Para discutir Biologia Comparada

E, aproveitando que estávamos falando sobre Biologia Comparada e sobre como ela vêm se constituindo na linha de frente da Biologia teórica atualmente, venho dizer que o Brasil não está por fora dessa onda. Muita pesquisa séria vem sendo desenvolvida por aqui nessa perspectiva, e a área vem crescendo bastante no país. Existem por aqui alguns programas de pós-graduação específicos para a formação de pesquisadores especialistas em Biologia Comparada.

E um deles, o da USP de Ribeirão Preto, está se organizando para promover no final de julho um Encontro de Biologia Comparada que vai trazer a interessante temática “A diversidade de formas no tempo e no espaço”.  O principal objetivo do encontro é mobilizar estudantes, professores e profissionais da Biologia em discussões sobre mudanças observadas nas diferentes formas de vida nas dimensões temporal (passado, presente e futuro) e espacial (distribuição geográfica), além de manter os objetivos dos encontros anteriores, que são promover a integração entre os alunos do Programa de Pós-graduação e a comunidade acadêmica e divulgar as linhas de pesquisa desenvolvidas dentro do programa.

Portanto, se você é biólogo e trabalha com Biologia Comparada, esse é um ótimo lugar para divulgar o seu trabalho. E, se você é um biólogo que trabalha com outra coisa (como eu!) ou se não é biólogo, mas gosta do assunto, essa é uma oportunidade de ouro para participar de discussões evolutivas interessantes e para acompanhar o que se tem pesquisado na área em nosso país. Te vejo lá!

 

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As duas Biologias de Mayr

Em 1859, quando Darwin publicou “A Origem das Espécies”, ele já sabia que tempos difíceis estavam por vir. E vieram. As idéias contidas naquele livro causaram um grande rebuliço não somente na comunidade acadêmica da época, mas na sociedade como um todo. Num âmbito mais geral, a idéia de uma espécie descender de outra (e especialmente a idéia do homem descender “do macaco”) batia de frente com os ideais religiosos da Europa do século XIX – na verdade, ainda bate com ideais religiosos de hoje, mas deixemos o conflito ciência x religião para um outro post. Na esfera acadêmica, o tempo de existência da Terra era um assunto sobre o qual os cientistas ainda estavam longe de entrar em consenso, e como o argumento de Darwin tinha como premissa que a Terra era muito antiga, esse era um assunto recorrente entre seus opositores. Inclusive, Lord Kelvin, o grande físico criador da escala termométrica universal, era um desses opositores, e um que deu muita dor de cabeça a Charles Darwin¹.

Resumindo uma história longa, quando Darwin propôs sua teoria da evolução por seleção natural, ela não foi aceita de cara pela comunidade científica. Na verdade, isso demorou mais de meio século pra acontecer. Talvez as pessoas de sua época não tenham conseguido entender o que ele estava tentando dizer. Talvez tenham entendido, mas viviam num paradigma que as impedia de dar crédito para uma teoria daquele tipo. Ou talvez de fato as evidências existentes na época favorecessem uma outra forma de pensar. Seja lá o que for, o fato é que quando perceberam (muito tempo depois) a profundeza e o poder da teoria darwiniana, ficaram muito empolgados. Muito mesmo! Mas como a teoria de Darwin era muito mal vista pela maior parte das pessoas na academia e fora dela, aqueles que a aceitavam começaram um grande movimento de divulgação e defesa do darwinismo.

Um desses grandes defensores foi o zoólogo alemão Ernst Mayr (1904-2005). Além de incorporar a teoria darwiniana para interpretar os dados de suas pesquisas acadêmicas, escreveu vários livros de divulgação sobre o darwinismo. Os mais conhecidos são “Biologia: Ciência única”, “Isto é Biologia”, “O desenvolvimento do pensamento biológico”, “Isto é evolução”, “Um longo argumento”, entre outros. Todo biólogo já leu um ou dois. Isso porque não é necessário ler todos para entender o que Mayr quer nos dizer.

