Bola Recuada, Jornalismo Esportivo e Divulgação Científica

Pois se em Copa do Mundo o tema é recorrente, o jornalismo esportivo anda mesmo muito a desejar. Em informações interessantes, claro. É só ligar a tevê e as reportagens se repetem, e como há quatro anos atrás:

• rivalidade entre Brasil e Argentina. A novidade fica por conta da propaganda de cerveja;
• bate-papos informais com ex-jogadores de futebol e algumas celebridades emergentes. O que será que Bruna Surfistinha tem a dizer?
• filmagens com os estrangeiros e suas colônias. E a saia justa de todo repórter: se o seu país for para a final com o Brasil, pra quem você torcerá?
• mitos pra lá, mitos pra cá. E na história de todas as Copas do Mundo isso, e aquilo, e coisa e tal.
• mais uma vez um jogo de estréia a desejar. Torcedores frustrados.

E se essa Copa do Mundo é aquela que mais investiu em tecnologia – dizem que a FIFA superestimou o poder das vuvuzelas, que atrapalham na recepção de som e, consequentemente, da transmissão televisiva – por que eu sinto falta de matérias mais elaboradas, com conteúdos mais reflexivos?

Uma vez a Tv Cultura passou uma série ótima e polêmica sobre o esporte: Mais que um jogo. Já tem uns dez anos isso, e eu nunca me esqueço. É que fui apresentada por uma verdade escamoteada, a do dopping com toda ciência e consciência aí envolvidas, ou não. E por que não aproveitar o momento para oferecer à população um pouco de informação científica? O dopping genético, por exemplo, é assunto pra lá de polêmico. Mas, mais próximo ao futebol e à própria Copa do Mundo está a confecção dessa nova bola, envolvida em muita ciência e tecnologia. Não daria margens para muitos programas de cinco minutos? Uma série, um qualquer coisa com um conteúdo das ciências, o futebol como fator de formação científica básica?

Eu tenho uma teoria, que é subjetiva, cuja conclusão me surge sem método nem estatísticas. É apenas uma observação empírica da coisa. Os jornalistas, e os repórteres, e o pessoal da comunicação não está muito habituado em trabalhar com a linguagem científica, mesmo sendo o futebol a paixão nacional. Talvez porque a ciência e a tecnologia sejam paixão apenas de alguns. Ou, do outro lado, no capitalismo da coisa, está a ponta da massificação da informação e coisa e tal.

Penso que, nos próximos seis anos, com a Copa do Mundo de 2014 a ser sediada no país, bem como os Jogos Olímpicos de 2016; penso que talvez esse pudesse ser o momento de levar à população reflexões mais críticas sobre os fatores envolvidos nesses eventos, principalmente em relação ao retorno para a nação. Não só, mas incluindo aí o conhecimento científico.

Por que é que nas últimas Olimpíadas a cobertura televisiva contou com mais desses artifícios e realizou mais embates científicos e tecnológicos? Câmera de movimentos lentos para entendermos a evolução técnica dos atletas, explicações sobre os recordes na piscina olímpica e sua construção tecnológica e etc, etc, etc. Por que o futebol parece ter sua discussão suficiente pela paixão nacional?

Por que as diversas mídias não vão aos laboratórios espalhados pelas universidades país afora para mostrar as evoluções científicas e tecnológicas que envolvem a preparação do atleta? Tem tanta informação diferente a ser pescada que me parece burrice um jornalismo esportivo feito de mesmices. O canal de cá com a mesma linguagem que o canal de lá. Competitividade, provavelmente.

Claro que não digo em 100%, digo de uma maioria. De qualquer forma, fica o alerta. Um país não se constrói só de paixão nacional. Tem muitas outras coisas aí que merecem entrar em pauta. E uma boa parte delas tem a ver com a Divulgação Científica. Isso, para que a bola não fique recuada no processo de crescimento do país.

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A Prenhez Tubária, o Anticoncepcional e a Divulgação Científica

Fornecer informações de um modo acessível à população é o principal objetivo da Divulgação Científica. Digo de se traduzir aquela linguagem técnica, de difícil absorção, cheia de latins e de palavras que passam ao largo do uso cotidiano, como no caso das ciências e suas expressões mais puras. Nelas e nas mais diversas áreas.

E por quê não usar o dicionário?
Divulgação: ato ou efeito de tornar pública alguma coisa; difusão, propagação, vulgarização. (Houaiss)

Repito: difusão, propagação, vulgarização. Três palavras adequadas ao propósito deste texto. E um incômodo. Explico:

Recentemente passei por uma cirurgia para a retirada de um pedaço de uma das trompas, em decorrência de uma gravidez ectópica (quando o feto se desenvolve de forma tubária). Por certo, uma fatalidade. Maior ainda pelo fato de eu estar tomando Mesigyna®, anticoncepcional injetável fabricado pela Bayer do México e comercializado aqui no Brasil pela Schering.

A parte interessante desse tipo de anticoncepcional trata-se do fato dele ser administrado mensalmente por via intramuscular profunda, de forma extremamente lenta e, portanto, há registro de cada dose na farmácia em que a injeção é aplicada. Coisas das legislações, ainda bem, pois assim levanto a possibilidade de entrar com um processo contra o laboratório.

E é aí que encontro o primeiro incômodo e penso no quanto é importante a Divulgação Científica. Afinal, de que se trata aquela porcentagem de ineficácia (geralmente 1%) presente em todas as bulas dos anticoncepcionais?

“Quando usado corretamente, o índice de falha é de aproximadamente 1% ao ano (uma gestação a cada 100 mulheres por ano de uso). O índice de falha pode aumentar quando os intervalos entre as injeções são prolongados.” (Bula do Mesigyna®).

“Os COCs [Contraceptivos Orais Combinados] são utilizados para prevenir a gravidez. Quando usados corretamente, o índice de falha é de aproximadamente 1% ao ano. O índice de falha pode aumentar quando há esquecimento de tomada dos comprimidos ou quando estes são tomados incorretamente, ou ainda em casos de vômito dentro de 3 a 4 horas após a ingestão de um comprimido ou diarréia intensa, bem como interações medicamentosas.” (Bulas do Yaz® e do Yasmin®).

“Contraceptivos orais combinados, quando usados corretamente, o índice de falha é de aproximadamente 1% ao ano. A ingestão irregular pode levar a sangramentos intermenstruais, além de reduzir a eficácia terapêutica e o efeito contraceptivo de Diane® 35.”

É tanta repetição que levanta até suspeitas. Algo do tipo os laboratórios se precaverem de ações legais caso algo ocorra distante do previsto e coisa e tal. E apenas isso?

Por certo devem haver estudos científicos que apresentam tal margem de erro e, como dizem os manuais de métodos de pesquisa, principalmente no tocante as estatísticas e validade dos experimentos nos quais as variáveis são controláveis.

Consenso: várias técnicas estatísticas são necessárias para permitir a descrição das características dos dados, testar relações de conjunto entre os dados e suas diferenças. Geralmente o resultado é uma média.

No caso da eficácia dos anticoncepcionais, o conceito utilizado em técnicas estatísticas é o de confiabilidade (e não o de probabilidade, como muitos podem achar). Envolve pesquisa correlacional (entre as variáveis) e isso significa haver um coeficiente de correlação, que pode ser alto ou baixo, satisfatório ou insatisfatório.

