Dinossauros, penas, insensatez e informação

Na ciência, algumas vezes são propostas idéias que simplesmente não agradam a todos. Seja por motivações ideológicas, religiosas, econômicas ou mesmo pelo gosto de cada um, algumas teorias podem incomodar bastante. A teoria da evolução é um exemplo bem conhecido, e talvez seja um dos melhores que existam. Na época de Darwin, panfletos maliciosos circulavam aos montes. Esses panfletos tentavam enfraquecer a teoria evolutiva não com argumentos científicos, mas pelo apelo às conseqüências da aceitação da teoria: “Se esse cara estiver certo, isso significa que somos parentes dos macacos! Nós não podemos ser parentes dos macacos, então ele só pode estar errado!”.

Na verdade até hoje sites criacionistas proliferam na internet com essa mesma intenção de ridicularizar uma teoria científica com argumentos não científicos. No entanto, essa semana achei na internet algo que me surpreendeu e chocou. Um sujeito leu um artigo da Nature do mês passado que trata de uma pesquisa que descobriu o provável padrão de coloração das penas de uma espécie de dinossauro. Ele não gostou muito. Na verdade ele não gostou nem um pouco. Ele ficou atordoado, mas não por terem descoberto a coloração das penas. O que o incomodou foi a premissa da pesquisa: alguns dinossauros tinham penas.

Ele ficou tão revoltado que começou uma campanha na internet contra a teoria dos dinossauros com penas. O lema de sua campanha é “Dinossauros com penas são uma teoria, não um fato!”, e seu argumento central é o seguinte: “Há alguns dias saiu uma história sobre como ‘cientistas’ estavam orgulhosos de terem descoberto qual a cor exata das penas de um tipo particular de dinossauro, o que é maravilhoso para eles, exceto pelo fato de que toda a idéia de dinossauros com penas é completamente estúpida. Os dinossauros são máquinas mortíferas cobertas de couro. Não são rainhas do Carnaval brasileiro”. Ou seja, como os dinossauros têm que ser malvados, eles não podem ter penas. Um belo argumento!

Uma das características mais legais da Ciência é o fato dela não ser fechada. Todas as teorias estão sempre abertas à discussão. Muito já foi escrito sobre como se dão essas discussões e sobre como uma teoria é substituída por outra. Evidentemente, este sujeito nunca leu nenhum desses escritos. Provavelmente não se informou melhor sobre a própria teoria que está atacando também.

Este é um caso extremo, mas acho que ele traz à luz uma questão bastante comum: a maioria das pessoas não tem a menor idéia de como a ciência funciona! Para esse cidadão não faltou sensatez (tá, talvez um pouco!), mas sim (in)formação. Esse é um caso do qual podemos rir, mas só até cair a ficha de que muitas pessoas só acreditam na Ciência que lhes convém. Foi assim com Darwin e é assim com os dinossauros. Enquanto as pessoas não entenderem como funciona a Ciência, vai ser difícil convencê-las a acreditar em coisas que elas não gostam só porque “é científico”. Kuhn, Popper, Lakatos, Feyerabend e outros filósofos já fizeram a parte deles. Todos sabemos que a escola tem um papel importante a cumprir, mas, para linkar com o texto do Thiago e criar um pouco de polêmica, qual é o papel dos divulgadores da Ciência nessa história? Como cumprir esse papel? Aparentemente, cuspir curiosidades científicas não é o caminho certo. Talvez, inclusive, seja um caminho bastante errado.

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Pra que serve esse bicho?

(I)

Estive no litoral recentemente e, numa conversa com meus amigos, disse que a craca é o animal que tem o maior pênis em relação ao tamanho do corpo. Maior do que a surpresa deles ao ouvir essa curiosidade foi a minha quando uma amiga perguntou: “Mas o que é uma craca?”. No dia seguinte, na praia, havia um galho na areia cheio de cracas, e então peguei o galho e mostrei para ela. Ela, com cara de indignação, disse: “Nossa, ISSO é uma craca? Pra que serve esse bicho?”.

Ela era a única não-bióloga do grupo em que eu estava, e não simpatizou com a idéia de que os bichos não precisam servir pra alguma coisa. Falei que Darwin estudou cracas por muito tempo e que os historiadores acreditam que ele aprendeu muita taxonomia, morfologia e ontogenética em seu trabalho com esses cirripédios, além de ter percebido coisas que o ajudaram mais tarde a escrever sua obra prima, A Origem das Espécies. Mas não adiantou.