Toda a obra (de divulgação) de Mayr se baseia em algumas idéias centrais relativamente simples². E o argumento que ele defende com veemência a partir dessas idéias é que a teoria da evolução organiza o conhecimento biológico de tal forma a tornar a Biologia uma Ciência muito diferente da Física e da Química. Para ele, a Biologia tem que explicar os fenômenos a partir de duas abordagens diferentes, a das causas próximas e a das causas últimas (ou evolutivas). Por exemplo, para explicar por que as aves voam alguém poderia falar sobre as asas e as penas, sobre os ossos pneumáticos (que são bastante leves), sobre as características do sistema respiratório das aves, etc. Essa pessoa estaria explicando o vôo das aves a partir das causas próximas. Outra pessoa poderia responder essa mesma pergunta recorrendo às causas últimas, ou seja, à história evolutiva das aves. Seria necessário construir uma narrativa histórica que explicasse como essas características surgiram a partir de ancestrais que não as tinham. Para enfatizar esse ponto, Mayr divide a Biologia em duas: A Biologia Funcional (ou mecanicista) e a Biologia Evolutiva (ou histórica).

Cada uma dessas divisões seria responsável por um tipo de explicação. Ou seja, a Biologia Funcional se preocuparia com as causas próximas (Fisiologia, Genética, Anatomia, Bioquímica, Biologia Celular, Ecologia, etc.) e a Biologia Evolutiva com as causas últimas (Sistemática, Biogeografia, Paleontologia, Embriologia, etc.). É importante ressaltar que existe uma diferença metodológica crucial entre essas duas áreas. Enquanto a Biologia Funcional se utiliza principalmente de uma metodologia experimental, se baseando em evidências e observações diretas, a Biologia Evolutiva constrói suas explicações a partir do método comparativo e de evidências indiretas – afinal, não tem como voltar milhões de anos no tempo para fazer observações diretas e realizar experimentos com material vivo.

Um pessoal da Física costumava dizer que essas explicações baseadas em evidências indiretas eram fracas, e que por isso a Biologia não era uma Ciência “de verdade”. Mayr, é claro, brigava muito com eles e, de fato, os físicos não poderiam estar mais errados. Os seres vivos, por terem uma inegável história evolutiva, demandam um tipo de estudo diferenciado. E atualmente esse tipo de estudo tem tomado um lugar central dentro da Biologia acadêmica, e atende pelo nome de Biologia Comparada.

Enquanto a Biologia aplicada vem se empenhando em seqüenciamentos genômicos e na pesquisa com doenças, a Biologia teórica tem na Biologia Comparada sua linha de frente. Entender os processos fisiológicos e ecológicos dos seres vivos (causas próximas) não tem sido mais suficiente. Por isso, a partir desses dados da Biologia Funcional, esses biólogos tentam reconstruir a história evolutiva dos diversos grupos de seres vivos para entender como ela se desenrolou. Já que a evolução das espécies está altamente relacionada às mudanças no meio ambiente, as explicações evolutivas devem reconstruir os ambientes do passado com o maior detalhamento possível (temperatura média, clima, vegetação, tipo de solo, posição de placas tectônicas, relevo, disponibilidade de água e alimento, etc.), associar os seres vivos a esses ambientes e tentar entender como funcionavam os ecossistemas do passado. Uma missão nada fácil, mas extremamente fascinante. E os resultados desses estudos às vezes indicam padrões evolutivos muito interessantes que mudam a forma como entendemos a história da vida na Terra. E, afinal, não é esse o objetivo central da Biologia?

 

¹ Uma descrição muito interessante e detalhada sobre isso pode ser encontrada em Burchfield, J.D. 1974. Darwin and the Dilemma of Geological Time. Isis, Vol. 65, No. 3, pp. 301-321.

² Um resumo bem decente das idéias que permeiam a obra de Mayr pode ser encontrado em um texto do próprio autor: MAYR, E. The autonomy of Biology: The position of Biology among sciences. The Quarterly Review of Biology, Vol. 71, nº 01, p. 97-106. 1996.

