Evolução vs Criação: Três erros básicos.

março, 2008

Segundo Kuhn, paradigmas concorrentes normalmente implicam em uma visão de mundo distinta, de modo que os paradigmas se tornam incompatíveis. Esse processo resulta na chamada “incomensurabilidade”, ou seja, na incapacidade que os defensores de cada paradigma tem em conversarem entre si justamente por lidarem com visões de mundo incompatíveis. Cada paradigma se sustenta por si só, valendo-se de seus próprios pressupostos. Disso resulta que confrontar paradigmas concorrentes não é possível, já que o conjunto de pressupostos de cada um inviabiliza o paradigma oposto.

Se tal processo ocorre entre teorias científicas concorrentes, é de se imaginar que possa ocorrer entre questões não necessariamente científicas. Por vezes penso que é exatamente isso que se passa na velha briga entre a teoria evolucionista e o criacionismo. Trata-se de uma teoria científica baseada nos pressupostos básicos da ciência, contra uma visão de mundo completamente diferente. O resultado do embate é uma série de erros que poderiam ser interpretados tomando como base o pressuposto acima, de que tanto a evolução quanto a criação são paradigmas incomensuráveis.

1º erro: incomensurabilidade epistemológica.

Evolução e criação se sustentam por bases epistêmicas evidentemente diferentes. É de se estranhar portanto a forma como alguns argumentos de ambos os lados são colocados. Neste caso em particular, acredito que o discurso criacionista é o mais incoerente. Em alguns casos a evolução é acusada de ser “apenas uma teoria”. Teoria aqui é utilizada de maneira a sugerir que não existe comprovação da existência real de um processo evolutivo. Curiosamente, alguns criacionistas preferem dizer que a evolução “não é sequer uma teoria”. Neste caso, o argumento aceita a teoria como tendo um “peso” considerável, mas não atribui esse peso à evolução.

O problema é evidente. No primeiro caso, a palavra teoria se baseia em uma epistemologia diferente da empregada na ciência. O termo é mais parecido com o utilizado pelo senso comum, atribuindo um valor de “dúvida” e “incerteza”. Essa argumentação foi utilizada a pouco tempo nos Estados Unidos, quando alguns livros educacionais traziam em suas capas um selo com a mensagem de que a teoria da evolução “é apenas uma teoria”, não tendo sido confirmada. No segundo caso o termo “teoria” é usado de maneira epistemologicamente compatível com a ciência, ou seja, considera-se que o “status” de “teoria” é conferido a uma hipótese compatível com o rigor imposto pelo método científico. No entanto, é negada à evolução o rigor esperado pela ciência. Aqui o erro se encontra no uso de pressupostos criacionistas, e portanto incompatíveis com a epistemologia científica, para desclassificar a evolução.

Do lado evolucionista o erro é, ao menos, consistente. Alega-se que o criacionismo não atende os pré-requisitos necessários para poder ser considerado como uma teoria científica. Embora o argumento esteja essencialmente correto, o criacionismo de fato não pode ser considerado uma teoria científica, o erro está em ignorar que ciência e religião estão fundamentadas em pressupostos incompatíveis. Curiosamente alguns criacionistas tentam realizar o processo inverso, procurando meios de afirmar que o criacionismo é uma teoria científica.

2º erro: realidades incomensuráveis.

Alguns filósofos acreditam que a realidade esta condicionada pela maneira como a sentímos. Em outras palavras, nossos sentidos filtram o mundo com o qual interagimos, tornando a realidade uma espécie de experiência particular. Eu entendo que esse argumento não deve ser extrapolado a extremos. Com efeito alguns fenômenos em particular se repetem com uma freqüência relevante, a ponto de podermos afirmar com certeza absoluta de que aquilo é real. Não da pra questionar a verdade dos movimentos de translação e rotação terrestres, ou a força da gravidade. No entanto, nem tudo é assim.

Os filósofos da ciência em geral aceitam que, por mais que uma teoria resista ao teste dos anos e pareça indicar uma realidade palpável, a possibilidade de estarmos ignorando algum elemento qualquer sobre essa realidade aparente sempre vai existir. Um bom exemplo aqui é pensar no universo relativesco de Einstein, hoje amplamente aceito, mas que se contrapõe diretamente com o universo absoluto de Newton, que era tido como uma realidade factual a alguns séculos.

O erro aqui é buscar uma realidade absoluta por parte de ambos os grupos. O mundo governado por entidades divinas defendido pelos criacionistas, é tão real quanto o mundo extremamente materialista da ciência moderna. Ambos são reflexos da interpretação de mundo condicionada pelos sentidos de grupos de pessoas em particular. Portanto, argumentações que se justifiquem pela existência de Deus, evidentemente são incompatíveis com argumentações de um mundo independente de uma força direcionadora sobrenatural.

3º erro: esferas incomensuráveis.

Tanto a evolução quanto a criação, possuem esferas (ou nichos) particulares de ação. O conhecimento de ambos os paradigmas, bem como todos os pressupostos envolvidos, não é necessariamente um pré-requisito da vida moderna. Com efeito, é possível abdicar completamente da esfera religiosa ou científica, dependendo dos objetivos de vida que se pretende levar. Posso escolher ser um padre e viver em minha paróquia, para tal não preciso necessariamente ter conhecimentos muito específicos sobre ciências. Da mesma forma, um cientista não precisa ter uma vida religiosa.

