Heróis e vilões na (falsa) história da Ciência

Às vezes é um pouco difícil definir o que a Ciência é. Saber o que ela não é passa longe de ser tarefa mais simples, principalmente se a olharmos historicamente, já que muito do que hoje consideramos como não-Ciência, como a astrologia, por exemplo, já esteve dentro do campo científico em tempos não tão remotos assim. E o curioso é que quanto mais estudamos e conhecemos a Ciência e seus métodos, mais difícil fica fazer essas (in)definições. Mas, independentemente da quantidade de estudo ou da linha filosófica que escolhermos para olhar a Ciência, uma característica dela é – ou pelo menos deveria ser – clara e inegável: ela é uma atividade legitimamente humana, ou seja, é feita por seres humanos. O conhecimento produzido no campo científico é resultado de um longo processo de trabalho duro de pessoas como você e eu.

No entanto, quando ouvimos falar dos cientistas, seja pela mídia ou nas próprias escolas, não é bem essa a imagem que vemos. Sob nenhuma circunstância passa pelas nossas cabeças que nós, com todos os nossos defeitos, poderíamos estar ali naquele livro, naquela matéria. É mais ou menos parecido com o que acontece quando lemos histórias de super heróis. Ênfase no mais ou menos. Já explico: ninguém pensa seriamente em se tornar um super herói. Talvez só na infância. E a imensa maioria da população também não pensa seriamente em se tornar cientista, o que ocorre em boa parte pelo desconhecimento do que um cientista de fato faz. No entanto, às vezes, quando lemos as histórias dos heróis, nos pegamos fantasiando como seria legal ter super poderes ou salvar a humanidade de ameaças que ninguém mais poderia conter. Mas quando lemos a história do Mendel, não pensamos “nossa, como seria legal ficar recluso num mosteiro cruzando e contando ervilhas por anos e só depois de morto ter o trabalho reconhecido para virar o ‘pai da genética’”. Além disso, as histórias de heróis deixam claro que eles, mesmo que venham de outro planeta, têm um lado humano muito forte, entram em conflitos e dilemas morais e, alguns, como o Wolverine, têm até um lado meio cafajestão. Mas os cientistas não; eles são todos parecidos, e todos muito, muito distantes de nós. É como se os super heróis fossem de alguma forma mais reais do que os cientistas. Wow.

As histórias que ouvimos dos cientistas são sempre assim: Super gênios isolados da sociedade que ficam fazendo contas e experimentos que ninguém mais consegue entender e descobrem coisas fantásticas com uma facilidade impressionante. Cai uma maçã na cabeça do Newton e ele descobre a gravidade. Darwin vê uns passarinhos numas ilhas e descobre a seleção natural. Arquimedes entra na banheira e descobre o empuxo. Realmente é mais fácil se imaginar soltando raios laser pelos olhos do que fazendo coisas como essas – e talvez até mais desejável. Os cientistas são heróis que ninguém gostaria de ser.

Quem você prefereria ser: Arquimedes ou o Superman? Hmm, difícil hein?

Todos ouvimos essas histórias, assim como todos ouvimos as histórias dos super heróis. A diferença é que mesmo uma criança sabe que as histórias dos heróis são falsas, enquanto essas absurdas histórias dos cientistas continuam circulando como verdadeiras. Chega. Está na hora de parar.

Não digo que está na hora de parar só porque seria legal se todos soubessem as histórias reais dos cientistas ao invés dessas versões distorcidas e descontextualizadas. O problema vai muito além da acuidade histórica, chegando a atingir as raízes da nossa sociedade e de seus valores. Essas historinhas mentirosas vão construindo uma imagem de quem são os cientistas (todos homens, brancos, europeus e muito inteligentes) e de como a Ciência é produzida (sempre por insights geniais desses cientistas). Ora, essa história tem uma mensagem que, apesar de implícita, é clara: os cientistas são pessoas muito mais inteligentes do que você pode imaginar, e essa inteligência é um pré-requisito básico para ter essa profissão. Sendo assim, é aconselhável que você acredite no que a Ciência diz, porque ela é feita por pessoas muito mais inteligentes do que você jamais vai ser. Não se meta a fazer Ciência. Deixe para quem sabe. E aí está mais um motivo pras pessoas não pensarem seriamente em se tornar cientistas: “isso não é pra mim! Não sou esperto o bastante”. Essa impotência frente à Ciência se deve em grande parte à essas falsas historias, que transformam alguns cientistas em admiráveis cavaleiros que salvaram a humanidade da ignorância e outros em vilões que difundiram idéias erradas, como Lamarck ou a própria igreja, por exemplo (olhem só como ela foi injusta com Copérnico, coitadinho!).

A história da Ciência é uma história de seres humanos. Isso deve ficar bem claro. Serem humanos erram e às vezes fazem coisas movidos unicamente pela emoção. Seres humanos têm família, amigos, amores e interesses. Seres humanos (da sociedade capitalista) precisam de dinheiro, e fazem o que podem pra consegui-lo. Seres humanos gostam de fama, poder e prestígio. Se os cientistas são de fato seres humanos, então todas essas características se aplicam a eles também. Eles não são nem heróis, nem vilões. Na verdade, eles tem nada de especial – nem mesmo a inteligência: acreditem, é tudo treino!

Deve ficar claro também que a história da Ciência é contada por seres humanos. Seres humanos que colocam o seu ponto de vista naquilo que contam, mesmo que não tenham a intenção de fazê-lo. Depois de alguns séculos de distorções (intencionais ou não), o resultado é uma história que tem pouco a ver com o que realmente aconteceu, que guarda pouco de quem realmente eram os personagens e que nunca considera que a época em que eles viveram era diferente da época em que vivemos hoje.

E quem sai perdendo com tudo isso? Vejo a situação como um sistema de retroalimentação positiva. Quanto mais essas histórias circulam, mais as pessoas se distanciam da Ciência. E quanto mais distante a Ciência fica da sociedade, mais convinventes essas histórias parecem ser. E dessa forma a sociedade fica sem entender a Ciência e a Ciência fica cada vez mais fechada em seu mundinho, sem que os próprios cientistas entendam seu papel nessa sociedade. E quem sai ganhando? Hmm…dizem as más linguas que uma população que acredita cegamente em tudo que tem o rótulo de “científico” (por não entender como funciona a Ciência) pode beneficiar bastante os grande grupos econômicos que controlam o capital, já que essa população é manipulada muito facilmente. Mas isso é só especulação. Será? Na dúvida, eu acho que seria melhor se repensássemos a forma de contar a história da Ciência e dos cientistas.

