Conheço, logo acredito?

A discórdia é o motor propulsor da Ciência. É a partir do embate de ideias, do ataque fervoroso aos pilares teóricos e às evidências que sustentam as teorias que o conhecimento científico avança. Algumas vezes, no entanto, depois de extensas discussões acadêmicas sobre um assunto (que pode demorar décadas), pode acontecer de os cientistas perceberem que aquela questão é “insolúvel”, que nunca haverá consenso. Quando isso acontece, uma espécie de “pacto” é feito, um acordo oculto entre os cientistas de que eles simplesmente vão ter que concordar em discordar.

Pergunte a um biólogo o que é uma espécie e terá uma boa noção do que eu estou falando. O conceito de espécie em Biologia é uma questão que foi (e de vez em quando ainda é) extensamente debatida e, no final de toda essa discussão, o que vemos é existem diversas definições diferentes para este conceito e que cada cientista usa o que melhor lhe convir e ninguém vai “encher o saco” dele por causa disso. Isso a princípio pode parecer absurdo, pois todos os biólogos trabalham com espécies e… como assim nenhum deles sabe ao certo o que é uma espécie? Que contradição!

Há um outro exemplo muito mais chocante, mas, por ser mais conhecido, as pessoas parecem não ligar muito pra ele: O que é Ciência? Há diversas maneiras de tentar responder essa pergunta, desde aquelas mais metodológicas até as sociológicas, passando, é claro, pelas filosóficas (onde se enquadram nossos queridos Popper, Kuhn, Feyrabend, etc.). Há livros e mais livros dedicados exclusivamente a tentar responder essa pergunta (temos até um PolegarCast a esse respeito, confiram!), mas, no final das contas, cada cientista vai pro seu laboratório e faz o seu trabalho sem ficar esquentando muito a cabeça com essa questão. Desde que saia um paper publicado (de preferência dois ou três), tá valendo.

 

Enquanto isso, fora dos laboratórios…

Às vezes jogar o problema pra baixo do tapete e fazer um acordo oculto de não discuti-lo muito pode ajudar. A Ciência vai avançando, mesmo que ninguém saiba definir ao certo o que ela é (como sabemos, então, se ela está avançando? Isso é assunto pra outro texto!). Produzir conhecimento e publicá-lo é o que importa. Mas, se por um lado esse pacto funciona para os cientistas, por outro ele pode ser uma verdadeira pedra no sapato quando se sai da esfera acadêmica.

Se não sabemos claramente o que a Ciência é, como podemos avaliar se a população está sabendo Ciência? Como sabemos se as aulas de Ciências que são ministradas em nossas escolas têm alguma ver a com a Ciência de verdade? Como avaliamos se a população está alfabetizada cientificamente?

Já há um bom tempo vem se tornando consensual a ideia de que algumas noções ingênuas sobre a Ciência devem ser desconstruídas durante a escolarização. Sendo assim, seria ideal que um aluno, ao concluir a educação básica, soubesse que os cientistas não trabalham sozinhos, que eles não são super gênios sobrehumanos, que a Ciência já foi diferente em outras épocas, que o contexto histórico influencia nos interesses das pesquisas, que a Ciência não determina verdades absolutas, que existem critérios de validação do conhecimento científico, etc. Além disso, é claro, é imprescindível que as pessoas conheçam os principais conceitos e as teorias aceitas como verdadeiras pela comunidade científica e como esses conhecimentos afetam a sociedade.

Para avaliar como as pessoas enxergam essas questões, é comum a aplicação de questionários de alfabetização científica. Trata-se de uma lista de perguntas estrategicamente elaboradas por especialistas cujas respostas, depois de passadas por tratamento estatístico, podem indicar o nível de entendimento da população acerca da Ciência, o que é muito importante na tomada de decisões políticas, por exemplo.

Percebam que esses questionários tentam “se esquivar” dos grandes debates e discórdias filosóficas acerca do que é a Ciência, focando mais naquilo que supostamente é “consensual”, que seria aquilo que um cidadão “deveria” saber sobre a Ciência. Estamos num campo polêmico. Ninguém sabe o que é a Ciência, então escolhemos pontos de menor discórdia e “por coincidência” os elegemos como os mais importantes, e aí fazemos questionários pra saber como a população está. Mas a polêmica está só começando.

 

Questionando o questionário

A pesquisadora americana Ann Arbour desenvolveu um questionário de alfabetização científica que foi traduzido e exportado para vários outros países por ser “bem completo”. Nos EUA ele é aplicado a cada dois anos, e ano que vem ele será aplicado novamente. Mas algumas alterações foram sugeridas, e (mais) uma grande controvérsia se formou.