 

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Podem os vírus ter-nos tornado humanos? – Parte I

A questão começou por ser filosófica. Numa sessão da American Philosophical Society de 15 de Novembro de 2003, o virologista Luis P. Villarreal, director do Centro de Investigação em Vírus da Universidade da Califórnia em Irvine perguntava: «Can Viruses Make Us Human? A ciência tinha uma resposta objectiva. Não. Os vírus, que nem sequer seres vivos são considerados, são parasitas moleculares cujo interesse primordial consiste em induzir doenças no seu hospedeiro. Neste sentido, os vírus são qualquer coisa de maléfico. Veja-se o caso do VIH causador da SIDA que todos os anos ceifa milhares de vida em todo o mundo. Ou o vírus H1N1 que ameaçava dizimar populações inteiras. Ou ainda o temível vírus Ébola que nos filmes é-nos apresentado como uma espécie de assassino em série. Ou então o mais contido vírus da gripe sazonal que todos os anos faz com que milhões de pessoas passem os seus dias a espirrar. Para tornar tudo isto ainda mais grave, não há forma de os combater. Por conseguinte, como podem os vírus ter-nos tornado humanos? Não, para nós, o grande plano dos vírus sempre foi exterminar os humanos. Acontece que, além da objectividade pura não existir, a resposta da ciência a esta questão está profundamente afectada por uma subjectividade. Na verdade, alguns cientistas têm sido de tal modo convincentes que nós acreditámos sem qualquer resistência nos seus delírios. Estamos pois todos dentro ou fora da realidade, como acontece nos chamados delírios partilhados. Provavelmente, mais fora do que dentro. Talvez aqui a filosofia possa dar uma ajuda. Por exemplo, segundo Peirce, a realidade é tudo aquilo que nos provoca resistência. Quer isto dizer que se há qualquer coisa que cause resistência à nossa expectativa, então é provável que essa qualquer coisa seja real. A ciência é uma incessante busca pela realidade. E é escrita a lápis de carvão. Porque a ciência vive na eminência de ter de ser rescrita uma vez, e outra vez, e ainda mais outra. Aliás, a história da ciência é um livro rasurado em todas as suas páginas. O caso dos vírus é um exemplo bastante eloquente. Investigações recentes têm defraudado persistentemente as nossas expectativas. O que significa que, por certo, nos aproximamos cada vez mais da realidade.

Para hoje vejamos apenas o caso dos retrovírus endógenos. Em 2003 foi publicado um artigo muito interessante nos Proceedings of The National Academy of Sciences. Nele se falava sobre a capacidade que estes retrovírus apresentam na regulação do crescimento e diferenciação da placenta em ovelhas. Quer isto dizer que as ovelhas contém no seu genoma aproximadamente 20 cópias de um retrovírus endógeno altamente relacionado com o retrovírus exógeno e patogénico Jaagsiekte. Sendo endógeno e abudantemente expresso no tracto genital das ovelhas, ele não vai causar doença mas antes dar um contributo decisivo na morfogénese da placenta. E de tal forma que se for inactivado, então o desenvolvimento embrionário torna-se inviável. Ou seja, sem este vírus as ovelhas depressa deixavam de ser ovelhas.

Mas não se pense que isto é uma aberração da natureza sem qualquer significado. Na verdade, os retrovírus endógenos abundam nos genomas dos vertebrados, incluindo os humanos. Estima-se que 10% do nosso genoma contém sequências de origem retroviral muito diferentes entre si mas englobadas na denominação genérica de retrovírus endógenos humanos. E, espantem-se, pouco tempo depois de ter sido detectado nas ovelhas o tal retrovírus endógeno com funções na morfogénese da placenta, o mesmo retrovírus foi detectado por uma equipa de investigadores no útero de uma mulher justamete com as mesmas funções.

