“Spider sense is tingling”
Certa vez, um velhinho muito sábio disse a seu sobrinho que “com grandes poderes vêm grandes responsabilidades”. Tudo bem, tudo bem, esse velhinho é um personagem de quadrinhos, mas ele sabia do que estava falando. Esse é um texto sobre como a máxima do sr. Ben Parker pode se aplicar à Ciência.
O grande poder da legitimação
Não é novidade pra ninguém que a Ciência, na forma que tem hoje, é uma grande legitimadora de conhecimento. O conhecimento científico é visto como muito mais acurado e muito melhor do que os outros tipos de conhecimento, mesmo por aqueles que nada sabem sobre o processo de construção dos conhecimentos científicos. Ou seja, mesmo quem não sabe como funciona a construção de saberes na Ciência julga que esses saberes são mais válidos do que os seus próprios, adquiridos a partir de suas vivências. A Ciência tornou-se inquestionável, mesmo que seu pressuposto básico seja o questionamento e a busca pelo conhecimento. Por sinal, quando uma pessoa ouve uma explicação científica para um fenômeno qualquer, ela deixa de buscar esse conhecimento, pois, afinal, ele já está “pronto”. Se a Ciência falou, tá falado.
Em miúdos: atualmente a Ciência tem o poder de decidir qual conhecimento é válido e qual não é. É quase como poder de decidir o que é certo e o que é errado, o que é bom e o que é ruim (por exemplo, de uma semana para a outra a Ciência pode transformar o ovo de vilão a herói de nossa saúde, e seu parecer será definitivo, enquanto a opinião dos ruralistas que criam as galinhas de nada vale, afinal, o que eles podem saber sobre ovos?).
LHC e a base da ciência.
Ontem entrou oficialmente em operação o maior instrumento científico já feito pelo homem. O Large Hadron Colider, ou simplesmente LHC, é um acelerador de partícula que, de tão grande, passa pelo subterrâneo de dois países, França e Suíça.
O aparelho vai ajudar à ciência em um entendimento mais apurado sobre os fenômenos quânticos e os mistérios do início do universo. Tudo muito bacana, tudo muito bonito. É evidente a importância deste aparelho para o desenvolvimento do conhecimento humano. Mas além disso, é uma chance única para observarmos uma questão geralmente polêmica. A relação entre as ciências aplicadas e as ciências de base.
Ciência básica: “então, mas você vai estudar isso pra quê?”
Para muitos, senão quase todos, escolher a profissão é um privilégio incalculável. Em geral a opção deve considerar a remuneração, especialmente quando se vai para a universidade passar um tempo financeiramente improdutivo. Acho que é assim que se explica a enorme quantidade de gente estudando alguma engenharia – e, também, a enorme fração de engenheiros que penduram seus diplomas trabalhando em bancos internacionais. Os salários compensam.
Já empregar-se em ciência, em geral, não vai fazer ninguém enriquecer. Tampouco há incentivos para ser cientista no Brasil, já que a regra é estudar muito (somando-se a graduação e a pós-graduação, pode-se calcular uma média de 10 anos de dedicação integral à formação acadêmica) e ganhar muito pouco ou, às vezes, nada. A especialização científica é quase que totalmente estimulada pelas instituições públicas e as bolsas são de baixo valor, têm pouca duração e sua concessão é, muitas vezes, incerta. Apesar disso, eu conheço muitos cientistas felizes e, talvez isso se deva ao fato de que eles atenderam à sua vocação quando escolheram a carreira.
