Observação, teoria e experiência.

outubro, 2009

Alexandre Koyré foi um dos gigantes da história e filosofia da ciência. Seu trabalho foi fundamental para a estabelecer a revolução científica com o ponto central da história da ciência, além de romper com a narrativa positivista da primeira geração de historiadores.

Um dos pontos curiosos do trabalho de Koyré é a radical importância que ele dá à precedência da teoria sobre a experiência. Com efeito, Koyré chegou a afirmar que face ao papel da teoria, a experiência é inútil.

Essa posição é particularmente notável em seus trabalhos sobre Galileu, e desencadeou uma série de outros tantos trabalhos por outros tantos pesquisadores que passaram a averiguar se os experimentos descritos por cientistas do passado eram de fato possíveis de serem feito à época, ou apresentavam os resultados descritos.

Alexandre Koyré

Alexandre Koyré

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Empreendimento temporário?

outubro, 2009

Certa vez, e várias vezes depois dessa, eu li que o conhecimento científico é somente mais um tipo de conhecimento humano, e que não deveria haver valorações, ou seja, não deveríamos considerar o conhecimento científico melhor (ou pior) do que os outros tipos de conhecimento humano, como o religioso, o do cotidiano, a sabedoria popular, etc. “Há, até parece! O cara que escreveu isso deve ser um criacionista lazarento!”, pensei eu na primeira vez que li isso. E na segunda. E na terceira. De certo na quarta também. Talvez na quinta e na sexta. Enfim, entender isso foi um processo lento e doloroso, e até hoje me pego de vez em quando pensando que a Ciência é a melhor.

Thomas Kuhn, o grande filósofo dos paradigmas e das revoluções, me ajudou a entender isso, mas eu tive que extrapolar a teoria dele um pouquinho para isso. Tive que tirar ela da Ciência pra perceber que existem paradigmas também na sociedade; existem idéias e valores que permeiam a forma de pensar das pessoas de uma maneira tão íntima que parecem imutáveis e atemporais. Essa noção de que o conhecimento científico é melhor que os outros tipos de conhecimento é um desses paradigmas, e para entender como ele surgiu temos que voltar no tempo até uma época em que as coisas eram bem diferentes: a Idade Média.

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Os mistérios da ciência.

setembro, 2009

Recentemente li dois artigos que, embora já tenham uma certa idade, possuem um conteúdo bastante interessante. Os artigos que podem ser encontrados aqui e aqui tratam basicamente sobre a imagem pública da ciência. O que me chamou a atenção é que ambos, em algum momento, alegam que a ciência construiu pra si mesma uma aura mística.

A afirmação me causou imediato espanto. Sempre ouvi que é próprio da ciência tentar se afastar do místico, buscando sempre a verdade. Com efeito, a ciência de fato alega que trabalha com o mundo real, com fatos, com verdades que podem ser alcançadas sem artifícios mágicos ou sobrenaturais.

Mas pensando bem sobre o assunto, será que a ciência passa mesmo esta imagem de trabalhar sobre um “mundo real”? Ora, qualquer cientista sabe e sustenta que a ciência não vive de dogmas, ou seja, todo o conhecimento científico esta sujeito a revisão. Embora isso seja completamente compatível com a idéia de um “mundo real” para o cientista, para o público em geral talvez não seja bem assim.

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O joio e o trigo.

junho, 2009

Quem acompanha este blog a mais tempo sabe que o debate entre evolucionismo e criacionismo sempre foi um tema recorrente, ao menos no primeiro ano de vida. Gradativamente o debate em si foi sendo deixado de lado, e isso se deve ao fato de que, ao meu ver, falta nos dois lados da polêmica o refinamento necessário para uma discussão saudável.

Normalmente vemos textos e mais textos, os deste blog incluídos, que funcionam basicamente na refutação de contra-argumentos do adversário. Nesta troca desmedida de refutações, o que pouca gente se dá ao trabalho de fazer é separar o joio do trigo. A começar pela unidade fundamental do que se está debatendo: Teoria evolutiva ou teoria da evolução?

Ao observador desatento, ao dogmático mais ferrenho e ao cientista  epistemologicamente pobre, ambas as coisas podem parecer iguais. A simples compreensão desta diferença pode evitar uma série de discussões inúteis e erros de interpretação.

Quando nos referimos à realidade (ou não) da evolução dos seres vivos, estamos falando da teoria evolutiva. Qualquer querela neste nível deve se ater à discussão sobre se a biodiversidade do planeta existe como a vemos hoje desde “sempre” ou foi mudando ao decorrer do tempo. A questão básica aqui é, as espécies são fixas no tempo ou variam?

Já por teoria da evolução entendemos os mecanismos propostos para a variação das espécies no tempo. É aqui que entram Lamarck, Darwin, Neodarwinistas e por aí a fora. A diferença é sutil, mas bastante clara: Uma coisa é saber se as espécies mudam, outra é COMO mudam.

Um cientista bem preparado, e que responde “qual delas?” para a pergunta “você acredita na teoria da evolução?”, tenho certeza, acaba com a maioria dos debates antes mesmo deles começarem.

Sobre a história da relação Ser Humano x Natureza

março, 2009

Nos primórdios da humanidade, na pré-história (aproximadamente 4000 a.C.) período que antecede a invenção da escrita, há, portanto, uma falta de registros de como se inter-relacionavam ser humano e natureza. Possivelmente estas relações eram baseadas no princípio de que homem e natureza eram um todo, sem a separação de um e outro, consequentemente não se observavam relações de domínio ou posse da natureza pelo ser humano.

