Corrida contra o acaso?

junho, 2008

A algum tempo, debatendo sobre o aquecimento global com amigos, me deparei com um argumento curioso. Meu interlocutor dizia que muito embora o planeta tenha passado por uma série de catástrofes naturais que provocaram extinções em massa, nenhum desses eventos ocorreu tão rápido e de forma tão abrangente quanto as ações negativas do homem na Terra. Ou seja, defendeu-se a idéia de que por conta da velocidade com a qual os seres humanos vem degradando o meio ambiente, as espécies animais e vegetais não tem tempo para se acomodarem ao novo ambiente de modo que a taxa de extinções é maior que a taxa de surgimento de novas espécies. Um cenário desses poderia significar a esterilização da Terra. Mas convenhamos, é uma situação por demais fictícia.

Na verdade, já tivemos uma situação muito pior que a atual em termos de velocidade e abrangência de extinções. O evento K-Pg (de CretáceoPaleogeno, antigamente nomeado como K-T ou Cretáceo-Terciário), popularmente conhecido como a queda do asteróide que culminou com a extinção dos dinossauros. A teoria do impacto surgiu com a descoberta de uma camada de 1cm de irídiu em um ponto específico do estrato geológico da Terra. A análise dos estratos anteriores indicava a presença dos famosos repteis gigantes, enquanto a análise dos estratos posteriores à camada de irídiu indicavam a ausência de boa parte das espécies do Cretáceo, bem como a recuperação lenta da fauna e flora. O irídiu é um material raro em nosso planeta, mas facilmente encontrado em meteoritos. Concluiu-se então que um asteróide de aproximadamente 10km de diâmetro se chocou com a Terra no final do Cretáceo, o que teria resultado em uma mudança abrupta do meio ambiente que culminaria com a extinção dos dinossauros e outros animais. Com efeito, acredita-se que 60% da biodiversidade daquela época deixou de existir.

É possível imaginar que só no momento do impacto do asteróide, o planeta tenha sofrido com terremotos, maremotos e vulcanismo. Isso sem contar a própria explosão gerada pelo impacto e a onda de choque dispersada por ela e o dano de longo prazo gerado pela nuvem de poeira que “fechou” a atmosfera, impedindo a exposição da superfície aos raios solares. O fato é que a despeito desta tragédia, a vida encontrou um meio de reabitar o Planeta.

Curiosamente a Terra já passou por outros episódios de extinção em massa, todos eles ocorreram mais lentamente que o evento K-Pg e ao menos dois deles resultaram em taxas de extinção maiores que a queda do asteróide. Podemos concluir então que a velocidade com a qual a mudança do meio ocorre pode não ser tão importante quanto parece. Evolutivamente falando, mudanças bruscas não deveriam ser superestimadas. Sabemos que o meio ambiente não produz ativamente mudanças evolutivas. O meio seleciona passivamente mudanças aleatórias. Isso significa que as espécies que sobrevivem a mudanças drásticas do meio já estavam adaptadas de forma a poderem suportar essas mudanças.

É o que de fato aconteceu na no final do Cretáceo. Animais mais generalistas sobreviveram às mudanças causadas pela queda do asteróide. É importante notar os animais de hábitos específicos não evoluíram em animais generalistas, se assim fosse os dinossauros estariam vivos até hoje. Podemos notar então que a vida é uma corrida contra o acaso. Embora existam vantagens claras em desenvolver estruturas morfológicas e comportamentos específicos em ambientes estáveis, é impossível prever até quando esta estabilidade irá perdurar.

Há quem defenda que estejamos passando por mais um evento de extinção em massa. Eu acredito que pode ser verdade. Há quem diga que a culpa é do homem, e talvez o seja de fato. Mas se somos agentes desestabilizadores do meio, só nos resta torcer para que a natureza nos tenha feito generalistas o suficiente. De outra forma, estaríamos dando origem ao nosso próprio evento de extinção.

O assassinato de uma teoria.

junho, 2008

Eventualmente eu gosto de pegar notícias de ciências publicadas nos grandes portais e comentá-las aqui. Em geral meu principal alvo é o G1, mas até pra não dizerem que é algo pessoal, vou pegar uma notícia do Jornal Terra. A notícia foi publicada no dia 29 de maio com o título “Pegada encontrada pode mudar teoria da evolução“. O título sugere uma reportagem bombástica, que exibe fatos contundentes, até arqueológicos, para o fim da tão incompreendida teoria da evolução.

O problema é que quando lemos a notícia não é bem isso que encontramos. Na verdade trata-se da descoberta de uma pegada de 15 milhões de anos que pode ter sido feita por um animal bípede. Se essa suposição for comprovada, a pegada pode sugerir que os ancestrais do homem evoluíram muito antes do que se pensava (por exemplo, acredita-se que o homem e os chimpanzés e bonobos se separaram de seu ancestral comum a aproximadamente 6,5 milhões de anos). É perceptível portanto de que se trata de uma descoberta potencialmente importante.

