Como fabricar um quebra-cabeça impossível

Um aspecto interessante da Ciência é que para cada pergunta que é respondida, várias outras são feitas, o que, em teoria, torna o processo de investigação infinito. Dessa forma, a cada dia que passa, assuntos cada vez mais específicos vão sendo pesquisados e descobertos. Quando essas novas descobertas são divulgadas para a comunidade científica nas revistas especializadas, os títulos dos artigos até assustam, como por exemplo, ABA-Activated SnRK2 Protein Kinase is Required for Dehydration Stress Signaling in Arabidopsis”.

Arabidopsis é o “apelido” da espécie Arabidopsis thaliana, uma planta muito famosa entre os geneticistas por que ela foi a primeira planta que teve o genoma seqüenciado. Assim, um número muito grande de pesquisadores trabalha com essa planta, mas não por que ela seja especialmente interessante ou bonita ou importante. Escolhem-na por que ela já tem o genoma seqüenciado, e é isso.

Tá…Então os cientistas que fizeram essa pesquisa (que, se você quiser, pode tentar ler aqui) descobriram que para que o processo de sinalização de stress por desidratação dessa planta ocorra, um tipo específico de proteína Kinase é ativado pelo hormônio vegetal ABA (Ácido abscísico). Para isso, eles utilizaram métodos extremamente complexos e máquinas que ninguém sabe que existem. É necessário muito treino para saber mexer nessas máquinas e muito estudo – muito mesmo! – para entender os processos que estão envolvidos nesse tipo de pesquisa, ou seja, pesquisar isso não é pra qualquer um; é preciso ser um especialista na área.

Aí entra uma questão fundamental para a Ciência. É muito provável que os pesquisadores que fizeram essa descoberta não façam a menor idéia de onde essa planta vive, de suas estratégias reprodutivas, de suas relações com os outros seres vivos de seu habitat, etc. Em momento algum da pesquisa esses “detalhes” foram importantes. Esses pesquisadores se especializam tanto na área da Biologia Molecular que não conseguem mais ver as coisas de uma forma ampla.

Isso não acontece só na área da Biologia Molecular. Acontece em todas as áreas de todas as Ciências. Quanto mais a pesquisa sobre determinado assunto avança, mais especialista tem que ser o sujeito que vai dar prosseguimento a essas pesquisas. Dessa forma, não existem mais “físicos”; existem físicos especialistas em física nuclear, físicos especialistas em transmissões de alta freqüência, e assim por diante. Esses profissionais, no processo de sua formação altamente especializada, acabam deixando de estudar outras coisas importantes, e muitas vezes “de propósito”. Quem estuda abelhas acha que as abelhas são os bichos mais legais do mundo e não está nem aí pros ursos ou pras bactérias. Já quem estuda gimnospermas não quer nem saber das abelhas, e muito menos dos fungos ou das andorinhas. É criado um vínculo forte com a área de estudo, como se ela fosse mais importante do que todas as outras, e os cientistas não se interessam mais em estudar coisas que não sejam de sua área – e pior, isso é valorizado, porque quanto mais especialista for o cara, melhor.

Como atualmente a maioria das áreas de pesquisa já está bem desenvolvida, a maior parte dos cientistas de hoje são especialistas. A questão é: para onde isso vai nos levar? Os cientistas que têm um conhecimento amplo e uma visão integrada estão dando lugar à “Zé Bitolas” tolos o suficiente para achar que uma área do conhecimento é mais importante do que outra.

Enquanto por um lado a especialização é necessária para que a Ciência continue progredindo, os cientistas que se especializam perdem a capacidade de integrar o conhecimento que eles mesmo produzem com o conhecimento que o resto da humanidade já construiu historicamente, porque para eles não é interessante estudar esse “resto”. Hoje temos uma quantidade absurdamente enorme de artigos publicados sobre coisas altamente específicas. Amanhã pode ser que essa infinidade de artigos se transforme num quebra-cabeça impossível, não porque os artigos não têm conexão entre si, mas porque não vai ter mais ninguém capaz de perceber que eles formam uma figura; cada um vai estar preocupado apenas com a sua pecinha.

