Um bom exemplo de um excelente exemplo.

abril, 2008

No meu texto “um bom exemplo de um péssimo exemplo”, realizei algumas críticas ao atual conteúdo de ciência e saúde do portal G1. No texto em questão eu abordei alguns pontos específicos como forma de exemplos, entre eles, citei o blog Visões da Vida, mantido pelore pórter Reinaldo José Lopes. Pra minha surpresa, o Reinaldo leu minha crítica e comentou o texto. De lá pra cá, trocamos alguns emails a respeito do assunto.

Gostaria de deixar público minha grande admiração pelo Reinaldo. Ele não só compreendeu o ponto de vista da crítica, como fez questão de conversar comigo a respeito. Me mostrou o outro lado do assunto e foi extremamente profissional e ético ao fazer isso. Provavelmente mais ético que eu, que o critiquei e não o comuniquei.

Embora eu ainda mantenha alguns pontos da minha crítica, a atitude do Reinaldo é exemplar. Não são muitas as pessoas dispostas a estabelecer um diálogo honesto e, mais raras ainda, são aquelas capazes de receber uma crítica e iniciar um diálogo.

A despeito das críticas ao G1, gostaria de parabenizar o Reinaldo pela atitude e pelo exemplo.

Um bom exemplo de um péssimo exemplo.

abril, 2008

Acompanho as atividades do portal de notícias da Globo, o G1, desde que o site veio ao ar. Na época, e nem faz tanto tempo assim, o empreendimento era imenso. Um site de notícias de grande amplitude, conectado diretamente à base jornalística da Globo sendo alimentado por uma quantidade considerável de profissionais. Além disso, o site ainda contava com blogs e colunas de personalidades famosas. A área de ciência e saúde em particular me agradava muito, a seção era muito bem cuidada e tinha colaboração de gente de peso, como Mayana Zatz e Marcos Pontes. Mas como é hábito, tudo o que é bom dura pouco.

É notável a queda brutal de qualidade da seção de ciência e saúde. Por vezes fico envergonhado de ler determinadas “notícias” que aparecem por lá. A escolha dos títulos é a pior possível, e o rigor com o conteúdo apresentado é lastimável. Eu mesmo já usei este blog pra corrigir mais de um texto publicado no G1. Os blogs estão pobremente alimentados, mesmo o Visões da Vida, blog que sempre elogiei justamente por seu conteúdo muito bem trabalhado pelo repórter Reinaldo José Lopes, está pra lá de ruim. O que será que aconteceu com o Reinaldo? As vezes prefiro acreditar que não é o mesmo Reinaldo que colabora com a Scientific American e com a Pesquisa Fapesp. Talvez um construto bizarro, posto no automático e que acaba assinando com o nome do Reinaldo. Pior pra ele.

Um bom exemplo do mal exemplo de jornalismo sério que se tornou o G1, ao menos no que diz respeito à seção de ciência, é a matéria feita para o 1º de abril, que tenta compilar as 5 maiores mentiras da história da ciência. Embora não há dúvidas sobre a farsa do clone humano coreano, todos os outros casos são no mínimo dignos de uma análise mais apurada. Mesmo o caso do “Homem de Piltdown”, embora confirmadamente tenha se tratado de uma fraude, carrega em si um significado mais profundo. Qualquer um que conhece o caso com mais detalhes sabe que uma série de cientistas, mesmo à época, sugeriu que os ossos encontrados não eram de um ancestral humano. Nunca foi consenso que o homem de piltdown exibia qualquer comprovação sobre a evolução humana. A controvérsia só foi resolvida com a confirmação da fraude, até hoje sem um responsável.

O maior absurdo no entanto fica por conta da tentativa de fazer Claudio Ptomoleu, um dos maiores cientistas da história, se passar por falsário. Não se questiona os erros fundamentais no modelo ptolomeico de universo, mas é preciso considerar que o desenvolvimento científico ainda engatinhava. Certamente Ptolomeu não agiu de má fé, agiu na tentativa legítima de compreender algo que até hoje nos é razoavelmente incompreensível. Não questiono que Ptolomeu tenha modificado seus dados observacionais ao invés da teoria, no entanto, esse movimento é reconhecidamente usado até hoje. Quando um cientista detecta uma anomalia nos dados, dificilmente questiona a teoria. Antes, questiona o processo observacional, por vezes questiona a precisão dos instrumentos e, só com o surgimento cumulativo de anomalias passa a considerar que talvez a teoria tenha problemas. É um conhecimento básico de filosofia da ciência, completamente ignorado pelo G1.

