Podem os vírus ter-nos tornado humanos? – Parte I

abril, 2010

A questão começou por ser filosófica. Numa sessão da American Philosophical Society de 15 de Novembro de 2003, o virologista Luis P. Villarreal, director do Centro de Investigação em Vírus da Universidade da Califórnia em Irvine perguntava: «Can Viruses Make Us Human? A ciência tinha uma resposta objectiva. Não. Os vírus, que nem sequer seres vivos são considerados, são parasitas moleculares cujo interesse primordial consiste em induzir doenças no seu hospedeiro. Neste sentido, os vírus são qualquer coisa de maléfico. Veja-se o caso do VIH causador da SIDA que todos os anos ceifa milhares de vida em todo o mundo. Ou o vírus H1N1 que ameaçava dizimar populações inteiras. Ou ainda o temível vírus Ébola que nos filmes é-nos apresentado como uma espécie de assassino em série. Ou então o mais contido vírus da gripe sazonal que todos os anos faz com que milhões de pessoas passem os seus dias a espirrar. Para tornar tudo isto ainda mais grave, não há forma de os combater. Por conseguinte, como podem os vírus ter-nos tornado humanos? Não, para nós, o grande plano dos vírus sempre foi exterminar os humanos. Acontece que, além da objectividade pura não existir, a resposta da ciência a esta questão está profundamente afectada por uma subjectividade. Na verdade, alguns cientistas têm sido de tal modo convincentes que nós acreditámos sem qualquer resistência nos seus delírios. Estamos pois todos dentro ou fora da realidade, como acontece nos chamados delírios partilhados. Provavelmente, mais fora do que dentro. Talvez aqui a filosofia possa dar uma ajuda. Por exemplo, segundo Peirce, a realidade é tudo aquilo que nos provoca resistência. Quer isto dizer que se há qualquer coisa que cause resistência à nossa expectativa, então é provável que essa qualquer coisa seja real. A ciência é uma incessante busca pela realidade. E é escrita a lápis de carvão. Porque a ciência vive na eminência de ter de ser rescrita uma vez, e outra vez, e ainda mais outra. Aliás, a história da ciência é um livro rasurado em todas as suas páginas. O caso dos vírus é um exemplo bastante eloquente. Investigações recentes têm defraudado persistentemente as nossas expectativas. O que significa que, por certo, nos aproximamos cada vez mais da realidade.

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Crodowaldo Pavan e o projeto Roda Viva Científico

abril, 2009

A ciência, especialmente a genética, brasileira está de luto com o falecimento do Prof. Crodowaldo Pavan no dia 03/04/2009. O irreverente e obstinado pesquisador, autor de inúmeras contribuições científicas e políticas tanto quanto de observações provocadoras e desconcertantes em reuniões científicas ou declarações à sociedade, contava aos alunos de divulgação científica que nunca temeu estar errado! com a graça irônica de um vovô esperto que sorria ao lembrar-se de seus adversários científicos, que o colocaram, como bem lembrou o Thiago aí embaixo, dando três voltas no Mundo até acreditarem em seus cromossomos politênicos.

1998. Congresso da Sociedade Brasileira de Genética. Após exposição da Prof. Lygia da Veiga Pereira sobre clonagem, Pavan pega o microfone e diz alto e em bom tom, para a indignação dos demais geneticistas brasileiros. “Eu não vejo problema algum em um casal querer fazer clonagem para renascer um filho morto!”

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Nota de falecimento: Crodowaldo Pavan

abril, 2009

Em 2007, quando comecei a fazer a pós em Divulgação Científica do Núcleo José Reis de Divulgação Científica, tive o prazer de conhecer pessoalmente o professor Crodowaldo Pavan (1/12/1919 – 03/04/2009). Aquele senhorzinho franzino, conservava um cérebro afiadíssimo. Sempre simpático com os alunos, sempre  disposto a conversar com todos.

Era conhecido pela força de suas opiniões, frequentemente polêmicas. Era, afinal, um grande exemplo de como um cientista deve realmente ser. Até os últimos dias questionador, curioso, engajado. Muito diferente da maioria dos cientistas de hoje, sempre preocupados demais com seus egos e currículo Lattes para poderem realizar um trabalho científico realmente interessante.