O fato é que, confirmando-se ou não o significado desta pegada para o conhecimento científico atual, a teoria geral da evolução não é afetada em nenhum nível. O motivo é simples, a teoria da evolução, embora seja em grande parte sustentada pelo registro fóssil, não depende em momento algum de qualquer registro mais específico, sejam eles fósseis de animais bípedes ou qualquer outro fóssil que se possa imaginar.

O que a reportagem provavelmente deveria ter dito (e de fato o fez, ainda que discretamente) é que a teoria da evolução humana pode sofrer alguma revisão por conta desta descoberta. A reportagem do Terra ainda reproduz a frase de um dos autores da descoberta: “A teoria da evolução teria muitas dificuldades com esta evidência que estamos mostrando agora”. Desta frase podemos tirar algumas conclusões. A primeira é que o cientista pode ter cometido um engano de formulação da frase, suprimindo a palavra “humana” após “teoria da evolução”. A outra conclusão é que o Terra, ou a agência de notícia que liberou a notícia, podem ter reduzido a frase cortando a informação mais importante. Uma outra possibilidade é o erro de tradução da notícia original para o português.

O fato é que independente de quem cometeu o engano, a frase da forma como se encontra é completamente equivocada. A teoria da evolução não teria dificuldade alguma com esta evidência, em verdade, essa evidência sequer é relevante para a teoria da evolução em geral. Volto a bater na mesma tecla. O jornalismo científico, da maneira como vem sendo feito, presta um desserviço imenso a ciência e à sociedade.

Evolution DMD: Uma análise filosófica.

maio, 2008

Este texto é uma continuação do “Evolution DMD: Uma análise biológica”. Se você não o leu, clique no link

e leia antes de prosseguir com este. Embora o texto do Scott Adams seja uma brincadeira, ele parte do pressuposto básico de que os sentimentos e aspirações possuem uma relação direta com a química do organismo. De fato conhecemos uma porção de substâncias que afetam a química cerebral, os chamados neuroestimulantes, e que provocam reações diversas no indivíduo. Da mesma forma, sabemos que sentimentos específicos também produzem respostas químicas. O que dificilmente alguém pode afirmar é que os sentimentos, desejos e aspirações tenham a sua gênese unicamente como produto da química do organismo.

A despeito desta discussão sobre a origem dos sentimentos, existe uma questão ainda mais profunda e complexa sobre a estratégia adotada pela ciência moderna, e que permite conclusões mecanicistas sobre o funcionamento do mundo. Tentar explicar a consciência, bem como desejos e aspirações, por interações químicas é uma característica típica da estratégia reducionista. Explica-se um objeto de estudo complexo tentando isolar suas partes constituintes, estudando-as isoladamente afim de conseguir um melhor entendimento sobre o todo.

Essa característica tão presente na ciência é demonstrada no raciocínio do Adams. Imaginar que os desejos, um reflexo químico de uma máquina de pensar, afeta os genes, outra porção química que constituí a máquina maior, é de um mecanicismo reducionista exemplar. Muito embora essa estratégia venha funcionando bem, basta observar os avanços científicos e tecnológicos dos últimos séculos, não podemos deixar de considerar que talvez estejamos perdendo algo. A interação das partes pode ser fundamental no seu entendimento, e não há certeza de que seremos capazes de prever estas interações ainda que saibamos aparentemente tudo sobre as partes envolvidas.

Não estou sugerindo, no entanto, que esta estratégia deve ser abandonada ou substituída por outra. A escolha de uma estratégia supõe a exclusão de parte do conhecimento possível sobre o objeto de estudo. Em termos simples, é como fazer compras em um supermercado. Ninguém compra o supermercado inteiro quando faz compras, pelo contrário, normalmente chegamos ao supermercado com uma lista de itens a serem comprados. Uma estratégia é exatamente isso, uma lista de itens que podem ser estudados e a maneira como este estudo deve proceder.

É preciso lembrar portanto que nem a ciência, nem qualquer outra atividade humana, tem a capacidade para explicar absolutamente tudo sobre o mundo. Cientistas que discordem desta afirmação estão cometendo um engano simples, desconsiderando a natureza de sua atividade.

PS: Por algum motivo que eu ainda não fui capaz de descobrir, o tema do Polegar sofreu algum tipo de mutação qualquer e as cores ficaram um tanto bagunçadas. Já tentei algumas soluções, todas ineficientes. Peço a gentileza de que ignorem a escolha bizarra de cores por enquanto, até eu ser capaz de fazer algo a respeito. Grato.

Evolution DMD: Uma análise biológica.

maio, 2008

Há alguns dias recebi um email do Ogro que basicamente recomendava uma lida em um texto do Scott Adams. À primeira vista pareceu-me um texto simples, sobre uma equivocada hipótese evolutiva. Mas uma posterior leitura mais atenta me revelou algumas características muito interessantes, especialmente no que diz respeito ao funcionamento da ciência moderna. Desta forma, resolvi produzir duas análises deste texto (que segue traduzido abaixo). Esta primeira parte realiza uma análise biológica, desarticulando os argumentos de Adams.

