O problema dos elos perdidos.

agosto, 2008

Dentre os muitos temas controversos sobre evolução, a questão dos elos perdidos é certamente um dos mais comuns. Mesmo Darwin levantou essa questão e, pensando bem, ela é aparentemente lógica. Se as espécies evoluem uma das outras, e este processo é gradual, é de se esperar que se encontrem fosseis de espécies que estão “no meio do caminho”.

O problema é que o “meio do caminho” não é tão simples de se compreender. É preciso entender primeiramente que a evolução é um processo contínuo e, como muitos processos contínuos, ela não tem um “fim”. Ou seja, todas as espécies atuais estão em constante mudança, muito embora o processo seja lento demais para podermos perceber seus efeitos. Isso basicamente significa que toda espécie viva é, de certa forma, uma espécie transicional.

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O jantar dos esquisitos.

agosto, 2008

No livro “O mundo assombrado pelos demônios”, no capítulo “Maxwell e os Nerds”, Carl Sagan comenta sobre o estereótipo que se faz de pessoas da ciência. Em uma passagem ele diz que a misantropia e a inaptidão social, embora certamente possam ser associadas a uma porção de cientistas, fazem parte deste estereótipo.

Concordo bastante com o Sagan e, evidentemente, faço o possível para combater este tipo de pensamento. Oras, cientistas são pessoas normais, com pai e mãe. Não há nada de bizarro e incompreensível em uma pessoa que dedica sua vida à ciência.

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Polegarcast #2: Os cientistas.

agosto, 2008

A figura do cientista é alvo das mais diversas especulações, nos mais variados campos de influência humana. Neste podcast, discutimos um pouco sobre a visão pública do cientista. Comentamos sobre o esteriótipo presente nos filmes, livros e outras mídias. Nosso convidado especial, Diego Marques, por não estar envolvido diretamente com a ciência nos ajudou na difícil tarefa de desvendar os homens (e mulheres, claro) por trás do mito.

Ainda neste podcast: Descubra se Padre Quevedo é um cientista, quantos gêneros de cientistas existem e o que as mães tem em comum com cientistas em início de carreira.

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Ciência FAIL #1: Refutação.

julho, 2008

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Percepção pública da ciência e os desafios da divulgação científica.

julho, 2008

Durante a 60ª Reunião Anual da SBPC, realizada em Campinas entre os dias 13 e 18 de julho de 2008, tive o prazer de acompanhar a mesa redonda cujo objetivo era discutir a visão pública da ciência em diversos países.  Para tal, os participantes da mesa exibiram os dados coletados por meio de uma pesquisa ampla e executada durante 2006 e 2007. Os resultados não poderiam me deixar mais intrigado.

É curioso notar, por exemplo, que em Caracas 59,8% dos jovens entre 16 e 21 anos alegaram que a ciência é uma profissão atrativa. No Brasil, essa média ficou em 44,6%. Um dado que complementa essa informação é o de que em nosso país, essa porcentagem não muda nos jovens que alegaram se interessar por ciência.

A pesquisa ainda investigava as diferenças de opinião entre as classes sociais e, como pode parecer evidente, a popularidade da ciência diminui junto com a classe social. O que realmente me causou estranhamento é que no Brasil, os jovens que dizem ter contato com a ciência possuem opiniões muito semelhantes àqueles que alegam não se interessarem por este tema.

Uma interpretação possível deste dado é a de que a divulgação científica brasileira é ineficaz. Oras, seria perfeitamente compreensível esperar que dentre os jovens interessados em ciência, o índice daqueles que vêem a ciência como uma profissão fosse maior. Quando este dado não se confirma, eu não posso deixar de pensar que talvez estas pessoas não saibam o que é ciência.

Evidentemente existe um problema na educação científica do país. É certo que este problema provavelmente atinge diversas áreas. Começando pela educação básica, passando pela divulgação científica e chegando à importância que o nosso governo dá ao desenvolvimento científico. O divulgador científico deve ter estes dados em mente.

O que é preciso para tornar a divulgação científica mais atraente? Como atingir a parte da população de baixa renda, revertendo a visão negativa da ciência nessa parcela da população? Como atingir a população das classes mais abastadas e que alegam não se interessarem por ciência?

Acima de tudo, o que é preciso fazer para que as pessoas compreendam que existe uma carreira científica, e que ela nem é tão diferente das tantas outras profissões por aí? Não espero encontrar respostas para todas estas perguntas tão cedo, mas tenho lá minhas reflexões. E você leitor do Polegar Opositor? Qual a sua percepção da ciência?