E as dúvidas vão aumentando: cientificamente, de que se trata o uso correto de uma substância? Esta falha de 1% do uso dos anticoncepcionais injetáveis é determinada a partir de quê? Do esquecimento de uma das doses? Do erro na administração da ingestão? Ou refere-se mesmo à ineficácia da substância para determinados organismos? Dentro deste 1%, qual é a porcentagem destinada ao uso inadequado da substância? E em relação à interação com outros medicamentos? Afinal, como é calculado este 1%? E outras tantas perguntas, para tantas variáveis…

Entre as variáveis, por certo que outros fatores estão envolvidos, e que representam o mundo científico: a amostra populacional, a validade das medidas e a expressão de fidedignidade por meio da correlação. E tudo isso promove uma margem de erro.

Mas, afinal, essa margem de erro é suficiente para o laboratório eximir-se da responsabilidade de ineficácia de um medicamento? Todos lembram do caso da pílula de farinha.

Em uma pesquisa breve relacionada na internet, verifico haver muitas mulheres na mesma situação do que a minha. E muitas delas questionando o laboratório judicialmente. Se há um argumento que possa ser válido, eu aposto na confiabilidade.

E não digo apenas em relação ao método científico em si, mas de todo o entorno. É fato de que os anticoncepcionais são vendidos por sua confiabilidade e não pela possibilidade do erro.

Onde entra a Divulgação Científica nisso tudo? No acesso à informação. Essa eu só fui procurar depois do ocorrido, para então ouvir de especialistas frases do tipo:

- esse medicamento quando não funciona tem um alto risco de gravidez ectópica;
- nossa farmácia parou de aplicar o medicamento porque muitas mulheres relataram passar mal, então o laboratório veio pedir para voltarmos a aplicar o medicamento;
- é bobagem processar o laboratório já que nenhum método para evitar a gravidez é 100% seguro.

Independente dos argumentos, uma coisa é fato: o acesso à informação, a popularização da ciência, sua vulgarização poderia ter me permitido correr esse risco de gravidez ectópica de uma forma mais consciente. Afinal, eu poderia ter aliado o anticoncepcional com o uso da camisinha. Ou com o uso de um DIU. Ou outra combinação possível.

Aqui, eu entraria com o debate pelos argumentos da bioética e coisa e tal. É fato que nós somos responsáveis pelos nossos atos, e, neste caso acima relatado, os laboratórios também não o são?

De qualquer forma, ressalto a importância da Divulgação Científica para a tomada de decisão das pessoas, para que elas evitem incômodos. Inclusive quando se quer usar da própria ciência em um processo judicial.

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Pra quê?

José Oliveira se prepara para uma grande festa que ele vai dar. Essa festa simboliza uma grande mudança em sua vida, já que após três anos de cursinho ele foi finalmente aprovado no vestibular e irá cursar Economia numa das melhores universidades do país. Ele está muito aliviado porque nunca mais na vida vai ter que ouvir falar em isótopos, complexo de Golgi ou leis de Kepler. Ele odeia Ciências, e acha que todas as aulas de Ciências que teve na vida foram uma perda de tempo. “Nunca usei a Ciência que aprendi na escola. Não é preciso saber conteúdos científicos para entender o cotidiano”, diz.

As alegações de José são contundentes, e devem ser levadas a sério. Ele diz que saber ou não saber Ciências dá na mesma. Ele não precisa saber o que são pontes de hidrogênio para saber que a água demora mais pra ferver do que o leite, não precisa saber o que é índice de refração para usar óculos e lava louça tranqüilamente sem saber o que é uma molécula polar ou apolar.

José certamente não está sozinho. Muita gente concorda com ele, e a discussão que eles levantam é interessante e não trivial. Por que as pessoas têm que saber Ciências se, ao contrário de Línguas ou Matemática, muito pouco desse conhecimento é de fato aplicável ao dia-a-dia? José não vai mudar o jeito de viver se descobrir que uma dia existiu um tal de Trilobita ou que a água tem densidade máxima a 4ºC.

Poderíamos dar a José o argumento de Sagan, de que “a Ciência é como uma vela num mundo assombrado por demônios”, mas ele não aceita argumentos assim abstratos. Ele quer coisas concretas, aplicáveis, palpáveis. Pra que serve saber as partes de um átomo e tantas outras besteiras que os profs de Ciências insistem em dizer?

Há várias maneiras de retrucar José. Escolherei uma e convidarei os leitores a pensem (e, de preferência, comentarem) em outras.

Talvez José esteja certo em dizer que as aulas de Ciências que ele teve na vida foram uma perda de tempo. Sabemos que o modelo de aula e a concepção de educação que permeia nossas escolas estão muito ultrapassados. Mas o fato da aula ser ruim não significa que o conteúdo não seja importante. Existem professores péssimos de Matemática, mas isso não significa que não é importante saber contar. Talvez se José tivesse tido bons professores de Ciências, ele entenderia o argumento de Sagan, e gostasse de Ciência nem que fosse pelo exercício intelectual. Mas ele não teve, e não engole esse argumento.

Ora, se José é tão espertalhão e só quer saber das coisas concretas, então ele não pode negar que a tecnologia, uma das facetas da Ciência, interfere diretamente em sua vida. Mesmo assim, ele poderia argumentar que ele não precisa saber como funciona um pen drive para usar um. Correto. Mas e se formos para assuntos mais polêmicos, como clonagem humana, alimentos transgênicos, células tronco, créditos carbono ou robôs que tiram o emprego de centenas de homens?

José quer saber das coisas paupáveis, mas, por não gostar de Ciência, não a vê como empreendimento humano. Não entende que a Ciência e a sociedade estão altamente interligadas, e que se ele não souber um mínimo de Ciência (que não é tão pouco assim) ele vai ser só mais uma ovelha no rebanho. José quer ser questionador, mas como vai questionar a Ciência se não a conhecê-la?

Grande parte do financiamento para pesquisa é feita com dinheiro público – o dinheiro do José de todas as outras pessoas. Isso significa que o Governo, ao invés de ampliar as vagas nas Universidades públicas, está investindo milhões para sequenciar DNA de cana. Se fosse diferente, José não precisaria ter feito três anos de cursinho. Mas se ele não souber o que é DNA e não souber o que a cana tem de tão especial, ele nunca vai entender onde estão gastando o seu dinheiro.

Reações de combustão, fotossíntese e comprimentos de onda parecem coisas abstratas. Mas dinheiro, emprego e tempo de cursinho são bastante concretos. A relação entre essas coisas só será visível para José se ele entender um pouquinho de Ciência. Cidadania tem tudo a ver com Ciência, mas infelizmente pouca gente sabe disso.

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Fatos fatídicos

“Helado”, em Espanhol, não significa “gelado”. “Bixa”, em português de Portugal, não significa “gay”. De forma semelhante, existem alguns termos que são utilizados em Ciência que têm significados muito diferentes do que parecem ter. Dois desses termos merecem atenção especial: “teoria” e “fato”.

Na linguagem do dia-a-dia, dizer “eu tenho uma teoria” é o mesmo que dizer “eu acho que”, ou seja, as teorias carregam um alto grau de incerteza. Em contrapartida, na Ciência as teorias são hipóteses altamente corroboradas e bem fundamentadas. Atentaremos-nos a isso em algum outro texto. Este aqui tratará da diferença entre um fato do dia-a-dia e um fato científico. Para isso, peço que o leitor considere os dois grupos de afirmações a seguir:

Grupo 1: “Joãozinho andou de bicicleta ontem”. “A filha de Maria nasceu dia 5/12”. “O Flamengo ganhou o Brasileirão”.

Grupo 2: “A Terra gira em torno do Sol”. “Todas as espécies têm um ancestral comum”. “A Terra tem 6 bilhões de anos”.

