a segunda notícia é um pouco melhor esclarecida, apesar de transmitir a idéia não totalmente errônea de que o genoma do ornitorrinco é um retalho de pedaços de origens diversas. Acontece que qualquer mamífero possui, em seu DNA, trechos comuns a outros mamíferos e até a outros animais completamente diferentes como, por exemplo, às estrelas-do-mar. Esses genes são considerados “conservados” para os animais que os possuem e revelam uma provável relação de parentesco evolutivo entre eles. Por isso é que se diz que entre o ornitorrinco e os outros mamíferos há cerca de 80% de DNA compartilhado e entre chimpanzés e humanos, por exemplo, mais de 95% de DNA compartilhado. Quanto maior for a porcentagem de DNA compartilhado, maiores as chances de as duas espécies (ou, quando for o caso, os indivíduos) compartilharem também um ancestral evolutivo recente. Assim, a manchete dá a entender, novamente, que o ornitorrinco é um híbrido genético de répteis, pássaros e aves – mas se isso for verdadeiro, então também o é para todos os mamíferos, já que compartilhamos um ancestral recente com os reptilianos (e aves)!

Mais curioso do que essas interpretações limitadas dos resultados publicados é o fato de que quase não há informação prática nos artigos de divulgação relacionados. Não há, nos dois textos mencionados, sequer uma explicação que fundamente o resultado alardeado na manchete. A razão para isso é óbvia: não há explicação! O artigo original apenas menciona a origem genética das características aparentemente reptilianas e as considera meras convergências evolutivas – isto é, características que são semelhantes àquelas encontradas nos reptilianos, mas que não são herdadas deles e que foram desenvolvidas de maneira independente pelo ornitorrinco por causa de uma pressão de seleção parecida àquela encontrada pelos répteis.

Maldito seja o telefone-sem-fio na divulgação da ciência!

Um texto exemplar deve também ser mencionado: o post “Saiu o genoma do Ornitorrinco!”, de 7 de maio desse ano, do blog Brontossauros em meu jardim tem explicações simples e inteligentes.

Fontes e mais textos para comparar:

Genome analysis of the platypus reveals unique signatures of evolution : disponível em .pdf (em inglês). Artigo original, publicado na revista Nature por Wesley C. Warren e colaboradores.

Ornitorrinco é confirmado como ave, réptil e mamífero: notícia divulgada no portal Terra (recebido a partir da AFP – Agence France-Presse) mencionado no texto, ruim.

Genoma do ornitorrinco é mistura inusitada de réptil, ave e mamífero: Saiu no portal G1 da Globo, por Reinaldo José Lopes, mencionado no texto, não tão ruim.

Genoma explica ‘estranheza’ do ornitorrinco:  Da Agência BBC, por Helen Briggs, manchete razoável, conteúdo muito superficial e pouco informativo (traduzido para o português).

Impacto de Terapias Gênicas no Esporte – Doping Genético

maio, 2008

No âmbito da genética humana as terapias gênicas, assim como as terapias com células-tronco, vem se revelando como influência crescente no paradigma clínico para a prevenção, diagnóstico e tratamento de doenças humanas herdadas e adquiridas. Os protocolos de terapia gênica vêm sendo desenvolvidos desde 1990 consistindo basicamente em introdução de genes, ou de células geneticamente modificadas, nos tecidos humanos com o objetivo de bloquear a atividade de genes prejudiciais, ativar mecanismos de defesa imunológica, ou produzir moléculas de interesse terapêutico.

Alvo de críticas tecnológicas, econômicas e sociais em 2000, a conclusão do Projeto Genoma Humano impulsionou as pesquisas de expressão gênica ampliando o conhecimento e as perspectivas atuais em terapias gênicas, ainda restritas a protocolos experimentais e distantes de novas políticas de saúde pública. Entretanto, tais pesquisas forneceram elementos suficientes para a instalação de um problema iminente ao esporte, o doping genético.

Definido como a utilização não terapêutica de células, genes, elementos genéticos ou de modulação da expressão gênica com capacidade de melhorar o desempenho esportivo, o doping genético foi incluído como um método na lista proibida da Agência Mundial Anti-Doping (WADA) em 2003. Assim, doping genético pode ser resumidamente definido pelo uso inapropriado de terapia gênica visando o aumento do desempenho esportivo.