A segunda análise é sobre a filosofia da ciência por trás de um pressuposto quase imperceptível na argumentação de Adams. Vale ressaltar que se tratando de Scott Adams, as chances de o texto dele ser algo relmente sério são mínimas. Em todo caso, o texto é ótimo para abordar algumas características da evolução, falar um mínimo de metabolismo celular e ainda ter um bom tema de discussão sobre filosofia da ciência.  Mas chega de introduções, vamos ao texto.

Para esta crônica, vamos considerar que tudo o que os especialistas dizem sobre evolução seja verdade. Os organismos com maior sucesso reprodutivo passam suas características para a próxima geração, e assim por diante. Mas eu tenho uma outra hipótese que talvez possa ser testada. E se existem outras influências que também contribuem?

Me pergunto se as aspirações dos organismos podem, de alguma forma, causar algum impacto sobre os genes que serão passados para a próxima geração. Nós sabemos que pensamentos estão associados a sentimentos, e sabemos que desejos estão associados à química do organismo. Não seria impossível que desejar algo durante a vida aumentasse a probabilidade de seus descendentes atingirem esse objetivo.

Recentemente eu li que certas condições ambientais podem aumentar as chances da mulher em dar a luz a meninos. Sabemos então que condições externas podem influenciar a química do corpo e, por sua vez, influenciar a genética da criança.

Então me pergunto sobre o pescoço comprido da girafa, só para escolher um exemplo fácil. A explicação clássica é que girafas com pescoços compridos podem alcançar folhas mais altas nas árvores, o que seria uma vantagem em tempos de escassez de alimento. O que me parece bastante razoável. Mas imagino se as girafas que forçavam seu pescoço e desejavam que eles fossem mais longos experimentavam algum tipo de estresse, além de algum tipo de determinação “girafal”, que liberassem uma química capaz de influenciar a probabilidade de produzir filhos com pescoço mais comprido. Em outras palavras, poderiam os organismos guiar a própria evolução através de seus desejos?

Parece bastante improvável que um sistema tão complexo e específico pudesse existir nos organismos. No entanto, tudo em animais com cérebros é ridiculamente complexo, específico e improvável. Parece-me perfeitamente plausível que criaturas com cérebro possam ter desenvolvido uma habilidade ainda desconhecida de tradução de suas aspirações em características físicas em seus filhos.

É possível testar essa hipótese em fêmeas de ratos. Um grupo seria o controle, o outro seria mantido a frustantes um centímetro e meio de um delicioso pedaço de queijo. Ambos os grupos são alimentados o suficiente para garantir condições iguais de sobrevivência, assim o mecanismo evolutivo normal seria “desligado”. Será que os ratos com aspiração de ter um focinho mais longo para poderem alcançar o queijo teriam, em média, uma prole com focinhos mais longos?

Alguém provavelmente já deve ter testado isso em moscas da fruta ou algo do gênero.

Seira interessante não? Se pudéssemos, de alguma forma, guiar nossa evolução por nossos desejos e aspirações. Certamente seríamos uma espécie de unidade morfológica quase que inexistentes. Alguns de nós desenvolveriam asas para satisfazer o desejo de voar (eu estaria entre esses), outros desenvolveriam a capacidade de respirar em baixo da água indefinidamente e assim por diante. Infelizmente (ou felizmente), a evolução parece ignorar nossa vontade, agindo por conta própria.

Existem motivos bastante evidentes pra isso, o principal deles é  que condições externas não podem ser “interpretadas” por nosso material genético, de modo que se algumas destas condições provoca mudanças em nosso DNA, essa mudança é em geral prejudicial. Na verdade, antes de seguirmos precisamos lembrar um pouco de nosso próprio processo reprodutivo.

É amplamente conhecido que os seres humanos possuem 46 cromossomos. Destes, herdamos 23 cromossomos de cada um de nossos pais. O processo de herança destes cromossomos está na base da fecundação por células sexuais. Os espermatozóides carregam 23 cromossomos e o óvulo materno contém os outros 23. Quando espermatozóide e óvulo se unem, formando o embrião, somam seus números cromossômicos totalizando os 46. Esse número varia de animal para animal, mas o processo é mais ou menos o mesmo.

O fato é que uma vez que mutações no material genético das células sexuais em geral levam a resultados desastrosos, mudanças no material genético dos embriões ou de seres já completamente formados resulta, normalmente, em câncer. Ou seja, se nossos desejos fossem capazes de produzir mudanças em nosso material genético, provavelmente isso acarretaria em nossa destruição. O que pode ser interpretado como uma espécie de “lição de vida natural”, temos que nos contentar com o que temos (ou nos submetermos a uma cirurgia estética).

É importante observar que mutações no material genético das células sexuais EM GERAL, levam a resultados desastrosos. No entanto, pequenas mutações ocorrem o tempo todo durante o processo de produção das células sexuais. Para a maioria dos neodarwinistas, é o acumulo destas pequenas mutações que dá o combustível necessário para a evolução acontecer. Essas mutações normalmente resultam em mudanças sutis que eventualmente levam a alguma vantagem condicionada pelo meio ambiente. Um exemplo do que poderia ser uma pequena mutação é o filho alto de um casal de estatura média.