Quais as diferenças entre os dois grupos de sentenças? O Grupo 2 contêm apenas afirmações científicas que são bastante aceitas atualmente, enquanto o Grupo 1 consiste de afirmações sobre acontecimentos cotidianos. Se olharmos um pouco mais a fundo, podemos perceber que as diferenças não param por aí, e passam pela questão fundamental que diferencia um acontecimento científico de um não-científico. Para perceber essa diferença, analisemos os grupos separadamente:

Grupo 1: O Flamengo ganhou o Brasileirão. Ponto. É um fato. Se você torce por outro time e não gostou do resultado, azar o seu! Não há nada que você possa fazer, pois esse fato é imutável. Por toda a eternidade ficará constado que o campeão brasileiro de 2009 foi o Mengão. Da mesma forma, a filha da Maria nasceu dia 5 de dezembro. Ponto. Pelo resto da vida, é nesse dia que ela comemorará seu aniversário. Nada pode mudar o dia em que ela nasceu.

Grupo 2: A Terra tem 6 bilhões de anos. Pelo menos até encontrarem uma rocha mais antiga que isso. Além disso, não faz muito tempo que esse fato (?) foi aceito. Na verdade, existem pessoas – e não são poucas – que acreditam que o mundo não tem mais do que 6 mil anos. De forma semelhante, as voltas que a Terra dá em torno do Sol nem sempre foram um fato. Antes era fato que o Sol girava em torno da Terra.

Percebe-se que os fatos do Grupo 1 têm duas características bem claras: são inquestionáveis e imutáveis. A mãe do Joãozinho pode não gostar nem um pouco do fato dele ter andado de bicicleta ontem, mas ele andou, e acabou. Ela pode deixar ele de castigo, mas não pode mudar o fato. Já no Grupo 2, os fatos tem propriedades bem diferentes: estão sempre abertos à discussão e podem mudar.

Essa análise simples nos permite perceber uma propriedade importante dos fatos científicos: ao contrário dos fatos do cotidiano, eles nunca são verdades por si mesmos, mas dependem do que vai acontecer com eles nas mãos dos outros. Não existem “verdades absolutas”. Um fato é apenas alguma coisa que uma grande quantidade de pessoas da área aceita como verdadeira, e essas coisas são negociáveis, e mudam ao longo do tempo.

Isso é um pouco difícil de enxergar quando olhamos para fatos já bastante consolidados como a ancestralidade das espécies ou a heliocentricidade do sistema solar, mas fica fácil se olharmos para um fato que está em construção. Peguemos o exemplo do ovo. Comer ovo faz bem ou faz mal? Uma semana é “fato” que ovo aumenta o colesterol e faz um grande estrago no corpo, na outra, é “fato” que ele é um alimento muito rico que pode ser consumido sem restrições.

Na Ciência os fatos mudam porque eles não são nada por si mesmos, mas dependem da quantidade de pessoas que acreditam nele. Na medida em que os cientistas vão coletando mais e mais evidências para defender o seu ponto de vista, eles vão puxando o fato mais para o seu lado, mas isso não os torna mais verdadeiros, apenas mais aceitos. Uma nova descoberta ou uma nova estrutura conceitual (Revolução Científica) pode mudar a veracidade de muitos fatos. Assim, quando falamos de fatos cotidianos, estamos falando de acontecimentos, mas quando falamos de fatos científicos, estamos falando de pessoas e de suas “crenças”, por mais bem embasadas que essas “crenças” possam estar. Pessoas podem duvidar que o mundo tenha 6 bilhões de anos, mas ninguém pode duvidar que o Flamengo ganhou o campeonato.

Como conseqüência, temos que se um cientista faz uma pesquisa e propõe um novo fato que outro cientista não gostou, esse outro cientista pode contra argumentar, e, se vitorioso, mudar o fato. Isso abre margem para que interesses externos manipulem os fatos científicos. Fritjof Capra já dizia que boa parte dos fatos na área médica está permeada por interesses das indústrias farmacêuticas.

Essa negociabilidade dos fatos científicos pode parecer bem esquisita para quem é de fora, mas, em contrapartida, é uma das características que torna a Ciência tão interessante, e que fez pensadores como Kuhn e Popper fritarem os neurônios para tentar entender como se dão essas negociações e como os fatos são construídos e desconstruídos ao longo do tempo.

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Doutrina Monroe na Ciência

Os leitores desse blog devem saber bem que os cientistas são pessoas tão normais quanto qualquer outra. Eles não carregam nada de especial ou de sobrenatural; são apenas pessoas que têm um trabalho, que porventura é o de cientista. Assim como as pessoas normais, os cientistas têm interesses pessoais que eles muitas vezes colocam à frente dos interesses da coletividade, e esses interesses muitas vezes se deixam transparecer nas posições que eles assumem dentro da Ciência.

Mais do que isso, muitas vezes os cientistas tentam utilizar a própria Ciência para legitimar o seu ponto de vista pessoal sobre determinado assunto. Certa vez escrevi um texto que tangia essa questão ao falar de tempos não tão remotos assim em que a teoria da evolução de Darwin foi distorcida para “provar cientificamente” que os ricos são mais inteligentes que os pobres. “Doutrina Monroe na Ciência” é um texto sobre um outro grupo de cientistas tendenciosos que acham que a idéia de tornar a Ciência acessível a todos não é muito boa. Para eles, a Ciência deve ser deixada para os cientistas, os únicos capazes de entendê-la de verdade.

“América para os americanos”

O final do séc. XVIII e início do XIX foi um período bastante conturbado na América Latina, e em especial na América Central. Vários países que até então ainda eram colônias conquistaram a independência política de suas metrópoles européias, que desde o início do séc. XVI exploravam e extorquiam essas terras e esse povo.

Enquanto as ex-metrópoles européias calculavam o rentável saldo de 300 anos de exploração, uma emergente potência da América do Norte viu nessa situação uma possibilidade de se dar muito bem. A estratégia era simples, e deu muito certo. Ela consistia basicamente em se “fazer de bonzinho” e ficar do lado das ex-colônias, defendendo-as de possíveis re-colonizações européias. Seu elaborador, o então presidente dos Estados Unidos James Monroe, a divulgou numa mensagem mandada ao congresso dos EUA em 1823:

“Julgamos propícia esta ocasião para afirmar, como um princípio que afeta os direitos e interesses dos Estados Unidos, que os continentes americanos, em virtude da condição livre e independente que adquiriram e conservam, não podem mais ser considerados, no futuro, como suscetíveis de colonização por nenhuma potência européia”.

Por trás do discurso, uma mensagem clara: “Sai pra lá, Europa! Agora é nossa vez de colonizar!” Os países latino-americanos trocaram (sem muita escolha, na verdade) um colonizador por outro, por quem são explorados até hoje.

“Ciência para os cientistas”

Em 1995, Morris Shamos escreveu o livro “The Myth of Scientific Literacy”, em que defende que a idéia de que toda a população pode ser alfabetizada cientificamente é um mito. Segundo ele, a Ciência é difícil e complexa demais para que as pessoas comuns consigam entendê-la o suficiente para participar das discussões científicas que afligem a sociedade nos dias de hoje. Assim, questões como o aquecimento global, o uso de células tronco, a destruição de florestas, a extinção de espécies, a clonagem humana, etc., não devem ser discutidas pelas pessoas comuns, por que, afinal, são assuntos da Ciência, e os assuntos da Ciência são complicados demais para que as pessoas entendam o que está em jogo. O julgamento delas é inútil, já que elas não têm, e nunca terão, nem o conhecimento técnico nem as capacidades intelectuais que os cientistas têm.

