Ciência: Desde o séxulo XVII controlando a natureza próxima a você

maio, 2008

Muitos filósofos concordam que a ciência moderna se caracteriza pela tentativa de controlar a natureza. Esta premissa do controle de certa forma justifica o cenário atual, para se controlar algo é preciso antes compreender razoavelmente este algo. Desta forma não é de se espantar a velocidade em que novas pesquisas aparecem e informações são somadas ao patrimônio mundial científico. Vivemos na era do publique ou pereça. É claro esse ritmo acelerado de publicação de novos “papers” levanta uma questão quase evidente. Qual é a qualidade destes artigos e qual a relevância deles para o paradigma de controle da ciência moderna?

Recentemente ouvi um professor abordando este tema. Uma das observações que ele fez foi de que “existe aquele cientista espetacular, que publica uma série de papers por ano e todos eles de qualidade, mas este cientista é a exceção e não a regra”. Tem lá o seu sentido. A quantidade de informação hoje em dia é tão grande e dispersa que não é raro pesquisadores de países diferentes, estarem trabalhando em um mesmo tema, publicarem seus artigos, e nunca chegarem a entrar em contato um com o outro. Mais ainda, a possibilidade de que estes pesquisadores cheguem a conclusões diferentes ou mesmo conclusões incompatíveis não é nula. Neste caso, como proceder? Ou ainda, quanto tempo levaríamos para descobrir dois artigos incompatíveis sobre o mesmo tema, analisá-los e tentar encontrar uma maneira de resolver o problema?

Acredito que a ciência chegou a um ponto crítico de sua prática. Na tentativa desesperada de controlar o mundo, perdeu-se o controle da ciência. E este controle se perdeu em vários níveis. Por exemplo, um outro professor alegou por esses dias que com o fim da credibilidade da igreja, a morte do socialismo e a crise capitalista, a ciência é a última fábula capaz de fazer o homem acreditar em algo. A justificativa era de que em um mundo cada vez mais individualista, a ciência com seu argumento de ser a detentora última de verdade ainda era capaz de unificar grupos e levar esperança aos mais céticos.

O argumento é de um absurdo exemplar. Mas é fruto da apropriação que se faz de uma idéia ingênua da ciência. Oras, qualquer filósofo da ciência sabe que a verdade, embora deva ser sempre o objetivo final da ciência, nunca poderá ser desvendada. A partir deste pressuposto, construiu-se as mais variadas teorias sobre como a ciência deve funcionar para tentar, sempre, minimizar as chances de erro e maximizar as possibilidades de correção dos eventuais erros. Não importa se defendemos o racionalismo crítico popperiano, os paradigmas de Kuhn ou o cinturão de proteção de Lakatos. Por mais que estes modelos sejam diferentes, todos tratam do mesmo assunto. Minimizar os erros e maximizar as possibilidades de corrigir eventuais erros. E todos eles partem do pressuposto de que a verdade é um valor importante, mas inalcançável.

Se a afirmação de que a verdade última é inalcançável esta presente nos pilares epistemológicos da ciência, de onde vem o discurso de que a ciência pode não ter a resposta para tudo, mas um dia terá? Como eu disse antes, vem da apropriação indevida da ciência como discurso ideológico. Um discurso ideológico bastante sedutor, mas mentiroso. Um discurso ideológico que ignora o que é a ciência de verdade, popularizando uma visão errada de uma atividade incolor, inodora e insípida e, por isso mesmo, capaz de ir além do bem e do mal em seu desenvolvimento.

Pior para o cientista que com frequência é acusado de brincar de Deus, ou culpado pelas mazelas da África. Não que essas acusações as vezes não estejam certas, mas é fato que em geral estão completamente enganadas. Esse cenário caótico de controle, não mais da natureza (ou não mais só da natureza) mas também das vidas humanas, desafia a divulgação científica. É preciso ter cuidado, a divulgação científica é antes uma ferramenta de informação e educação. Embora seja possível usá-la como arma ideológica, realizar tal ação é de uma desonestidade que mal pode ser descrita.

Telefone-sem-fio em divulgação científica

maio, 2008

A brincadeira do telefone-sem-fio consiste em formar uma fila de pessoas, que transmitem umas às outras uma frase originalmente criada pela pessoa de uma das extremidades, até chegar no último da fila. A graça do jogo está no fato de que quase nunca a frase recebida pela outra extremidade será idêntica à original, e isto se deve, obviamente, a pequenas mudanças cumulativas transmitidas a cada pessoa da fila.

Assim acontece com todos os tipos de informações transmitidas em uma cadeia de componentes, se cada intermediário não for comparado ao original. É por esta razão que a divulgação científica deve ser meticulosa e sempre fornecer dados mais próximos aos originais, já que o seu público-alvo, em geral, não terá interesse ou acesso às informações a partir das quais a notícia foi gerada.

Recentemente foi publicado um artigo na célebre revista científica Nature, cujo título pode ser traduzido para “Análise genômica do ornitorrinco revela características evolutivas singulares”. Como o nome indica, o trabalho, assinado por cerca de cem cientistas, apresenta um estudo pormenorizado da constituição genética de um ornitorrinco. O estudo é interessante, porque analisa o DNA de um animal sempre considerado esquisito e compara-o a outras linhagens de vertebrados para inferir algo sobre sua história evolutiva – verificar se eles são mais semelhantes aos outros mamíferos ou aos répteis, por exemplo.

