Elogio ao plástico

outubro, 2010

Foi recentemente editado em Lisboa pela Escolar Editora o livro História do PVC em Portugal. CIRES – Um caso de sucesso, de Maria Elvira Callapez. Decorrente de uma tese de doutoramento apresentada à Faculdade de Ciências e Tecnologias da Universidade Nova de Lisboa, este livro tem o mérito de registar alguns aspectos importantes associados à transferência e desenvolvimento das tecnologias de fabricação do policloreto de vinilo. Mais, ao mesmo tempo que o faz, deixa entrever um pano de fundo marcado por um regime de condicionamento industrial. Este regime, instituído formalmente em 1931 e em vigor até 1974, limitava a concorrência entre os nacionais a partir do impedimento do excesso de produção. Com um carácter fortemente proteccionista e indiferente quanto à liberalização do comércio externo em curso, este regime comungava de uma visão política eminentemente conservadora. Neste sentido, o livro de Callapez revela-se um trabalho de história da tecnologia e da indústria química portuguea de referência. Não apenas descodifica como também constrói toda uma narrativa que dá ao leitor a possibilidade de compreender de uma forma mais aprofundada os mecanismos de evolução dos processos de fabrico de plásticos. Aliás, evolução essa que serve de corolário ao progresso da própria ciência. Por conseguinte, a implementação de novos processos de fabrico, mais avançados e mais eficientes, é precedida não apenas por um progresso tecnológico da indústria química em si mas, talvez mais importante, é precedida por uma reconfiguração epistemológica da própria química. Reconfiguração essa capaz de fertilizar a inovação e a aplicabilidade das técnicas desenvolvidas em laboratório. Disso nos dá conta Callapez em obra anterior – Os plásticos em Portugal: a origem da indústria transformadora (Editorial Estampa, 2000) – quando refere que «O desenvolvimento das teorias químicas da polimerização (…) a par do desenvolvimento da tecnologia das altas pressões, foi significativo para o aperfeiçoamento e desenvolvimento dos plásticos comerciais. Na realidade, permitiram superar muitos dos problemas técnicos de produção de polímeros e da sua conversão em materiais comercialmente viáveis, levando a um desenvolvimento acentuado na produção deste tipo de compostos» (p.37).

continue lendo >>

Resenha: Grandes Debates da Ciência

setembro, 2008

Como qualquer atividade humana, a ciência é permeada por pontos polêmicos e disputas de egos. Não é raro observar propostas de teorias que de certa maneira, concorrem para explicar um mesmo fenômeno. Da mesma forma, também há casos clássicos de cientistas que partem para “contendas” de todos os tipos. Embora a imagem de uma ciência segura de seus enunciados, sabemos que na prático isso dificilmente ocorre.

Este é justamente o ponto do livro Grandes Debates da Ciência, de Hal Hellman. O autor selecionou alguns dos casos mais populares de disputa entre cientistas e compilou estes casos em um livro bastante interessante. Eu diria até, bastante viciante. Desde Harry Potter e o Cálice de Fogo (e daí né gente!) eu não lia nada que realmente me empolgasse e que fosse difícil de largar.

Evidente que o livro do Hellman nada tem a ver com os livros do Harry Potter. Não se trata de um livro de ficção, mas sim uma amostra bastante curiosa de casos clássicos da ciência. Entre estes casos temos a disputa entre Newton e Leibiniz, Galileu contra o Papa Urbano VIII, Thomas Huxley contra Samuel Wilberforce durante a legendária briga envolvendo a teoria da evolução de Darwin, e por aí vai.

O texto é bastante leve e gostoso de ler. Não é um livro técnico, ou um tratado sobre disputas científicas. É, antes de tudo, um bom livro de divulgação científica. Escrito de maneira a agradar qualquer pessoa que se interessa pelo tema.

Recomendo o livro para os curiosos em saber sobre os bastidores da ciência. É conhecendo melhor estes debates que podemos perceber que a ciência, a despeito de sua imagem mítica, é um empreendimento humano, feito por seres humanos. Como qualquer outro, como qualquer um.