Já que a “Ciência de verdade” é inatingível para a maioria das pessoas, o autor defende a idéia de que a educação das massas deveria conter não um ensino de Ciências, mas um “curso de apreciação da Ciência”, parecido com os cursos de apreciação musical que alguns colégios têm. O objetivo desses cursos seria a diversão e o entretenimento, uma vez que investir numa formação científica para a cidadania é perda de tempo. Ele diz que a educação científica como existe hoje é penosa e ineficaz para os estudantes, e que as coisas não precisam ser assim. Já que ninguém vai aprender nada mesmo, que pelo menos eles se divirtam. Já aqueles que têm “o dom para ser cientistas” deveriam receber uma educação tradicional, com aulas expositivas e práticas, como as que existem hoje em dia.

Os argumentos levantados pelo Sr. Shamos são altamente polêmicos e questionáveis (tenho certeza que o leitor deve ter encontrado vários furos), mas isso de forma alguma o torna  um maluco que escreveu um livro infeliz. Ele é apenas um dos muitos cientistas que defendem uma linha de pensamento elitista e reacionária que, obviamente, está pautada em escolhas e interesses políticos.

Se levarmos a cabo as idéias desses de cientistas, teremos um cenário em que um pequeno grupo de pessoas “abençoadas com o dom para serem cientistas”, que – olha só que coincidência! – são quase todas das classes mais ricas, discutem a Ciência e tomam decisões que vão atingir toda a sociedade, enquanto as pessoas mais pobres (que são a imensa maioria da população) são iludidas com uma Ciência lúdica, sensacionalista e falsa. Essa Ciência “divertida” seria um verdadeiro presente para as classes mais pobres, que não precisariam mais ser massacradas pelo árduo conhecimento científico que são obrigadas a engolir nas escolas.

James Monroe manteve a Europa longe da América Latina para que os EUA pudessem se banquetear nos recursos desses países pobres. Shamos e seus colegas gostariam de manter a Ciência autêntica longe do “povão” para que as classes mais ricas possam continuar se banqueteando nos recursos que uma população alienada tem para oferecer. Tudo isso é só uma resposta das amedrontadas elites aos movimentos progressistas na educação científica. A idéia de uma população letrada não interessa muito a eles.

“Julgamos propícia esta ocasião para afirmar, como um princípio que afeta os direitos e interesses das classes dominantes, que o conhecimento científico, em virtude das condições elitizadas que adquiriram e conservam, não podem mais ser considerados, no futuro, como suscetível de ser acessado por nenhuma pessoa de baixa renda”.

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Questão de acesso

Imaginem a cena: o ilustríssimo Dr. Roberto, renomado cientista na área de fisiologia osmorregulatória de caranguejos, passa 7 anos fazendo um grande estudo. Viaja a trabalho por diversos países, se enfiando nos mangues mais fedidos e barrentos para coletar esses crustáceos, depois os leva para o laboratório e faz exaustivos experimentos que resultam numa pilha de centenas de tabelas e gráficos que ele, com muita paciência, analisa e compara um a um. Depois de sistematizar seus dados, Dr. Roberto os compara com os da literatura, identifica semelhanças e diferenças entre os estudos e quebra a cabeça para tentar entender de forma integrada o fenômeno que está estudando. Depois disso tudo, ele, super empolgado, escreve um artigo para tornar público o seu estudo, seus questionamentos e suas conclusões.

O artigo do Dr. Roberto é publicado em alguma revista super específica sobre crustáceos que menos de 1% da população mundial sabe que existe. As únicas pessoas que vão se interessar em lê-lo são os outros cientistas que estudam osmorregulação em caranguejos, e olhe lá, por que se o grupo de caranguejos que o Dr. Roberto estuda for muito distante filogeneticamente do que o Dr. Luís estuda, talvez o Dr. Luís nem se dê ao trabalho de ler. Mas o Dr. Luís não é importante. O importante é que, a partir de agora, qualquer pessoa que quiser estudar osmorregulação naquele grupo de caranguejos vai poder contar com a contribuição do Dr. Roberto, certo?

É… Certo naquelas. Imaginem que alguns anos depois, um certo Dr. Silvio, que adora crustáceos, se interessa muito em estudar esse tema que causa tanto fascínio no Dr. Roberto. Mas a biblioteca que o Dr. Silvio tem acesso não assina a revista em que o artigo do Dr. Roberto foi publicado. Quando ele tenta acessar o trabalho pela internet, ele se depara com um aviso assim:

artigo 34 dolares

“Poxa, como assim? Trinta e quatro dólares para ler UM artigo? Mas nem que a vaca tussa! O Dr. Roberto que me perdoe, mas ele não estará entre as referências do meu trabalho!”, pensa o Dr. Silvio. Ele continua fazendo o levantamento bibliográfico para sua pesquisa e lê o resumo de um artigo que parece ser muito bom, mas quando vai fazer o download, um pop-up se abre:

want the full article

“Catorze dólares? You gotta be kidding me, man!” Dr. Silvio vai à loucura! Todo site que ele entra, tem que pagar pra acessar os artigos. Ele se revolta e dá um soco no computador. Indignado, ele desiste de estudar osmorregulação de crustáceos e opta por pesquisar outra coisa, hábitos alimentares, por exemplo. Mal sabe ele que seu computador ainda vai levar muitos outros socos.

O conhecimento científico é construído coletivamente. Se Darwin não tivesse lido Malthus, Lyel, Lamarck, Chambers, entre tantos outros, ele jamais teria sido capaz de formular sua teoria de seleção natural. Se Marx não tivesse lido Hegel, Adam Smith, David Ricardo, Feuerbach, entre tantos outros, jamais teria feito uma análise tão aprofundada da sociedade capitalista. Imaginem se Darwin fosse pobre (não era o caso…) e tivesse que pagar 34 dólares para ler o trabalho do Malthus? Não ia rolar! E se Einstein estivesse na miséria e tivesse que pagar 14 pra ler Newton? No way, man!!

Essa questão sobre o acesso a trabalhos científicos é muito complicada. Por um lado, se ninguém ler o trabalho do Dr. Roberto, é praticamente a mesma coisa do que se ele nunca tivesse ralado por 7 anos para escrevê-lo. O salário do Dr. Roberto não varia de acordo com o número de pessoas que lêem o trabalho dele. Se alguém pagar 34 dólares para comprá-lo, toda essa grana vai para a editora e ele nem fica sabendo. A única coisa que o Dr. Roberto ganha é uma citação em algum trabalho. Não é vantagem nenhuma para ele que as pessoas tenham que pagar para ler o seu artigo; na verdade, pra ele (e pra Ciência!) seria bom que todo mundo que quisesse ler tivesse acesso livre.

Mas, por outro lado, revista científica não é tudo igual. Se o trabalho do Dr. Roberto sair publicado na Nature, você nem precisa ler pra saber que é bom. Se sair na Revista Sul-Alagoana de Crustáceos Bonitos, é melhor ler com cuidado. Uma revista tem toda uma equipe de avaliadores e pareceristas que seleciona quais trabalhos merecem ser publicados naquela revista e quais não merecem. As revistas têm qualificadores e índices de impacto, e isso é absolutamente importante para manter a ordem no empreendimento científico. As revistas precisam pagar seus funcionários. Ao contrário de Superinteressantes e afins, a maioria delas não pode contar com uma grande quantidade de exemplares vendidos, por que o público alvo é muito restrito – quem no mundo assinaria uma revista chamada “Acoustical Physics”, por exemplo?