Apesar de ter um bico semelhante ao de um pato, de colocar ovos e de possuir veneno em uma estrutura parecida como uma espora, o ornitorrinco é incluído pelos sistematas no grupo dos mamíferos monotremados, considerados irmãos do grupo que contém os marsupiais (cangurus, gambás) e os eutérios (mamíferos mais populares, incluindo os primatas). Entretanto, é importante lembrar que, tanto os monotremados, quanto os demais mamíferos originaram-se a partir de um ancestral compartilhado também com os répteis (e aves).

Agora vejamos o que foi divulgado (de ruim) na mídia eletrônica a respeito do artigo. A manchete no portal Terra (recebido a partir da AFP – Agence France-Presse),  era: “Ornitorrinco é confirmado como ave, réptil e mamífero”. No portal G1 da Globo saiu: “Genoma do ornitorrinco é mistura inusitada de réptil, ave e mamífero”.

O primeiro texto chega a ser engraçado, porque dá, a todo instante, a impressão de que o ornitorrinco é um tipo de híbrido inclassificável e que, pior, isto é claramente verificável em seu código genético. Logo na introdução lê-se que “Estudos sobre o genoma do ornitorrinco (…), apontaram que o animal é, ao mesmo tempo, um réptil, um pássaro e um mamífero, segundo relatório publicado pela revista Nature”. Como já vimos, isso é um absurdo! O ornitorrinco não é uma mistura de réptil, pássaro e mamífero – o ornitorrinco é um mamífero! Prontamente nota-se que o autor do texto não sabe nada sobre mamíferos e tampouco leu o artigo original, o qual esclarece, já na introdução, a posição real do ornitorrinco no Reino Animal. Provavelmente a notícia é produto de um telefone-sem-fio muito do sem-vergonha.

Já a segunda notícia é um pouco melhor esclarecida, apesar de transmitir a idéia não totalmente errônea de que o genoma do ornitorrinco é um retalho de pedaços de origens diversas. Acontece que qualquer mamífero possui, em seu DNA, trechos comuns a outros mamíferos e até a outros animais completamente diferentes como, por exemplo, às estrelas-do-mar. Esses genes são considerados “conservados” para os animais que os possuem e revelam uma provável relação de parentesco evolutivo entre eles. Por isso é que se diz que entre o ornitorrinco e os outros mamíferos há cerca de 80% de DNA compartilhado e entre chimpanzés e humanos, por exemplo, mais de 95% de DNA compartilhado. Quanto maior for a porcentagem de DNA compartilhado, maiores as chances de as duas espécies (ou, quando for o caso, os indivíduos) compartilharem também um ancestral evolutivo recente. Assim, a manchete dá a entender, novamente, que o ornitorrinco é um híbrido genético de répteis, pássaros e aves – mas se isso for verdadeiro, então também o é para todos os mamíferos, já que compartilhamos um ancestral recente com os reptilianos (e aves)!

Mais curioso do que essas interpretações limitadas dos resultados publicados é o fato de que quase não há informação prática nos artigos de divulgação relacionados. Não há, nos dois textos mencionados, sequer uma explicação que fundamente o resultado alardeado na manchete. A razão para isso é óbvia: não há explicação! O artigo original apenas menciona a origem genética das características aparentemente reptilianas e as considera meras convergências evolutivas – isto é, características que são semelhantes àquelas encontradas nos reptilianos, mas que não são herdadas deles e que foram desenvolvidas de maneira independente pelo ornitorrinco por causa de uma pressão de seleção parecida àquela encontrada pelos répteis.

Maldito seja o telefone-sem-fio na divulgação da ciência!

Um texto exemplar deve também ser mencionado: o post “Saiu o genoma do Ornitorrinco!”, de 7 de maio desse ano, do blog Brontossauros em meu jardim tem explicações simples e inteligentes.

Fontes e mais textos para comparar:

Genome analysis of the platypus reveals unique signatures of evolution : disponível em .pdf (em inglês). Artigo original, publicado na revista Nature por Wesley C. Warren e colaboradores.

Ornitorrinco é confirmado como ave, réptil e mamífero: notícia divulgada no portal Terra (recebido a partir da AFP – Agence France-Presse) mencionado no texto, ruim.

Genoma do ornitorrinco é mistura inusitada de réptil, ave e mamífero: Saiu no portal G1 da Globo, por Reinaldo José Lopes, mencionado no texto, não tão ruim.

Genoma explica ‘estranheza’ do ornitorrinco:  Da Agência BBC, por Helen Briggs, manchete razoável, conteúdo muito superficial e pouco informativo (traduzido para o português).

Evolution DMD: Uma análise filosófica.

maio, 2008

Este texto é uma continuação do “Evolution DMD: Uma análise biológica”. Se você não o leu, clique no link

e leia antes de prosseguir com este. Embora o texto do Scott Adams seja uma brincadeira, ele parte do pressuposto básico de que os sentimentos e aspirações possuem uma relação direta com a química do organismo. De fato conhecemos uma porção de substâncias que afetam a química cerebral, os chamados neuroestimulantes, e que provocam reações diversas no indivíduo. Da mesma forma, sabemos que sentimentos específicos também produzem respostas químicas. O que dificilmente alguém pode afirmar é que os sentimentos, desejos e aspirações tenham a sua gênese unicamente como produto da química do organismo.

A despeito desta discussão sobre a origem dos sentimentos, existe uma questão ainda mais profunda e complexa sobre a estratégia adotada pela ciência moderna, e que permite conclusões mecanicistas sobre o funcionamento do mundo. Tentar explicar a consciência, bem como desejos e aspirações, por interações químicas é uma característica típica da estratégia reducionista. Explica-se um objeto de estudo complexo tentando isolar suas partes constituintes, estudando-as isoladamente afim de conseguir um melhor entendimento sobre o todo.