É extremamente triste ver um portal de tamanho alcance cometer sucessivas falhas no que diz respeito à ciência. Igualmente triste é não ver ninguém reclamando ou chamando a atenção sobre o fato. Fica ao menos o alerta sobre a irresponsabilidade do G1 em fazer um bom trabalhando, prestando um desserviço à ciência e sua divulgação.

Melhor seria se a seção de ciência e saúde do G1 fosse trocada por uma de humor, ao menos as piadas não correriam o risco de serem levadas a sério.


Para saber mais.

Ptolomeu
Astronomia
Filosofia da Ciência
Jornalismo

A corporação

março, 2008

Há quem acredite que “a pesquisa científica moderna não busque a verdade, mas o lucro.” A frase em si já é suficiente para arrepiar qualquer cientista sensato com um mínimo de senso ético. Não bastando, subentende-se que a vida está a venda. Agora sim, epistemologicamente chocante, tanto do ponto de vista científico quanto da moral humana.

Entretanto o raciocínio é simples. Se a vida é um bem, pode ser comparada aos demais bens construídos pelo homem. Assim, dentro dessa (i)lógica, a vida pode ser negociada por ser considerada uma mercadoria. A única restrição é que ela não seja uma vida humana em seu estado natural, no caso com o sentido de original.

Pelo menos foi assim que se deu o veredito do STJ americano a favor da primeira patente de bactérias geneticamente modificadas, em 1980. Estiveram diante do juíz: o cientista – Ananda Mohan Chakrabarty; a corporação – General Eletric; as bactérias – Pseudomonas, capazes de degradar algumas substâncias químicas do petróleo; a biotecnologia – P. aeruginosa 1c (ATCC 15692) foi transformada em plasmídios contendo genes para degradar octano, salicilato e naftaleno gerando a artificial P. aeruginosa NRRL B-5472. De modo semelhante a P. putida PpG1 (ATCC 17453) originou P. putida NRRL B-5473 contendo genes de degradação da cânfora, salicilato e naftaleno além de uma resistência extra a droga, RP-1. O veredito – “tudo o que se encontra abaixo do Sol, feito pela mão do homem, pode ser patenteado”, porque “a questão relevante não é a distinção entre coisas vivas e inanimadas, mas se os produtos vivos possam ser vistos como invenções feitas pelo homem”.

Os produtos vivos, que até outro dia eram tidos como divinos em sua totalidade pela justiça americana, passaram a ser vistos como invenções humanas em alguns casos. Ingenuidade ou não, afinal pelo menos o Admirável Mundo Novo já havia sido escrito e era mundialmente conhecido à época, a jurisprudência abriu margem para o registro de uma infinidade de patentes biológicas desde então. Como o interesse de tudo que é patenteado é a aquisição de lucros, fica fácil entender que este episódio só abriu um pouco mais o leque de opções em registros. A julgar pela história das patentes que teve início durante o feudalismo, favorecendo os habitantes dos burgos que já sabiam desde aquela época que “o mercado é o juíz final de tudo”, isto não poderia deixar de ser diferente na atual “Era da Biologia”.

Explica-se a dificuldade e o adiamento do julgamento do nosso STJ sobre o uso de células-tronco embrionárias em pesquisas para fins terapêuticos. Não se trata somente de uma questão de inconstitucionalidade, há também uma preocupação implícita, e não é somente com a possibilidade de criação de monstros mais sofisticados do que o Frankeinstein, mas sim com a abertura de novas Corporações que certamente advirão, e muito lucrarão, a partir da aplicação destas pesquisas no mercado, em nome da Ciência e Saúde de um lado contra a perda de poder público do outro.

Afinal, diria o mestre, isto é bom ou ruim?

Células tronco: Um breve comentário.

março, 2008

E a votação ficou pra depois. Não acompanhei o caso com detalhes, mas gostei do que andei lendo.

As argumentações foram sérias. Gostei da proposta de usar embriões que estão congelados a mais de três anos e somente com a autorização dos pais(?). É uma saída digna e protege o direito das pessoas que são contra a destruição dos embriões para obtenção das células tronco.

Vamos esperar e torcer, a liberação do uso de células tronco embrionárias em pesquisas pode ser de importância crucial para o Brasil.