Assim, um paradoxo se estabelece. Impedir alguém de ter acesso a artigos científicos é contra a própria natureza coletiva da Ciência (lembrem-se do Darwin), mas as revistas fazem um trabalho muito importante e têm que receber dinheiro de alguma forma. Cobrar dos leitores talvez não seja a melhor forma (coitado do Dr. Silvio!). Um artigo curto (2-3 páginas) cita pelo menos outros 15-20 artigos, e se cada um custar 34 dólares, wow, eu quero ser dono de uma revista! Mas, então, o que fazer? Se alguém aí tiver alguma idéia, por favor, me diga, porque eu não agüento mais ver números e cifrões ao invés de letras e gráficos nos artigos que eu quero ler!

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Sobre mitocôndrias, esfingomielina e estípulas interpeciolares

Estava lendo um livro esses dias que dizia que, na cidade de São Paulo, as aulas de Biologia do Ensino Médio têm uma média de seis termos novos definidos por aula. Se fizermos as contas considerando que em geral as escolas têm três aulas de Biologia por semana, veremos que o número de termos novos “aprendidos” pelos alunos é de cerca de 600 por ano. Não sei, mas acho que se eu soubesse falar 600 palavras em russo talvez eu fosse capaz de me comunicar rudimentarmente com alguns russos (os dispostos a fazer um esforço pra me entender), mas os alunos do Ensino Médio que decoram 600 termos biológicos por ano não são capazes de entender os princípios elementares da Biologia.

Os intermináveis termos técnicos sempre foram objeto de muitas reclamações de alunos em relação à Biologia, que acaba sendo vista como uma matéria “decoreba”, uma lista enorme de nomes difíceis e pomposos que devem ser memorizados e colocados nas provas. As relações entre esses nomes – e muitas vezes até seus significados – são vistas como algo secundário, quase desimportante. Na aula de Botânica, é muito importante saber que as plantas são autótrofas, o que quer que seja isso. Na de Ecologia, não se pode esquecer que as plantas têm o papel de produtores nas cadeias alimentares. A relação entre ser autótrofo e ser produtor, que é o mais importante da história, acaba se perdendo no meio dos termos, ficando em segundo plano.

Nessa situação, há dois grandes problemas. O primeiro deles é a priorização (tanto por parte dos alunos quanto dos professores) da memorização dos nomes em detrimento do entendimento dos processos: mitose não é o processo pelo qual uma célula se divide em duas; mitose é “interfase + prófase + metáfase + anáfase + telófase”. A importância de compreender que as células têm um ciclo e que os tecidos dos seres vivos estão constantemente renovando suas células dá lugar à lembrança de “picuinhas”, como a de que a telófase dos animais tem citocinece centrípeta e a das plantas tem citocinece centrífuga. Já vi muitos alunos que eram capazes de explicar todas as fases da mitose com todos os nomes difíceis, mas que pensavam que cada célula “escolhia” uma fase e ficava nela o tempo todo.

O outro grande problema é que os termos complicados dificultam a vida dos corajosos alunos que querem entender os processos, desestimulando-os. Semana passada um aluno, que estava tendo dificuldades com um texto sobre vírus, me chamou para perguntar o que era “endoparasita obrigatório”. Depois que eu expliquei do que se tratava, todo o resto das coisas que ele tinha lido no texto fez muito mais sentido, e ele me disse: “Ahhh… Então por que o cara escreve assim, tão difícil? Parece que ele faz isso de propósito, só pra ninguém entender o que ele fala.” Eu disse a ele que não era bem assim, mas não consegui me articular muito bem para explicar a importância desses termos para a Ciência. Acho que até então eu nunca tinha parado pra pensar nisso.

Porque será que os detentores do conhecimento científico se orgulham tanto de sua terminologia difícil e acham tão importante que ela seja entendida por todos que queriam aprender Ciência? Porque falar que “a membrana celular tem composição lipoproteica e disposição em mosaico-fluido” ao invés de “a película que reveste e delimita a célula é formada por lipídeos e proteínas que se arranjam de tal forma que eles nunca ficam parados no mesmo lugar”?

É estranho, mas a primeira frase, mesmo muito mais curta, parece dizer muito mais do que a segunda. Mas isso, claro, só para quem compreende o que é uma membrana celular e qual é a sua dinâmica. Os termos técnicos da Biologia são sim um código, mas um código de compactação e não um código criptográfico. A intenção não é esconder o significado real das palavras, mas sim agregar vários conceitos em uma única palavra. Assim, “lisossomo” não é só uma forma chique de dizer “bolsa cheia de enzimas que digerem as partículas que entram na célula”, mas uma forma de sintetizar uma ampla gama de conceitos e processos de uma forma que todos os que forem estudar Biologia Celular entendam da mesma maneira. Um lisossomo no Brasil é o mesmo que um lisossomo nos Estados Unidos, na Botsuana, ou em qualquer outro lugar do mundo. Isso é muito importante, pois, dessa forma, um cientista da Armênia pode ler um artigo de um cientista de Laos e ter certeza de que ele está falando daquele lisossomo– até mesmo porque não existe outro.

Mas e os estudantes, como ficam nessa história? Eles não são cientistas, e muitos deles não almejam ser. Vemos de forma muito negativa o fato de eles enxergarem a Ciência como algo inatingível, mas quando eles se interessam em aprender Ciência, se deparam com textos que são incapazes de entender. É totalmente compreensível que os alunos pensem que esses textos não foram feitos para eles e que achem que decorar as palavras esquisitas é a forma mais adequada de aprender Ciência.

A Biologia escolar não deve abolir os termos. “Sintetizar” não é o mesmo que “produzir” e “população” não é o mesmo que “bocado de indivíduos”. Tornar esses termos sinônimos não é o caminho para tornar a Biologia uma matéria mais interessante nas escolas. Isso na verdade só iria piorar as coisas, pois distanciaria os alunos ainda mais da Ciência. A mudança que precisa acontecer é exatamente o oposto disso. Deve haver uma aproximação dos alunos à Ciência, mas uma aproximação verdadeira. Eles devem entender como a Ciência é produzida e como ela funciona, sem misticismos, sem ilusões. A Biologia escolar tem conteúdo demais e aprendizagem de menos. Se os alunos entendessem como o conhecimento biológico é construído, eles entenderiam, entre muitas outras coisas, a origem e a importância dos termos, e a aprendizagem não ficaria reduzida à memorização de nomes e processos. A quantidade de informações advindas do campo da Biologia é enorme e não tem como ensinar tudo para os alunos. No entanto, tem como ensinar a eles como a Ciência funciona pegando o conhecimento biológico como pano de fundo. O mesmo poderia acontecer nas aulas de Física e Química.

Entendendo como a Ciência é construída, os alunos poderiam fazer suas próprias pesquisas ao invés de ficar em suas carteiras esperando o produto acabado da Ciência cair em seus colos de forma descontextualizada. Para isso, seria preciso repensar todo o ensino de Ciências. Todavia, a necessidade de reavaliar as práticas educacionais não é novidade pra ninguém. O ensino vai muito mal e não é só no Brasil. É necessário relembrar uma coisa óbvia: o mais importante numa aula de Ciências é aprender Ciências! Como a quantidade de informação científica é gigantesca e só tende a aumentar, seria muito mais negócio focalizar a construção do conhecimento científico para formar alunos que conheçam a base de cada campo da Ciência e saibam aplicar esse conhecimento do que insistir num ensino enciclopédico que as últimas décadas deixaram bem claro que não funciona.

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Credo de um cientista de hoje (por Julian Huxley)

Creio que a vida pode ser digna de ser vivida. Acredito nisto, a despeito da dor, da miséria, da crueldade, da infelicidade e da morte. Não creio que seja necessariamente digna de ser vivida somente para que a maior parte das pessoas possa sê-la.