É claro que ter contato com ambas as esferas, é ideal para um ser humano que deseja ter um conhecimento mais preciso da época em que vive. Conhecer a esfera religiosa não implica em aceitá-la, mas é no mínimo de bom tom ter noção das implicações que esta esfera trás para a sociedade na qual estamos inseridos. Da mesma forma, um religioso convicto deveria ter um conhecimento razoável de ciência.

Neste ponto, o erro é acreditar que qualquer uma dessas esferas não é fundamental para a sociedade ou, por vezes, até prejudicial. Nenhum empreendimento humano é a prova de erros e enganos. Sabemos que tanto a ciência quanto a religião podem beneficiar ou prejudicar as populações humanas. Exemplos não faltam: inquisição, bombas nucleares, antibióticos e recuperação de viciados são exemplos claros dos efeitos adversos do desenvolvimento de ambos os campos do conhecimento.

Se faz igualmente importante respeitar os nichos de cada campo. Criacionismo não deve ser incluído em aulas ou livros de biologia (ou mesmo no currículo escolar), assim como não se espera que teorias evolucionistas passem a fazer parte dos rituais eclesiásticos, de algum evangelho da bíblia ou de algum sermão do pastor. Cada esfera deve se ater ao seu campo específico, cabendo ao indivíduo escolher o quanto experimentar de cada uma.

O assunto é longo e complexo. É muito fácil cometer qualquer um dos erros acima, eu mesmo assumo que já incorri em todos eles. Mas se faz necessário compreender que o debate entre evolução e criação, ou ciência e religião, é um mero capricho do ego de cada grupo. Trata-se da tentativa infeliz de se impor uma visão particular de como o mundo deveria funcionar, sem questionar para todos os que vivem nele se é assim que se deseja que ele seja.

Eu posso afirmar, prefiro um mundo diversificado, a um passeio chato por uma existência monotemática e monoteísta.


Para saber mais sobre:

Evolução
Criação
Método Científico
Thomas Kuhn

Um pouco de fé na ciência.

março, 2008

Com determinada freqüência, algumas pessoas costumam dizer que acreditar na ciência é um ato de fé. Um ato de fé talvez comparado ao ato de acreditar em um Deus, ou um santo. O curioso é constatar que este pode ser um pensamento comum mesmo aos cientistas. Não tão curioso é o uso do termo fé de maneira pejorativa, muitas vezes até por pessoas religiosas, de modo a diminuir a importância da ciência.

Segundo o dicionário, o termo fé poderia ser utilizado em ciência em pelo menos duas acepções. Como em confiança absoluta em alguém ou algo, ou como comprovação de um fato. Embora o próprio método científico evite “confianças absolutas”, com efeito é possível atestar esse tipo de fé para alguns casos em particular. Por exemplo, no que diz respeito à gravidade, quem seria capaz de questionar que ao soltar uma pedra no ar ela vai, irremediavelmente, cair ao chão? Ainda tomando a gravidade como base, é possível estabelecer a velocidade de queda dessa pedra, bem como sua trajetória. A mecânica clássica é um campo científico capaz de prever esse tipo de informação com uma precisão tão assustadora, que podemos confiar em seus resultados de maneira absoluta.

De maneira análoga, e partindo dos mesmos princípios, muitos são os casos aonde é possível comprovar um fato. Embora neste sentido de fé as ressalvas sejam maiores, alguns fenômenos são tão bem conhecidos e estudados que, de certa forma, é possível dizer que foram comprovados. As ressalvas ficam por conta da impossibilidade de se dizer que sabemos tudo a respeito de um objeto de estudo.

O que me intriga de verdade é o uso da palavra fé, em sua forma pejorativa. É estranho observar que muitas vezes, essa fé pejorativa se sustenta no conceito de “fé cega”. Ou seja, de uma fé que se sustenta pela força da crença do fiel, ainda que não possa ser respaldada por qualquer tipo de observação ou teste. Com efeito, esse tipo de fé é melhor observado em pessoas religiosas, e neste contexto, eu nem atribuiria uma forma pejorativa para essa fé.

No entanto, essa fé religiosa é usada com certa regularidade para atingir o empreendimento científico. Neste contexto pode-se dizer que ela passa a ser pejorativa, já que deprecia a qualidade investigativa da ciência. É importante lembrar que a ciência não é feita de dogmas imutáveis, produzidos de maneira arbitrária e sem qualquer rigor. O que não falta à ciência é rigor, seja pelo racionalismo de Descartes, seja pelo empirismo de Locke, Berkeley e Hume.

Diminuir a ciência a uma atividade guiada pela crença irresponsável, ou que não necessita de bases sólidas, é ignorar tudo o que foi construído desde o renascimento.

Os 22 paradigmas de Thomas Kuhn.

fevereiro, 2008

Muitas vezes pode parecer incongruente, mas a ciência muda. Não são raros os momentos em que teorias muito bem estabelecidas, são completamente abandonadas em detrimento de outra. Da mesma forma, outras tantas teorias são fortemente modificadas com o decorrer dos anos, de modo que tornam-se substancialmente diferentes do que eram originalmente. Essa aparente falta de firmeza nas idéias científicas, contrasta diretamente com a visão popular de que a ciência é um empreendimento de verdades e certezas. Não é.

O físico Thomas Kuhn dedicou parte de sua vida tentando entender esse movimento transformador da ciência. Em 1962 Kuhn publicou “A Estrutura das Revoluções Científicas”, um ensaio polêmico que usava uma abordagem histórica para defender que a ciência gera paradigmas que, eventualmente, são substituídos por outros no decorrer do desenvolvimento científico. Mas vamos entender melhor essa questão.

