Resenha: Grandes Debates da Ciência

Como qualquer atividade humana, a ciência é permeada por pontos polêmicos e disputas de egos. Não é raro observar propostas de teorias que de certa maneira, concorrem para explicar um mesmo fenômeno. Da mesma forma, também há casos clássicos de cientistas que partem para “contendas” de todos os tipos. Embora a imagem de uma ciência segura de seus enunciados, sabemos que na prático isso dificilmente ocorre.

Este é justamente o ponto do livro Grandes Debates da Ciência, de Hal Hellman. O autor selecionou alguns dos casos mais populares de disputa entre cientistas e compilou estes casos em um livro bastante interessante. Eu diria até, bastante viciante. Desde Harry Potter e o Cálice de Fogo (e daí né gente!) eu não lia nada que realmente me empolgasse e que fosse difícil de largar.

Evidente que o livro do Hellman nada tem a ver com os livros do Harry Potter. Não se trata de um livro de ficção, mas sim uma amostra bastante curiosa de casos clássicos da ciência. Entre estes casos temos a disputa entre Newton e Leibiniz, Galileu contra o Papa Urbano VIII, Thomas Huxley contra Samuel Wilberforce durante a legendária briga envolvendo a teoria da evolução de Darwin, e por aí vai.

O texto é bastante leve e gostoso de ler. Não é um livro técnico, ou um tratado sobre disputas científicas. É, antes de tudo, um bom livro de divulgação científica. Escrito de maneira a agradar qualquer pessoa que se interessa pelo tema.

Recomendo o livro para os curiosos em saber sobre os bastidores da ciência. É conhecendo melhor estes debates que podemos perceber que a ciência, a despeito de sua imagem mítica, é um empreendimento humano, feito por seres humanos. Como qualquer outro, como qualquer um.

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Resenha: O direito à vida e a pesquisa com células-tronco

Apesar do Supremo Tribunal de Justiça ter votado pela não inconstitucionalidade das pesquisas com células-tronco embrionárias no dia 29 de Maio deste ano, e das pesquisas com este material biológico já estarem em curso no Brasil, dediquei algumas horas à leitura do livro “O direito à vida e a pesquisa com células-tronco” da autora Renata da Rocha. O livro, inserido na Coleção Biodireito/Bioética da Editora Campos/Elsevier, merece um elogio para o estilo de linguagem. A autora escreve de forma simples e expõe suas idéias com a clareza necessária para ser compreendida tanto pelo público leigo, quanto pelo público estudantil universitário.

No entanto, já na primeira linha dos agradecimentos observa-se a tendência religiosa da autora ao agradecer em primeiro lugar à Deus. A crítica não é a respeito da religiosidade da autora, mas sim ao fato do tema escolhido tanger, na visão dela, à questão da vida e da morte. A questão das células-tronco embrionárias foi durante o debate, e continua sendo, confundida com uma questão de vida e morte pelo público leigo. Partindo da premissa de que existem outras formas de interpretar o mundo, e de que a científica não é necessariamente a mais importante (ou correta) delas, o que impressiona é a forma enfática com que a autora defende sua posição ferrenhamente contrária à da ciência relatando a retirada de células-tronco como destruidora do embrião, reificadora do ser humano, e promotora de riscos aos seres humanos.

Não obstante o tom de religiosidade no combate à ciência, a autora ainda se apropria de um discurso político acerca das descobertas e tecnologias científicas como se fossem os próprios cientistas grandes empresários em busca de riqueza desenfreada, violando aspectos éticos da vida em sociedade. É fato que muito dinheiro circula em função de patentes derivadas de avanços científicos e tecnológicos, mas isto se deve à maneira como a sociedade tem se apropriado da ciência. O cientista em si, salvo raras exceções, não tem tino comercial e não é o principal privilegiado das patentes de suas descobertas.

Ao ler o livro fiquei com a impressão de que, na ânsia pela defesa de seus princípios morais, a autora exagerou na defesa da importância do papel do Biodireito, sem se preocupar em pedir auxílio a um geneticista para descrever os conceitos básicos de genética. A autora se baseou na enciclopédia Encarta, em livros de Direito e de divulgação científica, e até em notícias de jornal. Na ausência de livros técnicos de genética como referência o resultado é uma série de erros conceituais.

