Carta aberta aos pais de alunos.

Nas últimas semanas acompanhei, sem me pronunciar é verdade, as inflamadas notícias sobre escolas brasileiras que decidiram inserir o criacionismo em suas aulas. A despeito da já infrutífera discussão entre criacionismo e evolucionismo, a reportagem da Veja sobre este assunto esbarra em um questão que se perde no “blablabla” habitual.

Lá, perdido no meio da reportagem, vemos a seguinte passagem:

Os pais de alunos das escolas evangélicas não costumam reclamar do fato de seus filhos serem instruídos no criacionismo em detrimento da ciência. Dizem ter escolhido a escola por acreditar que ela incute nas crianças valores morais, éticos e cristãos. “Nossa escola forma verdadeiros cidadãos. De que adianta o adolescente estar preparado para o vestibular se não tiver uma boa formação como ser humano?”, diz a baiana Selma Reis Guedes, uma das diretoras do Colégio Batista Brasileiro, de São Paulo.

Eu não poderia concordar mais com a diretora Selma, de que adianta estar preparado para o ensino superior sem a formação moral necessária? Por outro lado, não poderia descordar mais dos pais dos alunos que depositam no ensino religioso a responsabilidade pelo ensino moral e ético (e ainda estou em dúvida sobre o cristão).

Se existe um mérito compartilhado pela maioria das religiões, é a imagem pública conquistada. A maior parte das pessoas de fato correlaciona valores morais e éticos à religião. E há motivos para isso. É certo que muitas religiões defendem valores que em termo geral, são de fato éticos. Mas defender um valor qualquer não basta, é preciso praticá-lo.

Além disso, boa parte dos valores apreciados pela sociedade não nasceram com as religiões e, com efeito, são completamente independente delas. Uma pessoa não precisa ser religiosa para ser boa, assim como uma pessoa religiosa pode ser absolutamente má. É um salto retórico imenso colocar valores morais desejados como efeito de uma causa tão controversa quanto religião.

Outro salto retórico igualmente medonho é convencer as pessoas de que acreditar em uma teoria científica qualquer resulte no abandono da ética e da moral. E é exatamente o que esta implícito na fala da diretora Selma a qual chamei a atenção.

Portanto deixo aqui aos pais de alunos que se interessam verdadeiramente pela “formação como ser humano” de seus filhos. A educação começa em casa. Se os senhores desejam uma educação ética e moral para seus filhos, não depositem a responsabilidade apenas na escola.

Ética e moral são valores independentes de religiões e credos. Não caiam no erro de acreditar que uma educação científica deficiente, em prol de uma educação religiosa mais presente, irá produzir seres humanos melhores. Faz parte de um ser humano melhor saber conviver com a pluralidade cultural, religiosa e, vá lá, científica.

Uma educação que busca atacar essa pluralidade não é moral ou ética ou religiosa, independente de vestir tal máscara. É, em verdade, um ensino tacanho que irá produzir seres humanos igualmente tacanhos.

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Vaticano e Evolução: Nada mudou.

Na última terça-feira, 16 de setembro de 2008, o Vaticano anunciou que a teoria da evolução é compatível com a bíblia. Toda notícia que envolve o Vaticano e a Ciência sempre causa comoção geral, e não foi diferente desta vez. Choveram post’s em blogs, comentários inflamados em comunidades de redes sociais e etc, etc, etc…

O curioso é que de tudo o que se falou, poucos lembraram que em 1950 o Papa Pio XII já não tratava a teoria evolutiva com repulsa, assim como o Papa pop João Paulo II. Qual é exatamente a novidade no pronunciamento atual então? Sinceramente, eu não sei dizer.

Vaticano. Clique para ampliar.

Vaticano. Clique para ampliar.

Na verdade, acredito que exista um grande equívoco no que se compreende publicamente do relacionamento do Vaticano com a Ciência. Há um certo exagero com a velha (e provavelmente falsa) dicotomia entre fé e ciência. A verdade é que a igreja nunca foi necessariamente contra o desenvolvimento científico. Com efeito, o Vaticano possuí sua própria academia de ciência. Os pesquisadores brasileiros Crodowaldo Pavan e Carlos Chagas Filho já foram membros bastante ativos desta academia.