Auguste Conte, em seu Curso de Filosofia Positiva, já em 1830 previa esse momento. Ele dizia que a Ciência é como uma árvore: ela vai se ramificando em vários galhos, que vão se ramificando em galhos cada vez menores e menores, mas todos os galhos estão de alguma forma conectados ao tronco principal, e ele advertia fortemente para que isso nunca fosse esquecido.

Nem 200 anos se passaram e agora parece que estamos tentando plantar uma árvore para cada área do conhecimento. É preciso que a formação polivalente dos cientistas seja valorizada e que a Ciência ande mais devagar para o seu próprio bem.

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O ringue oculto dos cientistas e a falsa democracia

Atualmente aclamamos a democracia como a melhor forma de governo para as sociedades humanas, e não olhamos com bons olhos aqueles que defendem ditaduras ou monarquias. De fato, já que o governo deveria atender os interesses do povo, nada melhor, na teoria, do que um regime governamental em que os cidadãos tenham voz e participação nas decisões, não só podendo elecroger seus representantes, mas também reivindicando que esses governantes garantam a melhor qualidade de vida possível para a população. A democracia, entretanto, tem um pequeno viés: depender, por assim dizer, da participação popular. E se o povo for passivo, acrítico e não se interessar por participar das decisões políticas de sua cidade/estado/país? Se isso ocorrer, a democracia pode se aproximar dos temidos regimes ditatoriais, já que as decisões tomadas pelos governantes não serão questionadas e não haverá resistência por parte da população. Dessa forma, para o bom funcionamento da democracia é fundamental que os cidadãos sejam impelidos e incentivados a serem participativos na sociedade. A conscientização da importância de participar deve ocorrer, entre outros lugares, na escola – o que está, inclusive, previsto por lei.

O leitor deve estar pensando “Tá… Muito bonito, mas o que isso tem a ver com Ciência?” Peço calma aos senhores! Há uma relação bastante direta, embora pouco óbvia, entre o bom funcionamento do regime democrático e o entendimento adequado da natureza da Ciência. Chegaremos lá.

Como sabemos, a Ciência é uma construção histórica. Longe de ser neutra e pacífica, a Ciência é permeada por conflitos de diversas naturezas. A Ciência pode conflitar com os interesses e crenças da sociedade (como exemplo, podemos citar o alvoroço causado quando Darwin apresentou sua Teoria da Evolução por seleção natural) e tem, claro, seus embates internos. Os conflitos internos ocorrem em diversos níveis. Um deles é o embate de idéias entre os cientistas, que ocorre intensamente, dia após dia, paper após paper, por causa das diversas interpretações possíveis que um mesmo conjunto de dados pode ter. Às vezes esses conflitos de idéias geram grandes mudanças de paradigma na Ciência, como Kuhn entenderia. Outra forma de conflito na Ciência – uma forma um pouco mais velada, que os cientistas não gostam muito de admitir – é o conflito entre as áreas do conhecimento ou entre cientistas individuais por prestígio. A vontade de trazer cientistas capacitados para sua área de pesquisa ao invés de outras, ou a pretensão de persuadir a comunidade científica de que determinado ponto de vista é mais adequado pode ser um grande aditivo motivacional para os cientistas que, nesses casos, vêem os outros cientistas como “competidores” que devem ser ultrapassados. Não podemos esquecer ainda dos caminhos metodológicos, que estão sempre em constante discussão. Definitivamente, “consensual” não é um dos adjetivos que se pode dar à Ciência.

O ponto principal é que todas essas formas de conflito, longe de constituírem “pontos fracos” que devem ser evitados, são a força motriz da Ciência. É esse interminável embate de idéias e de interesses que faz a Ciência progredir. Tire o conflito da Ciência e tenha uma Ciência estagnada, imóvel, que não se desenvolve – uma Ciência que beira a inutilidade.

A centralidade do conflito para o desenvolvimento da Ciência (não esqueçamos que o conflito também é central para o desenvolvimento da sociedade, como observaria qualquer historiador razoável – “A história do homem é a história da luta de classes”, como diria um historiador bastante razoável) é um fato, e um fato que não deveria ser escondido de ninguém. Entretanto, a Ciência que é apresentada aos alunos nas escolas é bem diferente dessa Ciência conflituosa da qual acabamos de falar, e isso pode ter conseqüências que vão muito além dos muros da escola.

