Resenha: Eu, primata.

abril, 2008

Frans de Waal é um importante e conhecido primatologista holandes vivendo nos Estados Unidos. Formado em biologia e psicologia, se envolveu no estudo de comportamento animal, especialmente de grandes primatas, tornando-se uma das maiores autoridades do mundo neste sentido. Em 2007 esteve listado como uma das 100 pessoas mais influentes pela Times, e já produziu seis livros de divulgação científica. Destes, apenas um foi lançado no Brasil. “Our inner ape – A leading primatologist explains why we are who we are” ou “Eu, primata – Por que somos como somos” em seu título em português é um livro difícil de se classificar.

A dificuldade vem justamente da abordagem estabelecida de uma tentativa em compreender o comportamento humano, tomando como modelo comparativo o comportamento de nossos primos símios, os chimpanzés e os bonobos. A estratégia de Waal, embora possa parecer controversa, faz todo sentido. Os bonobos e os chimpanzés provavelmente evoluíram do mesmo ancestral comum dos humanos, no entanto, as diferenças comportamentais destas três espécies são aparentemente distintas o suficiente para tornar a comparação válida. O que de Waal faz é demonstrar que, em certas áreas “cinzas”, humanos, bonobos e chimpanzés compartilham uma série de características comportamentias.

O resultado é impressionante. Somos apresentados ao mundo extremamente político dos chimpanzés, muito similar ao nosso. Um complexo jogo de alianças e conchavos intrincados que remetem imediatamente à nossa política partidária. Ao mesmo tempo nos vemos no mundo erótico dos bonobos, também similar ao nosso. O autor então lança mão desse processo comparativo para mostrar o ser humano como uma espécie amalgama de nosso primos. Nosso apreço pelo poder, guerra e sexo é a síntese do comportamento dos chimpanzés e bonobos.

O livro é em geral muito bom, embora tenha seus momentos massantes. Mas eles são compreensíveis, o assunto não é simples e a proposta é bastante ousada. Buscar o entendimento sobre as ações do homem tomando a primatologia como base pode não agradar muitas pessoas. Aceitar as proposições de Frans de Waal é o mesmo que aceitar que o homem compartilha seu ancestral com os símios, idéia sabidamente polêmica mas que, a despeito de tudo, tem suporte científico.

Além disso, o autor incorre constantemente no antropomorfismo. O próprio de Waal chama a atenção para essa questão, mas defende que os comportamentos dos bonobos e chimpanzés são de fato muito similares ao nosso. Similares a tal ponto de poderem ser comparados de igual para igual. Exemplos que justifiquem essa afirmativa não faltam por todo o livro, em todo caso, alguns estão mais para a defesa apaixonada do que para a defesa racional. Igualmente compreensível, claro, mas é bom observar estes pequenos momentos de defesa apaixonada com cautela. Em todo caso o livro é ótimo e sua leitura é recomendada.

Citação:
“Este livro analisa os fascinantes e assustadores paralelos entre o comportamento dos humanos e o de outros grandes primatas, com igual consideração para com o bom, o mau e o feio” – Frans de Waal.

Dados gerais:
Eu, primata – Por que somos como somos.
331 páginas
ISBN 978-359-1062-9
Companhia das Letras

Para saber mais:

Bonobos
Chimpanzés
Primatologia
Comportamento animal

Antropomorfismo e antroponegação.

março, 2008

“Uma nova pesquisa sugere que as formigas são traiçoeiras, egoístas e corruptas, contrariando a imagem de insetos de convivência harmoniosa e com pré-disposição para colocar o bem da comunidade acima de preocupações pessoais”. Este é o primeiro parágrafo da notícia veiculada via G1. A despeito das informações referentes à pesquisa desenvolvida com as formigas, a reportagem incorre em um erro bastante comum. O chamado antropomorfismo.

O antropomorfismo consiste no ato de atribuir características humanas a qualquer animal. Usando o próprio texto do G1 como exemplo, podemos observar que o autor acusa as formigas de serem “traiçoeiras”, “egoístas” e “corruptas”, valores humanos criados para definir traços comportamentais típicos de nossa espécie. A questão é que, apontar traços humanos como resultado de uma pesquisa sobre formigas não é correto.

Observar o comportamento animal não é exatamente uma novidade. Por vezes eles se comportam de maneira muito semelhante à nossa, advém disso usarmos características humanas para nomear determinados comportamentos em animais. No entanto, não se pode afirmar que um animal esteja sendo “corrupto”, só porque determinado comportamento se parece com a corrupção na humanidade.