(II)

Existe um grupo de seres vivos “conhecido” (entre aspas porque na verdade pouca gente conhece, mesmo entre os biólogos) como slime molds. Sua posição filogenética ainda é controversa; uns acham que eles são um grupo de fungos e outros defendem que eles são um grupo à parte, apenas aparentado aos fungos. De qualquer forma, tem gente que faz pesquisa com eles. E alguns desses pesquisadores fizeram uma descoberta muito interessante recentemente. Em resumo (mas vale a pena ler o artigo), ao estudar o padrão de crescimento e forageio (busca por alimento) de uma espécie de slime, descobriram uma forma de revolucionar os problemas de logística e transporte do Japão (!!).

(III)

Então, pra que servem slime molds? Ora, agora podemos planejar redes de transporte a partir do padrão de crescimento deles. Mas, antes disso, eles não serviam pra nada, assim como o fungo P. notatum não servia pra nada antes de descobrirem a penicilina. Mas e as cracas? E as baratas que nos enojam e os pernilongos que nos estorvam a noite? Pra que servem? No máximo, para manter o equilíbrio ecológico em seus hábitats, de onde extraímos coisas “úteis”. Na verdade, se formos medir o valor das espécies pela serventia que elas podem ter ao homem, é provável que descubramos que boa parte das espécies “não serve pra nada”. Mas, mesmo assim, elas fascinam muita gente, que dedica a vida inteira ao estudo dessas criaturas. Por que?

Cada louco com sua mania, poderíamos dizer. Se tem um cara que quer passar a vida estudando baratas, problema dele. Quem sabe um dia ele descubra uma forma de matar todas elas. Não é bem assim, e por vários motivos. Um deles (a importância do conhecimento básico) é muito bem tratado num texto da Laura, em que ela conta o preconceito que sofre por estudar bichos que “não servem pra nada”. Um outro motivo é que, pelo menos no Brasil, é muito provável que esse louco esteja estudando baratas com o seu dinheiro, já que o Estado financia boa parte das pesquisas no país.

Para finalizar, podemos dizer que quase a totalidade das espécies já existia muito antes do ser humano surgir na face da Terra. Assim, seria muito “especiocêntrico”, para não dizer mesquinho, achar que elas estão aí pra que a gente descubra serventias, como se elas fossem “um presente de Deus” pra gente explorar. Cada espécie tem uma história única, que nunca mais se vai se repetir. Cada espécie tem sua forma especial de se relacionar com as outras e tem um papel no ecossistema. Cada uma delas tem sua estratégia de sobrevivência e seus truques reprodutivos que, mesmo quando não são exclusivos, nos intrigam. Todas elas, desde o ser humano até a mais primitiva arqueobactéria, estão interligadas na sediciosa teia biológica da evolução. Se mergulhar nesse mar de mistérios em busca de respostas que nos deslumbram não bastar para que estudar essas espécies seja importante, eu realmente não sei o que pode ser. No fundo, uma craca, uma serpente ou um ser humano “servem” pra mesma coisa: absolutamente nada. São todos frutos igualmente especiais da grande árvore da vida.

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Os mistérios da ciência.

Recentemente li dois artigos que, embora já tenham uma certa idade, possuem um conteúdo bastante interessante. Os artigos que podem ser encontrados aqui e aqui tratam basicamente sobre a imagem pública da ciência. O que me chamou a atenção é que ambos, em algum momento, alegam que a ciência construiu pra si mesma uma aura mística.

A afirmação me causou imediato espanto. Sempre ouvi que é próprio da ciência tentar se afastar do místico, buscando sempre a verdade. Com efeito, a ciência de fato alega que trabalha com o mundo real, com fatos, com verdades que podem ser alcançadas sem artifícios mágicos ou sobrenaturais.

Mas pensando bem sobre o assunto, será que a ciência passa mesmo esta imagem de trabalhar sobre um “mundo real”? Ora, qualquer cientista sabe e sustenta que a ciência não vive de dogmas, ou seja, todo o conhecimento científico esta sujeito a revisão. Embora isso seja completamente compatível com a idéia de um “mundo real” para o cientista, para o público em geral talvez não seja bem assim.

