Copenhagen 2009

A história de conferências mundiais com a temática do meio ambiente começa em 1972 em Estocolmo na Suécia. Esse encontrou levou a reunião de 113 países e várias ONGs de todo o mundo, e é considerado o marco-zero dos debates sobe meio ambiente, além de ter dado origem a criação do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma).

Passados 20 anos, no Rio de Janeiro realizou-se a Rio-92 – Convenção sobre Mudança do Clima, com o intuito de discutir as questões ambientais e redução dos gases causadores do efeito estufa que causam o aquecimento global, e contou com a presença de 154 países.

A primeira Conferência das Partes (COP 1), com os países que participaram da Rio-92 aconteceu em 1994, onde foi tomada a decisão da criação até o ano de 1997 de um protocolo com metas para a redução das emissões.

Em 1997, em Kyoto no Japão mais uma conferência global deu origem ao Protocolo de Kyoto, estabelecendo um compromisso de todos os países que o assinaram a reduzirem até 2012 as emissões de gases poluentes para os níveis emitidos em 1990, a partir de 2005.

A mídia já comenta e entre os dias 7 e 18 de Dezembro estará acontecendo a 15ª Conferência das Partes (COP 15) da Convenção das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (Rio-92). Os países voltarão a se reunir em Copenhague para discutir como será o acordo global que vai suceder o Protocolo de Kyoto (que vence em 2012).

Esse ano cerca de 200 países estarão reunidos para o encontro, cuja pauta é a discussão das mudanças ambientais, ações de mitigação para o aquecimento global e estabelecimento de novas metas de redução das emissões de gases do efeito estufa (e esperamos que mais contundentes que as planejadas em Kyoto em 1997).

Há grandes interesses em não se reduzir as emissões de gases estufas, pois isso necessariamente implica em frear o processo de crescimento industrial e econômico dos países mais poluentes e/ou gerar gastos na pesquisa e implantação de tecnologias menos poluentes.

Vamos acompanhar de perto a COP 15 e esperar que algo efetivo seja feito para diminuir a emissão dos gases estufa e assim conseguirmos frear um pouco esse aquecimento global e as mudanças climáticas do Planeta Terra.

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Carta aberta aos pais de alunos.

Nas últimas semanas acompanhei, sem me pronunciar é verdade, as inflamadas notícias sobre escolas brasileiras que decidiram inserir o criacionismo em suas aulas. A despeito da já infrutífera discussão entre criacionismo e evolucionismo, a reportagem da Veja sobre este assunto esbarra em um questão que se perde no “blablabla” habitual.

Lá, perdido no meio da reportagem, vemos a seguinte passagem:

Os pais de alunos das escolas evangélicas não costumam reclamar do fato de seus filhos serem instruídos no criacionismo em detrimento da ciência. Dizem ter escolhido a escola por acreditar que ela incute nas crianças valores morais, éticos e cristãos. “Nossa escola forma verdadeiros cidadãos. De que adianta o adolescente estar preparado para o vestibular se não tiver uma boa formação como ser humano?”, diz a baiana Selma Reis Guedes, uma das diretoras do Colégio Batista Brasileiro, de São Paulo.

Eu não poderia concordar mais com a diretora Selma, de que adianta estar preparado para o ensino superior sem a formação moral necessária? Por outro lado, não poderia descordar mais dos pais dos alunos que depositam no ensino religioso a responsabilidade pelo ensino moral e ético (e ainda estou em dúvida sobre o cristão).

Se existe um mérito compartilhado pela maioria das religiões, é a imagem pública conquistada. A maior parte das pessoas de fato correlaciona valores morais e éticos à religião. E há motivos para isso. É certo que muitas religiões defendem valores que em termo geral, são de fato éticos. Mas defender um valor qualquer não basta, é preciso praticá-lo.

Além disso, boa parte dos valores apreciados pela sociedade não nasceram com as religiões e, com efeito, são completamente independente delas. Uma pessoa não precisa ser religiosa para ser boa, assim como uma pessoa religiosa pode ser absolutamente má. É um salto retórico imenso colocar valores morais desejados como efeito de uma causa tão controversa quanto religião.

Outro salto retórico igualmente medonho é convencer as pessoas de que acreditar em uma teoria científica qualquer resulte no abandono da ética e da moral. E é exatamente o que esta implícito na fala da diretora Selma a qual chamei a atenção.