Pavan foi um dos maiores cientistas Brasileiros. Como ele, restam muito poucos. Sentiremos saudade do homem que sempre empolgado contava em como deu a volta ao mundo três vezes divulgando seu trabalho.

Resenha: O direito à vida e a pesquisa com células-tronco

agosto, 2008

Apesar do Supremo Tribunal de Justiça ter votado pela não inconstitucionalidade das pesquisas com células-tronco embrionárias no dia 29 de Maio deste ano, e das pesquisas com este material biológico já estarem em curso no Brasil, dediquei algumas horas à leitura do livro “O direito à vida e a pesquisa com células-tronco” da autora Renata da Rocha. O livro, inserido na Coleção Biodireito/Bioética da Editora Campos/Elsevier, merece um elogio para o estilo de linguagem. A autora escreve de forma simples e expõe suas idéias com a clareza necessária para ser compreendida tanto pelo público leigo, quanto pelo público estudantil universitário.

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Auto-análise de texto de divulgação científica

maio, 2008

Este texto foi previamente postado no OPS!, em 13 de dezembro de 2007, momento no qual esta que vos escreve ainda não tinha muita consciência sobre divulgação científica, muito menos sobre jornalismo científico, mas participava entusiasticamente do projeto, OPS! Segue minha autocrítica e o texto na íntegra.

Intuitivamente acertei na quantidade de parágrafos, de fato as pessoas em geral não têm o costume de ler textos extensos, a menos que estejam muito interessadas no tema! Há muita superficialidade na suposta análise crítica, beira a infantilidade até – fóóóó. Textos jornalísticos não permitem as opiniões dos autores, muito menos as ironias – péééé! A construção até obedeceu, sem querer, a “regra de ouro” do jornalismo, que privilegia o que é mais importante (o lide – o quê, quem, como, onde, quando e porquê) sempre no primeiro ou segundo parágrafo, mas deixou os números da pesquisa, que julguei importante, sem a devida importância, lá embaixo no texto – fóóóó! Outro erro está no “nariz de cera” conhecido por palavras introdutórias que nada dizem de importância real – péééé! Um ponto positivo sobrou no último parágrafo, local onde se coloca tudo que pode ser cortado do texto, afinal quando necessário, os jornalistas “cortam pelo pé” das matérias – gol!
Mas “peraí”, isso é um jogo, jornalismo ou divulgação científica?
Pshi, pshi vem cá gatinho!
Não bastando serem alvos de pesquisas, para manter a igualdade com os ratos, que desde os primórdios da Ciência sempre foram, digamos assim, cientificamente oprimidos pelos pesquisadores, agora os bichanos angorás foram alvo da eficiência da clonagem embrionária pela expressão de proteínas fluorescentes vermelhas – red fluorescent protein ou simplesmente RFP – proteínas de anêmonas marinhas do gênero Discosoma, atual biomarcadoras de transferência gênica.
Ocorre-lhe que isto só pode ser coisa de chinês? Pois é! Da revista científica Biology of Reproduction deste mês pra quem quiser ver. Eles argumentam que o genoma dos bichanos é mais próximo do nosso que o dos ratos, porcos e ovelhas e que, portanto, oferecem mais opções para a cura de doenças genéticas para seres como nós, des-humanos, talvez.
Não escondem, ou melhor, informam que a tecnologia também pode ser utilizada para produzir gatos de estimação não-alergênicos, e revelam satisfação por escreverem o primeiro artigo revelando eficiência na clonagem de gatos expressando um gene exógeno. Só faltou os autores dizerem qual será o preço do novo prato fluorescente!
Mas para quem curte números, as tabelas chinesas revelam: 456 oócitos, 261 fecundados in vitro, 46 recuperados da cultura, 32 clivados, 3 blastocistos e 11 gatas de aluguel foram utilizados para gerar os seguintes resultados ditos positivos: 176 embriões transferidos com sucesso, 3 gatas grávidas das quais: uma abortou, outra teve 2 filhotes mas 1 morreu, e a terceira teve 1 filhote. Saldo total: apenas 2 gatos fluorescentes.
Questiono-me se isto é sucesso, hum?! Ah sim, afinal a proteína vermelha foi expressa nos 3 filhotes cujas gestações foram levadas a termo, mas seria um sucesso genÉtico? Confesso que retumbou na minha mente o bom e velho som dos Saltimbancos “nós gatos já nascemos pobres, porém, já nascemos livres”!