Essa característica tão presente na ciência é demonstrada no raciocínio do Adams. Imaginar que os desejos, um reflexo químico de uma máquina de pensar, afeta os genes, outra porção química que constituí a máquina maior, é de um mecanicismo reducionista exemplar. Muito embora essa estratégia venha funcionando bem, basta observar os avanços científicos e tecnológicos dos últimos séculos, não podemos deixar de considerar que talvez estejamos perdendo algo. A interação das partes pode ser fundamental no seu entendimento, e não há certeza de que seremos capazes de prever estas interações ainda que saibamos aparentemente tudo sobre as partes envolvidas.

Não estou sugerindo, no entanto, que esta estratégia deve ser abandonada ou substituída por outra. A escolha de uma estratégia supõe a exclusão de parte do conhecimento possível sobre o objeto de estudo. Em termos simples, é como fazer compras em um supermercado. Ninguém compra o supermercado inteiro quando faz compras, pelo contrário, normalmente chegamos ao supermercado com uma lista de itens a serem comprados. Uma estratégia é exatamente isso, uma lista de itens que podem ser estudados e a maneira como este estudo deve proceder.

É preciso lembrar portanto que nem a ciência, nem qualquer outra atividade humana, tem a capacidade para explicar absolutamente tudo sobre o mundo. Cientistas que discordem desta afirmação estão cometendo um engano simples, desconsiderando a natureza de sua atividade.

PS: Por algum motivo que eu ainda não fui capaz de descobrir, o tema do Polegar sofreu algum tipo de mutação qualquer e as cores ficaram um tanto bagunçadas. Já tentei algumas soluções, todas ineficientes. Peço a gentileza de que ignorem a escolha bizarra de cores por enquanto, até eu ser capaz de fazer algo a respeito. Grato.

Evolution DMD: Uma análise biológica.

maio, 2008

Há alguns dias recebi um email do Ogro que basicamente recomendava uma lida em um texto do Scott Adams. À primeira vista pareceu-me um texto simples, sobre uma equivocada hipótese evolutiva. Mas uma posterior leitura mais atenta me revelou algumas características muito interessantes, especialmente no que diz respeito ao funcionamento da ciência moderna. Desta forma, resolvi produzir duas análises deste texto (que segue traduzido abaixo). Esta primeira parte realiza uma análise biológica, desarticulando os argumentos de Adams.

A segunda análise é sobre a filosofia da ciência por trás de um pressuposto quase imperceptível na argumentação de Adams. Vale ressaltar que se tratando de Scott Adams, as chances de o texto dele ser algo relmente sério são mínimas. Em todo caso, o texto é ótimo para abordar algumas características da evolução, falar um mínimo de metabolismo celular e ainda ter um bom tema de discussão sobre filosofia da ciência.  Mas chega de introduções, vamos ao texto.

Para esta crônica, vamos considerar que tudo o que os especialistas dizem sobre evolução seja verdade. Os organismos com maior sucesso reprodutivo passam suas características para a próxima geração, e assim por diante. Mas eu tenho uma outra hipótese que talvez possa ser testada. E se existem outras influências que também contribuem?

Me pergunto se as aspirações dos organismos podem, de alguma forma, causar algum impacto sobre os genes que serão passados para a próxima geração. Nós sabemos que pensamentos estão associados a sentimentos, e sabemos que desejos estão associados à química do organismo. Não seria impossível que desejar algo durante a vida aumentasse a probabilidade de seus descendentes atingirem esse objetivo.

Recentemente eu li que certas condições ambientais podem aumentar as chances da mulher em dar a luz a meninos. Sabemos então que condições externas podem influenciar a química do corpo e, por sua vez, influenciar a genética da criança.

Então me pergunto sobre o pescoço comprido da girafa, só para escolher um exemplo fácil. A explicação clássica é que girafas com pescoços compridos podem alcançar folhas mais altas nas árvores, o que seria uma vantagem em tempos de escassez de alimento. O que me parece bastante razoável. Mas imagino se as girafas que forçavam seu pescoço e desejavam que eles fossem mais longos experimentavam algum tipo de estresse, além de algum tipo de determinação “girafal”, que liberassem uma química capaz de influenciar a probabilidade de produzir filhos com pescoço mais comprido. Em outras palavras, poderiam os organismos guiar a própria evolução através de seus desejos?

Parece bastante improvável que um sistema tão complexo e específico pudesse existir nos organismos. No entanto, tudo em animais com cérebros é ridiculamente complexo, específico e improvável. Parece-me perfeitamente plausível que criaturas com cérebro possam ter desenvolvido uma habilidade ainda desconhecida de tradução de suas aspirações em características físicas em seus filhos.

É possível testar essa hipótese em fêmeas de ratos. Um grupo seria o controle, o outro seria mantido a frustantes um centímetro e meio de um delicioso pedaço de queijo. Ambos os grupos são alimentados o suficiente para garantir condições iguais de sobrevivência, assim o mecanismo evolutivo normal seria “desligado”. Será que os ratos com aspiração de ter um focinho mais longo para poderem alcançar o queijo teriam, em média, uma prole com focinhos mais longos?

Alguém provavelmente já deve ter testado isso em moscas da fruta ou algo do gênero.