(continua)

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Uma nota breve sobre a adaptação das espécies II

Mas afinal o que é que faz com que haja tanta variedade? Para os neodarwinistas, essa variedade resulta fundamentalmente das mutações e da recombinação génica. Mas há um outro mecanismo de produção da variação que é a simbiose e a transferência horizontal de genes. Por exemplo, quando começámos a sequenciar o genoma humano, ficámos surpreendidos pela quantidade de DNA que aparentemente não tinha qualquer utilidade. Era referido como junk DNA. Hoje sabemos que esse lixo é afinal informação genética de vírus e bactérias que a determinada altura integraram o genoma humano. Por exemplo, porque razão a nossa flora intestinal se mantém ordenadamente dentro de certos parâmetros fisiológicos e apenas com aquelas variedades de bactérias? Certamente porque houve transferência horizontal de genes. Um outro exemplo bastante paradigmático é o caso da lesma Elysia chlorotica que ao alimentar-se da alga Vaucheria litorea tem a capacidade de incorporar no seu epitélio intestinal os cloroplastos desta, e apenas desta, alga, mantendo-os viáveis por um período de cerca de 8 meses. No final desse período, ingere e integra novos cloroplastos. Ora, para isto acontecer, teve que haver uma transferência horizontal de genes por forma a que esses cloroplastos se mantenham viáveis. Na verdade, foram identificados no genoma da E.chlorotica genes – por exemplo, rbcL, rbcS, psaB, psbA – da alga V.litorea que possibilitam que haja uma tradução e transcrição activa de genes cloropastidiais dentro do animal hospedeiro. O que é, digamos assim, algo de absolutamente surpreendente. Por conseguinte, mutações, recombinação génica e simbiose são os grandes produtores de variedade contribuindo assim para uma maior possibilidade de adaptação por parte das espécies aos múltiplos desafios ecológicos.  

Será que é mesmo assim? Dawkins dirá que sim, que somos escravos de genes egoístas. Mas o conceito de adaptação também pode ser discutido noutra dimensão. Eu comecei por dizer que a adaptação é apenas aparente, o que na verdade acontece é que é a diversidade de características que possibilita a adaptação. No entanto, há casos em que a adaptação é comportamental e até mesmo cultural e tecnológica. Por exemplo, o engarrafamento do oxigénio permitiu-nos explorar novos mundos. Ou então coisas tão simples como a invenção de fatos térmicos que nos permitem aguentar temperaturas negativas que em condições normais seriam fatais. Até mesmo nas relações sociais nós desenvolvemos estratégias comportamentais de adaptação. E não se pense que isto é um exclusivo dos humanos. Muitos outros animais desenvolvem estratégias comportamentais, muitas delas adquiridas pela transmissão cultural. Por exemplo, os chimpanzés que fabricam instrumentos, as garças de Trinidad que usam um isco para capturaram peixes na superfície do lago, o abutre do Egipto que recorre a pedras para quebrar a casca dos ovos capturados, estorninhos que se esfregam com formigas porque o ácido fórmico elimina os parasitas, etc. Ou seja, a adaptação não é exclusivamente genética, isto é, ao nível dos genes, mas é também cultural.

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Uma nota breve sobre a adaptação das espécies I

É frequente dizer-se que as espécies se adaptam. Por exemplo, mamíferos como os golfinhos, adaptaram-se às circunstâncias da vida marinha. Os bicos dos tentilhões das Galápagos adaptaram-se às características peculiares de cada uma das ilhas. Os membros do morcego adaptaram-se ao voo. Em teoria, perante os novos cenários climáticos é provável que muitas espécies se adaptem às novas circunstâncias ecológicas. É provável que o urso polar reduza a espessura da sua camada de gordura, ou então que as orelhas dos elefantes se tornem maiores para uma mais eficaz dissipação do calor. A adaptação das espécies é para nós quase uma banalidade. Em diferentes contextos, as espécies adaptam-se. Ponto final.

A adaptação das espécies é pensada ao jeito lamarckiano, isto é, a adaptação das espécies é vista como um esforço intencional de conformar a sua morfologia e a sua fisiologia a um determinado contexto. Como se a adaptação fosse uma resposta a um estímulo do meio envolvente. Quando, na verdade, ela é espontânea. Por exemplo, a girafa bem pode esticar o pescoço que ele não vai crescer mais por isso. A possibilidade de adaptação está na diversidade genética. Fazendo referência a um exemplo clássico, não é pelo facto de a poluição industrial ter enegrecido os troncos que fez com que a espécie Biston betularia se tornasse de repente de cor escura. Não, o que aconteceu foi que essa possibilidade de adaptação já existia. Traças de cor escura já existiam na população embora  em muito menor número. No entanto, a nossa interpretação vai no sentido de achar que aquela espécie fez um esforço estoico para sobreviver.

