PET: nova técnica para diagnóstico e estadiamento de tumores

As células de um tumor possuem sabidamente um metabolismo mais acelerado e, consequentemente, um maior consumo de glicose que as células normais. Aproveitando-se destas suas características, é possível realizar um exame para detectar um tumor através de sua atividade metabólica. Este exame é o PET, ou tomografia por emissão de pósitrons.
A técnica consiste em administrar ao paciente um análogo da glicose marcado com Fluor 18. Este radiofármaco (FDG fluor 18) entra na célula por transporte ativo e é transformado em FDG-6-fosfato pela enzima hexoquinase. Só que, ao contrário da glicose, ele não segue a via glicolíca e acumula-se no interior da célula. As que possuem metabolismo mais acelerado (como as tumorais) apresentarão portanto maior acúmulo deste radiofármaco.
O Fluor 18 é um material radioativo e ele emite um pósitron (a antiparticula do elétron) que, ao interagir com um elétron, sofre um processo de aniquilação e emite dois fótos de 511Kev em direções opostas. Estes fótons são captados pelo detector de um aparelho que é capaz de transformar estas informações em imagens.
Suas indicações são inúmeras, mas ele é especialmente útil em pacientes que foram submetidos a tratamentos de radioterapia, pois nestes casos existe tanta alteração anatômica que a Tomografia computadorizada não é capaz de diferenciar o que é doença ativa do que é cicatricial.
O estágio de um tumor é que determina qual o melhor e mais eficaz tratamento a ser administrado ao paciente, e também no estadiamento o PET é mais sensível e específico que a TC, pois a TC avalia a forma e não a função. Assim, um paciente com linfoma que apresenta linfonodos doentes porém de tamanho ainda reduzido pode não ser diagnosticado numa TC, mas certamente o será pelo PET.
Avaliar a resposta ao tratamento também é uma de suas indicações, pois ele é o exame que mais rapidamente mostra a resposta ou ausência desta ao tratamento quimioterápico, podendo inclusive indicar se uma quimio deve ser trocada por outra mais efetiva e permitindo deste modo, resultados mais positivos.vMuitas pessoas têm chamado o PET de biópsia não invasiva, devido à sua sensibilidade em detectar atividade metabólica de um tumor.
Claro que, como já comentado em outro post, nenhum exame é isento de limitações e por isso o PET como qualquer teste diagnóstico também deve ser bem indicado. Um tumor que apresente crescimento lento, metabolismo baixo e tenha células bem diferenciadas não é uma boa indicação pois suas células não serão ávidas pelo consumo da glicose marcada. Este é o caso do tumor papilífero de tireóide e do mieloma múltiplo.
Outro cuidado ao se analisar o PET é não confundir doença infecciosa/inflamatória com neoplasia em atividade, porque como todos os processos infecciosos apresentam um aumento de fluxo sanguíneo e metabolismo no local, isto causa também um aumento de captação do FDG sem que  signifique a presença de neoplasia ativa. Grandes exemplos são a tuberculose e a doença fúngica pulmonar que podem ser confundidas com neoplasia pulmonar (esta sim uma das grandes indicações do PET).

E como em países em desenvolvimento a tuberculose (e suas sequelas) são extremamente comuns, esta é uma limitação do estudo.
Apesar de suas limitações, o PET vem se firmando como uma ferramenta importante para o diagnóstico, estadiamento e acompanhamento dos pacientes com câncer, principalmente de pulmão, mama, cólon e linfomas. Infelizmente, seu custo ainda é alto (na faixa de 3500 reais) e somente planos de saúde de empresas públicas é que cobrem.
Quando os planos de saúde perceberem que um diagnóstico e estadiamento corretos e precoces diminuem as taxas de internação, recidiva e os custos com tratamentos e cirurgias desnecessárias, certamente passarão a incluir o PET em sua cobertura.

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Exames complementares.