A Ciência escolar de hoje deixaria August Comte (“o pai do Positivismo”) muito orgulhoso, pois mostra a Ciência como neutra, objetiva e livre de quaisquer tipos de pré-conceitos por parte dos cientistas. Nunca é mostrado que existem posições diferentes na Ciência ou, quando é, são apresentados critérios “objetivos” que sempre convencem os cientistas de que um lado está correto e o outro não está. Essa teoria consensual de Ciência que é apresentada aos estudantes os impede de perceber como as discordâncias e as controvérsias são elementos importantes para a construção de conhecimento.

Essa ocultação da importância do conflito força os alunos a interiorizar a perigosíssima noção de que o conflito é algo ruim. Essa concepção falaciosa é reforçada pelo currículo das outras disciplinas e pela organização da escola como um todo, e o resultado da exposição covarde dos alunos por anos a fio a esse ideário tendencioso só pode ser um: uma escola que forma alunos (cidadãos!) que acham que o conflito é algo que deve ser evitado para que a sociedade prospere. Em outras palavras, o não entendimento de que a Ciência progride pelo conflito pode contribuir para a formação de cidadãos passivos e acríticos, com ares de quietismo político e aceitação.

Ora, acabamos de comentar que o bom funcionamento de democracia depende da participação popular. Se a escola forma cidadãos que pensam que a sociedade progride por meio da “paz” (entendida como ausência de conflito), então podemos prever que a democracia não vai funcionar adequadamente, e basta abrirmos qualquer jornal para constatarmos que realmente não está. Quem vê o conflito como algo ruim não vai querer participar das decisões políticas da sociedade, e quando o povo não faz questão de participar, a democracia falha. Essas falhas, como bem sabemos, prejudicam principalmente as classes mais pobres que, ao mesmo tempo em que são as que mais devem reivindicar participação, são as que estudam nas piores escolas. Um ciclo vicioso se forma, e a distribuição de poder na sociedade permanece inalterada.

É função da escola apresentar a Ciência de forma adequada aos estudantes. Também é função da escola ensinar História, Geografia, Matemática, Português e todas as outras matérias de forma adequada. Mas adequada para quem? Se for adequada para os alunos, então, considerando o que foi discutido, ensinar Ciências (ensinar de verdade!) chega a ser um ato revolucionário. Formar alunos que entendam a natureza e o funcionamento da Ciência pode contribuir para o estabelecimento de uma sociedade mais justa, democrática e participativa, pelo simples fato de que esses cidadãos terão compreensão da importância do conflito para o progresso da Ciência e da humanidade.

Gostaria de finalizar esse ensaio deixando bem claro que conhecer a natureza da Ciência não garante de forma alguma que os cientistas sejam politizados e participativos na sociedade. Como eles só aprendem a importância do conflito depois de alguns anos na academia, após terem passado mais de 15 anos incorporando os valores de uma escola castradora, fica difícil entender que não é só na Ciência que o conflito é importante. Fazer essa transição é muito difícil. A burguesia agradece.

“O Estado é um instrumento da classe dominante para se manter enquanto classe dominante.”  - Karl Marx

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Questão de acesso

Imaginem a cena: o ilustríssimo Dr. Roberto, renomado cientista na área de fisiologia osmorregulatória de caranguejos, passa 7 anos fazendo um grande estudo. Viaja a trabalho por diversos países, se enfiando nos mangues mais fedidos e barrentos para coletar esses crustáceos, depois os leva para o laboratório e faz exaustivos experimentos que resultam numa pilha de centenas de tabelas e gráficos que ele, com muita paciência, analisa e compara um a um. Depois de sistematizar seus dados, Dr. Roberto os compara com os da literatura, identifica semelhanças e diferenças entre os estudos e quebra a cabeça para tentar entender de forma integrada o fenômeno que está estudando. Depois disso tudo, ele, super empolgado, escreve um artigo para tornar público o seu estudo, seus questionamentos e suas conclusões.

O artigo do Dr. Roberto é publicado em alguma revista super específica sobre crustáceos que menos de 1% da população mundial sabe que existe. As únicas pessoas que vão se interessar em lê-lo são os outros cientistas que estudam osmorregulação em caranguejos, e olhe lá, por que se o grupo de caranguejos que o Dr. Roberto estuda for muito distante filogeneticamente do que o Dr. Luís estuda, talvez o Dr. Luís nem se dê ao trabalho de ler. Mas o Dr. Luís não é importante. O importante é que, a partir de agora, qualquer pessoa que quiser estudar osmorregulação naquele grupo de caranguejos vai poder contar com a contribuição do Dr. Roberto, certo?