Um dos parágrafos finais da conclusão revela novamente uma veemência tão polarizada que, ao invés de promover um debate construtivo sobre a polêmica, já traz uma série de enquadramentos da incumbência do Biodireito aos quais os cientistas deveriam se ajustar para preservar a vida de acordo com a concebida pela autora, por meio de seus desconhecimentos genéticos obtidos de fontes pouco científicas. Dentre outras, seria esperado que o Biodireito impedisse a retirada de células-tronco embrionárias, proibisse a manipulação de células germinativas e do embrião humano, vetasse a clonagem, e inviabilizasse a terapia gênica em células embrionárias.

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Resenha: Eu, primata.

Frans de Waal é um importante e conhecido primatologista holandes vivendo nos Estados Unidos. Formado em biologia e psicologia, se envolveu no estudo de comportamento animal, especialmente de grandes primatas, tornando-se uma das maiores autoridades do mundo neste sentido. Em 2007 esteve listado como uma das 100 pessoas mais influentes pela Times, e já produziu seis livros de divulgação científica. Destes, apenas um foi lançado no Brasil. “Our inner ape – A leading primatologist explains why we are who we are” ou “Eu, primata – Por que somos como somos” em seu título em português é um livro difícil de se classificar.

A dificuldade vem justamente da abordagem estabelecida de uma tentativa em compreender o comportamento humano, tomando como modelo comparativo o comportamento de nossos primos símios, os chimpanzés e os bonobos. A estratégia de Waal, embora possa parecer controversa, faz todo sentido. Os bonobos e os chimpanzés provavelmente evoluíram do mesmo ancestral comum dos humanos, no entanto, as diferenças comportamentais destas três espécies são aparentemente distintas o suficiente para tornar a comparação válida. O que de Waal faz é demonstrar que, em certas áreas “cinzas”, humanos, bonobos e chimpanzés compartilham uma série de características comportamentias.

O resultado é impressionante. Somos apresentados ao mundo extremamente político dos chimpanzés, muito similar ao nosso. Um complexo jogo de alianças e conchavos intrincados que remetem imediatamente à nossa política partidária. Ao mesmo tempo nos vemos no mundo erótico dos bonobos, também similar ao nosso. O autor então lança mão desse processo comparativo para mostrar o ser humano como uma espécie amalgama de nosso primos. Nosso apreço pelo poder, guerra e sexo é a síntese do comportamento dos chimpanzés e bonobos.

O livro é em geral muito bom, embora tenha seus momentos massantes. Mas eles são compreensíveis, o assunto não é simples e a proposta é bastante ousada. Buscar o entendimento sobre as ações do homem tomando a primatologia como base pode não agradar muitas pessoas. Aceitar as proposições de Frans de Waal é o mesmo que aceitar que o homem compartilha seu ancestral com os símios, idéia sabidamente polêmica mas que, a despeito de tudo, tem suporte científico.

Além disso, o autor incorre constantemente no antropomorfismo. O próprio de Waal chama a atenção para essa questão, mas defende que os comportamentos dos bonobos e chimpanzés são de fato muito similares ao nosso. Similares a tal ponto de poderem ser comparados de igual para igual. Exemplos que justifiquem essa afirmativa não faltam por todo o livro, em todo caso, alguns estão mais para a defesa apaixonada do que para a defesa racional. Igualmente compreensível, claro, mas é bom observar estes pequenos momentos de defesa apaixonada com cautela. Em todo caso o livro é ótimo e sua leitura é recomendada.

Citação:
“Este livro analisa os fascinantes e assustadores paralelos entre o comportamento dos humanos e o de outros grandes primatas, com igual consideração para com o bom, o mau e o feio” – Frans de Waal.

Dados gerais:
Eu, primata – Por que somos como somos.
331 páginas
ISBN 978-359-1062-9
Companhia das Letras

Para saber mais:

Bonobos
Chimpanzés
Primatologia
Comportamento animal

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