A brincadeira do telefone-sem-fio consiste em formar uma fila de pessoas, que transmitem umas às outras uma frase originalmente criada pela pessoa de uma das extremidades, até chegar no último da fila. A graça do jogo está no fato de que quase nunca a frase recebida pela outra extremidade será idêntica à original, e isto se deve, obviamente, a pequenas mudanças cumulativas transmitidas a cada pessoa da fila.
Assim acontece com todos os tipos de informações transmitidas em uma cadeia de componentes, se cada intermediário não for comparado ao original. É por esta razão que a divulgação científica deve ser meticulosa e sempre fornecer dados mais próximos aos originais, já que o seu público-alvo, em geral, não terá interesse ou acesso às informações a partir das quais a notícia foi gerada.
Recentemente foi publicado um artigo na célebre revista científica Nature, cujo título pode ser traduzido para “Análise genômica do ornitorrinco revela características evolutivas singulares”. Como o nome indica, o trabalho, assinado por cerca de cem cientistas, apresenta um estudo pormenorizado da constituição genética de um ornitorrinco. O estudo é interessante, porque analisa o DNA de um animal sempre considerado esquisito e compara-o a outras linhagens de vertebrados para inferir algo sobre sua história evolutiva – verificar se eles são mais semelhantes aos outros mamíferos ou aos répteis, por exemplo.
Apesar de ter um bico semelhante ao de um pato, de colocar ovos e de possuir veneno em uma estrutura parecida como uma espora, o ornitorrinco é incluído pelos sistematas no grupo dos mamíferos monotremados, considerados irmãos do grupo que contém os marsupiais (cangurus, gambás) e os eutérios (mamíferos mais populares, incluindo os primatas). Entretanto, é importante lembrar que, tanto os monotremados, quanto os demais mamíferos originaram-se a partir de um ancestral compartilhado também com os répteis (e aves).
Agora vejamos o que foi divulgado (de ruim) na mídia eletrônica a respeito do artigo. A manchete no portal Terra (recebido a partir da AFP – Agence France-Presse), era: “Ornitorrinco é confirmado como ave, réptil e mamífero”. No portal G1 da Globo saiu: “Genoma do ornitorrinco é mistura inusitada de réptil, ave e mamífero”.
O primeiro texto chega a ser engraçado, porque dá, a todo instante, a impressão de que o ornitorrinco é um tipo de híbrido inclassificável e que, pior, isto é claramente verificável em seu código genético. Logo na introdução lê-se que “Estudos sobre o genoma do ornitorrinco (…), apontaram que o animal é, ao mesmo tempo, um réptil, um pássaro e um mamífero, segundo relatório publicado pela revista Nature”. Como já vimos, isso é um absurdo! O ornitorrinco não é uma mistura de réptil, pássaro e mamífero – o ornitorrinco é um mamífero! Prontamente nota-se que o autor do texto não sabe nada sobre mamíferos e tampouco leu o artigo original, o qual esclarece, já na introdução, a posição real do ornitorrinco no Reino Animal. Provavelmente a notícia é produto de um telefone-sem-fio muito do sem-vergonha.
Já a segunda notícia é um pouco melhor esclarecida, apesar de transmitir a idéia não totalmente errônea de que o genoma do ornitorrinco é um retalho de pedaços de origens diversas. Acontece que qualquer mamífero possui, em seu DNA, trechos comuns a outros mamíferos e até a outros animais completamente diferentes como, por exemplo, às estrelas-do-mar. Esses genes são considerados “conservados” para os animais que os possuem e revelam uma provável relação de parentesco evolutivo entre eles. Por isso é que se diz que entre o ornitorrinco e os outros mamíferos há cerca de 80% de DNA compartilhado e entre chimpanzés e humanos, por exemplo, mais de 95% de DNA compartilhado. Quanto maior for a porcentagem de DNA compartilhado, maiores as chances de as duas espécies (ou, quando for o caso, os indivíduos) compartilharem também um ancestral evolutivo recente. Assim, a manchete dá a entender, novamente, que o ornitorrinco é um híbrido genético de répteis, pássaros e aves – mas se isso for verdadeiro, então também o é para todos os mamíferos, já que compartilhamos um ancestral recente com os reptilianos (e aves)!