Seira interessante não? Se pudéssemos, de alguma forma, guiar nossa evolução por nossos desejos e aspirações. Certamente seríamos uma espécie de unidade morfológica quase que inexistentes. Alguns de nós desenvolveriam asas para satisfazer o desejo de voar (eu estaria entre esses), outros desenvolveriam a capacidade de respirar em baixo da água indefinidamente e assim por diante. Infelizmente (ou felizmente), a evolução parece ignorar nossa vontade, agindo por conta própria.

Existem motivos bastante evidentes pra isso, o principal deles é  que condições externas não podem ser “interpretadas” por nosso material genético, de modo que se algumas destas condições provoca mudanças em nosso DNA, essa mudança é em geral prejudicial. Na verdade, antes de seguirmos precisamos lembrar um pouco de nosso próprio processo reprodutivo.

É amplamente conhecido que os seres humanos possuem 46 cromossomos. Destes, herdamos 23 cromossomos de cada um de nossos pais. O processo de herança destes cromossomos está na base da fecundação por células sexuais. Os espermatozóides carregam 23 cromossomos e o óvulo materno contém os outros 23. Quando espermatozóide e óvulo se unem, formando o embrião, somam seus números cromossômicos totalizando os 46. Esse número varia de animal para animal, mas o processo é mais ou menos o mesmo.

O fato é que uma vez que mutações no material genético das células sexuais em geral levam a resultados desastrosos, mudanças no material genético dos embriões ou de seres já completamente formados resulta, normalmente, em câncer. Ou seja, se nossos desejos fossem capazes de produzir mudanças em nosso material genético, provavelmente isso acarretaria em nossa destruição. O que pode ser interpretado como uma espécie de “lição de vida natural”, temos que nos contentar com o que temos (ou nos submetermos a uma cirurgia estética).

É importante observar que mutações no material genético das células sexuais EM GERAL, levam a resultados desastrosos. No entanto, pequenas mutações ocorrem o tempo todo durante o processo de produção das células sexuais. Para a maioria dos neodarwinistas, é o acumulo destas pequenas mutações que dá o combustível necessário para a evolução acontecer. Essas mutações normalmente resultam em mudanças sutis que eventualmente levam a alguma vantagem condicionada pelo meio ambiente. Um exemplo do que poderia ser uma pequena mutação é o filho alto de um casal de estatura média.

Apesar disso, Adams tem razão ao afirmar que condições externar podem modificar a química do organismo. A questão é que essa mudança se dá por processos de regulação previamente existentes, que não estão relacionados com a mudança do material genético em si. Em termos de metabolismo celular, embora o processo todo seja complexo para ser explicado aqui, a presença de algumas substâncias (como hormônios) pode causar determinadas modificações de produção de proteínas e etc. Isso não significa no entanto que os genes estejam sendo modificados.

Fica claro, portanto, que, por mais que uma aspiração ou desejo produza uma resposta química no organismo, essa resposta química não pode afetar o material genético do pai ou da mãe, e, por conseqüência, não pode ser passado adiante para os filhos.

A evolução não é teleológica, ou seja, não tem um fim determinado e nem pode ser guiada. Uma pena para aqueles que vão ter que continuar usando aviões para voar e submarinos para conhecer o fundo do mar.

PS: Agradeço ao amigo Ogro que além de indicar o texto e estabelecer uma ótima pauta, ainda fez a revisão da tradução. Agradeço também a Laura, que me ajudou na caça aos erros conceituais (e do meu pobre portugues).

O cinturão de proteção de Imre Lakatos

maio, 2008

O processo de formulação, aceitação e testes de uma teoria em geral parece bem estabelecido para o cientista. Mas para os filósofos da ciência, esta é uma questão tão aberta quanto qualquer outro assunto filosófico. Embora, no que diz respeito a questão da teorização, Popper e Kuhn sejam sempre lembrados, tantos outros foram proeminentes e produziram material interessante a este respeito. É o caso de Imre Lakatos.

Lakatos era graduado em física, matemática e filosofia. Depois doutorou-se em filosofia na Inglaterra, aonde permaneceu até o fim da vida. Lakatos, como tantos outros, nunca se deu muito bem com o trabalho de Thomas Kuhn. Publicou mais de um livro para tratar sobre as idéias de Kuhn e forneceu uma série de argumentos contra o sistema de paradigmas. Em seu livro “Falsificação e Metodologia dos Programas de Investigação Científica”, Lakatos desenvolve seu argumento de cinturões de proteção, que iremos ver com um pouco mais de detalhe.

Lakatos formulou que os sistemas teoréticos são formados por um núcleo forte, circundado por um cinturão de teorias de suporte. Quando submetidos aos testes, o núcleo forte da teoria possui mais ou menos o papel de “pressuposto básico”, de modo que é o cinturão, e não a teoria central em si, que passa pelo processo de averiguação. Desta forma, uma anomalia em qualquer teste afeta unicamente o cinturão de proteção e não a teoria central.

A teoria de suporte que acaba sendo refutada pode ser substituída por outro, mas para Lakatos o caso mais comum é o de reforçar a cinta de proteção do núcleo com teorias ad hoc. Ou seja, teorias auxiliares que não possuem propósito algum a não ser o de sustentar o núcleo forte. Um exemplo histórico é a teoria do éter celestial. A história do éter se confunde com o estudo da natureza da luz. No passado se acreditava que a luz era uma onda e, portanto, precisava de um meio de propagação. Era simples encontrar um meio de propagação na Terra, mas o fato é que a luz estava viajando pelo espaço que,acreditava-se, era vazio. Esse problema poderia ter posto em dúvida as idéias sobre a natureza da luz, mas ao invés disso, uma explicação ad hoc foi criada. O espaço deveria ser preenchido por uma substância que não tinha massa e não podia ser detectada, o éter, e era ele quem servia de meio de propagação para a luz.