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Por que Galileu não seria publicado na Nature (nem na Science).

Não há dúvidas de que Galileu é uma das figuras mais importantes da ciência moderna. Aqui mesmo neste blog não são poucos os textos sobre ele e, evidente, por razões mais do que justificadas.

Galileu é uma das figuras centrais da Revolução Científica. Fez contribuições importantíssimas para a mecânica e astronomia além de ser sido um artesão bastante competente. Mas Galileu vai além.

Representa para a ciência moderna o “espírito” do verdadeiro cientista. É tido como o questionador por excelência. O rebelde que desafiou costumes, leis e arriscou a própria vida em prol da defesa de um conhecimento científico que combatia o obscurantismo medieval. É, mais do que todos, o gigante que apoiou em seus ombros tantos outros gigantes.

É claro que quem estudou a história do matemático sabe que essa imagem heróica atribuída a ele é, antes de qualquer coisa, uma interpretação da figura histórica de Galileu. Ainda assim, é uma interpretação conveniente. Ainda que não seja verdadeira, transmite para os jovens iniciados na ciência o tipo de atitude que se espera deles.

Mas será que é isso mesmo que a ciência quer? Será que a ciência moderna premia seus “rebeldes”? Se Galileu estivesse vivo hoje, veria seus trabalhos publicados pela Science ou pela Nature?

O subversivo método científico.
Alexandre Koyré cunhou o termo Revolução Científica, assim mesmo em maiúsculas, pra se referir à mudança que ocorreu na forma como a ciência passou a ser conduzida no século XVII. Com efeito, é até difícil de chamar o que veio antes da Revolução Científica de ciência.

O fato é que houve uma mudança drástica, e uma das características dessa mudança foi o abandono do aristotelismo como metodologia. Isso significa que noções como a divisão do Universo em mundo sublunar e supralunar deixou de existir, assim também como toda a física aristotélica foi aos poucos sendo derrubada. Galileu era neste sentido um subversivo completo.

Mesmo o uso de seu famoso telescópio como ferramenta de investigação não era permitida pelos aristotélicos. Para eles, era preciso estudar a natureza sem inteferências e o telescópio era exatamente isso, um objeto que se colocava entre a natureza e seu observador.

O instrumento era, antes de qualquer coisa, considerado uma curiosidade. Para a maioria das pessoas que olhavam pelo telescópio, o que ele fazia era produzir uma ilusão que não tinha qualquer relação com a realidade. Poucos entenderam o valor do famoso objeto. Kepler foi talvez o mais importante, já que vem dele a teoria ótica que explicava com pormenores o funcionamento do telescópio. Em todo caso, os trabalhos em mecânica de Galileu são tão subversivos quanto o próprio telescópio.

Ao realizar experimentos para explicar fenomenos naturais, Galileu podia estar usando uma metodologia que é perfeitamente aceita hoje em dia, mas completamente incompatível com o aristotelismo da época. Ao considerar que as causas por trás dos fenomenos celestes eram as mesmas causas por trás dos fenomenos observados na Terra, Galileu só reafirmava sua subversão.

Quando obstruir virou sinônimo de comunicar.
Mas deixemos Galileu de lado só por um momento, em prol da lógica do argumento. O que se viu nos séculos seguintes à Revolução Científica foi o desenvolvimento brutal da prática científica. E uma das características chave nesse sentido foi a institucionalização da ciência e a comunicação de seus avanços.

Começamos com as leituras nas sociedades científicas, passamos para um modelo intermédio aonde a comunicação das novidades era feita nas sociedades e depois distribuídas por periódicos e chegamos aonde estamos hoje.

Embora ainda hoje tenhamos congressos e eventos equivalentes que de certa forma cumprem o mesmo papel da antiga “leitura na sociedade”, é certo que o principal meio de comunicação da ciência seja através da publicação em periódicos.

O problema é que esse modelo se consolidou antes do advento da internet. Foi preciso criar mecanismos de filtrar o que seria publicado, já que não era, e ainda não é, comercialmente possível publicar tudo o que era submetido aos periódicos.

Podemos achar que o filtro criado é o processo de revisão por pares, mas o fato é que pelo menos para a Nature, isso não é bem verdade. O processo de peer review é secundário no que diz respeito ao que vai ser publicado neste periódico, como eles deixam bem claro em sua página na internet:

“O julgamento sobre quais artigos interessam para um público mais geral é feito pelos editores da Nature, não pelos referees.”

Em outras palavras, os editores da Nature julgam que tipo de artigos devem atrair um público mais generalizado, e não os representantes da comunidade científica. O que me faz questionar como é que a Nature se transformou em um dos periódicos mais importantes para a comunidade…

É claro que se pode argumentar que os editores da Nature são também cientistas, embora eu não tenha encontrado essa informação no site da revista. O caso é que o peso da decisão sobre qual artigo deve ser publicado parece ser mais mercadológico do que pelo interesse da comunidade.

Um caso emblemático neste sentido foi a publicação do artigo sobre clonagem humana na Science de junho de 2007. A despeito do alegado rigor com que estes periódicos alegam tratar o conteúdo a ser publicado, o artigo fraudulento foi publicado com grande pompa e anúncio em todos os meios de comunicação.

Posteriormente a culpa recaiu sobre o sistema de revisão por pares, mas é de se questionar se a culpa foi exclusivamente dos referres como ficou sugerido. O fato é que criou-se uma economia aonde a autoridade e importância do periódico esta relacionada com a quantidade de artigos que ele rejeita, e não na qualidade dos artigos que ele publica.

O curioso é notar que segundo este artigo publicado na PLoS, a maior parte dos artigos são rejeitados por falta de espaço para publicação. Ainda assim, tanto a Nature quanto a Science propagandeiam os altos índices de rejeição como resultado de sua seleção rigorosa, ainda que o peer review esteja claramente em segundo plano.

A ciência moderna segue assim nessa situação. Embora a comunicação seja um dos pilares fundamentais do processo de desenvolvimento da ciência, o que vemos é a dificuldade em ter acesso ao conteúdo submetido aos periódicos. Seja pela não publicação de artigos por questões mercadológicas nas versões impressas, seja pela obrigatoriedade de pagamento de taxas altíssimas para acesso das versões digitais.