Eugenia x Evolução

janeiro, 2008

Não são raras as vezes em que a teoria evolucionista darwiniana é acusada de dar suporte a políticas eugênicas. No dia 24 de dezembro de 2007 o Sr. Olavo de Carvalho nos presenteou com mais um de seus textos bombásticos, estabelecendo um contexto histórico inventado, criticando as transformações e modificações da teoria e acusando-a de embasar as idéias de busca por uma raça humana superior.

Vou direto ao ponto que quero abordar, ignorando toda a baboseira desconexa que Olavo cria ao inventar uma linha do tempo sem fundamentação para o surgimento do pensamento evolucionista. A relação da evolução com as idéias de eugenia não se sustenta cientificamente por vários motivos. É preciso primeiramente lembrar que, no caso da teoria darwiniana, o termo “evolução” não é usado em sua condição usual de progressão.

Não existe uma “escada evolutiva” que remete a um igualmente inexistente “último degrau” aonde o homem estaria hipoteticamente situado. Essa visão parece bastante comum mas biologicamente falando, o homem é considerado mais uma entre tantas espécies. É muito importante entender esse conceito. Algumas espécies são evidentemente mais complexas que outras, no entanto não são “mais evoluídas”.

O termo evolução neste caso, se aplica a variações na freqüência alélica do material genético do indivíduo. Acredito que já expliquei isso antes neste mesmo blog, mas o faço novamente. Quando da ocasião da multiplicação das células gaméticas, ou células reprodutivas, processos de mutação modificam algumas áreas do DNA .

Em geral modificações profundas são extremamente nocivas e a célula se torna inviável para os fins a que serve. Em todo caso eventualmente a mutação pode não ser tão drástica e não torna a célula inviável. As mutações produzem modificações nos alelos e é a isso que o termo evolução se refere.

O efeito é melhor observado em organismos simples e de reprodução acelerada, como as bactérias. Em regra estamos todos passando por processo semelhante e a longo prazo, e com o devido isolamento, seria possível observar os efeitos dessas modificações em organismos complexos. No entanto, o tempo de observação seria tão grande que não é possível realizar de forma controlada.

Os fósseis no entanto nos ajudam a inferir esse efeito e a traçar um caminho evolutivo para cada espécie do planeta. Veja que apenas o bom entendimento deste conceito já serve como contra-argumento para a tentativa desonesta de estabelecer vínculos entre a evolução darwiniana e e a eugenia. Se não existem espécies mais ou menos evoluídas, se a evolução não segue em uma escala direta, então não se pode produzir uma raça superior.

No entanto, existe ainda um outro argumento biológico que ajuda a entender de uma vez por todas que o sistema eugênico não faz sentido. É sabido que a variabilidade genética de uma espécie é importante para a manutenção desta espécie. Ou seja, quanto maior a variabilidade dopool gênico da espécie, mais difícil será de ela enfrentar eventuais problemas de adaptação.

Na eugenia a idéia é produzir uma raça “pura”, evitando a miscigenação dos indivíduos. Evitar a miscigenação é diminuir intencionalmente o pool gênico da espécie, restringindo a variabilidade e deixando a espécie mais suscetível a problemas de adaptação ou de ordem genética. É evidente portanto que a biologia ou qualquer outro ramo da ciência jamais tentou justificar ideologias quaisquer.

Qualquer biólogo poderia ter facilmente esclarecido as dúvidas do Sr. Olavo de Carvalho e evitado que ele, mais uma vez, fosse tido como um mentiroso tendencioso que deforma a realidade da maneira como quer para poder sustentar sua insanidade.

Resta a dúvida de até quando ele continuará se passando por alguém com ideais e será finalmente encarado como realmente se deve, um charlatão ignorante que não faz a menor idéia do que esta falando.

Autonomia e Neutralidade Científica.

dezembro, 2007

Os mais diversos métodos científicos, mais notadamente os positivistas e os racionalistas, com frequência defendem que a ciência deve ser autônoma, neutra e imparcial. O filósofo Hugh Lacey possui uma série de ótimos ensaios sobre o tema, e uma proposta bastante particular sobre a ciência moderna. Lacey também diz que destes três valores, apenas a imparcialidade ainda é mantida.