Quantas vezes não vemos pessoas reclamando sobre as constantes mudanças no conhecimento científico? Seja pela cafeína que hora faz bem, hora faz mal. Seja por planetas que deixam de ser planetas. Seja pelo aquecimento global que hora existe, hora deixa de existir.

Me parece real a idéia de que a ciência opera de formas misteriosas. E o que estamos fazendo a este respeito? Muito pouco acredito eu. A divulgação científica hoje em dia consiste muito mais em explicar conceitos e teorias, e muito menos em explicar a própria ciência e seu fincionamento.

Se é papel da divulgação científica diminuir o hiato entre ciência e sociedade, por que nos esforçamos tanto em explicar conhecimentos que, sabemos todos, são passageiros? Talvez fosse mais produtivo dedicar mais tempo e esforço explicando o que é ciência e como ela funciona. O problema, e pra mim isto é bastante óbvio, é que é muito mais difícil explicar a ciência.

A dificuldade esta relacionada, claro, com a natureza extremamente complexa da própria atividade científica. Mas não só. Quantos são os cientistas que param um só segundo para pensar sobre seu próprio trabalho? Quantos se interessam em estudar, ainda que sem muito rigor, a história de sua própria atividade? Há ainda os tantos e tantos cientistas que, inflados pela sensação de serem mais importantes do que realmente são, se recusam a aceitar que a ciência é uma expressão cultural como outra qualquer.

Fazer divulgação científica apenas trabalhando com conceitos e teorias, é o mesmo que esperar que alguém que só teve contato com meia dúzia de letras produza um livro completo.

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Remédios naturais

Imagine que você está com uma dor-de-cabeça terrível e que pode escolher entre dois remédios igualmente eficientes: um comprimido e um chá feito com cascas de árvore. Qual dos dois você preferiria, sabendo que ambos resolverão o problema da mesma maneira? Em princípio não haveria razão para preferir um ou outro método, a não ser pela facilidade de ingestão – há quem tenha dificuldade de engolir comprimidos, outras pessoas detestam chá… No entanto, tenho certeza de que uma grande proporção das pessoas escolheria o chá com a mesma justificativa: é que o chá é natural…

Primeiro vamos entender o conceito de “natural” utilizado nesse pensamento. Um comprimido obviamente é uma substância química manipulada pelo farmacêutico, humano, e, portanto, não veio pronto da natureza. Já o chá é apenas alguma parte vegetal preparada em água quente e portando todas as suas características originais, sendo, assim, natural.

Se o princípio ativo das duas formas de medicamento é o mesmo, isto é, se a substância que vai fazer a dor-de-cabeça passar é a mesma tanto no comprimido, quanto no chá, por que é, então, que o método de extração faria alguma diferença?  Quando a substância sintetizada em laboratório (e idêntica àquela do chá) é introduzida no corpo do paciente, o organismo percebe que ela não foi gerada na planta? Não, o corpo não sabe, por isso é apenas crendice supor que uma substância “natural” é superior à dita “química”.

Agora modifiquemos o exemplo: as suas opções para aliviar a sua cefaléia insistente são um comprimido de aspirina e um chazinho de casca de salgueiro. O comprimido foi fabricado por um laboratório e o chá foi feito pela sua avó. Qual você prefere? Nesse caso eu recomendo fortemente que você opte pelo comprimido, exatamente porque ele não é “natural”. A casca do salgueiro possui, além do princípio ativo da aspirina, milhares de outros compostos químicos, desenvolvidos ao longo do processo evolutivo como forma de defesa química contra predadores. Isso significa que não sabemos exatamente como essas substâncias interagem entre si. Some-se a possível ocorrência de substâncias exógenas, como fungos e bactérias, as quais influenciam a composição química da casca. Quando testados os compostos para verificar-se o princípio ativo da casca do salgueiro, isolou-se a substância que comprovou ser a solução para a dor-de-cabeça, e aí o produto já deixou de ser “natural”, porque ele foi filtrado – manipulado em laboratório.