Por que Galileu não seria publicado na Nature (nem na Science).
Mas voltemos a Galileu. Afinal, Galileu estivesse vivo hoje e o carater de seu trabalho tivesse o mesmo significado que teve em sua época, seria ele publicado em algum periódico? Sou obrigado a concluir que não.

Galileu rompeu com a tradição metodológica da época e seus trabalhos só são considerados importantes por que toda a ciência criada nos séculos após o matemático seguiu pelo mesmo caminho que ele.

Se fosse vivo hoje e trabalhasse com uma metodologia completamente diferente da que estamos acostumados, Galileu sequer seria considerado para publicação, seja por falta de espaço, seja por não poder passar pelo processo de revisão por pares.

No final das contas, nossa ciência que tanto diz gostar de ser desafiada e questionada, que elege como heróis homens que eram rebeldes metodológicos, dificilmente vai aceitar com alegria um Galileu moderno, um Kepler do século XXI.

Mesmo com essa constatação talvez pessimista, gosto de pensar que temos uma oportunidade de ouro hoje em dia. A web 2.0 pode mudar completamente a forma como a ciência se comunica e talvez permitir que a nova geração de cientistas possa ser um pouco mais rebelde.

Acredito que estamos em um ponto aonde o sistema de publicação e revisão por pares vai inevitavelmente sofrer alterações drásticas. O quão interessante seria poder ver um artigo que não fosse um conteúdo estático, preso à sua data de publicação?

Um artigo de conteúdo dinâmico, que pudesse ser melhorado gradativamente com o passar dos anos e por meio de uma revisão por pares à posteriori? Uma revisão por pares que não fosse levada a cabo por um pequeno colégio de especialistas, mas por toda a comunidade interessada?

Um artigo deste tipo não precisaria ser absolutamente rejeitado. Poderia ser aceito pela comunidade como um “projeto em andamento”, sendo pouco a pouco delapidado e transformado, mais ou menos como no desenvolvimento de softwares de código aberto que temos hoje.

Posso apenas imaginar esse tipo de mudança, nunca prever. Mas em minha opinião uma coisa é certa, ou mudamos nossa forma de comunicar e validar a ciência, ou corremos o risco de ignorarmos de forma injusta o nosso próximo Galileu.

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Alexandre Koyré: Soldado, filósofo, historiador.

Alexandre Koyré

Aproveitando o embalo do texto anterior sobre Galileu, volto a abordar um dos historiadores fundamentais para qualquer um que pretenda estudar com mais detalhe a o matemático italiano.

Alexandre Koyré nasceu em 1892 na Russia, mas cresceu na França. Estudou em Göttingen, na Alemanha, com David Hilbert e Edmund Husserl. Teve a sua tese rejeitada por Husserl, o que o fez retornar a França.

Quando a 1ª grande guerra veio, Koyré se alistou no exército frances por sua própria vontade e acabou indo servir na Russia. Ao final da guerra passou a se dedicar à filosofia. Estudou os trabalhos de Descartes e Santo Anselmo sobre Deus, completando seu doutorado em filosofia da religião pela faculdade de letras de Paris.

É um homem de história curiosa, sem dúvida. De soldado a filósofo da religião, de filósofo da religião a historiador da ciência. Mesmo trilhando caminhos tão “divergentes” por assim dizer, é impossível separar a história da ciência de Koyré. Foi ele um dos grandes nomes que cunharam a grande Revolução Científica como o ponto central da disciplina.

Internalismo e externalismo.
Para entendermos a importância de Koyré, é preciso antes entendermos como era a história da ciência antes dele. A primeira geração de historiadores da ciência estava comprometida com os ideais positivistas, buscando na filosofia de Comte uma abordagem metodológica capaz de superar os limites da história convencional e produzir uma narrativa adequada para a história da ciência.

Neste projeto a ciência era estudada como um empreendimento isolado, ou seja, levava em consideração apenas os processos internos da atividade, ignorando completamente o contexto social de seus praticantes ou da própria prática.

Em 1930 os historiadores passaram a abandonar gradativamente esta abordagem. A historigrafia atual assume que é muito difícil compreender a história da ciência sem considerar seu contexto social. Um exemplo disso é o livro Galileu Cortesão, de Mario Biagioli, que foi usado no texto anterior sobre Galileu. Biagioli constrói sua narrativa mostrando que as práticas cortesãs influenciaram diretamente a ciência de Galileu.

Koyré não era exatamente um externalista, mas também não pode ser chamado de internalista. Kuhn chega mesmo a dizer que nenhum destes rótulos se aplica a ele. Koyré não se importava em usar fatores extracientíficos e demonstrar sua importância no desenvolvimento da ciência, mas não produziu nada que fosse estritamente externalista.

Koyré platônico.
A despeito da discussão sobre internalismo e externalismo, o que realmente importa é a influência que a formação filosófica teve sobre sua carreira de historiador. Koyré era um platônico e, como tal, se interessou em estudar a história das ideias científicas.

E foi como platônico que ele interpretou Galileu. Seus Estudos Galileanos mostram um Galileu que da enfase na experiência mental, um Galileo que já sabe o resultado da experiência antes mesmo de a realizar. Com efeito, Koyré se apegou tanto a esta metodologia que em certo ponto chegou a dizer que “a boa física é feita a priori, teoria precede o fato, a experiência é inútil por que antes de qualquer experiência já estamos de posse do conhecimento que estamos buscando”.

A alegação de que a experiência é inútil é um tanto forte, mas é curioso ver como nem Galileu nem Kepler precisaram da observação das luas de Júpiter ou os dados de Tycho Brahe para aceitarem o heliocentrismo. Alguns historiadores, por influência de Koyré, acabariam por reconstituir determinados experimentos a fim de descobrir se de fato eles haviam sido feitos.

No caso específico de Galileu, descobriu-se que muitos dos experimentos que ele descrevera simplesmente não apresentavam os resultados que o italiano descrevia. Tal conclusão vai de encontro com o que Koyré dizia. Galileu de fato conduzia experimentos mentais e estava tão seguro de seus resultados que os apresentava sem realizar alguns experimentos de fato.

Koyré também fez grandes contribuições para o estudo do período da Revolução Científica. Foi ele quem interpretou o período como o abandono do aristotelismo e a mudança para uma metodologia mais arquimediana. A geometrização do universo e a infinitização do espaço, como ele mesmo colocou.