Paradoxalmente existe um outro princípio conhecido por antroponegação. Este princípio atesta, que não podemos negar aos animais características humanas. Ou seja, não podemos dizer que os animais não possuem comportamentos egoístas, ou de corrupção. Mas, se não podemos negar uma característica humana nem podemos atribuir características humanas, como resolvemos?

A resolução é simples. Cabe a nós apenas observar o comportamento e deixar de lado qualquer interpretação sobre a natureza deste comportamento. Se observamos formigas operárias beneficiando seus próprios ovos em detrimento dos ovos da rainha, devemos nosater à descrição do comportamento sem que nenhuma interpretação seja realizada. Em verdade, só podemos interpretar o comportamento em um nível básico, na tentativa de compreender a importância evolutiva que ele possui.

O ovo ou a galinha?

janeiro, 2008

O título remete à tão famosa pergunta. Quem surgiu primeiro, o ovo ou a galinha? Segue a eterna discussão sobre a resposta paradoxal. Mas será mesmo que a questão do ovo e da galinha é paradoxal? Curiosamente, a resposta para esta questão esta atrelada diretamente com o desenvolvimento da vida na Terra.

E não podia ser diferente. O ovo é uma estrutura reprodutiva compartilhada por uma infinidade de espécies. Trata-se basicamente do resultado entre a união do espermatozóide com o óvulo no momento da reprodução. A estrutura é basicamente a mesma, o embrião resultante da fecundação do óvulo e uma porção de vitelo que serve de alimento para o embrião. No caso do bem conhecido ovo de galinha, o embrião seria a gema e o vitelo a clara.

Pode-se dizer seguramente que o ovo surgiu primeiro que a galinha. O motivo é simples, antes que a primeira ave aparecesse na primitiva face deste planeta, os oceanos já eram habitados por peixes e outros animais que botam ovos. No caso dos peixeis o ovo não possui uma casca rígida. A fecundação é externa, ou seja, a fêmea deposita os óvulos em uma superfície qualquer no mar e o macho despeja seus espermatozóides por cima.

Ovos como dos peixes possuem um problema evidente. São muito sensíveis a mudanças climáticas e são alvo fácil de predadores. Esse problema ainda não seria resolvido com os primeiros animais a sairem do mar em direção à terra, os anfíbios. Os ovos dos anfíbios são bastante similares aos dos peixeis, a fecundação também é externa e eles precisam estar submersos em água.

Os primeiros ovos com casca rígida surgiram com os répteis. Foram um passo muito importante para a dominação de ambientes secos, já que a casca rígida protegia muito bem o embrião contra intempéries e ataques predatórios. A invenção do ovo de casca rígida coincide com o aparecimento de um novo orgão. O penis. O fato é que a casca rígida não permite que o espermatozóide seja lançado por sobre o ovo, era preciso fecundar o óvulo antes que ele se tornasse rígido. A fecundação portanto deveria ser interna e o pênis cumpre esse papel com elegância. Nós, machos mamíferos, devemos tudo aos repteis.

Na maioria dos mamíferos o ovo sofreu sérias modificações. A casca rígida se perdeu, mas pra compensar, o embrião se desenvolve no interior da mãe. A estratégia é igualmente boa, a proteção do embrião é garantida e ganha-se a vantagem de a mãe poder se locomover sem perder de vista sua futura cria. Já nas aves a estrutura do ovo é muito parecida com a dos repteis, a fecundação é interna e nem sempre é feita com o auxilio de um pênis. Na verdade, no caso das aves, o pênis não é muito vantajoso pois representa um peso extra a se carregar durante o vôo. Não é de surpreender portanto que aves como as de rapina não possuam pênis enquanto os avestruzes possuem. No caso das aves que não possuem pênis, macho e fêmea encostam suas cloacas (estruturas parecidas com o anus, mas que servem para todos os tipos de excretas e reprodução) e o macho deposita seus espermatozóides dentro da fêmea.

Acho que a pergunta correta a se fazer é: Quem surgiu primeiro, o ovo de galinha ou a galinha? Neste caso, a resposta seria que ambos surgiram ao mesmo tempo durante os processos evolutivos. O fato é que a questão sobre quem veio primeiro é tão válida quanto o paradoxo do biscoito Tostines, só vale enquanto considerada de forma despretensiosa.