O que acontece é o seguinte: percebeu-se que nas últimas pesquisas a população americana tem ido muito mal nesse teste e que existem algumas perguntas do questionário que são notadamente difíceis, ou seja, que quase todo mundo erra. Duas questões específicas, ambas de verdadeiro ou falso, se destacam: (1) “Os seres humanos, como os conhecemos hoje, se desenvolveram a partir de espécies mais antigas de animais” e (2) “o universo começou com uma grande explosão”.

Há um grupo de especialistas que acredita que os americanos erram essas duas questões em demasia por causa de suas crenças religiosas. Pessoas que acreditam que Deus criou o universo e o homem não marcariam nenhuma dessas afirmações como verdadeiras. Sendo assim, eles sugeriram que as afirmações fossem modificadas com a adição de qualificadores. Elas ficariam assim: “de acordo com a teoria da evolução, os seres humanos…” e “de acordo com os astrônomos, o universo…”. Afinal, a pessoa pode conhecer as teorias, mas não acreditar nelas. A autora do questionário, junto com vários outros especialistas, ficou revoltada. Eles declararam: “Se você mudar o questionário desse jeito, você está fazendo isso por motivos religiosos. (…) Nós não fazemos declarações do tipo ‘de acordo com alguns economistas, nós tivéssemos uma recessão’ ou ‘de acordo com o cara do tempo, nós tivemos um tsunami’”. Segundo esse pessoal, a simples proposição desse tipo de mudança no questionário já é absurda. Seria como mudar as regras do jogo só para que os americanos possam ter melhor desempenho.

Esse debate certamente continuará por um bom tempo, pois os dois lados têm argumentos bastante razoáveis, e o cerne da questão é o seguinte: saber Ciência é acreditar na Ciência? Qual é a diferença? Uma pessoa que não aceita a teoria da evolução e o big bang pode ser considerada alfabetizada cientificamente?

Esse é um campo delicado. Vivemos hoje num paradigma social em que a Ciência tem um papel legitimador muito forte. Sendo assim, não acreditar na Ciência é quase que visto como não acreditar na “verdade”. A Ciência é um tipo de autoridade, e “desrespeitá-la” adotando outras formas de entender o mundo não é muito bem visto. Esse tom valorativo do conhecimento científico sobre os demais pode atrapalhar na hora de pensar sobre questões como essa.

Na minha opinião, a Ciência é, entre outras coisas, uma forma de pensar. É uma forma de ver o mundo que conta muito com a racionalidade e que se baseia em fatos e evidências para sustentar suas afirmações. É necessário que as pessoas não só percebam isso (para que entendam como o conhecimento é construído), mas saibam pensar dessa forma quando conveniente, já que essa maneira de pensar, é claro, não é útil somente dentro dos laboratórios de pesquisa. Podemos utilizá-la para a tomada de decisões no dia a dia e nos beneficiar da sua forma “fria” e crítica de analisar as situações. Mas essa forma de pensar não é adequada para todos os tipos de situação. Quanto maior o número de variáveis subjetivas, como fatores pessoais, inter-pessoais, emocionais, etc., mais complicado é usar a forma científica de pensar. Ninguém vai querer usá-la na hora de escolher uma namorada, por exemplo, pegando a genealogia da pretendente para checar as doenças genéticas presentes na família para averiguar se ela seria uma boa parceira. Pra quem assiste o seriado “The Big Bang Theory”, o Sheldon é um ótimo exemplo de como a forma científica de se pensar pode ser inadequada (até mesmo ridícula) em diversas situações.

 

O buraco é (bem) mais embaixo

Mas quem somos nós para dizer onde essa linha deve ser desenhada? A forma científica de pensar deveria estar no hall de opções de todas as pessoas, até mesmo porque essa é única forma de entender como a Ciência funciona, mas não tem como avaliar quando ela deve ou não ser usada. Uma pessoa que não acredita na teoria da evolução ou no big bang por motivos religiosos está preferindo usar uma outra forma de pensar quando o assunto é a origem do homem e do universo. Há quem diga que o entendimento dessas teorias é suficiente para a sua aceitação, mas a realidade é bem mais complexa que isso.

O discernimento entre conhecer as teorias científicas e aceita-las é importante, mas não pode ser feito de maneira rasa. Todo mundo sabe que a Ciência acredita que as espécies evoluem e que o universo começou com uma grande explosão, mas quantas pessoas conhecem as evidências que sustentam essas teorias? Estar alfabetizado cientificamente é entender como os cientistas elaboraram essas e outras teorias e porque acreditam nelas até hoje, e uma marcação de “verdadeiro” ou “falso” num questionário não passa nem perto de nos dar essa resposta, seja a pergunta montada da forma que for.