Era, em outras palavras, a racionalização da ciência, que passa a ser capaz de tirar conclusões e fazer previsões sobre o mundo físico mesmo que determinado fenômeno previsto não tenha sido observado por uma razão qualquer. Para o historiador, Galileu era o grande exemplo dessa mudança metodológica.

Antes de falecer em 1964 Koyré se dedicou a estudar outro grande cientista, Isaac Newton. Seu trabalho rendeu uma nova tradução do Principia e mais um sem número de artigos que demonstravam a influência de Descartes no pensamento newtoniano, além de abordarem a relação entre os trabalhos de Newton e Leibiniz.

Koyré era ele próprio o grande exemplo de uma mudança metodológica. Um platônico por excelência que mudou, de forma determinante, o desenvolvimento da história da ciência nos anos vindouros.

Bibliografia.

Beltrán, Antonio. “Wine, Water and Epistemological Sobriety: A Note on the Koyré-MacLachlan Debate”, Isis (1), (1998), 82-89.

Cohen, Bernard and Marshall Clagett. “Alexandre Koyré (1892-1964): Commemoration,” Isis (2), (1966), 157-166.

Elkana, Yehuda. “Alexandre Koyré: between the history of ideas and sociology of knowledge,” History and Technology (1987), 111-144.

Gavroglu, Kostas. O Passado das Ciências como História. Porto: Porto Editora, 2007.

Herivel, John. “Obituary: Alexandre Koyré (1892-1964),” The British Journal for the History of Science (3), (1965), 257-259.

Koyré, Alexandre. “Galileo and Plato”, Journal of the History of Ideas (4), (1943), 400-428.

Koyré. Alexandre. “Galileo and the Scientific Revolution of the Seventeenth Century”, The Philosophical Review (4), (1943), 333-348.

Koyré, Alexandre. “Influence of Philosophic Trends on the Formulation of Scientific Theories”, The Scientific Monthly (2), (1955), 107-112.

Kuhn, Thomas S. “Mathematical versus Experimental Traditions”, Journal of Interdisciplinary History (1976), 1-31.

MacLachlan, James. “A Testofan ‘Imaginary’ Experiment of Galileo’s”, Isis (3), (1973), 374-379.

MacLachlan, James. “Experimenting in the History of Science”, Isis (1), (1998), 90-92.

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Galileu, matemático , cortesão e desonesto?

A Nature publicou ontem um pequeno texto (ao qual tive conhecimento pelo colega blogueiro Rafael do RNAm e que também escreveu um texto sobre o assunto) dizendo que evidencias recentes mostram que Galileu defendeu o sistema heliocêntrico apesar de suas observações não sustentarem tal sistema.

Tenho uma novidade pra Nature, tal fato já é sabido pela história da ciência a muito mais tempo. Aliás, o artigo em si é bastante estranho, e não estivesse publicado no site da Nature, eu ia dizer que era obra do G1. Mas vamos ao que interessa.

Galileu, Matemático.
Todo mundo sabe que Galileu foi um matemático. Deu aulas na universidade de Pádua, até ser escolhido como matemático oficial da corte dos Médici. O que pouca gente sabe é que a matemática não tinha o estatuto social que tem hoje.

Platão, de vermelho e Aristóteles de azul.

À época, a filosofia natural era a grande disciplina e tinha como modelo central a física aristotélica e a descrição celeste de Ptolomeu. Aristóteles classificava o universo em um mundo sublunar, ou seja, tudo aquilo que fica disposto “abaixo” da Lua (incluindo a própria Lua), e o mundo supralunar, ou tudo aquilo que fica disposto acima da Lua.

Em tal sistema, a Terra fica ao centro do Universo com a Lua, os planetas e todas as estrelas orbitando ao seu redor. Embora pareça favorecer a importância de nosso planeta no Universo, a verdade é que a justificativa de Aristóteles para isso é precisamente a inversa. Para o grego, o mundo supralunar era perfeito, existia desde sempre e continuaria existindo de maneira imutável. Os planetas e estrelas não tinham imperfeições, eram esferas perfeitas, se movendo em orbitas circulares ao redor da Terra em um mundo incorruptível.

O mundo sublunar por sua vez se situava no centro do Universo justamente por ser composto por uma substância comum, que não se “misturava” ao mundo supralunar. Na época de Galileu, este sistema era aceito da mesma maneira que aceitamos hoje um universo cheio de planetas que nada se parecem com esferas perfeitas.

Mas divago. Tudo isso era pra dizer que a filosofia natural possuía um estatuto social superior ao da matemática por exemplo. E Galileu era um homem que queria combater o aristotelismo. Não por birra, mas por acreditar que a matemática tinha grande papel no entendimento do mundo sublunar e supralunar. Para Galileu, era preciso matematizar o universo, unificando estes dois mundos.

O problema todo era justamente que para discutir em pé de igualdade com os aristotélicos Galileu precisava ter um status social compatível com seus interlocutores e ser um matemático de Pádua não era o suficiente.

Galileu Galileu.

Galileu, cortesão.
Na época de Galileu, a ciência como a conhecemos hoje ainda não existia. Por isso mesmo, não havia periódicos, sociedades científicas ou peer-review. Em outras palavras, os mecanismos atuais de validação ainda não tinham se estabelecido. Sem estes mecanismos, a validação era feita por um complexo sistema de mecenato.

Galileu sabia muito bem disso e já estava acostumado com as intrincadas regras de etiqueta das cortes italianas. Tentou por alguns anos se tornar o matemático filósofo da corte dos Médici, mas tal feito só seria conseguido quando da publicação de seu famoso Siderius Nuncius.

Como se sabe, Galileu melhorou sensivelmente a qualidade dos telescópios da época. De início, o telescópio de Galileu foi usado como um instrumento militar, mas em dado momento, o italiano teve a brilhante idéia de apontar sua lente para o céu. O resultado deste fato veio mais tarde, em seu livro que descrevia as descobertas feitas, como as crateras lunares e as luas de Júpiter.

Ao publicar o livro, Galileu o ofereceu aos Médici. Mais do que isso, nomeou as quatro luas de Júpiter que havia observado com o nome de altos membros da poderosa família italiana. Por regra da corte, ao ser presenteado, um mecenas deveria responder à altura, o que na época rendeu a Galileu o cargo de filósofo e matemático do Príncipe Cósimo II de Médici.

Ao manobrar sua aceitação na corte do grande mecenas, o matemático italiano finalmente adquiriu o estatuto social necessário para dialogar em igual nível com os aristotélicos.