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Divulgando o estranho mundo da ciência.

fevereiro, 2009

Acredito que exista um problema básico para a divulgação científica que poucas vezes é posto em evidência. O problema em questão é aceitar o fato de que o mundo em que o cientista vive, não é o mesmo mundo que as pessoas em geral vivem. Pode parecer uma idéia ingênua, mas o caso é que o mundo explicado pela ciência, não é de modo algum, o mundo do dia-a-dia. E este aspecto influencia diretamente na capacidade de um texto de divulgação científica cumprir o seu papel.

Há algo no treinamento do cientista que torna noções como o heliocentrismo, ou inércia, ou evolução biológica, tão naturais que são, de certa forma, aceitos a priori. Embora de alguma maneira as bases para isso estejam no nosso sistema educacional, nenhum destes conceitos são naturais para o senso-comum.

Alguém pode achar absurdo eu estar defendendo que em pleno século XXI, as pessoas não achem natural a Terra estar se movendo ao redor do Sol, mas o ponto que quero defender é que ninguém acreditaria que a Terra é quem se move não fosse o caso de dizermos isso a elas desde crianças.

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O terceiro mundo de Karl Popper

janeiro, 2009

Karl Popper foi um grande filósofo austríaco bastante conhecido por sua contribuição para a filosofia da ciência. Foram suas idéias que fundaram o racionalismo crítico, que estabelece como critério de demarcação o princípio da falseabilidade. Em uma de suas contribuições mais geniais para a epistemologia, Popper comenta um pouco sobre seu conceito de conhecimento objetivo, e o terceiro mundo.

No texto clássico de seu livro de 1972 “Conhecimento Objetivo: Uma abordagem evolucionista”, Popper faz um exercício interessante. Propõe a existência de três mundos. O primeiro mundo é habitado por todas as coisas físicas, vivas ou não vivas. O segundo mundo é habitado pela consciência humana, “é o mundo da consciência ou dos estados mentais”, nas palavras do próprio Popper.

O terceiro mundo é habitado por conteúdos objetivos. Por conteúdo objetivo, podemos entender todo pensamento objetivo sobre algo, obras de arte, poesia, livros, conhecimento científico e por aí vai. Deste ponto em diante, é possível não só diferenciar um pensamento subjetivo de um pensamento objetivo, mas é também possível concluir uma independência do terceiro mundo.

Karl Popper

Karl Popper

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Deus e o Diabo na terra da ciência.

janeiro, 2009

Existia um debate polêmica em história da ciência sobre a forma de se estudar o passado. Os primeiros historiadores, comprometidos com o projeto positivista, não demoraram a fazer da ciência uma narração de conquistas e vitórias quase heroicas.

A história da ciência era narrada como uma sucessão de fatos que se seguiam gradativamente até chegar a um ponto de excelência e modernidade. E para cada passo, alguns homens eram definidos como os grandes bastiões do desenvolvimento científico. O problema com esse tipo de narração é que, com frequência, ela esta errada.

Sabemos que a ciência se desenvolve em caminhos tortuosos, as vezes damos passos para trás, as vezes abandonamos teorias que estavam bem estabelecidas a bastante tempo e por aí vai. A ciência moderna não é a uma coleção de sucessivos acertos, ou mesmo um empreendimento de grandes glórias.

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As revoluções de Thomas Kuhn.

novembro, 2008

Thomas Kuhn é sempre lembrado por duas palavras simples. Paradigmas e revoluções. O curioso (na verdade, nem tão curioso assim) é que estes pontos são incrivelmente mal compreendidos. Vou falar de paradigmas em outra oportunidade. Por hora, fiquemos com as revoluções.

Quando falamos em revolução, pensamos logo na sua conotação “franco-cheguevariana“. Ou seja, de mudança radical em um modelo ou sistema qualquer. A Revolução Científica do século XVII é um bom exemplo disso. Até então, a ciência não era nem mesmo conhecida como ciência, não existia comunidades científicas e por aí vai.

Mas não é assim pra Thomas Kuhn. No caso dele, a palavra revolução tem sentido de um evento cíclico que se completa. Vejamos com detalhes. Kuhn defende que a ciência passa por alguns “períodos” bem definidos. Nomeadamente os períodos de “ciência normal” e “ciência extraordinária”. Esses períodos estão diretamente relacionados com a mudança de paradigmas.

"Ay que mudar pero sin perder la funcionalidá jamás Che!!!" - "Bien hablado, bien hablado Thom!"

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Tempos modernos, problemas antigos.

novembro, 2008

A questão central aonde eu queria chegar com todo este caso sobre o Universo ptolemaico é a maneira como nos posicionamos ao olhar para a antiguidade. É muito comum imaginarmos a construção do conhecimento como uma sucessão de fatos que se acumulam. Mas essa visão não parece ser muito correta.

O principal problema em imaginar uma “linha do tempo” historico-científica é que, quase que invariavelmente, colocamos as novas descobertas como “superiores” às descobertas passadas. Com efeito, as vezes cometemos o erro de defendermos um modelo aonde as teorias modernas são a grosso modo evolução das teorias antigas.

Ver a história da ciência desta forma, é ignorar uma série de fatores. O principal deles é que os povos antigos não eram necessariamente primitivos. Olhando com certo rigor, podemos observar claramente que os problemas que afligiam as grandes mentes da antiguidade, não são diferentes dos problemas que afetam a sociedade moderna.

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