Portanto deixo aqui aos pais de alunos que se interessam verdadeiramente pela “formação como ser humano” de seus filhos. A educação começa em casa. Se os senhores desejam uma educação ética e moral para seus filhos, não depositem a responsabilidade apenas na escola.

Ética e moral são valores independentes de religiões e credos. Não caiam no erro de acreditar que uma educação científica deficiente, em prol de uma educação religiosa mais presente, irá produzir seres humanos melhores. Faz parte de um ser humano melhor saber conviver com a pluralidade cultural, religiosa e, vá lá, científica.

Uma educação que busca atacar essa pluralidade não é moral ou ética ou religiosa, independente de vestir tal máscara. É, em verdade, um ensino tacanho que irá produzir seres humanos igualmente tacanhos.

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O cisne negro

Seria cômico se não fosse trágico. O acidente no lago da Aclimação. Ela saía de casa para passear. Terça-feira, Carnaval-2009. Estava um pouco cansada de seus filmes e livros, e resolveu movimentar-se como fazia de vez em sempre, que possível. MP3 nos ouvidos, short, tênis e camiseta. Resoluta, já que o sol do meio-dia estava encoberto pelas nuvens escuras das Águas de Março que resolveram fechar o verão inteiro.

Viu um helicóptero sobrevoando a área, aumentou o volume da música em seus ouvidos. Um aglomerado de pessoas e policiais na borda do lago, achou melhor nem olhar, alguém deve ter se machucado. Carros da polícia civil metropolitana e da polícia florestal fazendo Cooper, alguma coisa realmente aconteceu, que Deus cuide… Policiais entrando no lago… Heim?! O lago está seco!!!

Como jurou no dia da formatura que defenderia a vida, qualquer que fosse, imediatamente desligou o MP3 e realizou a primeira volta com seu olhar clínico. O nível da água realmente havia caído muito, o que até outro dia era um lago cheio de patos, gansos e carpas se transformara, da noite pro dia, em um enorme lodaçal. Um cisne negro bem no meio do lago-lodo passava bem, mas a cena – ele sozinho no meio do lodo – era triste, lembrava os desastres petrolíferos. Os freqüentadores do parque estavam parados nas margens em três pontos. O primeiro era uma piscina, formada pela irregularidade do fundo do lago, na qual alguns peixes estavam sendo salvos em sacos plásticos por pessoas que, na ânsia de fazer um bem, se esqueceram das aulas de Ciências – poderiam contrair doenças num lago eutrofizado como aquele e, certamente as concentrações de Oxigênio e nutrientes da água para onde os peixes estavam sendo levados pelos cidadãos seriam diferentes, levando-os à morte da mesma forma. Um policial tentava afastar as pessoas. Os outros dois pontos ofereciam visão privilegiada sobre o trabalho dos aproximadamente 20 homens que se organizavam para retirar o cisne negro, bem como meia dúzia de patos e marrecos nas margens cheias de lixos inorgânicos.

Segunda volta. Um policial florestal. Não resistiu.

- Por gentileza, desculpe minha intromissão, mas por que resolveram esvaziar o lago sem tirar todos os animais primeiro?

- Houve um acidente ontem a tarde, estourou o encanamento que regula o escoamento do lago e a água vazou para o rio Tamanduateí.

- Xiii, não tem como salvar os peixes… ou foram parar no rio – poluído, ou morreram atolados ali no fundo do lago. Conseguiram resgatar as demais aves ou só sobraram aquelas?

- Muitas foram para as margens fugindo da vazão de água ontem e conseguimos capturá-las, só sobraram estas que se assustaram conosco e foram para o meio do lago. Mas nós vamos resgatá-las e levá-las para o parque do Ibirapuera.

- Mas aquilo virou uma areia movediça, como os policiais vão chegar até lá?

- Infelizmente não temos equipamentos adequados disponíveis para entrar neste tipo de lodo, até o prefeito já esteve aqui vendo a situação hoje, mas vamos tentar um bote ou um cabo de aço para fazer com que o cisne negro chegue até uma das margens.

Enquanto isso câmeras de TV, repórteres e fotógrafos registraram um verdadeiro “Olé” que um pato deu numa meia dúzia de biólogos da Prefeitura que, por fim, o capturaram sobre aplausos da população local, enquanto o cisne negro olhava a distância bicando sua glândula uropigeana e impermeabilizando suas penas da asa direita, na terceira volta.