A definição de paradigma de Kuhn gerou confusão quando da publicação da primeira versão do livro. Com efeito, uma leitora chegou a dizer que o termo é usado de 22 maneiras diferentes. Kuhn no entanto só admitia dois significados principais. Neste texto iremos abordar apenas um significado. O paradigma é um modelo de mundo que compreende o conjunto de teorias que buscam explicar os fenômenos estudados.

Neste caso o que um paradigma faz é estabelecer algumas questões sobre o mundo físico que são então investigadas na tentativa de se encontrar respostas. No entanto, um paradigma parece nunca conseguir responder todas as questões que propõe. A ciência não é um empreendimento de respostas. Quanto mais sabemos sobre determinado fenômeno, mais questões surgem. Isso não é exatamente um problema, ao menos não inicialmente. Esse processo investigativo é o que Kuhn chamou de “ciência normal”, ou seja, o período aonde determinados paradigmas são aceitos e investigados.

O que se passa é que o número de questões, ou anomalias, que não podem ser resolvidas com o paradigma estabelecido atinge níveis críticos, é o início do período conhecido por “crise”, aonde novos paradigmas tentam responder de maneira mais eficiente as questões que o paradigma aceito não consegue responder.  O período de crise é marcado pela divisão da comunidade científica entre o paradigma aceito e o paradigma em ascensão. Eventualmente o paradigma em ascensão ganha a preferência e substitui o antigo, é o momento que Kuhn chamou de “revolução científica”.

É evidente que eu resumi bem o núcleo do trabalho de Kuhn. Em geral o processo de ascensão e queda de um paradigma é complicado, leva tempo e gera discussões infindáveis. Quando um novo paradigma é proposto, em geral não é bem aceito pela comunidade científica. A razão, segundo Kuhn, é o comprometimento com o paradigma estabelecido. Quando anomalias são detectadas, os cientistas não tendem a considerar a questão como um problema no paradigma. Buscam adequar a anomalia ou simplesmente a ignoram como um fator que não pode ser melhor estudado no momento. No entanto, o acumulo constante dessas anomalias podem gerar o descrédito do paradigma, o que em geral ocorre nos cientistas mais jovens e menos comprometidos com o modelo de mundo estabelecido.

Kuhn ainda defende o que ele chamou de “princípio da incomensurabilidade”. O princípio define que paradigmas diferentes estabelecem uma visão muito distinta de mundo, de modo que não podem ser comparados. Isso não significa que o novo paradigma é melhor que o anterior, apenas estabelece que eles são em geral incompatíveis. No entanto, se o paradigma em ascensão não é necessariamente melhor que o paradigma já estabelecido, qual a justificativa para a substituição do velho paradigma pelo novo?

As razões são as mais variadas. Eventualmente o novo paradigma pode responder com mais eficiência um número de questões maior que o anterior, ainda que não responda parte das questões já resolvidas pelo velho paradigma. É um processo curioso, aonde parte do conhecimento já conquistado é abandonado. O novo paradigma, ainda que não resolva tantas questões quanto o anterior, pode responder questões que tenham maior prioridade para a ciência. Essas prioridades mudam de acordo com a sociedade e época, de modo que o novo paradigma pode ser substituído no futuro por um velho paradigma.

É justamente este ponto das idéias de Kuhn que provoca desconforto em alguns membros da comunidade científica. É possível imaginar que o empreendimento científico é arbitrário, escolhendo seus modelos de mundo não por sua capacidade em explicar os fenômenos estudados, e sim por conveniência ou por interesses. Mas isso não é bem verdade, mudar de paradigma não é como trocar de posição política.

Uma analogia melhor seria dizer que mudar de paradigma é como escolher uma nova ferramenta para realizar um velho trabalho.

Autonomia e Neutralidade Científica.

dezembro, 2007

Os mais diversos métodos científicos, mais notadamente os positivistas e os racionalistas, com frequência defendem que a ciência deve ser autônoma, neutra e imparcial. O filósofo Hugh Lacey possui uma série de ótimos ensaios sobre o tema, e uma proposta bastante particular sobre a ciência moderna. Lacey também diz que destes três valores, apenas a imparcialidade ainda é mantida.

Para compreendermos o raciocínio de Lacey é preciso antes entender como ele define os três valores. A imparcialidade diz respeito aos meios em que teorias científicas são escolhidas ou priorizadas em detrimento de outras. Essa seleção de teorias é feita através de um método bem definido, que elege uma série de critérios e que são a base da seleção das teorias. Como todas as hipóteses e teorias devem se enquadrar a este método e satisfazer seus critérios, o processo torna-se imparcial. A neutralidade se refere aos valores externos ao método científico. Valores sociais e morais, por exemplo, não deveriam afetar as ações da ciência. Uma descoberta científica ou uma pesquisa qualquer não deve beneficiar interesses e valores. Em tese a ciência não tende para o bem ou para o mal, tende para o neutro. A autonomia atesta que cabe a ciência decidir suas próprias prioridades e seus próprios meios.

Pela breve explicação acima é possível chegar a certas conclusões. De fato a imparcialidade parece estar garantida. Não importa qual método científico seja mais aceito, nem mesmo importa que ele deixe de ser aceito em detrimento de outro, as escolhas das teorias científicas sempre serão baseadas em critérios fixos estabelecidos pelo método. Tal processo garante a imparcialidade.