Copérnico Vs Tycho Brahe.
A pergunta de por que Galileu era copernicano não encontra muita resposta. É sabido que ele chegou a defender o sistema ptolomaico, mas mudou de idéia quando ainda dava aulas em Pádua. Uma das explicações sugeridas é a de que o italiano percebeu em Copérnico um sistema mais elegante. Elegante não em termos estéticos, mas em termos matemáticos.

Via de regra, o modelo heliocêntrico de Copérnico, em termos de predição do movimento dos astros, não era muito melhor do que o de Ptolomeu. No entanto, era matematicamente mais coerente. Com efeito, os historiadores concordam que nesta época, poucos cientistas eram capazes de entender Copérnico. Galileu e Kepler foram dois destes privilegiados.

O caso é que o sistema de Ptolomeu só começou a cair quando o próprio aristotelismo passou a ser contestado. Como eu já disse mais acima, para Aristóteles o mundo supralunar era perfeito e imutável. Mas em 1572 uma supernova pode ser observada a olho nu, brilhou no firmamento como se fosse uma nova estrela para desaparecer por completo duas semanas depois.

Alguns anos depois um cometa pode ser observado por Tycho Brahe que, com os instrumentos de precisão mais potentes da época, calculou que tal cometa estava se deslocando no espaço, não sendo assim um fenômeno atmosférico como antes se acreditava. Galileu também ajudou no processo ao observar as luas de Júpiter e as manchas solares.

Em 1618 três cometas puderam ser observados. Tal fato atraiu a atenção dos mecenas que passaram a se interessar por explicações sobre o fenômeno. Galileu foi um dos interpelados sobre os cometas, bem como os jesuítas. Um dos membros da Companhia de Jesus, Orazio Grassi produziu uma conferência pública que resultou em um texto sobre os cometas. Neste texto, Grassi usa o sistema tychonico, que coloca a Terra no centro do Universo, o Sol a orbitar ao redor da Terra e todo o resto a orbitar ao redor do Sol, como parte da explicação sobre os cometas.

Nicolau Copérnico.

Galileu não pode se ausentar à disputa. Não produzir uma resposta à Grassi seria o mesmo que apoiar o sistema de Tycho. A esta altura o sistema de Copérnico já havia sido proibido pela igreja, o que deixou a Galileu uma única opção: Desacreditar o sistema tychonico.

Atacar tal sistema trazia para Galileu dois benefícios. O primeiro era impedir que o sistema de Tycho fosse aceito como o novo modelo canônico. O segundo era garantir a si próprio a imagem de grande autoridade astronômica, impedindo assim que os jesuítas assumissem tal papel. Foi durante toda a disputa que o cardeal Barberini, amigo de Galileu, foi eleito como novo Papa. A conjuntura foi tão boa que, se usando da mesma tática que havia usado para ser aceito na corte dos Médici, o italiano dedicou seu livro O Ensaiador ao novo Papa de modo a receber a proteção de um mecenas ainda mais poderoso que Cósimo.

Embora em nenhum momento Galileu tenha defendido Copérnico de forma aberta, O Ensaiador era um livro com duras críticas ao aristotelismo, e gozava da aceitação do Príncipe maior da Igreja Católica.

Galileu e a Inquisição.

A queda do favorito.
Na boa conjuntura em que se encontrava, Galileu pediu permissão à Urbano VIII para escrever um livro aonde defenderia o heliocentrismo de Copérnico. O Papa permitiu que Galileu assim o fizesse, mas não de forma a apresentar uma nova teoria, apenas como um exercício hipotético. Urbano VIII chegou mesmo a dar algumas sugestões sobre o conteúdo do livro.

Galileu, seguro de sua proteção, escreveu o livro na forma de diálogo, não só defendendo o copernicianismo abertamente e não de forma velada como sugerira o Papa, mas colocando na voz de Simplício, o personagem tacanho e ignorante de seu diálogo, algumas frases que o próprio Urbano teria proferido.

O Diálogo Sobre os Dois Sistemas do Mundo caiu como uma bomba. Urbano já se encontrava em posição difícil, sofrendo ameaças dos espanhóis que durante a guerra dos 30 anos começaram a acusar o Papa de ajudar os franceses, e ameaçaram uma invasão a Roma. Além disso, muitos dos críticos de Urbano diziam que ele protegia os hereges e pecadores.

Galileu foi a gota d’água. Ao ver suas próprias palavras reproduzidas no livro e precisando demonstrar seu pulso firme, Urbano iniciou o processo que levou Galileu à sua prisão perpétua domiciliar. O processo de abandono do cliente pelo seu mecenas é conhecido por “queda do favorito”. Galileu, no final, sofreu pelo mesmo sistema que o havia lhe dado tudo o que tinha.

Corroboração sem dados.
Eu sei que a história é longa, mas necessária para entender o porquê o artigo da Nature não só não traz nenhuma novidade para a história da ciência, como é permeado por anacronismos que não deveriam ser feitos de forma alguma.

O fato é que Galileu já era copernicano antes mesmo de ter criado seu famoso telescópio. Ao contrário do que o artigo faz parecer, não foram suas observações que o levaram a defender o heliocentrismo. Da mesma forma, as observações feitas por Galileu também não poderiam levá-lo a defender o sistema tychonico.

Isso por que ambos os modelos, o de Copérnico e o de Tycho Brahe, eram equivalentes e resolviam os grandes “buracos” do sistema de Ptolomeu. Com efeito, com os dados adquiridos na época, seja lá por qual meio, não era possível escolher qualquer um dos dois modelos como correto.

Para piorar, Tycho Brahe era considerado o maior astrônomo da época, com um castelo construído em uma ilha recheado de aparelhos de precisão para estudar os movimentos dos astros. Copérnico era só um padreco muito pouco conhecido.

A despeito disso, não podemos ser anacrônicos e olhar para uma época pré-ciência usando a metodologia moderna. Os dados que confirmavam o heliocentrismo pouco importavam para Galileu. O que ele buscava era a unificação entre o céu e a Terra. Seus trabalhos em mecânica, de longe as maiores contribuições que ele deu para a ciência, estão em completa harmonia com o fato, haja vista o método que ele usou para levá-los a cabo, completamente incompatível com os métodos aristotélicos da época.

Dizer que Galileu escondeu os problemas do heliocentrismo, ou que defendia Copérnico apesar de suas observações não corroborarem com o sistema não é só errado, é grosseiramente errado.