Mais curioso do que essas interpretações limitadas dos resultados publicados é o fato de que quase não há informação prática nos artigos de divulgação relacionados. Não há, nos dois textos mencionados, sequer uma explicação que fundamente o resultado alardeado na manchete. A razão para isso é óbvia: não há explicação! O artigo original apenas menciona a origem genética das características aparentemente reptilianas e as considera meras convergências evolutivas – isto é, características que são semelhantes àquelas encontradas nos reptilianos, mas que não são herdadas deles e que foram desenvolvidas de maneira independente pelo ornitorrinco por causa de uma pressão de seleção parecida àquela encontrada pelos répteis.
Maldito seja o telefone-sem-fio na divulgação da ciência!
Um texto exemplar deve também ser mencionado: o post “Saiu o genoma do Ornitorrinco!”, de 7 de maio desse ano, do blog Brontossauros em meu jardim tem explicações simples e inteligentes.
Fontes e mais textos para comparar:
Genome analysis of the platypus reveals unique signatures of evolution : disponível em .pdf (em inglês). Artigo original, publicado na revista Nature por Wesley C. Warren e colaboradores.
Ornitorrinco é confirmado como ave, réptil e mamífero: notícia divulgada no portal Terra (recebido a partir da AFP – Agence France-Presse) mencionado no texto, ruim.
Genoma do ornitorrinco é mistura inusitada de réptil, ave e mamífero: Saiu no portal G1 da Globo, por Reinaldo José Lopes, mencionado no texto, não tão ruim.
Genoma explica ‘estranheza’ do ornitorrinco: Da Agência BBC, por Helen Briggs, manchete razoável, conteúdo muito superficial e pouco informativo (traduzido para o português).
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Muito bom o texto Laura (e nem é porque me mencionou). Diz umas coisas que estavam engasgadas em mim também!
Parece que o negócio de se dizer que o ornitorrinco é uma mistura de aves, répteis e mamíferos aconetceu lá fora também. Já vi botarem culpa no press release da matéria que dá margens a essa interpretação…
Eu nem tenho coragem de reler o meu texto e evr que coemti algum desses impropérios…
DNA descoberto em porta de madeira comprova: há semelhança entre as portas e alguns jornalistas. Não se sabe ainda se as portas herdaram o DNA da porta, se a porta herdou dos jornalistas ou se ambos tem um ancestral comum. Agora o mesmo grupo de cientistas investiga a semelhança com o DNA dos políticos.
Marco, obrigado pela informação. Ela esclarece muuuuuita coisa!
ô gente… e se entrar algum surdo na brincadeira do telefone sem fio? Como fica? A ancestralidade comum pode ser a mera falta de uma educação científica privilegiada tanto da porta, quanto dos jornalistas. É por isso que também é função da divulgação científica, ensinar conceitos. Por que tamanha indignação?
Concordo. Ensinemos conceitos às portas… Por um mundo com jornalistas melhores
Não é só pra me promover não, mas encaixa muito na história da brincadeira INFANTIL supra-citada:
http://rnam.blogspot.com/2008/05/um-dedo-para-o-fantstico.html
http://rnam.blogspot.com/2007/09/tequila-contra-cncer-um-brinde-ao_22.ht...
Abraço
hahaha, muito bom! caí de para-quedas aqui. espero voltar para ler os textos dos outros autores com calma. abraços.
Pois é, também caí de para-quedas aqui e estou impressionado com a qualidade dos textos, parabéns! Cursarei ciências biológicas ano que vem e estou fascinado com site, muito obrigado pelas grandes contruibuições!