Não devemos entrar no mérito de fazer julgamentos sobre as pessoas que não acreditam nas teorias científicas, mas temos a obrigação de fazer questionamentos sobre as escolas que não as ensinam. Afinal, se a escola estivesse em condições de cumprir seus objetivos, nem haveria razão para que questionários desse tipo fossem feitos, já que um diploma de ensino médio seria mais do que suficiente para se ter certeza de que aquela pessoa tem essas habilidades. A discussão a respeito da modificação nesse questionário é pertinente, já que levanta questões importantes, mas impressiona ver como em pleno século XXI ainda este ainda é o tópico de discussão.

Nenhum comentário
Categoria: blog
Carta aberta aos pais de alunos.

Nas últimas semanas acompanhei, sem me pronunciar é verdade, as inflamadas notícias sobre escolas brasileiras que decidiram inserir o criacionismo em suas aulas. A despeito da já infrutífera discussão entre criacionismo e evolucionismo, a reportagem da Veja sobre este assunto esbarra em um questão que se perde no “blablabla” habitual.

Lá, perdido no meio da reportagem, vemos a seguinte passagem:

Os pais de alunos das escolas evangélicas não costumam reclamar do fato de seus filhos serem instruídos no criacionismo em detrimento da ciência. Dizem ter escolhido a escola por acreditar que ela incute nas crianças valores morais, éticos e cristãos. “Nossa escola forma verdadeiros cidadãos. De que adianta o adolescente estar preparado para o vestibular se não tiver uma boa formação como ser humano?”, diz a baiana Selma Reis Guedes, uma das diretoras do Colégio Batista Brasileiro, de São Paulo.

Eu não poderia concordar mais com a diretora Selma, de que adianta estar preparado para o ensino superior sem a formação moral necessária? Por outro lado, não poderia descordar mais dos pais dos alunos que depositam no ensino religioso a responsabilidade pelo ensino moral e ético (e ainda estou em dúvida sobre o cristão).

Se existe um mérito compartilhado pela maioria das religiões, é a imagem pública conquistada. A maior parte das pessoas de fato correlaciona valores morais e éticos à religião. E há motivos para isso. É certo que muitas religiões defendem valores que em termo geral, são de fato éticos. Mas defender um valor qualquer não basta, é preciso praticá-lo.

Além disso, boa parte dos valores apreciados pela sociedade não nasceram com as religiões e, com efeito, são completamente independente delas. Uma pessoa não precisa ser religiosa para ser boa, assim como uma pessoa religiosa pode ser absolutamente má. É um salto retórico imenso colocar valores morais desejados como efeito de uma causa tão controversa quanto religião.

Outro salto retórico igualmente medonho é convencer as pessoas de que acreditar em uma teoria científica qualquer resulte no abandono da ética e da moral. E é exatamente o que esta implícito na fala da diretora Selma a qual chamei a atenção.

Portanto deixo aqui aos pais de alunos que se interessam verdadeiramente pela “formação como ser humano” de seus filhos. A educação começa em casa. Se os senhores desejam uma educação ética e moral para seus filhos, não depositem a responsabilidade apenas na escola.

Ética e moral são valores independentes de religiões e credos. Não caiam no erro de acreditar que uma educação científica deficiente, em prol de uma educação religiosa mais presente, irá produzir seres humanos melhores. Faz parte de um ser humano melhor saber conviver com a pluralidade cultural, religiosa e, vá lá, científica.

Uma educação que busca atacar essa pluralidade não é moral ou ética ou religiosa, independente de vestir tal máscara. É, em verdade, um ensino tacanho que irá produzir seres humanos igualmente tacanhos.

9 Comentários
Categoria: blog
Vaticano e Evolução: Nada mudou.

Na última terça-feira, 16 de setembro de 2008, o Vaticano anunciou que a teoria da evolução é compatível com a bíblia. Toda notícia que envolve o Vaticano e a Ciência sempre causa comoção geral, e não foi diferente desta vez. Choveram post’s em blogs, comentários inflamados em comunidades de redes sociais e etc, etc, etc…

O curioso é que de tudo o que se falou, poucos lembraram que em 1950 o Papa Pio XII já não tratava a teoria evolutiva com repulsa, assim como o Papa pop João Paulo II. Qual é exatamente a novidade no pronunciamento atual então? Sinceramente, eu não sei dizer.