Já a neutralidade esta bastante comprometida. Na verdade, acredito que a neutralidade só é possível epistemologicamente. quando chega ao plano de aplicação seu conceito simplesmente não se enquadra ou não é obedecido. É primeiro preciso lidar com os valores morais, éticos e culturais do próprio cientista. Esses valores não são universais normalmente indissociáveis do indivíduo. ora, um cientista não irá realizar pesquisas que vão de encontro ao seus valores, ao menos não por vontade própria.

A autonomia científica passa pelo mesmo processo de comprometimento. O cientista não desenvolve suas pesquisas de forma independente, sofre influencia de pressões sociais e interesses comerciais. Problemas que acometem a espécie humana, como doenças pandêmicas (AIDS, gripe aviária), com efeito provocam uma pressão social para a busca pela solução do problema. Da mesma forma, interesses comerciais acabam guiando a ciência em direções específicas. Todo cientista precisa de financiamento, e ninguém financia nada que não irá trazer retorno financeiro. As pressões sociais e as limitações de financiamento acabam por limitar a autonomia da ciência.

Devemos observar que a epistemologia de Lacey permite o confrontamento de suas definições com a aplicação em um “mundo real”, e desta capacidade de confrontamento que vem o apelido de “epistemologia engajada”.

Em todo caso, é importante lembrar que a ciência é uma atividade humana como qualquer outra. Não se trata de algo especial, trata-se apenas de uma maneira de entender o mundo físico e de como interagir com ele.

Mais um pouco sobre raças.

novembro, 2007

Este tema já foi discutido aqui, e por isso mesmo deixo a simplicidade de lado e me aprofundo um pouco mais no assunto. Recentemente tivemos a infeliz declaração do Dr. Watson, que alegou que os africanos são intelectualmente inferiores que o resto do mundo, justificando tal afirmação usando a genética. Tal declaração reacendeu uma série de discussões sobre o papel da ciência na origem do racismo. Alguns, menos honestos e mais apressadinhos, logo se adiantaram a dizer que o racismo é filho da ciência, esta mãe solteira e prostituída que agora nega sua própria cria.

Evidente que no “mundo ideal” destas pessoas é muito simples atribuir à uma única atividade humana, aquela que mais os incomoda por uma série de questões, um problema que, no mundo real que esta longe de ser o “ideal”, possui raízes muito mais profundas. Mas antes de entrar nesta discussão, vamos dar uma olhada rápida no passado, presente e futuro do conceito de raças para à ciência.

Um pouco de história antiga

Classificar a biodiversidade do planeta não é uma atividade recente. O primeiro sistema de classificação que se tem notícia é o de Aristóteles, que separava os animais em grupos de acordo com o local em que viviam (terra, água e ar). Desde então ficou clara a importância de se classificar os animais de forma a facilitar o estudo da imensa biodiversidade do planeta.

O processo de classificação mudou muito desde Aristóteles, especialmente entre os séculos XVII e XVIII. Foi durante esse período que a sistemática atual ganhou corpo com o trabalho de Lineu, que desenvolveu a nomenclatural binominal que é usada até hoje. Lineu também foi o responsável pela construção da hierarquia que divide os animais em reinos, filo, classe, ordem, família, gênero e espécie.

Cada divisão dessas é conhecida como táxon. Era a análise morfológica, ou seja, a comparação de características físicas dos animais que levava os cientistas da época a determinarem em que táxon cada um se enquadrava. Mas as dificuldades logo surgiram. Algumas animais pareciam se enquadrar em mais de um táxon, enquanto outros pareciam não se enquadrar em nenhum.

Com isso foram sendo criados subtáxons, que funcionavam como uma espécie de “gambiarra” de sistematização. Não demorou para um táxon em particular, o que definia a espécie dos animais, ganhasse um subtáxon conhecido como subespécie. É importante notar que em algum momento da história, o conceito de subespécies e raça acabou se misturando.

A princípio a palavra raça definia apenas as diferentes variedades comerciais de alguns animais como cachorros, pombos, cavalos e etc. No entanto, logo subespécies e raças se transformaram em sinônimos, dando ao termo raça uma espécie de embasamento científico diretamente relacionado à sistemática.

Com o conceito de raças mais ou menos estabelecido, alguns cientistas da época, incluindo Darwin, acabaram por separar as populações humanas em raças. A divisão era feita, como tudo na época, por comparação morfológica e foi essa divisão que deu origem à divisão dos humanos em negros, caucasianos e mongolóides.

Um pouco de história moderna

No século XX as coisas mudaram um pouco. Ficou claro para os biólogos modernos que separar os animais por diferenciação morfológica não era mais suficiente. Com frequência haviam enganos e mudanças de classificação. A maioria passou a concordar que a classificação feita por comparação morfológica era muito subjetiva.

O avanço dos estudos em genética, comportamento animal, biologia molecular e muitos outros acabou por definir uma nova forma de classificação. Hoje em dia temos três ciências que cuidam disso, a sistemática, a filogenética e a cladística. A sistemática cuida da organização, criação ou extinção das ordens taxonômicas. A filogenética estabelece as relações evolutivas sobre os organismos na tentativa de melhor agrupá-los nos táxons. A cladística analisa a relação evolutiva dos seres tentando estabelecer sua genealogia.

A genética é parte muito importante neste estudo e ajudou a responder uma série de dúvidas de classificação. Foi a genética que mostrou que o conceito de subespécies era superestimado e que, em geral, nenhuma classificação de subespécies se sustenta.