No exemplo acima podemos observar que a natureza ondulatória da luz era o núcleo forte, quando colocado em dúvida, criou-se uma substância imaginária que não possuía peso, cor, cheiro ou qualquer característica capaz de ser detectada por qualquer experimentação possível. Desta forma, o éter, uma teoria auxiliar, protegia seu núcleo forte, a natureza ondulatória da luz. Desta forma seria possível imaginar que, a priori, nenhuma teoria poderia ser refutada. Lakatos responde a esta conclusão concordando com o argumento, mas observa que para a ciência o acúmulo de teorias ad hoc é desconfortável. Com efeito, é este acúmulo que leva a comunidade científica abandonar uma determinada teoria em detrimento de outra. A nova teoria nem sequer precisa responder a todas as questões que a anterior respondia, é preciso apenas que ela responda um número satisfatório de problemas (dentre esses, alguns que a anterior não conseguia responder) e não ter um número grande de fundamentações ad hoc.

Lakatos pode não ter sido tão “famoso” quanto Kuhn e Popper. Mas certamente teve um papel importante no desenvolvimento da filosofia histórica da ciência.

Ciência básica: “então, mas você vai estudar isso pra quê?”

maio, 2008

Para muitos, senão quase todos, escolher a profissão é um privilégio incalculável. Em geral a opção deve considerar a remuneração, especialmente quando se vai para a universidade passar um tempo financeiramente improdutivo. Acho que é assim que se explica a enorme quantidade de gente estudando alguma engenharia – e, também, a enorme fração de engenheiros que penduram seus diplomas trabalhando em bancos internacionais. Os salários compensam.

Já empregar-se em ciência, em geral, não vai fazer ninguém enriquecer. Tampouco há incentivos para ser cientista no Brasil, já que a regra é estudar muito (somando-se a graduação e a pós-graduação, pode-se calcular uma média de 10 anos de dedicação integral à formação acadêmica) e ganhar muito pouco ou, às vezes, nada. A especialização científica é quase que totalmente estimulada pelas instituições públicas e as bolsas são de baixo valor, têm pouca duração e sua concessão é, muitas vezes, incerta. Apesar disso, eu conheço muitos cientistas felizes e, talvez isso se deva ao fato de que eles atenderam à sua vocação quando escolheram a carreira.

Estima-se que, entre 1985 e 1990, somente 10 títulos de pós-graduação tenham sido concedidos a cada milhão de habitantes no País, o que faz do cientista brasileiro uma espécie rara. Minorias geralmente recebem estereótipos mais facilmente – então aqui estamos, com nosso exemplar de cientista maluco, inteligência muito acima da média, cabelos revoltos, óculos de fundo de garrafa, projetos absurdos, linguajar incompreensível. Como a divulgação do conhecimento científico produzido é muito restrita, tem-se a impressão de que a ciência é inatingível ou, até mesmo, inútil. Outra idéia que se faz do cientista é a de que ele é fundamentalmente um utilitarista, alguém que projeta coisas – o que representa essencialmente a função da pesquisa chamada aplicada. Normalmente ignora-se a existência de um outro tipo de pesquisa, a que trata da ciência básica. Por causa disso, o cientista que faz pesquisa básica deve ser um pouco mais paciente quando explica aos outros a sua profissão. Tomemos o meu exemplo:

– E aí, minha filha, então quer dizer que você se formou em biologia, é?
– É…
– E agora, vai fazer o quê? Já arranjou emprego?
– Não, então, eu vou fazer pós-graduação agora. Quero ser pesquisadora e tal…
– Ah, legal, que chique. E você vai estudar o quê?
– Quero me especializar em Zoologia – que é o estudo dos animais. Vou estudar um   gênero de besouros, basicamente eu vou analisar tudo o que puder sobre eles e classificá-los.
Nossa, besouros? Que nojo, mas, enfim, tem gosto pra tudo. Você vai classificar os besouros, então. Mas, explicaí, pra quê, hein?
Hum, no meu caso é porque eu quero ser especialista em besouros, mas como os besouros são muuuitos (sabia que os besouros representam, em número de espécies, quase 1/4 de todos os seres-vivos do mundo?), eu tive que escolher um grupo menor, no caso família. Tem muito besouro e a gente não sabe quase nada sobre eles. Um dia eu quero contribuir com o conhecimento sobre eles, mas a gente tem que começar pequeno, com um gênero, depois é que vai aumentando o grau de classificação.
Ah, tá, mas o que os seus besouros fazem? São aqueles rola-bosta?
– Não, não, os meus besouros geralmente comem plantas, todas as partes das plantas.   Eles fazem parte de uma família que se chama Chrysomelidae. Os rola-bosta são de uma outra família. Eu ainda não sei o que os meus besouros fazem, isso faz parte da pesquisa, mas sei que uns parentes muito próximos deles são pragas de feijão, batata, soja…
Aaaaaaah, agora entendi. Então você vai encontrar um jeito de acabar com eles, né?