Apesar disso, Adams tem razão ao afirmar que condições externar podem modificar a química do organismo. A questão é que essa mudança se dá por processos de regulação previamente existentes, que não estão relacionados com a mudança do material genético em si. Em termos de metabolismo celular, embora o processo todo seja complexo para ser explicado aqui, a presença de algumas substâncias (como hormônios) pode causar determinadas modificações de produção de proteínas e etc. Isso não significa no entanto que os genes estejam sendo modificados.

Fica claro, portanto, que, por mais que uma aspiração ou desejo produza uma resposta química no organismo, essa resposta química não pode afetar o material genético do pai ou da mãe, e, por conseqüência, não pode ser passado adiante para os filhos.

A evolução não é teleológica, ou seja, não tem um fim determinado e nem pode ser guiada. Uma pena para aqueles que vão ter que continuar usando aviões para voar e submarinos para conhecer o fundo do mar.

PS: Agradeço ao amigo Ogro que além de indicar o texto e estabelecer uma ótima pauta, ainda fez a revisão da tradução. Agradeço também a Laura, que me ajudou na caça aos erros conceituais (e do meu pobre portugues).

Agassiz e a cegueira teleológica

maio, 2008

Louis Agassiz foi um dos mais importantes cientistas de sua época. Proeminente sistemata e paleontólogo, além de excelente administrador e divulgador científico, suas idéias originais forneceram inspirações incalculáveis para a Teoria da Evolução darwiniana. A ironia é que Agassiz não era evolucionista; ele combateu Darwin por toda a sua vida e definia espécies como “um pensamento de Deus”.

Agassiz foi aluno de nomes importantes como Humboldt e Cuvier, e recebeu atenção da comunidade científica primeiramente em 1833, com a publicação do primeiro volume de uma série de trabalhos tratando do estudo de peixes fósseis. Esse trabalho trouxe uma nova concepção à classificação dos organismos – a idéia de que seres fósseis também deveriam ser incluídos nos sistemas hierárquicos, como representantes inferiores de seus similares viventes. Isso foi incorporado no pensamento biológico de Agassiz em uma conclusão ainda mais fantástica: essa mesma gradação de formas inferiores até superiores, observada no registro fóssil, seria paralela, em qualquer táxon, à ordem de estágios de desenvolvimento do organismo e à sua distribuição e ecologia.

Assim Agassiz contribuiu para a universalização dos caracteres sistemáticos, isto é, ao proclamar tais paralelismos, ele foi o primeiro a sugerir que características gerais de um organismo fossem incluídas em sua classificação, além dos caracteres morfológicos e biogeográficos até então utilizados. Inconscientemente, ele ofereceu idéias que seriam mencionadas por Darwin para embasar a sua teoria da seleção natural e geraria o que seria proclamado como a teoria da recapitulação de Haeckel: “a ontogenia recapitula a filogenia”.

O curioso é que Agassiz jamais foi além da teleologia em seus estudos, sempre buscando desígno e planos divinos como explicações. Quando ele revolucionou a Geologia, ao hipotetizar geleiras enormes cobrindo continentes inteiros em outras épocas em eventos que ele chamou de glaciações, Agassiz não imaginava que, com isso, enterraria definitivamente as explicações bíblicas para as catástrofes mundiais (o pensamento geral, que influenciava massivamente a Biogeografia da época, era o de que o Dilúvio bíblico teria sido a última catástrofe a modificar a superfície terrestre, gerando a sua configuração atual). De fato, ele recusou a enxergar a incoerência que suas evidências trouxeram às explicações teleológicas, chamando as glaciações de “útlimas pragas de Deus”.

É difícil compreender a convicção teleológica de um homem como Agassiz, o mesmo homem que enxergou além das catástrofes relatadas na Bíblia e que fundou o Museu de Zoologia Comparada de Harvard, e que foi, provavelmente, o último cientista eminente a rejeitar ferozmente a evolução darwiniana. Dizem alguns que o motivo está em suas raízes, encontradas na filosofia natural, um sistema de pensamento alemão romântico, que procurava incorporar noções metafísicas à investigação científica. Apesar de Agassiz ter renunciado a essa filosofia, aparentemente a sua influência sobre ele nunca cessou. As influências exercidas nele pelas idéias de Cuvier, de que as espécies são fixas, imutáveis, e de que o homem está no topo da hierarquia do seres-vivos, certamente contribuíram para a sua teimosia. O que será que ele pensaria se soubesse que hoje é considerado um dos criacionistas que mais colaborou em favor do evolucionismo?