Adaptar significa qualquer coisa como “tornar apto”. Neste sentido, quando se diz que uma espécie se adapta, então estamos a dizer que uma espécie está a tornar-se apta. E, como nos ensinou Darwin, apenas os mais aptos são seleccionados, sobrevivem e se reproduzem. No entanto, aqui o verbo “tornar” alude à ideia de “mudar para”. Ou seja, as espécies ao adaptarem-se, estão ao fim e ao cabo a mudar para uma condição que as torne mais aptas naquele contexto. E essa condição agora pode ser morfológica ou fisiológica ou até comportamental. E no entanto, fica a ilusão que essa adaptação é intencional e em resposta a um estímulo quando na verdade ela é casual e estritamente espontânea.

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Creation: uma crítica

Quando li a notícia de que estavam fazendo um filme sobre como Darwin escreveu o Origem das Espécies fiquei bastante empolgado. Primeiro por que qualquer um que leu o livro biográfico escrito por Adrian Desmond e James Moore sabe que esta é uma excelente história a ser contada. Segundo por que o ator encarregado de interpretar o naturalista inglês é o Paul Bettany que já tinha interpretado um outro naturalista, fictício é verdade mas tremendamente inspirado em Darwin, no filme Mestre dos Mares.

Tive a oportunidade de assistir ao filme ontem que, numa tentativa infeliz de ironia, foi chamado de Creation. Tenho más notícias. Vou resumir o assunto já que os próximos parágrafos vão conter algum spoiler e eu não quero estragar nada para ninguém. O filme não se sustenta nem como filme, nem como cinebiografia. Aviso novamente, como reforço, OS PRÓXIMOS PARÁGRAFOS PODEM CONTER SPOILERS, portanto, siga por própria conta e risco.

Esteriótipos e Exageros

Antes de mais nada devo reforçar que toda a crítica que faço é, sobretudo, por oposição ao livro do Desmond e Moore. Obra que não tem relação direta com o filme, que foi baseado no livro Annie’s Box, de Randal Keynes que é também tataraneto de Darwin.

O filme se divide em duas linhas de tempo. A primeira tem como ponto central a figura de Anne Darwin, mostrando a relação privilegiada entre Charles e sua segunda, e preferida, filha até sua devastadora morte aos 10 anos de idade. A segunda linha de tempo mostra Darwin lutando contra sua doença e sua tentativa de terminar o Origem das Espécies para publicação.

A primeira coisa que me incomodou bastante é a maneira como tudo é construído. Tudo muito exagerado, tudo muito esteriotipado. Darwin é o gênio indomável que tenta conter a si próprio em respeito ao amor que sente por sua esposa, Emma, a beata que em nome da religião vê, sem reclamar, sua filha sendo torturada, ao mesmo tempo em que suprime os impulsos do marido na busca de salvação para sua alma. Anne é a criança gênio, feita à imagem e semelhança do pai.

E por exagerar transforma o “naturalista atormentado” de Desmond e Moore em um “naturalista alucinado”. Darwin passa metade do filme tendo visões do fantasma de sua filha, em uma crise existencial que relaciona o Origem das Espécies com a morte de Anne, com as dificuldades do casamento, com a doença misteriosa.

Para o filme, o “Origem” não é um livro científico, mas um livro destinado a matar Deus, que só vê a luz do dia quando seu autor finalmente faz as pazes consigo mesmo, com sua esposa beata, com sua filha morta e com seu ateísmo latente. E é essa preocupação em a todo instante colocar a ciência em contraposição com a religião me leva a um segundo ponto.

Quando não se tem conteúdo, apele para a polêmica.