Estima-se que, entre 1985 e 1990, somente 10 títulos de pós-graduação tenham sido concedidos a cada milhão de habitantes no País, o que faz do cientista brasileiro uma espécie rara. Minorias geralmente recebem estereótipos mais facilmente – então aqui estamos, com nosso exemplar de cientista maluco, inteligência muito acima da média, cabelos revoltos, óculos de fundo de garrafa, projetos absurdos, linguajar incompreensível. Como a divulgação do conhecimento científico produzido é muito restrita, tem-se a impressão de que a ciência é inatingível ou, até mesmo, inútil. Outra idéia que se faz do cientista é a de que ele é fundamentalmente um utilitarista, alguém que projeta coisas – o que representa essencialmente a função da pesquisa chamada aplicada. Normalmente ignora-se a existência de um outro tipo de pesquisa, a que trata da ciência básica. Por causa disso, o cientista que faz pesquisa básica deve ser um pouco mais paciente quando explica aos outros a sua profissão. Tomemos o meu exemplo:
Os interesses científicos são, por várias vezes, considerados extravagantes. Em parte a culpa é dos próprios cientistas, que não explicam ao público leigo de que se tratam as suas pesquisas. Por que é que uma pessoa comum acharia útil financiar com recursos públicos a pesquisa de uma lunática fascinada por besouros? “Ah, muito bem, então agora vou pedir que o governo me pague pra que eu jogue bola!”. Como Carl Sagan já mencionou, o consenso popular é de que “(…) Não é o caso de subsidiar a curiosidade dos nerds, mas aquilo que trará benefícios à sociedade”. Eu poderia usar o argumento do meu interlocutor, de que vou encontrar maneiras de acabar com o meu besouro, já que ele é uma praga agrícola em potencial, mas isto não é verdade, o meu projeto trata de uma fase anterior à essa. Para acabar com o besouro, é necessário saber quem ele é, onde ele vive e como ele vive – esses são os verdadeiros objetivos do meu trabalho. Pode ser que eu descubra que ele não é praga de nenhum cultivar importante, e é aí que reside o princípio fundamental da ciência básica: a sua aplicabilidade, quando existente, é sempre futura.
Defender a priorização de recursos para a aplicabilidade imediata do conhecimento científico é o mesmo que dizer, em um exemplo grosseiro, que encontrar a cura do câncer é mais importante do que conhecer a biodiversidade do planeta. Em lógica, isso representa uma falácia – um argumento falso deduzido a partir de uma premissa contestável. Aqui, a premissa seria a de que o bem-estar da humanidade não depende do ambiente em que ele vive. Sabemos que isso não é verdade, o homem não existe se não existir Planeta Terra e o conhecimento a respeito de sua biodiversidade é fundamental para entender o seu funcionamento geral. Assim, o que temos, em verdade, é que os dois interesses são igualmente significativos – o que, por consequência, coloca ciência básica e aplicada em um mesmo patamar.
O que aconteceria se o pensamento imediatista fosse sempre a regra? Sagan cita exemplos históricos imaginando essa situação:
“(…) Um certo sr. Fleming deseja estudar micróbios num queijo fedorento; uma polonesa deseja analisar minuciosamente toneladas de minério da África central, para descobrir quantidades diminutas de uma substância que, segundo ela, brilhará no escuro; um certo sr. Kepler deseja escutar a música dos planetas.”
O resultado seria catastrófico, porque, afinal:
“Maxwell não estava pensando no rádio, no radar e na televisão quando rabiscou as equações fundamentais do eletromagnetismo; Newton nem sonhava com vôos espaciais ou satélites de comunicações quando compreendeu pela primeira vez o movimento da Lua; Roentgen não cogitava em diagnóstico médico quando investigou uma radiação penetrante tão misteriosa que ele a chamou de “raios X”; Curie não pensava na terapia do câncer quando extraiu a duras penas quantidades diminutas de rádio do meio de toneladas de uraninita; Fleming não planejava salvar a vida de milhões com antibióticos quando observou um círculo sem bactérias ao redor de uma formação de mofo; Watson e Crick não imaginavam a cura das doenças genéticas quando tentavam decifrar a diafratometria dos raios X do DNA; Rowland e Molina não planejavam implicar os CFCs na diminuição da camada de ozônio quando começaram a estudar o papel dos halógenos na fotoquímica estratosférica.”
É engraçado que as pessoas perguntem, sem acanhamento, o “pra quê?”. Parece mais fácil aceitar uma profissão do tipo “personal coach” (o que é isso, afinal???) do que uma profissão como “taxonomista”, “físico de partículas” ou “filósofo”. Infelizmente o acesso até aos conhecimentos científicos mais simples ainda é incrivelmente restrito. Por isso eu não fico mais brava quando me perguntam “pra quê?”, mas tenho sinceras esperanças de que uma dia essa pergunta seja considerada quase que uma falta de respeito.
Inspirações e onde saber mais:
Carl Sagan. O Mundo Assombrado Pelos Demônios: No capítulo 23 (Maxwell e os nerds), com explicações detalhadas sobre as descobertas revolucionárias do grande físico Maxwell, Sagan discute o estereótipo do cientista nerd, a ciência básica e as políticas de inovação científica dos últimos anos nos países de primeiro mundo.