Inspirações e onde saber mais:

Louis Agassiz: página do Museu de Paleontologia, University of California, EUA. Curta biografia do cientista, citando seus principais trabalhos e atividades. (em inglês)

Agassiz (1869): Darwinism – Classification of Haeckel: Tradução feita por Paul J. Morris de um capítulo do livro de Agassiz, Essay on Classification, que contém a argumentação mais clara tratando das suas objeções em relação à evolução darwiniana. (em inglês)

Resenha: Eu, primata.

abril, 2008

Frans de Waal é um importante e conhecido primatologista holandes vivendo nos Estados Unidos. Formado em biologia e psicologia, se envolveu no estudo de comportamento animal, especialmente de grandes primatas, tornando-se uma das maiores autoridades do mundo neste sentido. Em 2007 esteve listado como uma das 100 pessoas mais influentes pela Times, e já produziu seis livros de divulgação científica. Destes, apenas um foi lançado no Brasil. “Our inner ape – A leading primatologist explains why we are who we are” ou “Eu, primata – Por que somos como somos” em seu título em português é um livro difícil de se classificar.

A dificuldade vem justamente da abordagem estabelecida de uma tentativa em compreender o comportamento humano, tomando como modelo comparativo o comportamento de nossos primos símios, os chimpanzés e os bonobos. A estratégia de Waal, embora possa parecer controversa, faz todo sentido. Os bonobos e os chimpanzés provavelmente evoluíram do mesmo ancestral comum dos humanos, no entanto, as diferenças comportamentais destas três espécies são aparentemente distintas o suficiente para tornar a comparação válida. O que de Waal faz é demonstrar que, em certas áreas “cinzas”, humanos, bonobos e chimpanzés compartilham uma série de características comportamentias.

O resultado é impressionante. Somos apresentados ao mundo extremamente político dos chimpanzés, muito similar ao nosso. Um complexo jogo de alianças e conchavos intrincados que remetem imediatamente à nossa política partidária. Ao mesmo tempo nos vemos no mundo erótico dos bonobos, também similar ao nosso. O autor então lança mão desse processo comparativo para mostrar o ser humano como uma espécie amalgama de nosso primos. Nosso apreço pelo poder, guerra e sexo é a síntese do comportamento dos chimpanzés e bonobos.

O livro é em geral muito bom, embora tenha seus momentos massantes. Mas eles são compreensíveis, o assunto não é simples e a proposta é bastante ousada. Buscar o entendimento sobre as ações do homem tomando a primatologia como base pode não agradar muitas pessoas. Aceitar as proposições de Frans de Waal é o mesmo que aceitar que o homem compartilha seu ancestral com os símios, idéia sabidamente polêmica mas que, a despeito de tudo, tem suporte científico.

Além disso, o autor incorre constantemente no antropomorfismo. O próprio de Waal chama a atenção para essa questão, mas defende que os comportamentos dos bonobos e chimpanzés são de fato muito similares ao nosso. Similares a tal ponto de poderem ser comparados de igual para igual. Exemplos que justifiquem essa afirmativa não faltam por todo o livro, em todo caso, alguns estão mais para a defesa apaixonada do que para a defesa racional. Igualmente compreensível, claro, mas é bom observar estes pequenos momentos de defesa apaixonada com cautela. Em todo caso o livro é ótimo e sua leitura é recomendada.

Citação:
“Este livro analisa os fascinantes e assustadores paralelos entre o comportamento dos humanos e o de outros grandes primatas, com igual consideração para com o bom, o mau e o feio” – Frans de Waal.

Dados gerais:
Eu, primata – Por que somos como somos.
331 páginas
ISBN 978-359-1062-9
Companhia das Letras

Para saber mais:

Bonobos
Chimpanzés
Primatologia
Comportamento animal

A evolução da cultura.

março, 2008

É bastante evidente que a cultura humana se modifica com o decorrer dos séculos. A priori esse movimento pode parecer natural, talvez até esperado. No entanto alguns cientistas acreditam que algumas dessas mudanças se deram por um processo semelhante à seleção natural, ou seja, traços culturais que de alguma maneira beneficiam determinada população sobrevivem e são passadas para a próxima geração.

Richard Dawkins é um dos que defendem essa visão. Mais do que isso, ele é praticamente o pai de uma idéia muito controversa mas extremamente interessante, a memética. Para Dawkins , os traços culturais podem ser classificados em unidades menores similares aos genes. Essas unidades de cultura, chamadas de memes, podem sofrer um processo de seleção natural na medida em que o traço cultural expressado pelo meme é de certa forma importante para determinada população. Podemos tomar como exemplo a higiene. É bastante evidente os benefícios que a higiene trás. Manter hábitos como tomar banho com regularidade, lavar as mãos antes de se alimentar e medidas similares, evitam uma série de problemas com contaminação por agente nocivos ao homem.

Não é de se impressionar portanto, que nos primórdios das sociedades humanas, tribos que mantinham hábitos higiênicos prosperassem mais do que outras tribos que não tinham uma cultura similar. Os benefícios óbvios desse traço cultural beneficiavam aquela tribo, garantindo sua sobrevivência e, por conseqüência, garantindo a sobrevivência do próprio meme. De forma análoga, um traço cultural altamente prejudicial poderia levar determinada população a deixar de existir, levando consigo o meme responsável. É uma idéia, como eu disse, bastante controversa. Seus opositores apontam que não é possível reduzir traços culturais a pequenas unidades auto-replicantes, de modo a não ser possível rastrear ou averiguar a mudança evolutiva de um traço cultural e da população que a exibe.