Creation faz exatamente isso. O filme não consegue prender o expectador pela força da história de como Darwin escreveu seu famoso livro. Ao invés disso, aposta todas as fichas em polêmicas rasas e que estão na moda. Não há uma só oportunidade de reforçar a briga entre ciência e religião que seja perdida. Darwin é retratado como um ateu enrustido, mesmo antes da morte de sua filha. A própria Anne é mostrada como uma criança que não acredita nos ensinamentos da bíblia, sendo penalizada e torturada por seu tutor religioso.

O nome do filme, como já disse anteriormente, é um trocadilho barato feito exclusivamente com o intuito de provocar polêmica. Nem mesmo o caso Darwin x Wallace passa batido.

Por fim, fiquei excepcionalmente desapontado. Não é de hoje que espero um bom filme sobre Darwin e, quando ele finalmente chega, é feito nas coxas. Por outro lado, Charles é uma figura tão rica em termos de história que o melhor seria uma série de TV. Em todo caso, não assistam, a não ser a título de curiosidade.

O duro é ver uma excelente idéia ser tão ridiculamente mal aproveitada. No final das contas, não temos nem 10 minutos de cenas que são ativamente relacionadas com a “criação” do Origem das Espécies. Nem mesmo a presença da lindíssima Jennifer Connelly salva. Aliás, se você quer ver Jennifer Connelly como esposa de um cientista, uma opção muito melhor é assistir ao Uma mente brilhante que, ao menos como filme, supera e muito essa aberração chamada Creation.

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Um pequeno mal entendido. Ou não.

O naturalista britânico Charles Darwin foi imortalizado pelo livro que publicou em 1859, “A Origem das Espécies por meio da Seleção Natural”. Nesse livro ele faz uma grande síntese de várias idéias sobre evolução biológica que estavam borbulhando em sua época e propõe um mecanismo pelo qual a evolução poderia ocorrer: a seleção natural. A idéia básica é a de que existem muito mais indivíduos nas populações do que a quantidade que os recursos do ambiente dão conta de sustentar (idéia que ele emprestou de Malthus) e, sendo assim, vários indivíduos morrem. Quais indivíduos? Darwin acreditava, embora não soubesse explicar, que existiam variações entre os indivíduos de uma mesma espécie e que essas diferenças tornavam alguns indivíduos mais aptos do que outros a sobreviver em determinado ambiente. Assim, os indivíduos que tivessem características que os favorecessem a conseguir mais alimento, gastar menos energia, etc., teriam uma chance muito maior de sobreviver do que os que não tivessem essas características ou a tivessem num nível menos eficiente. É importante ressaltar que o que define se uma característica é vantajosa ou não é o ambiente; ter respiração branquial pode ser uma ótima estratégia se você for um ser aquático, mas provavelmente vai te matar se você for terrestre.

A idéia parece simples, mas não é tão fácil assim entende-la, e as tentativas de simplificação da teoria de Darwin dificilmente são bem sucedidas. Duas frases ficaram muito famosas e são sempre lembradas quando se fala de evolução: (1) “Os mais fortes sobrevivem” e (2) “A sobrevivência dos mais aptos”, e muita gente acha que a evolução é simples assim.

No séc. XIX, um grupo bastante parcial utilizou a teoria da evolução de Darwin para justificar as desigualdades sociais e para propor uma forma “científica” de acabar com ela. Esse movimento ficou conhecido como Darwinismo Social, e a idéia era bem clara: “Se são os mais aptos que sobrevivem, e os pobres não conseguem sobreviver direito, então eles não estão bem adaptados à vida na sociedade. Eles devem ser eliminados”. É isso mesmo que você leu. Se existem ricos e pobres, é por que os ricos devem ter alguma característica intrínseca que os favorece, e essa característica é boa para a espécie humana. Os pobres, por sua vez, são pobres por que devem ter alguma característica intrínseca (incompetência, vagabundagem, etc.) que os desfavorece, e essas características são ruins para a espécie humana. Sendo assim, se a gente matar todos os pobres, vamos eliminar os indivíduos que têm características ruins para a nossa espécie e, dessa forma, vamos contribuir para a evolução humana. Mãos a obra!