Polegarcast Episódio 1: O que é ciência… Ou não!

julho, 2008

Este é o PolegarCast, o único podcast aonde a ciência vem também no sabor morango (ouça o programa e entenda a piada). Neste primeiro episódio, gravado no dia 27 de junho de 2008, Eu, Rodolfo e Andréa discutimos um pouco sobre o que é a ciência, sua origem, seu presente e ainda damos pitacos sobre seu futuro.

Longe de chegarmos a uma resposta definitiva, a proposta do podcast é um papo informal, de mesa de bar, sobre o que pensamos e como vemos este incrível empreendimento humano.

Ouça já e descubra o que a ciência e os elefantes tem em comum.

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Da serventia à ingenuidade.

junho, 2008

Talvez seja reflexo deste mundo globalizado, mas parece existir um pensamento comum de que todas as coisas devem ter uma serventia.Sejam essas coosas objetos, animais, plantas, inclinações políticas ou movimentos sociais. Esse pensamento utilitarista evidentemente também aflige a ciência e, como é de se esperar, é uma crítica muito mais comum de quem esta de fora da comunidade científica. Não há nada de errado com a crítica em si, não fosse o caso de ela ser fruto de uma reflexão ingênua sobre o que é ciência e como ela funciona.

Primeiramente temos que voltar àquela velha divisão acadêmica. A ciência pode ser dividida em aplicada e teórica. As ciências aplicadas são as que com efeito produzem conhecimento com uma finalidade implícita. As ciências mais teóricas se envolvem muito mais com o estudo bruto dos fenômenos e não possuem como objetivo principal resultar em aplicações práticas. Embora essa divisão seja contestada de muitas maneiras, é bastante aceita no meio acadêmico.

Desta divisão simples decorre um processo mutualístico. As ciências aplicadas não funcionam sem uma base teórica. Por outro lado, o refinamento do trabalho das ciências teóricas depende em grande parte da produção prática das ciências aplicadas, já que os instrumentos de pesquisa cada vez mais avançados são frutos desta produção. Mas também as facilidades do dia a dia são frutos da ciência aplicada. Novos tipos de motores, televisores, aparelhos celulares, computadores mais potentes e por aí vai. Isso talvez explique a idéia de que a ciência, de alguma forma, serve à humanidade produzindo novas tecnologias. O que não deixa de ser verdade, claro.

O problema é que esta visão é supervalorizada, mesmo na academia. Toda pesquisa científica requer um investimento, e sabemos que dinheiro não cai do céu. Quem fomenta uma pesquisa científica o faz esperando que o dinheiro investido renda um bom retorno no futuro. Desta forma, pesquisas que geram aplicações com valor mercadológico recebem mais incentivos do que pesquisas mais teóricas por exemplo. Soma-se a isso a imprensa que se habituou a fazer festa quando surge uma nova aplicação prática de algum estudo científico, da mesma maneira que se acostumou a fazer chacota de pesquisas mais teóricas (e miraculosamente física quântica não entra aqui).

Resulta dessa misturada toda o velho achismo popular. Se aparentemente não tem serventia, então é perda de tempo. Ontem mesmo ouvi uma crítica de alguém que disse que a ciência as vezes só sabe coletar e sistematizar dados, enquanto poderia estar usando o mesmo tempo pra algo mais útil. Ta aí, uma frase emblemática deste pensamento. Não ocorreu ao cidadão que a formulou que coletar e sistematizar dados é uma parte importante de qualquer pesquisa, seja ela teórica, seja ela aplicada. Não ocorreu ao mesmo cidadão que a História é basicamente uma ciência de coleta e interpretação de dados por exemplo, e isso não a torna menos importante do que qualquer outra ciência.

Criticas à ciência, ou a qualquer outra atividade humana, são sempre bem vindas. Só devemos ter o cuidado de não sermos ingênuos o suficientes para realizarmos críticas baseadas em nossa falta de conhecimento sobre algo.

De onde viemos?

junho, 2008

A origem da vida na Terra é um dos maiores mistérios da ciência. Ocorre que imaginar as condições primordiais do planeta é, por si só, um trabalho hercúleo. Simular estas condições é ainda mais complexo.  Para piorar, o surgimento de vida em um planeta não parece ser um evento trivial. Em todas as nossas décadas de exploração espacial, nunca detectamos qualquer corpo espacial com presença de vida, ainda que de vida extinta. É certo que temos bons candidatos neste sentido, Marte é um deles assim como Titã, uma das luas de Saturno.