No entanto, se fosse possível estabelecer termos evolutivos para a mudança cultural, talvez o processo lamarckiano fizesse mais sentido. Ao menos é o que advoga Stephen Jay Gould, outro evolucionista renomado e desafeto de Dawkins. Para Gould , e essa visão me agrada muito mais, traços culturais sofrem influencias do meio, sofrendo mudanças que depois são passadas para a próxima geração. Gould sustenta seu argumento alegando que um processo evolutivo darwiniano, como o da memética , demanda um tempo muito grande para resultar em algo “perceptível”. Nossa cultura parece se modificar muito rapidamente, efeito que poderia ser melhor explicado em um processo evolutivo lamarckista.

Gould tem um bom argumento. Nossa cultura costuma se modificar radicalmente em um período extremamente curto, basta observar as mudanças entre as décadas de 50, 60, 70 e por aí vai. Se fosse possível afirmar que a cultura sofre um processo evolutivo qualquer, eu tiraria minha boina ao lamarckismo.

Para saber mais:

Stephen Jay Gould
Richard Dawkins
Cultura

Evolução vs Criação: Três erros básicos.

março, 2008

Segundo Kuhn, paradigmas concorrentes normalmente implicam em uma visão de mundo distinta, de modo que os paradigmas se tornam incompatíveis. Esse processo resulta na chamada “incomensurabilidade”, ou seja, na incapacidade que os defensores de cada paradigma tem em conversarem entre si justamente por lidarem com visões de mundo incompatíveis. Cada paradigma se sustenta por si só, valendo-se de seus próprios pressupostos. Disso resulta que confrontar paradigmas concorrentes não é possível, já que o conjunto de pressupostos de cada um inviabiliza o paradigma oposto.

Se tal processo ocorre entre teorias científicas concorrentes, é de se imaginar que possa ocorrer entre questões não necessariamente científicas. Por vezes penso que é exatamente isso que se passa na velha briga entre a teoria evolucionista e o criacionismo. Trata-se de uma teoria científica baseada nos pressupostos básicos da ciência, contra uma visão de mundo completamente diferente. O resultado do embate é uma série de erros que poderiam ser interpretados tomando como base o pressuposto acima, de que tanto a evolução quanto a criação são paradigmas incomensuráveis.

1º erro: incomensurabilidade epistemológica.

Evolução e criação se sustentam por bases epistêmicas evidentemente diferentes. É de se estranhar portanto a forma como alguns argumentos de ambos os lados são colocados. Neste caso em particular, acredito que o discurso criacionista é o mais incoerente. Em alguns casos a evolução é acusada de ser “apenas uma teoria”. Teoria aqui é utilizada de maneira a sugerir que não existe comprovação da existência real de um processo evolutivo. Curiosamente, alguns criacionistas preferem dizer que a evolução “não é sequer uma teoria”. Neste caso, o argumento aceita a teoria como tendo um “peso” considerável, mas não atribui esse peso à evolução.

O problema é evidente. No primeiro caso, a palavra teoria se baseia em uma epistemologia diferente da empregada na ciência. O termo é mais parecido com o utilizado pelo senso comum, atribuindo um valor de “dúvida” e “incerteza”. Essa argumentação foi utilizada a pouco tempo nos Estados Unidos, quando alguns livros educacionais traziam em suas capas um selo com a mensagem de que a teoria da evolução “é apenas uma teoria”, não tendo sido confirmada. No segundo caso o termo “teoria” é usado de maneira epistemologicamente compatível com a ciência, ou seja, considera-se que o “status” de “teoria” é conferido a uma hipótese compatível com o rigor imposto pelo método científico. No entanto, é negada à evolução o rigor esperado pela ciência. Aqui o erro se encontra no uso de pressupostos criacionistas, e portanto incompatíveis com a epistemologia científica, para desclassificar a evolução.

Do lado evolucionista o erro é, ao menos, consistente. Alega-se que o criacionismo não atende os pré-requisitos necessários para poder ser considerado como uma teoria científica. Embora o argumento esteja essencialmente correto, o criacionismo de fato não pode ser considerado uma teoria científica, o erro está em ignorar que ciência e religião estão fundamentadas em pressupostos incompatíveis. Curiosamente alguns criacionistas tentam realizar o processo inverso, procurando meios de afirmar que o criacionismo é uma teoria científica.

2º erro: realidades incomensuráveis.

Alguns filósofos acreditam que a realidade esta condicionada pela maneira como a sentímos. Em outras palavras, nossos sentidos filtram o mundo com o qual interagimos, tornando a realidade uma espécie de experiência particular. Eu entendo que esse argumento não deve ser extrapolado a extremos. Com efeito alguns fenômenos em particular se repetem com uma freqüência relevante, a ponto de podermos afirmar com certeza absoluta de que aquilo é real. Não da pra questionar a verdade dos movimentos de translação e rotação terrestres, ou a força da gravidade. No entanto, nem tudo é assim.