Assim, o comprimido foi desenvolvido a partir de uma substância encontrada na casca do salgueiro, e cuja composição foi melhorada para atingir sua máxima eficiência. Quando a sua avó faz o seu chá ela não verifica a sua resposta fisiológica e não faz testes controlados para saber se a planta está realmente fazendo efeito ou se há algum risco para a sua saúde. Os laboratórios, por mais fraudulentos que sejam, fazem esse tipo de teste e são regulados por alguma agência pública de saúde, que pode verificar resultados de experimentos extensos e decidir se um determinado medicamento pode e deve ser liberado para consumo da população.

Os medicamentos “naturais” utilizados com base na sabedoria popular são muito importantes, porque constituem uma fonte de informação acumulada por inúmeras gerações, baseada no princípio de tentativa e erro, mas não são exatamente um exemplo de segurança. Por essa razão a disciplina da Etnobotânica (que estuda, entre outras coisas, o conhecimento humano de vegetais e seu uso) é ativamente estimulada, para investigar cientificamente a eficiência de tais medicamentos e, por vezes, romper crendices e superstições.

Aqui tem um post de Cristina Vieira discutindo os supostos benefícios de substâncias naturais, e aqui um artigo de Lauro Barata, pesquisador do Laboratório de Química de Produtos Naturais do Instituto de Química da UNICAMP, sobre a produção brasileira de fitomedicamentos.

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A astrologia por uma cientista

Garotas na adolescência costumam ser atraídas pelas revistas de previsão astrológica. Eu as lia nas férias, especialmente aquelas que apontavam qual signo combinava com qual. Mas, um tanto científica desde então, decidi colocar aquilo tudo à prova pensando “vou namorar um menino de cada signo para ver se é verdade”.

Neste meio tempo resolvi estudar Astrologia seriamente. Respondi à professora logo na primeira aula que eu estava ali para me entender melhor e tentar entender os outros. Ela se apaixonou pelo argumento e, não fosse também psicóloga, além de taurina com a lua em escorpião, talvez a combinação não tivesse sido tão perfeita para eu entender a astrologia como uma ferramenta de análise Junguiana.

Mas eis o primeiro ponto – o astrologuês. Astrólogos de formação e bom senso sabem que, assim como um geneticista não espera que as pessoas conversem com ele sobre a tecnologia de microarrays ou RNA de interferência em seu dia a dia, não é possível esperar que as pessoas saibam o que significa lua em escorpião, marte em sagitário, vênus em capricórnio e assim por diante. Sabem também que horóscopo de jornal, site ou revista alguma é algo além de um conselho generalizado que se pode dar a qualquer pessoa, de qualquer signo. Aqui cabe o parêntesis engraçado de um amigo que nunca sequer estudou astrologia, mas trabalhou num jornal – ele recortava os conselhos dos signos de um dia, embaralhava, e os colocava em outros signos nos dias seguintes.

Por outro lado, ler um mapa astral é de uma complexidade tal que não infreqüente os astrólogos se perdem no antagonismo dos aspectos. É necessário considerar as posições e os significados das constelações, das casas, dos planetas e das relações entre eles. Analisar mapas de relacionamentos entre pessoas então, é exponencializar a complexidade de tal forma que dói nos ouvidos de um astrólogo que tenta fazer o melhor possível, ouvir as pessoas reduzirem a astrologia a um mero aspecto solar – o signo – e achar que sabem tudo a respeito de alguém, estigmatizando a pessoa por ser do mesmo signo de outra já conhecida. Isto fere completamente os princípios da Astrologia, pois como conclui, com um engenheiro astrólogo, a astrologia, assim como a genética, revela um conjunto de potencialidades das pessoas que podem ou não se manifestar. Estas potencialidades estão sujeitas ao ambiente e livre arbítrio de cada um, o que muda é a ferramenta (mapa genético ou astral) de observar estas potencialidades.

A astrologia é muito mais antiga que a genética, fruto de uma época em que Ciência e Misticismo eram quase a mesma coisa. Tem base na astronomia por se pautar nas efemérides para cálculos de posições de estrelas e planetas. Mas apesar disto, não é científica. Já a genética segue todo o rigor do Método. E nem por isso alguma delas é capaz de dizer quem exatamente seremos amanhã!

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O problema da Terra chata.

Aprendemos logo cedo na escola que um dos problemas que assustavam os navegadores de antigamente, era a idéia de que a Terra era chata. O mito de que era possível navegar até a borda do planeta, se cristalizou no senso-comum e é constantemente usado para simbolizar a ingenuidade dos antigos.