Telefone-sem-fio em divulgação científica

maio, 2008

A brincadeira do telefone-sem-fio consiste em formar uma fila de pessoas, que transmitem umas às outras uma frase originalmente criada pela pessoa de uma das extremidades, até chegar no último da fila. A graça do jogo está no fato de que quase nunca a frase recebida pela outra extremidade será idêntica à original, e isto se deve, obviamente, a pequenas mudanças cumulativas transmitidas a cada pessoa da fila.

Assim acontece com todos os tipos de informações transmitidas em uma cadeia de componentes, se cada intermediário não for comparado ao original. É por esta razão que a divulgação científica deve ser meticulosa e sempre fornecer dados mais próximos aos originais, já que o seu público-alvo, em geral, não terá interesse ou acesso às informações a partir das quais a notícia foi gerada.

Recentemente foi publicado um artigo na célebre revista científica Nature, cujo título pode ser traduzido para “Análise genômica do ornitorrinco revela características evolutivas singulares”. Como o nome indica, o trabalho, assinado por cerca de cem cientistas, apresenta um estudo pormenorizado da constituição genética de um ornitorrinco. O estudo é interessante, porque analisa o DNA de um animal sempre considerado esquisito e compara-o a outras linhagens de vertebrados para inferir algo sobre sua história evolutiva – verificar se eles são mais semelhantes aos outros mamíferos ou aos répteis, por exemplo.

Apesar de ter um bico semelhante ao de um pato, de colocar ovos e de possuir veneno em uma estrutura parecida como uma espora, o ornitorrinco é incluído pelos sistematas no grupo dos mamíferos monotremados, considerados irmãos do grupo que contém os marsupiais (cangurus, gambás) e os eutérios (mamíferos mais populares, incluindo os primatas). Entretanto, é importante lembrar que, tanto os monotremados, quanto os demais mamíferos originaram-se a partir de um ancestral compartilhado também com os répteis (e aves).

Agora vejamos o que foi divulgado (de ruim) na mídia eletrônica a respeito do artigo. A manchete no portal Terra (recebido a partir da AFP – Agence France-Presse),  era: “Ornitorrinco é confirmado como ave, réptil e mamífero”. No portal G1 da Globo saiu: “Genoma do ornitorrinco é mistura inusitada de réptil, ave e mamífero”.

O primeiro texto chega a ser engraçado, porque dá, a todo instante, a impressão de que o ornitorrinco é um tipo de híbrido inclassificável e que, pior, isto é claramente verificável em seu código genético. Logo na introdução lê-se que “Estudos sobre o genoma do ornitorrinco (…), apontaram que o animal é, ao mesmo tempo, um réptil, um pássaro e um mamífero, segundo relatório publicado pela revista Nature”. Como já vimos, isso é um absurdo! O ornitorrinco não é uma mistura de réptil, pássaro e mamífero – o ornitorrinco é um mamífero! Prontamente nota-se que o autor do texto não sabe nada sobre mamíferos e tampouco leu o artigo original, o qual esclarece, já na introdução, a posição real do ornitorrinco no Reino Animal. Provavelmente a notícia é produto de um telefone-sem-fio muito do sem-vergonha.

Já a segunda notícia é um pouco melhor esclarecida, apesar de transmitir a idéia não totalmente errônea de que o genoma do ornitorrinco é um retalho de pedaços de origens diversas. Acontece que qualquer mamífero possui, em seu DNA, trechos comuns a outros mamíferos e até a outros animais completamente diferentes como, por exemplo, às estrelas-do-mar. Esses genes são considerados “conservados” para os animais que os possuem e revelam uma provável relação de parentesco evolutivo entre eles. Por isso é que se diz que entre o ornitorrinco e os outros mamíferos há cerca de 80% de DNA compartilhado e entre chimpanzés e humanos, por exemplo, mais de 95% de DNA compartilhado. Quanto maior for a porcentagem de DNA compartilhado, maiores as chances de as duas espécies (ou, quando for o caso, os indivíduos) compartilharem também um ancestral evolutivo recente. Assim, a manchete dá a entender, novamente, que o ornitorrinco é um híbrido genético de répteis, pássaros e aves – mas se isso for verdadeiro, então também o é para todos os mamíferos, já que compartilhamos um ancestral recente com os reptilianos (e aves)!