Os interesses científicos são, por várias vezes, considerados extravagantes. Em parte a culpa é dos próprios cientistas, que não explicam ao público leigo de que se tratam as suas pesquisas. Por que é que uma pessoa comum acharia útil financiar com recursos públicos a pesquisa de uma lunática fascinada por besouros? “Ah, muito bem, então agora vou pedir que o governo me pague pra que eu jogue bola!”. Como Carl Sagan já mencionou, o consenso popular é de que “(…) Não é o caso de subsidiar a curiosidade dos nerds, mas aquilo que trará benefícios à sociedade”. Eu poderia usar o argumento do meu interlocutor, de que vou encontrar maneiras de acabar com o meu besouro, já que ele é uma praga agrícola em potencial, mas isto não é verdade, o meu projeto trata de uma fase anterior à essa. Para acabar com o besouro, é necessário saber quem ele é, onde ele vive e como ele vive – esses são os verdadeiros objetivos do meu trabalho. Pode ser que eu descubra que ele não é praga de nenhum cultivar importante, e é aí que reside o princípio fundamental da ciência básica: a sua aplicabilidade, quando existente, é sempre futura.

Defender a priorização de recursos para a aplicabilidade imediata do conhecimento científico é o mesmo que dizer, em um exemplo grosseiro, que encontrar a cura do câncer é mais importante do que conhecer a biodiversidade do planeta. Em lógica, isso representa uma falácia – um argumento falso deduzido a partir de uma premissa contestável. Aqui, a premissa seria a de que o bem-estar da humanidade não depende do ambiente em que ele vive. Sabemos que isso não é verdade, o homem não existe se não existir Planeta Terra e o conhecimento a respeito de sua biodiversidade é fundamental para entender o seu funcionamento geral. Assim, o que temos, em verdade, é que os dois interesses são igualmente significativos – o que, por consequência, coloca ciência básica e aplicada em um mesmo patamar.

O que aconteceria se o pensamento imediatista fosse sempre a regra? Sagan cita exemplos históricos imaginando essa situação:

“(…) Um certo sr. Fleming deseja estudar micróbios num queijo fedorento; uma polonesa deseja analisar minuciosamente toneladas de minério da África central, para descobrir quantidades diminutas de uma substância que, segundo ela, brilhará no escuro; um certo sr. Kepler deseja escutar a música dos planetas.”

O resultado seria catastrófico, porque, afinal:

“Maxwell não estava pensando no rádio, no radar e na televisão quando rabiscou as equações fundamentais do eletromagnetismo; Newton nem sonhava com vôos espaciais ou satélites de comunicações quando compreendeu pela primeira vez o movimento da Lua; Roentgen não cogitava em diagnóstico médico quando investigou uma radiação penetrante tão misteriosa que ele a chamou de “raios X”; Curie não pensava na terapia do câncer quando extraiu a duras penas quantidades diminutas de rádio do meio de toneladas de uraninita; Fleming não planejava salvar a vida de milhões com antibióticos quando observou um círculo sem bactérias ao redor de uma formação de mofo; Watson e Crick não imaginavam a cura das doenças genéticas quando tentavam decifrar a diafratometria dos raios X do DNA; Rowland e Molina não planejavam implicar os CFCs na diminuição da camada de ozônio quando começaram a estudar o papel dos halógenos na fotoquímica estratosférica.”

É engraçado que as pessoas perguntem, sem acanhamento, o “pra quê?”. Parece mais fácil aceitar uma profissão do tipo “personal coach” (o que é isso, afinal???) do que uma profissão como “taxonomista”, “físico de partículas” ou “filósofo”. Infelizmente o acesso até aos conhecimentos científicos mais simples ainda é incrivelmente restrito. Por isso eu não fico mais brava quando me perguntam “pra quê?”, mas tenho sinceras esperanças de que uma dia essa pergunta seja considerada quase que uma falta de respeito.

Inspirações e onde saber mais:

Carl Sagan. O Mundo Assombrado Pelos Demônios: No capítulo 23 (Maxwell e os nerds), com explicações detalhadas sobre as descobertas revolucionárias do grande físico Maxwell, Sagan discute o estereótipo do cientista nerd, a ciência básica e as políticas de inovação científica dos últimos anos nos países de primeiro mundo.

Simon Schwartzman. Pesquisa acadêmica, pesquisa básica e pesquisa aplicada em duas comunidades científicas: Diretor-presidente do Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade (IETS), Schwartzman analisa as definições dos modelos de pesquisa e suas implicações políticas.

Oswaldo Ubríaco Lopes. Pesquisa básica versus pesquisa aplicada: Professor do Departamento de Fisiologia do Instituto de Ciências Biomédicas da USP, Lopes discute brevemente a antiga guerra entre as áreas de pesquisa.

A incomensurabilidade na divulgação científica.

abril, 2008

Quando fundamentou o princípio da incomensurabilidade, Thomas Kuhn estava pensando nas dificuldades em se estudar a filosofia histórica da ciência e na disputa dos defensores de paradigmas concorrentes. Suas últimas formulações sobre o tema transformaram a incomensurabilidade de maneira surpreendente. Kuhn utilizou princípios da seleção natural darwiniana, bem como estudos sobre filologia e tradução, para melhor compreender a relação entre os diversos paradigmas e a visão de mundo em que eles se inseriam. A conclusão que se chega ao se envolver com o trabalho de Kuhn é que a ciência é um empreendimento humano, que visa a busca pelo conhecimento da natureza física do universo. Mas é também uma linguagem própria e em constante evolução.

Para compreendermos o impacto do trabalho de Kuhn na divulgação científica, é preciso antes abordarmos alguns aspectos específicos. O primeiro aspecto, e provavelmente o mais importante, é o conceito de léxicos kuhnianos. Os léxicos são termos criados para designar um conjunto de observações sobre algo. “Água”, por exemplo, seria um léxico que define o composto químico H2O. Assim como “insetos” seria o léxico para definir animais invertebrados, com três pares de patas e corpo dividido em três tagmas (cabeça, tórax e abdômen).

