Por favor, não odeiem a escola!

novembro, 2017

É comum eu só escrever alguma coisa aqui no Polegar Opositor quando pesquiso muito o assunto, ou estou estudando o assunto por motivos de “a vida pediu isso por alguma razão”, ou por que aquilo faz parte do meu dia a dia e eu já sei o suficiente para ficar seguro de que estou escrevendo meio que de cabeça sem incorrer em muita bobagem.

Esse texto não é isso. Esse texto é um desabafo, quase um vômito de algo que me incomoda profundamente. Por isso, a emoção está no comando das coisas e eu não sei se o que vou dizer aqui tem qualquer relação com a realidade ou se é só uma viajem louca da minha cabeça. Acho que as duas coisas têm algum valor e por isso o farei assim mesmo.

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Darwin não roubou Wallace!

setembro, 2017

A uns bons anos atrás fui a uma palestra sobre evolução de um professor da USP. Não me lembro o nome desse senhor, lembro que foi no SESC do Ipiranga e eu ainda estava na faculdade, então deve ter sido entre 2004 ou 2005. Em dado momento eles se pôs a ofender efusivamente a memória de Darwin. Disse que ele era um inepto, que suas ideias não eram suas, que ele havia roubado Wallace.

A plateia foi a loucura. Riam e comemoravam a fala daquele professor, como se ele fosse um rebelde desafiando uma mentira que ninguém, a não ser ele, tem culhões de desafiar.

Na época eu já tinha lido Darwin, a gigante biografia escrita por Adrian Desmond e James Moore, e já sabia que na fala daquele professor havia apenas ignorância.

Darwin e Wallace

Darwin e Wallace

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Minha contribuição sobre a polêmica entrevista do Malafaia

Fevereiro, 2013

AVISO: Publiquei este pequeno texto originalmente no Facebook e decidi que ele cabia muito bem aqui no Polegar, então estou postando ele por aqui também.

Foi um tormento incrível assistir a esta entrevista não só pelos motivos evidentes (homofobia, proselitismo religioso, campo de distorção da realidade, festival de porcentagens que não dizem absolutamente nada, dados com fontes não citadas e um desconhecimento geral do processo científico como um todo e da realidade de maneira pontuada) mas também por outro, bem mais velado. O dito pastor é claramente um analfabeto no que diz respeito à ciência e sabendo que não é o único, usa sua exposição para levar os mais ingênuos ao raciocínio equivocado sobre a mesma.

"Amo os homossexuais como amos os bandidos" - Malafaia, Silas

“Amo os homossexuais como amos os bandidos” – Malafaia, Silas

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Plágio e Remix: Uma narrativa de duas culturas.

novembro, 2011

No dia 02 de outubro o blog de ciências da Folha, o Laboratório, soltou um post chamado Educar para não plagiar. O texto chama atenção para um congresso sobre plágio e má conduta científica e aponta algumas conclusões tiradas durante o evento.

A primeira conclusão é a de que hoje em dia, por conta da facilidade de acesso à informação, está mais fácil plagiar. A segunda conclusão, que de acordo com o texto é mais filosófica, diz que a facilidade de acesso à informação científica não deveria justificar o aumento do número de casos de plágio (o texto original da Folha diz “fraude” e não plágio neste ponto específico, mas fraude segundo o dicionário Aulete quer dizer falsificação de uma forma geral o que, acredito eu, não tem relação direta com a facilidade de acesso à informação, neste caso plágio parece-me ser o mais correto). Uma última conclusão argumenta que estudantes e pesquisadores mais novos não foram ensinados a lidar com toda essa informação e plagiam por pura ignorância.

Curioso ver que nos comentários do texto da Folha alguém que assina como Roberto faz uma pergunta simples mas que está no centro desta questão: “Afinal a internet ajuda ou atrapalha a ciência”?