Mais curioso do que essas interpretações limitadas dos resultados publicados é o fato de que quase não há informação prática nos artigos de divulgação relacionados. Não há, nos dois textos mencionados, sequer uma explicação que fundamente o resultado alardeado na manchete. A razão para isso é óbvia: não há explicação! O artigo original apenas menciona a origem genética das características aparentemente reptilianas e as considera meras convergências evolutivas – isto é, características que são semelhantes àquelas encontradas nos reptilianos, mas que não são herdadas deles e que foram desenvolvidas de maneira independente pelo ornitorrinco por causa de uma pressão de seleção parecida àquela encontrada pelos répteis.

Maldito seja o telefone-sem-fio na divulgação da ciência!

Um texto exemplar deve também ser mencionado: o post “Saiu o genoma do Ornitorrinco!”, de 7 de maio desse ano, do blog Brontossauros em meu jardim tem explicações simples e inteligentes.

Fontes e mais textos para comparar:

Genome analysis of the platypus reveals unique signatures of evolution : disponível em .pdf (em inglês). Artigo original, publicado na revista Nature por Wesley C. Warren e colaboradores.

Ornitorrinco é confirmado como ave, réptil e mamífero: notícia divulgada no portal Terra (recebido a partir da AFP – Agence France-Presse) mencionado no texto, ruim.

Genoma do ornitorrinco é mistura inusitada de réptil, ave e mamífero: Saiu no portal G1 da Globo, por Reinaldo José Lopes, mencionado no texto, não tão ruim.

Genoma explica ‘estranheza’ do ornitorrinco:  Da Agência BBC, por Helen Briggs, manchete razoável, conteúdo muito superficial e pouco informativo (traduzido para o português).

Impacto de Terapias Gênicas no Esporte – Doping Genético

maio, 2008

No âmbito da genética humana as terapias gênicas, assim como as terapias com células-tronco, vem se revelando como influência crescente no paradigma clínico para a prevenção, diagnóstico e tratamento de doenças humanas herdadas e adquiridas. Os protocolos de terapia gênica vêm sendo desenvolvidos desde 1990 consistindo basicamente em introdução de genes, ou de células geneticamente modificadas, nos tecidos humanos com o objetivo de bloquear a atividade de genes prejudiciais, ativar mecanismos de defesa imunológica, ou produzir moléculas de interesse terapêutico.

Alvo de críticas tecnológicas, econômicas e sociais em 2000, a conclusão do Projeto Genoma Humano impulsionou as pesquisas de expressão gênica ampliando o conhecimento e as perspectivas atuais em terapias gênicas, ainda restritas a protocolos experimentais e distantes de novas políticas de saúde pública. Entretanto, tais pesquisas forneceram elementos suficientes para a instalação de um problema iminente ao esporte, o doping genético.

Definido como a utilização não terapêutica de células, genes, elementos genéticos ou de modulação da expressão gênica com capacidade de melhorar o desempenho esportivo, o doping genético foi incluído como um método na lista proibida da Agência Mundial Anti-Doping (WADA) em 2003. Assim, doping genético pode ser resumidamente definido pelo uso inapropriado de terapia gênica visando o aumento do desempenho esportivo.

A história revela que o doping existe desde os primórdios das Olimpíadas, porém o controle sobre ele passou a ser feito somente a partir de 1968 com o intuito de preservar a saúde do atleta. Não é novidade para o esporte que os atletas tentem “levar vantagem”, razão pela qual o termo doping genético foi criado mesmo antes de existir tal modalidade de doping na prática. A expectativa do Comitê Olímpico Internacional (COI) é que sejam desenvolvidos testes diagnósticos antes mesmo de existir qualquer tipo de doping genético. A preocupação das entidades esportivas é que tão logo as terapias gênicas se tornem eficazes, ou mesmo antes disso, os atletas façam uso abusivo de tal tecnologia ferindo os três pilares no qual se pauta a Comissão Médica do COI para proibir uma substância, ou método, no esporte: 1 – colocar em risco, ainda que potencial, a saúde do atleta, 2 – melhorar, ainda que potencialmente, o rendimento esportivo, e 3 – contrariar o espírito esportivo (fair play).