Mas o que dizem os historiadores da ciência é que esta história não passa de mito. A idéia de uma Terra chata existe na mitologia oriental. No entanto, para os povos da Europa ocidental, o planeta sempre teve formato esférico. O que, mantendo as devidas correções modernas, é relativamente correto.

O mapa atual da Terra em sua versão "chata".

O mapa atual da Terra em sua versão

Com efeito, os primeiros mapas celestes sempre colocavam a Terra representada como uma esfera, rodeada pela abóboda celeste. Mas se não era o medo de “cair” pela borda do planeta, existia afinal algo que assustava os antigos navegadores?

Na verdade, sim. Uma pequena observação empírica levou à criação de uma teoria equivocada. Não é preciso ter aparelhos científicos rebuscados para saber que, quanto mais nos dirigimos em direção ao equador, mais quente fica o clima.

Esta constatação deu origem a idéia de que o equador do planeta fosse tão absolutamente quente, que nada poderia sobreviver ali. Era como uma espécie de barreira intransponível, e embora fosse possível navegar até lá, era bastante provável que a tripulação fosse incapaz de sobreviver às temperaturas elevadas. A região foi chamada de “zona tórrida”.

A representação da "zona tórrida" no mapa atual da Terra.

A representação do que seria a "zona tórrida" em um mapa mundi atual.

A “parte de baixo” da Terra foi chamada de “antípoda“, que é uma variação de uma expressão grega que significa “pés opostos”. A expressão se deve ao fato de que acreditava-se que se existissem pessoas na outra metade da Terra, elas caminhariam literalmente de ponta cabeça.

O mito só foi derrubado completamente quando a nova rota comercial para as Índias foi estabelecida. Evidente que o conhecimento sobre a possibilidade de se atravessar a linha do equador já existia, de outra forma, a expedição de Vasco da Gama jamais teria sido aprovada.

É importante notar que, por mais ingênuas que estas idéias nos pareçam, para a época elas eram fruto de observação empírica do dia a dia. O que no entanto é ingênuo, é ainda hoje o mito da Terra chata continuar sendo usado para demonstrar o quão primitivo eram os povos antigos.

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O IgNobel não é o Framboesa de Ouro

Nos últimos dias os brasileiros que acompanham o noticiário e que não conheciam o Prêmio IgNobel de Ciência definitivamente agora sabem pelo menos que ele existe: é que saiu em todos os cantos que um cientista brasileiro foi agraciado com a honraria na área de Arqueologia, com seu trabalho a respeito do fato de que tatus podem bagunçar as camadas de sedimentos em sítios arqueológicos, confundindo a identificação correta de cada estrato à sua idade relacionada.  Provavelmente esses mesmos brasileiros que acompanharam o noticiário recentemente também acompanharam a entrega de outro prêmio satírico: o Framboesa de Ouro, que ironiza o Oscar. Este último trata de esculhambar atuações muito ruins de celebridades que ganham muito dinheiro – “honrando anualmente o que Hollywood tem de pior a oferecer”.

O problema é que o IgNobel, mesmo sendo uma premiação satírica, não é um Framboesa de Ouro. Segundo a organização responsável por sua entrega, a Improbable Research, e como bem protestou o Carlos Hotta, do blogue Brontossauros em Meu Jardim, o IgNobel é apenas uma maneira divertida de trazer a atenção para a ciência – e não uma forma de desmerecê-la.  Uma das idéias da Improbable Research é fazer com que as pessoas discutam, ainda que indiretamente, questões relativas à Filosofia da Ciência, por exemplo, ao questionarem a suposta utilidade de uma pesquisa ou a relevância de uma descoberta. Infelizmente grande parte daqueles que veiculam as notícias a respeito do IgNobel ignoram o propósito benéfico da organização e apenas usam a parte divertida para chamar a atenção do público. Essa parte divertida é o que os organizadores do IgNobel fazem melhor: eles transformam os títulos dos trabalhos premiados, normalmente difíceis de serem interpretados por leigos, em manchetes esdrúxulas. Um trabalho entitulado (livremente traduzido) ”Novo método de produção de polifenol vegetal a partir de excremento bovino utilizando reação de água subcrítica” faz a gente rir? Já quando “traduzido”…(vencedor do Ignobel de Química, Mayu Yamamoto, por desenvolver um jeito de extrair sabor e fragrância de baunilha de bosta de vaca).