Mas essa dificuldade nunca impediu a ciência de imaginar algo. Em toda nossa história de desenvolvimento científico, muitas foram as teorias sobre a origem da vida e seus experimentos que tentavam reproduzir o acontecimento. Infelizmente, nunca tivemos um sucesso conclusivo, capaz de demonstrar que estamos indubitavelmente no caminho certo de investigação. A teoria mais aceita diz que as inúmeras tempestades elétricas atingiam os oceanos primitivos, altamente ricos em concentração de substâncias químicas (e por isso apelidados de sopa primordial), afetaram a conformação molecular destas substâncias permitindo que elas se agregassem formando os chamados coacervados.

Do surgimento dos coacervados até as primeiras células primitivas se passaram milhões de anos. Hoje acreditamos que os primeiros organismos unicelulares tinham uma composição membranosa básica, carregavam em seu núcleo uma molécula primitiva de RNA e se alimentavam das substâncias químicas presentes no oceano. É com essa premissa em mente que um grupo de cientistas da Escola de Medicina de Harvard esta tentando recriar uma célula primitiva.

Trata-se de uma nova tentativa de entender a vida primordial. Para tal os pesquisadores de Harvard misturaram em um recipiente com água uma espécie de “lipídio primitivo” e um seguimento de uma molécula de DNA. Depois de um certo tempo, notaram que os lipídios se uniram em uma cadeia em formato de anel ao redor do DNA. Mais do que isso, essa membrana de lipídeos conseguiu proteger a molécula de DNA da ação degradativa da água. É exatamente o que se espera de uma célula primordial. Para completarem o experimento, introduziram no recipiente alguns nucleotídeos e, para a surpresa de muitos, constataram que esses nucleotídeos penetraram na célula, se ligaram ao DNA e o replicaram em um prazo de 24 horas. Embora essa célula primordial fabricada não tenha se replicado por completo (e certamente ninguém esperava que isso fosse acontecer tão fácil), suas funções básicas de proteção e replicação do material genético funcionaram muito bem.

Ainda estamos longe de compreendermos de onde viemos. Mas assim como a vida avançou lentamente pela superfície da Terra, esperamos um dia entendermos seus mistérios. Um passo de cada vez, pouco a pouco, passo a passo.

Corrida contra o acaso?

junho, 2008

A algum tempo, debatendo sobre o aquecimento global com amigos, me deparei com um argumento curioso. Meu interlocutor dizia que muito embora o planeta tenha passado por uma série de catástrofes naturais que provocaram extinções em massa, nenhum desses eventos ocorreu tão rápido e de forma tão abrangente quanto as ações negativas do homem na Terra. Ou seja, defendeu-se a idéia de que por conta da velocidade com a qual os seres humanos vem degradando o meio ambiente, as espécies animais e vegetais não tem tempo para se acomodarem ao novo ambiente de modo que a taxa de extinções é maior que a taxa de surgimento de novas espécies. Um cenário desses poderia significar a esterilização da Terra. Mas convenhamos, é uma situação por demais fictícia.

Na verdade, já tivemos uma situação muito pior que a atual em termos de velocidade e abrangência de extinções. O evento K-Pg (de CretáceoPaleogeno, antigamente nomeado como K-T ou Cretáceo-Terciário), popularmente conhecido como a queda do asteróide que culminou com a extinção dos dinossauros. A teoria do impacto surgiu com a descoberta de uma camada de 1cm de irídiu em um ponto específico do estrato geológico da Terra. A análise dos estratos anteriores indicava a presença dos famosos repteis gigantes, enquanto a análise dos estratos posteriores à camada de irídiu indicavam a ausência de boa parte das espécies do Cretáceo, bem como a recuperação lenta da fauna e flora. O irídiu é um material raro em nosso planeta, mas facilmente encontrado em meteoritos. Concluiu-se então que um asteróide de aproximadamente 10km de diâmetro se chocou com a Terra no final do Cretáceo, o que teria resultado em uma mudança abrupta do meio ambiente que culminaria com a extinção dos dinossauros e outros animais. Com efeito, acredita-se que 60% da biodiversidade daquela época deixou de existir.