A quarta volta foi bem irônica. Cidadãos reclamavam da indolência da polícia. “Por que não tiram o cisne negro com o “Águia”? Só porque o barulho dum helicóptero já infartaria o bicho antes dele ser salvo. Por que não chamam uma viatura de bombeiros e usam aquela escada até o meio do lago? Era evidente que o cidadão não teve aulas de Física, pois a distância entre a margem e o cisne era enorme! Por que um bombeiro não nada até lá? Areia-movediça, já viu desenho animado com areia movediça, meu filho? Policial não é mosquito, afunda!

Os policiais resolveram atravessar um cabo de aço margem-margem enxotando o cisne que, sem saber que já era alvo de projeções emocionais de tanta gente que desejava que ele sobrevivesse às intempéries de suas vidas, conseguia se mover, apesar do lodo, com relativa facilidade para a margem mais próxima dele.

Quinta volta. Garoou. Um cidadão lamentou-se dizendo “se fizesse sol o lodo secaria e o cisne conseguiria sair de lá”. Se fizesse sol o cisne morreria desidratado antes do lodo secar! Prá sorte do cisne negro e desespero dos policiais garoava forte e a população não arredava pé. A julgar pela situação, o cisne negro já tinha deixado de ser um patinho feio, passado por pobre criatura de Deus injustiçada, e estava se transformando num herói de guerra, pois continuava se movimentando, agora com esforço, fugindo do cabo de aço rumo à margem.

Não viu o cisne ser salvo, nem teve a sexta volta. Os policiais interditaram a pista de Cooper, não sem antes um sujeito mal educado exigir a retirada de todos do local, pois ele iria pegar o cisne, afinal ele estava lá desde as 6 da manhã e já eram mais de 13 horas. Incrível como ele enxotava todo mundo grosseiramente, mas dizia que o fotógrafo podia permanecer. Afinal, o cisne negro não poderia ser herói sozinho.

Choveu forte. Voltou ensopada pensando na tragédia ecológica. Em todos os sentidos. Um lago mal cuidado, pessoas mal formadas cientificamente, gente mal educada. Pensou no plâncton, nas algas, nas briófitas, naquela infinidade de peixes e carpas gigantes que eram mal alimentadas por pães, no desequilíbrio climático da região, na conseqüente baixa da população de anfíbios, no aumento da população de mosquitos, nas sementes das árvores que, se antes alimentavam peixes, agora poderão brotar, no trabalho de reconstrução do lago – se é que será reconstruído – e inclusive, na situação perturbadora provocada pelo rebelde cisne negro.

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O IgNobel não é o Framboesa de Ouro

Nos últimos dias os brasileiros que acompanham o noticiário e que não conheciam o Prêmio IgNobel de Ciência definitivamente agora sabem pelo menos que ele existe: é que saiu em todos os cantos que um cientista brasileiro foi agraciado com a honraria na área de Arqueologia, com seu trabalho a respeito do fato de que tatus podem bagunçar as camadas de sedimentos em sítios arqueológicos, confundindo a identificação correta de cada estrato à sua idade relacionada.  Provavelmente esses mesmos brasileiros que acompanharam o noticiário recentemente também acompanharam a entrega de outro prêmio satírico: o Framboesa de Ouro, que ironiza o Oscar. Este último trata de esculhambar atuações muito ruins de celebridades que ganham muito dinheiro – “honrando anualmente o que Hollywood tem de pior a oferecer”.

O problema é que o IgNobel, mesmo sendo uma premiação satírica, não é um Framboesa de Ouro. Segundo a organização responsável por sua entrega, a Improbable Research, e como bem protestou o Carlos Hotta, do blogue Brontossauros em Meu Jardim, o IgNobel é apenas uma maneira divertida de trazer a atenção para a ciência – e não uma forma de desmerecê-la.  Uma das idéias da Improbable Research é fazer com que as pessoas discutam, ainda que indiretamente, questões relativas à Filosofia da Ciência, por exemplo, ao questionarem a suposta utilidade de uma pesquisa ou a relevância de uma descoberta. Infelizmente grande parte daqueles que veiculam as notícias a respeito do IgNobel ignoram o propósito benéfico da organização e apenas usam a parte divertida para chamar a atenção do público. Essa parte divertida é o que os organizadores do IgNobel fazem melhor: eles transformam os títulos dos trabalhos premiados, normalmente difíceis de serem interpretados por leigos, em manchetes esdrúxulas. Um trabalho entitulado (livremente traduzido) ”Novo método de produção de polifenol vegetal a partir de excremento bovino utilizando reação de água subcrítica” faz a gente rir? Já quando “traduzido”…(vencedor do Ignobel de Química, Mayu Yamamoto, por desenvolver um jeito de extrair sabor e fragrância de baunilha de bosta de vaca).