Para compreendermos o raciocínio de Lacey é preciso antes entender como ele define os três valores. A imparcialidade diz respeito aos meios em que teorias científicas são escolhidas ou priorizadas em detrimento de outras. Essa seleção de teorias é feita através de um método bem definido, que elege uma série de critérios e que são a base da seleção das teorias. Como todas as hipóteses e teorias devem se enquadrar a este método e satisfazer seus critérios, o processo torna-se imparcial. A neutralidade se refere aos valores externos ao método científico. Valores sociais e morais, por exemplo, não deveriam afetar as ações da ciência. Uma descoberta científica ou uma pesquisa qualquer não deve beneficiar interesses e valores. Em tese a ciência não tende para o bem ou para o mal, tende para o neutro. A autonomia atesta que cabe a ciência decidir suas próprias prioridades e seus próprios meios.

Pela breve explicação acima é possível chegar a certas conclusões. De fato a imparcialidade parece estar garantida. Não importa qual método científico seja mais aceito, nem mesmo importa que ele deixe de ser aceito em detrimento de outro, as escolhas das teorias científicas sempre serão baseadas em critérios fixos estabelecidos pelo método. Tal processo garante a imparcialidade.

Já a neutralidade esta bastante comprometida. Na verdade, acredito que a neutralidade só é possível epistemologicamente. quando chega ao plano de aplicação seu conceito simplesmente não se enquadra ou não é obedecido. É primeiro preciso lidar com os valores morais, éticos e culturais do próprio cientista. Esses valores não são universais normalmente indissociáveis do indivíduo. ora, um cientista não irá realizar pesquisas que vão de encontro ao seus valores, ao menos não por vontade própria.

A autonomia científica passa pelo mesmo processo de comprometimento. O cientista não desenvolve suas pesquisas de forma independente, sofre influencia de pressões sociais e interesses comerciais. Problemas que acometem a espécie humana, como doenças pandêmicas (AIDS, gripe aviária), com efeito provocam uma pressão social para a busca pela solução do problema. Da mesma forma, interesses comerciais acabam guiando a ciência em direções específicas. Todo cientista precisa de financiamento, e ninguém financia nada que não irá trazer retorno financeiro. As pressões sociais e as limitações de financiamento acabam por limitar a autonomia da ciência.

Devemos observar que a epistemologia de Lacey permite o confrontamento de suas definições com a aplicação em um “mundo real”, e desta capacidade de confrontamento que vem o apelido de “epistemologia engajada”.

Em todo caso, é importante lembrar que a ciência é uma atividade humana como qualquer outra. Não se trata de algo especial, trata-se apenas de uma maneira de entender o mundo físico e de como interagir com ele.

O pequeno problema da mídia.

novembro, 2007

O pequeno problema da mídia é que toda notícia é, antes de qualquer coisa, um produto a ser vendido. Hipoteticamente não haveria problema algum com isso, não fosse o fato de a notícia ser processada, como se fosse matéria prima, e vendida em uma embalagem bonita, como se fosse um pacote de salgadinhos. Um bom exemplo disso foi a recente publicação de um estudo que demonstrava uma forma de se conseguir células tronco polivalentes (células tronco capazes de se transformarem em qualquer tido de célula, com exceção dos anexos embrionários.), hoje extraídas apenas de embriões, usando células da pele.

Eu tive a oportunidade de receber a notícia através do Jornal Nacional da Globo. A reportagem anunciava o fato, dizendo rapidamente algo sobre a técnica empregada e em seguida alardeando que esta deve ser a maior descoberta, no campo de pesquisa com células tronco, dos últimos tempos. A reportagem seguia ainda mostrando todos os benefícios do tratamento com células tronco polivalentes, passeatas de pessoas com problemas físicos que teoricamente só poderiam ser resolvidos com o uso de células tronco e encerrava com o aval do Vaticano sobre a nova técnica. No dia seguinte, o mesmo Jornal Nacional, no mesmo horário, divulgou uma outra matéria.

O anuncio da matéria dizia que “cientistas brasileiros olham com cautela para a nova técnica que transforma células da pele em células tronco embrionárias”. O que o Jornal Nacional não disse foi que provavelmente TODOS OS CIENTISTAS SÉRIOS DO MUNDO estão olhando com cautela para o novo método, possivelmente até seus descobridores estão cautelosos. Mas já estava feito. Após as matérias do Jornal Nacional todo o tipo de revista, reportagem, entrevista e mesa redonda foi feito sobre o tema.