É… Certo naquelas. Imaginem que alguns anos depois, um certo Dr. Silvio, que adora crustáceos, se interessa muito em estudar esse tema que causa tanto fascínio no Dr. Roberto. Mas a biblioteca que o Dr. Silvio tem acesso não assina a revista em que o artigo do Dr. Roberto foi publicado. Quando ele tenta acessar o trabalho pela internet, ele se depara com um aviso assim:

artigo 34 dolares

“Poxa, como assim? Trinta e quatro dólares para ler UM artigo? Mas nem que a vaca tussa! O Dr. Roberto que me perdoe, mas ele não estará entre as referências do meu trabalho!”, pensa o Dr. Silvio. Ele continua fazendo o levantamento bibliográfico para sua pesquisa e lê o resumo de um artigo que parece ser muito bom, mas quando vai fazer o download, um pop-up se abre:

want the full article

“Catorze dólares? You gotta be kidding me, man!” Dr. Silvio vai à loucura! Todo site que ele entra, tem que pagar pra acessar os artigos. Ele se revolta e dá um soco no computador. Indignado, ele desiste de estudar osmorregulação de crustáceos e opta por pesquisar outra coisa, hábitos alimentares, por exemplo. Mal sabe ele que seu computador ainda vai levar muitos outros socos.

O conhecimento científico é construído coletivamente. Se Darwin não tivesse lido Malthus, Lyel, Lamarck, Chambers, entre tantos outros, ele jamais teria sido capaz de formular sua teoria de seleção natural. Se Marx não tivesse lido Hegel, Adam Smith, David Ricardo, Feuerbach, entre tantos outros, jamais teria feito uma análise tão aprofundada da sociedade capitalista. Imaginem se Darwin fosse pobre (não era o caso…) e tivesse que pagar 34 dólares para ler o trabalho do Malthus? Não ia rolar! E se Einstein estivesse na miséria e tivesse que pagar 14 pra ler Newton? No way, man!!

Essa questão sobre o acesso a trabalhos científicos é muito complicada. Por um lado, se ninguém ler o trabalho do Dr. Roberto, é praticamente a mesma coisa do que se ele nunca tivesse ralado por 7 anos para escrevê-lo. O salário do Dr. Roberto não varia de acordo com o número de pessoas que lêem o trabalho dele. Se alguém pagar 34 dólares para comprá-lo, toda essa grana vai para a editora e ele nem fica sabendo. A única coisa que o Dr. Roberto ganha é uma citação em algum trabalho. Não é vantagem nenhuma para ele que as pessoas tenham que pagar para ler o seu artigo; na verdade, pra ele (e pra Ciência!) seria bom que todo mundo que quisesse ler tivesse acesso livre.

Mas, por outro lado, revista científica não é tudo igual. Se o trabalho do Dr. Roberto sair publicado na Nature, você nem precisa ler pra saber que é bom. Se sair na Revista Sul-Alagoana de Crustáceos Bonitos, é melhor ler com cuidado. Uma revista tem toda uma equipe de avaliadores e pareceristas que seleciona quais trabalhos merecem ser publicados naquela revista e quais não merecem. As revistas têm qualificadores e índices de impacto, e isso é absolutamente importante para manter a ordem no empreendimento científico. As revistas precisam pagar seus funcionários. Ao contrário de Superinteressantes e afins, a maioria delas não pode contar com uma grande quantidade de exemplares vendidos, por que o público alvo é muito restrito – quem no mundo assinaria uma revista chamada “Acoustical Physics”, por exemplo?

Assim, um paradoxo se estabelece. Impedir alguém de ter acesso a artigos científicos é contra a própria natureza coletiva da Ciência (lembrem-se do Darwin), mas as revistas fazem um trabalho muito importante e têm que receber dinheiro de alguma forma. Cobrar dos leitores talvez não seja a melhor forma (coitado do Dr. Silvio!). Um artigo curto (2-3 páginas) cita pelo menos outros 15-20 artigos, e se cada um custar 34 dólares, wow, eu quero ser dono de uma revista! Mas, então, o que fazer? Se alguém aí tiver alguma idéia, por favor, me diga, porque eu não agüento mais ver números e cifrões ao invés de letras e gráficos nos artigos que eu quero ler!