A história revela que o doping existe desde os primórdios das Olimpíadas, porém o controle sobre ele passou a ser feito somente a partir de 1968 com o intuito de preservar a saúde do atleta. Não é novidade para o esporte que os atletas tentem “levar vantagem”, razão pela qual o termo doping genético foi criado mesmo antes de existir tal modalidade de doping na prática. A expectativa do Comitê Olímpico Internacional (COI) é que sejam desenvolvidos testes diagnósticos antes mesmo de existir qualquer tipo de doping genético. A preocupação das entidades esportivas é que tão logo as terapias gênicas se tornem eficazes, ou mesmo antes disso, os atletas façam uso abusivo de tal tecnologia ferindo os três pilares no qual se pauta a Comissão Médica do COI para proibir uma substância, ou método, no esporte: 1 – colocar em risco, ainda que potencial, a saúde do atleta, 2 – melhorar, ainda que potencialmente, o rendimento esportivo, e 3 – contrariar o espírito esportivo (fair play).

Os três principais genes candidatos ao doping genético são: EPO que sintetiza a proteína eritropoietina, responsável por promover aumento da oxigenação periférica, IGF-1 – responsável pela síntese do fator de crescimento 1 semelhante à insulina e GDF-8 – miostatina, ambos envolvidos no crescimento muscular. Também de importância já identificada se destacam o VEGF, que aumenta a vascularização, e o PPARd, que sintetiza um hormônio responsável por induzir a conversão do tipo de fibra muscular II em tipo I. No entanto nenhum teste anti-doping genético para detectar qualquer um destes, ou outros genes, foi aprovado pela WADA até o momento, apesar dos milhões de dólares já disponibilizados aos raros geneticistas, nenhum brasileiro, que se dedicam a prestar este serviço ao esporte.

Enquanto isso, poucos experimentos científicos ocorrem no âmbito concreto, e menos ainda se discute no âmbito da ética. O paradoxo da medicina esportiva é que as aplicações da terapia gênica também apontam como perspectivas em tratamentos clínicos para as lesões esportivas, especialmente em tecidos de regeneração lenta, como cartilagens, tendões e músculos. A questão é como discernir terapia gênica de doping genético entre os atletas.

Todavia, se observada pela ótica da pesquisa, a genética pode contribuir para além das terapias gênicas no esporte e da compreensão da variabilidade que diferencia o desempenho dos atletas em milionésimos de segundos, ela pode colaborar na compreensão das variações genéticas envolvidas com o metabolismo de drogas proibidas pelo esporte. Recentemente o Brazilian Journal of Biomotricity organizou uma mesa redonda digital sobre a “Influência da genética nas atividades físicas e no esporte” a fim de obter opiniões de especialistas sobre o impacto das terapias gênicas na área. Giuseppe Lippi, médico especializado em bioquímica clínica e hematologia da universidade de Verona, Itália, informou que “a farmacogenômica tem se desenvolvido em paralelo à genômica, e as evidências que têm surgido comprovam que ela será importante para melhorar a qualidade da administração de muitos suplementos esportivos, recursos ergogênicos e drogas.” Os conhecimentos a respeito da maneira como os genes dos atletas metabolizam drogas, isto é farmacogenômica, pode ajudar a tornar os exames anti-doping convencionais mais específicos a cada atleta minimizando falsos positivos e negativos.

Entretanto, o filósofo Andy Miah, tutor de ética na ciência e medicina da universidade de Glasgow, refletindo sobre os valores do esporte em seu livro Genetically modified athletes (versão em português – Atletas geneticamente modificados – em breve pela editora Phorte), não encontra argumentos éticos para se proibir as modificações genéticas nos atletas. “Os argumentos éticos contra o uso do doping no esporte não têm a mesma força quando aplicados à modificação genética. Além disso, seria um erro categorizar melhoramento genético meramente como uma outra forma de doping, já que é, conceitualmente e culturalmente, um tipo diferente de tecnologia”.