Os pesquisadores Osamu Shimomura, Martin Chalfie e Roger Y. Tsien, dividem o mérito de terem desenvolvido uma proteína verde fluorescente.  Que prêmio vocês acham que eles receberam? O IgNobel? Pense de novo.

 

Links e Referências:

Notícias sobre o brasileiro que ganhou o prêmio IgNobel 2008 de Arqueologia: aqui, aqui e aqui.
Trabalho original do arqueólogo brasileiro: The role of armadillos in the movement of archaeological materials: An experimental approach. Astolfo G. Mello Araujo & José Carlos Marcelino. Revista Geoarchaeology, abril de 2003, vol. 18, número 4, páginas 433-460.

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O extremo criacionista.

No Brasil as discussões entre evolucionismo e criacionismo não chegam a ser muito relevantes. Temos um movimento criacionista isolado e em geral decentralizado. Na verdade o Brasil conta com a Sociedade Criacionista Brasileira (SCB). A primeira vez que ouvi falar da SCB foi através de um amigo que participou de uma série de palestras que promovem o criacionismo. Depois disso só tive notícias da SCB em uma pequena discussão que tive o prazer de acompanhar. Na ocasião um aluno do curso de extensão em Divulgação Científica da USP apresentava a idéia de um site que trataria das controvérsias entre o design inteligente e evolução. Sua apresentação foi interrompida por uma aluna do mesmo curso, que começou a advogar em favor do criacionismo e acabou comentando que a SCB possui linhas de pesquisas sérias a respeito do criacionismo.

Confesso que achei graça. Não conseguia conceber o que seria uma linha de pesquisa séria a respeito do criacionismo. Em todo caso resolvi que talvez estivesse sendo preconceituoso demais. Pesquisei um pouco sobre a SCB e, por fim, acabei enviando-lhes um email perguntando sobre as tais linhas de pesquisa. Segue abaixo a resposta que eles me deram:

“Informamos-lhe que nossa linha de pesquisa propriamente dita relaciona-se com o tema “origem comum das línguas e das religiões”. A grande atividade que desenvolvemos, entretanto, é a de divulgação de aspectos relacionados com a controvérsia Criação / Evolução. Nesse sentido temos como uma das mais destacadas contribuições nossas a tradução e a publicação do livro “Evolução – Um Livro Texto Crítico”.Temos também realizado encontros criacionistas diversos, com a participação de palestrantes convidados (nem todos associados formalmente àSCB).Esperando ter-lhe prestado as informações de que necessitava, permanecemos à disposição, enviando-lhe nosso cordial abraço, Ruy e Rui Vieira.”

Achei bacana a atitude da SCB. Eles me responderam com velocidade e ainda me forneceram o contato para membros associados e que tratam especificamente sobre biologia. Mas, como podemos observar, eles não desenvolvem qualquer linha de pesquisa criacionista. O trabalho da SCB é basicamente de divulgação do criacionismo. Apesar de a maioria das pessoas acharem que a divulgação do criacionismo é um desserviço ao entendimento correto da ciência, e de certa forma eu posso concordar com isso, existem casos muito piores. Casos de extremismo militante, ou simplesmente de ignorância exacerbada.

É o que ocorreu recentemente nos Estados Unidos, mais precisamente em Mount Vernon no estado da Virgínia. Durante onze anos o professor John Freshwater ensinava criacionismo e design inteligente nas aulas que deveriam ser de evolução. A comunidade e outros professores da mesma escola reclamaram por todos estes anos à direção da escola sobre a insistência de John em ignorar o currículo de evolução e, no lugar, ensinar suas crenças. Uma atitude só foi tomada quando o professor em questão provocou queimaduras em forma de cruz no braço de dois estudantes que reclamaram de suas aulas. Segue a foto abaixo:

Foto retirada do jornal The Columbus Dispatch

Foto retirada do jornal The Columbus Dispatch. Clique para ampliar.