Sendo os léxicos termos que definem algo de maneira bastante restritiva, eles assumem uma característica similar ao das espécies naturais e, como tais, podem passar por um processo de seleção (natural, artificial ou social embora detalhes sobre esses tipos de seleção não serão abordados). Ainda no exemplo da água, no século XVI acreditava-se que a ela fosse um elemento químico, de modo que o léxico “água” se referia a “qualquer líquido inodoro, insípido e incolor”. Com o avanço das práticas químicas e com a descoberta de que a água era na verdade um composto químico, seu léxico passou por um processo evolutivo e começou a se referir ao H2O. A priori parece uma mudança pouco relevante, mas manter o léxico “água” do século XVI implicaria em assumir que ainda que um elemento ou composto químico seja diferente do H2O, se ele for inodoro, insípido e incolor então deve ser caracterizado como água.

O problema começa justamente neste ponto. Um mesmo léxico pode se referir a coisas diferentes nas mais variadas linguagens. Não estou me referindo exclusivamente a idiomas, embora também possamos considerá-los parte do problema, mas sim aos vocabulários específicos das atividades humanas. Os vocabulários, além de variarem nas atividades (temos um vocabulário próprio da ciência, um vocabulário próprio para o senso comum, outro para as religiões e assim por diante), variam no tempo e no espaço assim como os léxicos. Para Kuhn, a incomensurabilidade surge justamente da incapacidade de compatibilidade dos vocabulários. Usando apenas a ciência como exemplo, se tomarmos o léxico “movimento” da mecânica aristotélica e o léxico “movimento” da mecânica newtoniana, iremos observar que eles são substancialmente diferentes. Comparando o vocabulário todo da mecânica aristotélica com a newtoniana, notaremos que praticamente todos os termos possuem valores lexicais completamente diferentes.

Portanto, estudar uma teoria antiga é o equivalente a aprender uma língua morta. Parte daí que, ainda que o indivíduo compreenda bem a “língua morta” e a “contemporânea”, ele passa a exercer o papel de um bilingue, e não de um tradutor. Embora compreenda bem ambas as teorias, não é capaz de traduzir os termos de uma na outra. É nesta posição que se encontra o divulgador científico, um bilingue tentando traduzir o idioma da ciência para o idioma do “dia-a-dia”.

Não é um papel fácil e, com efeito, não é sequer um papel possível. Como em um processo de tradução normal, o divulgador científico aproxima a ciência da linguagem do dia-a-dia por substituição interpretativa do termo. O léxico “evolução” é um bom exemplo disso. Para a biologia evolução se refere à modificação genética, enquanto para o senso comum significa graduação. Ambos os termos são incompatíveis e não é possível traduzir “evolução” biológica sem se valer de recursos que acabem por se referir a variações do léxico do senso comum. Ou seja, para explicar evolução para um “leigo”, é preciso especificar em quais termos a palavra esta sendo usada. Curiosamente, o léxico evolução da biologia se parece muito mais com o léxico adaptação do senso comum. Fica fácil compreender portanto o motivo da evolução lamarckista ser melhor compreendida por pessoas de fora da ciência.

A despeito da dificuldade do trabalho do divulgador, sua atividade é de vital importância. Assim como uma música em inglês pode provocar o interesse de quem ouve para o estudo da língua, a atividade da divulgação científica é provavelmente a maior responsável por provocar o interesse das mentes jovens (ou nem tão jovens assim) para a atividade científica profissional.

Educação física, ciência sim senhor.

abril, 2008

Faz parte de nossa tentativa de entender o mundo, criar maneiras simples e generalizadas de classificação. Para um observador minimamente razoável, essas classificações se mostram evidentemente acadêmicas e não refletem necessariamente a complexidade do que se classifica. Podemos tomar como exemplo a classificação das ciências naturais. São assim chamadas, primeiramente, por seu vínculo direto com o estudo aonde as respostas devem vir necessariamente da natureza. Física, biologia e química são grandes exemplos de classificações feitas nas ciências naturais. No entanto, mesmo entre essas três áreas existem campos “cinzas”, ou seja, que parecem se enquadrar em mais de uma dessas classificações, ou talvez em nenhuma delas. Parte daí o motivo de se criar subclassificações, bioquímica e biofísica são bons exemplos.

Embora esse sistema taxonômico em geral funcione, para aqueles observadores que não são tão razoáveis, essas classificações podem dar origem a certos preconceitos. É o que tipicamente ocorre com a educação física. Não raro nos deparamos com seu esteriótipo comum, estudante de educação física é tido como “o vida boa”, sua aplicação última se restringe aos campos de futebol e outros esportes (quando muito) ou às acadêmias de musculação. Pouco, ou nenhum, esforço se faz para entender que a educação física é sim uma ciência.

Não há dúvidas de que a educação física esta intimamente relacionada ao corpo humano. O que se deve notar é que essa relação se estende em níveis mais amplos do que se imagina. A priori podemos tomar o caminho mais simples e pensar na prática de exercícios físicos. É de responsabilidade da educação física estudar e fundamentar corretamente essas práticas, o que por si só já coloca a disciplina em um processo científico de investigação e pesquisa. Tomando esta linha de pensamento como verdadeira, e ela de fato o é, a educação física esta diretamente relacionada com estudos de anatomia, bioquímica, biomecânica, fisiologia humana e tantas outras áreas quanto se possa imaginar. Vale notar que as instituições de fomento a pesquisa brasileiros classificam a educação física como ciências da saúde, bem ao lado da medicina.