Os filósofos da ciência em geral aceitam que, por mais que uma teoria resista ao teste dos anos e pareça indicar uma realidade palpável, a possibilidade de estarmos ignorando algum elemento qualquer sobre essa realidade aparente sempre vai existir. Um bom exemplo aqui é pensar no universo relativesco de Einstein, hoje amplamente aceito, mas que se contrapõe diretamente com o universo absoluto de Newton, que era tido como uma realidade factual a alguns séculos.

O erro aqui é buscar uma realidade absoluta por parte de ambos os grupos. O mundo governado por entidades divinas defendido pelos criacionistas, é tão real quanto o mundo extremamente materialista da ciência moderna. Ambos são reflexos da interpretação de mundo condicionada pelos sentidos de grupos de pessoas em particular. Portanto, argumentações que se justifiquem pela existência de Deus, evidentemente são incompatíveis com argumentações de um mundo independente de uma força direcionadora sobrenatural.

3º erro: esferas incomensuráveis.

Tanto a evolução quanto a criação, possuem esferas (ou nichos) particulares de ação. O conhecimento de ambos os paradigmas, bem como todos os pressupostos envolvidos, não é necessariamente um pré-requisito da vida moderna. Com efeito, é possível abdicar completamente da esfera religiosa ou científica, dependendo dos objetivos de vida que se pretende levar. Posso escolher ser um padre e viver em minha paróquia, para tal não preciso necessariamente ter conhecimentos muito específicos sobre ciências. Da mesma forma, um cientista não precisa ter uma vida religiosa.

É claro que ter contato com ambas as esferas, é ideal para um ser humano que deseja ter um conhecimento mais preciso da época em que vive. Conhecer a esfera religiosa não implica em aceitá-la, mas é no mínimo de bom tom ter noção das implicações que esta esfera trás para a sociedade na qual estamos inseridos. Da mesma forma, um religioso convicto deveria ter um conhecimento razoável de ciência.

Neste ponto, o erro é acreditar que qualquer uma dessas esferas não é fundamental para a sociedade ou, por vezes, até prejudicial. Nenhum empreendimento humano é a prova de erros e enganos. Sabemos que tanto a ciência quanto a religião podem beneficiar ou prejudicar as populações humanas. Exemplos não faltam: inquisição, bombas nucleares, antibióticos e recuperação de viciados são exemplos claros dos efeitos adversos do desenvolvimento de ambos os campos do conhecimento.

Se faz igualmente importante respeitar os nichos de cada campo. Criacionismo não deve ser incluído em aulas ou livros de biologia (ou mesmo no currículo escolar), assim como não se espera que teorias evolucionistas passem a fazer parte dos rituais eclesiásticos, de algum evangelho da bíblia ou de algum sermão do pastor. Cada esfera deve se ater ao seu campo específico, cabendo ao indivíduo escolher o quanto experimentar de cada uma.

O assunto é longo e complexo. É muito fácil cometer qualquer um dos erros acima, eu mesmo assumo que já incorri em todos eles. Mas se faz necessário compreender que o debate entre evolução e criação, ou ciência e religião, é um mero capricho do ego de cada grupo. Trata-se da tentativa infeliz de se impor uma visão particular de como o mundo deveria funcionar, sem questionar para todos os que vivem nele se é assim que se deseja que ele seja.

Eu posso afirmar, prefiro um mundo diversificado, a um passeio chato por uma existência monotemática e monoteísta.


Para saber mais sobre:

Evolução
Criação
Método Científico
Thomas Kuhn

O pulmão das baleias.

março, 2008

Algumas espécies de animais são particularmente interessantes no que diz respeito a demonstrar características da seleção natural. Dentre os muitos exemplos, as baleias são as que mais me chamam a atenção. Não pra menos, é curioso imaginar um animal que vive na água mas precisa voltar à superfície para respirar. Por que a evolução simplesmente não se encarregou de dar brânquias para as baleias?

Esta é uma ótima pergunta e que ilustra bem a característica não guiada da seleção natural. Como eu já havia dito em textos anteriores, a evolução não tem um fim, um sentido, um objetivo para cumprir. Trata-se de um processo lento e gradual, que seleciona características que aumentam o sucesso reprodutivo e a expectativa de vida dos seres em determinados ambientes. Existe um grande obstáculo para esse processo, ele só pode trabalhar em estruturas que já existem. Em outros termos, o processo de evolução não “constrói” nenhuma estrutura nova, a não ser por modificação das estruturas que já existem.

Uma característica muito marcante deste processo é que ele passa a ser irreversível. Quando uma estrutura é modificada, as chances de ela voltar a ser o que era originalmente são praticamente inexistentes. Essa particularidade nos fornece uma dica sobre o pulmão da baleia. Acredita-se que os ancestrais dos tetrápodes sejam peixes pulmonados, animais que possuem sua origem em peixes de respiração por brânquias. Imaginemos então que, em algum momento da história da vida na Terra, algumas espécies de peixes sofreram um processo evolutivo que culminou na formação de um pulmão primitivo em detrimento das brânquias.