Bibliografia

Biagioli, Mario. Galileo, Courtier: The Practice of Science in the Culture of Absolutism. Chicago: University Of Chicago Press, 1993.

Biagioli, Mario. “Galileo the Emblem Maker”. Isis, vol. 81, no. 2, 1990, p. 230-258.

Gingerich, Owen. ” ‘Crisis’ versus aesthetic in the Copernican Revolution”. Vistas in astronomy, vol. 17, 1975, p.855, reprinted in The eye of heaven: Ptolemy, Copernicus, Kepler (New York, American Institute of Physics, 1993.

Moss, Jean Dietz. “Galileo’s Letter to Christina: Some Rhetorical Considerations”. Renaissance Quarterly, vol. 36, no. 4, 1983, p. 547-576.

Pedersen, Olaf, “Galileo and the Council of Trent: The Galileo Affair revisited”, Journal for the History of Astronomy, 14 (1983) 1-29.

Segre, Michael. “The Role of Experiment in Galileo’s Physics”. Archive for History of Exact Sciences, 1980, vol. 23, no. 3, p. 227-252.

Westfall, Richard S. “Galileo and the Telescope. Science and Patronage”. Isis, 76 (1985) 11-30.

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8º ICHSSE – Catalisador de revoluções?

Muitas pessoas – e acho que eu arrisco dizer a maioria das pessoas – têm uma dificuldade muito grande para entender e aprender Ciências. Todos aqueles nomes complicados da Biologia, as dezenas de fórmulas da Física e a abstração demasiada da Química dão um verdadeiro nó na cabeça. Por que isso acontece?

Essa é uma pergunta nem um pouco fácil de se responder, e existe uma área de pesquisa relativamente recente que se dedica a responder essa pergunta, entre algumas outras. Esse campo de pesquisa em Ensino de Ciência vem crescendo bastante nos últimos anos, alguns pesquisadores vêm se destacando e, melhor do que isso, começando a ser ouvidos. Como toda área de investigação, ela se divide em sub-áreas, que, por sua vez, também têm suas ramificações, e cada uma dessas “sub-sub-áreas” tenta abordar a questão por uma perspectiva diferente, cada um puxando a sardinha pro seu lado e etc. Enfim, todo aquele ritual que faz o conhecimento crescer.

Dentro da problemática do motivo das pessoas terem tanta dificuldade em entender Ciências, eu simpatizo muito com a idéia de que falta contexto no ensino. Aos alunos chega, via livro didático e professor mal pago, somente o produto acabado da Ciência – como se algum produto da Ciência fosse de fato acabado –, totalmente fora do seu contexto de produção. O rico processo de construção do conhecimento fica obscurecido por trás dos “grandes gênios da Ciência” que “fizeram tudo sozinhos”.

Decore todas as fórmulas e conceitos pra passar nas provas; esse é o nosso ensino de Ciências. Assim fica mesmo difícil aprender alguma coisa. Como aprender um conceito sem ter idéia de sua aplicação e de sua história? Esse ensino que consiste no professor dando respostas prontas pra perguntas que o aluno não fez simplesmente não dá certo. O professor repete as coisas que estão no livro didático, que por acaso são coisas que o aluno não está nem um pouco interessado em aprender.

Por essas e outras razões, acredito que deva haver uma mudança radical no ensino, mas radical em longo prazo; ela na verdade aconteceria aos poucos, um passo de cada vez. E um dos primeiros passos seria a inclusão da História e da Filosofia da Ciência no ensino. Não uma inclusãozinho de leve, com 2 ou 3 aulinhas sobre o tema. Falo de um verdadeiro mergulho na História da Ciência, que iria encharcar todas as aulas com contexto. O problema é que isso que para mim é apenas um primeiro passo já é visto como algo radicalíssimo por muitos, isso sem contar aqueles (que não são poucos), que acham que a História e Filosofia da Ciência não servem pra nada.

Realmente há muitos obstáculos par a implantação dessa idéia, e talvez o principal deles seja a falta de discussão sobre o tema, pelo menos no Brasil. Se a área de pesquisa em Ensino de Ciências é recente, no Brasil ela é ainda mais nova, com pouquíssimos pesquisadores. Dessa forma, esse tipo de discussão caminha em marcha muito lenta por aqui, e eu estou falando da academia. A transposição para a escola é outra história.

Por isso, fiquei muito feliz ao saber que esse ano, em Maresias, ocorrerão dois eventos, um em seguida do outro, que certamente vão catalisar as discussões sobre a inclusão da História e Filosofia da Ciência no ensino por aqui. Os eventos são a 8ª Conferência Internacional para a História da Ciência no Ensino de Ciências (8th ICHSSE) e a 1ª Conferência Latino Americana do Grupo Internacional de História, Filosofia e Ensino de Ciências (1ª HPTS-LA).

Os eventos são só em agosto, mas as expectativas já estão altas. As minhas, pelo menos. Não sei, talvez seja empolgação demais por um congresso que vai ser como qualquer outro, mas não se pode julgar alguém por sonhar, não é? O congresso é em agosto, as eleições em outubro. Quem sabe…

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Kepler, o salvador.

Galileu Galilei é sempre lembrado como um dos maiores cientistas da história. Suas contribuições para a física foram importantíssima, assim como sua habilidade de artesão. Não raro se atribui a ele a construção do primeiro telescópio, o que não é bem verdade.
Na realidade o instrumento em si já existia.

O que Galileu fez foi aperfeiçoar e, em um pensamento muito feliz, apontá-lo para o céu. Ao fazê-lo, acabou por observar três das quatro luas de Júpiter. A quarta só pode ser observada um pouco mais tarde.

Com estas observações feitas Galileu escreveu seu livro Siderius Nuncius, oferecendo a descoberta ao seu futuro mecenas, Cosimo de Medici. O que nem sempre se divulga desta história é que pouca gente acreditou que as luas de Júpiter realmente existiam.

O ato de usar um instrumento para observar o céu era, na época, uma ideia estranha demais. Além disso, nem todos que tiveram acesso a um dos telescópios de Galileu conseguiram fazer as mesmas observações que ele. Mesmo os que conseguiam, por vezes, acreditavam que as luas não passavam de um truque visual produzido pelo aparelho.

A ajuda que Galileu precisava veio de um outro matemático. Kepler, que recebeu um telescópio e uma cópia do Siderius Nuncius, não pode deixar de ficar maravilhado. Escreveu Dissertatio cum Nuncio Sidereo, um comentário sobre as descobertas das luas de Júpiter e as implicações que isso trazia. Mas ainda mais importante, escreveu o Dioptrice.