Os pesquisadores Osamu Shimomura, Martin Chalfie e Roger Y. Tsien, dividem o mérito de terem desenvolvido uma proteína verde fluorescente.  Que prêmio vocês acham que eles receberam? O IgNobel? Pense de novo.

 

Links e Referências:

Notícias sobre o brasileiro que ganhou o prêmio IgNobel 2008 de Arqueologia: aqui, aqui e aqui.
Trabalho original do arqueólogo brasileiro: The role of armadillos in the movement of archaeological materials: An experimental approach. Astolfo G. Mello Araujo & José Carlos Marcelino. Revista Geoarchaeology, abril de 2003, vol. 18, número 4, páginas 433-460.

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O fim do universo.

Discutir sobre a natureza do Universo é provavelmente uma das mais antigas atividades do homem. E não poderia ser diferente. Por definição, nada pode ser estruturalmente maior ou mais complexo. Eu me arrisco a dizer que nada pode ser sequer mais filosoficamente complexo. E no meio de toda essa complexidade, uma das perguntas mais curiosas que se pode fazer é: irá o Universo chegar a um fim?

Embora provavelmente exista todo o tipo de resposta para esta pergunta. Vamos trabalhar com duas que são diametralmente opostas. A primeira toma por base um modelo de Universo infinito e a outra um modelo finito.

Em um modelo infinito a resposta é evidente. Algo infinito não pode ter um fim, assim como provavelmente nunca teve um começo. Por mais controverso que isso possa parecer, é uma pequena questão de lógica. Um Universo infinito nunca começou e nunca vai terminar porque sempre existiu. E se sempre existiu, continuará existindo sempre.

Já com um modelo finito a questão é mais complexa e envolve um pouco de conhecimento sobre a origem do Universo. Hoje em dia a hipótese mais aceita sobre este começo é o famoso Big Bang. Uma imensa explosão, que deu origem ao tempo e ao espaço e a tudo o que conhecemos. Um bom suporte para esta hipótese é o movimento de expansão do Universo.

Universo em Expansão. Clique para ampliar.

Universo em Expansão. Clique para ampliar.

Sabemos que ele esta se expandindo, o que significa que os planetas, estrelas, galáxias e tudo o mais está se afastando e um ritmo mais ou menos conhecido. Se assim o é podemos imaginar dois destinos finais para o Universo. No primeiro deles o movimento de expansão agiria por um tempo incomensurável, fazendo com que tudo fique tão inimaginavelmente distante que o universo se transformaria em um lugar vazio e gelado.

A outra possibilidade aparenta ser ainda mais terrível. Alguns cientistas acreditam que existe um tipo particular de matéria que não pode ser vista, a matéria escura, e que ela constituiria a maior parte do Universo. Se isso for verdade, assim que a força daexpansão começar a diminuir, os corpos formados pela matéria convencional seriam afetados pelo campo gravitacional da matéria escura. O resultado seria uma espécie de efeito reverso.

Isso significa que o Universo que hoje está em expansão pode começar a se retrair. E se assim o for, a retração iria fazer com que todo o Universo volte a se condensar em um único ponto, gerando uma espécie de novo Big Bang.

Algo me consola nesta história, o tempo necessário para que cada um destes eventos catastróficos ocorra é tão grande, que dificilmente existirá qualquer ser humano vivo pra ver.

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O problema dos elos perdidos.

Dentre os muitos temas controversos sobre evolução, a questão dos elos perdidos é certamente um dos mais comuns. Mesmo Darwin levantou essa questão e, pensando bem, ela é aparentemente lógica. Se as espécies evoluem uma das outras, e este processo é gradual, é de se esperar que se encontrem fosseis de espécies que estão “no meio do caminho”.

O problema é que o “meio do caminho” não é tão simples de se compreender. É preciso entender primeiramente que a evolução é um processo contínuo e, como muitos processos contínuos, ela não tem um “fim”. Ou seja, todas as espécies atuais estão em constante mudança, muito embora o processo seja lento demais para podermos perceber seus efeitos. Isso basicamente significa que toda espécie viva é, de certa forma, uma espécie transicional.