Também creio que o homem, como indivíduo, como grupo, e coletivamente como humanidade, pode realizar um propósito satisfatório na existência. Creio isto a despeito do mau êxito, da ausência de finalidade, da frivolidade, do tédio, da preguiça e do fracasso. Ainda, não creio que haja inevitavelmente um fim inerente ao universo ou à nossa existência, ou que a humanidade tenda a alcançar um propósito satisfatório, mas somente que tal propósito possa ser encontrado.

Creio que existe uma escala ou hierarquia de valores, que vai desde o simples conforto físico, até as mais altas satisfações do amor, do gozo estético, do intelecto, da realização criadora, da virtude. Não creio que estes sejam absolutos – ou transcendentais no sentido de serem concedidos por algum poder externo ou divindade – constituem o rótulo da natureza humana que interatua com o mundo exterior. Nem suponho tão pouco que possamos graduar todas as experiências valiosas em uma ordem aceita, assim como não posso dizer se uma abelha é um organismo mais elevado do que uma lula ou um arenque. Mas assim como se pode afirmar, sem hesitação, que há graus gerais de organização biológica, e que uma abelha é um organismo mais elevado do que uma esponja, ou um ser humano mais do que uma rã, assim também posso afirmar, com o consenso geral dos seres humanos civilizados, que há um valor mais alto na Divina Comédia do que num hino popular, na atividade científica de Newton ou Darwin do que em resolver um problema de palavras cruzadas, na plenitude do amor do que na satisfação sexual, no desprendimento do que nas atividades puramente egoísticas – embora cada um e todos possam ter certa espécie de valor.

Não creio que haja um absoluto de verdade, beleza, moral ou virtude, seja emanado de um poder externo ou imposto por uma norma interna. Mas isto não me leva à conclusão curiosa, em moda em certos setores, de que a verdade, a beleza e a bondade não existem, ou que nelas não haja força nem valor.

Creio que há algumas perguntas que não vale a pena formular, porque jamais poderão ser respondidas. Nada a não ser desperdício, preocupação ou infelicidade resulta quando se trata de resolver problemas insolúveis. Porém, certas pessoas parecem determinadas a experimentar. Recordo a história do filósofo e do teólogo. Os dois estavam empenhados em uma discussão e o teólogo lançou mão do velho dito em que um filósofo se assemelha a um homem cego, num quarto escuro, procurando um gato preto que não estava ali. “Pode ser”, disse o filósofo, “mas um teólogo o teria achado”.

Mesmo em questões de ciência, devemos aprender a formular as perguntas devidamente. Parecia evidente perguntar como os animais herdam o resultado da experiência dos pais, e gastou-se um tempo enorme e muita energia na tentativa de obter uma resposta. Mas não adianta fazer a pergunta, pela simples razão de que não existe tal herança de caracteres adquiridos. Os químicos do Século XVIII, porque faziam a si próprios a pergunta: “Que substância se acha envolvida no processo da combustão?” viram-se envolvidos na confusão da teoria do flogisto; deveriam perguntar: “Que espécie de processo é a combustão?” antes de ver que não atuava nela uma substância especial, mas era simplesmente um caso particular de combinação química.

Quando chegamos ao que usualmente se denomina o fundamental, aumenta muito a dificuldade de não fazermos a pergunta indevida. Entre a maioria das tribos africanas, se uma pessoa morre, a única pergunta que se faz é: “”Quem causou sua morte, e por qual forma de magia?”. A idéia de morte pelas causas naturais lhes é desconhecida. Realmente a vida da metade menos civilizada da humanidade se baseia largamente na tentativa de achar uma resposta a uma pergunta errada. “Que forças ou poderes mágicos são responsáveis pela boa ou má sorte, e como eles podem ser iludidos ou propiciados?”

Não creio na existência de um deus ou de deuses. O conceito de divindade parece-me ser, embora construído sobre uma quantidade de elementos reais da experiência, um conceito falso, baseado no postulado inteiramente injustificável de que deve haver algum poder mais ou menos pessoal no controle do mundo. Defrontamo-nos com forças alheias ao nosso domínio, com desastres incompreensíveis, com a morte; e também com o êxtase, com o sentido místico da união com algo maior que o nosso próprio eu, com a conversão súbita para um novo caminho de vida, com a aflição da culpa e do pecado, e com as maneiras pelas quais todas essas aflições podem ser exaltadas. Nas religiões teístas todos esses elementos de experiência atual foram entrelaçados num corpo unificado de crença e prática em relação ao postulado fundamental da existência de um deus ou de deuses.

Creio que esse postulado fundamental é nada mais do que o resultado da formulação de uma pergunta falsa: “Quem ou o que rege o universo?” Até onde podemos observar, ele se rege a si próprio, e na verdade qualquer analogia com um país e seu governante é falsa. Mesmo que um deus exista atrás ou acima do universo conforme o experimentamos, não podemos ter nenhum conhecimento de tal poder: os deuses atuais das religiões históricas são apenas as personificações de fatos impessoais da natureza e de fatos de nossa vida mental interior. Embora possamos responder à pergunta: “O que são os deuses das religiões?” só o podemos fazer dissecando-os em seus componentes e mostrando que sua divindade é apenas um invento da imaginação, da emoção e da racionalização humanas. A pergunta: “Qual é a natureza de Deus?” não podemos responder desde que não temos meios de conhecer se existe ou não tal ser.

O mesmo acontece com a imortalidade. Com as nossas faculdades atuais não possuímos meios para dar uma resposta categórica à pergunta se sobrevivemos à morte, e muito menos à pergunta de que seria tal vida depois da morte. Sendo assim, é uma perda de tempo e energia dedicarmo-nos ao problema de conseguir a salvação na vida por vir. Contudo, assim como a idéia de Deus é construída sobre as pedras da experiência real, assim também a idéia de salvação. Se traduzirmos salvação em termos deste mundo, vemos que ela significa realização harmônica entre as diversas partes de nossa natureza, incluindo suas profundezas subconscientes e suas elevações raramente tocadas, e também realizando alguma relação satisfatória de ajustamento entre nós próprios e o mundo externo, incluindo não somente o mundo da natureza, mas o mundo social do homem. Creio que é possível “conseguir a salvação” nesse sentido, e que está bem tratar de consegui-la, assim como creio que é possível e valioso realizar um sentido de união com algo mais elevado do que nós próprios, mesmo que esse algo não seja um deus, mas uma extensão de nossos corações estreitos para que apreenda de uma só vez experiências de natureza externa e interna que não alcançamos comumente.

Mas se Deus e a imortalidade são repudiados, o que resta? Tal é a pergunta usualmente atirada ao ateu. O crente ortodoxo compraz-se em pensar que nada fica. Isso, contudo, é porque se acostumou a pensar somente em termos de sua ortodoxia.

Na realidade fica muita coisa.

Isto é imediatamente óbvio pelo fato de que muitos homens e mulheres levaram vidas ativas, sacrificadas ou nobres, ou vidas devotadas sem qualquer crença em Deus ou na imortalidade. O budismo, na sua forma incorrupta, não tem tal crença, nem o tiveram os grandes agnósticos do século XIX, nem os comunistas russos ortodoxos, nem os estóicos. Naturalmente, os descrentes muitas vezes se tornaram culpados por ações egoístas ou más, mas os crentes também. E, de qualquer modo, isto não constitui ponto fundamental. O ponto é que sem essas crenças, homens e mulheres podem ter uma existência plena e cheia de propósito, e uma sensação de que a existência pode ser digna de ser vivida, tão poderosa quanto é possível aos crentes mais devotos.