O professor Freshwater se defendeu dizendo que  não queimou uma cruz no braços dos estudantes, queimou um “X”. O caso todo é de um absurdo bizarro. Como uma escola pública ignora 11 anos de reclamações? Qual o próximo passo destes extremistas? Queimar um cientista em praça pública? Ainda bem que no Brasil essa briga (por enquanto) não saí da esfera das discussões ingênuas. No entanto, com os recentes casos de vandalismo religioso, só me resta temer pelo futuro dos braços dos estudantes de amanhã.

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O assassinato de uma teoria.

Eventualmente eu gosto de pegar notícias de ciências publicadas nos grandes portais e comentá-las aqui. Em geral meu principal alvo é o G1, mas até pra não dizerem que é algo pessoal, vou pegar uma notícia do Jornal Terra. A notícia foi publicada no dia 29 de maio com o título “Pegada encontrada pode mudar teoria da evolução“. O título sugere uma reportagem bombástica, que exibe fatos contundentes, até arqueológicos, para o fim da tão incompreendida teoria da evolução.

O problema é que quando lemos a notícia não é bem isso que encontramos. Na verdade trata-se da descoberta de uma pegada de 15 milhões de anos que pode ter sido feita por um animal bípede. Se essa suposição for comprovada, a pegada pode sugerir que os ancestrais do homem evoluíram muito antes do que se pensava (por exemplo, acredita-se que o homem e os chimpanzés e bonobos se separaram de seu ancestral comum a aproximadamente 6,5 milhões de anos). É perceptível portanto de que se trata de uma descoberta potencialmente importante.

O fato é que, confirmando-se ou não o significado desta pegada para o conhecimento científico atual, a teoria geral da evolução não é afetada em nenhum nível. O motivo é simples, a teoria da evolução, embora seja em grande parte sustentada pelo registro fóssil, não depende em momento algum de qualquer registro mais específico, sejam eles fósseis de animais bípedes ou qualquer outro fóssil que se possa imaginar.

O que a reportagem provavelmente deveria ter dito (e de fato o fez, ainda que discretamente) é que a teoria da evolução humana pode sofrer alguma revisão por conta desta descoberta. A reportagem do Terra ainda reproduz a frase de um dos autores da descoberta: “A teoria da evolução teria muitas dificuldades com esta evidência que estamos mostrando agora”. Desta frase podemos tirar algumas conclusões. A primeira é que o cientista pode ter cometido um engano de formulação da frase, suprimindo a palavra “humana” após “teoria da evolução”. A outra conclusão é que o Terra, ou a agência de notícia que liberou a notícia, podem ter reduzido a frase cortando a informação mais importante. Uma outra possibilidade é o erro de tradução da notícia original para o português.

O fato é que independente de quem cometeu o engano, a frase da forma como se encontra é completamente equivocada. A teoria da evolução não teria dificuldade alguma com esta evidência, em verdade, essa evidência sequer é relevante para a teoria da evolução em geral. Volto a bater na mesma tecla. O jornalismo científico, da maneira como vem sendo feito, presta um desserviço imenso a ciência e à sociedade.

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Um bom exemplo de um excelente exemplo.

No meu texto “um bom exemplo de um péssimo exemplo”, realizei algumas críticas ao atual conteúdo de ciência e saúde do portal G1. No texto em questão eu abordei alguns pontos específicos como forma de exemplos, entre eles, citei o blog Visões da Vida, mantido pelore pórter Reinaldo José Lopes. Pra minha surpresa, o Reinaldo leu minha crítica e comentou o texto. De lá pra cá, trocamos alguns emails a respeito do assunto.

Gostaria de deixar público minha grande admiração pelo Reinaldo. Ele não só compreendeu o ponto de vista da crítica, como fez questão de conversar comigo a respeito. Me mostrou o outro lado do assunto e foi extremamente profissional e ético ao fazer isso. Provavelmente mais ético que eu, que o critiquei e não o comuniquei.

Embora eu ainda mantenha alguns pontos da minha crítica, a atitude do Reinaldo é exemplar. Não são muitas as pessoas dispostas a estabelecer um diálogo honesto e, mais raras ainda, são aquelas capazes de receber uma crítica e iniciar um diálogo.

A despeito das críticas ao G1, gostaria de parabenizar o Reinaldo pela atitude e pelo exemplo.

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Um bom exemplo de um péssimo exemplo.