Neste livro Kepler formula toda a base teórica que Galileu precisava para a legitimação do telescópio. É nesta obra que ele estuda lentes divergentes, convexas e côncavas, além de melhorar o instrumento propondo o uso de duas lentes convexas. Curiosamente Galileu nunca retribuiu o favor comentando qualquer trabalho de Kepler, ainda que o alemão tenha tido o cuidado de enviar suas obras ao italiano.

O caso é curioso no entanto para demonstrar que, em determinadas ocasiões, é preciso mais do que ver o fenômeno para acreditar nele. São os raros casos aonde a imagem vale menos do que mil palavras.

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Observação, teoria e experiência.

Alexandre Koyré foi um dos gigantes da história e filosofia da ciência. Seu trabalho foi fundamental para a estabelecer a revolução científica com o ponto central da história da ciência, além de romper com a narrativa positivista da primeira geração de historiadores.

Um dos pontos curiosos do trabalho de Koyré é a radical importância que ele dá à precedência da teoria sobre a experiência. Com efeito, Koyré chegou a afirmar que face ao papel da teoria, a experiência é inútil.

Essa posição é particularmente notável em seus trabalhos sobre Galileu, e desencadeou uma série de outros tantos trabalhos por outros tantos pesquisadores que passaram a averiguar se os experimentos descritos por cientistas do passado eram de fato possíveis de serem feito à época, ou apresentavam os resultados descritos.

Alexandre Koyré

Alexandre Koyré

A relação entre teoria e experiência é sempre complexa, especialmente quando tentamos estabelecer uma “sequência” entre uma e outra, como fez Koyré. Gostamos de pensar que a ciência é feita seguindo um script comum. Observamos um fato, produzimos uma teoria e testamos esta teoria através de uma experiência qualquer.

Mas em geral as coisas não são tão esquemáticas assim. Estas três etapas da ciência se misturam de formas nem sempre claras. Por vezes a observação depende de um objeto que só pode ser construído por conta de uma teoria. Por vezes teorias são feitas a partir de experimentos. Por vezes, pulamos completamente a observação, teorizando estruturas que não podem ser observadas por nenhum meio conhecido.

A história da ciência mostra que Koyré acertou algumas vezes. De fato, alguns experimentos descritos jamais poderiam ter sido feitos ou apresentado os resultados pelos quais são conhecidos.

Mas será que a ciência moderna, com todo o seu pretendido rigor, está livre de teorias fundamentadas unicamente por experimentos mentais? E se este não for o caso, será que devemos considerar tais experimentos prejudiciais?

Talvez estas respostas só possam ser dadas no futuro, quando a ciência moderna já tiver virado história.

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Empreendimento temporário?

Certa vez, e várias vezes depois dessa, eu li que o conhecimento científico é somente mais um tipo de conhecimento humano, e que não deveria haver valorações, ou seja, não deveríamos considerar o conhecimento científico melhor (ou pior) do que os outros tipos de conhecimento humano, como o religioso, o do cotidiano, a sabedoria popular, etc. “Há, até parece! O cara que escreveu isso deve ser um criacionista lazarento!”, pensei eu na primeira vez que li isso. E na segunda. E na terceira. De certo na quarta também. Talvez na quinta e na sexta. Enfim, entender isso foi um processo lento e doloroso, e até hoje me pego de vez em quando pensando que a Ciência é a melhor.

Thomas Kuhn, o grande filósofo dos paradigmas e das revoluções, me ajudou a entender isso, mas eu tive que extrapolar a teoria dele um pouquinho para isso. Tive que tirar ela da Ciência pra perceber que existem paradigmas também na sociedade; existem idéias e valores que permeiam a forma de pensar das pessoas de uma maneira tão íntima que parecem imutáveis e atemporais. Essa noção de que o conhecimento científico é melhor que os outros tipos de conhecimento é um desses paradigmas, e para entender como ele surgiu temos que voltar no tempo até uma época em que as coisas eram bem diferentes: a Idade Média.

Nessa época, a Ciência era um empreendimento secundário e muito mal visto. Os corajosos que se atreviam a dar explicações científicas para os fenômenos naturais iam parar na fogueira. A sociedade era altamente religiosa, e religiosa de uma forma que não conseguimos imaginar. Aquela sua avó que vai à missa todo dia e reza o terço três vezes por semana seria quase herege nesse tempo. Estamos falando de pessoas que procuravam na bíblia a explicação para todos os fenômenos. A palavra de Deus era a palavra de ordem, e se você sequer se sentisse inseguro por um momento para acreditar nisso, a brasa da fogueira estava quentinha te esperando.

“Nossa, mas que tempos horríveis!” “Como a igreja era má!” “Essas pessoas tinham o pensamento muito limitado!” Tudo isso é verdade, ou ao menos parece verdade, quando olhamos pra Idade Média com os olhos de nossa época. Mas temos que nos atentar para o fato de que, naquela época, isso tudo fazia muito sentido. Chegaremos lá.

Hoje em dia vivemos na era da informação, da tecnologia, da Ciência. Explicações não científicas para qualquer fenômeno são mal vistas, quando não ridicularizadas. Nem mesmo os valores morais conseguem barrar a Ciência. Cientistas se juntam num navio e vão para águas internacionais (onde não há lei) para fazer experimentos com embriões humanos e ninguém está nem aí. Quem não sabe mexer num computador é excluído da sociedade, e as culturas que pensam e vivem de forma diferente (indígenas, aborígenes, etc.) são vistas como artefatos exóticos, que devem ser preservados com o único intuito de entreter-nos.

“Nossa, mas que tempos horríveis!” “Como os cientistas são maus!” “Essas pessoas têm o pensamento muito limitado!”. Os tempos são outros. Os inquisidores agora somos todos nós, que “jogamos na fogueira” todo mundo que acha que a Ciência não vai salvar a humanidade.

Tudo isso faz muito sentido se olharmos o lado histórico da coisa. Na Idade Média, estávamos no feudalismo. Existiram grandes impérios, cada um com seu respectivo Rei. O Rei era considerado um representante de Deus na Terra. Ora, me parece que faz todo o sentido ter uma população extremamente religiosa quando o comandante é considerado um representante divino, não?