O índice de fixação

Tal afirmação se baseia no índice de fixação, conceito criado por um geneticista americano chamado Sewall Wrigth. O índice de fixação surgiu de um conceito anterior que estabelecia que, quando da análise morfológica de duas populações, um valor de variação entre 25 a 30% entre elas indicava que eram subespécies diferentes.

O índice de fixação usa o mesmo valor de variação, mas a variação que se compara não é mais entre as diferenciações morfológicas e sim do material genético. Usa-se a fórmula do índice de fixação para se calcular a diferenciação genética entre duas populações e entre indivíduos de uma mesma população. Diferenças genéticas entre 25 a 30% indicam que as populações comparadas pertencem à subespécies diferentes.

A aplicação do índice de fixação entre os seres humanos indicou que as diferenças genéticas não ultrapassam 15%, estabelecendo por fim que não existem subespécies, e portanto raças, entre os seres humanos. A aplicação do índice de fixação em outros animais vem indicando que as divisões em subespécies não encontram embasamento genético.

A comissão Internacional de Nomenclatura Zoológica não estabelece regras para a nomenclatura de subespécie, indicando que a comunidade científica internacional esta de fato abandonando o conceito de subespécies e, portanto, raças.

Um pouco de palpite sobre o futuro

Eu acredito que daqui pra frente a tendencia será ir abandonando aos poucos os subtáxons. Os táxons em si estão passando atualmente por uma profunda reformulação, reenquadrando algumas formas de vida em reinos próprios. A microbiologia e a genética tem papel fundamental nesta reformulação, pois estabelecem formas confiáveis de análise comparativa dos seres vivos. A morfologia não foi totalmente descartada e, muito provavelmente, nunca o será. Mas seu papel foi imensamente reduzido.

Voltando para a discussão do racismo

Aqueles citados acima, os desonestos e apressadinhos que atribuíram o surgimento do racismo à ciência, costumam com frequência ignorar que o empreendimento científico não é um processo dogmático. A ciência erra, e erra muito. Mas aceita seu erro e, tendo completa consciência de que seus processos não são perfeitos e a prova de falhas, com frequência os reformula para refletirem melhor a realidade observada.

Neste sentido, a ciência assume que por um período deu suporte ao conceito de raças na espécie humana. Mas deixa claro que as pesquisas e técnicas recentes desfizeram esse engano. O conceito de raças é hoje marginalizado mesmo nas ciências sociais, aonde se prefere usar o termo etnia para se referir às diferentes populações humanas. Atribuir o racismo à ciência unicamente, é ser desonesto e absolutamente superficial. É ignorar todo um processo histórico e cultural iniciado desde o surgimento do homem na Terra.

Como ignorar que a igreja justificava a escravidão dizendo que os negros não tinham alma e que, portanto, não passavam de animais? Como assumir que o simples ato de se conceituar raça, justifique ações de ódio contra raças? Será mesmo que se o conceito de raça jamais tivesse sido formulado, nunca teríamos visto o ódio entre brancos e negros? Como ignorar os processos de transformações políticas, culturais e sociais quando o mundo começou a ficar pequeno demais para manter as populações humanas separadas geograficamente, misturando as mais diversas culturas e gerando os mais diversos conflitos? Alguém ai da platéia gritou Jihad? Cruzadas?

Estou certo que sim.

Ciência, exatidão e merda de boi: Uma resposta.

outubro, 2007

Li este texto escrito pelo companheiro blogueiro Blogildo e decidi formular uma resposta. Eu entendo que o texto citado é, antes de qualquer coisa, um desabafo. Ao menos é a impressão que o texto dá por sua construção que tenta abranger a ciência como um todo se baseando em premissas que são, pra ser o mais comedido possível, equivocadas. E eu defendo o direito do colega desabafar. Mas é importante separarmos as exaltações do desabafo, dos enganos que compõe o texto.

A primeira consideração a se fazer é que ele não deixa claro a qual ciência esta se dirigindo. Com um pouco de vontade podemos concluir que ele ataca exclusivamente as ciências naturais. E podemos imaginar isso quando o autor se refere a algumas palavras chave como, comprovação científica, verdade ou progresso. Todas são palavras chave que estão comumente associadas às ciências naturais. Se minha consideração estiver correta, sou obrigado a concordar que existem outras formas de se conceber o mundo em que vivemos. As ciências formais, como a matemática, fazem isso de forma esplendida e elegante. As ciências sociais também, ambas com seus métodos próprios e seus modelos de mundo.

No entanto, não posso concordar com o ponto em que ele diz que a ciência (natural?) é apenas conceitual. Especialmente quando olho para a justificativa dada no texto, a de que é a tecnologia enquanto derivação da técnica que produz as facilidades do mundo moderno. Ora, como aceitar que a técnica produza algo sem um conceito? Sem um processo de tentativas e erros que visam um estágio final que, evidentemente, só pode ser conceitual? A técnica, e portanto, a tecnologia são claramente parte integrante da ciência, não só das naturais, mas das formais e sociais. É por isso que existem as chamadas ciências de base, aonde os conceitos são primariamente desenvolvidos, e as ciências aplicadas, aonde os conceitos são efetivamente utilizados e testados.