De fato, colocaram as mãos pra trabalhar. A idéia de melhoramento da espécie humana, conhecida como Eugenia, mobilizou muitas pessoas. Essas pessoas se organizavam em instituições (Sociedades Eugênicas) e faziam intervenções na sociedade como, por exemplo, programas de castração de pobres. No séc. XX, Hitler, um grande camarada eugênico, utilizou esse mesmo ideário para dizer que os judeus e os negros eram inferiores e para justificar que a raça ariana era a melhor. No Brasil existia o Comitê Central de Eugenismo, que propunha a proibição da imigração de não brancos e medidas para impedir a miscigenação. Dizem as más línguas que Monteiro Lobato, o renomado escritor infantil, fazia parte desse comitê (Jeca Tatu e Tia Nastácia que o digam!).

Darwin não tinha a menor intenção de que nada disso ocorresse, e inclusive dedicou um livro inteiro à evolução humana (“The Descent of Man”, de 1869) para deixar claro que há diferenças entre a seleção natural e a seleção em humanos. Mas isso não adiantou muito; seu próprio filho (um dos 10) foi um dos primeiros cérebros do movimento eugênico na Inglaterra.

Foi tudo isso um grande mal entendido dos escritos de Darwin ou será que distorceram propositalmente a teoria do grande naturalista para justificar genocídios e campos de concentração? No final das contas, não importa muito. Esse movimento, embora enfraquecido, ainda está vivo, e tomou outras formas. Enquanto muita gente acha que evolução se resume a pescoços de girafa tentando alcançar as folhas mais altas das árvores, negros e outras minorias ainda sofrem intensa discriminação, e de vez em quando ainda aparecem alguns cientistas falando das vantagens do “embranquecimento da população mundial”.

O fato é que é preciso entender muito bem a teoria evolutiva para desconstruir esses argumentos tendenciosos e perceber que não é bem assim que as coisas funcionam. “Os mais fortes sobrevivem” é uma simplificação ingênua demais de uma teoria altamente complexa, principalmente quando aplicada a uma espécie que não tem apenas diferenças morfológicas e comportamentais, mas também culturais.

Se alguém achava que a Ciência só faz interface com a sociedade quando aplicada à tecnologia ou à saúde, espero ter dado um bom exemplo para mostrar que essa relação é muito mais íntima do que parece, como bem podem dizer os judeus, ou os negros, ou os pobres.

Para saber mais, leia esse texto aqui:

Bizzo, 1995 – Eugenia: Quando a Biologia faz falta ao cidadão.

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O joio e o trigo.

Quem acompanha este blog a mais tempo sabe que o debate entre evolucionismo e criacionismo sempre foi um tema recorrente, ao menos no primeiro ano de vida. Gradativamente o debate em si foi sendo deixado de lado, e isso se deve ao fato de que, ao meu ver, falta nos dois lados da polêmica o refinamento necessário para uma discussão saudável.

Normalmente vemos textos e mais textos, os deste blog incluídos, que funcionam basicamente na refutação de contra-argumentos do adversário. Nesta troca desmedida de refutações, o que pouca gente se dá ao trabalho de fazer é separar o joio do trigo. A começar pela unidade fundamental do que se está debatendo: Teoria evolutiva ou teoria da evolução?

Ao observador desatento, ao dogmático mais ferrenho e ao cientista  epistemologicamente pobre, ambas as coisas podem parecer iguais. A simples compreensão desta diferença pode evitar uma série de discussões inúteis e erros de interpretação.

Quando nos referimos à realidade (ou não) da evolução dos seres vivos, estamos falando da teoria evolutiva. Qualquer querela neste nível deve se ater à discussão sobre se a biodiversidade do planeta existe como a vemos hoje desde “sempre” ou foi mudando ao decorrer do tempo. A questão básica aqui é, as espécies são fixas no tempo ou variam?

Já por teoria da evolução entendemos os mecanismos propostos para a variação das espécies no tempo. É aqui que entram Lamarck, Darwin, Neodarwinistas e por aí a fora. A diferença é sutil, mas bastante clara: Uma coisa é saber se as espécies mudam, outra é COMO mudam.