Hoje em dia, vivemos o ápice do capitalismo. Não existem mais Reis. Os poucos que ainda sobraram são meras figuras ilustrativas, que não governam sem seus parlamentares. Nosso “rei” é o capital; vivemos em função dele. Curiosamente, a “revolução científica” que aconteceu no final da Idade Média, e que consolidou a Ciência como a forma mais adequada de pensar o desconhecido, coincide com a ascensão da burguesia como classe dominante – início do capitalismo. Ora, a religião é algo que todos, ricos e pobres, negros e brancos, têm acesso. A Ciência não. Se você quiser entender a Ciência, você vai ter que gastar bastante dinheiro. Seja pelas taxas de museus, seja pelos cursos de Ciências, seja pelos preços abusivos das revistas científicas, o acesso à Ciência é restrito a quem está disposto a pagar. Se temos que pagar, vira negócio, e negócios dão lucro. Como o lucro é o fundamento básico do capitalismo, a legitimação do conhecimento científico como o mais verdadeiro interessa muito para o sistema capitalista.

Não estou dizendo que devemos parar de investir no conhecimento científico por que isso ajuda o capitalismo e o capitalismo é ruim. Não escrevi esse texto com intenções comunistas; escrevi-o para gerar uma reflexão. O que é verdade dentro da Ciência muda o tempo todo, todos sabemos disso, isso é mais ou menos fácil de entender. Não tão óbvio é o fato de que a Ciência nem sempre foi legitimada como a melhor forma de pensar. A definição do que é verdade é construída socialmente, e isso é bem difícil de entender, por que para isso temos que reconhecer que vivemos num paradigma burguês. Pense nisso.

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Crodowaldo Pavan e o projeto Roda Viva Científico

A ciência, especialmente a genética, brasileira está de luto com o falecimento do Prof. Crodowaldo Pavan no dia 03/04/2009. O irreverente e obstinado pesquisador, autor de inúmeras contribuições científicas e políticas tanto quanto de observações provocadoras e desconcertantes em reuniões científicas ou declarações à sociedade, contava aos alunos de divulgação científica que nunca temeu estar errado! com a graça irônica de um vovô esperto que sorria ao lembrar-se de seus adversários científicos, que o colocaram, como bem lembrou o Thiago aí embaixo, dando três voltas no Mundo até acreditarem em seus cromossomos politênicos.

1998. Congresso da Sociedade Brasileira de Genética. Após exposição da Prof. Lygia da Veiga Pereira sobre clonagem, Pavan pega o microfone e diz alto e em bom tom, para a indignação dos demais geneticistas brasileiros. “Eu não vejo problema algum em um casal querer fazer clonagem para renascer um filho morto!”

Geração parental na minha formação científica me enchia de orgulho quando, ao freqüentar o Núcleo José Reis de Divulgação Científica, eu percebia que em seus discursos havia um tanto daquilo que eu havia aprendido com seu F1 Pedro Henrique Saldanha, meu orientador do mestrado. Era um cultivo ao entusiasmo romântico da ciência, de uma época na qual os valores éticos e morais eram muito mais sólidos, em que ser doutor e publicar era conseqüência e não uma necessidade anti perecimento na academia. Não é a toa que neste heredograma se expressa dominantemente a experiência do filme A história de Louis Pasteur – “Façam o que vocês gostam de fazer!”
“Glória, os textos dos alunos tem que entrar no livro!”

2007. Núcleo José Reis de Divulgação Científica. Ouço Pavan contar a mesma história, em duas ocasiões diferentes, fazendo a graça indescritível de balançar a cabeça imitando o diretor da Rockfeller. “Fui apresentado ao diretor da Fundação Rockfeller como sendo um bom pesquisador brasileiro. Ele me pediu que fizesse uma lista de materiais necessários para criar laboratórios de Genética Humana no Brasil. Pedi um microscópio e algum material de consumo. O homem olhou e disse que aquilo não era possível, para eu pedir mais. Fiz outra lista, sempre com a preocupação de não pedir demais e ficar sem saber explicar onde usei depois. Prá encurtar a história, o diretor resolveu que tudo bem só aquilo, mas nunca negou absolutamente nada do que pedi posteriormente. E com esta verba foram construídos os primeiros laboratórios de Genética Humana no Brasil.”

Na conversa com o Prof. Laércio Elias Pereira, surgiu a idéia de fazer o que chamamos inicialmente de “Projeto Roda Viva Científica”. Os Profs. Osmir Nunes e José Arbex Jr. incentivaram a proposta. Laércio mirou na TV Cultura.

01/07/2008.“Caro Professor Laércio, a pedido do nosso presidente, Paulo Markun, vamos marcar uma conversa. (…) ligue-me tão logo seja possível e assim combinaremos o encontro aqui na TV Cultura. Um abraço Pola Galé.”

Na reunião, da qual o próprio Prof. Pavan também participou, foi combinado que a TV Cultura elaboraria um projeto e nos retornaria em breve, mas apesar da minha insistência em atormentar a Sra. Shizuca, secretária do Sr Pola Galé, o projeto nunca aconteceu.

Lamentavelmente, não é possível compartilhar aquele olhar como queríamos, contando com toda aquela graça os caminhos que ajudou a trilhar na genética humana brasileira em primeira pessoa. Retumba na cabeça a lembrança de vê-lo descendo as escadas ignorando a própria dificuldade e o elogio “Muito boa a idéia de fazer este projeto e de termos vindo até aqui! Parabéns!” Será que eles vão mesmo topar fazer? “Se vão não sabemos, mas a nossa parte nós fizemos!”

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Nota de falecimento: Crodowaldo Pavan

Em 2007, quando comecei a fazer a pós em Divulgação Científica do Núcleo José Reis de Divulgação Científica, tive o prazer de conhecer pessoalmente o professor Crodowaldo Pavan (1/12/1919 – 03/04/2009). Aquele senhorzinho franzino, conservava um cérebro afiadíssimo. Sempre simpático com os alunos, sempre  disposto a conversar com todos.

Era conhecido pela força de suas opiniões, frequentemente polêmicas. Era, afinal, um grande exemplo de como um cientista deve realmente ser. Até os últimos dias questionador, curioso, engajado. Muito diferente da maioria dos cientistas de hoje, sempre preocupados demais com seus egos e currículo Lattes para poderem realizar um trabalho científico realmente interessante.

Pavan foi um dos maiores cientistas Brasileiros. Como ele, restam muito poucos. Sentiremos saudade do homem que sempre empolgado contava em como deu a volta ao mundo três vezes divulgando seu trabalho.

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