Os três principais genes candidatos ao doping genético são: EPO que sintetiza a proteína eritropoietina, responsável por promover aumento da oxigenação periférica, IGF-1 – responsável pela síntese do fator de crescimento 1 semelhante à insulina e GDF-8 – miostatina, ambos envolvidos no crescimento muscular. Também de importância já identificada se destacam o VEGF, que aumenta a vascularização, e o PPARd, que sintetiza um hormônio responsável por induzir a conversão do tipo de fibra muscular II em tipo I. No entanto nenhum teste anti-doping genético para detectar qualquer um destes, ou outros genes, foi aprovado pela WADA até o momento, apesar dos milhões de dólares já disponibilizados aos raros geneticistas, nenhum brasileiro, que se dedicam a prestar este serviço ao esporte.

Enquanto isso, poucos experimentos científicos ocorrem no âmbito concreto, e menos ainda se discute no âmbito da ética. O paradoxo da medicina esportiva é que as aplicações da terapia gênica também apontam como perspectivas em tratamentos clínicos para as lesões esportivas, especialmente em tecidos de regeneração lenta, como cartilagens, tendões e músculos. A questão é como discernir terapia gênica de doping genético entre os atletas.

Todavia, se observada pela ótica da pesquisa, a genética pode contribuir para além das terapias gênicas no esporte e da compreensão da variabilidade que diferencia o desempenho dos atletas em milionésimos de segundos, ela pode colaborar na compreensão das variações genéticas envolvidas com o metabolismo de drogas proibidas pelo esporte. Recentemente o Brazilian Journal of Biomotricity organizou uma mesa redonda digital sobre a “Influência da genética nas atividades físicas e no esporte” a fim de obter opiniões de especialistas sobre o impacto das terapias gênicas na área. Giuseppe Lippi, médico especializado em bioquímica clínica e hematologia da universidade de Verona, Itália, informou que “a farmacogenômica tem se desenvolvido em paralelo à genômica, e as evidências que têm surgido comprovam que ela será importante para melhorar a qualidade da administração de muitos suplementos esportivos, recursos ergogênicos e drogas.” Os conhecimentos a respeito da maneira como os genes dos atletas metabolizam drogas, isto é farmacogenômica, pode ajudar a tornar os exames anti-doping convencionais mais específicos a cada atleta minimizando falsos positivos e negativos.

Entretanto, o filósofo Andy Miah, tutor de ética na ciência e medicina da universidade de Glasgow, refletindo sobre os valores do esporte em seu livro Genetically modified athletes (versão em português – Atletas geneticamente modificados – em breve pela editora Phorte), não encontra argumentos éticos para se proibir as modificações genéticas nos atletas. “Os argumentos éticos contra o uso do doping no esporte não têm a mesma força quando aplicados à modificação genética. Além disso, seria um erro categorizar melhoramento genético meramente como uma outra forma de doping, já que é, conceitualmente e culturalmente, um tipo diferente de tecnologia”.

Exposição Revolução Genômica

abril, 2008

Enquanto o Ministro Carlos Alberto Menezes Direito do Supremo Tribunal de Justiça (STJ) adia, sem punição por atraso, seu julgamento sobre a exclusão do artigo 5º da Lei de Biossegurança, os paulistanos estão convidados a visitar a exposição Revolução Genômica, com direito a palestras de pesquisadores nacionais e internacionais no parque do Ibirapuera.

A ação sobre a inconstitucionalidade do uso de células tronco em pesquisas foi proposta por Cláudio Fonteles, que ocupava o cargo de procurador-geral da República em 2005. Desde então, apesar do atraso provocado no desenvolvimento científico, observa-se cada vez mais a alta capacidade ética e técnica dos pesquisadores brasileiros, a julgar pela recente descoberta da localização das células tronco adultas mesenquimais nas paredes dos vasos sanguíneos.