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“Salami science”, autoria contestável e o alpinismo científico

novembro, 2011

Ninguém gosta de ser avaliado e criticado. Para os cientistas, tão acostumados com suas idéias estarem “certas” e serem corroboradas e publicadas, a avaliação se torna algo até mais temeroso do que para a maioria da população. Entretanto, ninguém escapa de ser avaliado, ainda mais sob a perspectiva de ganhar financiamento (e status, claro, por que não?), passando para isso pelo “simples” desconforto e pressão de ter seu trabalho avaliado.

Um aluno comum, na escola, quando sob pressão é levado a tomar atitudes contra a nossa moral, como a “cola”. O mundo adulto não é tão diferente, por mais que nos recusemos a acreditar. As atitudes que tomamos em medidas desesperadas apenas apresentam uma “roupagem” mais bonita, com a qual podemos disfarçar o que foi feito e ganhar a simpatia da nossa classe, que pode aprovar até mesmo as atitudes mais imorais. São as desculpas que damos a nós mesmos para escapar de uma avaliação ruim, seja ela qual for.

No paradigma atual da avaliação dos programas de pós-graduação e seus pesquisadores, a CAPES se torna um fantasma assombrando a vida de todos minimamente ligados ao âmbito acadêmico. Suas normas, equações, pontuações e avaliações levam os pesquisadores muitas vezes a medidas desesperadas. Mas creio que o maior impacto de um método de avaliação tão “espartano” (joguem os fracos do precipício e fiquem com os soldados mais eficientes) é a legitimação de atitudes fraudulentas e pouco éticas.

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A Prenhez Tubária, o Anticoncepcional e a Divulgação Científica

Março, 2010

Fornecer informações de um modo acessível à população é o principal objetivo da Divulgação Científica. Digo de se traduzir aquela linguagem técnica, de difícil absorção, cheia de latins e de palavras que passam ao largo do uso cotidiano, como no caso das ciências e suas expressões mais puras. Nelas e nas mais diversas áreas.

E por quê não usar o dicionário?
Divulgação: ato ou efeito de tornar pública alguma coisa; difusão, propagação, vulgarização. (Houaiss)

Repito: difusão, propagação, vulgarização. Três palavras adequadas ao propósito deste texto. E um incômodo. Explico:

Recentemente passei por uma cirurgia para a retirada de um pedaço de uma das trompas, em decorrência de uma gravidez ectópica (quando o feto se desenvolve de forma tubária). Por certo, uma fatalidade. Maior ainda pelo fato de eu estar tomando Mesigyna®, anticoncepcional injetável fabricado pela Bayer do México e comercializado aqui no Brasil pela Schering.

A parte interessante desse tipo de anticoncepcional trata-se do fato dele ser administrado mensalmente por via intramuscular profunda, de forma extremamente lenta e, portanto, há registro de cada dose na farmácia em que a injeção é aplicada. Coisas das legislações, ainda bem, pois assim levanto a possibilidade de entrar com um processo contra o laboratório.

E é aí que encontro o primeiro incômodo e penso no quanto é importante a Divulgação Científica. Afinal, de que se trata aquela porcentagem de ineficácia (geralmente 1%) presente em todas as bulas dos anticoncepcionais?

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Auto-validação e a blogosfera científica.

Janeiro, 2009

Institucionalização! Este foi o grande passo dado pela ciência no período da revolução científica. O resultado desse passo foi o surgimento de um dos maiores empreendimentos humanos já vistos. A ciência cresceu, ganhou credibilidade e afeta ativamente o meio de vida da sociedade.

É curioso notar como a institucionalização em geral resulta no crescimento acelerado de uma atividade qualquer. Mais do que isso, faz com que a atividade em questão ganhe respeito e articulação política. As religiões aprenderam isso bastante cedo. A ciência demorou um pouco mais.

Uma das principais características resultantes da institucionalização é a chamada auto-validação. Isso quer dizer basicamente que uma comunidade qualquer é capaz de validar a si própria. Parece estranho? Mas não é.