Não obstante, a educação física ainda abrange uma série de outras áreas fora das chamadas “hard science”, mas que são igualmente importantes e relevantes. É o caso de seu papel na educação por exemplo. Sua relação com a psicanálise e mesmo com direito, filosofia e ética. Por toda essa desenvoltura com diversos campos do saber humano, é incompreensível os motivos que sustentam o preconceito claramente existente contra esta disciplina tão completa.

É papel do divulgador científico compreender que o conhecimento humano se entrelaça de formas mais complexas do que a taxonomia acadêmica sugere. É igualmente papel do divulgador compreender que a ciência é mais do que a invenção de novos e complexos aparelhos ou de técnicas avançadas de medicina. A ciência é um empreendimento abrangente, que investiga o homem e o mundo que o cerca. Neste sentido, as contribuições da educação física são de grande importância e relevância.

Para saber mais:

Educação física

Antropomorfismo e antroponegação.

março, 2008

“Uma nova pesquisa sugere que as formigas são traiçoeiras, egoístas e corruptas, contrariando a imagem de insetos de convivência harmoniosa e com pré-disposição para colocar o bem da comunidade acima de preocupações pessoais”. Este é o primeiro parágrafo da notícia veiculada via G1. A despeito das informações referentes à pesquisa desenvolvida com as formigas, a reportagem incorre em um erro bastante comum. O chamado antropomorfismo.

O antropomorfismo consiste no ato de atribuir características humanas a qualquer animal. Usando o próprio texto do G1 como exemplo, podemos observar que o autor acusa as formigas de serem “traiçoeiras”, “egoístas” e “corruptas”, valores humanos criados para definir traços comportamentais típicos de nossa espécie. A questão é que, apontar traços humanos como resultado de uma pesquisa sobre formigas não é correto.

Observar o comportamento animal não é exatamente uma novidade. Por vezes eles se comportam de maneira muito semelhante à nossa, advém disso usarmos características humanas para nomear determinados comportamentos em animais. No entanto, não se pode afirmar que um animal esteja sendo “corrupto”, só porque determinado comportamento se parece com a corrupção na humanidade.

Paradoxalmente existe um outro princípio conhecido por antroponegação. Este princípio atesta, que não podemos negar aos animais características humanas. Ou seja, não podemos dizer que os animais não possuem comportamentos egoístas, ou de corrupção. Mas, se não podemos negar uma característica humana nem podemos atribuir características humanas, como resolvemos?

A resolução é simples. Cabe a nós apenas observar o comportamento e deixar de lado qualquer interpretação sobre a natureza deste comportamento. Se observamos formigas operárias beneficiando seus próprios ovos em detrimento dos ovos da rainha, devemos nosater à descrição do comportamento sem que nenhuma interpretação seja realizada. Em verdade, só podemos interpretar o comportamento em um nível básico, na tentativa de compreender a importância evolutiva que ele possui.

Um pouco de fé na ciência.

março, 2008

Com determinada freqüência, algumas pessoas costumam dizer que acreditar na ciência é um ato de fé. Um ato de fé talvez comparado ao ato de acreditar em um Deus, ou um santo. O curioso é constatar que este pode ser um pensamento comum mesmo aos cientistas. Não tão curioso é o uso do termo fé de maneira pejorativa, muitas vezes até por pessoas religiosas, de modo a diminuir a importância da ciência.

Segundo o dicionário, o termo fé poderia ser utilizado em ciência em pelo menos duas acepções. Como em confiança absoluta em alguém ou algo, ou como comprovação de um fato. Embora o próprio método científico evite “confianças absolutas”, com efeito é possível atestar esse tipo de fé para alguns casos em particular. Por exemplo, no que diz respeito à gravidade, quem seria capaz de questionar que ao soltar uma pedra no ar ela vai, irremediavelmente, cair ao chão? Ainda tomando a gravidade como base, é possível estabelecer a velocidade de queda dessa pedra, bem como sua trajetória. A mecânica clássica é um campo científico capaz de prever esse tipo de informação com uma precisão tão assustadora, que podemos confiar em seus resultados de maneira absoluta.

De maneira análoga, e partindo dos mesmos princípios, muitos são os casos aonde é possível comprovar um fato. Embora neste sentido de fé as ressalvas sejam maiores, alguns fenômenos são tão bem conhecidos e estudados que, de certa forma, é possível dizer que foram comprovados. As ressalvas ficam por conta da impossibilidade de se dizer que sabemos tudo a respeito de um objeto de estudo.

O que me intriga de verdade é o uso da palavra fé, em sua forma pejorativa. É estranho observar que muitas vezes, essa fé pejorativa se sustenta no conceito de “fé cega”. Ou seja, de uma fé que se sustenta pela força da crença do fiel, ainda que não possa ser respaldada por qualquer tipo de observação ou teste. Com efeito, esse tipo de fé é melhor observado em pessoas religiosas, e neste contexto, eu nem atribuiria uma forma pejorativa para essa fé.

No entanto, essa fé religiosa é usada com certa regularidade para atingir o empreendimento científico. Neste contexto pode-se dizer que ela passa a ser pejorativa, já que deprecia a qualidade investigativa da ciência. É importante lembrar que a ciência não é feita de dogmas imutáveis, produzidos de maneira arbitrária e sem qualquer rigor. O que não falta à ciência é rigor, seja pelo racionalismo de Descartes, seja pelo empirismo de Locke, Berkeley e Hume.

Diminuir a ciência a uma atividade guiada pela crença irresponsável, ou que não necessita de bases sólidas, é ignorar tudo o que foi construído desde o renascimento.