A notícia virou produto e muita informação circulou nos dias subsequentes. A questão é, qual era a qualidade da informação vendida? Há motivos para alardear tanto uma descoberta científica? Quais os interesses por trás disso tudo? Difícil responder tais questões. É possível afirmar apenas que a técnica é muito interessante por resolver o maior problema do estudo com células tronco hoje, a questão moral sobre os embriões. No entanto a descoberta é recente e não sabemos suas consequências.

A técnica usada para transformar as células de pele em células tronco é a manipulação de genes, e a manipulação de genes não é algo exatamente previsível. Em geral, erros na manipulação inviabilizam a célula modificada. No entanto, não há motivos pra crer que a manipulação desses genes seja de todo segura. Outra questão é de que o uso terapêutico de células tronco embrionárias em animais com frequência resulta em um câncer com resultados fatais e não na cura para a doença tratada. Este é o motivo para todos os cientistas estarem cautelosos sobre a nova técnica, e é por isso que os meios de mídia deveriam ser mais cautelosos ao divulgar a descoberta.

Que vendam seu produto, mas que o façam de forma responsável, especialmente no que diz respeito a novas descobertas científicas. Quanto a nova técnica, sejamos cautelosos, mas vamos torcer para que ela possa se desenvolver de forma a trazer os benefício esperados.

Mais um pouco sobre raças.

novembro, 2007

Este tema já foi discutido aqui, e por isso mesmo deixo a simplicidade de lado e me aprofundo um pouco mais no assunto. Recentemente tivemos a infeliz declaração do Dr. Watson, que alegou que os africanos são intelectualmente inferiores que o resto do mundo, justificando tal afirmação usando a genética. Tal declaração reacendeu uma série de discussões sobre o papel da ciência na origem do racismo. Alguns, menos honestos e mais apressadinhos, logo se adiantaram a dizer que o racismo é filho da ciência, esta mãe solteira e prostituída que agora nega sua própria cria.

Evidente que no “mundo ideal” destas pessoas é muito simples atribuir à uma única atividade humana, aquela que mais os incomoda por uma série de questões, um problema que, no mundo real que esta longe de ser o “ideal”, possui raízes muito mais profundas. Mas antes de entrar nesta discussão, vamos dar uma olhada rápida no passado, presente e futuro do conceito de raças para à ciência.

Um pouco de história antiga

Classificar a biodiversidade do planeta não é uma atividade recente. O primeiro sistema de classificação que se tem notícia é o de Aristóteles, que separava os animais em grupos de acordo com o local em que viviam (terra, água e ar). Desde então ficou clara a importância de se classificar os animais de forma a facilitar o estudo da imensa biodiversidade do planeta.

O processo de classificação mudou muito desde Aristóteles, especialmente entre os séculos XVII e XVIII. Foi durante esse período que a sistemática atual ganhou corpo com o trabalho de Lineu, que desenvolveu a nomenclatural binominal que é usada até hoje. Lineu também foi o responsável pela construção da hierarquia que divide os animais em reinos, filo, classe, ordem, família, gênero e espécie.

Cada divisão dessas é conhecida como táxon. Era a análise morfológica, ou seja, a comparação de características físicas dos animais que levava os cientistas da época a determinarem em que táxon cada um se enquadrava. Mas as dificuldades logo surgiram. Algumas animais pareciam se enquadrar em mais de um táxon, enquanto outros pareciam não se enquadrar em nenhum.

Com isso foram sendo criados subtáxons, que funcionavam como uma espécie de “gambiarra” de sistematização. Não demorou para um táxon em particular, o que definia a espécie dos animais, ganhasse um subtáxon conhecido como subespécie. É importante notar que em algum momento da história, o conceito de subespécies e raça acabou se misturando.

A princípio a palavra raça definia apenas as diferentes variedades comerciais de alguns animais como cachorros, pombos, cavalos e etc. No entanto, logo subespécies e raças se transformaram em sinônimos, dando ao termo raça uma espécie de embasamento científico diretamente relacionado à sistemática.

Com o conceito de raças mais ou menos estabelecido, alguns cientistas da época, incluindo Darwin, acabaram por separar as populações humanas em raças. A divisão era feita, como tudo na época, por comparação morfológica e foi essa divisão que deu origem à divisão dos humanos em negros, caucasianos e mongolóides.