Acompanho as atividades do portal de notícias da Globo, o G1, desde que o site veio ao ar. Na época, e nem faz tanto tempo assim, o empreendimento era imenso. Um site de notícias de grande amplitude, conectado diretamente à base jornalística da Globo sendo alimentado por uma quantidade considerável de profissionais. Além disso, o site ainda contava com blogs e colunas de personalidades famosas. A área de ciência e saúde em particular me agradava muito, a seção era muito bem cuidada e tinha colaboração de gente de peso, como Mayana Zatz e Marcos Pontes. Mas como é hábito, tudo o que é bom dura pouco.

É notável a queda brutal de qualidade da seção de ciência e saúde. Por vezes fico envergonhado de ler determinadas “notícias” que aparecem por lá. A escolha dos títulos é a pior possível, e o rigor com o conteúdo apresentado é lastimável. Eu mesmo já usei este blog pra corrigir mais de um texto publicado no G1. Os blogs estão pobremente alimentados, mesmo o Visões da Vida, blog que sempre elogiei justamente por seu conteúdo muito bem trabalhado pelo repórter Reinaldo José Lopes, está pra lá de ruim. O que será que aconteceu com o Reinaldo? As vezes prefiro acreditar que não é o mesmo Reinaldo que colabora com a Scientific American e com a Pesquisa Fapesp. Talvez um construto bizarro, posto no automático e que acaba assinando com o nome do Reinaldo. Pior pra ele.

Um bom exemplo do mal exemplo de jornalismo sério que se tornou o G1, ao menos no que diz respeito à seção de ciência, é a matéria feita para o 1º de abril, que tenta compilar as 5 maiores mentiras da história da ciência. Embora não há dúvidas sobre a farsa do clone humano coreano, todos os outros casos são no mínimo dignos de uma análise mais apurada. Mesmo o caso do “Homem de Piltdown”, embora confirmadamente tenha se tratado de uma fraude, carrega em si um significado mais profundo. Qualquer um que conhece o caso com mais detalhes sabe que uma série de cientistas, mesmo à época, sugeriu que os ossos encontrados não eram de um ancestral humano. Nunca foi consenso que o homem de piltdown exibia qualquer comprovação sobre a evolução humana. A controvérsia só foi resolvida com a confirmação da fraude, até hoje sem um responsável.

O maior absurdo no entanto fica por conta da tentativa de fazer Claudio Ptomoleu, um dos maiores cientistas da história, se passar por falsário. Não se questiona os erros fundamentais no modelo ptolomeico de universo, mas é preciso considerar que o desenvolvimento científico ainda engatinhava. Certamente Ptolomeu não agiu de má fé, agiu na tentativa legítima de compreender algo que até hoje nos é razoavelmente incompreensível. Não questiono que Ptolomeu tenha modificado seus dados observacionais ao invés da teoria, no entanto, esse movimento é reconhecidamente usado até hoje. Quando um cientista detecta uma anomalia nos dados, dificilmente questiona a teoria. Antes, questiona o processo observacional, por vezes questiona a precisão dos instrumentos e, só com o surgimento cumulativo de anomalias passa a considerar que talvez a teoria tenha problemas. É um conhecimento básico de filosofia da ciência, completamente ignorado pelo G1.

É extremamente triste ver um portal de tamanho alcance cometer sucessivas falhas no que diz respeito à ciência. Igualmente triste é não ver ninguém reclamando ou chamando a atenção sobre o fato. Fica ao menos o alerta sobre a irresponsabilidade do G1 em fazer um bom trabalhando, prestando um desserviço à ciência e sua divulgação.

Melhor seria se a seção de ciência e saúde do G1 fosse trocada por uma de humor, ao menos as piadas não correriam o risco de serem levadas a sério.


Para saber mais.

Ptolomeu
Astronomia
Filosofia da Ciência
Jornalismo

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Células tronco: Um breve comentário.

E a votação ficou pra depois. Não acompanhei o caso com detalhes, mas gostei do que andei lendo.

As argumentações foram sérias. Gostei da proposta de usar embriões que estão congelados a mais de três anos e somente com a autorização dos pais(?). É uma saída digna e protege o direito das pessoas que são contra a destruição dos embriões para obtenção das células tronco.

Vamos esperar e torcer, a liberação do uso de células tronco embrionárias em pesquisas pode ser de importância crucial para o Brasil.

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