Vaticano. Clique para ampliar.

Vaticano. Clique para ampliar.

Na verdade, acredito que exista um grande equívoco no que se compreende publicamente do relacionamento do Vaticano com a Ciência. Há um certo exagero com a velha (e provavelmente falsa) dicotomia entre fé e ciência. A verdade é que a igreja nunca foi necessariamente contra o desenvolvimento científico. Com efeito, o Vaticano possuí sua própria academia de ciência. Os pesquisadores brasileiros Crodowaldo Pavan e Carlos Chagas Filho já foram membros bastante ativos desta academia.

As brigas entre o Vaticano e cientistas ocorreram muito mais na esfera da política. Oras, vejamos. É perfeitamente compreensível que quem ganha grande influência sobre a sociedade, quer manter o status quo. Seja o Lula, seja o Papa. No caso da Igreja isso era feito impedindo o contato do “povo” com conhecimentos mais aprofundados sobre o mundo. No lugar, oferecia-se uma explicação mística, incontestável e inqüestionável.

Churrasco de cientistas.

Churrasco de cientistas.

Desta forma, trabalhos científicos que, a despeito de seu caráter desafiador, não ganhavam popularidade dificilmente sofriam quaisquer restrições. É o caso do trabalho de Nicolau Copérnico. Por outro lado, trabalhos que conseguiam se espalhar rapidamente e influenciar a população como um todo, acabavam por criar problemas. É o caso de Galileu, melhor explorado neste texto.

Nos séculos que seguiram, nada mudou. A igreja aceitar a teoria evolutiva como compatível com a bíblia é um grande indício deste movimento. A ciência tem grande influência sobre a sociedade contemporânea, e ignorar esta influência é dar um tiro no pé.

Hey, eu estudei teologia...

Hey, eu estudei teologia...

O Vaticano deu um tiro, mas de alerta. Para diminuir a “fuga de fiéis” que já vem ocorrendo a algum tempo vale qualquer coisa, até dizer que a evolução existe. O pedido de desculpa à Darwin não demora a vir.

1 Comentário
Categoria: blog
Dicotomias sem nexo.

Não é novidade a relação de poucos amigos que algumas religiões tem com relação à ciência. O que me deixa curioso, e as vezes até impressionado, é a maneira como a questão vem sendo tratada a séculos. O discurso de ambos os lados é basicamente o mesmo, e em geral, mal esbarram no centro da questão.

E qual questão seria essa? Eu pergunto e respondo. A questão é que a ciência e a religião não possuem relação antagônica alguma. Ambas são constructos humanos, por mais divinas que sejam, e possuem suas raízes em conceitos filosóficos distintos.

Poderia usar a oportunidade para mais uma vez defender o conceito kuhniano de incomensurabilidade. Mas vou deixar passar, porque já usei esta argumentação em outro texto. O caso é que tanto a ciência como a religião são usadas como forma de segregação de opinião. Claro, não estou aqui falando de pessoas sensatas, que conseguem compreender que se nem só de pão vive o homem, não vai ser só de ciência ou religião que ele vai viver.

Estou falando dos “céticos afetados” e dos “religiosos de cabresto”. Gente que na tentativa desesperada de proteger sua visão de mundo, acabam por prejudicar o que defendem. Confesso que já fui assim, em determinado momento da vida. Criticava religiões como se não houvesse amanhã. Mas era coisa da idade, a gente amadurece e passa a perceber que entre o preto e o branco, a um mundo infinito de cinzas.

Já me acusaram de otimista neste blog. Talvez este otimismo todo se pareça mais com fé. Eu acredito que, eventualmente, todos aprenderemos a ter tolerância com a realidade do outro, por mais bizarra que ela possa parecer a nós. Acredito realmente que um dia, ciência e religião vão conviver tranquilamente. Sem dicotomias sem nexo, ou intolerância exacerbada.

A Escola de Atenas. Ao centro Platão e Aristóteles, mestre e aluno, que apesar de sua boa relação possuiam filosofias distintas. Reparem que enquanto Platão aponta para o céu, Aristóteles aponta para a terra.

A Escola de Atenas. Ao centro Platão e Aristóteles, mestre e aluno, que apesar de sua boa relação possuiam filosofias distintas. Reparem que Platão aponta para o céu enquanto Aristóteles aponta para a terra. Alusão direta ao choque do mundo das idéias de Platão, muito parecido com o que algumas religiões defendem, e a filosofia mais "concreta" de Aristóteles.

5 Comentários
Categoria: blog