Ora, as baleias são mamíferos e estão classificadas como tetrápodes. Se assim o é, tiveram como descendente mais distante peixes que já não possuíam brânquias. Portanto, os passos evolutivos que resultaram nas baleias não possuíam mais a opção de trabalhar com brânquias, a solução mais simples era modificar as estruturas atuais para permitirem longos períodos de submersão. O problema foi resolvido com modificações no metabolismo e ampliação do tamanho do pulmão.

Uma outra característica das baleias que demonstra esse processo é a maneira como elas nadam. Em geral, os peixes possuem uma barbatana caudal, que impulsiona o animal realizando movimentos horizontais. Nas baleias o movimento da cauda é feito verticalmente, uma modificação diretamente ligada ao modo de vida terrestre de seus ancestrais quadrúpedes.

Como já havia observado o mestre Stephan Jay Gould, a evolução não se prova na formação de órgãos perfeitos e formas bem trabalhadas. Sua verdadeira beleza se encontra na maneira improvisada de solucionar grandes problemas.

Adaptação: Evolução (post scriptum)

março, 2008

O processo adaptativo, inerente à especiação e evolução das espécies é de longe o tema mais complexo da Evolução. Nem tanto pelo processo em si, mais pelo significado culturalmente concebido, e amplamente mal atribuído, da palavra adaptação na tentativa de explicar as teorias evolutivas de Lamarck e Darwin.

Culturalmente adaptar-se a uma determinada situação significa ajustar-se, adequar-se, acostumar-se a ela, modificar-se voluntariamente para atingir o objetivo proposto, enquadrar-se em um sistema, em um meio. Adaptação significa ajustamento às novas condições impostas pelo meio.

Conforme já detalhado nos textos anteriores, Lamarck juntou evidências para explicar que os animais sofriam pressões ambientais que os forçavam a modificar suas estratégias de vida, e consequentemente suas características morfológicas, como sendo a única maneira de sobreviver no ambiente aos quais estavam inseridos. Ficou claro então que os indivíduos se adaptavam, no sentido literal da palavra, ao meio ambiente conforme este lhes exigia.

Entretanto Darwin, a partir de suas evidências, considerou a existência de mais uma força que modificava os seres vivos, interna agora, responsável por promover mudanças orgânicas. Porém ele também manteve a idéia da força externa produzida pelo meio ambiente conforme Lamarck já havia dito. Mais do que isto, ele percebeu que o equilíbrio destas duas forças era o responsável pela seleção natural e, portanto, pela adaptação dos seres vivos.

É justamente neste ponto que Darwin não colaborou em suas explicações e é frequentemente mal interpretado. Ele deixou que se compreendesse que a adaptação dos seres vivos fosse um processo no qual a modificação interna ficasse subentendida no conceito.

Assim ele sugeriu que as modificações internas, sujeitas à força externa do ambiente eram responsáveis pela seleção natural e, portanto pela adaptação e sobrevivência dos indivíduos em determinado meio ambiente. Desde que a modificação interna fosse compatível com a força externa o indivíduo seria selecionado naturalmente e sobreviveria, sendo considerado mais apto. Caso contrário, se a modificação interna não fosse compatível com o ambiente, o indivíduo detentor desta modificação não era selecionado, era considerado menos apto e morria sem perpetuar sua prole e, portanto, sua espécie.

É importante notar que tal efeito não dependia exclusivamente da capacidade de adaptação no sentido literal da palavra, não cabia aos indivíduos querer escolher ajustar-se ao ambiente apenas. Era necessário que a modificação interna tivesse acontecido, e mais do que isto, que esta mudança, sob ação da força externa, fosse selecionada como apta ao ambiente.

Infelizmente Darwin e Mendel não se conversaram, muito embora há quem diga que eles tenham trocado algumas figurinhas sem obter a compreensão da interferência positiva que um poderia ter provocado nas idéias do outro e vice-versa. Mendel teria dito à Darwin que a modificação interna era na verdade uma modificação nos fatores, nome atribuído por Mendel ao que mais tarde viria a ser conhecido por genes.

A teoria sintética da evolução, também conhecida por síntese evolutiva moderna, síntese moderna, síntese evolutiva, síntese neodarwiniana ou neodarwinismo, foi formulada a partir da contribuição de muitos pesquisadores modernos que se apropriaram dos conhecimentos da genética mendeliana e populacional para elucidar o processo evolutivo.

Nem por isso a palavra adaptação deixou de ser empregada pelos novos evolucionistas, e continua sendo utilizada para referir que primeiramente ocorre uma mutação genética que é posteriormente selecionada pelo meio ambiente. Atualmente compreende-se que um indivíduo ou espécie adaptada ao meio é aquele cuja mutação genética aleatória, ou não, lhe foi favorável o suficiente para que o ambiente o selecionasse natural ou artificialmente, permitindo sua sobrevivência. O que é muito diferente de meramente imaginarmos que os seres vivos simplesmente se adaptem, ajustem, acostumem a uma nova situação, ou ambiente, por vontade própria.