Um pouco de história moderna

No século XX as coisas mudaram um pouco. Ficou claro para os biólogos modernos que separar os animais por diferenciação morfológica não era mais suficiente. Com frequência haviam enganos e mudanças de classificação. A maioria passou a concordar que a classificação feita por comparação morfológica era muito subjetiva.

O avanço dos estudos em genética, comportamento animal, biologia molecular e muitos outros acabou por definir uma nova forma de classificação. Hoje em dia temos três ciências que cuidam disso, a sistemática, a filogenética e a cladística. A sistemática cuida da organização, criação ou extinção das ordens taxonômicas. A filogenética estabelece as relações evolutivas sobre os organismos na tentativa de melhor agrupá-los nos táxons. A cladística analisa a relação evolutiva dos seres tentando estabelecer sua genealogia.

A genética é parte muito importante neste estudo e ajudou a responder uma série de dúvidas de classificação. Foi a genética que mostrou que o conceito de subespécies era superestimado e que, em geral, nenhuma classificação de subespécies se sustenta.

O índice de fixação

Tal afirmação se baseia no índice de fixação, conceito criado por um geneticista americano chamado Sewall Wrigth. O índice de fixação surgiu de um conceito anterior que estabelecia que, quando da análise morfológica de duas populações, um valor de variação entre 25 a 30% entre elas indicava que eram subespécies diferentes.

O índice de fixação usa o mesmo valor de variação, mas a variação que se compara não é mais entre as diferenciações morfológicas e sim do material genético. Usa-se a fórmula do índice de fixação para se calcular a diferenciação genética entre duas populações e entre indivíduos de uma mesma população. Diferenças genéticas entre 25 a 30% indicam que as populações comparadas pertencem à subespécies diferentes.

A aplicação do índice de fixação entre os seres humanos indicou que as diferenças genéticas não ultrapassam 15%, estabelecendo por fim que não existem subespécies, e portanto raças, entre os seres humanos. A aplicação do índice de fixação em outros animais vem indicando que as divisões em subespécies não encontram embasamento genético.

A comissão Internacional de Nomenclatura Zoológica não estabelece regras para a nomenclatura de subespécie, indicando que a comunidade científica internacional esta de fato abandonando o conceito de subespécies e, portanto, raças.

Um pouco de palpite sobre o futuro

Eu acredito que daqui pra frente a tendencia será ir abandonando aos poucos os subtáxons. Os táxons em si estão passando atualmente por uma profunda reformulação, reenquadrando algumas formas de vida em reinos próprios. A microbiologia e a genética tem papel fundamental nesta reformulação, pois estabelecem formas confiáveis de análise comparativa dos seres vivos. A morfologia não foi totalmente descartada e, muito provavelmente, nunca o será. Mas seu papel foi imensamente reduzido.

Voltando para a discussão do racismo

Aqueles citados acima, os desonestos e apressadinhos que atribuíram o surgimento do racismo à ciência, costumam com frequência ignorar que o empreendimento científico não é um processo dogmático. A ciência erra, e erra muito. Mas aceita seu erro e, tendo completa consciência de que seus processos não são perfeitos e a prova de falhas, com frequência os reformula para refletirem melhor a realidade observada.

Neste sentido, a ciência assume que por um período deu suporte ao conceito de raças na espécie humana. Mas deixa claro que as pesquisas e técnicas recentes desfizeram esse engano. O conceito de raças é hoje marginalizado mesmo nas ciências sociais, aonde se prefere usar o termo etnia para se referir às diferentes populações humanas. Atribuir o racismo à ciência unicamente, é ser desonesto e absolutamente superficial. É ignorar todo um processo histórico e cultural iniciado desde o surgimento do homem na Terra.

Como ignorar que a igreja justificava a escravidão dizendo que os negros não tinham alma e que, portanto, não passavam de animais? Como assumir que o simples ato de se conceituar raça, justifique ações de ódio contra raças? Será mesmo que se o conceito de raça jamais tivesse sido formulado, nunca teríamos visto o ódio entre brancos e negros? Como ignorar os processos de transformações políticas, culturais e sociais quando o mundo começou a ficar pequeno demais para manter as populações humanas separadas geograficamente, misturando as mais diversas culturas e gerando os mais diversos conflitos? Alguém ai da platéia gritou Jihad? Cruzadas?

Estou certo que sim.