Resenha: O direito à vida e a pesquisa com células-tronco

agosto, 2008

Apesar do Supremo Tribunal de Justiça ter votado pela não inconstitucionalidade das pesquisas com células-tronco embrionárias no dia 29 de Maio deste ano, e das pesquisas com este material biológico já estarem em curso no Brasil, dediquei algumas horas à leitura do livro “O direito à vida e a pesquisa com células-tronco” da autora Renata da Rocha. O livro, inserido na Coleção Biodireito/Bioética da Editora Campos/Elsevier, merece um elogio para o estilo de linguagem. A autora escreve de forma simples e expõe suas idéias com a clareza necessária para ser compreendida tanto pelo público leigo, quanto pelo público estudantil universitário.

continue lendo >>

Resenha: Eu, primata.

abril, 2008

Frans de Waal é um importante e conhecido primatologista holandes vivendo nos Estados Unidos. Formado em biologia e psicologia, se envolveu no estudo de comportamento animal, especialmente de grandes primatas, tornando-se uma das maiores autoridades do mundo neste sentido. Em 2007 esteve listado como uma das 100 pessoas mais influentes pela Times, e já produziu seis livros de divulgação científica. Destes, apenas um foi lançado no Brasil. “Our inner ape – A leading primatologist explains why we are who we are” ou “Eu, primata – Por que somos como somos” em seu título em português é um livro difícil de se classificar.

A dificuldade vem justamente da abordagem estabelecida de uma tentativa em compreender o comportamento humano, tomando como modelo comparativo o comportamento de nossos primos símios, os chimpanzés e os bonobos. A estratégia de Waal, embora possa parecer controversa, faz todo sentido. Os bonobos e os chimpanzés provavelmente evoluíram do mesmo ancestral comum dos humanos, no entanto, as diferenças comportamentais destas três espécies são aparentemente distintas o suficiente para tornar a comparação válida. O que de Waal faz é demonstrar que, em certas áreas “cinzas”, humanos, bonobos e chimpanzés compartilham uma série de características comportamentias.

O resultado é impressionante. Somos apresentados ao mundo extremamente político dos chimpanzés, muito similar ao nosso. Um complexo jogo de alianças e conchavos intrincados que remetem imediatamente à nossa política partidária. Ao mesmo tempo nos vemos no mundo erótico dos bonobos, também similar ao nosso. O autor então lança mão desse processo comparativo para mostrar o ser humano como uma espécie amalgama de nosso primos. Nosso apreço pelo poder, guerra e sexo é a síntese do comportamento dos chimpanzés e bonobos.

O livro é em geral muito bom, embora tenha seus momentos massantes. Mas eles são compreensíveis, o assunto não é simples e a proposta é bastante ousada. Buscar o entendimento sobre as ações do homem tomando a primatologia como base pode não agradar muitas pessoas. Aceitar as proposições de Frans de Waal é o mesmo que aceitar que o homem compartilha seu ancestral com os símios, idéia sabidamente polêmica mas que, a despeito de tudo, tem suporte científico.

Além disso, o autor incorre constantemente no antropomorfismo. O próprio de Waal chama a atenção para essa questão, mas defende que os comportamentos dos bonobos e chimpanzés são de fato muito similares ao nosso. Similares a tal ponto de poderem ser comparados de igual para igual. Exemplos que justifiquem essa afirmativa não faltam por todo o livro, em todo caso, alguns estão mais para a defesa apaixonada do que para a defesa racional. Igualmente compreensível, claro, mas é bom observar estes pequenos momentos de defesa apaixonada com cautela. Em todo caso o livro é ótimo e sua leitura é recomendada.

Citação:
“Este livro analisa os fascinantes e assustadores paralelos entre o comportamento dos humanos e o de outros grandes primatas, com igual consideração para com o bom, o mau e o feio” – Frans de Waal.

Dados gerais:
Eu, primata – Por que somos como somos.
331 páginas
ISBN 978-359-1062-9
Companhia das Letras

Para saber mais:

Bonobos
Chimpanzés
Primatologia
Comportamento animal