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Resenha: O direito à vida e a pesquisa com células-tronco

agosto, 2008

Apesar do Supremo Tribunal de Justiça ter votado pela não inconstitucionalidade das pesquisas com células-tronco embrionárias no dia 29 de Maio deste ano, e das pesquisas com este material biológico já estarem em curso no Brasil, dediquei algumas horas à leitura do livro “O direito à vida e a pesquisa com células-tronco” da autora Renata da Rocha. O livro, inserido na Coleção Biodireito/Bioética da Editora Campos/Elsevier, merece um elogio para o estilo de linguagem. A autora escreve de forma simples e expõe suas idéias com a clareza necessária para ser compreendida tanto pelo público leigo, quanto pelo público estudantil universitário.

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O extremo criacionista.

junho, 2008

No Brasil as discussões entre evolucionismo e criacionismo não chegam a ser muito relevantes. Temos um movimento criacionista isolado e em geral decentralizado. Na verdade o Brasil conta com a Sociedade Criacionista Brasileira (SCB). A primeira vez que ouvi falar da SCB foi através de um amigo que participou de uma série de palestras que promovem o criacionismo. Depois disso só tive notícias da SCB em uma pequena discussão que tive o prazer de acompanhar. Na ocasião um aluno do curso de extensão em Divulgação Científica da USP apresentava a idéia de um site que trataria das controvérsias entre o design inteligente e evolução. Sua apresentação foi interrompida por uma aluna do mesmo curso, que começou a advogar em favor do criacionismo e acabou comentando que a SCB possui linhas de pesquisas sérias a respeito do criacionismo.

Confesso que achei graça. Não conseguia conceber o que seria uma linha de pesquisa séria a respeito do criacionismo. Em todo caso resolvi que talvez estivesse sendo preconceituoso demais. Pesquisei um pouco sobre a SCB e, por fim, acabei enviando-lhes um email perguntando sobre as tais linhas de pesquisa. Segue abaixo a resposta que eles me deram:

“Informamos-lhe que nossa linha de pesquisa propriamente dita relaciona-se com o tema “origem comum das línguas e das religiões”. A grande atividade que desenvolvemos, entretanto, é a de divulgação de aspectos relacionados com a controvérsia Criação / Evolução. Nesse sentido temos como uma das mais destacadas contribuições nossas a tradução e a publicação do livro “Evolução – Um Livro Texto Crítico”.Temos também realizado encontros criacionistas diversos, com a participação de palestrantes convidados (nem todos associados formalmente àSCB).Esperando ter-lhe prestado as informações de que necessitava, permanecemos à disposição, enviando-lhe nosso cordial abraço, Ruy e Rui Vieira.”

Achei bacana a atitude da SCB. Eles me responderam com velocidade e ainda me forneceram o contato para membros associados e que tratam especificamente sobre biologia. Mas, como podemos observar, eles não desenvolvem qualquer linha de pesquisa criacionista. O trabalho da SCB é basicamente de divulgação do criacionismo. Apesar de a maioria das pessoas acharem que a divulgação do criacionismo é um desserviço ao entendimento correto da ciência, e de certa forma eu posso concordar com isso, existem casos muito piores. Casos de extremismo militante, ou simplesmente de ignorância exacerbada.

É o que ocorreu recentemente nos Estados Unidos, mais precisamente em Mount Vernon no estado da Virgínia. Durante onze anos o professor John Freshwater ensinava criacionismo e design inteligente nas aulas que deveriam ser de evolução. A comunidade e outros professores da mesma escola reclamaram por todos estes anos à direção da escola sobre a insistência de John em ignorar o currículo de evolução e, no lugar, ensinar suas crenças. Uma atitude só foi tomada quando o professor em questão provocou queimaduras em forma de cruz no braço de dois estudantes que reclamaram de suas aulas. Segue a foto abaixo:

Foto retirada do jornal The Columbus Dispatch

Foto retirada do jornal The Columbus Dispatch. Clique para ampliar.