Neste sentido posso dizer que a ciência não é uma mera abstração. A abstração de fato ocorre em um estágio específico da produção do conhecimento científico, na formulação de hipóteses. No entanto, a abstração termina no ponto em que as hipóteses passam a ser averiguadas. Aproveito para corrigir a informação dada de que a lei da gravidade é apenas uma idéia amplamente aceita. É importante não confundir leis com teorias. Leis se referem a fenômenos que ocorrem de forma previsível. Se jogarmos uma pedra para cima, ela irá cair, e não há motivos até hoje para se acreditar que ela continuará subindo indefinidamente. Esta é a lei da gravidade. As teorias no entanto, tentam explicar a causa que origina o fenômeno e como este fenômeno funciona. Neste caso, a teoria da gravitação newtoniana é um bom exemplo de explicação para a lei da gravidade. Portanto, é de fato uma loucura questionar a lei da gravidade, muito embora as teorias que à explicam podem e devem ser questionadas sempre que possível.

A ditadura dos isentos e dos “exatinhos”.: Uma resposta.
Isenção não existe. Aqueles que procuram a isenção, perdem um tempo precioso de vida. Nisto, estamos, eu e o Blogildo, de acordo. E eu concordo com o argumento de que ninguém melhor que um religioso pra debater fé, e um cientista para debater ciência. No entanto, quando um cientista quer debater fé e um religioso ciência, o mínimo que deveríamos esperar de ambos é um conhecimento prévio e razoável do que pretendem questionar.

Concordo igualmente com o argumento da “gramática corretíssima”. Trocar letras ou esquecer um acento não desqualifica ninguém de debate algum. O que desqualifica é a falta de conhecimento do tema a ser discutido.

A bacana ditadura dos militantes da “causa” científica.: Uma resposta.
Não Concordo com o argumento de Musil de que a ciência busca uma verdade utópica. E não concordo pelo fato de que a ciência não busca uma verdade absoluta. Talvez os positivistas lógicos tivessem uma idéia próxima a esta, da busca pela verdade. Mas se existe um consenso entre os principais filósofos da ciência, como Karl Popper e Thomas Kuhn, é que não temos meios de saber o quão próximo estamos da verdade, ou mesmo o que é esta verdade. O que a ciência faz na realidade é buscar meios de explicar o mundo físico à nossa volta.

É por este motivo que NENHUMA teoria científica tem caráter definitivo e isso também é consenso geral entre os filósofos da ciência. No entanto, dizer que Galileu e Newton foram superados e que são mera história é ser superficial. Basta lembrarmos que as leis de Newton, como a própria gravidade já comentada anteriormente e a inércia, continuam válidas até hoje. Mesmo os cálculos de Newton sobre o movimento dos corpos ainda são usados no “dia-a-dia”, embora de fato possuam deficiências em situações extremas de velocidade e massa. As contribuições de Galileu para a cosmologia e a astronomia continuam absolutamente relevantes.

Dizer que a ciência esta politizada demais é chover no molhado. Quais atividades humanas não estão? E mais, isso é ruim? Eu considero essa parte do texto um mero jogo retórico, tentando associar o conceito desgastado e pejorativo de política com a ciência. Eu desconheço as picaretagens do Al Gore, e apenas atribuir picaretagens, sem especificar quais e quando, é igualmente retórico. Quanto ao aquecimento global, a mim bastam os índices do IPCC. No entanto, o tema não é consenso na ciência e existem cientistas sérios que defendem que de fato o aquecimento global pode não existir. Só o tempo dirá quem esta certo.

De todo o texto, eu considero o final a parte realmente desonesta. Desonesta porque generaliza a declaração infeliz do Dr. Watson como “pensamento consenso” da ciência. Se o autor tivesse se dado o mínimo de trabalho de pesquisar o que a genética fala sobre raças, teria se dado conta do tamanho da bobagem que escreveu. É verdade que Darwin considerou a existência de raças nos humanos e, de quebra, julgou o homem europeu superior. Devemos entender no entanto que esta não era uma opinião embasada cientificamente, e Darwin ainda tinha o viés de viver na Inglaterra no período da revolução industrial. Isso não isenta Darwin da bobagem que disse, evidentemente, nem da bobagem do autor em tentar estabelecer com isso um “consenso científico” inventado.

A genética nunca justificou racismo, muito pelo contrário, a genética colocou o ponto final definitivo nesta questão alegando que não existem diferenças consideráveis entre o material genético dos seres humanos vivos deste planeta. Não há evidencias da existência de raças no gênero humano, a genética NUNCA corroborou com esta visão, o genoma humano pôs um ponto final nesta bobagem e é consenso científico atual que raças na espécie humana só existem para o senso comum.

Nem preciso dizer que ainda que raça fosse uma “estrovenga científica”, isso não é o mesmo que dizer que o racismo também o é.

E se um dia um maluco que se diz cientista disser que encontrou o gene da pedofilia, eu verei uma série de homens de Deus sorrindo aliviados e dizendo amém!

Prova científica*

outubro, 2007

O termo “prova científica” é um chavão. O motivo parece óbvio, a busca incessante da ciência pela verdade e pelo entendimento do mundo físico é feito, como podemos ver em textos anteriores deste blog, através do método científico. O método trabalha com a dinâmica entre as hipóteses, teorias e leis, estabelecendo as “regras” que definem quando uma hipótese pode passar para o status de teoria e quando uma teoria deve ser descartada ou modificada. É de se esperar, portanto, que em algum momento do progresso científico as teorias atinjam níveis preditivos seguros suficientes a ponto de podermos afirmar categoricamente que algo esta “provado cientificamente”.