Ciência, exatidão e merda de boi: Uma resposta.

outubro, 2007

Li este texto escrito pelo companheiro blogueiro Blogildo e decidi formular uma resposta. Eu entendo que o texto citado é, antes de qualquer coisa, um desabafo. Ao menos é a impressão que o texto dá por sua construção que tenta abranger a ciência como um todo se baseando em premissas que são, pra ser o mais comedido possível, equivocadas. E eu defendo o direito do colega desabafar. Mas é importante separarmos as exaltações do desabafo, dos enganos que compõe o texto.

A primeira consideração a se fazer é que ele não deixa claro a qual ciência esta se dirigindo. Com um pouco de vontade podemos concluir que ele ataca exclusivamente as ciências naturais. E podemos imaginar isso quando o autor se refere a algumas palavras chave como, comprovação científica, verdade ou progresso. Todas são palavras chave que estão comumente associadas às ciências naturais. Se minha consideração estiver correta, sou obrigado a concordar que existem outras formas de se conceber o mundo em que vivemos. As ciências formais, como a matemática, fazem isso de forma esplendida e elegante. As ciências sociais também, ambas com seus métodos próprios e seus modelos de mundo.

No entanto, não posso concordar com o ponto em que ele diz que a ciência (natural?) é apenas conceitual. Especialmente quando olho para a justificativa dada no texto, a de que é a tecnologia enquanto derivação da técnica que produz as facilidades do mundo moderno. Ora, como aceitar que a técnica produza algo sem um conceito? Sem um processo de tentativas e erros que visam um estágio final que, evidentemente, só pode ser conceitual? A técnica, e portanto, a tecnologia são claramente parte integrante da ciência, não só das naturais, mas das formais e sociais. É por isso que existem as chamadas ciências de base, aonde os conceitos são primariamente desenvolvidos, e as ciências aplicadas, aonde os conceitos são efetivamente utilizados e testados.

Neste sentido posso dizer que a ciência não é uma mera abstração. A abstração de fato ocorre em um estágio específico da produção do conhecimento científico, na formulação de hipóteses. No entanto, a abstração termina no ponto em que as hipóteses passam a ser averiguadas. Aproveito para corrigir a informação dada de que a lei da gravidade é apenas uma idéia amplamente aceita. É importante não confundir leis com teorias. Leis se referem a fenômenos que ocorrem de forma previsível. Se jogarmos uma pedra para cima, ela irá cair, e não há motivos até hoje para se acreditar que ela continuará subindo indefinidamente. Esta é a lei da gravidade. As teorias no entanto, tentam explicar a causa que origina o fenômeno e como este fenômeno funciona. Neste caso, a teoria da gravitação newtoniana é um bom exemplo de explicação para a lei da gravidade. Portanto, é de fato uma loucura questionar a lei da gravidade, muito embora as teorias que à explicam podem e devem ser questionadas sempre que possível.

A ditadura dos isentos e dos “exatinhos”.: Uma resposta.
Isenção não existe. Aqueles que procuram a isenção, perdem um tempo precioso de vida. Nisto, estamos, eu e o Blogildo, de acordo. E eu concordo com o argumento de que ninguém melhor que um religioso pra debater fé, e um cientista para debater ciência. No entanto, quando um cientista quer debater fé e um religioso ciência, o mínimo que deveríamos esperar de ambos é um conhecimento prévio e razoável do que pretendem questionar.

Concordo igualmente com o argumento da “gramática corretíssima”. Trocar letras ou esquecer um acento não desqualifica ninguém de debate algum. O que desqualifica é a falta de conhecimento do tema a ser discutido.

A bacana ditadura dos militantes da “causa” científica.: Uma resposta.
Não Concordo com o argumento de Musil de que a ciência busca uma verdade utópica. E não concordo pelo fato de que a ciência não busca uma verdade absoluta. Talvez os positivistas lógicos tivessem uma idéia próxima a esta, da busca pela verdade. Mas se existe um consenso entre os principais filósofos da ciência, como Karl Popper e Thomas Kuhn, é que não temos meios de saber o quão próximo estamos da verdade, ou mesmo o que é esta verdade. O que a ciência faz na realidade é buscar meios de explicar o mundo físico à nossa volta.