Devo dizer que isso é muito mais fácil hoje em dia do que em qualquer época anterior. A razão se encontra nos progressos da ciência.

Não somos mais obrigados a aceitar as catástrofes externas e as misérias da existência como inevitáveis ou misteriosas; não somos mais obrigados a viver em um mundo sem história, onde a mudança não tem sentido algum. Nossos antepassados consideravam a epidemia como um ato de punição divina; para nós é um desafio a ser vencido, porque conhecemos suas causas e sabemos que pode ser dominada ou prevenida. A compreensão da moléstia infecciosa se deve, inteiramente, ao progresso científico. Também o é, para citar um fato recente, o nosso conhecimento da base da nutrição, que encerra novas possibilidades de saúde e energia para a raça humana. Também o é nossa compreensão dos terremotos e das tempestades; se não os podemos dominar, pelo menos não os receamos como prova da ira de Deus.

Pelo menos algumas de nossas misérias íntimas podem ser eliminadas do mesmo modo. Por meio do conhecimento derivado da psicologia podemos evitar que as crianças cresçam com um sentimento anormal de crime, tornando a vida um peso tanto para elas próprias como para aqueles com quem entram em contato. Estamos começando a compreender as raízes psicológicas do medo irracional e da crueldade irracional: um dia seremos capazes de tornar o mundo um lugar mais agradável, evitando seu aparecimento.

Os antigos não possuíam história digna de ser mencionada. A existência humana no presente era considerada como uma degradação daquela Idade de Outro original. Até o século XIX o conhecimento da história humana era considerado pelas nações do Ocidente como uma série de episódios sem sentido, comprimidos no breve espaço entre a Criação e a Queda, alguns milhares de anos atrás, e a Segunda Vinda e o Juízo Final, que poderiam cair sobre nós a qualquer momento, e em qualquer caso não poderiam ser afastados por mais de alguns milhares de anos no futuro. Nessa perspectiva um milênio era quase uma eternidade. De acordo com esse ponto de vista não estranha que a vida parecesse para a grande massa da humanidade “má, brutal e curta”, suas misérias e faltas simplesmente surpreendentes a não ser que as iluminasse à luz ilusória da religião.

Hoje a história humana se funda na pré-história e a pré-história por sua vez na evolução biológica. Nossa escala de tempo está profundamente alterada. Um milhar de anos é um tempo curto para a pré-história, que pensa em termos de centenas de milhares de anos, e um tempo insignificante para a evolução, a qual lida com períodos de dez milhões de anos. O futuro se estende igualmente como o passado: se levou milhões de anos para a vida primitiva gerar o homem, o homem e seus descendentes possuem pelo menos igual lapso de tempo diante de si.

O mais importante é que a nova história possui uma base de esperança. A evolução biológica foi terrivelmente vagarosa e terrivelmente dissipadora. Foi cruel, gerou os parasitas e as pestes assim como os tipos mais agradáveis. Levou a vida para inúmeros becos sem saída. Mas, a despeito disso, realizou progresso. Em certos setores; cujo número diminuiu firmemente com o tempo, evitou o beco sem saída da mera especialização, mais harmonioso e mais eficiente, do qual poderia novamente atirar-se para um maior domínio, maior conhecimento e maior independência. O progresso é, caso o queiram, a especialização total. Finalmente, apenas uma linha foi deixada que pudesse realizar um progresso ulterior: todas as outras haviam levado a becos sem saída. Essa linha foi a que conduzia à evolução do cérebro humano.

Isto, de um salto, alterou a perspectiva da evolução. A experiência agora podia ser transmitida de geração a geração; o propósito deliberado podia substituir a tentativa cega da seleção, a mutação podia ser realizada com uma rapidez mil vezes maior. No homem a evolução podia tornar-se consciente. Admitamos que ainda esteja longe de ser consciente, mas existe possibilidade, e foi pelo menos conscientemente encarada.

Vista sob esta perspectiva, a história humana não representa senão a mais mesquinha porção do tempo que o homem tem diante de si. Trata-se tão só dos primeiros passos incertos e trôpegos do novo tipo, que nasceu herdeiro de tanta história biológica. Vêem-se em toda a sua inutilidade as tentativas para uma filosofia geral da vida como se alguém, cujo conhecimento da espécie humana se limitasse a uma criança de um ano, tentasse fazer uma relação geral da alma e do espírito humanos. Os constantes retrocessos, a falta de adiantamento em certos aspectos durante cerca de dois mil anos, são considerados como fenômenos tão naturais como os tombos de uma criança que está aprendendo a andar ou o desvio da atenção de um menino sensível pela necessidade de ganhar a vida.

Os grandes fatos permanecem. A vida progrediu mesmo antes da primeira evolução do homem. A vida progrediu mais pela evolução do homem. O homem progrediu durante meio milhão – ou quase este tanto – de anos desde a primeira Hominidae , mesmo durante os dez mil anos após a melhora final do clima, depois da Idade Glacial. E as potencialidades de progresso que são reveladas, uma vez que seus olhos se abriram para o panorama evolucionista, são ilimitadas.

Afinal temos uma teoria otimista ao invés de pessimista deste mundo e de nossa vida nele. Admitimos que o otimismo não pode ser fácil, e deve ser temperado pela reflexão acerca da extensão do tempo que requer a dura tarefa que será necessária, e do inevitável resíduo de acidentes e desgraças que ficará. Talvez fizemos melhor em chamá-lo de critério melhorado antes de otimista, mas pelo menos prega a esperança e inspira a ação.

Creio muito decididamente que, entre as personalidades humanas, é que existem as mais elevadas e as mais valiosas realizações do universo – ou pelo menos as mais elevadas e mais valiosas realizações das quais temos ou, aparentemente, podemos ter conhecimento. Isso significa que eu creio que o Estado existe para o desenvolvimento do indivíduo e não os indivíduos para o desenvolvimento do Estado.

Mas também creio que o indivíduo não seja algo isolado, separado. Um indivíduo é um transformador da matéria e da experiência, é um sistema de relações entre sua própria base e o universo, incluindo outros indivíduos. Um indivíduo pode crer que deveria dedicar-se inteiramente a uma causa, mesmo sacrificando-se por ela: seu país, a verdade, a arte, o amor. É na dedicação ou no sacrifício que ele se torna mais ele próprio, e é por causa da dedicação ou do sacrifício dos indivíduos que as causas se tornam valiosas. Mas está claro que o indivíduo deve subordinar-se à comunidade de muitos modos; somente não até o ponto de crer que na comunidade reside qualquer virtude mais alta que a dos indivíduos que a compõem.

A comunidade provê o maquinismo para a existência e desenvolvimento dos indivíduos. Existem aqueles que negam a importância do maquinismo social, que asseguram que a única coisa importante é a mudança na maneira de sentir, e que o maquinismo adequado é apenas uma conseqüência natural da atitude interior correta. Isto me parece simples solipsismo.  As diferentes espécies de maquinismo social predispõem a diferentes atitudes internas. O maquinismo mais admirável é inútil se não mudar a vida interior; mas sim o maquinismo social para tornar a guerra mais difícil, para promover a saúde, para acrescentar interesse à vida. Não desprezamos a máquina em nosso zelo pela plenitude da vida, assim como não haveremos de sonhar que o maquinismo poderá jamais produzir, automaticamente, a perfeição da vida.