Vemos com certa frequência autoridades científicas utilizarem o termo “provado cientificamente” para validar um dado científico citado durante uma entrevista, uma palestra ou mesmo em textos de divulgação. O termo possui uma utilização tão ampla que acabou incorporado ao senso comum. Mas será que o termo é corretamente empregado? Será que de fato a ciência tem a capacidade de provar algo categoricamente? Para responder a esta questão vamos relembrar rapidamente algumas características do método.

Como vimos anteriormente uma hipótese é um conjunto de idéias que tenta explicar um fenômeno da natureza. Quando esse conjunto de idéias pode ser averiguado de alguma maneira ganha o status de teoria científica. Neste ponto temos diferenças epistemológicas entre os muitos filósofos da ciência. Apenas para citar dois, Karl Popper alegava que a teoria teria caráter passageiro, passando por testes rigorosos de falseabilidade. Quando falseada a teoria deixava de ter validade e era substituída por outra. Thomas Kuhn por outro lado dizia que a teoria quando falseada não precisava necessariamente ser abandonada, podia apenas ser corrigida ou reformulada de modo a se enquadrar na realidade observada.

No entanto, tanto Popper quanto Kuhn concordavam em um ponto. Apesar de todo o rigor científico, simplesmente não há meios de saber se uma teoria se aproxima mais da realidade do que outra. Podemos apenas dizer que uma teoria tem maior poder preditivo ou que explica melhor determinado fenômeno. É por este motivo que toda teoria tem caráter passageiro, já que eventualmente existem fatores que não temos conhecimento e que portanto a teoria não engloba.

Olhando por este ponto, fica fácil dizer que o termo “prova científica” é utilizado erroneamente. Quando dizemos que algo esta provado, estamos automaticamente considerando que sabemos tudo sobre esse “algo” e que não existem fatores desconhecidos ou não considerados. Em termos de ciência seria o mesmo que dizer que temos o conhecimento completo e absoluto de um fenômeno.

Devemos portanto ficar atentos ao uso do termo “prova científica” e jamais considerá-lo de forma literal. Na melhor das hipóteses podemos apenas dizer que seu emprego se refere a teorias científicas muito bem estabelecidas e que, a despeito de seu caráter provisório, explicam muito bem determinado fenômeno, na medida do conhecimento que temos quando do emprego do termo.

Em ciência a certeza não existe e a busca pela verdade é um processo contínuo e perpétuo.

*Texto revisado e ampliado da versão original publicada no blog Apropriações.

A teoria da evolução NÃO EXISTE.

setembro, 2007

Não. Este que vos escreve não esta fazendo uso de entorpecentes. Nem ficou louco ou deixou de acreditar na ciência. Mas é fato, a teoria da evolução não existe e eu vou explicar o motivo.

A primeira coisa que devemos entender é que em biologia, a palavra evolução não quer dizer “melhoria” ou “progresso”. Na verdade, o Sr. Theodosius Dobzhansky definiu muito bem evolução como a mudança de frequência alélica dentro de um pool gênico. O que isso quer dizer exatamente?

Hoje é bem conhecido que durante a divisão celular o DNA contido na célula é copiado e que este processo nem sempre é exato. Na verdade, é comum que ocorram mudanças na sequência de DNA, conhecida como frequência alélica. Quando esta mudança ocorre em indivíduos já completos, esse processo as vezes resulta em doenças como câncer. No entanto, quando esta mudança na frequência alélica ocorre nas células sexuais, podem provocar a modificação de características de alguns genes. Muitas vezes tais modificações acabam por inviabilizar a célula, mas também não são raras as vezes em que essa mudança produz efeitos benéficos (nem sempre imediatos).

Tal fenômeno já foi devidamente documentado e pode ser observado com certa frequência de modo que podemos dizer que é um fato. A evolução, enquanto mudança de frequência alélica, é um fato observável portanto. O que realmente se questiona a respeito da evolução é a forma como ela ocorre. Qual o mecanismo que faz com que as modificações na frequência alélica se acumulem e sejam selecionados em detrimento de outros? Neste sentido já houve na história uma série de teorias. Entre todas as teorias propostas, a seleção natural de Darwin é certamente aquela que melhor explica os mecanismo da evolução.

O termo “teoria da evolução” acabou sendo usado pelo senso-comum como forma de se referir a toda idéia darwinista/neodarwinista, ignorando completamente o verdadeiro conceito de evolução (que insisto em frisar, é um fato observável) e causando uma série de enganos a respeito do tema.

Vale lembrar que mesmo os defensores do Design Inteligente reconhecem a evolução como um fato, muito embora duvidem que seus efeitos possam resultar no surgimento de novas espécies. O neodarwinismo defende, pelo contrário, que a evolução pode sim ser o motor do surgimento de novas espécies, servindo como uma explicação elegante da diversidade de de seres vivos no planeta.

Como diria Dobzhansky: “Nada na biologia faz sentido senão à luz da evolução”.

A difícil arte do saber ouvir.

agosto, 2007

Me vem agora a situação ocorrida entre Albert Einstein e Edwin Hubble, dois dos maiores cientistas de todos os tempos. Na ocasião do desenvolvimento da teoria da relatividade geral Einstein partia de um modelo de universo estático. Para que seus cálculos fossem condizentes com esse modelo estático Einstein criou a constante cosmológica¹. A constante foi contestada por Edwin Hubble que propôs um modelo de universo em expansão que excluía a necessidade de uma constante nos cálculos da relatividade geral. Einstein então abandonou sua idéia alegando que ela teria sido o maior erro de sua vida.