Na exposição sobre o genoma as pessoas vão encontrar o significado das palavras empregadas pelos geneticistas e terão acesso a diversos modelos de moléculas de DNA, alguns deles interativos. Encontrarão equipamentos como centrífuga, termociclador (PCR), eletroforese e seqüenciador em um laboratório no qual se vivencia a técnica de extração de DNA. Assistirão a filmes, inclusive com pesquisadores brasileiros, explicando os processos científicos e as perspectivas em terapia gênica.
Os visitantes verão um histórico da aplicação da genética molecular no Brasil, incluindo as pesquisas sobre doença de Chagas e sobre o “amarelinho”, praga das plantações de laranja que marcou o início da capacitação técnica dos geneticistas brasileiros. As pessoas poderão ainda, responder a enquetes sobre as questões polêmicas relacionadas às aplicações da Genética. A surpresa maior é a perda do foco antropogênico na exposição de seres vivos, que procura mostrar um exemplar de cada grupo do reino animal e vegetal.
Em meio às transcrições da exposição, e traduções do artigo 5º, o ministro Gilmar Mendes, que deverá assumir a presidência do STJ no dia 23 de abril, tem a impressão de que retomarão o julgamento em maio, porém não exclui a possibilidade de outro ministro pedir mais tempo para analisar o processo.
A propósito, o famoso artigo 5º é o que permite a utilização, em pesquisas, de células tronco embrionárias fertilizadas in vitro desde que não sejam mais utilizadas, estejam congeladas há pelo menos três anos, com comercialização vetada, e tenham autorização do casal.

Para saber mais:

Genética
Genoma

A corporação

março, 2008

Há quem acredite que “a pesquisa científica moderna não busque a verdade, mas o lucro.” A frase em si já é suficiente para arrepiar qualquer cientista sensato com um mínimo de senso ético. Não bastando, subentende-se que a vida está a venda. Agora sim, epistemologicamente chocante, tanto do ponto de vista científico quanto da moral humana.

Entretanto o raciocínio é simples. Se a vida é um bem, pode ser comparada aos demais bens construídos pelo homem. Assim, dentro dessa (i)lógica, a vida pode ser negociada por ser considerada uma mercadoria. A única restrição é que ela não seja uma vida humana em seu estado natural, no caso com o sentido de original.

Pelo menos foi assim que se deu o veredito do STJ americano a favor da primeira patente de bactérias geneticamente modificadas, em 1980. Estiveram diante do juíz: o cientista – Ananda Mohan Chakrabarty; a corporação – General Eletric; as bactérias – Pseudomonas, capazes de degradar algumas substâncias químicas do petróleo; a biotecnologia – P. aeruginosa 1c (ATCC 15692) foi transformada em plasmídios contendo genes para degradar octano, salicilato e naftaleno gerando a artificial P. aeruginosa NRRL B-5472. De modo semelhante a P. putida PpG1 (ATCC 17453) originou P. putida NRRL B-5473 contendo genes de degradação da cânfora, salicilato e naftaleno além de uma resistência extra a droga, RP-1. O veredito – “tudo o que se encontra abaixo do Sol, feito pela mão do homem, pode ser patenteado”, porque “a questão relevante não é a distinção entre coisas vivas e inanimadas, mas se os produtos vivos possam ser vistos como invenções feitas pelo homem”.

Os produtos vivos, que até outro dia eram tidos como divinos em sua totalidade pela justiça americana, passaram a ser vistos como invenções humanas em alguns casos. Ingenuidade ou não, afinal pelo menos o Admirável Mundo Novo já havia sido escrito e era mundialmente conhecido à época, a jurisprudência abriu margem para o registro de uma infinidade de patentes biológicas desde então. Como o interesse de tudo que é patenteado é a aquisição de lucros, fica fácil entender que este episódio só abriu um pouco mais o leque de opções em registros. A julgar pela história das patentes que teve início durante o feudalismo, favorecendo os habitantes dos burgos que já sabiam desde aquela época que “o mercado é o juíz final de tudo”, isto não poderia deixar de ser diferente na atual “Era da Biologia”.