É por este motivo que NENHUMA teoria científica tem caráter definitivo e isso também é consenso geral entre os filósofos da ciência. No entanto, dizer que Galileu e Newton foram superados e que são mera história é ser superficial. Basta lembrarmos que as leis de Newton, como a própria gravidade já comentada anteriormente e a inércia, continuam válidas até hoje. Mesmo os cálculos de Newton sobre o movimento dos corpos ainda são usados no “dia-a-dia”, embora de fato possuam deficiências em situações extremas de velocidade e massa. As contribuições de Galileu para a cosmologia e a astronomia continuam absolutamente relevantes.

Dizer que a ciência esta politizada demais é chover no molhado. Quais atividades humanas não estão? E mais, isso é ruim? Eu considero essa parte do texto um mero jogo retórico, tentando associar o conceito desgastado e pejorativo de política com a ciência. Eu desconheço as picaretagens do Al Gore, e apenas atribuir picaretagens, sem especificar quais e quando, é igualmente retórico. Quanto ao aquecimento global, a mim bastam os índices do IPCC. No entanto, o tema não é consenso na ciência e existem cientistas sérios que defendem que de fato o aquecimento global pode não existir. Só o tempo dirá quem esta certo.

De todo o texto, eu considero o final a parte realmente desonesta. Desonesta porque generaliza a declaração infeliz do Dr. Watson como “pensamento consenso” da ciência. Se o autor tivesse se dado o mínimo de trabalho de pesquisar o que a genética fala sobre raças, teria se dado conta do tamanho da bobagem que escreveu. É verdade que Darwin considerou a existência de raças nos humanos e, de quebra, julgou o homem europeu superior. Devemos entender no entanto que esta não era uma opinião embasada cientificamente, e Darwin ainda tinha o viés de viver na Inglaterra no período da revolução industrial. Isso não isenta Darwin da bobagem que disse, evidentemente, nem da bobagem do autor em tentar estabelecer com isso um “consenso científico” inventado.

A genética nunca justificou racismo, muito pelo contrário, a genética colocou o ponto final definitivo nesta questão alegando que não existem diferenças consideráveis entre o material genético dos seres humanos vivos deste planeta. Não há evidencias da existência de raças no gênero humano, a genética NUNCA corroborou com esta visão, o genoma humano pôs um ponto final nesta bobagem e é consenso científico atual que raças na espécie humana só existem para o senso comum.

Nem preciso dizer que ainda que raça fosse uma “estrovenga científica”, isso não é o mesmo que dizer que o racismo também o é.

E se um dia um maluco que se diz cientista disser que encontrou o gene da pedofilia, eu verei uma série de homens de Deus sorrindo aliviados e dizendo amém!

James Watson: Genéticamente ignorante?

outubro, 2007

Fiquei sabendo pelo G1, que por esses dias James Watson, um dos descobridores da dupla hélice do DNA, associou os problemas do continente africano à genética. Ainda segundo o G1 Watson disse:

“Não há uma razão firme para imaginar que as capacidades intelectuais de pessoas separadas geograficamente em sua evolução devem ter evoluído de forma idêntica. Nosso desejo de dar capacidades racionais iguais como uma forma de herança universal da humanidade não é o suficiente para fazer com que seja verdade.”

Evidente que Watson foi leviano e infeliz em sua declaração. Polêmica parecida já aconteceu no passado quando da publicação do livro A Curva de Sino, que estabelecia relações genéticas para justificar os desvios nos índices de inteligência entre negros e brancos. O livro foi amplamente refutado depois de sua publicação. Era evidente que a pesquisa que originou o livro tinha problemas metodológicos, não abrangia a complexidade do tema e tirava conclusões precipitadas.

É preciso entender primeiramente que a genética não é a única responsável pela capacidade intelectual de ninguém. Fatores do meio como disponibilidade de alimento, tipo de dieta, estímulo intelectual, entre outros, talvez sejam ainda mais importantes. Olhando especificamente para a África, não é difícil estabelecer milhares de outras explicações sem fundamentação genética. Eu diria até que o difícil é estabelecer uma justificação genética.

Em todo caso precisamos lembrar que o próprio conceito de inteligência é controverso. Existem diversos conceitos diferentes sobre o que consideramos inteligência, há pesquisadores que defendem inclusive múltiplas inteligências. No entanto, não discordo totalmente do Watson quando ele diz que “não há uma razão firme para imaginar que as capacidades de pessoas separadas geograficamente em sua evolução devem ter evoluído de forma idêntica”.

No entanto Sr. Watson, também não há razões firmes para acreditar nas baboseiras de um cientista querendo criar um pouco de confusão. Ou um pouco de publicidade.