Um cientista bem preparado, e que responde “qual delas?” para a pergunta “você acredita na teoria da evolução?”, tenho certeza, acaba com a maioria dos debates antes mesmo deles começarem.

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Carta aberta aos pais de alunos.

Nas últimas semanas acompanhei, sem me pronunciar é verdade, as inflamadas notícias sobre escolas brasileiras que decidiram inserir o criacionismo em suas aulas. A despeito da já infrutífera discussão entre criacionismo e evolucionismo, a reportagem da Veja sobre este assunto esbarra em um questão que se perde no “blablabla” habitual.

Lá, perdido no meio da reportagem, vemos a seguinte passagem:

Os pais de alunos das escolas evangélicas não costumam reclamar do fato de seus filhos serem instruídos no criacionismo em detrimento da ciência. Dizem ter escolhido a escola por acreditar que ela incute nas crianças valores morais, éticos e cristãos. “Nossa escola forma verdadeiros cidadãos. De que adianta o adolescente estar preparado para o vestibular se não tiver uma boa formação como ser humano?”, diz a baiana Selma Reis Guedes, uma das diretoras do Colégio Batista Brasileiro, de São Paulo.

Eu não poderia concordar mais com a diretora Selma, de que adianta estar preparado para o ensino superior sem a formação moral necessária? Por outro lado, não poderia descordar mais dos pais dos alunos que depositam no ensino religioso a responsabilidade pelo ensino moral e ético (e ainda estou em dúvida sobre o cristão).

Se existe um mérito compartilhado pela maioria das religiões, é a imagem pública conquistada. A maior parte das pessoas de fato correlaciona valores morais e éticos à religião. E há motivos para isso. É certo que muitas religiões defendem valores que em termo geral, são de fato éticos. Mas defender um valor qualquer não basta, é preciso praticá-lo.

Além disso, boa parte dos valores apreciados pela sociedade não nasceram com as religiões e, com efeito, são completamente independente delas. Uma pessoa não precisa ser religiosa para ser boa, assim como uma pessoa religiosa pode ser absolutamente má. É um salto retórico imenso colocar valores morais desejados como efeito de uma causa tão controversa quanto religião.

Outro salto retórico igualmente medonho é convencer as pessoas de que acreditar em uma teoria científica qualquer resulte no abandono da ética e da moral. E é exatamente o que esta implícito na fala da diretora Selma a qual chamei a atenção.

Portanto deixo aqui aos pais de alunos que se interessam verdadeiramente pela “formação como ser humano” de seus filhos. A educação começa em casa. Se os senhores desejam uma educação ética e moral para seus filhos, não depositem a responsabilidade apenas na escola.

Ética e moral são valores independentes de religiões e credos. Não caiam no erro de acreditar que uma educação científica deficiente, em prol de uma educação religiosa mais presente, irá produzir seres humanos melhores. Faz parte de um ser humano melhor saber conviver com a pluralidade cultural, religiosa e, vá lá, científica.

Uma educação que busca atacar essa pluralidade não é moral ou ética ou religiosa, independente de vestir tal máscara. É, em verdade, um ensino tacanho que irá produzir seres humanos igualmente tacanhos.

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Nota de falecimento: Crodowaldo Pavan

Em 2007, quando comecei a fazer a pós em Divulgação Científica do Núcleo José Reis de Divulgação Científica, tive o prazer de conhecer pessoalmente o professor Crodowaldo Pavan (1/12/1919 – 03/04/2009). Aquele senhorzinho franzino, conservava um cérebro afiadíssimo. Sempre simpático com os alunos, sempre  disposto a conversar com todos.

Era conhecido pela força de suas opiniões, frequentemente polêmicas. Era, afinal, um grande exemplo de como um cientista deve realmente ser. Até os últimos dias questionador, curioso, engajado. Muito diferente da maioria dos cientistas de hoje, sempre preocupados demais com seus egos e currículo Lattes para poderem realizar um trabalho científico realmente interessante.

Pavan foi um dos maiores cientistas Brasileiros. Como ele, restam muito poucos. Sentiremos saudade do homem que sempre empolgado contava em como deu a volta ao mundo três vezes divulgando seu trabalho.

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