Explica-se a dificuldade e o adiamento do julgamento do nosso STJ sobre o uso de células-tronco embrionárias em pesquisas para fins terapêuticos. Não se trata somente de uma questão de inconstitucionalidade, há também uma preocupação implícita, e não é somente com a possibilidade de criação de monstros mais sofisticados do que o Frankeinstein, mas sim com a abertura de novas Corporações que certamente advirão, e muito lucrarão, a partir da aplicação destas pesquisas no mercado, em nome da Ciência e Saúde de um lado contra a perda de poder público do outro.

Afinal, diria o mestre, isto é bom ou ruim?

Pau que nasce torto, nasce torto mesmo?

setembro, 2007

Estes dias, entre amigos meus, surgiu uma questão interessante. Características humanas, como egoísmo ou comportamento violento por exemplo, são inatos? Seriam essas características definidas pela genética ou seriam fruto de interações do indivíduo com o meio ambiente?

É de costume, neste tipo de discussão, estabelecer relações comparativas com o comportamento de animais. Mas mesmo na etologia, a área do conhecimento que estuda o comportamento animal, essa questão não esta bem definida. Existe uma séria de complicações em se detectar quando um comportamento é inato ou quando foi aprendido. Alguns pesquisadores afirmam que é simplesmente impossível ter certeza de que um comportamento qualquer seja inato. A alegação é que ainda que um animal seja isolado de seus pais no momento do nascimento, ou ainda antes quando se trata de animais que botam ovos, não é possível afirmar categoricamente que ele não tenha sofrido um estímulo qualquer durante sua vida embrionária.

Pelo lado da genética a situação é igualmente nebulosa. Ainda assim existem bravos pesquisadores envolvidos com essa questão e, aparentemente existe um consenso geral de que é muito provável que o comportamento animal seja definido pela genética e pelo meio ambiente ao mesmo tempo. O estudo do canto das aves fornece alguns dados interessantes neste sentido.

Experimentos efetuados com pardais compararam o canto de aves de diferentes espécies em duas condições específicas. Algumas aves eram isoladas do convívio com outras enquanto outras aves eram mantidas em seu convívio normal. O que se constatou foi que, muito embora o padrão do canto das aves mantidas isoladas fosse substancialmente diferente do padrão das aves mantidas em convívio com outras, características específicas do canto de cada espécie (como a duração do canto por exemplo) eram mantidos. Isso pode significar um bocado de coisas, mas aparentemente a constatação mais clara é a de que o canto em si é de fato um fator genético já que as características individuais do canto de cada ave foram mantidas nas que foram isoladas de seus pares, no entanto, os padrões dos diferentes cantos de cada espécie são aprendidos.

Ainda no campo da genética existe um conceito conhecido como plasticidade fenotípica. A definição deste termo diz que um genótipo qualquer pode produzir diferentes variações fisiológicas, morfológicas ou comportamentais em resposta a condições ambientais específicas. Isso significa que um comportamento qualquer condicionado geneticamente (seja pelo comportamento em si, seja por depender de estrutura morfológicas específicas) pode ser modificado em razão da interação entre o genótipo e o meio ambiente. Por exemplo, se supormos que uma espécie qualquer de inseto tenha estruturas que produzam um som específico na época de reprodução, seu comportamento reprodutivo seria modificado substancialmente caso essa estrutura que produz o som seja originária de um genótipo que modifica sua expressão de acordo com, digamos, a disponibilidade de comida.

Mas voltando às características humanas. Será que elas passam por processos similares aos citados acima no que diz respeito ao comportamento animal? É preciso levar em consideração que o comportamento humano esta fortemente atrelado à cultura. Mas não seria a cultura a expressão máxima do comportamento humano? Não acredito que haja uma resposta definitiva para este caso.

Acredito apenas que passamos por processos similares aos dos outros animais, tendo a genética e o meio ambiente papéis fundamentais na formação de nossos comportamentos durante todo o processo evolutivo do homem. Os processos genéticos fornecendo a capacidade para o desenvolvimento de comportamentos sociais e culturais e o meio ambiente selecionando esses comportamentos. Não creio na possibilidade de alguém nascer predestinado a ser egoísta ou violento, como se é de imaginar caso a genética fosse a única força responsável pela expressão de tais características.

Nascemos todos com o potencial para o egoísmo e para o altruísmo. Para a violência e para o pacifismo. O que nos faz tender para um comportamento específico é nosso contexto histórico, social, cultural e, portanto, ambiental.