Nos dias atuais, é comum uma pessoa que está doente procurar na internet tudo sobre sua “possível” doença, desde os métodos mais modernos de diagnóstico até os tratamentos mais recentes e já chegar ao consultório médico com uma idéia pré-concebida de como deve ser a conduta clínica. Mas é preciso ter muito cuidado, pois ao contrário do que muitas pessoas imaginam, os exames complementares, exceto em casos especiais, não são essenciais para o diagnóstico da maioria das doenças. O importante para um diagnóstico bem feito e um tratamento bem conduzido é um profissional competente que mantem uma boa relação médico-paciente e um bom raciocínio clínico.
Com o rápido desenvolvimento da medicina que houve neste século, surgiram diversos métodos de diagnóstico de imagem, sorológicos, anatomo-patológicos e começou a haver uma supervalorização dos exames complementares sobre o diagnóstico clínico.
Muitas vezes, diante de um paciente com todos os sintomas para determinada doença, um médico questiona seu diagnóstico devido a um resultado inesperado em algum exame. E também não é incomum ver um paciente que questiona a competência de seu médico após uma consulta onde o mesmo faz o diagnóstico somente pela clínica, sem solicitar nenhum exame.
Os exames complementares são avaliados por sua sensibilidade e especificidade. Sensibilidade é a capacidade de conseguir detectar TODAS as pessoas que possuem determinada doença. Ora, então eu quero um exame totalmente sensível, alguns pensarão agora. Mas para que um exame seja extremamente sensível, alguma coisa será sacrificada. Quando um exame é capaz de encontrar a maioria dos pacientes com determinada doença, alguns pacientes que não tem a doença acabam sendo incluídos no meio dos “positivos”  e, por isso, os exames sensíveis são bons exames de screening. Um exemplo é o ELISA que é realizado no teste anti HIV. Se um exame sensível diz que você é negativo, ótimo, você provavelmente o é. Mas se ele der positivo, ele deve ser confirmado por um outro exame que seja mais específico.
Um exame específico é aquele que é capaz de dar mais “certeza” ao diagnóstico. Ao contrário da sensibilidade, a especificidade fala sobre os exames positivos. Aqui, quando um exame dá positivo, é porque ele provavelmente o é. Um bom exemplo é o western blot realizado para o diagnóstico do HIV.
Voltando ao exemplo do HIV, todos os pacientes são primeiro testados pelo ELISA que é um teste sensível, de screening. No caso do resultado ser negativo, pára-se por aí. No caso do exame positivo, temos que continuar a investigação e, agora sim, usar um teste específico que é o western blot. Ele será capaz de filtrar os verdadeiros positivos e os falso positivos.
Nenhum exame é 100% específico e sensível, e todas as vezes que aumentamos uma destas características, a outra acaba sendo sacrificada. Por isso, mais importante do que fazer o exame mais caro, o mais novo, a tecnologia mais moderna é ter um profissional competente que saiba discernir qual o melhor exame para o seu caso e se realmente há a necessidade de um. Podemos estar na era tecnológica, mas a clínica é e sempre será soberana.

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O que é medicina nuclear?

Você já ouviu falar em medicina nuclear? Em cintilografia? A maioria das pessoas nunca ouviu falar e, quando têm em suas mãos um pedido médico deste tipo de exame entra em pânico: ” NUCLEAR? Vão injetar algo RADIOATIVO em mim? Mas isso não é perigoso?”

Realmente, o nome escolhido para a especialidade foi infeliz, e o termo “medicina molecular” deveria ser usado em substituição ao “medicina nuclear”, pois ele tem mais relação com a técnica. As cintilografias são exames realizados na medicina nuclear que utilizam substâncias marcadas radioativamente para avaliar a fisiologia dos órgãos, ou seja, a função. Enquanto a radiologia vê a anatomia (forma) e daí tira conclusões sobre as patologias, a medicina nuclear avalia diretamente a função dos mesmos.

Mas e a tal da radiação? Apesar do nome assustador, a radiação a que um paciente se expõe durante uma cintilografia, é menor do que a utilizada para a realização de uma tomografia e, dependendo da cintilografia, é menor ainda que a radiação utilizada durante uma radiografia simples de tórax!

Ah…mas e o tal contraste que vão me injetar? A medicina nuclear não utilliza contrastes. Os contrastes são materiais radiopacos que são usados pela radiologia para, como o próprio nome diz, contrastar a imagem. A medicina nuclear utiliza radiofármacos, que são substâncias que interagem molecularmente e que são marcadas por uma substância radioativa (em geral o tecnécio), conseguindo desta maneira avaliar diretamente a função dos órgãos e não inferir sua função através de alterações morfológicas.

Enquanto o aparelho de raio X ou tomógrafo emitem a radiação que vai formar a imagem, na cintilografia quem emite a radiação é a substância administrada ao paciente, a gama câmara apenas utiliza esta radiação emitida para criar a imagem.

Como médica nuclear, me deparo todos os dias com estes questionamentos por parte dos pacientes e pretendo usar este espaço para falar um pouco sobre o que é medicina nuclear, para que ela serve e esclarecer de uma vez por todas: NÃO. OS MÉDICOS NUCLEARES NÃO TRABALHAM NA USINA DE ANGRA  E NEM SERVEM PARA ATENDER VÍTIMAS DE BOMBA ATÔMICAS! NÓS FAZEMOS EXAMES DE IMAGEM QUE AVALIAM A FUNÇÃO DOS ÓRGÃOS! Desculpem pelo desabafo, mas esta pergunta me é feita diariamente pelas pessoas que ouvem qual é minha especialização médica .

Até a próxima.

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