Creio na diversidade. Todo biólogo sabe que os seres humanos diferem nas suas conformações hereditárias, e, por conseguinte, nas possibilidades de realização. A psicologia nos mostra quão diferentes são os tipos que se esbarram nas ruas do mundo. Soma nenhuma de persuasão ou educação pode fazer com que o extrovertido compreenda realmente o introvertido, o verbalista compreenda o amante do serviço mecânico, o não matemático ou não musicista compreenda a paixão do matemático ou do músico. Podemos experimentar proibir certas atitudes do espírito. Poderíamos teoricamente extirpar grande parte da variedade humana. Mas isso seria um sacrifício. A diversidade não é somente o sabor da vida, mas a base da realização coletiva. E o complemento da diversidade é a tolerância e a compreensão. Isto não significa avaliar por igual todos os valores. Devemos proteger a sociedade contra os criminosos; devemos lutar contra o que julgamos errado. Mas assim como no trato do criminoso em que devemos experimentar reformá-lo antes de simplesmente castigá-lo, também devemos experimentar compreender porque julgamos erradas as ações dos outros, o que implica experimentar compreender o funcionamento de nossa própria mente e dar desconto aos nossos próprios preconceitos.

Finalmente, creio que jamais poderemos reduzir nossos princípios a uns poucos termos simples. A existência é demasiadamente variada e complicada. Devemos completar os princípios com a fé. E a única fé que é a um tempo concreta e compreensiva é a fé na vida, na sua abundância e no seu progresso. Finalmente creio na vida.

Tradução de P. H. Saldanha

Julian Sorell Huxley (1887-1975) foi um biólogo, escritor, humanista e divulgador científico britânico. Irmão do escritor Aldous Huxley que escreveu o livro Admirável Mundo Novo, e neto do biólogo Thomas Henry Huxley, colega e defensor das idéias de Charles Darwin. Foi também o primeiro diretor geral da UNESCO e fundador do WWF.

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A astrologia por uma cientista

Garotas na adolescência costumam ser atraídas pelas revistas de previsão astrológica. Eu as lia nas férias, especialmente aquelas que apontavam qual signo combinava com qual. Mas, um tanto científica desde então, decidi colocar aquilo tudo à prova pensando “vou namorar um menino de cada signo para ver se é verdade”.

Neste meio tempo resolvi estudar Astrologia seriamente. Respondi à professora logo na primeira aula que eu estava ali para me entender melhor e tentar entender os outros. Ela se apaixonou pelo argumento e, não fosse também psicóloga, além de taurina com a lua em escorpião, talvez a combinação não tivesse sido tão perfeita para eu entender a astrologia como uma ferramenta de análise Junguiana.

Mas eis o primeiro ponto – o astrologuês. Astrólogos de formação e bom senso sabem que, assim como um geneticista não espera que as pessoas conversem com ele sobre a tecnologia de microarrays ou RNA de interferência em seu dia a dia, não é possível esperar que as pessoas saibam o que significa lua em escorpião, marte em sagitário, vênus em capricórnio e assim por diante. Sabem também que horóscopo de jornal, site ou revista alguma é algo além de um conselho generalizado que se pode dar a qualquer pessoa, de qualquer signo. Aqui cabe o parêntesis engraçado de um amigo que nunca sequer estudou astrologia, mas trabalhou num jornal – ele recortava os conselhos dos signos de um dia, embaralhava, e os colocava em outros signos nos dias seguintes.

Por outro lado, ler um mapa astral é de uma complexidade tal que não infreqüente os astrólogos se perdem no antagonismo dos aspectos. É necessário considerar as posições e os significados das constelações, das casas, dos planetas e das relações entre eles. Analisar mapas de relacionamentos entre pessoas então, é exponencializar a complexidade de tal forma que dói nos ouvidos de um astrólogo que tenta fazer o melhor possível, ouvir as pessoas reduzirem a astrologia a um mero aspecto solar – o signo – e achar que sabem tudo a respeito de alguém, estigmatizando a pessoa por ser do mesmo signo de outra já conhecida. Isto fere completamente os princípios da Astrologia, pois como conclui, com um engenheiro astrólogo, a astrologia, assim como a genética, revela um conjunto de potencialidades das pessoas que podem ou não se manifestar. Estas potencialidades estão sujeitas ao ambiente e livre arbítrio de cada um, o que muda é a ferramenta (mapa genético ou astral) de observar estas potencialidades.

A astrologia é muito mais antiga que a genética, fruto de uma época em que Ciência e Misticismo eram quase a mesma coisa. Tem base na astronomia por se pautar nas efemérides para cálculos de posições de estrelas e planetas. Mas apesar disto, não é científica. Já a genética segue todo o rigor do Método. E nem por isso alguma delas é capaz de dizer quem exatamente seremos amanhã!

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Deus e o Diabo na terra da ciência.

Existia um debate polêmica em história da ciência sobre a forma de se estudar o passado. Os primeiros historiadores, comprometidos com o projeto positivista, não demoraram a fazer da ciência uma narração de conquistas e vitórias quase heroicas.

A história da ciência era narrada como uma sucessão de fatos que se seguiam gradativamente até chegar a um ponto de excelência e modernidade. E para cada passo, alguns homens eram definidos como os grandes bastiões do desenvolvimento científico. O problema com esse tipo de narração é que, com frequência, ela esta errada.

Sabemos que a ciência se desenvolve em caminhos tortuosos, as vezes damos passos para trás, as vezes abandonamos teorias que estavam bem estabelecidas a bastante tempo e por aí vai. A ciência moderna não é a uma coleção de sucessivos acertos, ou mesmo um empreendimento de grandes glórias.

Mas há algo nessa narrativa que a faz persistir, não mais na história da ciência, aonde essa discussão já foi superada a uns 80 anos, mas na divulgação científica. A questão é que “desenhar” um caminho indubitavelmente progressivo e de grandes realizações é extremamente sedutor. E isso aplicado à divulgação científica resulta na conquista praticamente sem esforço da atenção do leitor.

O problema é ganhar a atenção do leitor em troco de uma divulgação equivocada. Grande parte dos problemas do entendimento público da ciência estão, de certa forma, relacionados com a maneira como a ciência é “vendida”. A noção de progresso e modernidade as vezes são rapidamente incorporadas pelos textos científicos, e não me refiro aqui apenas aos textos de divulgação, mas também os textos escolares, e acabam por dar sequência à mazela positivista.

Não faltam exemplos neste sentido. A maçã de Newton, o experimento de Galileu na Torre de Pisa, os tentilhões que provocaram o grande insight de Darwin, só pra citar as mais comuns. Sabemos que todas elas possuem o seu bocado de verdade, mas sobram exageros.

É verdade que Darwin teve ajuda da observação dos mais variados tipos de tentilhões nas Galapagos. Mas também contou com seu histórico familiar no que diz respeito à evolução, e sofreu influência das obras de Charles Lyell e Thomas Malthus. Da mesma forma que Galileu provavelmente fez experimentos com a queda dos corpos, mas não há nada que nos leve a crer que tais experimentos foram feitos na Torre de Pisa. E Newton, até aonde se sabe, apenas se perguntou se a força que faz as maçãs caírem, também afeta os planetas.

Argumenta-se que é preciso conquistar o leitor de ciência, se possível, inspirar o leitor de ciência. Não discordo do argumento. Mas é preciso tomar cuidado. As vezes, na tentativa de agradar, transformamos a ciência em uma aventura empolgante, quando na maior parte do tempo não há nada de exatamente fantástico no trabalho científico. Sem tomar o devido cuidado, “vendemos Deus e entregamos o Diabo”.

É claro que a beleza esta nos olhos de quem vê. Há algo de belo e poético na simples ideia de se investigar o mundo que nos cerca. E sendo este o objetivo da ciência, não é preciso criar pirotecnias ou contos de fadas a respeito da atividade. A ciência é ontologicamente bonita.

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