Simon Schwartzman. Pesquisa acadêmica, pesquisa básica e pesquisa aplicada em duas comunidades científicas: Diretor-presidente do Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade (IETS), Schwartzman analisa as definições dos modelos de pesquisa e suas implicações políticas.
Oswaldo Ubríaco Lopes. Pesquisa básica versus pesquisa aplicada: Professor do Departamento de Fisiologia do Instituto de Ciências Biomédicas da USP, Lopes discute brevemente a antiga guerra entre as áreas de pesquisa.
Exposição Revolução Genômica
Enquanto o Ministro Carlos Alberto Menezes Direito do Supremo Tribunal de Justiça (STJ) adia, sem punição por atraso, seu julgamento sobre a exclusão do artigo 5º da Lei de Biossegurança, os paulistanos estão convidados a visitar a exposição Revolução Genômica, com direito a palestras de pesquisadores nacionais e internacionais no parque do Ibirapuera.
A ação sobre a inconstitucionalidade do uso de células tronco em pesquisas foi proposta por Cláudio Fonteles, que ocupava o cargo de procurador-geral da República em 2005. Desde então, apesar do atraso provocado no desenvolvimento científico, observa-se cada vez mais a alta capacidade ética e técnica dos pesquisadores brasileiros, a julgar pela recente descoberta da localização das células tronco adultas mesenquimais nas paredes dos vasos sanguíneos.
Para saber mais:
A corporação
Há quem acredite que “a pesquisa científica moderna não busque a verdade, mas o lucro.” A frase em si já é suficiente para arrepiar qualquer cientista sensato com um mínimo de senso ético. Não bastando, subentende-se que a vida está a venda. Agora sim, epistemologicamente chocante, tanto do ponto de vista científico quanto da moral humana.
Entretanto o raciocínio é simples. Se a vida é um bem, pode ser comparada aos demais bens construídos pelo homem. Assim, dentro dessa (i)lógica, a vida pode ser negociada por ser considerada uma mercadoria. A única restrição é que ela não seja uma vida humana em seu estado natural, no caso com o sentido de original.
Pelo menos foi assim que se deu o veredito do STJ americano a favor da primeira patente de bactérias geneticamente modificadas, em 1980. Estiveram diante do juíz: o cientista – Ananda Mohan Chakrabarty; a corporação – General Eletric; as bactérias – Pseudomonas, capazes de degradar algumas substâncias químicas do petróleo; a biotecnologia – P. aeruginosa 1c (ATCC 15692) foi transformada em plasmídios contendo genes para degradar octano, salicilato e naftaleno gerando a artificial P. aeruginosa NRRL B-5472. De modo semelhante a P. putida PpG1 (ATCC 17453) originou P. putida NRRL B-5473 contendo genes de degradação da cânfora, salicilato e naftaleno além de uma resistência extra a droga, RP-1. O veredito – “tudo o que se encontra abaixo do Sol, feito pela mão do homem, pode ser patenteado”, porque “a questão relevante não é a distinção entre coisas vivas e inanimadas, mas se os produtos vivos possam ser vistos como invenções feitas pelo homem”.
Os produtos vivos, que até outro dia eram tidos como divinos em sua totalidade pela justiça americana, passaram a ser vistos como invenções humanas em alguns casos. Ingenuidade ou não, afinal pelo menos o Admirável Mundo Novo já havia sido escrito e era mundialmente conhecido à época, a jurisprudência abriu margem para o registro de uma infinidade de patentes biológicas desde então. Como o interesse de tudo que é patenteado é a aquisição de lucros, fica fácil entender que este episódio só abriu um pouco mais o leque de opções em registros. A julgar pela história das patentes que teve início durante o feudalismo, favorecendo os habitantes dos burgos que já sabiam desde aquela época que “o mercado é o juíz final de tudo”, isto não poderia deixar de ser diferente na atual “Era da Biologia”.
Explica-se a dificuldade e o adiamento do julgamento do nosso STJ sobre o uso de células-tronco embrionárias em pesquisas para fins terapêuticos. Não se trata somente de uma questão de inconstitucionalidade, há também uma preocupação implícita, e não é somente com a possibilidade de criação de monstros mais sofisticados do que o Frankeinstein, mas sim com a abertura de novas Corporações que certamente advirão, e muito lucrarão, a partir da aplicação destas pesquisas no mercado, em nome da Ciência e Saúde de um lado contra a perda de poder público do outro.
Afinal, diria o mestre, isto é bom ou ruim?