É possível imaginar que só no momento do impacto do asteróide, o planeta tenha sofrido com terremotos, maremotos e vulcanismo. Isso sem contar a própria explosão gerada pelo impacto e a onda de choque dispersada por ela e o dano de longo prazo gerado pela nuvem de poeira que “fechou” a atmosfera, impedindo a exposição da superfície aos raios solares. O fato é que a despeito desta tragédia, a vida encontrou um meio de reabitar o Planeta.

Curiosamente a Terra já passou por outros episódios de extinção em massa, todos eles ocorreram mais lentamente que o evento K-Pg e ao menos dois deles resultaram em taxas de extinção maiores que a queda do asteróide. Podemos concluir então que a velocidade com a qual a mudança do meio ocorre pode não ser tão importante quanto parece. Evolutivamente falando, mudanças bruscas não deveriam ser superestimadas. Sabemos que o meio ambiente não produz ativamente mudanças evolutivas. O meio seleciona passivamente mudanças aleatórias. Isso significa que as espécies que sobrevivem a mudanças drásticas do meio já estavam adaptadas de forma a poderem suportar essas mudanças.

É o que de fato aconteceu na no final do Cretáceo. Animais mais generalistas sobreviveram às mudanças causadas pela queda do asteróide. É importante notar os animais de hábitos específicos não evoluíram em animais generalistas, se assim fosse os dinossauros estariam vivos até hoje. Podemos notar então que a vida é uma corrida contra o acaso. Embora existam vantagens claras em desenvolver estruturas morfológicas e comportamentos específicos em ambientes estáveis, é impossível prever até quando esta estabilidade irá perdurar.

Há quem defenda que estejamos passando por mais um evento de extinção em massa. Eu acredito que pode ser verdade. Há quem diga que a culpa é do homem, e talvez o seja de fato. Mas se somos agentes desestabilizadores do meio, só nos resta torcer para que a natureza nos tenha feito generalistas o suficiente. De outra forma, estaríamos dando origem ao nosso próprio evento de extinção.

O assassinato de uma teoria.

junho, 2008

Eventualmente eu gosto de pegar notícias de ciências publicadas nos grandes portais e comentá-las aqui. Em geral meu principal alvo é o G1, mas até pra não dizerem que é algo pessoal, vou pegar uma notícia do Jornal Terra. A notícia foi publicada no dia 29 de maio com o título “Pegada encontrada pode mudar teoria da evolução“. O título sugere uma reportagem bombástica, que exibe fatos contundentes, até arqueológicos, para o fim da tão incompreendida teoria da evolução.

O problema é que quando lemos a notícia não é bem isso que encontramos. Na verdade trata-se da descoberta de uma pegada de 15 milhões de anos que pode ter sido feita por um animal bípede. Se essa suposição for comprovada, a pegada pode sugerir que os ancestrais do homem evoluíram muito antes do que se pensava (por exemplo, acredita-se que o homem e os chimpanzés e bonobos se separaram de seu ancestral comum a aproximadamente 6,5 milhões de anos). É perceptível portanto de que se trata de uma descoberta potencialmente importante.

O fato é que, confirmando-se ou não o significado desta pegada para o conhecimento científico atual, a teoria geral da evolução não é afetada em nenhum nível. O motivo é simples, a teoria da evolução, embora seja em grande parte sustentada pelo registro fóssil, não depende em momento algum de qualquer registro mais específico, sejam eles fósseis de animais bípedes ou qualquer outro fóssil que se possa imaginar.

O que a reportagem provavelmente deveria ter dito (e de fato o fez, ainda que discretamente) é que a teoria da evolução humana pode sofrer alguma revisão por conta desta descoberta. A reportagem do Terra ainda reproduz a frase de um dos autores da descoberta: “A teoria da evolução teria muitas dificuldades com esta evidência que estamos mostrando agora”. Desta frase podemos tirar algumas conclusões. A primeira é que o cientista pode ter cometido um engano de formulação da frase, suprimindo a palavra “humana” após “teoria da evolução”. A outra conclusão é que o Terra, ou a agência de notícia que liberou a notícia, podem ter reduzido a frase cortando a informação mais importante. Uma outra possibilidade é o erro de tradução da notícia original para o português.

O fato é que independente de quem cometeu o engano, a frase da forma como se encontra é completamente equivocada. A teoria da evolução não teria dificuldade alguma com esta evidência, em verdade, essa evidência sequer é relevante para a teoria da evolução em geral. Volto a bater na mesma tecla. O jornalismo científico, da maneira como vem sendo feito, presta um desserviço imenso a ciência e à sociedade.