As brigas entre o Vaticano e cientistas ocorreram muito mais na esfera da política. Oras, vejamos. É perfeitamente compreensível que quem ganha grande influência sobre a sociedade, quer manter o status quo. Seja o Lula, seja o Papa. No caso da Igreja isso era feito impedindo o contato do “povo” com conhecimentos mais aprofundados sobre o mundo. No lugar, oferecia-se uma explicação mística, incontestável e inqüestionável.

Churrasco de cientistas.

Churrasco de cientistas.

Desta forma, trabalhos científicos que, a despeito de seu caráter desafiador, não ganhavam popularidade dificilmente sofriam quaisquer restrições. É o caso do trabalho de Nicolau Copérnico. Por outro lado, trabalhos que conseguiam se espalhar rapidamente e influenciar a população como um todo, acabavam por criar problemas. É o caso de Galileu, melhor explorado neste texto.

Nos séculos que seguiram, nada mudou. A igreja aceitar a teoria evolutiva como compatível com a bíblia é um grande indício deste movimento. A ciência tem grande influência sobre a sociedade contemporânea, e ignorar esta influência é dar um tiro no pé.

Hey, eu estudei teologia...

Hey, eu estudei teologia...

O Vaticano deu um tiro, mas de alerta. Para diminuir a “fuga de fiéis” que já vem ocorrendo a algum tempo vale qualquer coisa, até dizer que a evolução existe. O pedido de desculpa à Darwin não demora a vir.

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Dicotomias sem nexo.

Não é novidade a relação de poucos amigos que algumas religiões tem com relação à ciência. O que me deixa curioso, e as vezes até impressionado, é a maneira como a questão vem sendo tratada a séculos. O discurso de ambos os lados é basicamente o mesmo, e em geral, mal esbarram no centro da questão.

E qual questão seria essa? Eu pergunto e respondo. A questão é que a ciência e a religião não possuem relação antagônica alguma. Ambas são constructos humanos, por mais divinas que sejam, e possuem suas raízes em conceitos filosóficos distintos.

Poderia usar a oportunidade para mais uma vez defender o conceito kuhniano de incomensurabilidade. Mas vou deixar passar, porque já usei esta argumentação em outro texto. O caso é que tanto a ciência como a religião são usadas como forma de segregação de opinião. Claro, não estou aqui falando de pessoas sensatas, que conseguem compreender que se nem só de pão vive o homem, não vai ser só de ciência ou religião que ele vai viver.

Estou falando dos “céticos afetados” e dos “religiosos de cabresto”. Gente que na tentativa desesperada de proteger sua visão de mundo, acabam por prejudicar o que defendem. Confesso que já fui assim, em determinado momento da vida. Criticava religiões como se não houvesse amanhã. Mas era coisa da idade, a gente amadurece e passa a perceber que entre o preto e o branco, a um mundo infinito de cinzas.

Já me acusaram de otimista neste blog. Talvez este otimismo todo se pareça mais com fé. Eu acredito que, eventualmente, todos aprenderemos a ter tolerância com a realidade do outro, por mais bizarra que ela possa parecer a nós. Acredito realmente que um dia, ciência e religião vão conviver tranquilamente. Sem dicotomias sem nexo, ou intolerância exacerbada.

A Escola de Atenas. Ao centro Platão e Aristóteles, mestre e aluno, que apesar de sua boa relação possuiam filosofias distintas. Reparem que enquanto Platão aponta para o céu, Aristóteles aponta para a terra.

A Escola de Atenas. Ao centro Platão e Aristóteles, mestre e aluno, que apesar de sua boa relação possuiam filosofias distintas. Reparem que Platão aponta para o céu enquanto Aristóteles aponta para a terra. Alusão direta ao choque do mundo das idéias de Platão, muito parecido com o que algumas religiões defendem, e a filosofia mais "concreta" de Aristóteles.

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