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Grandes colegas que nunca conheci

A Ciência é uma construção coletiva. Essa é uma grande verdade, mas temos que entender melhor o que isso quer dizer. “Construção coletiva” não significa que os cientistas trabalham em harmonia, que são todos super amigos que se abraçam pelos corredores dos laboratórios e trocam cartões de natal. Nada disso. Na verdade, não é raro existirem rixas entre os cientistas, que disputam ferozmente por prestígio ou por cargos de chefia nos departamentos das instituições em que trabalham. Claro que eles podem também trabalhar em equipe e formar grupos de pesquisa. Isso de fato acontece (eu mesmo faço parte de um!) e não deixa de ser uma forma de construção coletiva, mas não é a esse tipo de comportamento que nos referimos quando dizemos que a Ciência é uma atividade coletiva. A coletividade na Ciência é algo diferente, e ocorre num nível histórico. Expliquemos.

O primeiro passo de qualquer investigação científica, após a delimitação do tema da pesquisa, é o levantamento bibliográfico. Isso significa que antes de sair fazendo experimentos freneticamente por aí, o cientista (vamos chamá-lo de Dr. João?) tem que consultar as bases de dados, as bibliotecas e o bom e velho Google em busca de artigos de outros cientistas que já pesquisaram o mesmo tema ou temas parecidos. Depois de achar esses artigos, Dr. João tem que ler todos eles, e isso levará algumas semanas, talvez meses. Pode parecer que é muito tempo, mas a verdade é que, ao final de apenas algumas semanas, Dr. João vai ter uma boa noção de todo o conhecimento que a humanidade já produziu em toda sua história a respeito daquele assunto, e é a partir desse conhecimento que ele vai ter idéias de como fazer sua pesquisa. Ele não vai utilizar uma metodologia que um Dr. Pedro, 10 anos atrás, utilizou e viu que não é muito adequada. Ele não vai fazer uma pesquisa que o Dr. José já fez 150 anos atrás. Mais importante de tudo, o nosso Dr. João não vai sair do zero! Ele vai contar com todo um arcabouço de conhecimentos prévios a partir do qual ele pode construir conhecimentos novos, e o Dr. Leandro, daqui 5 ou 50 anos, poderá contar com os resultados das pesquisas do Dr. João para desenvolver as suas próprias investigações.

Assim, a maior contribuição para a pesquisa do Dr. João pode vir de um cara que mora no Azerbaijão e que ele nunca vai conhecer. Pode vir de um sujeito que já morreu há décadas, e isso é absolutamente normal. Marx será eternamente uma grande referência para os sociólogos, Newton sempre será importante na Física e a reviravolta que Darwin deu na Biologia é permanente. A Ciência é coletiva na medida em que as idéias e os métodos vão se acumulando e se transformando ao longo do tempo. Marx não seria Marx sem Hegel, Newton não seria Newton sem Descartes e Darwin não seria Darwin sem Lamarck.

Hoje tomamos antibióticos quando ficamos doentes, temos IPod Touch com internet WiFi e seqüenciamos o DNA dos organismos. Essas coisas jamais poderiam existir se, ao longo do tempo, vários cientistas não tivessem dedicado suas vidas ao estudo de coisas que hoje consideramos triviais, como a estrutura e funcionamento de uma célula ou a existência e as propriedades de uma onda. Hoje os físicos discutem sobre spins de elétrons e sobre núcleos que viajam no tempo (?!), mas isso só é possível por que lá nos idos da Grécia antiga alguém um dia imaginou que toda a matéria deveria ser formada por partículas elementares, e é aí que está a coletividade da Ciência: na história.

O empreendimento científico é histórico, e o reconhecimento desse fato muda a forma com que olhamos pra Ciência. Não podemos dizer que a Ciência de hoje é melhor que a Ciência de antigamente porque, não fosse o trabalho daqueles cientistas antigos (que hoje injustamente chamamos de “burros”, como Lamarck ou Dalton), ainda teríamos as mesmas dúvidas que eles tinham, ainda pensaríamos da mesma forma que eles pensavam e ainda faríamos as mesmas coisas que eles faziam.

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