Em um cenário ideal o debate científico deveria ser sempre assim. Não raro as teorias científicas se contradizem ou explicam fenômenos de formas diferentes. Não há nada errado com isso, é assim que se constrói o conhecimento científico. No entanto, nem sempre os defensores de teorias concorrentes estão dispostos a debater abertamente sobre suas linhas de pensamento.

Se o problema de comunicação já ocorre entre a comunidade científica, o mesmo se dá em graus ainda mais preocupantes quando uma teoria qualquer é discutida não só pelos cientistas mas também por leigos. Nada de errado com isso também, uma das grandes virtudes da ciência é se prestar ao debate amplo. Evidente que para tal os interlocutores devem compreender minimamente o tema que desejam debater. No entanto, isso nem sempre ocorre.

Infelizmente é muito comum a existência de debates que fogem ao que é saudável, ao debate sério e que busca o crescimento intelectual geral e o esclarecimento sobre o assunto debatido, se atendo ao combate de egos, crenças e posições políticas. Acredito que parte deste problema é a dificuldade aparentemente comum que muitas pessoas tem em parar para ouvir os argumentos e idéias de seus “adversários”. Analisar de forma séria e sem preconceito idéias opostas não é fácil, confesso que tenho este problemas muitas vezes.

Ouvir é difícil mas totalmente necessário. Devemos nos esforçar para ouvir posições contrárias às nossas, devemos dar a chance para que o “outra lado” possa construir seus raciocínio e expor as justificativas às suas idéias. Somente desta forma podemos analisar melhor nossos próprios pontos de vista e, no geral, isso é ótimo. Aponta problemas e defeitos em nossas idéias, suas limitações e as formas como melhorá-las.

Devemos nos policiar ao máximo e manter a mente sempre aberta a mudanças e a novas idéias. É importante evitar ataques ad hominem já que desacreditar nossos adversários não é ético, bonito e nem invalida suas idéias. Debates devem se prestar a troca de idéias e análise destas idéias, não existem vencedores e perdedores em debates sérios. Saber ouvir e permitir a livre expressão de idéias e teorias opostas as nossas faz parte da construção do conhecimento científico e moral de todos, e seria ideal se todos tivéssemos a humildade que Einstein teve.

Saber ouvir é, antes de tudo, um exercício fundamental para o bem estar da sociedade e para o progresso honesto.

¹: A constante cosmológica hoje em dia é considerada como válida na teoria atualmente discutida de que o universo na verdade esta em expansão acelerada. O caso demonstra mais uma vez o caráter dinâmico da ciência, aonde teorias e idéias que hoje são julgadas como ultrapassadas podem ser consideradas válidas novamente em decorrência de novas descobertas.

Como a ciência funciona: O Racionalismo Crítico moderno e suas críticas.

agosto, 2007

As idéias de Popper, que foram discutidas no texto anterior, sofreram severas críticas de uma série de filósofos. Entre eles podemos sitar Thomas Khun e Lakatus. As críticas desses filósofos diziam que históricamente uma teoria que tenha sido superada por outra não é, muitas vezes, descartada e pode continuar sendo válida. Um bom exemplo desse cenário é o que ocorre com a teoria newtoniana e a teoria da relatividade de Einstein. A primeira tendo sido superada pela segunda deveria ter sido descartada, no entanto muitos cálculos ainda são feitos baseados na teoria newtoniana mesmo essa tendo sido superadas.

Alguns opositores do racionalismo crítico tem como alegação central de que não é possível falsear qualquer teoria existente. Basta modificar as hipóteses auxiliares que suportam a teoria para resolver o problema. Seria o equivalente a dizer que ainda que não se encontrassem fósseis transitórios que pudessem suportar a teoria da evolução isso não invalidaria a teoria pois os fósseis podem não ter se formado por diversos motivos, ou por que os animais transitórios não existiam em número suficiente a ponto de deixarem fósseis ou ainda por que não foi possível encontrar tais fósseis.

Para alguns racionalistas críticos modernos no entanto, as críticas as idéias de Popper são infudadas. Eles alegam que com efeito as teorias, ainda que tenham sido superadas, podem ser alvo de dedicação de grupos de cientistas com o interesse de atualizá-las ou solucionar os problemas que às levaram a serem deixadas de lado. Ou seja, ainda que a teoria tenha sido falseada, ela pode passar por modificações que permitam que ela tenha validade novamente.

Portanto, ainda que o racionalismo crítico tenha opositores, ele ainda é aceito como sendo válido e é de qualquer forma um bom método para se avançar no entendimento do universo que nos cerca. As idéias de Khun e Lakatus também são defendidas por grupos de cientistas e seus conceitos também são válidos embora muitas vezes sejam divergentes com o racionalismo crítico.

A série de artigos sobre o método cientifico se encerra aqui. Um tema tão fundamental e abrangente forneceria por si só material para um site exclusivo. Não pretendo transformar o Polegar Opositor em um dossiê sobre o método científico, mas inevitavelmente este será um tema recorrente. Espero ter conseguido condensar o tema a ponto de torná-lo inteligível para todos que aqui chegaram mas em caso de dúvidas e sugestões, por favor, não exitem em usar a caixa de comentários ou os tentilhões.

Indo além:
O Método Científico: Como o Saber Mudou a Vida do Homem