Mas podemos nos perguntar afinal, qual a história das espécies atuais? Como elas chegaram ao estágio em que se encontram? A única maneira de responder estas perguntar é olhando para o registro fóssil . Algumas espécies em particular tiveram suas histórias bem catalogadas, com uma porção de fosseis que indicam seus possíveis ancestrais evolutivos. No caso das baleias, por exemplo, foi possível estabelecer uma espécie de escala evolutiva representada na figura abaixo.

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Mas é preciso ter cuidado com estas representações gráficas. Embora elas sejam bastante didáticas e organizem o conhecimento de forma cronológica, é consenso de que dificilmente elas representam os passos evolutivos corretos. Na verdade, existe sempre a possibilidade de se encontrar novos fosseis de transição que acabem ampliando a escala evolutiva.

Mas afinal, e o elo perdido? Bom, para muitas pessoas o fato de conhecermos formas transicionais de espécies atuais não significa muita coisa. Críticos da evolução darwiniana com freqüência alegam que embora os fosseis descobertos possam sugerir um processo evolutivo, ainda é preciso encontrar espécies realmente de transição. Uma espécie que demonstre claramente que é “metade uma coisa, metade outra”.

Este tipo de elo perdido não existe. O processo de especiação é mais complexo do que uma cadeira interminável de formas transicionais. Outro problema é o processo de fossilização, que esta longe de ser trivial. É preciso que uma espécie esteja bem estabelecida e possua um bom número de populações para que, eventualmente, alguns de seus indivíduos terminem fossilizados.

Elo Perdido, até agora, só mesmo a série de 1974.

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O jantar dos esquisitos.

No livro “O mundo assombrado pelos demônios”, no capítulo “Maxwell e os Nerds”, Carl Sagan comenta sobre o estereótipo que se faz de pessoas da ciência. Em uma passagem ele diz que a misantropia e a inaptidão social, embora certamente possam ser associadas a uma porção de cientistas, fazem parte deste estereótipo.

Concordo bastante com o Sagan e, evidentemente, faço o possível para combater este tipo de pensamento. Oras, cientistas são pessoas normais, com pai e mãe. Não há nada de bizarro e incompreensível em uma pessoa que dedica sua vida à ciência.

O fato é que recentemente passei por uma situação curiosa. Fui com dois amigos, um matemático e um engenheiro de produção. Já havia um bom tempo que não nos encontrávamos, acabamos combinando de nos ver em uma famosa rede defastfood (não, não é a do palhaço) para botar o papo em dia.

Quando um biólogo, um engenheiro e um matemático se encontram, o nível de nerdice do papo cresce assustadoramente. Entre nossos assuntos padrões (dominação do mundo, capacitores de fluxo… Essas coisas), passamos a discutir um pouco sobre desastres ecológicos. Claro que acabamos falando de aquecimento global.

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Meu amigo engenheiro começou a fazer algumas considerações sobre dinâmica de fluídos e o dióxido de carbono. Foi quando notei uma família que estava sentada na mesa ao lado. Estavam os cinco membros, pai, mãe e seus três filhos (o mais velho provavelmente com a minha idade), rindo das especulações de meu amigo.

Não que eles considerassem as idéias dele absurdas. O riso se devia ao fato de ele simplesmente estar conversando, de maneira tão absolutamente técnica, em um lugar tão absolutamente trivial como uma mesa de um restaurante de fastfood. Parafraseando o Coringa de “Cavaleiro das Trevas”, eramos o entretenimento daquela noite.

Meus amigos não perceberam, e eu não chamei a atenção deles ao fato. O caso é que a imagem do misantropo esta tão enraizada no senso-comum, que quando as pessoas se deparam com a imagem inversa, ficam perdidas. E por estarem perdidas e sem saber o que imaginar, fazem o que qualquer pessoa insegura faz para manter a ordem de seu mundo. Transformam o estranho em piada.

Dinâmica de Fluídos é sexy!!!

Dinâmica de Fluídos é sexy!!!

Sagan, no texto comentado no início, usa uma frase para descrever o sentimento das pessoas que não compreendem os cientistas quando expostas ao trabalho desenvolvido por eles: “Vá viver”. Eu usaria uma frase similar para aconselhar a família que acha engraçado entender dinâmica de fluídos: “Acordem pra vida”.

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