O professor Freshwater se defendeu dizendo que  não queimou uma cruz no braços dos estudantes, queimou um “X”. O caso todo é de um absurdo bizarro. Como uma escola pública ignora 11 anos de reclamações? Qual o próximo passo destes extremistas? Queimar um cientista em praça pública? Ainda bem que no Brasil essa briga (por enquanto) não saí da esfera das discussões ingênuas. No entanto, com os recentes casos de vandalismo religioso, só me resta temer pelo futuro dos braços dos estudantes de amanhã.

Ciência Open Source?

junho, 2008

Nos últimos anos o termo “web 2.0” vem sendo usado à exaustão como um novo paradigma para a Internet. A característica implícita nesse termo é a capacidade de fornecer ambientes colaborativos, aonde o site passa a ser uma ferramenta e seu conteúdo é gerado, mantido e selecionado pelos usuários. Esse ambiente de colaboração também não é exclusividade da internet. O movimento “Open Source” e seus produtos mais conhecidos, como Linux e toda a sorte de softwares desenvolvidos sob licenças abertas, mostram que um ambiente colaborativo é capaz de gerar frutos melhores em menos tempo do que a maneira “proprietária” tradicional. Com a popularização do “2.0” já há quem fale em uma “ciência 2.0”. Mas isso existe de fato?

Na verdade, pensar em uma ciência 2.0 pode parecer redundante. Afinal, sempre ouvimos aquele inflamado discurso de que a ciência é um empreendimento humano, que exige a colaboração dos mais diversos grupos de pesquisa para poder avançar e se desenvolver. Talvez já tenha sido assim. Hoje em dia no entanto a pesquisa científica tem um caráter muito mais proprietário. E nem poderia ser diferente. Se uma empresa farmacêutica investe no desenvolvimento de uma cura para a AIDS, certamente não é de seu interesse divulgar os resultados de sua pesquisa para seus concorrentes. Mesmo a ciência mais teórica costuma resguardar suas descobertas. Nenhum cientista quer ver seu trabalho sendo publicado por um concorrente. Ainda que o cientista tenha garantido seu crédito publicando seu artigo em uma revista especializada, o interesse agora muda para o periódico em questão. Se o modelo de negócio da revista esta fundamentado na venda de acesso ao conteúdo científico de ponta, não é de seu interesse que esses artigos estejam vagando livremente pela internet. Entra aqui a questão do copyright.

Temos então uma série de mecanismos de restrição à informação e, como se pode concluir sem nenhum esforço, restringir o acesso à informação é restringir o desenvolvimento das áreas dependentes desta informação. A ciência se tornou um negócio lucrativo, ainda que os mais ingênuos duvidem disso. No entanto há questões importantes a serem levantadas. Informação e conhecimento podem ser transformados em propriedade privada? Quer dizer, que direito tem um cientista de alegar que descobriu uma nova partícula quântica quando ela de fato sempre existiu, e tudo o que o cientista fez foi detectar esta partícula? Mais ainda, que direito tem esse cientista, bem como o periódico científico, de comercializarem algo tão velho quanto o Universo? Da mesma maneira, é correto uma indústria farmacêutica qualquer patentear uma substância que tenha sido extraída de uma planta que existe a milhões de anos na natureza?

São todas questões complexas e eu não tenho a esperança de ver qualquer resposta até o final da minha vida. Esses são problemas para gerações intermináveis de cientistas. Mas hoje já podemos vislumbrar o embrião dessa ciência 2.0. Alguns projetos, como o Open Wetware, buscam a integração verdadeiramente comunitária e aberta entre centros de pesquisa das mais variadas áreas. São pessoas que entendem que o conhecimento não deveria ser patrimônio de um indivíduo ou de um grupo comercial.

O conhecimento é um bem de valor inestimável. Restringir seu acesso é o mesmo que inibir o desenvolvimento da humanidade.